Notas iniciais
Bem, sem personagem narrador nesse, apesar de não gostar muito dele, é importante para a história.
– Como você sabia que caminho eu tomo pra vir pra casa?

– Eu não sabia, sabia por onde você morava, mas não exatamente. Esperava te ver em um café, alguma lanchonete, mas não esperava que você me achasse.

Kain estava sentado na cama enquanto o outro olhava para a rua, seu olhar perdido nas infinitas gotas que caíam.

– Haziel... Posso dormir aqui hoje?

– Não tem nenhum problema? Sabe, você ainda é menor de idade, pode dar alguma confusão por isso.

– Meus pais não se importam.

Haziel apoiou-se na janela e sorriu.

– Tudo bem então. Quer dormir agora?

Kain colocou sua xícara no pequeno criado-mudo e deitou-se na cama, olhou para Haziel e disse:

– Não sei. Na verdade não sei se vou conseguir dormir, só não queria sair daqui.

– Algum problema em casa?

– Não, não. Você sabe que raramente tenho algum problema com eles. Na verdade, há muitos anos não tenho um problema sério com eles. Só que, nesse momento, preciso de você.

– Sinta-se em casa.

Haziel aproximou uma cadeira de madeira à cama e sentou-se nela, coçou os olhos, bocejou, olhou para Kain como se tentasse entender o porquê de estar olhando-o, levantou-se e disse:

– Você precisa trocar essas roupas.

Kain curvou o pescoço para frente, olhou para suas roupas e voltou a largar a cabeça no colchão. Virou-se para o outro e examinou-o, Haziel estava tão molhado quanto ele, então sorriu pela primeira vez naquele dia.

– Você também.

Haziel correspondeu o sorriso, satisfeito pela evolução que estavam tendo. Abriu seu pequeno guarda-roupa e vasculhou-o por algo que mantivesse a temperatura de seus corpos agradável e percebeu que precisava comprar algumas roupas com essas características. Ficou na ponta dos pés e tateou a parte de cima do seu gasto móvel, achando alguns cobertores que deveriam esquentar o suficiente. Atirou um cobertor, uma camisa e uma bermuda para Kain, tirou o casaco e a camisa, exibindo suas costas nuas e a cicatriz que a atravessava do ombro esquerdo até entrar na extremidade direita de sua calça.

- A sua ainda queima?

Perguntou Kain massageando o braço direito, enquanto olhava para a guitarra vermelha de Haziel encostada na parede, ao lado de um amplificador. Haziel vestiu uma camisa parecida com a que tinha entregado para Kain.

– Sim. É uma sensação engraçada, até. Diminuiu bastante...

– Achei que isso continuava apenas comigo...

Ele balançou a cabeça e se trocou, levantou-se e foi ao banheiro exibindo a irmã gêmea da cicatriz de Haziel no seu braço direito, sua mão não escapara ilesa também.

– Kain, quer comer algo?

– Não, valeu!

Kain gritou a resposta do banheiro, enquanto lavava o rosto. Enxugou as mãos e olhou-se no espelho. Não enxergou apenas seus olhos azuis ali, seu rosto não estava sozinho naquele espelho. Ele voltou a balançar a cabeça e saiu dali apressado, procurando por Haziel. Avistou seu anfitrião na cozinha, colocando algo no aparelho de microondas, e aproximou-se dele. Os dois passaram o resto da noite trocando poucas palavras, mas ambos sabiam como sua companhia era importante para o outro e como aquela noite estava os levantando do passado que ainda os impregnava.