Notas iniciais
Olá, pessoas! Tenho nem palavras para todo o amor e confiança que vocês depositaram em mim e BL desde o início. Espero corresponder ao carinho. Muito, muito obrigada a todos os reviews e favoritações. Estou muito animada em compartilhar mais com vocês. Então, vamos ao capítulo 2. Boa leitura!! Bjs*

"Parente mais próximo"

Abri os olhos em um rompante logo que retomei a consciência. Péssima escolha, se eu já estava com dor de cabeça na escuridão, agora toda aquela claridade cegante fazia parecer que uma inteira metalúrgica estivesse a pleno vapor dentro do meu crânio.

― Merda! ― praguejei, e foi quando tentei levar a mão à testa em um movimento automático, foi que senti a dor aguda no braço.

― Eu não mexeria nisso ― a profunda voz grave chamou minha atenção para a parede que ficava no extremo oposto do quarto, me deparando com o irmão de Tommy.

Oliver mantinha as mãos atrás de si e as costas apoiadas na parede, parecendo querer manter a maior distância possível que conseguisse de mim dentro daquele quarto branco de hospital. Se aquele homem tivesse algum superpoder pulverizador nos olhos, eu já estaria só poeira agora. Seu olhar de desprezo de antes agora dividia espaço com a crítica evidente.

Espera… Antes.

Chuva. Funeral. Tommy. Não, não, não.

― Eu vou ligar para os nossos pais e avisar aos médicos que ela acordou. Fica de olho. ― Oliver estava falando ao sair, mas não era comigo. Até quando ele me mandou não mexer no soro, não parecia falar comigo.

― Hey, você não pode se estressar. Respira fundo.

Uma mão pequena e quente envolveu a minha, foi quando notei a terceira pessoa do quarto, Thea Merlyn. Os aparelhos ligados a mim apitavam como loucos entregando minha taquicardia para quem quisesse ouvir.

― Tommy, ele... Deus, ele não pode ter ido. ― Senti meus olhos arderem e meu coração ser preenchido pela tristeza que me atropelou. Morto. A palavra era morto, mas eu não tinha coragem de falar isso alto. Talvez nunca teria.

― É, eu sei. ― Suspirou triste, segurando mais forte minha mão. ― Mas você está aqui e grávida de um bebê do meu irmão! Eu nunca acreditei em milagres, até noite passada.

Thea parecia emocionada, seus grandes olhos verdes parecendo maiores pelas lágrimas não derramadas, enquanto eu parecia prestes a ter outra síncope. Como diabos ela sabia? Quer dizer que todos ali já sabiam do meu bebê? Levei a mão que ela não segurava ao meu ventre. Precisava a todo custo proteger minha sementinha.

― Eu não estou grávida. ― Ainda tentei negar, mesmo sabendo ser em vão. Estávamos em um hospital, já deviam ter uma dezena de exames denunciando minha mentira.

― Relaxe, só queremos ajudar, nada de ruim vai acontecer com vocês dois, eu não vou deixar ― assegurou.

Eu não conhecia Thea, mas, de algum modo, acreditava nela. Tommy já me falara de sua irmã maluquinha de coração de ouro, e todo esse tempo, ela não tinha sido nada além de gentil e empática. Havia me recebido em sua casa, tentado me acalmar, e mesmo que não soltasse minha mão, determinou uma distância entre nós duas que me mantivesse confortável.

Mas do jeito que não queria mais Tommy na vida do meu filho, não queria nenhum membro daquela família. Era muita coisa para lidar, eu sentia um aperto enorme em meu peito, a vontade de fechar os olhos e tudo estar milagrosamente resolvido.

― Eu preciso sair daqui. ― Sentar no colchão me deu outra onda de tontura, mas fechei os olhos com força, resistindo à náusea que se seguiu, guiando meus dedos cegamente para onde a agulha perfurava minha pele.

― Felicity, não faz isso ― falou complacente. ― Você estava muito desidratada.

