Breeding Love
1 So It Begins
Notas iniciais
"E assim começa"
O que era apenas um chuvisco estava se transformando em um verdadeiro temporal, tão logo meus pés pararam em frente aos grandes portões de ferro da propriedade, e não consegui segurar uma careta. Como um daqueles lugares de filmes de terror, haviam duas grandes letras Q e M que feitas de metal retorcido, formavam um desenho estranho. E eu podia jurar que ouvi as engrenagens rangerem.
Tirei as mechas molhadas de cabelo que grudavam em meu rosto e atrapalhavam minha visão, para continuar a caminhar. Claro, a situação não pareceria tão dramática se eu não me assemelhasse à merda de um pardal molhado.
Não pude negar que estranhei ao apenas passar pelo portão livremente, um lugar tão rico devia ser ao menos melhor guardado, mas considerando a quantidade razoável de carros de luxo com janelas fechadas que passaram por mim, talvez algum tipo de festa estivesse acontecendo lá dentro.
Quando ele me disse o quanto era rico, eu não acreditei, muito menos calculei que seria tanto. Mas quem podia me culpar, mal processei as coisas agora, quanto mais há uma semana.
#1 Semana atrás
Os hormônios já estavam fazendo efeito em meu corpo e eu poderia cair no chão chorando agora, ao mesmo tempo que não conseguia parar de sorrir, então era melhor sentar, meus tênis não aguentariam se eu continuasse a andar de um lado para o outro como uma lunática.
Aquele banco em especial às margens da baía de Starling City me trazia um conforto estranho. Estando ali com ou sem ele, eu sentia sua presença, seus braços me passando conforto e aplacando com o calor característico dele o frio que o vento trazia da água. Sorri novamente quando coloquei a mão em meu abdome ainda plano.
― Você acha que o papai vai chorar igual a mamãe quando souber de você, bebê? Não, né? Só a mamãe mesmo que é uma idiota chorona. ― Meu riso saiu bobo ao lembrar do exato momento que vi os dois tracinhos no teste de gravidez na noite passada.
Ok, não havia sido o plano, não tínhamos condições financeiras para uma criança agora, mas era nosso filho, e eu não poderia estar mais feliz, assim como com certeza meu namorado também ficaria. Daríamos um jeito, e eu os amava tanto, os dois. Nossa pequena família estava sendo construída, não do jeito que eu planejei ou achei que um dia fosse acontecer, mas ainda assim, minha família.
― Princesa. ― Apenas sua voz atrás de mim me fez ampliar o sorriso, então uma florzinha surgiu diante dos meus olhos antes mesmo que eu o visse. O gesto da flor não foi exatamente uma surpresa, não havia uma vez que nos encontrássemos que ele não me trouxesse uma, nem que fosse arrancada do jardim do parque.
― Tommy! ― Ele se inclinou sobre o encosto do banco e seus olhos azuis brilhavam, e a cor típica se misturava ao amarelo alaranjado do pôr do sol, os deixando em um tom novo e diferente de verde. ― Onde você estava?
― Eu só atrasei quinze minutos, isso é na hora para mim. ― Era de fato verdade, ele sempre tão distraído e esquecido, que até pássaros em migração cortando o céu o fariam perder alguns minutos. E tinha aquele sorriso, que sempre quebrava todos meus argumentos, e quando ele apoiou as duas mãos na madeira e saltou com habilidade sobre o encosto do banco para sentar ao meu lado, apenas me aconcheguei nele.
― Talvez eu só estivesse ansiosa ― justifiquei. O eufemismo do século, eu estava à beira de um ataque de nervoso ao pensar em como dar a tão esperada notícia. ― Precisamos conversar, meu bem.
― Oh, não. ― Ele se afastou um pouco com a cara séria. ― O que eu fiz de errado? Eu juro que o cara poderia parecer comigo, mas não foi eu. Existem muitos morenos lindos nessa cidade ― brincou. ― Deve ter, não reparo. ― Deu de ombros, com uma risada.
― Não era nada assim, mas estou começando a desconfiar de algo agora ― entrei na brincadeira, estreitando meus olhos para ele. Poderíamos continuar naquilo, mas eu sabia que minha língua comprida não aguentaria mais muito tempo. ― Mas é sério, eu preciso te contar uma coisa.
― Eu também. ― Tommy também ficou sério de repente, não o sério encenado de ainda a pouco, sério sério, então segurou minhas mãos entre as suas. ― Mas você fala primeiro.
― Ah não, você sabe que minha curiosidade crônica e quase mórbida vai me matar antes que colesterol de todas as besteiras que eu como me mate. Fala você agora ― exigi.
― Você já tinha começado o assunto, amor, pode falar. Eu conto a minha novidade depois, aposto que vai mudar nossas vidas mais do que a sua novidade.
― Oh, eu duvido muito, meu bem. ― Beijei os nós dos seus dedos.
― Juntos no três? ― propôs.
