Breeding Love
9 Beacon of Hope
Notas iniciais
"Farol de Esperança"
― Pronto, Raisa, já cortei a abobrinha, berinjela, tomate, pimentão e cebola. O que eu faço agora?
― Estou terminando o molho, já já a gente monta a ratatouille.
Eu amava os momentos que me deixavam auxiliar na cozinha, por mais que eu desconfiasse que Raisa só fazia isso para me agradar, já que minha total falta de habilidades culinárias mais atrapalhava do que ajudava. Só que ao contrário do primeiro trimestre de gravidez onde eu trocava o dia pela noite, agora eu passava o dia inteiro acordada sem nada o que fazer e qualquer atividade era bem-vinda.
― Alguma coisa está cheirando bem por aqui. ― Oliver entrou na cozinha, inspirando bem como se para sentir ainda mais o cheiro do molho da Raisa.
― Menino Oliver, você por aqui nesse horário! ― A governanta exclamou, recebendo um beijo dele em sua cabeça. Ela estava certa, ele nunca estava por aqui durante o dia, sempre almoçava pelo escritório mesmo.
― O meu restaurante preferido fechou, pensei em vir almoçar em casa ― explicou com um dar de ombros, então se aproximou de mim no balcão, analisando os itens cortados à minha frente. ― Hm, teremos ratatouille, eu adoro isso.
― Claro que adora, é só legume assado!
― Ainda assim uma delíci… Ei, o que aconteceu com você? ― questionou preocupado, quando enxuguei uma lágrima do rosto. ― Aconteceu alguma coisa, está sentindo alguma coisa?
― É a cebola, senhor tenso.
― Ah, bom. ― Relaxou. ― Ei, pode vir ali comigo, te trouxe uma coisa. ― Consultei Raisa com o olhar e ela acenou afirmativamente.
― Pode ir, senhorita Smoak, terminamos por aqui.
― Devolvo sua ajudante em minutos.
― Você provavelmente está fazendo um favor a ela. ― Oliver riu e apoiou uma mão em minhas costas, me conduzindo à sala de estar.
― Você sabe que não precisa estar na cozinha, é hóspede.
― Eu preciso de algo que me distraia, ou eu e meu bebê morreremos de tédio.
― Na próxima consulta perguntamos pra sua médica qual atividade já está liberada para fazer, quem sabe possa dar um passeio pela empresa. Depois daquele dia, talvez eu deva te contratar logo.
― Sabia que antes de tudo isso acontecer eu ia fazer uma entrevista lá?
― Se sua médica te liberar, está marcado. Mas não foi pra isso que eu te chamei aqui, te trouxe uma coisa.
Ele buscou algo em sua maleta, até tirar um pacote de dentro e me entregar.
― Amendoim japonês? ― Meus olhos brilharam e quase arranquei a mão dele junto quando peguei o pacote de suas mãos. ― Onde você conseguiu, Diggle disse que procurou na cidade toda!
― Pois é, ele comentou comigo, daí um dos assessores estava em Coast City, pedi que ele trouxesse de lá, não foi nada de mais. ― Deu de ombros como se não fosse nada de mais, mas foi. Eu estava morrendo de vontade comer aquilo, não encontrava em nenhum lugar e o gesto foi tão gentil e atencioso.
― Eu vou comer tudo de uma vez!
― Vai com calma, isso é rico em fibras e ômega 3, mas pode fazer mal se…
― Obrigada, Oliver! ― O surpreendi com um beijo no rosto, enquanto saltitava para meu quarto com meu tesouro em mãos. ― Ei, você acha que eu acordo Thea para almoçar com a gente? Oliver? ― Tive que o chamar pelo nome, já que o homem ainda se mantinha parado no mesmo lugar e nem parecia ter me escutado.
― Pra comer legume, melhor não, ela pode te bater ― respondeu depois de me devolver sua atenção.
― Tem razão. Valeu de novo!
Estava sendo bom viver ali como nunca desde que me mudei para cá. O clima tenso do início se dissipara completamente e eu conseguia até me considerar um pouco feliz. Parecia até aquelas calmarias que antecedem as tempestades, em minha vida sempre tinha dessas. A felicidade na minha casa antes do meu pai ir embora, tanto amor com Tommy antes de tudo acontecer.