― Tenho bastante água na minha casa, obrigada. ― Mentira, nem casa eu tinha!

― Mas os médicos não te liberaram, e…

― Problema deles, não fui eu que pedi para ser internada, eu saio quando quiser.

― Você corre risco de perder o bebê! ― exclamou exasperada, finalmente me fazendo parar a fuga.

― Quê? ― Minha voz saiu fraca como um fio de linha, prestes a romper.

― A obstetra que te avaliou disse que sua gravidez é de extremo risco, algo sobre colocação da placenta, não entendi bem. Disse também que aquele desmaio pode não ser um evento único por causa da sua pressão alta, que nem viajar longas distâncias ou ficar sozinha você pode.

― Você está de brincadeira com a minha cara.

― Eu gostaria de estar, Felicity.

― Droga, droga, droga! ― Cobri os olhos com as mãos, me afundando no colchão ao deitar de volta.

― Mas não se preocupe, nós vamos cuidar de você, seria o que Tommy queria.

Aquela frase despertou algo em mim. Agora a pouco eu tinha ido contra o conselho de qualquer psicólogo e guardado a partida dele em caixinha trancada no fundo do meu cérebro para não lidar com isso, então agora me permiti sentir raiva.

― Não, Thea, Tommy queria me ver pelas costas! ― extravasei. ― Ele me chamou de mentirosa e sequer acreditou que eu estava grávida!

― Ele mudou de opinião, acredite. ― Havia mais história ali, escondida atrás de suas palavras, mas não estava com forças para ir fundo nisso agora.

― E seu outro irmão mudou de opinião? Ou seus pais? Porque tenho certeza que a palavra "golpista" deve ter surgido algumas vezes enquanto eu estava desacordada. ― Seu silêncio e olhar constrangido foi a resposta positiva para minha pergunta. ― Me deixa ir pra casa, por favor ― implorei quase chorando.

― Tudo bem ― concordou a contragosto. ― Mas você vai falar com os médicos antes, eu não vou te deixar sair daqui até eles te liberarem com mínima segurança. ― Assenti concordando. Era o certo e o mais seguro a se fazer para a saúde do meu bebê. Eu podia ser teimosa, mas não era imprudente, não com isso. ― Ótimo.

A conversa com os médicos foi meu pior pesadelo.

O que Thea falou era verdade e nem era tudo. Eu poderia ter um aborto espontâneo a qualquer momento, e segundo a médica, foi um milagre não ter acontecido nas viagens que fiz na última semana e todo estresse a que fui submetida.

E por mais que a médica me recomendasse evitar emoções fortes, cada uma de suas frases aumentava meu desespero e já sentia um ataque de pânico chegando. Eu os tinha às vezes, quando minha ansiedade extravasava. Apertei os lençóis entre os dedos.

Agora não, Felicity, respire fundo.

― Eu vou te deixar em observação até amanhã, e quando sair daqui, você precisa de repouso absoluto, sem viagens ou trabalho. E quero te ver em uma semana, os cuidados até o fim do primeiro trimestre são fundamentais para conseguirmos levar essa gestação até o fim, ok? ― Balancei a cabeça afirmativamente, não que eu tivesse alguma solução no horizonte.

Não tinha um emprego, já que o que o meu, por mais mediano que fosse, não me aceitaria de volta, e nem poderia ter, pelo jeito. Não tinha uma casa pois havia aberto mão do meu aluguel logo que voltei de Vegas, não podia sair de Starling e minha mãe não poderia vir para cá.

Quando você acha que a situação não piorar…

― Então, como você está? Esses são meus pais, Moira e Malcom ― Thea estava de volta, com seus pais a seguindo. Acenei de leve com a cabeça. Oliver, o irmão, havia sumido, com certeza usado a oportunidade para ir embora e nunca mais olhar na minha cara. O homem me detestava e nem me conhecia.

― Estou bem, terei alta amanhã. Obrigada por ajudarem, mas quando sair, já vou direto para minha casa.

