Breakin Soul
3 Pt.2- Primeiros Socorros: Haziel
Notas iniciais
Sem revisão, então critiquem à vontade.
– Não quer tentar voltar a dormir?– Você sabe que não sou bom em fazer isso. Além disso, o cheiro de comida está ótimo e eu tenho muita fome. Ele sorriu novamente e eu revirei meus olhos, acenei para que ele sentasse e continuei os preparativos quase infinitos. Peguei-me sorrindo e, sabendo que era devido ao bom humor dele, ri baixinho de mim.– Vai demorar... ok?– Se o gosto estiver tão bom quanto o cheiro eu esperaria até amanhã. Eu ri. Tinha que admitir que eu não era um dos melhores cozinheiros, mas tudo parecia estar ficando perfeito. Apontei para a televisão e ele a ligou quase que imediatamente. A minha camisa branca que ele vestia tinha caído-lhe perfeitamente, apesar da nossa diferença de idade seu corpo era bem parecido com o meu. Ele pôs em um canal de videoclipes musicais, a sessão de novos artistas apresentava-nos o quão ruim a música atual estava.– Acho que nós fazíamos um barulho melhor. Disse ele rindo, enquanto eu colocava todos os pratos na mesa, depois de quase uma hora. Ele serviu-se sem cerimônias mostrando-me que ainda sentia-se à vontade de estar comigo. Há dois anos, ele esperaria um convite. Continuamos conversando, até a campainha nos interromper. Ele levantou-se junto de mim e fez questão de ser o primeiro a chegar à porta, mesmo tendo esperado por mim para abri-la.– Esqueci de dizer que te ligaram. – Disse, com os olhos brilhando e a boca se abrindo em um sorriso. Coloquei minha mão na maçaneta e a girei, deparando-me com lindos e esperançosos olhos verdes. Kain pulou e os dois abraçavam-se mantendo uma ligação entre o lado de fora e o de dentro da minha quase quitinete. Em breve, e no que me pareceu em câmera lenta, aqueles esvoaçantes fios dourados vieram em minha direção, braços me envolveram e eu me vi em um dos melhores abraços de minha vida.– Eve!– Kain, por que você não me contou?– Surpresa! Kain sorriu novamente, Eve ainda não parara de sorrir e eu não sabia se conseguiria fazer com que as extremidades da minha boca parassem antes das minhas orelhas. Convidei-a para entrar e agradeci à minha louca vontade de fazer muita comida, ela sentou-se sem esperar convite e eu não conseguia acreditar que estávamos os três sentados em uma mesma mesa, rindo e com a mesma sincronia que antes.– Quando você chegou aqui?– Hoje. Liguei para você, já que é o único número que eu tenho- disse olhando para Kain, prevendo um olhar ciumento do mesmo- e para minha surpresa o Kain atendeu, me passou o endereço direitinho e eu peguei um táxi direto para esse prédio. Aliás, deixei minha mala lá na portaria, com aquele velhinho safado.– Safado? Kain e eu rimos em coro, enquanto ela preparava-se para explicar.– “Oh, minha filhinha, você não quer que eu te leve lá não? Tô velho, mas ainda sirvo pra alguma coisa. Se você quiser pode ficar aqui, o rapaz sempre sai quando é noite, enquanto isso a gente pode se divertir um pouquinho.”– E o que você disse?– Tá tio, me espera aí. Terminamos de comer e os dois fizeram-me sentar, enquanto lavavam o que eu tinha sujado e guardavam o que ainda podia ser aproveitado e jogavam fora aquilo que não serviria mais. Deparei-me com Eve observando a cicatriz de Kain enquanto enxugava lentamente um prato, ela desviou o olhar, pensativa, mas logo estava rindo e demonstrando que não havia mudado nada. Quando terminaram, fomos à minha pequena área onde o vento se fazia mais presente, e sentamos no chão.– Sinto muito não ter podido comprar nada pra você, Eve, mas as coisas estão meio difíceis...– O melhor presente de dezoito anos que eu poderia ganhar é poder estar aqui com vocês.– Você não sabe como fez falta, garota. – Kain deitou-se e acomodou a cabeça no colo dela.– Vocês também. Infelizmente, depois de tudo que aconteceu, minha família achou melhor se mudar. Não posso culpá-los. E como eu era menor de idade eles podiam vetar minhas tentativas de vir visitar vocês, assim como fizeram no primeiro mês.– O que importa é que você está aqui agora.– E que eu tenho uma surpresa pra vocês, moços.