Brave Heart

17 O pior pesadelo


– Vergo... obrigado por vir.

– Doffy, o que aconteceu? Você tá péssimo.

Doflamingo estava sentado em sua cama, pensando em tudo o que havia acontecido e com um retrato dele junto ao irmão quando eram crianças nas mãos. Vergo sentou-se ao seu lado, preocupado com a situação do outro.

– O Rosinante descobriu tudo sobre o Law e eu também contei tudo pro Dellinger, foi basicamente isso, mas...

– Você tentou matar o seu irmão e acabou não conseguindo, certo?

– … Isso faz eu parecer um idiota?

– Claro que não, Doffy. Eu, mais do que ninguém, sei o quanto você gosta do seu irmão. Não tem nada de errado nisso.

– Você só diz isso pra não me contrariar, pode ser sincero. Eu achei que estava pronto para matá-lo quando a hora chegasse, mas eu comecei a olhar pra ele... e me lembrei de quando nós éramos crianças...

Vergo percebe que o outro já estava quase se rendendo a todo sentimento de arrependimento e culpa, por não ter sido capaz de aplicar o golpe final, e decide abraçar o amigo. Doflamingo segurou a camisa branca que o outro usara e o puxou para mais perto, até o abraço ficar cada vez mais apertado. Ele sabia que o único naquele momento que poderia confiar era Vergo.

– Doffy, para com isso, eu não gosto de te ver desse jeito. E eu não estou dizendo isso pra não te contrariar, eu só quero que você saiba que eu vou te apoiar em cada decisão que você tomar.

– Mas eu vacilei com você, graças a essa minha fraqueza eu puis em risco a sua segurança, já que o Rosinante pode muito bem contar tudo a polícia e isso te envolver, Vergo.

– O que ele disse que faria?

– Ele disse que iria queimar os arquivos e me deixar em paz, nunca mais iria falar comigo e que não iria contar nada para ninguém.

– E você acredita nisso?

– Ele nunca foi bom em mentir...

– Então, se você acredita, por que está se preocupando tanto? Ele disse que iria te esquecer, tente esquecê-lo também. Caso ele faça alguma coisa nós saberemos.

– Você acha?

O loiro se afasta dos braços do outro, olhando para seu rosto. Vergo tentava permanecer o mais calmo possível para dar mais confiança ao amigo e poder apoiá-lo em qualquer momento, mostrando apenas um leve sorriso, que foi retribuído de imediato.

– Acho sim. E eu vou ficar ao seu lado caso o pior aconteça, Jovem Mestre.

Seus olhos se cruzam. Um silêncio eminente cobre o quarto em que ambos estavam, numa madrugada fria e tácita de outono, onde o único calor existente eram o dos rostos que se aproximavam lentamente, fechando os olhos e deixando que seus lábios se encostassem até formar-se um beijo. Um beijo que fora interrompido pelo loiro, que hesitou e desviou o olhar.

– Desculpa...

– Pelo quê?

– Eu não gosto de agir como alguém sensível, e ao mesmo tempo não quero que você se sinta obrigado a ficar comigo só por eu ser o seu chefe.

O moreno segura o queixo do outro, fazendo-o olhar para seus olhos novamente e o beijando antes que pudesse dizer algo. O beijo foi mais profundo desta vez, e assim que se separaram, Vergo voltou a mostrar seu sorriso pacífico.

– No momento você não é o meu chefe, Doffy, e sim a pessoa que eu amo.

(...)

No dia seguinte, ambos foram obrigados a acordarem graças ao despertador. Por terem ido dormir muito tarde, seus rostos estavam amassados e ainda não raciocinavam muito bem, porém foram obrigados a despertar mesmo assim.

– Bom dia... – Disse Vergo, coçando os olhos e voltando a por os óculos.

– Dia... – Doflamingo realizou a mesma ação, porém parecia completamente destruído. A segunda ação que ele realizou foi a de ligar para uma determinada pessoa, e depois cancelar todos os seus compromissos.

– Não vai trabalhar hoje, Doffy?