― Você não pode viajar, senhorita Smoak ― Moira falou séria. Que ótimo, esse hospital compartilha informações e orientações pessoais dos pacientes com qualquer um.

― Vou ficar em Starling, tenho um lugar.

― Não, você não tem. O contrato de aluguel em seu nome foi rescindido ontem, assim como não tem contrato empregatício em nenhum lugar. Sua mãe e única parente viva mora em Las Vegas e ela trabalha sessenta horas por semana, não pode vir.

Malcom me fez olhá-lo com um certo horror. Toda minha vida fora investigada em algumas horas por aquela família de malucos. E nem ligo se era normal ou costumeiro para eles, era insano. Não a toa Tommy fugira disso.

― Pai, pelo amor de Deus, limites! ― Thea tomou sua frente, chegando ao lado do colchão. ― Não liga para isso, Felicity, podemos cuidar de você e do bebê.

― De fato, senhorita Smoak, perdoe o mau jeito. ― O homem se desculpou sem ao menos parecer sentir muito. ― Temos uma casa com quantos auxiliares você necessitar, incluindo motoristas para te levar às suas consultas, podemos contratar enfermeiros, nutricionistas, o que foi preciso.

― Por que estão fazendo isso? ― Cobri o rosto com as mãos.

A pressão que eles exerciam para me fazer aceitar sua proposta era muito grande, chegava a pesar os ombros. E pensar que pouco mais de uma semana atrás eu estava tão feliz com meu príncipe, descobrindo e construindo nossa vidinha simples e perfeita.

― Tudo bem, me deixem conversar com ela ― Moira pediu e eu quase implorei com o olhar que Thea não me deixasse ali sozinha com a mulher.

― Mas, mãe...

― Theodora, nos dê licença, por favor.

― Vamos, filha. ― Malcom a levou para fora, e só quando estávamos a sós, a matriarca começou a falar.

― Felicity, preciso que entenda que não vamos fazer mal algum a você e ao seu filho, acredite em mim, isso é maravilhoso, quase um milagre. Descobrir que nosso Tommy terá um filho, mesmo que esse bebê nunca venha a conhecer a pessoa incrível que ele era.

― Eu não preciso da ajuda de vocês.

― Sim, você precisa ― falou condescendente. ― Olha, eu sei como se sente. Acha que precisa proteger esse bebê a todo custo, eu sei como é. Tive Oliver e Thea crescendo em meu ventre, e cuido de Tommy desde criança, eu conheço o sentimento. Mas aceitar nossa ajuda é protegê-lo.

― Eu não quero...

― Primeira regra de maternidade: nosso querer é colocado de lado a partir do momento que nos descobrimos grávidas. Tudo é para eles, para o melhor deles. ― Um sorriso pequeno e quase triste preencheu os lábios dela. ― Você não nos conhece, não conhecemos você, mas temos em comum o amor por esse ser que não tem mais do que o tamanho de um feijão. É seu filho, mas é meu neto também.

Moira me olhava esperando que eu dissesse algo, mas todas as palavras estavam presas em minha garganta, tamanho a situação sem saída que eu havia me metido. Tudo porque sempre acreditei em resolver as coisas face a face e tinha voltado de Vegas para falar com Tommy pessoalmente. Foi só mais um dos meus erros.

― Bom, você tem até amanhã pra pensar. Sei que vai tomar a decisão certa. Vamos deixar você descansar.

Eu não dormi aquela noite, tinha muito a ponderar.

Para qualquer outra pessoa, ficar com a família de Tommy seria a escolha lógica e mais acertada a tomar. Eles tinham condições de apoiar a minha gestação até que eu saísse do período mais delicado.

Só que escolher ficar com eles, teria consequências, eu sabia disso. Mamãe trabalhou minha vida toda em um hotel de luxo, o tipo dos Queen-Merlyn era comum por lá. Costumavam se achar donos do mundo, se achariam donos de mim e do meu neném que nem havia nascido ainda. Não teria força alguma para lutar contra qualquer um deles se precisasse.

