Notas iniciais
Olá, pessoas! Como estão do lado daí? Estou tão feliz e agradecida por todo o carinho que BL tem recebido. E, apesar de todos os comentários raivosos contra nosso babaca preferido, estou amando ver toda a participação e interação. Espero que gostem do capítulo. Boa leitura!! Bjs*

"Esquiva"

― Thea, qual é?! Estamos atrasados, Laurel está me esperando e já ligou umas dez vezes! ― Já era pelo menos a terceira vez que Oliver vinha bater na porta do quarto da irmã, enquanto ainda estávamos trancadas lá dentro.

― Como se aquela obcecada não fizesse isso sempre! Vai descendo que já já a gente te alcança ― Thea gritou em retorno. ― Felicity, minha flor, saia do banheiro, já estamos passando do tempo de atraso charmoso dos Queen-Merlyn.

― Estou ridícula, eu não vou ― falei cruzando os braços em uma birra exagerada para uma adulta que não era birrenta nem quando criança.

― Você está linda! ― retrucou se opondo a mim. ― E não queria sair de casa? Nos arrumei uma festa.

― Queria sair para um parque ou shopping, não uma festa beneficente de gente esnobe.

Finalmente decidi sair do banheiro dela, os saltos ainda me incomodando ao andar. Parei em frente ao espelho de corpo todo e analisei a produção que Thea mesma havia feito em mim.

O vestido era seu, um dourado justo demais, com uma pequena fenda na coxa, os sapatos altos que, com seus saltos mais largos, teoricamente deveriam ser mais confortáveis. Não eram. Até o cabelo e maquiagem haviam sido produção sua.

― Pare de reclamar, você perdeu a discussão quando me deixou fazer de você minha boneca. ― Pegou a bolsa que havia me emprestado para usar e colocou na minha mão, empurrando meus ombros para fora do quarto. ― É uma ótima oportunidade de sair, local tranquilo, você vai ficar sentada o tempo todo e vai conhecer mais o nosso meio. Estamos todas lindas, vamos vamos. Como é que te ensinei? A festa está…

― Onde Thea está ― completei a contragosto e ela riu vencedora.

― Boa garota. ― Deu dois tapinhas em minha cabeça como se cumprimentasse seu poodle. ― Além do mais, você ia ter que sair daqueles moletons e dos vestidinhos de criança um dia, e vou dizer… Que corpão, hein, garota?!

Se eu já estava com vergonha, agora isso havia sido multiplicado por mil. A cada passo, um centímetro de tecido subia, nas costas não havia nada além de algumas tiras de tecido transparente. Exposição demais para alguém que, como a caçula da família não parava de repetir, já estava acostumada a moletons e vestidos soltinhos.

― Eu estou grávida, me respeite ― desconversei.

― E daí? Sua barriga mal aparece e além dessas pernas e bunda maravilhosas, ainda está com aquele glow da gravidez. Vai ser a atração do lugar. ― Rosnei para ela, tomando a dianteira.

― Não fale besteiras, Thea. Primeiro que todo mundo devia parar de falar do corpo das outras pessoas, e segundo, a última coisa que quero é chamar a atenção dessa gente.

― Pelo menos de um homem você já chamou, Felicity. ― Passou por mim e ergueu as sobrancelhas sugestivamente, apontando com o olhar para baixo, mudando sua expressão de maliciosa para inocente como uma atriz profissional quando virou o rosto para o irmão.

Oliver me encarava enquanto eu descia, parecendo ter parado uma ligação no meio, já que o celular estava próximo ao ouvido, e a boca semi aberta. Seus olhos secavam minhas pernas e senti o constrangimento tingir minhas bochechas de vermelho.

E eu tinha que admitir, com uma opinião totalmente imparcial, que o homem era uma belíssima visão em seu smoking sob medida e que devia comprar um prédio. Por trás de toda a arrogância, impaciência e falta de tato, ele era muito bonito. Engoli seco, desviando o olhar, não daria aquela satisfação a nenhum dos dois.

― Deus me livre ser a amante número três. Bate na madeira! ― falei baixinho, dando soquinhos no corrimão.

― Seria a número quatro, você ainda não conheceu Helena ― respondeu também aos cochichos.

― E ele quer vir falar de moral comigo? Que nojo.

