Breeding Love
4 A Matter Of Trust
Notas iniciais
"Uma questão de confiança"
Os primeiros dias na mansão quase me levaram à loucura. Thea estava certa, quase ninguém era visto pela casa, tipo nunca, e eu me sentia trancada em um gigantesco mausoléu de pedras cortadas e móveis caros.
Malcom e Moira haviam chegado de viagem dois dias depois que me hospedei, compartilhamos um jantar silencioso e eles já viajaram de novo. Thea trabalhava a noite toda, então durante os dias, ela quase sempre estava dormindo, e Oliver passava o dia na empresa, e à noite, nunca estava em casa, e se estava, ficava trancado no quarto ou escritório. Nunca sequer cheguei a ouvir sua voz depois do desastre do suco verde.
Queria poder explorar mais a propriedade, ou até passar mais tempo com os funcionários da casa nas áreas de serviço, mas fui proibida pelas ordens médicas e da caçula Merlyn, que colocou Diggle pra me vigiar e Raisa para me perguntar como eu estava a cada meia hora. Poderia matar por um computador com internet, deviam ter algumas dezenas deles pela casa, mas não me deram nenhum.
Só que essa rotina extremamente entediante, mais os efeitos da gravidez, mudaram minha rotina de sono, e faziam com que eu dormisse o dia todo quando Raisa não estava me acordando para oferecer comida, me deixando as noites para vagar como um zumbi no enorme quarto de hóspedes que estava alocada.
Estava quase me oferecendo para trabalhar com Thea na boate, sempre fui boa com contas, poderia ser de grande ajuda para ela e para minha sanidade mental. Mas acabei nem falando nada, sabia que seria um pedido frustrado, então apenas pedia para me trazerem alguns livros do invejável acervo da biblioteca da casa e devorava no banco próximo à janela com vista para um jardim colorido. Ah, e conversava com meu bebê o dia todo e com minha mãe, sempre que possível.
― Estou indo pra Verdant, se comporte. ― Thea colocou apenas metade do corpo para dentro do quarto, depois de duas batidinhas na porta. Quando viu o livro de capa verde que eu tinha em mãos, entrou completamente, chegando perto de mim na janela. ― Fortaleza Digital. Espero que não esteja lendo isso para arrumar um meio de fugir daqui.
― Tem tanta coisa errada nessa coisa! ― Fechei o livro, marcando onde havia parado com o indicador. ― Quer dizer, eu admito que houve alguma pesquisa, mas eu poderia citar pelo menos cinco erros gritantes com relação à ciência da computação, e ainda nem cheguei na metade.
― E como saberia citar isso? ― Cruzou os braços, me encarando com curiosidade.
― Sou formada em TI, tenho certeza que já te disse isso. ― Ela pareceu tentar lembrar por alguns segundos, enquanto estalava a língua.
― Deve ter dito então. Tommy dizia que quando o assunto não me interessa, eu desligo meu cérebro completamente. ― Deu de ombros, desistindo de lembrar. ― Felicity, eu sei que tem sido um inferno você ter que ficar sempre aqui sozinha. Já sei! ― Deu uma palma alta ao ter uma ideia e eu um pulinho de susto. A garota estava conversando e boas, então dava escândalo. ― Vou tirar folga amanhã da boate e vamos fazer um programa legal de garotas.
― Um passeio? ― Fiquei mais animada na hora. Eu poderia dizer de cor quantas tábuas havia no chão de madeira do quarto e aquilo não podia ser um bom sinal de saúde mental.
― Um programa legal de garotas que não saem do quarto e comem comidas saudáveis. Você come saudável, eu como o que quiser ― se corrigiu, forçando uma animação excessiva e não consegui segurar a careta. ― Ah, não faça essa cara, a médica disse que você só precisa ficar de repouso total por mais uma semana, então vai começar a liberar atividades mais tranquilas. Cola em mim, cunhadinha, em um quarto ou boate, a festa está onde Thea Dearden Merlyn está.
― Yey! ― Balancei as palmas fracamente, e ela riu.
