Brave Heart
6 I Promise

Finalmente é chegada a hora em que a família inteira estaria reunida pela segunda vez, o dia vinte e quatro de Dezembro, mais conhecido como Natal. Já era de noite e eles estavam aguardando a chegada de Donquixote Rosinante em sua casa.
– Ele ainda não chegou?! Bah...
– Calma, calma. Ele provavelmente deve ter ficado preso no trânsito, isso é normal.
A casa estava em clima natalino com vários enfeites, biscoitos em formas de bonecos, pisca-pisca e uma enorme árvore de natal com alguns presentes embaixo. Dellinger e Doflamingo aguardavam a vinda de Rosinante com entusiasmo.
Trafalgar Law estava sentado no sofá, lendo um livro já que Doflamingo o tinha liberado ler graças à sua decisão há dias atrás. O garoto não parecia, entretanto, animado para a chegada do tão esperado tio.
– Chegueeeeeeeei!
A porta abriu-se revelando a figura carismática de Corazón, com a mesma maquiagem, o mesmo chapéu, o mesmo sorriso junto com o mesmo batom vermelho e a blusa branca repleta de corações. Fora que carregava um saco cheio de presentes.
– Tio Rosinante! – Dellinger foi correndo e deu um abraço no tio, ignorando a roupa.
– Não acredito que você veio mesmo maquiado. – Doflamingo ficou feliz em vê-lo, mas já reclamou da forma que se vestia.
– Dellinger! Doffy, eu mal cheguei e você já vai implicar comigo? Eu avisei que viria assim.
– Eu achei que você estivesse dizendo isso pra me irritar, mas tudo bem. O importante é que você está aqui.
Após os três familiares consanguíneos partirem para um abraço, Doflamingo foi colocar os presentes que seu irmão tinha trago embaixo da árvore. Corazón observou Law sentado no sofá, lendo um livro e ignorando sua presença completamente.
– Ei.
Ele ficou de frente para o garoto, abaixado, porém Law estava tão concentrado em sua leitura que, além de ignorá-lo, nem se preocupou em olhar para seu rosto.
– Não vai falar comigo?
– ... – Mais uma vez, Corazón foi ignorado.
– Pelo menos pode olhar pra mim?
– ... – Ele não olha, mas acaba fraquejando um pouco, tentando disfarçar folheando a página.
– Arh... – Ele suspira. – O que o Doffy fez dessa vez?
– N-Nada. – Finalmente responde, porém baixo.
– Olha só, você consegue falar! Parabéns. – Ele diz ironicamente. – Agora pode me falar o que o meu irmão fez?
Law balança a cabeça negativamente, mas continua olhando o livro. Corazón já estava cansado de tentar argumentar.
– Foi tão difícil te fazer falar comigo antes e agora você fica me dando gelo. Isso magoa, sabia?
– ... – Law faz uma carinha de choro, mas não responde nada.
– Você nem consegue olhar pra mim. Tem medo de não conseguir resistir em me ver? Dá pra ver pelo seu rosto que você tá morrendo de vontade de falar comigo.
– ... – Ele fecha os olhos pra tentar não chorar e se esconde no livro.
– Law, se você não olhar pra mim por bem, eu vou arrancar esse livro de você!
– ...
– Tá, agora já chega!
Corazón pegou o livro que cobria o rosto de Law à força e o tirou de suas mãos, jogado o objeto para longe do sofá. Ele parecia com raiva graças aos foras que levou do garoto.
Porém, assim que Corazón se livrou do livro, ele pode ver de perto o rosto dele. Law estava com uma das mãos cobrindo seus olhos cheios de lágrimas, tentando escondê-las e com a boca tentando ficar fechada para não conseguir chorar ou falar.
– L-Law... – Ele se sente culpado e dá um abraço no garoto.
– C-Cora..san...!
Rosinante pôs o garoto em seus braços, deixando que chorasse em seu ombro. Ele começou a andar com Law no colo indo em direção ao seu irmão mais velho com bastante raiva.
– O que você fez, Doffy?
– Tsc, ele acabou arregando mais cedo do que eu imaginava.
– Qual é o seu problema, hein? O que você ganha fazendo o Law chorar desse jeito?
– Dessa vez eu não fiz nada, quem decidiu não falar com você foi ele mesmo.
– Hã, quer mesmo que eu acredite nisso?!
– É verdade... Cora-san...
– Law?
– Por que você não me contou que estava doente?
Os olhos de Rosinante ficaram arregalados quando ele soube que o garoto havia escutado sobre sua doença, coisa que ele fez questão de tentar esconder ao máximo para não preocupá-lo.
Ele até culpou o irmão mais velho, mas este disse que não tinha culpa e que Law tinha ouvido de Dellinger. Corazón decidiu levá-lo para seu quarto para conversarem como fizeram no passado.
– Law, você parou de falar comigo só por eu estar doente?
– Não, o Doflamingo me disse que se eu voltasse a falar com o Cora-san você iria morrer mais rápido.
– Que mentira absurda, ninguém morre por falar com outra pessoa! Você acreditou mesmo nele?
