Breeding Love
10 Muse of Fire
Notas iniciais
"Musa de Fogo"
― Pode entrar! ― gritei para a porta, depois de ouvir as duas batidas nela, que mais pareciam chutes.
― Não, não posso. Estou com as mãos ocupadas. ― Franzi o cenho para a voz de Oliver do outro lado.
― Hey ― cumprimentei depois de abrir a porta e encontrá-lo com uma bandeja em mãos.
― Oi ― respondeu parado no lugar, ainda no corredor.
― Você não quer entrar ou sei lá, explicar o que é isso? ― Indiquei os dois pratos com o olhar.
― Ah sim, pensei em almoçarmos juntos já que você ainda está de castigo nesse quarto.
― Nem me fala! ― Dei um passo para o lado para que ele entrasse. ― Por que tem que ser tão difícil?
― Ainda com aquelas dores de cabeça e na barriga? E seu ombro, como está? ― questionou preocupado, jogando a torrente de perguntas e depositando a bandeja em cima da cama.
― Está melhor. ― Dei de ombros, sentando na poltrona. ― Mas sei lá, às vezes eu só queria que passasse ou jogar tudo para alto, comer o que quisesse, sair daqui pra andar de bicicleta, trabalhar, eu nunca fiquei sem um emprego por tanto tempo! E então me sinto culpada por ser tão egoísta! ― Oliver agachou à minha frente, segurando minhas mãos.
― É agora que você começa a cantar Welcome to my life? ― questionou com um sorriso pequeno.
― Oliver! ― briguei com ele lhe dando um tapinha no ombro, mas não consegui disfarçar o meu próprio riso que escapou, ainda chocada por ele ter feito referência à minha música preferida do Simple Plan. Ele saber dela além de surpreendente, era esquisito.
― Desculpa, era uma brincadeira. Se não notou antes, sou péssimo com brincadeiras, devia apenas parar de tentar.
― Ou praticar um pouco mais. Com outra pessoa, no caso. ― Ele riu sem jeito, para então encontrar meu olhar com o seu, ficando sério.
― Eu não sou ninguém pra dizer como deve se sentir, Felicity, mas você precisa saber que está tudo bem. Tem sido muito difícil sim, nem imagino o que eu faria se do nada eu fosse obrigado a ficar trancado em um quarto o dia inteiro, e tudo bem estar cansada, isso não te faz uma mãe ruim ou que ama menos o filho, você só é humana. Nada mais de culpa, ok? ― Beijou minha testa, ficando em pé e me estendendo a mão. ― Agora vamos fingir que esse assado de vegetais é uma deliciosa lasanha e que essa fruta é um mousse de chocolate, e o suco verde um milk shake extra grande, e comer tudo.
― Promete que logo que a médica me liberar a gente vai naquela sorveteria da outra vez?
― Prometo e você sabe quão sério eu sou sobre minhas promessas.
Sentamos na cama e terminamos tudo até bem rápido, entrando na brincadeira de trocar o que estávamos comendo pelo que queríamos comer de verdade. Oliver tinha uma dieta bem regrada, o que não significava que ele não sentisse vontade de sair dela vez ou outra, como eu.
― Viu, não tão mal. ― Arrumou tudo de volta na bandeja. ― Amanhã eu volto e faremos tudo de novo.
― Você já vai? ― Sem querer, acabei soando carente e até um pouco mimada, coisa que nunca fui na vida.
As pessoas ali daquela casa estavam até se esforçando em passar algum tempo comigo, mas a solidão ainda era enorme. E eu não poderia exigir que ninguém parasse sua vida apenas para ficar preso comigo.
Mas de todos, a maior surpresa estava sendo Oliver. Jamais imaginei que o homem carrancudo que bateu a porta da minha cara na primeira vez que nos vimos, agora era meu carinhoso acompanhante, que fazia mais falta nos dias que eu não conseguia vê-lo. Eu quase podia entender como todas aquelas mulheres caíam por seu charme.