― Até amanhã, Felicity. Tchau, bebê. Beijo, beijo. ― Soprou dois beijinhos ao sair e fechar a porta.
Ah, que saudade da minha liberdade. Mas tudo por você, neném! E essa sua tia, hein?! Uma figura a se notar, ainda assim a melhor pessoa dessa casa todinha. Fiz carinho em minha barriga, retomando a leitura.
Tinha de admitir, apesar das incoerências realísticas, Dan Brown conseguia me empolgar e só lembrei do jantar que pedi para Raisa deixar no criado mudo quando já era quase meia noite.
Eu não ia comer isso, era uma sopa esquisitas com uns legumes que eu nem conhecia. Quente, talvez ainda conseguisse, mas fria como estava, ia acabar vomitando até meus pensamentos. E também não era justo acordar ninguém, então eu mesma ia esquentar a coisa, torcendo para não ser pega subindo e descendo escadas.
Demorou alguns minutos e corredores errados até a achar a cozinha enorme e de última geração, o que me fez agradecer pelo conhecimento prévio com tecnologias, ou jamais acharia o que era o microondas e como usá-lo. Coloquei o prato dentro e programei o timer para um minuto.
― Hey, você.
Quase bati com a cabeça em uma das prateleiras da geladeira ao ouvir a voz desconhecida me fazendo companhia na cozinha quando procurava algum docinho para roubar, escondido de Thea e seus dois capangas: Raisa e Diggle.
― Foi mal, não queria te assustar. ― A mulher sorriu sem jeito, caminhando até a geladeira e fazendo um bico para suas opções.
Recuei um pouco, para observar a criatura.
Ela era linda. Com uma pele morena oliva, olhos negros expressivos, seus longos cabelos negros ondulados estavam soltos em suas costas e parecia ter um corpo de fazer inveja para modelos da Victoria Secrets. O detalhe é que ela vestia apenas uma camisa social masculina azul clara e andava descalça e à vontade como se conhecesse bem o lugar.
Então aquela era a noiva de Oliver que eu só ouvia falar.
― Amiga da Thea? ― perguntou pra mim, apontando um pedaço da barra de chocolate depois de tirar uma mordida generosa logo de primeira.
― Meio que isso. ― Dei de ombros, tirando o prato nojento de sopa do microondas, quando ele apitou por estar pronto. ― Amiga do Oliver?
― Pode-se dizer assim. Sou MacKenna. ― Sorriu mais amplamente, pegando um pote pequeno de sorvete no congelador e uma colher na gaveta.
― Felicity.
― Foi um prazer, Felicity. ― E foi saindo, abrindo o pote e já comendo no caminho.
Pelo visto Oliver Queen estava tendo uma noite animada. Talvez isso melhorasse aquele humor constantemente azedo dele. Voltei ao meu quarto e depois do meu jantar insosso, comecei outro livro, torcendo para o casal a algumas paredes de distância não ser barulhento.
Thea não entendeu nada quando disse no dia seguinte que havia conhecido a noiva de Oliver e que a tinha achado até bem simpática. Na opinião dela, a tal mulher era enjoada e meio maluca, quase psicótica. MacKenna parecia de boas.
E só entendi os motivos dela para achar aquilo duas noites depois, quando estava em busca de um carregador que Thea me disse por telefone que tinha em seu quarto, e não conseguir evitar de ouvir um barulho muito sexual vindo do quarto ao lado. Só que não foi MacKenna que encontrei no maior amasso com Oliver no corredor mais tarde, já em uma aparente despedida.
A mulher também era morena, alta e bonita, mas parecia ter alguns poucos anos a mais que ele e usava roupas mais formais, e, ao contrário de MacKenna, me olhou com sua dose de entojo. Então essa era a noiva, o que tornava a da outra noite, a amante.
Eu sabia que esse meio da alta sociedade era cheio de traições e tudo mais, pelo amor de Deus, era formada em seis temporadas de Gossip Girl, mas confesso que não esperava isso de Oliver. Não por considerá-lo a pessoa de melhor caráter do mundo, eu não o conhecia além dos poucos gritos trocados, mas sei lá… O homem parecia tão certinho.