― Não me disse que essa garota ia também ― Oliver resmungou quando terminamos de descer, recuperado de seu recente e passageiro estado de estupor e retornando ao mau humor.

― "Essa garota" se chama Felicity e está indo arrastada para essa festa estúpida ― rebati, sem fazer questão de mostrar cordialidade quando só era tratada com brutalidade por ele.

― Somos dois então.

― Olha pra vocês, quase amiguinhos, achando coisas em comum pra conversar…

― Vamos logo! ― cortou a irmã sem paciência, quase nos fazendo correr para alcançá-lo até seu carro.

Quando Thea já ia se direcionando ao banco de trás para claramente forçar alguma situação entre mim e seu irmão, a lancei um olhar cortante e entrei pela porta de trás, ao passo que ela apenas deu de ombros como se não tivesse feito nada de mais e assumiu o lugar do carona.

Os irmãos foram discutindo nosso atraso o caminho todo, e eu ocupada em descascar meu esmalte que Thea tinha arrumado ainda essa tarde, torcendo para que ela não visse ou levaria sermão.

― Finalmente, neném, minha maquiagem já estava indo pelos ares! ― Laurel parou na janela no carona, então olhou para Thea. ― Dá licença, cunhadinha.

― Pode passar, querida.

― Não, eu quero dizer… ― Apontou para o banco do carona que Thea ocupava.

― Vou levantar daqui não.

― É, mas eu quero ir do lado do meu neném.

― Senta no meu colo então, não vou levantar. ― Cruzou os braços, e por trás de sua birra, eu via que Thea estava se divertindo em irritar Laurel.

― Oliver!

― Laurel, estamos atrasados, custa entrar logo no maldito carro?!

― Isso aí, cunhadinha, vai atrás. ― A morena sorria vitoriosa depois do grunhido da outra, dispensado Laurel com um gesto de mão.

― Ah, meu Deus, a coisinha está aqui! ― exclamou se assustando ao me ver ali.

― É sempre um prazer, Laurel ― empreguei uma dose de sarcasmo ao cumprimentar, me arrastei parando bem atrás do banco do motorista. ― Felicity, lembra?

― Ah, a namorada grávida do Tommy ― reconheceu, entrando no carro e fechando a porta.

― Essa mesma. E você, a namorada não grávida do Oliver.

― Noiva. ― Mostrou com orgulho o anel.

― Claro, a noiva. ― Assenti, como se admitisse meu erro para mim mesma. ― Tenho que ter cuidado para não confundir, hein?!

― Como assim?

― Nada não, eu sou maluca, o neném não te disse? ― Thea gargalhou alto do banco da frente, murmurando um "eu amo essa garota". ― Não vai dar partida no carro, Queen? ― Percebi que ele observava a cena pelo retrovisor.

― Ah, ele está esperando meu beijinho. ― Laurel se inclinou entre os assentos na frente, debaixo das reclamações de Thea e resmungos de Oliver para o que soltasse ou iam se atrasar ainda mais.

A festa estava acontecendo em um salão enorme de um hotel. Foi só quando cheguei lá que descobri que se tratava de um leilão de antiguidades doadas pelos ricos e famosos da cidade e com a renda vertida para alguma instituição de caridade.

Pelo que Thea me falou, era costume da empresa ser patrocinadora desse tipo de evento, e mesmo sem saber direito para que era a causa, mas sempre estavam por lá, posando de família linda e perfeita. Mas uma coisa eu tinha que admitir: era tudo muito lindo, brilhante e apelativo à atração ao dinheiro, da decoração, às roupas, joias e sorrisos das pessoas. Era como se eu estivesse pisando em outro mundo.

― Ali nossos pais, vamos lá.

Segui Thea quase que cegamente por meio de todo aquele povo que se cumprimentava e sorria como se fossem amigos de longa data que finalmente arrumaram algum tempo na agenda conturbada para estarem juntos, os irmãos e Laurel também parando vez ou outra para falar com as pessoas que os chamavam.

― Belo vestido, senhorita Smoak. Deveria ter lhe colocado alguma joia também, querida. ― Moira deu um beijinho no rosto da filha, ao mesmo tempo que a repreendia discretamente.