― Bom dia, cunhada! ― Thea irrompeu no quarto, ainda bem cedo no dia que eu teria alta. Ela usava roupas de festa e maquiagem pesada.

Ia pedir para não me chamar assim. Nada que eu tive com Tommy teve grande importância para ele, não era o certo eu sequer cogitar me considerar parte daquela família. Mas resolvi não a contradizer, pelo pouco que sabia dela, não adiantaria muito.

― Eu achei e comprei a coisa mais fofa do mundo: macacão de ursinho! ― falou empolgada.

Abriu uma sacola de presente que trazia em mãos, tirando de dentro um mini macacão branco de capuz, realmente muito lindo, que tinha como único detalhe três finas tiras no peito, uma preta, uma vermelha e uma verde. Eu poderia nem ser entendida de moda e coisa tal, mas aquilo era claramente de grife, valia milhares de dólares.

― Isso é Gucci?

― Tem um capuz com orelhinhas! ― Nem ligou pro meu espanto, abraçando a pequena peça junto ao rosto. Rolei olhos, mas não consegui não dar um pequeno sorriso. Seu jeito de menina rica, que poderia a fazer muito esnobe, a tornava adorável. ― E então, como passou a noite?

― Acordada ― murmurei sincera.

― Quer que eu te consiga algo? Um chá, sei lá? ― Se aproximou, sentando ao meu lado no colchão. ― Eu trabalho às noites, não sei o que as pessoas tomam contra insônia, nunca tive isso.

― Não precisa de nada, obrigada. Só quero sair logo daqui.

― Ah, eu estive enchendo as enfermeiras antes de vir te ver, a médica passa para te dar alta daqui a pouco. Já decidiu o que quer fazer? Vai ficar com a gente? ― Baixou o tom de voz, o deixando mais suave, e até conseguir perceber um certo receio por qual seria minha resposta.

― O que eu quero é bem diferente do que tenho que fazer, Thea.

― Quem sabe? Posso tornar as duas coisas um só, pode me chamar de sua fada madrinha.

― Não, você não pode.

― Ok, é por causa dos meus pais? Eu sei que às vezes eles parecem meio "demais", mas dá pra lidar. Vamos para casa comigo, eu te protejo, é uma promessa.

― E se você não conseguir?

― Você não me conhece mesmo. Tenho todo mundo ali na palma da minha mão desde sempre. ― Sorriu com falsa arrogância, levantando para andar pelo quarto. ― Pode ser temporário, até você ficar melhor ― argumentou. ― Em nome do meu futuro sobrinho ou sobrinha? ― implorou batendo pestanas com as mãos em prece.

― Só algumas semanas.

― Isso! ― Lançou o punho fechado no ar, então correu para me abraçar. ― O que eu te disse, todos na palma da minha mão!

― Tá bom, Thea. Tá bom. ― Segurei seus ombros para lhe afastar um pouco de seu aperto. ― Aliás, onde estão seus pais, achei estariam aqui me enchendo.

― Ah, não. Minha mãe é uma ótima estrategista. Ela falou o que queria pra você ontem e hoje me mandou aqui, sabia que eu seria mais fácil de conseguir o xeque mate.

Arregalei meus olhos diante de sua afirmativa dita de modo tão calmo. Era com minha vida que estavam jogando ali, porra!

― Por favor, não desiste ― pediu, quando percebeu que poderia ter falado demais.

Eu não ia desistir. Em nome do meu filho, eu aguentaria o que fosse preciso. Mas ao fim dessas semanas, quando a médica me liberasse, eu estaria longe de Starling City, e longe de tudo que me lembrava o Tommy.

Notas finais
Então não tem mais como mudar, Felicity está de mudança para mansão, para total alegria de Oliver (percebam a ironia na sentença). Para quem está com saudades do nosso loiro, ele aparece mais do próximo capítulo pra frente. Muito obrigada por acompanharem e nos vemos pelos reviews. Bjs*