Breakin Soul
4 Pt.2-Pedaços que faltam: Kevin
– Ah, isso aqui tá praticamente do mesmo jeito! – Disse Eve, conectando um longo cabo em seu teclado, um cabo longo demais para o pequeno palco no qual disputávamos por um lugar, um cabo longo que já havia atravessado um palco igualmente longo. Haziel, atrás de nós, ria ao ver que Kain quase golpeara Eve com o seu baixo, ela apontou para ele quase imediatamente avisando-o para ter cuidado, sem palavras. O clube ao ar livre possuia várias mesas com alguns casais jovens, alguns talvez ou quase-noivos e alguns casais casados. Haviam amigos sentados em mesas mais próximas à nossa pequena plataforma de apresentação, conversando alto e cochichando uns nos ouvidos dos outros. Nas mesas mais próximas conseguíamos identificar algumas pessoas conhecidas que sabíamos estar ali apenas por nós. Parecia que alguns dos nossos antigos fãs continuavam sendo fãs, mostrando-nos que eram mesmo fãs de verdade. Sabíamos que devíamos a lotação daquele lugar a eles, que com certeza perderam toda a sua tarde espalhando por todos os lugares da cidade que conseguiram que faríamos mais uma apresentação depois de tanto tempo. O gerente do local se aproximou e fez um sinal positivo com o dedão e sorriu com o canto da boca para Eve, deveríamos começar. Aqueles fãs viram o que ele fez, e se aproximaram do palco. A adrenalina subiu por meu corpo, e eu deixei meu microfone na altura da minha boca, Kain fez o mesmo e balançou a cabeça mais rápido do que um cachorro que tinha saído do banho. Haziel deve ter entendido que ele estava pronto, pois bateu as baquetas uma na outra como costumava, três vezes lentas e três mais rápidas. Ele começou a tocar Perdido e Kain introduziu o seu solo perfeitamente. Os dois poderiam tocar a noite toda sozinhos e eu gostaria de escutá-los em perfeita sincronia, mas sabia que eles esperavam por mim. Mais alguns segundos e Eve e eu explodimos junto aos dois, o som de órgão que Eve estava nos dando ecoava por todo o lugar, e era como se eu pudesse ver os pêlos de todos na platéia se eriçando em seus corpos. Eu me sentia incrivelmente à vontade tocando junto deles, sentia que não me importaria de estar ali de roupas intimas se continuássemos tocando daquele jeito. Nós realmente tínhamos talento. Kain abriu sua boca e eu me preparei para sentir os meus pêlos se eriçarem. –Droga– pensei – não posso fazer o back.
– Um dia escureceu de vez, O azul do céu não era mais celeste Gaivotas sussurravam, tentando contar, E o mar avançava, sem se importar Um olhar distante, punho cerrado, Um sorriso a menos Ele prolongou a última palavra como deveria, e o fez de olhos fechados. Ele estava sentindo a música e não faria nenhum arranjo novo nela de última hora, não sem olhar para algum de nós. Eu sabia que ele havia percebido que eu não fiz o back, mas eu também sabia que ele estava quase em alguma espécie de transe. Todos nós estávamos, mas eu sabia que o que ele estava sentindo era algo mais intenso, ao menos algo mais intenso do que eu estava sentindo. Talvez porque eu tivesse percebido antes, não sei. Ele estava sentindo ela. Era algo visível e eu via que ele só se daria conta de que ela não estava ali até ser tarde de mais. No exato momento em que ele abriu seus olhos e reconstituiu todos os seus passos até chegar ali, percebeu que ela não cantaria. No exato momento em que ele abriu seus olhos, abri minha boca e quando a minha voz ecoou por aquele imenso local tão alta e nítida quanto a voz dele era, quanto a dela era, ele rapidamente apertou os olhos e me escutou. Por ele, todos nós teríamos parado de tocar apenas para me escutar, mas sabia que precisávamos agradar a um número bem maior de pessoas do que quatro.– Tento te alcançar, muito longe, muito Se um sorriso a menos, uma ferida a mais, Ferida que não se fecha não se cura não Fingindo não se importar... Eu não podia ver totalmente seu rosto, mas sabia que ele sorria. Também sabia que ter cantado apenas aquela parte que deveria ser cantada por ela não bastaria para ele, então senti as maçãs do meu rosto queimar e apenas escutei nossas vozes, em perfeita sincronia, atacando como deveriam os ouvidos ali presentes:Então, nove meses depois, Como está você? Como está você?Então, nove mil sorrisos a menos, Como está você? Como está?Passos na’margura, Sonhos, loucurasComo está você, Onde está você? Continuamos fazendo aquele mesmo esquema, e fizemos um ótimo som naquela noite. A nossa compatibilidade era assombrosa e com uma pequena ajuda dos nossos fãs até mesmo os casais mais “velhos” estavam perto de nós, agitando as mãos no ar, pulando e até mesmo dançando. Quando encerramos, o gerente veio falar conosco antes mesmo de recolhermos nosso equipamento. Tinha dado trabalho substituir as coisas do clube pelas nossas e nós havíamos apenas começado a desligar tudo quando ele começou:– Vocês trouxeram muito movimento pra cá hoje! – Disse, olhando apenas para Eve.