― Quer saber, tive uma ideia melhor. Por que eu não ligo para escritório e aviso que só irei amanhã, e a gente faz uma maratona de série ou algum filme? Eu até deixo você escolher.
― Imagina, Oliver, não posso te pedir pra fazer isso.
― Você não pediu, eu que quero uma folga, minha secretária está para me enlouquecer sobre um problema de cyber segurança, ou sei lá. Assunto encerrado, está decidido, eu fico.
― Mas…
― Nananão ― me cortou. ― Vou deixar essa bandeja lá em baixo e já volto.
― Alguém já te disse como é autoritário e teimoso?
― Você, algumas vezes ― retrucou sem me dar crédito algum. ― Já volto.
Em pouco tempo ele já estava de volta, pegando controle remoto e sentando na ponta do colchão, ligando a TV e começando a procurar algo pra ver. Seu terno estava dobrado em minha poltrona junto com a gravata, e ele tinha enrolado as mangas da camisa social até os cotovelos.
― Ei, você me disse que ia deixar escolher! ― reclamei, encostada na cabeceira da cama.
― Foi pra te convencer, mas não vou ver um filme qualquer da Nancy Meyers só porque você quer.
― Oliver, me dá o controle, eu estou grávida! ― apelei. Ele me olhou por cima do ombro com olhos estreitados, então negou com a cabeça e riu.
― Não caio mais nesse apelo. ― Fiz uma careta contrariada, quando ele apenas voltou a procurar algo para vermos.
― Eu não quero acabar tendo que assistir O Poderoso Chefão, O Lobo de Wall Street ou qualquer coisa do tipo!
― Primeiro, são filmes muito bons. ― Se virou para mim, uma perna dobrada sobre o colchão. ― Segundo, é só esse tipo de filme que você acha que eu gosto?
― E não é?
― Para o seu conhecimento, eu sou o cara dos filmes nerds, desde os heróis dos quadrinhos, até Star Wars, passando por sagas como Senhor dos Anéis, Harry Potter e Jogos Vorazes. Divergente não, esse foi ruim.
― Sério? Você não é velho demais para esses filmes? ― Ele abriu a boca, encenando choque.
― Quantos anos acha que eu tenho?
― Uns 35, 36? ― Chutei por cima. Não que ele parecesse ter tudo isso, mas já era tão sério e comprometido com o trabalho, ocupando uma posição tão alta. Quisera eu daqui a 10 anos estar tão bem profissionalmente.
― Tenho 31. E não faça essa cara de surpresa, eu e Tommy tínhamos quase a mesma idade e você deveria saber.
― Que se dane, Oliver, me dá o controle!
― Vem pegar! ― desafiou, erguendo o braço para dificultar meu trabalho.
― Tá bom!
Quando ele achou que eu desistiria, saltei na direção do controle e, me aproveitando de sua surpresa, o peguei para mim.
― Não tão fácil, Felicity.
Oliver me segurou pela cintura e me puxou para ele, nós dois acabamos rolando pela cama, que graças a Deus era enorme, e ele acabou por cima de mim, sustentando seu peso com o cotovelo e com o maldito aparelho em mãos.
Mas ao contrário do que seria nossas brigas no passado, agora terminamos entre gargalhadas. Foi a primeira vez que o vi rir tão abertamente e leve, parecendo livre de toda a tensão que costumava carregar sobre seus ombros.
É uma confissão eu tinha a fazer: o homem era bonito visto a não mais do que cinco centímetros. Não que eu tivesse descoberto alguma novidade aqui, todas as namoradas dele estavam vivas para atestar, mas pela primeira vez eu consegui ver.
Parei de rir ao me dar conta da descoberta, e Oliver também parou, intrigado com minha reação, suas sobrancelhas franziram e seus olhos azuis primeiro perguntaram aos meus o que estava acontecendo, então desceram encarando por todo meu rosto.
― Então... ― Engoli seco, precisava retomar algum assunto, já estávamos tempo demais congelados naquela posição pra lá de comprometedora. ― DC ou Marvel?