– Fala sério, eu sei o que é! – Kain sentou-se.– Eu trouxe meu teclado e já temos onde tocar hoje à noite. Trouxe nossos antigos microfones também. Estremeci. A idéia de poder tocar novamente com aqueles dois me trouxe uma sensação indescritível de alegria, todos os pêlos do meu corpo eriçaram-se como um ola em direção as extremidades de meus membros, para depois sentir que eu caía em um abismo. Eu havia vendido minha bateria. Não tinha espaço pra guardá-la no pequeno quarto que eu havia conseguido comprar com o dinheiro que ganhara tocando, e com outras coisas, então a vendi. Continuava com minha guitarra, mas o único com uma bateria era eu. Tinha deixado dinheiro guardado pra comprar outra bateria a qualquer momento, mas agora não dava, era domingo. Não dava. Senti as palavras rasgando minha garganta e abri a boca:
- Eu... Vendi minha bateria.– Percebi que você não tava mais com ela quando entrei no seu esconderijo aqui. – Disse ela, repreendendo-me. – Mas pode ficar tranquilo que aonde nós vamos tem uma. Na verdade, só precisamos levar um baixo.– Você merece um tiro, Haziel.– Eu precisava de um lugar mais perto da faculdade e do trabalho, não dava pra trazer ela pra cá. Fora que quando eu for vender este lugar aqui vai ser quase o triplo do valor que comprei. Eu não paguei nem seis mil nesse buraco. Kain torceu as sobrancelhas tentando entender como eu havia conseguido achar um lugar tão barato. Quando sua face finalmente voltou ao normal, quando ele decidiu que não importava, me respondeu ironicamente:– Desculpa, jovem empreendedor. Eve riu e levantou-se diante do descaso dele. Droga, nós estávamos juntos de verdade depois de tanto tempo e eles não haviam mudado nem um pouco.– Agora, levem-me até o Kevin. Kain levantou-se junto de mim e olhou com disposição para o céu. Ele sempre olhava para o céu, independente do seu humor. Sempre quis saber o que ele procurava lá, mas sabia que era algo tão pessoal que eu não ousava perguntar. Na verdade, eu tinha medo de fazer a pergunta e obter uma resposta verdadeira, aquilo era parte dele e eu não queria deixar de observar com a mesma sensação de dúvida aquele simples gesto. Ele cerrou o punho direito e disse: – Acho que podemos começar a nos arrumar, então. – Sorriu e correu para dentro da minha casa, gritando:– Eu uso o banheiro primeiro! Eve suspirou – Que saudade da casa do Kevin... – e pareceu seguir o rastro que Kain havia deixado, desviando mais à frente para sentar-se no sofá. Fiz o mesmo, mas dirigi-me ao meu quarto, ao único quarto da “casa”, para separar alguma outra roupa para Kain. Achei uma toalha lá dentro e esperei pelo previsível grito que viria do banheiro em alguns minutos. – Haziel, eu não trouxe toalha! – É, eu sei. – Rebati enquanto escutava Eve rindo. Fui até a porta do banheiro e bati duas vezes, ele a abriu e colocou a cabeça de fora. Eu levantei a mão para lhe entregar a toalha e avistei o pequeno espelho atrás dele. Suas costas estavam ali, como em outra realidade, flutuando na moldura prateada presa à parede. E, nas suas costas, a carne começou a abrir-se em finas linhas que faziam curvas por todo o perímetro da sua pele. As linhas, agora algumas consideravelmente grossas, começaram a ficar mais profundas, o sangue escorrendo por elas como a água saindo por uma rachadura.– Haziel? Desviei meu olhar para seus olhos e vi a preocupação estampada em seu rosto. Nada de dor ou pânico, preocupação. Olhei para minha mão e lhe entreguei a toalha, aproveitando para tentar ver suas costas novamente. Elas continuavam flutuando, mas estavam brancas como o resto de sua pele e lisas, intactas.