Brave Heart
1 Prólogo
Notas iniciais

É... eu ainda me lembro. Faz realmente muito tempo, não é, Cora-san? Quando nós nos conhecemos eu tinha só seis anos. Era jovem demais. Era jovem, sem família, totalmente perdido no mundo. Até encontrar você. Obrigado por me salvar. Obrigado por tudo.
~ X ~
Em plena Inglaterra atual, uma família de alta classe era responsável por comandar a maior fábrica de doces e brinquedos do mundo. Esta família, conhecida pelo nome Donquixote, vem trazendo a alegria de muitas crianças e jovens adolescentes desde os tempos antigos e, por isso, é extremamente admirada por todos.
Quem comanda a fábrica é um homem chamado Doflamingo de trinta e dois anos, solteiro e com um filho. A mídia sempre mostrava a relação amorosa do pai com o jovem herdeiro como sendo um exemplo para diversas famílias. Porém, não era bem assim realmente.
Por trás de uma pessoa pública, que estava sempre sorrindo e de boníssimo humor junto com uma alegria contagiante, Doflamingo não passava de um aproveitador. Seu filho pouco se importava, porém sua real personalidade era fria e mórbida.
Era uma tarde ensolarada qualquer, o homem loiro bem-sucedido trabalhava em seu escritório, assinando papéis de contratos. Um cotidiano típico. Mas algo naquela tarde iria mudar a sua vida sem que ele percebesse.
- Jovem Mestre?
Um de seus empregados tocou-lhe a porta, chamando-o por seu apelido dado carinhosamente pelos jornais, por ser conhecido como o herdeiro mais novo da fábrica.
- Sim, pode entrar.
Após concedida a permissão, o operário entrou segurando uma criança pelos braços. Era um garoto bem pequeno, da idade de seu filho, portando cabelos negros e uma cara de extrema arrogância, junto com olheiras pesadas abaixo de seu olhar.
- Perdão por incomodá-lo, mas este garoto entrou na fábrica e fez questão de falar com o Senhor pessoalmente. Disse que era assunto particular.
Doflamingo levantou-se, pedindo para que o homem saísse, e foi em direção ao tal garoto, agachando para ficar na sua altura. Ele tentou ao máximo por em seu rosto uma expressão amigável, porém o olhar da criança realmente o deixava inquieto.
- Olá! O que deseja? Quer um brinquedo?
- Não, eu quero que você me adote.
Mesmo não passando de uma criança, ele falava com um tom realmente bem grave, como se estivesse dando uma ordem. E foi um pedido bem direto, que fez com que Doflamingo arqueasse uma sobrancelha.
- Perdão?
- Meu pai morreu e disse que você cuidaria de mim. Foi pra isso que eu vim, então não me faça perder tempo, por favor.
Antes que pudesse recusar tal pedido absurdo, o garoto entregou-lhe uma carta com o último pedido de seu pai.
“Olá, velho amigo!
Me desculpe por entrar em contato tão de repente com você, mas eu realmente preciso da sua ajuda. Lembra que eu te fiz um favor há dez anos atrás e você prometeu que iria retorná-lo? Pois então, agora é a hora.
Cuide do meu filho! Sei que é um pedido inimaginável, mas eu estou desesperado. A mãe dele morreu, não vai demorar muito para que eu tenha o mesmo destino. Se você estiver lendo isso, é porque eu já estou morto. Cuide bem dele, seu nome é Trafalgar Law. É um bom menino.
Att, você sabe quem.”
- Trafalgar...? É, realmente, eu sei quem é.
Sua expressão de falsa alegria se transformou em receio e dúvida. Ele não parecia muito feliz ao reaver aquele nome.
- Então vai cuidar de mim? Eu não tenho dinheiro, então não posso te pagar.
- Argh... eu não preciso do seu dinheiro, garoto, mas eu realmente não posso recusar este pedido. Ótimo, vou lhe dar o que tu queres.
- ... Como eu devo te chamar?
- Bom, você pode me chamar de pai, padrasto ou pelo meu nome. Isso fica a seu critério, mas eu ainda não me sinto à vontade para chama-lo de filho. Aliás, qual é a sua idade, Law?
- Tenho cinco. E meio.
- Cinco, é? Eu tenho um filho de sete, acho que vocês dois se darão bem. O nome dele é Dellinger.
E, após o expediente, Doflamingo retornou a sua casa. Era a maior mansão no bairro mais nobre da Inglaterra, um lugar realmente bem grande e com um quintal chamativo. Também tinham vários brinquedos e ursos de pelúcia espalhados por todo o perímetro, por enfeite.
Entraram em casa e Law estava de mãos dadas com o seu novo pai, assustado com a grandiosidade do local. Não estava acostumado com tamanha exuberância, mas tentou ao máximo se adaptar. Um garoto pequeno, loiro, se aproximou aos gritos e sorrisos.
- Paaai! Finalmente, o senhor chegou! Que saudades!
- Oh, filho! Eu me atrasei um pouco graças ao trânsito, mas eu quero te apresentar uma pessoa.