― Deixe disso, Moira, ela está belíssima ― Malcom rebateu também rindo, até que seu sorriso aumentou ao ver Laurel. ― Assim como minha nora. Deslumbrante, querida, deslumbrante. ― Beijou a mão dela e depois a girou.

― Obrigada, sogrinho. Vocês dois também, como sempre, perfeitos. Essas esmeraldas, Moira, divinas! ― elogiou o duo de colar e brincos de pedras verdes que a mulher usava.

― Gostou? Adquiri na minha última viagem à Índia. Quer saber, tenho uma pulseira desse mesmo conjunto, vou dá-la a você.

― Melhor sentarmos, não? Se essa conversa sobre joias ficar menos interessante, talvez eu arranque meus olhos com os garfos da salada antes do fim da noite. ― Thea propôs sorrindo falsamente.

Laurel rolou olhos, mas logo engrenou algum tipo de conversa com Moira na mesa, ainda mantendo Oliver preso pelo braço. Malcom ocupou o lugar ao lado da esposa e Thea do lado dele, sobrando para mim, sentar entre os dois irmãos.

Quando imaginei que seria uma noite chata e enfadonha, eu não tinha noção de como minhas previsões estavam erradas. Era muito, muito pior. Fora os lances caros e sem graça nenhuma, havia sempre uma explicação longa demais sobre cada item a ser leiloado, onde foi criado e as pessoas importantes a quem o objeto pertenceu.

Thea disse que depois dessa parte havia o coquetel e até colocavam algumas músicas, e que iríamos rir juntos dos velhos ricos tentando dançar, mas não parecia animador. Quando senti que ia cochilar e meu queixo quase pendeu para fora da minha palma, resolvi pedir licença e ir ao banheiro.

― Olha aqui, garota. ― Fui pega no susto quando, depois de duas voltas perdidas pelo lugar e finalmente avistar a porta do maldito banheiro, sentir meu braço ser arrastado por Oliver até um recuo atrás de uma planta. Esse homem precisa mesmo pegar algumas aulas de delicadeza. ― Não gostei nada da sua gracinha no carro. Tá tentando me enlouquecer?

― Ai, Oliver, deixa de ser um chato. ― Tirei sua mão do meu braço. ― Não disse nada de mais, você que tem o teto feito de um vidro tão fino, que morre de medo que qualquer pedrinha quebre.

― Não me teste ― ameaçou. Eu o estava irritando, e mesmo que isso testasse seus limites, me dava um prazerzinho sádico.

― Ou o quê? ― Coloquei minhas mãos na cintura, mantendo a postura, mas ele apenas mordeu o lado interno da bochecha, não falando mais nada. ― Ótimo, posso fazer meu xixi agora?

― Sem classe.

― Riquinho mimado ― grunhi de volta, entrando no banheiro e batendo a porta com força. ― Idiota.

― Essa festa está cheia deles, você vai ter que ser mais específica ― a mulher que arrumava o batom comentou, até que, ao olhar pra mim, seu rosto se inundou de reconhecimento. E eu também, sabia exatamente quem ela era, mesmo que só a tivesse visto uma vez, em trajes completamente diferentes. ― Amiga da Thea. Felicity, certo?

― E você é MacKenna, amiga do Oliver ― atestei e entendi a presença de Oliver me enchendo o saco por ali. Talvez ele tenha escapado das garras da noiva para encontrar a amante número um.

― Isso aí. ― Balançou a cabeça em concordância. ― Te arrastaram para essa festa? Não me leve a mal, mas você não me parece muito a vontade aqui.

Eu gostava da MacKenna. Não sei porque Oliver não decidiu ficar noivo dessa aqui e deixava Laurel e as outras para lá.

― Meio que isso. ― Dei de ombros. ― E você?

― A trabalho. ― Como a olhei sem entender, a morena resolveu explicar. ― Quando todas as peças têm valor mínimo de 50 mil dólares, é preciso uma forcinha extra da polícia.

― Você é policial? ― questionei chocada e ela riu.

― Oliver não te contou? ― Neguei com a cabeça. ― Enfim, melhor voltar ao trabalho.

― Ei, MacKenna ― a chamei, e nem sabia exatamente o que ia falar até as palavras saírem da minha boca. ― Laurel está aí com Oliver, só pra você saber. ― Ela sorriu, achando minha atitude de algum modo engraçado.