― Vamos, Susan, eu te deixo em casa. ― Quase a arrastou para longe de mim, sem ao menos deixar que algum cumprimento fosse feito.
Imbecil.
~
Thea dava gargalhadas escandalosas quando eu lhe contava a história sentada em sua cama enquanto ela se arrumava para trabalhar na noite seguinte.
― Você sabia que ele tinha uma amante?
Eu ainda estava impressionada com a naturalidade que ela tratava o assunto. Para mim, traição era coisa séria, muito séria.
― Claro que sim, todo mundo sabe. Menos nossos pais, que acham Oliver perfeito, e a noiva dele, o que é impressionante já que ela é tão obcecada e ciumenta.
― Ela pode ter sido uma chata comigo ontem e ter uma cara de fuinha, mas é uma coitada.
― Fuinha? ― perguntou rindo. ― O que é uma fuinha?
― Dá um Google, Thea ― retruquei sem paciência, não com ela na verdade, mas com o irmão. ― Tenho pena da mulher. ― Meus ombros caíram e eu sentia muito por ela. ― Se não pretende ser fiel, é só terminar, oras! Tommy não me traía não, né?
― Não, ele não fazia isso. E não julgue Ollie tão mal também. ― Finalizou o batom e eu a acompanhei, já que a médica havia me liberado hoje de estar sempre deitada e já podia circular pela casa. ― Ele só não encontrou a pessoa certa.
― E isso lá justifica enganar os outros assim?
― Você realmente não pretende passar pano para nenhum dos meus irmãos, não é? ― Colocou as chaves e celular na pequena bolsa de mão.
― Não é da minha conta, não vou mais falar nisso. ― A segui para fora do quarto. ― Só acho que deveria ter comentado antes, imagina se faço alguma confusão? Só seriam mais motivos para ser odiada por Oliver, e posso ser uma boba, mas não gosto que me odeiem.
― Tudo bem então, quando eu chegar a gente revisa direito todos os casinhos do Ollie do presente. Não que importe muito, o rodízio nesse departamento é tão grande que não está mais nem valendo a pena aprender os nomes.
― Ele tem mais de um caso? ― Escancarei minha boca em choque e ela gargalhou novamente, e eu não sabia dizer se era ou não uma brincadeira.
― Você é impagável! Tchau, Felicity. Tchau, bebê. ― Me deu um beijinho no rosto, se abaixou e acenou para minha barriga.
― E aí, neném, você acha que seu tio tem alguma questão psicológica que valha um diagnóstico ou só é um enorme safado? ― falei com meu bebê, indo até a cozinha para procurar algo para comer.
Cada dia que passava minha fome só aumentava. E quando comentei isso, Thea comprou um monte de frutas, cereais e coisinhas saudáveis para me ajudar nesses momentos. Alfarroba não era como meu amado chocolate, mas teria servir.
Passei na biblioteca pra pegar um novo livro e eu já estava quase de volta às escadas para ir ao meu quarto, quando ouvi o grito da porta principal recém aberta.
― Neném, cheguei!
Parei a caminho da boca barra de cereal sem açúcar, glúten ou lactose, tamanho extra grande, encarando a mulher que entrava pela porta da frente e mal conseguia arrastar sozinha as duas malas enormes que trazia.
― Neném, ajuda aqui com as… Quem é você? ― Me encarou fechando o sorriso repentinamente. ― Neném, tem uma estranha na casa! Neném! ― continuou a gritar a cada vez mais alto, e eu olhava ao redor sem saber exatamente o que procurar. Quem diabos era ela e quem era esse "neném"?
A mulher era bonita. Tinha cabelos castanhos claros com mechas loiras na metade das costas que pareciam sair de algum comercial de xampu, olhos verdes e roupas visivelmente caras e adaptadas para mais frio do que fazia em Starling nessa época do ano. Automaticamente conferi o que vestia, conjunto de moletom, que não conversavam em nada um com o outro, e chinelos.
Quem é essa agora?
― Neném! ― continuava a se esgoelar.