― Não, Felicity, nada de ruim vai acontecer, vira essa boca pra lá, eu hein?! ― ralhei comigo mesma, indo tomar uma ducha rápida para trocar o conjunto moletom por um vestido que tivesse menos cara de "dormi com isso", enquanto comia alguns dos amendoins que ganhei. Nem sei porque queria tanto aquilo, antes da gravidez eu nem gostava.
Me apressei em voltar a descer, queria conferir o andamento do meu quase prato e bater papo com Oliver, aproveitando sua presença rara para o horário e que desde que ele parou de rosnar para mim, tinha se mostrando uma pessoa até bem legal. Teve aquele momento no escritório mês passado, mas eu tinha enterrado essa situação fundo.
Desci as escadas quase correndo, e quando já estava apenas a uns três degraus do fim, uma dor pélvica aguda me atingiu tão forte que curvei para a frente segurando a barriga, meu equilíbrio sendo comprometido e caí pelos malditos três degraus até o chão.
Nunca tinha sentido nenhuma dor tão forte minha vida toda, meu ombro agora também doía da pancada da queda, mas eu sequer conseguia dar atenção a isso, já que estava curvada no chão, minha respiração ruidosa e minha garganta fechada sem ao menos ter força alguma para gritar por ajuda.
Então o pior que poderia acontecer, aconteceu. Senti o líquido quente escorrer por minha perna e ao conferir com a ponta dos dedos vi o sangue. Meu bebê, eu estava perdendo meu bebê.
― Socorro ― murmurei, duvidando que alguém pudesse escutar. A casa tinha muitos empregados, mas a essa hora todos estavam cuidando dos próprios afazeres. ― Socorro, alguém me ajuda!
― Felicity! ― Oliver quase voou ao entrar no hall e me ver ali no chão. ― O que aconteceu? ― Se agachou ao meu lado, segurando meu rosto.
― Meu bebê, Oliver. Estou perdendo meu bebê. ― Só então ele viu o sangue e seus olhos cresceram um par. ― Está doendo muito.
― Ok, fica calma, eu vou cuidar de vocês ― falou quase como uma promessa, mesmo que sua voz tenha falhado um pouco ao fazê-la. ― Raisa! ― gritou alarmado, me erguendo com aparente facilidade em seu colo. ― Raisa, acorda a Thea, diz pra ela pegar os documentos e exames da Felicity, ligar para a médica e correr com Diggle para o hospital.
― Quer que eu chame ele para levar vocês? ― questionou entendendo a situação sem nem precisar de mais nenhuma explicação.
― Não temos tempo, meu carro está parado aí na frente, só abre a porta pra mim!
Minutos depois Oliver cortava a cidade a toda velocidade, furando tudo que era sinal vermelho e fazendo ultrapassagens perigosíssimas a caminho do hospital.
― Eu vou perder o meu bebê, Oliver. ― Mais forte que a dor física, era a ideia de não conseguir salvar a criaturinha que eu mais amava no mundo. E eu sei que chorar não ajudava em nada, mas era só o que eu conseguia fazer.
― Eu não vou deixar isso acontecer, ok? ― Tirou uma das mãos do volante para segurar a minha. ― Confia em mim, nada de ruim vai acontecer com você e com seu filho. Eu prometo. ― Ele não podia prometer isso, estava tão fora do seu controle quanto estava do meu, mas de algum modo, acreditei.
Logo eu já me agarrava forte ao pescoço de Oliver quando entrava pela emergência do hospital em seus braços.
― Preciso de ajuda, ela está grávida e com algum tipo de sangramento e dor.
― Ok, senhor, coloque sua esposa aqui nessa cadeira.
― Eu não vou colocá-la em cadeira nenhuma, onde está a doutora Anna Hill? ― Me segurou mais firme quando a mulher tentava nos oferecer uma cadeira de rodas. ― Onde estão os médicos desse hospital?
― Calma, senhor, eu sou médico. ― Um homem de uniforme azul e jaleco veio até nós. ― Traga ela para essa sala, eu vou examiná-la. Conheço a doutora Anna, vou pedir para ligarem e logo ela estará aqui também. ― Oliver me depositou na maca. ― O senhor pode aguardar ali fora.
― Não me deixa sozinha, por favor, não me deixa sozinha, Oliver. ― Segurei sua mão com firmeza.