Me arrependi logo que fechei a matraca. Tinha prometido a mim mesma e a Oliver que não ia encobrir ou defendê-lo de nenhum jeito, e aqui estava eu, avisando para sua amante que a noiva estava presente. Bem burrinha você, hein, Smoak?!

― Tô sabendo, mas obrigada pelo aviso. ― Piscou para mim, saindo do banheiro.

Depois de fazer meu xixizinho, lavar as mãos e dar uma checada na minha aparência, ainda gastei uns bons minutos dando uma conferida naquele cômodo chique antes de ter que voltar ao salão. As toalhinhas felpudas, sabonete cheiroso, flores naturais na bancada, até às torneiras eram douradas, não duvidava de nada de fosse de ouro mesmo.

― Tudo bem, Susan, no seu apartamento, depois daqui ― ouvi os sussurros, e movida por pura curiosidade e saber de quem era aquela voz, me aproximei, parando em um ponto que não fosse vista pelo adorável casal.

Oliver e a amante número dois, vulgo, cara de fuinha.

― Eu tenho cara de prostituta que você visita em suas madrugadas, Oliver?

― Sem drama, ok? Laurel está aí, você sabe como ela é. E minha família também.

― Que saco! ― Cruzou os braços.

― Ei, eu te compenso mais tarde.

Quando percebi que ele começava a olhar para os lados para ver se estava sendo observado, me escondi atrás da coluna, até ouvir ruído de beijos. E essa foi minha deixa para voltar ao meu lugar na mesa.

― Demorou, já achei que tivesse fugido ― Thea brincou. ― O leilão acabou, finalmente vão servir a comida.

― Seu irmão é maluco ― sussurrei para ela. ― Como ele tem coragem de trazer a noiva para o evento em que as duas amantes estão presentes?

― Três ― cochichou de volta.

― O quê?

― Felicity, essa é Helena, melhor amiga da Laurel ― chamou minha atenção para a morena de pele alva e olhos azuis que ocupava o lugar de Moira e conversava animadamente com Laurel, sobre o que eu poderia apostar ser alguma bobagem.

― Quê? ― Meu queixo caiu aberto para a revelação.

― Helena Bertineli. ― Eu apenas a encarava com os olhos arregalados. — Ela entende nossa língua? ― perguntou a Laurel.

― Liga não, amiga, acho que ela é meio lerdinha. ― Fez um gesto de mão como se dissesse para a amiga não me dar importância. ― Ei, quer me ajudar a procurar o neném? Ele sumiu já faz um tempo, é sempre bom ficar de olho, sabe como essas mulheres são, pagam de ricas e certinhas, mas sempre estão em busca de enfiar as garras no homem alheio. ― Mostrou as unhas como se enfatizasse sua última frase.

― Claro que te ajudo a achar o Oliver, você está coberta de razão, amiga. ― As duas saíram batendo os saltos.

― E depois eu sou a lerda.

― A sua cara, Felicity! ― Thea estava parecia estar tendo seu maior momento desde que chegamos, de tanto que ria. ― Como essas mulheres… Deus, como ele tem coragem… Essa Helena é a pior, trai a própria amiga! E Laurel não descobre…

― Bem-vinda ao, como é que você diz mesmo? O mundo dourado de Oliver Queen.

~

― Merda de bife! ― xinguei quando falhei em cortá-lo pela terceira vez.

Mas a culpa nem era a coitada da carne ou da vaca alimentada com ouro e caviar que morreu para fazer esse jantar aqui, eu só estava sem paciência alguma, querendo ir embora desde o momento eu cheguei.

― Não deveria ser tudo vegano, não é o que os ricos e famosos estão curtindo esses dias?

― Alguém está de TPM… ― Thea cantarolou baixinho ao meu lado, e eu a olhei feio.

― Não posso estar de TPM, estou grávida!

― Não deixe Ollie atingir seus nervos ― aconselhou, acertando em cheio o que tinha me estressado mais na noite. ― Ignore ele, é o que faço com as pessoas a maioria do tempo. ― Deu tapinhas em meu ombro, parando para acenar para uma conhecida que passava.

― Que seja. ― Desisti da refeição, colocando o prato de lado.