― Hm... ― murmurou, girando para o lado, então sentando na cama, e eu fiz o mesmo. ― A resposta é bem óbvia. DC.
― Marvel ― respondemos juntos e nos olhamos esquisito. ― Na verdade, o que eu acho mesmo é… DC para séries e Marvel para filmes.
― DC para séries e Marvel para filmes. ― Arregalei os olhos para a precisão de nossa opinião, como se fosse uma resposta ensaiada.
― Toca aqui. A primeira coisa que concordamos. ― Estendi meu punho fechado para ele, que logo tocou o seu. ― Mas usando meu direito de grávida em repouso, com desejos e necessidades especiais, eu reivindico o controle remoto. ― Estendi minha palma para ele. ― Me dá, Oliver, ou eu vou chamar a Thea para te colocar na linha.
― Chantagista.
― Eu ouvi meu nome sendo… ― Thea entrou no quarto ainda de pijamas, com cara de que tinha acabado de acordar. ― Eu ouvi um barulho, achei que era briga, mas é uma festa. Não iam me chamar, par de tratantes?!
― Vem, irmãzinha, preciso de apoio aqui pra escolher o que vamos ver.
― Então escolheu a pessoa errada, meu querido. ― Saltitou até também estar na cama. ― Afasta pra lá, eu escolho. ― Pegou o controle da mão dele.
Como toda batalha contra Thea já era perdida, desisti de relutar e nos ajustamos na cama, os três com as costas contra a cabeceira, Oliver entre nós duas. Quase morri de rir da cara dele quando Thea, sempre decidida, não demorou nem dois minutos para escolher Um Senhor Estagiário para assistirmos.
― Nancy Meyers ― cochichei o nome da diretora do filme para ele, já que tinha sido a primeira coisa que tinha se oposto.
― Cala a boca ― retrucou com seu beicinho contrariado.
― Ei, os dois, silêncio! Vai começar ― falou se ajustando confortável ao braço do irmão.
Acontece que Thea era o tipo de pessoa que escolhe o que todo mundo vai assistir e dorme na primeira meia hora do filme. Quando percebi, cutuquei Oliver nas costelas e ele apenas colocou o indicador na frente dos lábios para que eu fizesse silêncio, ajustando a irmã aos travesseiros e a cobrindo com uma manta.
― Ela trabalha demais naquela boate, às vezes acho que deveria largar a empresa e ir ajudá-la — comentou aos sussurros. ― Tommy era quem auxiliava com gerência da Verdant, mas…
― Você é um bom irmão, sabia? ― Eu mesma fiquei surpresa quando o elogio saiu da minha boca, a mesma que por mais de uma vez o acusou de ser um péssimo irmão.
― É fácil ser um bom irmão para Thea e Tommy. ― Deu de ombros. ― Difícil é ser meu irmão, isso tenho que admitir.
― Humildade agora, pra cima de mim, Oliver?
― Tem razão, todos são sortudos que ter minha presença por companhia. ― Piscou brincalhão, e eu rolei olhos, mas não consegui não rir.
O filme já estava quase no fim, quando um celular começou a tocar. Conferi o meu com o olhar, estava na cabeceira ao meu lado, mas ele se mantinha com a tela escura, o que ao me fazia saber que só podia ser o dele.
― Não vai atender? ― perguntei quando Oliver sacou o aparelho do bolso, conferiu por dois segundos e rejeitou a ligação.
― Não é nada importante. ― Só que parecia ser importante, pois logo o telefone começou a tocar novamente. ― Que droga!
― Atende, vai. Pode ser algo urgente na empresa, você não deveria ter faltado.
― Ou poderia ser só mais um detalhe bobo do maldito casamento. ― Só então entendi que se tratava de Laurel no telefone. ― Sério que eu preciso mesmo opinar sobre a cor da borda dos guardanapos?
― Oliver, talvez ela só queira que você participe das decisões, é o seu grande dia também.