- Obrigado. – Disse ele e fechou a porta. Fiquei parado durante um tempo ali, me dei conta de que ele iria sair a qualquer instante, saí andando o mais rápido que consegui para dentro do meu quarto, que tinha sua porta grudada à do banheiro. Sentei na cama e descansei o rosto entre as duas mãos, esperando que ele saísse do banheiro para que eu pudesse finalmente esfriar a cabeça e dar o fora para qualquer outro lugar o mais rápido possível. Escutei a porta do banheiro abrir e em seguida ele estava adentrando o quarto com a toalha em volta da cintura. Seu cabelo ainda molhado cobria a testa, mas não chegava aos olhos. – Esqueci a roupa também. – Disse, revirando os olhos, e eu apenas apontei para elas em cima da cama antes de levantar e entrar no banheiro. Não olhei para o espelho nem durante um segundo, e evitei toda e qualquer superfície que conseguisse refletir algo, por mais embaçado que fosse. Saí dali e apressei todas as etapas que faltavam até entrarmos no meu carro. Em dez minutos ou menos estávamos dentro do meu veículo, eu dirigindo, Eve do meu lado e Kain atrás. O teclado de Eve e nossa aparelhagem antiga (mesa de som, cabos, microfones) estavam no porta-malas. – Eve – começou Kain– onde vamos tocar?– Você sabe.– Sabe?– No Tonight’s, claro.– Sério?– Sim.– Não deve ter sido difícil pra Eve arranjar isso pra gente, – riu Kain– ou foi?– Não. – Riu ela.– O gerente ainda é o mesmo?– Sim. – Ela sorriu. – Nós somos bons, só tentei arranjar tudo mais rápido.– Não sei se ainda somos bons.– Estamos juntos, não estamos? – Perguntou Kain com sua voz manhosa, ela saía involuntariamente. – Então acho que ainda damos conta do recado.– É ali? – Perguntou Eve, apontando para grandes letras vermelhas que juntas diziam: Dark Sheep’s. Abaixo delas havia um grande par de portas marrons e duas roletas na frente das mesmas. A entrada para o bar estava mergulhada em sombras, e mais detalhes só poderiam ser observados se estivesse bem próximo a ela.– Com certeza. Encostei o carro usado e Eve saltou dele antes de qualquer um de nós. Desliguei o motor, abri a porta e vi que Kain não havia se movido um milímetro de onde estava. Eu conseguia enxergá-lo pelo retrovisor, olhando para o piso, mas desviou o olhar diretamente para o retrovisor.– Não sei se vou conseguir me segurar, Haz. –Ele sorriu, sem jeito.– Não segure. Às vezes, faz bem.– Por que não sempre?– Eu não sei responder. Para mim, ao menos, é somente às vezes.– Pra mim também. – Deu de ombros– Eu não esperava uma resposta. Ele saiu do carro e, quando parou ao lado de Eve me esperando, fiz o mesmo. Então, quando nós três estávamos lado a lado, Kain deu o primeiro passo e eu e Eve sabíamos que deveríamos ficar um pouco atrás. Seria mais difícil para ele, e eu sabia que para ela também não seria nada fácil. Ri mentalmente de estar pensando que para mim não seria tão difícil quanto para eles, mas no fundo sabia que era verdade. Não precisava pensar para saber que era verdade.– Está aberto– disse Kain, após ter entreaberto a porta. Ele a abriu completamente e pude ver que Kevin o olhava, assim como ele fazia o mesmo. Kevin estava em pé atrás do longo balcão de mármore que tomava boa parte da parede que ficava em frente à porta, protegendo as várias e extensas prateleiras de bebidas. Ele havia parado de contar o dinheiro que estava em sua mão, e o pôs lentamente em cima da caixa-registradora. A única luz acessa naquele local escuro iluminava sua face surpresa, ele abriu a pequena porta que o permitia sair detrás do balcão. Kain seguiu em frente e ele aumentara o ritmo de seus movimentos surpreendentemente correndo até o garoto de dezesseis anos que também se aproximava dele. Eve e eu permanecemos parados durante toda essa ação, e tenho certeza de que ela também percebeu que Kevin não parou de olhar para Kain nem por um instante, provavelmente com medo de perdê-lo de vista. Em segundos os dois estavam abraçando-se à nossa frente, não precisava enxergar o rosto de Kain para saber que lágrimas escorriam por ele e que demorariam a parar de escorrer. Eu sabia que não demoraria a acontecer, então aconteceu. Kain viu a cicatriz de Kevin e passou o seu indicador direito por ela. Pude ver seu dedo descer desde a testa até o nariz, cruzando o olho direito dele. Eu não sabia como ele ainda podia enxergar. E aquele toque no rosto de Kevin foi o que bastante para que as lágrimas de felicidade de Kain se transformassem em gotas de dor. Foi o que bastou para Kevin finalmente mostrar-nos que seus canais lacrimais levavam ao local certo. Os dois apertavam-se em algo semelhante a um abraço, em