― Ei, você fica bem aqui sozinha por uns minutos? Eu soube que o irmão daquela garota disse "não" pra noiva no altar semana passada, preciso saber desse babado completo, e colocar Ollie em contato com esse cara, talvez pegar uns conselhos.

― Tá, pode ir.

Não ia mais segurá-la, todos os outros membros da família e ocupantes da mesa já haviam tomado rumos diferentes cumprimentando pessoas e fazendo contatos logo após o jantar, e só ela tinha ficado para me fazer companhia.

Agora nem julgava mais Tommy por querer uma folga dessa vida, que universo chato do caralho. Uma vida mais simples e não obrigatória nos Glades pra variar devia vir quase como um alívio.

― Oi, Felicity. ― Primeiro olhei pra Helena com surpresa quando ela sentou ao meu lado, então respirei pesadamente, sem paciência alguma para conversa. ― Ah, entendi. A caçulinha Merlyn já te contou sobre Oliver e eu, e você automaticamente está me julgando.

― Não sei do que está falando ― desconversei, fingindo capturar com a ponta do garfo algumas ervilhas que haviam sobrado em meu prato.

― Você é mais esperta que isso, garota, admita.

― Isso aqui é algum tipo de conversa com ameaça? ― Girei para ela completamente. ― Porque se for, não precisa, já disse a ele que não quero ter nada a ver com essa história e não vou contar nada, só não me metam no meio.

― Bom. ― Pareceu satisfeita, e eu franzi os lábios irritada. Ela achava que mandava em mim?

― Não, não diz "bom" como se eu tivesse cedido às suas ameaças, faço o que quero, entendeu? E outra, estou julgando sim, você é a melhor amiga da Laurel, não tem outros caras com quem possa dormir que não o noivo dela? Isso é baixo.

― Você já deu uma boa olhada do Oliver? O homem é um deus ― respondeu com humor, parecendo achar graça da minha mini explosão.

Eu tinha dado uma boa olhada nele. Hoje. E sim, ele parecia ter sido desenhado por algum artista, mas ninguém precisava saber dessa minha opinião secreta e totalmente, repetindo, imparcial.

― Ele é outro, depravado e desrespeitoso. Pensando bem, vocês dois se merecem. ― Lhe dei as costas, torcendo para a mulher entender a indireta e me deixar em paz.

― Quanto moralismo para quem engravidou do outro irmão na primeira oportunidade que teve.

― Como é que é? ― Agora ele havia me estressado e ia levar uma na cara como estava pedindo desde que resolveu sentar aqui.

― Ei, o que está acontecendo aqui? ― Thea chegou na mesa, olhando para nós duas, então Helena apenas deu de ombros, ficando em pé.

― Nada, queridinha. Tchau, Felicity.

― Demônia! Só porque ela senta com a coluna reta quer ser melhor do eu? Sororidade é o caramba, eu já odeio essa mulher ― murmurei.

― Faz de nós duas, cunhada. ― Sentou ao meu lado. ― E se quer saber, ela parece que já odeia você também. Reciprocidade é tudo, não é mesmo?

― Ótimo, era o que eu queria. Uma solialite poderosa e maluca no meu pé.

― Vai por mim, ela não vai ficar no seu pé, porque é orgulhosa demais para admitir que só está com ciúmes do Ollie.

― Cium… Comigo? ― Se estivesse bebendo algo engasgaria com o absurdo da sugestão. ― Eu nem falo com o homem!

― Você mora com o Oliver, já basta. Helena é muito possessiva, maldita a hora que Ollie resolveu se envolver com ela. Eu falei, Tommy falou, mas não adianta, o homem é mais teimoso que um jumento.

― Possessiva é uma péssima característica para se ter quando é a amante.

― Você está corretíssima, mas deixa essa mulher pra lá. Vamos dar uma circulada, você está bonita demais para ficar nessa mesa a noite inteira.

― Não, Thea, não!

― Sim, Felicity, sim!

Começou a tentar me levantar puxando meu braço, e mesmo com toda a resistência que eu estava colocando, ela não desistiu até me ter andando com o braço enlaçado no seu pelo local.

Thea me apresentava como sua amiga, e com o tempo, enganar as pessoas sobre o que eu fazia na vida se tornou sua diversão. Cheguei a ser a mais jovem astronauta a viajar para o espaço até a nova e ainda não revelada heroína dos filmes da Marvel.