― Juntos no três ― aceitei a sugestão, tomei uma respiração profunda e ele também, e após uma contagem rápida, falamos ao mesmo tempo. ― Estou grávida.
― Sou um bilionário. ― Como é?! Nem tive tempo de entender direito o que ele tinha dito, quando Tommy já começou a torrente de perguntas. ― Espera, o quê? Você disse está o quê? ― questionou soltando minhas mãos e tomando o máximo de distância permitida pelo banco.
― Olha, eu sei que a gente só namora há uns três meses, e pode não ser o momento ideal, mas eu nunca senti isso que temos por mais ninguém, Tommy ― comecei a explicar, eu sentia que precisava. Ele devia estar atordoado, eu mesma precisei de umas boas horas para processar a notícia que mudaria minha vida para sempre. ― Eu te amo e já amo demais nosso bebê, vamos construir nossa família juntos, e...
― Merda, você também? ― Franzi o cenho para o uso do também, e quando abri a boca para perguntar, ele me interrompeu. ― Como descobriu?
― Em um teste de farmácia, noite passada.
― Não se faz de desentendida, Felicity, eu quero saber como soube da minha fortuna ― elevou a voz, e ficou de pé na minha frente, falhando em deixar as mãos paradas. Quanto mais nervoso ele ficava, mais agitado era seu andar.
― Fortuna? Do que está falando, Tommy? Essa sua reação está me deixando preocupada. ― Sorri sem jeito, olhando ao redor, a cena que ele fazia já chamava a atenção das pessoas que passavam.
― Desculpe, eu não estou calmo o bastante para seu golpe do baú? ― retrucou cínico. ― Perdão, golpe da barriga?
― E se eu te desse um golpe tomaria o que de você? Seu apartamento menor que o meu? Fala sério, amor, você não está fazendo sentido.
― Não finja demência, Felicity, você descobriu que sou um dos caras mais ricos da cidade e logo inventou essa história de gravidez. Você não foi a primeira a tentar, querida, e ainda bem que não gastei mais do que três meses com você. ― Senti meu coração apertar e meus olhos arderem. Tommy parecia com raiva demais para estar fazendo mais uma de suas brincadeiras que eu nunca entendia.
― Você está me magoando de verdade, Tommy, para.
― E como você acha que eu me sinto, Felicity? ― Parte da raiva quebrou de seu olhar, me deixando ver como ele parecia magoado, os olhos brilhando de lágrimas. ― A mulher que eu amo e com quem planejava construir uma vida apenas fingia tudo para conseguir sua parcela do dinheiro Queen-Merlyn.
― Eu não sei de dinheiro nenhum, cara. ― Enxuguei com uma força desnecessária as lágrimas que teimaram em cair, tentando colocar todas aquelas informações em ordem. ― E como assim você mentiu para mim sobre ser pobre?
― Pode parar de fingir, garota. Cara, meu pai vai me esfolar se isso cai na mídia, ele me mandou ter tato cuidado. ― Tommy apertou as pálpebras. ― Quer saber, quanto você quer para não sair contando sobre esse bebê de mentira pro primeiro site de fofoca? Um milhão, tá bom para você?
― Quer saber, você está de cabeça quente, falando um monte de coisa que nem estou conseguindo acompanhar. ― Coloquei minha bolsa no ombro, ficando de pé. Eu precisava sair dali, todo o estresse estava fazendo minha cabeça doer e aquilo não poderia ser bom para o bebê.
― Dois milhões? Mais esperta do que pareceu. ― Quando ele puxou um talão de cheques da carteira, lhe dei as costas, antes que lhe desse um tapa. ― Felicity, volta aqui, vamos negociar.
― Não, eu não vou negociar nada em cima do meu filho com essa pessoa completamente estranha que está na minha frente, porque, honestamente, você não é o cara por quem eu me apaixonei. ― Levei minha mão à barriga, em um gesto puramente protetor. ― E não chega perto da gente antes de ter uma excelente justificativa para esse surto de agora, Thomas.
Ele não me seguiu até meu apartamento, o que me deu tempo de fazer uma mala rápida e correr até o ônibus que saiu ainda naquela noite para Las Vegas. Uns dias com minha mãe refrescariam minha cabeça e me fariam pensar melhor sobre aquilo tudo.
#Presente
Meu vestido florido estava colado em meu corpo por causa de toda aquela água e eu tremia muito de frio, já que não calculei bem a diferença de temperatura de Vegas para Starling City nessa época. Eu só queria resolver aquilo de uma vez e voltar para onde nunca deveria ter saído.
Não precisou uma pesquisa muito aprofundada logo que cheguei na casa da minha mãe para descobrir do que se tratava o império Queen-Merlyn, me fazendo me sentir uma burra por não ter feito aquilo antes. Mas eu estava tão ocupada com a coisa da cidade nova, namorado novo, que pesquisar sobre as famílias ricas de Starling não era nem de perto uma prioridade, mesmo que trabalhar naquela empresa tenha sido um dos motivos pelos quais me mudei para cá.