– Vou fazer uma coisa diferente e você vai me ajudar.

Os dois rapazes foram tormar banho e o loiro fez questão de jogar a água mais fria em seu corpo para despertar de vez, o que acabou funcionando. Assim que se vestiram, foram até o quarto de Dellinger, que ainda estava dormindo.

– Levanta daí agora! – Exclamou Doflamingo, puxando as cobertas do outro e o fazendo despertar à força.

– Aai, o que deu em você?! Ainda não tá na hora da escola... – Diz o mais novo, tomando um susto por ter sido acordado de maneira tão brusca. Ele se assustou com a imagem do pai, que tinha até veias saltando da testa.

– Dellinger, você não vai mais pra escola e eu também liguei pra Baby Five e dispensei ela hoje. Por hora, eu e o Vergo vamos começar o seu treinamento para ser o futuro herdeiro da minha empresa. Entendeu?

– P-Pera, como é que é?!

– Sem reclamações. Você vai ficar sem celular, computador ou qualquer outro tipo de coisa que lhe permita ter acesso às outras pessoas por, no mínimo, dois meses. À partir de hoje também, você vai passar a estudar em casa.

– QUÊ? NÃO! Se eu perder a minha vida social, é capaz de eu acabar virando um emo igual ao La–

– CALA BOCA! – Ele, pela primeira vez na vida, levanta a mão e dá um tapa bem forte no rosto do garoto, que sentiu vontade de chorar, mas tentou não o fazer. – Eu não quero nunca mais ouvir este nome na minha casa! Entendeu?

– M-Mas, eu...

– ENTENDEU OU NÃO?

– E-Entendi!

– Ótimo. O Vergo vai te dar uma lista de contratos, você vai ler cada um deles e estudá-los depois de tomar o café. E também vai estudar economia, estatística, álgebra e química. Vai dormir cedo, acordar cedo e fazer tudo isso até aprender a ser uma pessoa responsável e independente.

– T-Tudo isso..?

– E sem reclamações! Eu já te mimei tempo o suficiente, daqui há pouco você vira um incompetente e a culpa vai ser minha.

– E-Eu vou tentar aprender isso, eu prometo...

– Eu não quero que você tente, eu quero que você CONSIGA. Eu não posso mais vacilar e deixar você fazer o que quiser. Você vai aprender tudo sobre o meu trabalho, e se reclamar de alguma coisa ou ficar chorando igual ao seu tio, a sua situação só vai piorar! Entendeu?

– Entendi, entendi. Eu vou fazer tudo o que você mandar. – Disse já coagido, sem muita opção, mesmo não gostando daquela situação.

– Ótimo.

E assim, após tomar o café da manhã, Dellinger foi levado por Vergo até a mesa principal, onde recebeu duas pilhas enormes de contratos para ler, além de livros sobre matemática avançada. Vergo era um instrutor tão árduo como seu próprio pai.

Dellinger P.O.V

Não acredito que essa coisa tá acontecendo mesmo! Q-Quer dizer, ele quer eu leia todas essas coisas chatas?! E eu ainda vou ter que estudar matemática, não sei pra quê, já que tudo que ele faz é ficar sentando num escritório chato e ficar dando ordens pros outros. Eu nunca vi o pai tão furioso assim.

E o mais importante de tudo, o que vai ser da minha vida? Se eu não for mais à escola minhas amigas vão me abandonar e, o pior de tudo, o que o Jean vai pensar de mim?! Vai achar que eu sou um nerd escroto como o Law era. E se eu acabar virando um emo? NÃO! Definitivamente isso não pode acontecer!

Poxa, por que esse garoto maldito tinha que estragar tudo? A minha vida tava ótima até ele aparecer! Já começou roubando meu tio de mim, transformando ele num palhaço de circo e depois arrumando briga com o meu pai por qualquer motivo. O tio também é um inútil total, por que ele se juntou ao pai do Law pra ir contra o meu? Isso que eu não consigo entender!