― Cunhadinha, olha aquilo.

Parei meu trabalho de massagear os pés cansados dos saltos enquanto estava encostada em uma parede para seguir meu olhar para onde ela indicava. De uma sala meio escondida, que ficava perto de onde devia ser a cozinha, saía MacKenna Hall, amante número 1, ajustando o vestido para baixo então retocando o batom em um espelho pequeno, olhando mais uma vez para os dois lados antes de andar até às outras pessoas e se misturar.

― Quer apostar quanto que Ollie sai dali em três, dois… ― Antes mesmo que ela chegasse no um, ele saiu, também checando os arredores, abotoando o terno e seguindo como se nada tivesse acontecido.

― Nojento. ― Espero mesmo que minha careta esteja tão ruim quanto a sensação. ― Ele é doido.

― Oliver tem transformado sua vida em algo tão enfadonho com o trabalho e o noivado, que essa é a única ação que ainda tem.

― Elas sabem umas das outras? ― Eu duvidava que soubessem, elas pareciam ter mais amor próprio que isso.

― Hm... ― Pareceu refletir por alguns segundos, batendo o indicador no queixo. ― Não, acho que não. As três sabem de Laurel apenas, e essa não sabe de nenhuma, óbvio.

― Hoje por exemplo, estão as quatro aqui, tudo poderia ruir como um castelo de cartas, qualquer uma poderia descobrir e fazer um escândalo. Como diabos ele consegue manejar isso para que não descubram?

― Amiga, se você perguntar isso para o próprio Ollie, é possível que nem ele saiba te responder ao certo.

― Nojento ― repeti, a ofensa e a careta.

― Vem, vamos procurar meus pais.

Encontramos o power couple conversando com outro casal bem parecido com eles, até fisicamente. O homem parecia ser o divertido, com seu terno chique, aliança super grossa no dedo, copo de whisky na mão. A mulher, cabelo modelado com laquê, jóias caras, sorriso contido e taça de champanhe. Era como se fossem todos da mesma espécie naquele planeta estranho.

Oliver se juntou a eles quase ao mesmo tempo que nós, e eu quase o imaginava seguindo pelo mesmo caminho, se tornando mais um magnata igual aos outros, com uma esposa de aparência ideal ao lado.

― Vocês ainda vão demorar? Tenho que ir pra boate. ― Thea nem fingiu ser educada, interrompendo a conversa e eu olhei alarmada. Se ela ia dali direto ao trabalho, qual seria minha rota para casa?

― Ainda é cedo, querida. Somos anfitriões do evento, precisamos cumprimentar a todos, mas vocês já podem ir.

― Ótimo, então partiu. ― Bateu uma palma animada. ― Vou usar Diggle, você volta com o Ollie, Felicity. ― E já girou os calcanhares e foi saindo, como se prevesse meu drama.

― Thea, Thea, Thea… ― Andei o mais rápido possível e quase não a alcancei. ― Você vai me deixar aqui só com ele?

― O que tem?

― Tem que ele é doido e me odeia!

― Ele não te odeia, só não é muito fã. Ainda. ― Não soltei seu braço, não poderia a deixar escapar assim. ― Você quer ir pra boate comigo?

― Diggle pode me deixar depois de você.

― Oliver nunca demora muito nesses eventos, já deve estar quase indo embora também. Se você for comigo até os Glades e depois para casa, vai chegar muito depois dele.

― Mas…

― Tchau, Felicity. ― Deu um beijinho em meu rosto e me deixou olhando desiludida para onde ela havia acabado de sair.

― Estamos quase indo também. ― Tomei um susto com Oliver falando atrás de mim, sem saber quanto tempo havia ficado ali parada e que ele havia nos seguido. ― Só preciso encontrar Laurel e vamos.

― Hey, vocês dois! ― Helena chegou cumprimentando como se fossemos velhos amigos. ― Vem aqui dois segundos, Oliver, precisamos falar sobre negócios.

O arrastou pelo terno sem ao menos lhe dar tempo para argumentar, piscando maliciosamente para mim, como se eu tivesse dúvida de alguma de suas intenções, os fechando dentro do banheiro feminino.