- Oi... – Law se escondia nas pernas de Doflamingo.
- Quem é ele, pai? – O garoto parecia confuso. – Ele parece meio sujo...
- Ele veio de uma cidade bem afastada e provavelmente enfrentou muitas horas de viagem. Só precisa de um banho, nada demais, mas cadê a sua educação?
- Ah, desculpa! Meu nome é Dellinger, e o seu?
- Trafalgar Law...
- Ele será seu irmão mais novo, então eu quero que você o trate muito bem. Entendeu?
- Eeeh? Sério? – Ele ficou confuso novamente, mas até que não parecia infeliz.
Doflamingo explicou toda a situação envolvendo o encontro repentino dos dois e o fato de seu pai biológico ter morrido, confiando Law em suas mãos. Dellinger aceitou a ideia de ter um irmão mais novo e ambos foram mostrar a casa para Law.
Durante a visita, eles apresentaram a empregada da casa, apelidada de Baby Five pela própria criança loira sorridente. Após, Law e Dellinger foram tomar um banho de banheira juntos.
- Ei, Law!
- Hm?
- Você é meio quietinho, né? E parece um pouco emo também. Você passou por um trauma ou algo do tipo?
- Minha irmã, pai, mãe e amigos morreram na minha frente...
- Wooow, sério? Parece até um filme! E como você sobreviveu?
- Meu pai deu a sua vida para que eu pudesse escapar. E por que está fazendo todas essas perguntas?
- Curiosidade, ué! O papai disse que eu tenho que te aturar, então pelo menos eu quero saber da sua história. Você foi responsável pela morte do seu próprio pai? Que coisa...
- CLARO QUE NÃO! – Ele fica com raiva e levanta a voz, assustando o outro.
- C-Calma! Você vai me bater? – Ele começa a chorar. – Eu só disse o que eu penso!
- O meu pai morreu tentando me salvar! Eu não tive culpa de nada, não fale como se conhecesse o meu passado!
Law estava com muita raiva e ofegante, extremamente diferente de antes. Ele não gostava de tocar no assunto da morte do pai, principalmente do jeito que o outro garoto tinha falado, como se ele fosse culpado de alguma coisa.
- P-Para de gritar comigo, ou eu vou chamar o meu pai!
- Pode chamar, eu não ligo.
Dellinger saiu correndo do banheiro, totalmente pelado, gritando por seu pai. Imediatamente, o dono da casa pega seu filho no colo e vai até o banheiro, pronto para dar um sermão em Trafalgar.
- O que significa isso? Você está nessa casa há cinco minutos e já fez meu precioso filho chorar?
O garoto loiro fingia chorar no colo do pai, mas mostrou um sorriso malicioso em direção ao outro, como se estivesse zombando dele.
- Não é culpa minha, ele começou. Ele falou mal do meu pai.
- Se ele falou mal, ele deve ter tido motivos! Eu conheci seu pai, ele era um chantagista terrível que não servia pra nada. Um verdadeiro lixo.
Após aquelas palavras odiosas ditas em um tom terrivelmente duro e direto, sem nenhuma expressão no rosto, Trafalgar fica com ainda mais raiva e parte para cima de Doflamingo, puxando suas pernas.
- NÃO FALA ASSIM DO MEU PAI! ELE SALVOU A MINHA VIDA!
- E desde quando a vida de gente inútil como você me interessa? Você é só um fedelho que cheira a merda, não levante a voz pra mim!
Law simplesmente não entendia o motivo do outro agir assim tão de repente. Quando ele chegou em casa, foi tão bem recebido, mas agora aquelas palavras o deixaram inquieto. E o pior, ele não poderia fazer nada para defender seu pai.
Doflamingo deixou seu filho no chão e segurou o outro pelos braços, de uma maneira extremamente forte e rígida, o arrastando ainda sem roupas para algum lugar que ele não sabia onde era.
- PARA, ME SOLTA! ME LARGA!
- Cala boca! É isso que eu ganho por te deixar morar aqui de graça? Aprenda a se comportar antes de pedir favores!
Os dois vão andando até chegarem em uma porta que ficava no porão da casa. Aquela porta parecia ser bem fria e escura e dava arrepios somente de se chegar perto. Law já estava preocupando-se com o que iria acontecer dali pra frente.
- ME SOLTA! O QUE VOCÊ VAI FAZER?
- Esse é o seu castigo. É realmente uma pena, mas eu terei de usá-lo logo no seu primeiro dia aqui.
O dono da casa abriu a porta, revelando um quarto extremamente pequeno e sem nenhum tipo de mobília lá dentro. As paredes estavam todas arranhadas e tinham algumas marcas de sangue que deixaram um cheiro terrivelmente ruim.
- N-NÃO, EU NÃO QUERO IR PRA LÁ!
- Como se você tivesse alguma escolha! Escuta aqui, pirralho de merda: você vai fazer o que eu mandar sem levantar a voz pra mim ou pro meu querido filho. ENTENDEU? Vai ficar aí por uma semana!