Nunca me imaginei sendo a pessoa dando conselhos para que Oliver fosse mais gentil com Laurel. Tudo bem que ela vinha o enlouquecendo com mais intensidade com a aproximação do casamento, mas não era certo toda aquela indiferença que estava recebendo em troca.
― Você que pensa, é o dia da Laurel, todo dela. O dia que ela vai ser o centro das atenções, todos vão lhe dar presentes e lhe dizer como está linda e a festa magnífica. Eu sou um acessório tão importante como a droga dos guardanapos.
Senti um pouco de pena dele também, não posso negar. O casamento conveniente que ele se orgulhava antes, agora parecia o incomodar de verdade, e alguém precisava dizer como prosseguir com isso estava fazendo mal aos dois. Mas não eu.
― Olha, se você parar pra pensar, como lidaríamos com o jantar sem guardanapos? E para enxugar nossas lágrimas com tamanha emoção! ― brinquei tentando aliviar o clima, e ele riu, apertando de leve a ponta do meu nariz.
― Vai rindo, vai.
― Tá, desculpa. Mas é que você não parece muito animado para o evento do ano de Starling, e deveria.
― Quem além da noiva e de algumas madrinhas se anima pra isso?
― É uma grande celebração. ― Desencostei da cabeceira e me virei para ele para explicar melhor meu ponto. ― Tem comida, tem música, tem gente bonita e bem arrumada. Os amigos e família de vocês, as pessoas que fizeram parte da história do casal, todo mundo junto para comemorar o amor.
― Você pensa em se casar, Felicity? ― Meu sorriso morreu, e suspirei fundo.
― Não sei. Não mais, eu acho.
― Mas pensou em fazer isso com meu irmão.
― A gente falava sobre isso, ele falava, na verdade, mas ainda era muito cedo e não importa mais. Quem fazia todos aqueles planos comigo era uma pessoa que não existia, o verdadeiro Tommy Merlyn só queria brincar com a minha cara. Agora meu foco é meu filho, cuidar e amar esse bebê, ele é o amor da minha vida.
― Não deveria desistir, você fala tão bem do amor que merece amar de novo. Intensamente.
Oliver pareceu se arrepender no segundo que as palavras saíram de sua boca, desviando o rosto do meu, e não entendi o porquê, era um bom conselho. Talvez apenas mostrar qualquer tipo de opinião favorável a um sentimento que ele julgava ser, como o próprio disse uma vez, contraproducente, o deixasse estranhamente intimidado.
― Olha quem fala.
― Como assim?
― O motivo de você estar tão desanimado para isso tudo.
― Que é… ― Resolvi não responder. Quem sou eu pra dizer quem ama ou não outra pessoa? Mas era fato, quando via Oliver e Laurel juntos, não via isso não.
― Você não ama sua noiva, óbvio. ― Quem falou foi Thea, que tinha acordado em algum momento. ― E, Felicity, você está errada, Tommy fazia planos de verdade com você. Ele não calava a boca sobre como tinha conhecido essa garota incrível que era o amor de sua vida e seria em breve sua futura esposa. ― Nós dois a encarávamos como se fosse um E.T. Para alguém que dormia, ela tinha muitas opiniões. ― Não me olhem com essa cara, vocês falam alto e o telefone do Ollie não para de tocar! ― Oliver soltou um pigarro inquieto, e desceu da cama.
― Eu vou pegar alguma pipoca para a gente ― falou já saindo do quarto.
― O que deu nele?
― Oliver Queen fica desconfortável com sentimentos, que choque! Vamos terminar o filme.
Enlaçou o braço no meu, apoiando sua cabeça em meu ombro como fizera antes com o irmão, mas tão logo nossa atenção voltou ao telefone tocando que ficou jogado em cima da cama. Novamente, Laurel.
― Quer ver uma coisa engraçada? ― Thea deu um sorriso maléfico, antes de atender. ― Telefone de Oliver Queen. O Ollie? Ah, Oliver morreu cinco anos atrás. Beijo, querida, tchau. ― E desligou.
― Que brincadeira mais sem graça, Thea ― recriminei.