Só que os "negócios" estavam demorando demais e eu já estava impaciente, trocando o peso da perna e quase decidindo por procurar uma mesa e descansar os pés, enquanto planejava o assassinato de Thea. Até que vi a última pessoa que queria ver nesse minuto, andando na minha direção.

― Hey, coisinha, você viu o Ollie? ― Laurel olhava ao redor em busca do homem e eu, quase que por um instinto de "não faça um escândalo na hora de ir embora", dei um passo para o lado, para ficar entre a visão dela e o banheiro.

― Seu… Seu noivo?

― Não, o Arqueiro Verde. ― Como não lhe dei uma resposta à altura, ela apenas suspirou e continuou. ― É, Felicity, meu noivo.

― Deve estar com os pais.

― Eu estava com os pais dele, mas eles disseram que ele tinha vindo para cá.

― Ah, claro, que cabeça a minha! ― Dei um tapa em minha própria testa. ― Ele já saiu, foi buscar o carro. Pediu pra gente encontrar ele lá fora.

― E você vai com a gente? ― perguntou a contragosto.

― Thea me abandonou, tanto faz. Vamos indo lá pra fora?

― Pode ir, só vou ao banheiro ali rapidinho.

― Banheiro, que banheiro? ― Olhei dela para o banheiro atrás da gente e de volta para ela.

― Você é meio lerdinha, não é?

― Oliver disse pra você encontrar com ele logo, que não daria tempo de ir no banheiro. Foi estranho, mas ele disse especificamente isso. ― Precisava fazer umas lições com Thea, se fosse depender da minha habilidade para mentir, morreria de fome. E se Laurel caísse nessa, íamos provar quem era a lerdinha entre nós.

― Tá bom. ― Deu de ombros, comprando minha história e indo para a saída.

― Te alcanço em dez segundos. ― Corri até a porta do banheiro e comecei a socá-la, mesmo que a vontade fosse de socar o culpado de tudo isso. ― Oliver, sua noiva está a dois passos de descobrir isso de vocês. Eu juro por Deus que se você deixar eu e meu bebê lá fora no frio com ela por mais do que um minuto, eu a solto e ela derruba esse lugar com vocês dois dentro. Então, rápido!

~

― Ei! ― Me assustei quando Oliver deu dois tapas fortes na porta de trás do carro. ― Vem pra frente, não vou ser motorista de ninguém.

Rude.

Finalmente ele e Laurel haviam parado o momento obsceno de pegação na calçada do prédio dela e a mulher havia sido convencida de que ele trabalharia cedo na manhã seguinte, por isso não poderia ficar. Trabalho é o caramba, eu lembrava bem o compromisso dele ainda hoje, com a amante número 2.

O vento estava gelado e cortante, ainda mais do que mais cedo e dentro do carro, o que era uma terrível surpresa já que o homem parecia ser imune a frio e escolhia a temperatura interna do veículo como se morássemos na Sibéria ou coisa assim. Se Thea planejou me dar um vestido tão indecente, poderia ter arrumado um casaco também.

― Cinto ― ordenou quando eu mal havia acabado de sentar no carona, e logo que havia posto, arrancou com o carro.

― Como todas essas mulheres te suportam é um mistério que nunca vou conseguir resolver ― falei baixinho comigo mesma.

― Como é que é?

― Você e seu mau humor crônico. ― Eu poderia hesitar e dizer que não havia dito nada, mas não ia mais baixar a cabeça para ele. ― Viciado em trabalho, se desdobra em quatro para atender todas essas mulheres quando não está no escritório, é um filho e irmão ausente, moro na sua casa já faz um mês e nunca sequer te vi sorrir! Se acha isso normal, recomendo que procure uma terapia, a menos, claro, que vá dormir com ela também.

― Segura aqui ― falou simplesmente.

― Segurar o quê? Onde? ― questionei chocada.

― O volante, segura o volante por dois segundos! ― retrucou sem paciência, desafivelando o próprio cinto de segurança. Quando o fiz, ele passou o paletó pelos braços rapidamente, voltando a colocar o cinto e retomar o controle do carro. ― Pega, usa isso, não quero ninguém tendo uma hipotermia no meu banco de couro.