Tá, eu sei que botar drogas em doces não é uma atitude certa, mas pera aí né. São negócios, isso dá dinheiro e eu também nunca vi nenhuma criança morrer por comer doces. O tio é muito exagerado, não tem nada demais fazer alguma coisa por benefício próprio. Tudo seria tão mais fácil pra mim se o tio fosse igual ao meu pai...

Dellinger P.O.V off

Já era de noite. Dellinger havia passado o dia inteiro lendo papéis e estudando, conforme lhe fora ordenado. Ele já havia aprendido tudo sobre o esquema que Rosinante travou contra Doflamingo por anos e ficou, como era de se esperar, do lado do pai.

Contudo, assim que pôde finalmente retornar para seu quarto, levou um susto. Suas paredes, que antes eram cheias de poster e fotos de artistas, agora estava vazia. O resto do cômodo também tinha perdido o brilho, todos os brinquedos foram retirados e até mesmo a televisão sofreu o mesmo destino. Doflamingo estava lá, acabando de arrumar tudo.

– O que você fez com o meu quarto?! – Dellinger pergunta assustado, com as mãos cobrindo a boca.

– Tirei o lixo desnecessário. Se você continuar com essa sua obsessão por coisas femininas nunca vai conseguir me dar um neto.

– Ahn? Neto?

– Quando você crescer, eu quero que você se case com alguma herdeira e tenha um filho com ela. Eu vou arrumar uma pra você mais tarde, assim vai facilitar os meus negócios também.

– QUÊÊÊ?! NÃO, NÃO, TUDO MENOS ISSO! – O garoto vai até o mais velho e começa a puxar sua camisa, olhando em seus olhos. – Por favor, eu faço o que você quiser, mas não me obriga a casar com uma mulher!

– Argh, que coisa. Você não precisa ficar com ela pro resto da vida, basta ter um filho e depois você se livra dela! Foi o que eu fiz com a sua mãe e, graças a isso, você existe.

– M-Mas eu posso adotar... tem tantas crianças precisando de casas por aí...

– Pode adotar quantos filhos quiser, depois de ter um filho com o seu sangue. E eu não quero mais discussões sobre isso, você VAI se casar com uma mulher e continuar a linhagem. Sem choro.

– Por que eu preciso fazer isso?!

– Porque você é homem e vai ter que começar a agir feito um! E vai ter que aprender a engrossar a voz, nem que eu precise te dar algum suplemento pra isso.

– E-Eu pensei que você não ligasse pra isso...

– Eu não ligo, mas as outras pessoas ligam. Isso tudo é por puro prestígio social e você vai ter que se acostumar, querendo ou não. Viu o que aconteceu com o seu tio? Ele não aprendeu a fazer essas coisas e agora ta aí, com um monte de maquiagem na cara. É isso que você quer pro seu futuro?

– N-Não...

– Então para de reclamar e vai dormir. Amanhã eu vou te levar pra dar um passeio pela fábrica e ver de perto o que é trabalhar de verdade.

– P-Posso pelo menos me despedir das minhas amigas? Já que eu não vou poder vê-las por um tempo... por favor...

– Argh, que seja.

Assim que Doflamingo devolveu o celular ao garoto e saiu do quarto, Dellinger rapidamente ligou para sua melhor amiga para contar o que houve. Ele estava terrivelmente apreensivo com tudo e odiava a situação atual.

– Menina, preciso te contar uma coisa!

"Vish, pela sua voz não é boa coisa. Tem a ver com boy, né? Conta tudo!"

– Justamente o contrário, o meu pai quer que eu vire hétero! Dá pra acreditar?

"HAHAHAHA, seu pai é hilário!! É sério isso?"

– Não tem graça nenhuma, sua puta! E eu também não vou mais poder ir à escola, nem ao show, nem nada disso...

"Como assim? Por quê? O seu pai pirou de vez?"

– Pirou, ele quer que eu estude pra trabalhar com ele, ou sei lá. Eu tô desesperado...

"Calma, respira. Invoca a Donattela que há dentro de você e fica repetindo pra si mesmo: i'm blonde, i'm skinny, i'm rich and i'm a little bit of a bitch."