― Essa garota é uma insuportável, e olha ela aí de novo. ― Novamente colocou o aparelho no ouvido. ― Telefone de Oliver Queen. Ele saiu, viajou, só volta amanhã. Esqueceu o celular, ué, ou talvez tenha deixado por aqui, pra não ter que te suportar enchendo o saco dele. Não, eu não vou me desculpar, pede desculpas você! Ok, vou depois de você. Beijo, tchau. ― E desligou novamente. ― Vou bloquear essa vaca.
― Você é impossível, Thea. Oliver não vão gostar.
― De ter algumas horas de paz? Ele vai me agradecer de joelhos. Agora podemos voltar ao… Que ótimo! ― falou sarcástica quando o telefone vibrou novamente em sua mão.
― Quem é?
― A talarica. ― Rolou olhos, atendendo a chamada, dessa vez de Helena. ― Telefone de Oliver Queen, quem deseja? Não, seu número não está salvo, minha querida. Ah, Helena. Helena de que, por favor? ― Tive que cobrir a boca para evitar que minha risada saísse na ligação. ― Oliver não está, ele saiu. Não, não foi com a Laurel, ele saiu com a Felicity. Como assim, quem é Felicity? A nova namorada dele, você a conheceu no leilão beneficente. ― Quase engasguei com minha própria saliva ao me ver no meio do trote. ― Você não sabia que ele terminou o noivado? Menina, foi maior babado, quebra pau e tudo. Mas relaxa, meu irmão já seguiu em frente e te deixou pra trás. Beijo, lindona, tchau.
― Tá maluca, Thea?
― Melhor colocar o celular em modo avião, antes que mais gente comece a ligar. ― Fez uma careta, só então deixando o celular de lado.
― Ele vai te matar.
― Mata nada! Ollie é meu coelhinho fofucho.
Nos encaramos por dois segundos, antes de ter a mesma ideia. A imagem mental do sério CEO que só usava terno o tempo todo, vestido como um enorme coelhão de pelúcia nos fez rir tanto a ponto de lágrimas saírem de nossos olhos.
― Você é maluca.
― Mas torno seus dias mais divertidos, admita.
― Bem mais divertidos. Mas se for me dado alguma opção, gostaria que toda essa diversão que você me dá fosse dividida com mais gente.
― Ingrata! ― gritou com a mão no peito, encenando drama.
― Sério, Thea… Nenhum namorado, ficante, casinho? Tenho certeza que trabalhar numa casa noturna te dê vantagens, muitas opções e oportunidades.
― Não é assim. ― Encolheu os ombros.
― Qual é?! Tenho certeza que o legado dos seus irmãos passou pra você, assim como o mau uso daquele escritório pra sexo.
― Se eu não fosse uma virgem.
― O quê? ― Tive que perguntar, eu só podia ter escutado errado sua frase murmurada.
― Não é nada, melhor eu…
― Espera aí, não foge. ― Segurei em seu braço quando tentou escapar. ― Desculpa o que eu falei, mas é que as coisas que você fala, e seu jeito tão liberal e meio amalucado, eu jamais imaginei.
― Não quero falar disso e não é grande coisa, Felicity.
― Tá tudo bem não querer falar, e não precisa. Assim como também não é algo que se envergonhe, Thea, todo mundo tem seu tempo.
― É, mas eu sinto perdi minha janela. Não é como se eu estivesse esperando para acontecer com alguém especial, é só que eu fui adiando e agora é estranho. Não conheço ninguém com quase vinte e um que ainda não tenha feito sexo.
― Isso não é verdade.
― Quantos anos você tinha quando fez? ― questionou de braços cruzados, me desafiando a responder.
― Dezessete, mas em minha defesa, eu entrei cedo na universidade e foram primeiros meses bem confusos.
― Quando eu era adolescente, eu tinha um namorado, que provavelmente teria rolado com ele, mas não foi e eu culpo totalmente meus irmãos por isso. Tommy e Oliver marcavam muito em cima, transar se tornou literalmente impossível.