Assim que finalizou sua frase, ele lançou Law para dentro daquele lugar, o trancando com três cadeados distintos. O garoto batia na porta, desesperado, tentando dar algum jeito de sair enquanto gritava, mas nada adiantava.
Doflamingo apenas deu-lhe roupas velhas e um pedaço de pão com leite por dia, que era o mínimo suficiente para que o garoto não morresse e lhe causasse problemas. Uma semana inteira se passou e Law finalmente pôde sair.
- E então, como se sente? Gostou da experiência?
Trafalgar estava em um estado semi-morto, como um verdadeiro zumbi. Pálido, com o corpo tremendo sem que ele percebesse e também não conseguia raciocinar direito. Aqueles poucos dias pareceram se transformar em vários meses enquanto estava na sala fétida.
- Bem... me desculpe por levantar a voz para você.
- Ótimo! Aprendeu direitinho, fufufufu.
- Se importa se eu for para meu quarto agora?
- Pode ir! Você vai dormir junto com o meu filho, entendeu? Vai ser bom pra relação dos dois.
- Tudo bem, entendi.
Seus olhos pareciam mais frios do que antes, arregalados, sem conseguir piscar direito. Ele não parecia pensar muito bem ainda, apenas obedecia aos comandos do maior. Law não queria voltar para aquele lugar nunca mais.
- Ei, Law... – O maior se agachou, apoiando a mão na cabeça do garoto, com seu sorriso sarcástico.
- Sim?
- Não precisa ficar com raiva de mim, viu? Basta não me desrespeitar que tudo irá ficar bem pro seu lado.
- Sim...
- E também não aborreça mais meu filho. Minha família é tudo para mim, e logo você fará parte dela. Entendeu? Fufufufu.
- Sim. Mais alguma coisa?
- Não, só isso. Pode ir pro seu quarto.
E finalmente, Law foi liberado e subiu, indo para o quarto em que iria dividir com o irmão de criação. Chegando lá, o local era cheio de brinquedos e bichinhos de pelúcia, dava calafrios só de ver.
Lá também só tinha uma cama, que era bem grande para ser ocupada somente por um garoto da idade dele. Dellinger estava lá, brincando com uma boneca, até perceber a presença de Law e abrir um sorriso falso.
- Ah, você! Já saiu do castigo? Que chato...
- Nós vamos dormir juntos? – Ele não se importou com as provocações.
- Claro que não! Por que eu dormiria com um pobre como você? E também não vou te dar os meus brinquedos!
- Eu não quero...
- Você vai dormir no chão! Mas tá, eu vou ser bonzinho com você e te dar um travesseiro.
E assim, o tempo foi passando. Os dias com a família Donquixote eram insuportáveis para Law, que tentava ao máximo ignorar o sarcasmo do irmão mais velho junto com a língua afiada do seu pai adotivo.
Era tudo muito ruim. Toda noite ele tinha pesadelos. Isso é, quando Law conseguia passar uma noite inteira dormindo, já que nem naquele momento Dellinger o deixava em paz. Ele não queria reclamar nem fazer nada, para não voltar à sala escura.
Ele não sabia muito bem o que fazer. Queria fugir, mas não tinha lugar nenhum em mente e também não tinha dinheiro. Além disso, pelo menos naquele lugar ele poderia comer e morar de graça.
Trafalgar tentava ficar o máximo de tempo sozinho, afastado, recluso. Tinham alguns livros na prateleira de Doflamingo que ele gostava de ler e o adulto deixava, desde que ele arrumasse tudo depois.
Até que passaram quatro meses. Law já tinha seis anos e aquele dia seu irmão fazia oito. Durante todo esse tempo, ele conseguiu sobreviver sempre tentando fugir dos dois e ignorando as provocações do irmão mais velho.
- Ei, vocês dois! O Jovem Mestre está chamado lá em baixo, parece que vocês têm visitas!
Baby Five, a única pessoa que Law se dava bem naquele lugar infernal, chamou-os para descer. Chegando lá, deram de cara com um homem alto, loiro, que parecia uma versão mais nova de Doflamingo.
- Tio Rosinanteeee! – Dellinger gritava, correndo até ele.
- Dellinger, como você cresceu! Feliz aniversário!
Ele pegou o sobrinho no colo, rodando-o no ar e arrancando risadas dele. Era totalmente diferente o jeito que Rosinante tratava Dellinger se comparado a Doflamingo, que apenas dava tudo o que o filho queria e o ignorava no resto.
Trafalgar ficou encarando aquele homem estranho e dava para sentir o cheiro de cigarro dele de longe. Por algum motivo, o garoto sentiu uma sensação estranha ao vê-lo. Uma sensação que ele não sabia bem descrever.
Rosinante ficou olhando para Law e, em seguida, pois o sobrinho no chão, andando em direção ao moreno. Seus passos eram bem compridos, meio desastrados, e Law ficou um pouco assustado com a sua presença, mas ignorou. O homem alto, então, se agachou e apoiou uma de suas mãos sobre sua cabeça.
- Não precisa ficar assustado, eu não mordo. – Ele parecia ser bem gentil em seu sorriso.
- Quem é você...?
- Seu melhor amigo.
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