condições normais reclamariam da dor, sempre foram pouco tolerantes a essa sensação, mas eles não estavam se importando nem um pouco com ela. Eles queriam se sentir próximos, o resto não importava. E, ao ver que as unhas de Kain começaram a fincar-se no ombro de Kevin e que as unhas de Kevin faziam o mesmo na parte baixa das costas dele, Eve se aproximou dos dois e os tocou em suas mãos, como se dissesse um calmo e em tom de conselho “parem”. Os dois soltaram-se mostrando seus rostos vermelhos e Kevin limpou com as costas de suas duas mãos o rosto de Kain, que parara de chorar como se tivesse acabado de sair de um transe. Em seguida, beijou-lhe a face esquerda. Tomei aquilo como o gesto supremo de afeição que Kevin conseguiria exprimir a Kain. Kain se afastou dele, enquanto Eve o abraçava e sussurrava coisas em seu ouvido, e finalizou a tarefa que Kevin quase terminara, esfregou o antebraço no rosto e sorriu para mim. Ele nem tentou se segurar, afinal. Ele estava esfregando o braço direito agora, e eu achei ter sentido um pequeno arrepio nas minhas costas. Kevin soltou Eve e se aproximou de mim. Eu esperava um aperto de mãos, como era de costume, mas ganhei um quente abraço. Agora eu tinha certeza de que havia sentido aquele arrepio e que agora sentia outro, enquanto Kevin me abraçava. Talvez o longo tempo que passamos sem nos ver o transformou em alguém que demonstrava melhor o seu afeto. Ou talvez ele apenas não estivesse conseguindo segurar todos os sentimentos e sensações que passavam por seu corpo e mente. Eu optaria pela segunda, apesar de preferir criar outra opção. Agora, sem dúvida, eu sabia que Kevin nos amava e sempre havia nos amado, desde o dia em que nossos destinos se cruzaram e percebemos que não conseguiríamos continuar se não estivéssemos juntos, por que era assim que tinha que ser.
Acho que a opção correta seria: Kevin sabia o quão importante naquele momento era uma demonstração de seus sentimentos para nós, e queria que soubéssemos o que ele sentia. Queria deixar tudo bem claro, caso ocorresse algum imprevisto. Nós já sabíamos de tudo, mas ele queria mostrar que era algo tão forte que ele não se importaria em nos mostrar. Ele nos amava assim como amávamos ele, ou até mais, não duvidaria. Eu o conhecia perfeitamente bem para saber que tudo isso é verdade.Mas sei que algo nessa nova opção não estava corretamente dito, ou estava faltando por completo. Esse algo, talvez nem Kevin conseguisse dizer, pois talvez fosse algo que nem ele entendesse.– Não, eu vou levar ela sim. Kevin recusara-se a deixar sua guitarra e usar a do clube no qual iríamos tocar. Ele não tocaria sem a sua guitarra na nossa primeira apresentação depois de tanto tempo. Droga, eu estava sem a minha bateria, queria estar com ela. No final, não importava, eu estava com eles. E, rumando para a casa de Kain, estávamos os quatro juntos dentro do meu carro, rindo e colocando a conversa em dia. Nada de importante foi dito, era apenas conversa jogada fora. Mas aquilo tudo era importante para nós, estávamos aos poucos nos recuperando juntos, recolocando tudo em seu devido lugar, juntos. Nossas risadas misturadas nos faziam bem, eu sabia disso. Eu podia sentir, assim como eles, que eu me levantava e voltava à minha antiga vida. Não, agora era uma nova vida. Nova, pois agora éramos os mesmos garotos de três anos atrás, com a mesma energia de três anos atrás. A mesma felicidade de três anos atrás, por enquanto. Éramos uma banda de garagem de novo e nossas esperanças estavam renovadas. Por enquanto, o único motivo para nossa realização não ser completa tinha sido esquecido e eu preferia que não fosse lembrado naquele dia. Estávamos ajudando uns aos outros naquele momento, por que precisaríamos disso para agüentar o que viria em seguida. Para agüentarmos o que sabíamos ser inevitável que se aproximasse de nós. Afinal, iríamos atrás. Tínhamos que ir atrás e iríamos. Só precisávamos terminar de fixar os curativos e receber a dose certa dos remédios que estávamos precisando. Só precisávamos estar juntos de novo.
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