― Que gritaria é essa? ― Oliver desceu as escadas quase correndo. Ele ainda usava a camisa e calça social e provavelmente tinha chegado a pouco tempo do trabalho.
Espera um segundo…
Ainda bem que as lentes dos meus óculos estavam em dia, e mesmo que não estivessem, aquela pedra gigante brilhando em seu anelar esquerdo não era algo que ninguém conseguisse ignorar. Nota mental: nunca mais chamar meu filho de neném.
― Essa é a noiva? ― questionei a ele sem pensar muito sobre isso, com a boca escancarada em choque.
― Sim, queridinha. E você é a famosa quem? ― Apontou pra mim, e Oliver de repente perdeu sua costumeira pose sem expressão que vinha destinando à minha pessoa.
― Namorada do Tommy, que pediu ajuda pra escolher um livro.
― Mas ela já tem um livro em mãos.
― Eu já volto, Laurel.
Se eu ainda tinha dúvidas que aquela era de fato a noiva, ela segurou seu pescoço e o puxou para um beijo daqueles desentupidores, que ninguém devia trocar em público, como se precisasse mostrar para mim que ele tinha dona. Grande merda.
― Estava com saudadinha, neném ― Laurel usou uma voz mais aguda e lhe beijou na ponta do nariz. Tive que segurar para não rir da cara vermelha dele.
― Eu já volto. ― Oliver tirou as mãos dela de seu pescoço e me surpreendeu ao segurar meu braço e quase me arrastar até a biblioteca, só soltando quando já estávamos dentro com a porta fechada.
― Você não vai dizer nada a ela. ― Quase me diverti do seu pequeno surto de desespero. ― Isso é sério, garota, não importa quanta raiva você tenha de mim, não vai falar nada para Laurel!
Cruzei os braços, esperando para ver até onde aquilo ia. Oliver mantinha a voz baixa, mas eu podia ver que ela estava cada vez menos contida, e era quase refrescante vê-lo quebrar seu personagem pela primeira vez. Quando nos encontrávamos por acaso pelos corredores, ele só faltava colocar aquelas roupas pretas e peruca grisalha de juiz apenas para olhar pra mim. Muito falso moralismo, só pra constar.
― Ok, quanto você quer? ― Já puxou o talão de cheques do bolso. ― Eu sabia que as coisas com seu tipo de gente só se resolvem assim.
― Qual o problema de vocês ricos, acham que podem dar carteiradas pra se livrar de tudo? ― Dei a volta nele, mas sua mão cobriu a minha quando alcancei maçaneta. ― Me solta ou eu grito. ― Oliver me soltou depois da ameaça, todo o bom humor com qual eu tentava levar a situação se esvaiu de vez. ― Riquinho imbecil.
― Não fala como se me conhecesse ― rosnou.
― Ah, então você não trai a sua noiva com não uma, mas duas, talvez até mais mulheres diferentes? MacKenna, Susan, quem mais?
― Não é da sua conta com quem e como me relaciono. E quem é você pra falar de algum defeito meu, sua…
― Fala golpista e minha mão vai direto na sua cara, seu babaca! ― o cortei. ― E se não sair do meu caminho agora, eu começo mesmo a gritar, daí eu só sento e assisto o show, estou mesmo curiosa para ver as explicações que dará para sua noiva. ― Trincou a mandíbula, mas deu um passo para o lado.
― Você vai contar pra ela então?
― Não é da minha conta, só não faça na minha frente. Não vou mentir por você.
― A troco de que vai guardar meu segredo? ― questionou desconfiado.
― A troco de nada. ― Dei de ombros.
― Não, não, você está armando. ― Se afastou, apontando para mim. ― Está guardando essa informação pra conseguir aumentar o valor dela, talvez o dia do meu casamento.
― Oh, cabecinha doente a sua, Oliver. Maluco. ― Rolei olhos. ― Não vou contar porque não quero ter nada a ver com você e seus esquemas.
― Preciso de uma garantia ― exigiu e dei um sorrisinho pequeno.
― Parece que você vai ter que confiar em mim. ― Dei dois tapinhas em seu ombro e saí do escritório.
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