― E não me surpreendo nem um pouco com isso, ter dois irmãos mais velhos e opiniosos deve ter sido um saco.
― Eu tinha quinze, Oliver me achava muito nova e Tommy dizia que aquele cara era um babaca, eles ficaram obcecados com isso. Minha terapeuta disse que eles estavam projetando em mim o quanto seus relacionamentos eram tóxicos e fracassados.
― Sua terapeuta disse isso?
― Mais ou menos. Na verdade ela disse que eles se preocupavam que eu não sofresse por erros semelhantes aos que os próprios já haviam cometido, mas eu interpreto como quiser. ― Deu de ombros. ― Tudo bem que os dois estavam certos no fim das contas, mas não nunca deixei que soubessem que estavam.
― Thea de quinze anos ainda era Thea Merlyn.
― Sim, com muito orgulho. ― Ergueu o narizinho afilado. ― Depois disso, só ficou mais difícil, e logo eu estava muito ocupada trabalhando. Eu sei que parece uma reclamação besta de menina rica, mas é difícil saber quem está com você por quem você é, ainda mais quando se cresce com os pais colocando isso em sua cabeça. Tommy ficou traumatizado e mentiu pra você por isso, e Oliver se blindou para o amor. Acho que de nós três, minha virgindade foi o menor dos problemas.
― Sua virgindade não é um problema, Thea ― a contradisse. ― E quando acontecer, vai ser constrangedor e estranho, mas você vai lidar bem, é fodona o bastante para isso.
― Pensei que ia dizer que ia ser lindo e mágico.
― É o que quer que eu diga? Porque seria uma mentira, mas vai ficando melhor com o tempo.
― Confortador. Mais alguma dica?
― Por favor, não me pergunta isso. Eu cresci só com minha mãe, a mulher é quase uma sexóloga de tanto que fala sobre, o que me deu conhecimento, mas não desenvoltura para discorrer sobre. ― Sorrimos.
― É tão bom poder ter uma amiga para falar dessas coisas, você é a cunhada que pedi a Deus, Felicity. Bonita, mas não mais do que eu, inteligente e um projeto em andamento para meus constantes makeovers. ― Porque isso não parecia exatamente um elogio?
― Valeu, eu acho. E não sei como passaria por esses dias sem você aqui, Thea, pode falar comigo quando quiser, inclusive sobre isso, desde que me prometa que vai poupar os detalhes gráficos.
― Queria tanto poder ter visto você e Tommy juntos, deveriam ser uns fofos.
― Éramos normais ― resumi.
Não estava mesmo no clima de falar mais sobre meu relacionamento com Tommy quando era Oliver que estava em cima de mim nessa mesma cama minutos atrás. Havia sido uma brincadeira, mas mesmo assim fez meu coração acelerar, quando não deveria. Impensável. Impensável. Impensável.
― Mas sabe o que mais? Como sua amiga, vou tratar de proteger você e sua virtude com todas minhas forças, trazendo reforços do seu irmão chato se preciso ― falei em tom de brincadeira, envolvendo sua cabeça com meus braços em um carinho esquisito.
― Se me tratar diferente por isso, eu vou me vingar. Pergunta pro Ollie, você não vai querer ficar contra mim.
― Parei! ― Ergui as mãos ao alto, a soltando rápido, mas depois de mais um longo olhar, caímos na gargalhada.
― Perdi algum momento engraçado? ― Oliver entrou com dois baldes de pipoca em mãos, e franziu a testa, curioso.
― Besteira. ― Dispensei explicações com um gesto de mão. ― Você não ia querer saber.
― Vem, mano, vamos escolher o próximo filme, esse aqui já está acabando.
Escolhemos uma comédia daquelas bem ruins e rimos por horas, até emendar com outro filme, dessa vez um terror, que fez a destemida Thea Merlyn se agarrar a Oliver e esconder o rosto com o travesseiro tantas vezes que nós dois acabamos rindo mais que no filme de comédia.
