– Meu melhor... amigo?

Aquele homem, chamado pelo nome de Rosinante, realmente era bem diferente de seu irmão mais velho. Ao contrário de Doflamingo sua aura era extremamente positiva e seu sorriso encantador.

– Sim! Eu sou Rosinante, irmão mais novo do Doflamingo. E você?

– Trafalgar Law... – O garoto ainda parecia tímido. – O seu irmão me adotou.

– Trafalgar? Engraçado, acho que já ouvi esse nome em algum lugar... bom, não importa! Bem-vindo à família, acho que você é meu mais novo sobrinho.

Depois dessas últimas palavras, Doflamingo chamou o irmão para terem uma conversa particular, enquanto os dois garotos ficaram aguardando na sala. Parecia ser algo bem importante e sério.

– Rosinante, precisamos conversar sobre esse garoto.

– O Law, né? Ele parece bonzinho. Me surpreendeu o fato de você tê-lo adotado, você não é disso!

– É exatamente por isso que precisamos conversar, ele é filho daquele homem. Trafalgar, lembra-se?

– É, isso eu percebi, mas e daí?

– Como assim e daí? Isso é um problema! Ele pode ser má influência pro Dellinger. Tal pai, tal filho, não é?

– Você não pode culpar uma criança pelos pecados do pai, Doffy! Não quero nem saber o que você fez com ele até agora, mas provavelmente boa coisa não foi. O garoto parecia totalmente em choque!

– Eu não fiz nada demais, ele já veio assim. Mas trocando de assunto, o Vergo não está sabendo lidar com alguns problemas da fábrica, você não quer voltar ao comando não?

– Eu gostaria muito de te ajudar com as suas ideias loucas, mas não. Minha saúde está cada vez pior, não sei se eu seria mais útil do que o Vergo.

– E a sua saúde está boa o suficiente para levar o meu filho até o parque no aniversário dele? Ele sente saudades do tio.

– Pra isso eu sempre tenho saúde! Desse jeito eu posso me divertir com o Dellinger e ainda conheço mais o Law. É claro que eu levo eles ao parque!

– E quem disse que aquele garoto sujo vai? Ele não iria querer mesmo, deixa ele trancado no quarto.

– Ai, credo, você é muito malvado. Eu vou levá-lo sim, vai ser divertido! Quem sabe assim ele não fica mais feliz?

– Argh, faça o que você quiser. Eu vou estar ocupado no trabalho de qualquer maneira mesmo. Preciso resolver aquele assunto antes que a mídia fique sabendo!

– É? Boa sorte então, mas vê lá o que você apronta!

E assim, os adultos foram ver as crianças. Dellinger parecia entusiasmado com a ideia do parque de diversões, porém Law não emitia qualquer tipo de reação. Doflamingo foi para seu emprego e os dois seguiram

Chegando lá, tinham vários tipos de brinquedos: roda gigante, montanha russa, trem fantasma... tudo o que dois garotos precisavam. É claro, Rosinante parecia alegre como uma criança igual a Dellinger, mas Law continuava na mesma.

– Ei, Law! – O adulto chama o garoto, sorrindo como sempre.

– Oi...

– Que tal você escolher o primeiro brinquedo? É a sua primeira vez em um parque, não é?

– Nem pensar! – Dellinger interrompe. – É o meu aniversário, tio, eu é quem escolho!

– Você está sendo egoísta, qual é o problema do Law escolher? Os dois vão se divertir igualmente.

– E o que esse pirralho sabe sobre diversão? Ele só fica lendo livros o tempo todo, é muito chato!

– Eu não me importo... – Law resmunga. – Pode escolher qual você quiser.

– Viu só, tio? Ele não se importa!

Rosinante desistiu de discutir com o sobrinho egoísta e acatou a decisão dele de escolher. O tio levou os dois garotos a todo tipo de brinquedo e Dellinger ria o tempo todo, se divertindo, enquanto Law permanecia o mesmo.

A feição de tédio profundo posta no rosto de Trafalgar irritava o mais velho profundamente. Rosinante tentava fazer de tudo para entretê-lo: contava piadas, comprava algodão-doce, sorria para ele, mas nada funcionava.