Tommy era filho de Malcom Merlyn, casado com Moira Queen. Pelo que entendi, as famílias eram amigas, até a mãe de Tommy e o primeiro marido de Moira morrerem. Então tinha Thea, filha de ambos e Oliver, filho do primeiro casamento Queen.
Juntos, eles pareciam algum tipo de família de reality show, muito bonitos, ricos e influentes, além de muito escandalosos, com sorrisos falsos para a câmera. Menos o de Tommy, que parecia bem de verdade para mim, mas eu não poderia achar que ainda o conhecia, não depois de descobrir que tudo que ele me contou era mentira, me fazendo de algum jogo doentio ou aposta idiota. Meu filho não faria parte daquilo, não mesmo.
Mas agora eu tinha um plano.
Viajei de volta para Starling apenas para contar que havia perdido o bebê e acabar de vez com aquele relacionamento. Meu coração sangrava por tirar a oportunidade do meu filho de ter um pai, de preocupação sobre cuidar dele sozinha e em parte pelo amor que sentia por Tommy. Era grande demais para morrer tão rápido, mas o tempo iria curar aquela ferida, sempre curava.
Ficaríamos bem. Eu e minha sementinha.
Não encontrei campainha alguma, então apenas bati meu punho fechado na porta um par de vezes. Até que essa casa estava bem silenciosa para quem estava dando uma festa, ou fosse apenas uma daquelas festas chatas de gente chique, com uma mini orquestra silenciosa e garçons circulando com champanhe. Só depois que bati mais duas vezes, foi que a porta foi aberta.
O reconheci na hora, o irmão mais velho de Tommy, Oliver. Usava terno e gravata preta, tinha a cara fechada e era mais alto do que as fotos da internet fizeram parecer.
― Tommy... Thomas está? ― Sua expressão ficou mais taciturna, se possível, então sem dizer nenhuma palavra, a porta foi batida na minha cara. Delicadinho ele, não?!
Eu teria dado meia volta, mas o assunto ali era inadiável, já havia até cancelado o aluguel do apartamento que morei por aqueles meses, iria embora no último trem para Central City. Bati novamente, e mais uma vez Oliver abriu a porta.
― Vá embora ― ordenou sem nem tentar ser educado.
― Quem é, Ollie? ― O homem loiro apenas me deu as costas, dando espaço pra a garota magrinha de grandes olhos verdes e vestido preto caro aparecer em meu campo de visão. ― Oi, posso te ajudar?
― Espero que sim. Thea, certo?
― Sim. ― Um sorriso pequeno e educado formou-se em seu rosto delicado de boneca.
― Meu nome é Felicity, posso falar com seu irmão? ― Ela torceu o lábio, como se me dissesse que não era uma boa hora, olhando na direção para onde Oliver havia saído.
― Desculpa, mas acho que Ollie já mostrou que não está para conversa.
― Não esse irmão, seu outro irmão ― elucidei. ― Tommy está? ― Thea soltou um suspiro pesado e seus ombros caíram. Ganharia mais uma negativa ali? ― É importante, prometo que não demoro.
― Como você disse que era seu nome mesmo?
― Felicity. Felicity Smoak. ― Não era surpresa que eles não soubessem da minha existência, o mesmo trabalho que Tommy teve em esconder a identidade de mim, deve ter tido para esconder a minha de sua família.
― Deus, você é ela ― murmurou baixinho levando a m]ao à boca, como se falasse para si mesma, compreensão inundando seu olhar, então algo parecido com pesar. ― Ok, é melhor você entrar, vai acabar adoecendo se continuar nesse frio. ― Abriu mais a porta, dando um passo para o lado, me convidando a entrar.
― Não precisa, só preciso falar com ele, e...
― Por favor, entra ― insistiu. ― Eu sei quem você é.
― Sabe? ― Parei de resistir e adentrei o hall gigante.
― Eu sinto muito, Felicity. ― Franzi o cenho para a expressão de inegável e profunda tristeza que tomou seu rosto, seus olhos e nariz ficando vermelhos.
Olhei ao redor pela primeira vez desde que a porta foi aberta. Tudo parecia ser muito caro, desde a mesinha de mogno com um arranjo enorme em cima, até o lustre gigante e escadas imponentes. Mas o que se destacou na hora foi a enorme foto de Tommy, lindo e sorridente, ao lado de uma coroa de flores, com um livro de assinaturas em sua base. Aquilo não era uma festa, era um funeral. O funeral de Tommy.
― Não. ― Levei a mão a boca, tremendo mais do que quando estava no frio, um nó se formando em minha garganta. Meu mundo começou a girar, minha cabeça sendo atingida por uma dor muito forte, e eu sentia que desmaiaria a qualquer minuto.
― Você está passando mal? ― Thea segurou meus ombros.
― Ele não pode estar... ― Minha visão que já estava ficando embaçada pelas lágrimas, escureceu de vez quando não sustentei mais minhas pernas e desmaiei.
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