― A gente pode escolher algum jogo agora, minha cabeça está começando a doer ― sugeri quando o filme acabou. Oliver começou a acenar positivamente, mas Thea logo desceu da cama, negando a ideia.
― Vão vocês, eu já tenho que me arrumar para ir à Verdant. Ollie, faz ela comer algo. Tchauzinho Felicity, mano e bebê ― Ele concordou e ela saiu.
― E aí, o que vai ser? Detetive, Batalha Naval, Banco Imobiliário?
― Oliver, você não precisa ficar aqui. Anoiteceu, você pode sair ou sei lá.
― Ok, banco imobiliário. Mas vou te avisando, eu sou muito bom nesse, se prepare para ficar falida ― respondeu não me dando margem à contestação.
Acontece que o bastardo era muito bom mesmo e tinha uma sorte do caramba para esse jogo. Em minutos já tinha várias propriedades com hotéis e, como o previsto, eu estava quebrada.
― Você tem um tempinho para ir invocando seu instinto detetive, que vou descer e ver o que teremos para o jantar. Quer alguma coisa da cozinha?
― Chocolate? ― Fiz minha melhor cara de gatinho de botas.
― Te consigo uma barrinha de alfarroba com banana. ― Me lançou uma piscadinha ao sair e eu fiquei rindo para a porta fechada.
Espera aí, Felicity, desmancha essa cara de boba agora! Aquele é Oliver Queen!
Precisava de água, minha garganta ficou seca de repente. Esqueci de pedir para reabastecerem meu frigobar, essa tarde nós três bebemos quase tudo que tinha lá, então resolvi pegar uma garrafa no quarto de Thea. Quando já estava voltando ao meu, ouvi meu nome ser chamado no início do corredor.
― Felicity! ― Olhei na direção da voz, para encontrar uma Helena Bertineli vindo em minha direção como uma locomotiva desgovernada.
― Olá, Helena.
― Cadê o Oliver?
― Você é a namorada dele, não deveria saber? ― respondi cínica. Era só o que me faltava, essa doida atrás de mim.
― A irmã dele falou que ele estava com você. Que história é essa?
― Thea gosta de fazer as pessoas de idiota, sinto muito que ainda caia na conversa dela. Agora, se me dá licença… ― Indiretamente eu havia a chamado de idiota, e mulher segurou com força meu braço me impedindo de entrar no meu quarto, e havia fogo em seus olhos azuis, todo direcionado a mim. ― Me solta, sua doida! ― Mas ao contrário do que pedi, ela deu um passo à frente, chegando muito perto.
― Ela não brincaria com isso se não tivesse pelo menos uma pontinha de verdade, e… ― Helena parou de falar e deu duas inspirações curtas. ― O perfume dele está em você, sua vadia! Eu dei esse perfume!
― O quê… Eu estou esperando um filho do Tommy, ficou maluca? Tenho nada a ver com o Oliver. ― Forcei meu braço para ser solto, mas ela ainda o apertava forte, ao ponto de começar a ficar vermelho ao redor de seus dedos.
― E agora quer dar o golpe no outro! Muito inteligente.
― Golp… Olha, você que coloca chifres na sua amiga! E se acha que você é o único casinho dele…
― Eu sei das outras, elas são uma piada, assim como Laurel, mas com você é diferente, dá pra ver! Oliver é meu, e não vai ficar com alguém que ele poderia amar de verdade, tá me entendendo?
Como é que é?
― Olha, minha filha, eu fui criada em Vegas, se não me soltar agora, eu juro por Deus que vou ensinar pro meu feto como quebrar a cara de uma pu…
― Helena! ― A voz de Oliver estrondou atrás de mim e não demorou nem meio segundo para ele estar com a mão sobre a dela, tirando do meu braço e forçando uma entrar entre nós duas. ― Mas que merda você está fazendo, Helena?
― Sai da frente, Oliver, deixa que eu resolvo isso aqui. ― Eu era da cultura da paz, mas se alguém mexia comigo e meu bebê, ia levar.