– Ai, essa música define a minha pessoa, Gaga é a Deusa deste universo. Brigado pelo apoio.

"Que nada! Quando você herdar a empresa do seu pai e virar rico, você precisa me prometer que vai trazer a Deusa pra cá. E vai me convidar com direito a camarote vip, viu?"

– Menina, quem você acha que eu sou? Eu vou é reservar um palco inteiro só pra mim, pra você e pra Gaga! Mas falando sério, eu preciso desligar. Ainda preciso falar com a dramática da Emilly.

"Tá bom, beijos! Vou sentir falta da minha vadia."

– Digo o mesmo, bejus! – Ele desliga o celular e já liga para a outra. – Emilly, preciso te falar uma coisa.

"O que houve?"

– Não vou mais ao show.

"E por que tá me dizendo isso? Quer que eu fique com pena de você depois de você ter me desconvidado só pra levar o Jean? Bem feito, não estou com a mínima pena. Ingrato."

– Não é isso, eu vou te dar o meu ingresso, assim você pode ir no meu lugar.

"Dellin, é por isso que eu sempre te amei! Você é uma pessoa maravilhosa, eu vou sentir muito sua falta no show. Sem você não tem nem graça ir, mas eu aceito mesmo assim!"

– Tá bom, só me promete uma coisa. Não vai fazer maquiagem sozinha porque você é um desastre nisso, fica parecendo o meu tio pintado de palhaço.

"Ain, você é uma pessoa horrível! Como você tem coragem de tratar a sua melhor, melhor, melhorr amiga desse jeito? E isso é uma calúnia, eu fico linda, você só está com inveja! E também..."

– Tá, tá, já entendi. Eu sou sincero demais, é um defeito meu. Agora eu preciso falar com a Cath, tchau!

"Tchau..."

– Cath, babado!!

"Conta tu-do!"

– Meu tio sequestrou o Law e agora meu pai pirou e disse que eu não poderia mais sair de casa ou ter vida social, e ele também quer que eu estude coisas inúteis tipo matemática.

"Desculpa, eu parei de ouvir na parte do seu tio. Então virou cannon? Isso vai ir direto pra minha fanfic!"

– Você vai mesmo escrever essa coisa? Graças a essa história maluca agora ele inventou que eu preciso me casar e ter filhos com uma mulher...

"QUÊ? Que absurdo! E o que vai acontecer com o meu shipp envolvendo você e o Jean?"

– Como eu disse, ele tirou a minha vida social então não vai mais rolar Jean nenhum...

"Você pelo menos se declarou pra ele? Ou nem isso você fez ainda?"

– Por que eu faria isso? Eu nem sei se eu vou conseguir voltar a vê-lo.

"Bobagem. Liga pra ele, se você deixar essa oportunidade passar, como você vai saber se ele gosta ou não de você?"

– Tá, você tem razão. – Ele desliga o celular e liga pro Jean. – Ooi...

"Grande Dellinger! Que que foi? Você parece meio bolado, rolou alguma coisa?"

– Meu pai me tirou da escola e eu não vou mais poder conversar com vocês.

"Que vacilo, eu sempre achei que seu pai era uma pessoa daora."

– Mas não é por isso que eu liguei. Eu preciso te confessar uma coisa, eu só chamei você pro show porque eu queria ficar com você...

"Pow, mas eu curto mulher, mano..."

– Sério? Como você consegue? Me conta seus segredos, eu tô precisando mesmo aprender!

"Ah, cara, é natural... sei lá. Mas eu não tô bolado contigo não, tá? Eu espero que o seu lance com o seu velho melhorem."

– Brigado, eu também espero. Te vejo na próxima então.

"Beleza, falou!"

E assim, Dellinger se atira na cama e joga o celular pra algum canto, botando apenas um travesseiro na sua cara para se forçar a dormir e tentar esquecer de tudo o que havia passado o dia inteiro, apesar de ter certeza que o dia seguinte seria pior.

– Odeio a minha vida...

Notas finais
Um minuto de silêncio pra nossa mini-diva. Próximo capítulo: Law com 17 :3333