Por puro instinto de sobrevivência, acabei de aceitando e ao me agarrar ao terno que cobria meus braços e coxas, percebi como estava quente. Como ele poderia estar quente, se tinha o coração tão frio? E atenção para outro detalhe, o homem era cheiroso! Minutos de silêncio desconfortável se seguiram, até que resolvi falar.

― Por que faz isso?

― Isso o quê? ― Nem achei que ele fosse responder, mas como o fez, tomei como um incentivo a continuar falando.

― Por que trai sua noiva? ― elucidei melhor a pergunta. ― Você não precisa, pode apenas ficar solteiro e fazer o que bem quiser com a vida.

― E qual seria a graça? ― Um pequeno e meio sorriso desenhou-se no canto de seus lábios.

― Você quase foi pego hoje, Oliver. Tem noção do escândalo que Laurel faria naquele lugar se eu não ficasse em seu caminho e ela te visse se agarrando com sua melhor amiga? Ou quinze minutos antes e te visse transando a policial no armário? Ou uma hora antes e te visse com a aquela mulher da cara de fuinha? Ou se elas descobrissem umas das outras no meio daquele leilão chique patrocinado pela empresa que você é o CEO? E se tinha que escolher alguém, porque não a MacKenna, que é muito mais legal, gente boa, divertida e bonita?

― Você agora é quem decide com quem me relaciono?

― Se me colocou no meio disso, vai ter que lidar com minhas opiniões e comentários, e acredite, meu filho, eu tenho muitos sobre esse assunto! Quer dizer, você não procura garotas bobinhas que não sabem nada da vida, elas são mulheres fortes e inteligentes que deviam querer mais da vida do que ser amantes do cara mais egocêntrico que eu conheço!

― Você realmente tem muita opinião sobre tudo.

― Eu estou mentindo aqui? MacKenna uma policial foda, Helena podre de rica, linda e modelo, Susan…

― Repórter investigativa.

― E Laurel?

― Advogada criminal.

― Sério? ― Eu estava ainda mais impressionada. Quanto açúcar a senhora Queen passou nesse cara quando era criança? ― Qual o problema delas? ― Ele apenas balançou a cabeça, negando de leve, aquele sorrisinho idiota estampado novamente em sua boca.

― É pela adrenalina ― falou depois de algum tempo.

― O quê?

― A emoção de conseguir me esquivar de ser pego, como hoje à noite. ― Quando ele explicou mais ou menos o Thea também disse mais cedo, não sei se senti mais raiva ou pena. O quanto uma pessoa deveria estar morto por dentro para fazer isso deliberadamente com outros seres humanos apenas para satisfazer uma emoção passageira? ― E você está certa, elas são mulheres incríveis e inteligentes, que me fazem bem e eu faço a elas também. Pode não acreditar, Felicity, mas eu gosto muito de todas. ― Foi a primeira vez que ele me chamou pelo nome, e não sei porque registrei isso. Talvez porque soasse muito bem na voz dele, também objetivamente falando.

― Tem razão, eu não acredito.

― Isso já é problema seu.

Não conversamos mais até estar em casa. Oliver voltou ao seu modo turrão e eu só me concentrava para não morrer de frio, mesmo que seu paletó estivesse ajudando bastante.

― Ei, seu terno! ― o chamei, quando parei na porta do meu quarto e ele seguiu ao seu.

― Depois. ― Nem me deu atenção, batendo a porta ao entrar.

― Idiota! ― resmunguei.

E onde ele vai com tanta pressa? Ah, é! Lembrei de seu encontro marcado com Susan Williams. Não essa noite, querido.

Me aproximei sorrateiramente do quarto, e ao ouvir o barulho do chuveiro que vinha lá de dentro, entrei com a desculpa de devolver o terno. Deixei a peça em cima da cama, conferi se as janelas estavam bem fechadas, peguei as chaves da porta e a tranquei.

Queria ver o nível de disposição de Oliver em pular a cerca, se ele gritaria por ajuda, arrombaria a porta ou pularia a janela. Todos os cenários eram engraçados na minha cabeça e iam lhe ensinar uma boa lição.

Notas finais
Felicity e suas verdades jogadas sem filtro algum na cara do Oliver. Alguém precisa nos representar e dizer, não é mesmo? E afinal, eles conversaram sem brigar. Ou pelo menos sem brigar muito. Espero que tenham gostado. Até os reviews.. Bjs*