― Mas de jeito nenhum. Ei! ― Girou para ficar se frente a mim, e teve que segurar meu rosto com as mãos para puxar minha atenção de Helena para si. ― Você não pode passar por estresse nenhum. Deixa que eu resolvo.
― Mas...
― Vamos, Helena.
Segurou firme em seu braço e a conduziu para o próprio quarto, mas antes de sair do meu campo de visão, ainda pude ver a ameaça no olhar da morena. Thea e suas brincadeiras continuavam a me ferrar. E que história era essa de "alguém que ele poderia amar de verdade?" Doida.
Laurel sempre perdia a compostura, já havia visto mais de uma discussão sobre ciúmes entre eles, onde haviam gritos, pontapés e vasos quebrados, mas Helena não. A mulher sempre mantinha a pose até quando ameaçava e se eles estavam discutindo, não ouvi nada.
Meu jantar chegou e comi em silêncio e sozinha. Olhando para o tabuleiro do jogo detetive que eu havia montado na esperança que ele voltasse rápido, mas dado a quantidade de tempo, já deviam ter feito as pazes e estar transando no momento.
Já era bem mais tarde quando ouvi suas batidinhas na porta e então um "sou eu" para identificá-lo.
― E aí, conseguiu reverter a raiva dela? ― questionei quando ele entrou. ― Oliver, eu sei que ela deve ter te dito o que Thea falou no telefone, mas foi uma brincadeira, a gente não queria…
― Terminamos ― assumiu, sentando ao meu lado na cama.
― Como é? E essa demora toda?
― Helena é muito persuasiva e tem muitos meios.
― Aquele rosto e aquele corpo, pra começar ― comentei quase que para mim mesma.
― Mas não dava mais ― continuou como se não tivesse ouvido minha última frase, relaxando as costas na cabeceira. ― Ela estava começando a parecer obcecada por tudo isso, e o jeito que tratou você, inadmissível.
― Eu posso me cuidar sem precisar que banque o macho alfa protetor, Oliver.
― Não é sobre isso, é sobre parar de me cercar de pessoas tóxicas. Susan foi outra, tentou acabar com meu noivado naquele dia do leilão, não tinha como continuar. ― Me surpreendi com a informação, eu não sabia que ele tinha terminado com a cara de fuinha. ― Mas enfim... Vamos ao jogo?
― Já está tarde, vou tomar um banho e ir dormir. Você também deveria. ― Percebi que a frase poderia soar como um convite para um banho. Pelo amor de Deus, Felicity, olhe o tamanho da sua barriga de grávida! ― Dormir. Deveria ir dormir.
― Ah, claro, está certa. Você jantou?
― Sim, senhor. Pai.
― Engraçadinha. ― Rolou olhos. ― Boa noite, descanse. Qualquer coisa que precisar, estou no meu quarto. ― Se inclinou e beijou minha testa.
― Hey, Oliver ― o chamei, segurando em sua mão antes que ele fosse embora. ― Obrigada por passar a tarde comigo.
― Obrigado a você, foi ótima, estava precisando de uma dessas. ― Beijou o dorso da minha mão em despedida, e parando na saída, já segurando a maçaneta. ― Felicity?
― Hm?
― Helena te falou alguma coisa?
― Que tipo de coisa?
― Alguma coisa estranha, sei lá, sobre mim? ― explicou, e teria sido muito vago, se não fosse pela nada discreta sugestão que ele poderia me amar um dia. Optei por mentir.
― Não, nada que eu me lembre. Falou pra você?
― Não, nada. ― De algum modo, eu sabia que ele também estava mentindo ali.
― Oliver, se eu puder te pedir uma coisa. Tudo bem se não quiser, mas se eu puder…
― Você pede, eu faço. O que é?
― Troca de perfume. ― Ele pareceu surpreso com meu pedido, inclinou o nariz e inspirou em um ponto do seu ombro, tentando buscar o que havia de errado, então apenas sorriu.
― Boa noite, Felicity.
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