― Eu não vou a lugar nenhum ― falou mais para mim do que para o médico que tentava fazê-lo sair.
― Tudo bem, pode ficar. Você está com quantas semanas?
― Dezoito.
― Tudo bem. Primeiro vamos te dar algo para dor e parar o sangramento, depois veremos como o bebê de vocês está, fiquem calmos. Você tem alergia a alguma medicação?
― Não.
― Mas ela tem tido problemas com pressão alta desde o início da gestação, e teve outra coisa também nas primeiras semanas. Por que estamos perdendo tempo com residentes? Onde está a doutora Anna, ela sabe de tudo isso.
― Calma, Oliver ― tive que pedir, antes que ele começasse a ofender de verdade os funcionários do hospital que nada tinham a ver com isso. Se eu o conhecia bem, seria isso que ele estava prestes a fazer.
Depois de dar instruções para a enfermeira, logo eu estava sendo medicada. Com a diminuição da dor e o sangramento parado, consegui explicar tudo que aconteceu ao médico, que me transferiu para a obstetrícia para exames mais específicos.
~
― Ollie, pare de andar de um lado para outro, está me deixando nervosa ― Thea reclamou, mas só recebeu um olhar cortante do irmão. ― Nem me olhe assim, nem ligo se você parece um daqueles médicos gostosos de Grey's Anatomy, sua cara feia não me atinge mais há anos.
Thea tinha chegado pouco depois com todos os exames que eu havia feito durante o pré-natal, e tinham nos dado roupas para trocar pelas sujas de sangue. Eu usava um dos aventais de pacientes e para Oliver deram um daqueles uniformes de médico.
― Cala a boca, Thea.
― Chegamos, viemos assim que Diggle nos avisou. Como você está, querida? ― Malcom e Moira entraram no quarto.
― Eles não me dizem nada ― respondi chorosa. Haviam de dado algum tipo de calmante também, mas eu não conseguia me sentir melhor.
― Eles sabem quem somos? Eu vou falar pessoalmente com o diretor desse hospital.
― Ok, pai, pega leve. De irritadinho e metido aqui já temos Oliver.
― Olá, desculpem a demora, fiquei presa em uma cesariana de emergência. E temos uma casa cheia hoje, olá família Merlyn ― Doutora Anna entrou se desculpando. ― Oi, Felicity, como você está?
― Meu bebê, Anna. Preciso saber se meu filho está bem, por favor…
― Eu dei uma olhada nos exames que já foram feitos e seu filho passou por poucas e boas, mas está bem agora. Estável, ao menos.
― Como assim, doutora?
― Quando você chegou, os batimentos por minuto estavam bem abaixo do normal, mas graças à velocidade que chegaram aqui e que você foi atendida e medicada, no segundo exame, já estava bem melhor. ― Olhei para Oliver, que encarava a médica, parecendo prestes a começar suas perguntas. Ele salvou meu bebê e eu nunca poderia agradecê-lo o bastante por isso.
― Então ele está salvo? ― questionou.
― Desconfio se tratar de um descolamento de placenta, Oliver, bem pior do que aconteceu no início. Não vou mentir para vocês, é uma situação bem grave, se fosse no final na gestação e o bebê estivesse pronto, já induziríamos o parto. Preciso confirmar com mais exames, mas vamos tratar e tudo vai ficar bem. Sinto muito, mas voltamos ao repouso absoluto. ― Eu queria chorar de desespero e preocupação.
― Isso é uma coisa boa, cunhadinha, os dois vão ficar bem. ― Thea segurou minha mão. ― E eu prometo tornar seu repouso o mais divertido possível, melhor ainda que o primeiro.
― Agora eu que digo, filha, pegue leve.
― Anna, eu posso vê-lo?
― Claro, vou pedir que tragam a máquina de ultrassom pra cá, tudo bem por você? ― Assenti. ― Volto em um minuto.
― Que bom que estava em casa, Oliver. ― Malcom segurou seu ombro, quando finalmente ele parou de andar e sentou na poltrona com as mãos no rosto, como se tivessem tirado algumas toneladas de suas costas.
― Ah, filho, Laurel está louca te procurando. Já ligou para nossa casa, para o escritório e para mim, disse que você não atende o celular.
― Devo ter esquecido em casa, mãe.
― Quer ligar pra ela do meu telefone? ― sugeriu.