– Que bom que você acha. Achamos que tínhamos te dado algum prejuízo, eu vi alguns fãs nossos que pareceram terem vindo aqui apenas por nós. Parecia que eles haviam apenas comprado os ingressos.– Não, nada de prejuízo! – continuou seu diálogo com Eve, enquanto ela se aproveitava de sua situação para deixar que nós guardássemos tudo – Temos uma política aqui na casa que ”pede” que todos que venham aqui consumam ao menos uma quantia mínima em refeições ou bebidas. Além do mais, esses garotos não conseguem passar a noite sem beber ou comer alguma coisa.– Que bom– ela sorriu– Desculpe ser tão direta, mas nós temos pressa e...– Ah! Sem problema, sem problema. Volto em um minuto. – Ele saiu de perto de nós e Eve esperou que ele sumisse de nossa vista para falar:– Vocês poderiam ser um pouco mais úteis, assim como eu, né?– Claro –respondeu-lhe Kain– poderíamos deixar de arrumar as coisas sozinhos, você poderia nos ajudar e assim teríamos tempo para conseguirmos coisas com os corpinhos sarados que temos. Vem, vem, deixa de fazer pose e vem ajudar a levar essas coisas pro carro.– Vou cuidar do nosso dinheiro e depois sirvo de burro de carga, tá bom pra você, moço?– Burro de carga?! Eve não respondeu, o gerente, Carlos, havia voltado com várias notas amarradas por uma liga amarela. Ele sorria para ela com o mesmo entusiasmo de tempos atrás. Escutei-a agradecer quando nós três voltamos após termos guardado nossas coisas no carro de Haziel.– Vamos Eve? Eu tô com fome. – Disse Haziel, com um olhar sincero.– Tchau Carlos, a gente se vê. Ela sorriu para ele e levantou a mão em um gesto de despedida. Ele nos deu as costas, e depois se voltou para nós novamente. – Eve... eu organizo eventos e estava precisando de uma banda... O que você me diz?
– Vou pensar! – Falou ela com a voz um pouco mais alta do que o normal, enquanto andava junto de nós para o carro. Uma vez dentro dele, ficamos em silêncio até sair do clube, como se não quiséssemos correr o risco de que aquele lugar escutasse qualquer coisa que viéssemos a falar. Ao cruzar o portal da saída, Kain nos presenteou quebrando o silêncio.– Kevin, você detonou!– Cara, sério, não consegui acreditar que era você.– Então somos dois! Disse Haziel seguido de Eve, eu novamente senti minhas bochechas inflamarem. Desmanchei o pequeno sorriso tímido que havia começado a formar-se no meu rosto, sabendo que Eve falaria algo naquele momento que teríamos que escutar mais cedo ou mais tarde.– Sabem que não podemos fugir de visitar a Melanie, né?– Nem mais um pouco. – Disse Haziel, soltando uma das mãos do volante para coçar a cabeça enquanto fazia uma curva à esquerda.– Amanhã, no horário de visitas. – Disse Kain, olhando para o nada – Vamos dormir juntos hoje, né? – Passei o braço pelo ombro dele, ele encostou a cabeça no meu e depois o soltei.– Sim.–Sim. Responderam Eve e Haziel em uníssono. – Minha casa hoje, ok? – Eu disse, antes que Haziel se irritasse comigo por tentar mudar sua rota quando fosse tarde de mais. Ele parou em um fast-food e Eve fez os pedidos por todos nós.– Espero que fiquem felizes em saber que o dinheiro que ganhamos hoje dará para comprar nosso jantar nesse fast-food mais quatro vezes. Disse ela, nós sorrimos. Seguimos para minha casa, que ficava há alguns metros do Dark Sheep’s e Haziel guardou seu carro em minha garagem, ao lado do meu. Tranquei o grande portão negro e pedi a Eve que abrisse a porta, enquanto eu pegava minha guitarra no porta-malas do carro de Haziel. Kain esperou parado, em pé, segurando várias sacolas onde encontraríamos nossos milk-shakes e sanduíches gigantes. Entramos até a sala, acendi a luz e fomos até a cozinha, sentamos à mesa e começamos a comer. Não conseguimos comer tudo e guardamos para o café da manhã mais tarde, já havia passado da meia-noite. Não pensaríamos duas vezes antes de fazer daquilo nossa primeira refeição matinal. Fomos nos deitar sem conversar muito, Eve utilizou o quarto de hóspedes e os dois garotos acomodaram-se nos sofás da sala, depois de eu insistir que os dois poderiam dormir juntos na minha cama. A noite passou rápido e eu tentei pensar junto de meus travesseiros sobre tudo que tinha acontecido naquele único dia. Após dois minutos de um intenso debate de pensamentos, eu adormeci.
Notas finais
Escrevi bem rápido, joguem as pedras ;s
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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