A única coisa que conseguia nisso tudo era deixar Dellinger com ciúmes, já que o próprio tio dava mais atenção ao irmão adotivo do que para ele. E justo no seu aniversário, dia que, obrigatoriamente, ele deveria ser o centro das atenções.

Quando voltaram para casa já era fim de tarde, porém Doflamingo ainda não havia retornado do trabalho. Dellinger foi tomar banho ao mando de Rosinante, que ficou com Law no quarto para conversarem.

– Trafalgar Law, certo?

– Sim...

Rosinante parecia estar com um aspecto mais sério e responsável, porém não deixava sua aura alegre e colorida de lado. Ele pois Law sentado na cama e sentou-se à sua frente, para ficar na altura do garoto.

– Posso saber o motivo de você ficar com essa carinha tão triste?

– ... – Law virou o rosto, para não responder a pergunta.

– Não precisa ficar assim, só estamos nós dois no quarto. Eu quero ser seu amigo!

O mais velho sorri para o novo sobrinho, que começa a voltar a olhar em sua direção, falando com uma voz baixa e tímida, um pouco corado também.

– Eu... não posso falar...

– E por que não? É sobre o meu irmão mais velho?

– ...

Law afirma com a cabeça, o que faz Rosinante perceber qual era o real motivo dele não poder falar nada. O homem loiro senta-se ao lado da criança, passando seus braços entorno dele e o puxando pra mais perto.

– Escuta aqui, você não precisa ter medo de me falar nada. Eu não sou igual ao meu irmão.

– ... Como eu posso ter certeza disso?

– Argh. – Suspira. – Ele te trancou no porão, não foi? Eu disse pra ele se livrar daquela coisa!

– ... O que são aquelas marcas de sangue?

– Aquilo é o resultado de quando você tenta arranhar uma porta trancada. As suas unhas vão se quebrando lentamente e saem sangue de seus dedos, mas você não consegue parar de arranhar mesmo sabendo que nunca vai sair de lá.

Trafalgar ficou completamente arrepiado ao ouvir aquelas palavras, já que ele imaginou tal ato acontecendo com ele. De certo, ele pensou em arranhar as portas até seus dedos sangrarem, mas não teve coragem de fazê-lo.

– P-Por quê? Por que alguém faria isso? Quem foi?

– Antes dos nossos pais morrerem, nós morávamos nesta mesma casa. E bem, digamos que os nossos pais eram bem... severos.

– Então quem arranhou a porta... o sangue... é seu e do Doflamingo?

– Não, o sangue é só dele. Os meus pais eram mais tranquilos comigo, porém com o Doffy era diferente, já que ele é herdeiro direto da fábrica Smile. Ele ficou traumatizado, mas nunca fez isso com o Dellinger. Pro filho ele só conta histórias mal-assombradas sobre esse quarto.

– Hm...

Ao ver que Law parecia mais assustado do que antes, Rosinante saiu da cama e ficou o olhando de frente, dando um beijo em sua testa e voltando a sorrir como fazia antes.

– Ei, não fica assim... eu prometo que aquele idiota nunca mais vai fazer isso com você, ok?

– Tá. – Ele concorda, mas continua parecendo preocupado.

– Ei, Law, você pode sorrir pra mim?

– Sorrir? Por quê?

– Desde quando nós precisamos de um motivo pra sorrir, não é mesmo?

Rosinante mostra no rosto o maior sorriso que poderia fazer, afim de tentar amolecer o coração do garoto. Sem sucesso, é claro.

– Você sorri o tempo todo, parece um idiota.

– U-Um idiota?! – O loiro faz uma cara de surpresa e desânimo, sussurrando para si mesmo. – O Law disse que eu sou um idiota... e eu só estava tentando fazê-lo sorrir...

– É, um idiota. – Law finaliza falando bem direta e friamente.

Rosinante P.O.V

Esse garoto é impossível! Como eu vou fazê-lo rir desse jeito? Que coisa... como alguém tão novo pode ter um olhar tão vazio e frio? Da até pena em pensar em tudo que ele passou, principalmente com o pai biológico e agora com o Doffy.

Mas eu não posso desistir! Tem que ter uma maneira de tirar um sorriso desse coração despedaçado dele. O pior é que se eu tentar, eu tenho medo dele me chamar de idiota de novo...

Então o único jeito é agir feito idiota!

– Ei, Law! Veja isso!