― Depois, mãe, depois. Não estou com a menor paciência para a Laurel hoje.
― Aleluias! Diz pra ela que mandei um beijo, pede aquele anel caríssimo de volta, ela não merece.
― Não enche o saco também, Speedy.
― Ui, que estressado. Vou buscar um café enquanto a médica não volta e trago um chazinho de camomila pra você. Vem comigo, pai?
― Vou sim. A gente já volta.
― Oliver, posso falar com você um segundo? ― pedi.
― Claro. ― Ele levantou e Moira assumiu o lugar na poltrona, puxando seu celular da bolsa e destinando sua atenção ao aparelho, provavelmente dando alguma explicação à sua nora preferida. ― Você precisa que eu te consiga algo?
― Não, eu só queria te agradecer. ― Estendi minha mão que não estava com o soro para ele, que pegou entre as suas. ― Você salvou meu bebê e salvou a mim também, não sei o que eu faria se… ― Sentia minha garganta fechar, o esforço para continuar respirando normal custando o dobro, aquela sensação horrível de um ataque de pânico chegando. Agora que a emoção do suspense passou, eu sentia que ia quebrar.
― Ei, não chora, estou aqui com você.
Oliver conferiu com uma olhada ao rápido ao redor, então sentou ao meu lado da cama, segurando minha mão mais forte e enxugando uma lágrima que desceu por minha bochecha. Eu nunca lhe pedi que guardasse segredo sobre o que aconteceu naquele dia no jardim de Tommy, mas ele o fez mesmo assim, e era só mais um dos motivos para ser grata. Não saberia lidar também com toda a família envolvida em algo tão pessoal.
― Eu prometi, não foi? ― Seu apoio parou a crise antes mesmo que ela começasse de fato.
― Obrigada, de verdade.
― Por nada. ― Com um braço de cada lado do meu corpo e as mãos apoiadas no colchão, Oliver se inclinou e beijou minha testa.
― Vamos ver esse bebezinho?
Anna entrou com dois técnicos empurrando a máquina do ultrassom. Moira ficou ao lado de Oliver e Malcom e Thea voltaram em seguida.
― Olha isso, Felicity, mexendo as perninhas… Aliás, vocês já querem saber o sexo biológico? Consigo ver claramente agora.
― Sim, por favor.
― Ah, não, Felicity! Vamos fazer um chá bombástico de revelação, eu pensei em algo do tipo fazer chover papel picado e brilhante em toda a cidade, e um avião desenhar o nome dele ou dela no céu. Você já escolheu o nome? Porque eu estava pensando…
― Deixa de bobagem, Thea ― a cortei, ou nunca sairíamos dali. ― Vou passar os próximos dias em uma cama, não vai ter chá nenhum. Pode falar, doutora.
― Sem graça ― resmungou. ― Diz aí, Anna.
― Então, você vai ter um menino. É isso aí, um garotão vem por aí.
― Nós vamos ter um netinho? ― Moira estava emocionada como eu nunca tinha visto ela antes e abraçava Malcom.
― É como se Tommy fosse continuar conosco, eu nem acredito!
― Pensem comigo, galera, é muito cedo para começarmos a construir uma quadra de basquete e uma de futebol lá em casa? Eu vou ligar agora pra nossa decoradora, precisamos começar a ver o quartinho pra ontem. Felicity, você tem alguma cor de preferência?
― Que família empolgada!
― Claro que estamos empolgados, você tem noção do quão bonita essa criança vai ser, doutora? E vocês dois, estão calados demais. Fala alguma coisa, Oliver. Felicity?
― Eu estou tão feliz, que nem consigo… Um menino! ― Levei a mão à minha barriga.
― Parabéns, Felicity. ― Só percebi que Oliver nunca havia largado minha mão durante todo o exame quando ele a ergueu e beijou o dorso. ― Vai ser um menino de sorte, você já é uma mãe incrível.
― E eu uma tia mais incrível ainda! E vocês perceberam que conseguimos ficar todos na mesma sala por vários minutos sem brigar? Nunca havíamos completado tal feito desde que... Bem, desde que Tommy se foi.
― É quase como se ele estivesse aqui conosco.
― Obrigada, Felicity, esse bebê trouxe de volta a harmonia dessa família. É como se ele fosse, assim como Tommy era, o nosso farol.
― Sim, ele é nosso farol de esperança.
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