– M-Mas... eu não quero que o Cora-san morra...
– Eu não vou morrer, Law! Não existe doença nesse mundo que vá me matar tão facilmente.
– S-Sério?
– Sim, sério. – Ele sorri. – Law, enquanto você estiver ao meu lado eu nunca irei morrer. Entendeu?
– Você promete?
– Sim, eu prometo. E sabe qual é o bom em prometer algo?
– O quê?
– Quando você promete alguma coisa a alguém importante, você deve cumpri-la a todo custo. Uma doença idiota não deve ser desculpa para atrapalhar a minha promessa!
– Você vai ficar bem mesmo...?
– É claro que sim, essa doença boba não é nada!
– E-Então por que o Cora-san disse que eu não posso morar com ele?
– Isso não tem nada a ver com doença, Law. – Ele suspira. – Se eu te contar um segredo, você promete que não conta nem pro Doffy e nem pro Dellinger?
– Por que eu contaria pra eles?
– Verdade, você não tem motivos, mas mesmo assim me prometa. É sobre o seu pai.
– Meu pai? Tá, eu prometo...
– Seu pai era o meu melhor amigo e nós trabalhávamos juntos em um projeto escondido do Doffy. Ele não pode saber de jeito nenhum sobre isso, tá?
– Eu não vou contar! Mas que projeto? E vocês eram mesmo amigos? Por que o Doffy odiava o meu pai? E por que você fingiu que não me conhecia?
– Calma, são muitas perguntas! Eu não posso te falar o que é, mas eu não posso morar com você enquanto o projeto não estiver terminado. E eu realmente não te conhecia, ele nunca me falou que tinha um filho! Ele falava o tempo todo da sua irmã, mas mesmo assim eu logo soube que você era filho dele. Os dois são idênticos.
– V-Você sabe quem matou a minha família..?
– Não sei, mas Law, quando eu tiver um tempo livre eu PROMETO que vou te tirar daqui. Eu não vou te deixar morando com o Doffy pro resto da vida!
– Verdade...?
– Sim, eu prometo. Até lá eu não quero que você acredite em mais nada que ele disser pra nos separar, tudo bem?
– Tá bom! – Ele finaliza com um sorriso.
– Law, seu sorriso continua sendo a melhor coisa pra mim, ele me deixa mais vivo do que nunca!
– Então eu prometo que vou continuar sorrindo, se isso fizer o Cora-san feliz!
– L-Law...!
Corazón pegou o garoto no colo novamente e começou a girá-lo no ar e a brincar com ele como quando fizeram há alguns meses atrás, sempre com risadas altas e sorriso mais cativantes ainda, até que ele voltou a pôr Law no chão.
– Você tem o sorriso mais lindo de todos, sabia disso?
– Sabia, o Cora-san sempre fala isso.
– Eu falo porque é verdade! Agora vem cá e me dá um beijo pra descermos logo.
Law obedece e dá um beijo no rosto do mais velho, que logo retribuiu com outro.
– Cora-san...
– Sim?
– Eu amo você!
– Eu amo você também, meu anjinho.
~ X ~
Eles desceram para se encontrarem com o resto dos familiares. Law tentou ao máximo fingir que estava gostando da presença dos outros, mas só conseguia olhar e conversar com o tio adotivo.
Rosinante, por outro lado, ficou servindo de cabo de guerra entre Dellinger e Trafalgar, visto que os dois queriam sua atenção a todo custo. Doflamingo não gostava de ver seu irmão daquele jeito, mas ignorou pelo feriado natalino.
Até a chegada hora de abrirem os presentes. Depois que todos os outros trocaram presentes entre si, Corazón surpreendeu ao ter comprado três de uma só vez para Law, o que fez Dellinger ficar com ciúmes.
– Por que o Law ganhou três e eu só ganhei um, tio?!
– Porque eu passei vários natais com você, mas esse é o meu primeiro com o Law, então é justo ele ganhar mais coisas. Não precisa ficar triste.
– M-Mas...
– Deixa pra lá, filho. – Doflamingo interviu. – Não é tão injusto assim, apesar de eu ainda achar que você está mimando demais esse garoto, Rosinante.
– Ai, vocês dois reclamam demais, são só presentes!
Depois de algumas discussões, Law finalmente abriu o primeiro presente de Rosinante. Era um celular bem simples.
– Um celular? – Ele perguntou.
– Sim, já que ALGUÉM não me deixa te ligar, eu comprei isso pra você. Assim você pode falar comigo sem que ninguém nos interrompa!
– Não acredito que você fez isso... – Doflamingo resmunga.
– Algum problema, Doffy?
– Sim, alguns. Mas que seja, não dá pra separar vocês dois de jeito nenhum mesmo.
– Ótimo, que bom que você percebeu isso! Gostou do presente, Law?
– Eu amei!
Dellinger ficou com um pouco de inveja, já que não tinha um celular, mas Doflamingo disse que ia comprar um para ele. Estava na hora do segundo presente e era um gorro branco com algumas pintinhas pretas espalhadas.