Peguei um isqueiro do meu bolso e fiz um truque, parecendo que iria queimar meus dedos de mentirinha, enquanto fazia caretas para ele. Law não esboçou nenhuma reação.

– Você parece mais idiota ainda.

Aaaaaaaaaaaah, como dói quando ele fala isso! Sério, é incrivelmente ruim quando você tenta alegrar alguém e essa pessoa só fica te chamando de idiota o tempo todo. Mas eu não posso desistir!

Enquanto eu estava pensando, sem perceber, o isqueiro começou a pegar no meu ombro e a queimar minha roupa.

– Ué, tá com um cheiro de queimado por aqui...

– Seu ombro tá pegando fogo. – Ele aponta.

– AAAAAAAAAAAAAH, MEU OMBRO TÁ PEGANDO FOGO! SOCORRO!

Sai correndo pelo quarto, tentando rolar no chão, bater com o ombro nos móveis, gritar mais ainda, rolar no chão mais uma vez... tudo pra tentar apagar o fogo. E o pior de tudo, Law não esboçava nenhuma reação e nem tentava me ajudar!

– Você é idiota?

– Aahn... o fogo apagou! Eu pensei que fosse morrer!

– Só a sua camisa pegou fogo, bastava tirá-la e pisar em cima. Não estava queimando a sua pele de verdade.

– T-Talvez não estivesse, mas essa é uma camisa nova. Ela é cheia de corações fofos.

– Corações...?

– É! Você gosta de corações, Law?

– Não.

– Credo, tem alguma coisa que você goste?

– Não.

Tá bom, não tem nada que esse garoto goste. Eu preciso dar um jeito de fazê-lo sorrir, mas é impossível! Que tipo de criança não riria quando um adulto pega fogo? Sério, tem que ter algum jeito... qualquer um...

Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, Dellinger terminou seu banho e entrou no quarto. Ao ver o irmão, Law desceu da cama imediatamente antes que o mais velho notasse.

– Chegueeeei! Sentiram minha falta?

Dava pra ver que ele não gostava do irmão, isso era visível demais. Só de vê-lo Law ficou pior do que antes e saiu da cama com medo, provavelmente, dele brigar e contar pro Doffy.

– Chegou o aniversariante do dia! Seu pai ainda não chegou, você vai dormir já?

– Não, acho que vou jogar um pouco de videogame. Você vai dormir aqui, tio Rosinante?

– Sim, eu vou ficar aqui por um tempo. Ah, boa ideia! Vocês dois podem jogar juntos, não é?

– Jogar com esse idiota...? Até parece. – Ele resmunga e sobe na cama, começando a jogar.

Já deu pra notar o motivo do Law não gostar do irmão, ele é incrivelmente egoísta. No parque o tempo todo ele tentava desviar a minha atenção para si, e ignorava o irmão o tempo todo. Com essa convivência vai ser mais difícil ainda fazer o Law sorrir!

– Ei, Law.

Chamei-o com uma ideia em mente. Eu não sabia bem o que iria fazer daqui em diante, mas eu não posso mais deixar o Law nessa situação com o meu sobrinho. Disso eu tenho certeza.

– Hum?

– Quer dormir comigo no meu quarto hoje?

– T-Tanto faz...

Beleza, ele aceitou! Ele ficou meio vermelho e a voz falhou, mas pelo menos ele aceitou. Agora eu só tenho que pensar no resto do plano para fazê-lo sorrir hoje. Aliás, já é tarde, aquele babaca do Doffy não vai chegar não?

Foi só eu acabar de pensar que ouço a campainha tocando e a voz do meu irmão mais velho alertando-me de sua chegada. Agora é a hora de falar com ele direito!

Rosinante P.O.V off

Após ouvir as batidas na porta, Rosinante desceu as escadas para saudar o irmão. Doflamingo carregava seu sorriso sarcástico como de costume, cumprimentando o mais novo com o ar mais simpático que podia fazer.

– Olá, irmão! Como foi o dia?

Por outro lado, a raiva contida em Rosinante após saber o que o outro aprontou com o garoto adotivo, transparecia em seu rosto. Em uma atitude que o mais novo não estava nada acostumado, ele segurou o irmão mais velho pela camisa e gritou.

– VOCÊ FICOU LOUCO, DOFLAMINGO?