– Esse é pra você se proteger do frio que faz aqui, e também porque pintinhas combinam com você!
– Você acha? – Ele colocou o gorro.
– Sim, ficou lindo em você, Law!
– Então eu vou usar todos os dias porque foi o Cora-san quem me deu!
– É maravilhoso ouvir você falando isso. – Ele dá um abraço no garoto.
Quanto mais eles se abraçavam e sorriam juntos, com mais raiva Doflamingo ficava, mesmo sem nenhum motivo aparente. Ele não gostava de ver o irmão assim com o Law. O último presente foi um urso polar de pelúcia com um traje laranja.
– Um urso?
– Sim, esse é o melhor de todos. O nome dele é Bepo e ele fala quando você aperta a barriga dele!
Law aperta sua barriga.
“Me desculpe...”
– P-Por que ele pediu desculpas?!
– B-Bem, deve ser defeito de fábrica, hahaha! Você quer que eu troque?
– Não, eu gosto assim. Eu vou ficar com o Bepo!
– Que bom que você gostou, Law, eu amo você!
– E eu amo o Cora-san!
Eles se abraçaram de novo e Corazón voltou a dar mais beijos em Law devido a sua fofura juvenil, o que fez com que seu irmão mais velho ficasse com mais ódio de tanto amor e carinho. Ele pegou Rosinante pelo braço e o arrastou para algum canto.
– Por que você fez isso, Doffy?!
– Rosinante, eu não aguento mais ver você com esse moleque. Tudo o que eu penso quando vejo o Law é a figura do pai dele!
– Eu já te disse pra não culpar o filho pelo pecado do pai, fora que isso foi grosseria sua!
– Grosseria minha? Você fica toda hora abraçando esse garoto na minha frente e não quer que eu perca a cabeça?!
Doflamingo prensava Rosinante contra a parede, segurando seus braços para que ele não pudesse escapar e tentava falar baixo, para as crianças não ouvirem, apesar de estar gritando por dentro.
– É claro que eu fico com o Law! Você abandona ele de propósito e faz tudo pra deixá-lo mais afastado ainda do mundo. Você pelo menos pretende colocá-lo na escola algum dia?
– Pra que eu botaria ele na escola? Se toca, Rosinante, esse garoto não vai ter futuro nenhum!
– Por quê, Doffy? Por que você faz tanta questão de deixá-lo assim? Por que você não consegue entender que ele e o pai não tem nenhuma ligação? Ele pode ter um futuro sim, basta você parar de ser um idiota!
– Ah, agora você vai ficar contra mim? Vai trocar seu irmão por um pirralho fedorento?
– Tem uma grande diferença entre ficar contra você e apoiar as barbaridades que você faz!
– É mesmo?
– Sim, é.
Ele se aproximou um pouco mais, botando os dedos nos lábios de Rosinante e borrando todo seu batom, deixando o vermelho escorrer por todo seu rosto, o que fez com que o mais novo ficasse com raiva.
– Qual o seu motivo, Doffy?
– Me irrita essa maquiagem estragando seu rosto. Nada demais.
– É uma pena, já que eu não pretendo tirá-la.
– Você não vai desistir do Law não importa o que eu diga, certo?
– Vai deixá-lo em paz?
– Eu vou pensar. Dorme comigo hoje? Faz tempo que não ficamos juntos.
– O Law vai ficar triste se eu fizer isso.
– E eu vou ficar triste se você me trocar por uma criança. E vai ser só por hoje, nos outros dias você dorme com ele.
– Tudo bem então, só essa noite. Agora você vai voltar pra lá enquanto eu dou um jeito na minha maquiagem, já que alguém acabou com ela!
– Fufufu, foi mal, não resisti.
Depois de Rosinante ir concertar sua maquiagem, ele encontrou Law junto com seu sobrinho e seu irmão mais velho na sala. Todos eles estavam aproveitando seus presentes de natal. Ele resolveu contar a Law de uma vez.
– Hoje eu vou dormir com o meu irmão, tá?
– Por quê?! – Ele ficou triste.
– Porque o Doffy é um irmão muito ciumento e possessivo. – Ele olha, disfarçadamente, para o irmão.
– Eu ouvi isso, Rosinante.
– Foi pra você ouvir mesmo! Mas uma noite não vai fazer mal. Certo, Law?
– Tá...
– Aliás, o que você acha de começar a ir pra escola?
– Não sei, eu nunca fui pra escola, mas o Dellinger não gosta.
– Lá é um lugar divertido! Eu vou convencer o Doffy de te por lá, assim você faz alguns amigos. Que tal?
– Não! O único amigo que eu tenho é o Cora-san.
– Viu só? Ele não quer, deixa ele. – Doflamingo se intromete.
– Mas ele vai! O Law é muito inteligente, seria desperdício não ir pra escola.
– Se você diz...
Quando o tempo foi passando e a madrugada surgindo, os dois adultos mandaram as crianças subirem para seus quartos e irem dormir. Quando eles foram, Doflamingo puxou seu irmão pela cintura e deu-lhe um beijo na bochecha.
– E então, vamos?
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