Brasil-Coreia

5 Um típico coreano


Desisti de tentar achar uma resposta. Encostei-me na parede e esperei o táxi chegar. Eu me sentia completamente exposta, não havia nada para me proteger, nenhum lugar encoberto e meu celular estava descarregado. Eu sempre tive esse “medo”, eu acho, não conseguia me sentir protegida num lugar que não conhecia. Sou dessas que sempre se senta encostada na parede, no último lugar se possível, de modo que possa observar sem ser notada. Daquelas que sempre tem algum plano reserva: alguém para conversar, celular, fone, livros, bugigangas. Mas agora não tinha nada. Odeio essa sensação.

Escutei uma buzina e Suga se levantou, lançando um olhar para mim antes de sair da empresa. Respirei fundo e o segui. Entramos no carro e ele deu o endereço para o motorista. Sentamos ambos nos acentos encostados na porta, deixando uma vaga entre nós. Suga respirou fundo e tirou uma pastilha do bolso, estendeu para mim num gesto que significava “vai querer”, neguei e ele sorriu dando de ombros voltando a guardar a pastilha. Ele tinha tirado só para me oferecer? Não consegui evitar, estava o observando. Sentia-me vulnerável agora junto dele, diferente do que senti quando estávamos na varanda. Naquele dia tive empatia por ele, erámos parecidos, mas agora ele era tão... swag. Como alguém pode passar uma áurea dessas sem falar mais que duas frases?

Levei a mão ao meu colar e fiquei mexendo com ele nos dedos. O carro parou. Abri minha bolsa para pegar o dinheiro, mas não consegui. Suga já havia pago a corrida e agora abria a porta para mim.

— Quanto lhe devo? – Perguntei assim que sai do carro.

— Não é certo eu te deixar pagar. – Falou rolando os olhos. – Sou homem e mais velho que você. – Se distanciou de mim, pronto para entrar em sua casa.

Machista. – Resmunguei. Tradicional e machista, como um típico coreano. Eu pensava que jovens, idols ainda por cima, fossem mais abertos a isto.

— Me desculpe, mas é assim que eu sou. Outras mulheres achariam fofo. – Disse sorrindo. Oh não, devo ter falado mais alto do que esperava. Mas espera, se falei sem querer, devo ter falado em português . Não? – Sem falar que fui eu quem pediu o táxi. – Piscou e entrou em sua casa.

Fiquei três segundos parada absorvendo o que tinha acontecido. Balancei a cabeça e entrei na minha própria casa. Eu precisava de um banho, tanto para me limpar quanto para pensar. Nossa, eu tinha muito o que raciocinar.

...

Acordei com a claridade invadindo meu quarto. Estranho, pensei ter fechado a cortina ontem... a menos que...

Levantei e andei sorrateiramente até o quarto do meu pai, abri a porta devagarzinho e sim, ele já havia chegado. Provavelmente foi ele que abriu minha cortina “para eu acordar cedo e aproveitar o dia”, enquanto ele dormia tranquilamente em seu quarto escuro.

Tomei banho e fiz minhas higienes, era realmente cedo, umas seis da manhã. Ainda tinha um bom tempo até ter que encontrar com appa depois do almoço. Daria tempo de ajudar Sun a comprar seu material de estudos e ainda terminar a temporada da serie que estou vendo. Quando meu pai disse que eu precisaria comprar instrumentos de medida, de modo que pudesse equipar minha pequena sala em sua empresa, neguei prontamente. Eu já possuía tudo no Brasil, não tinha motivos para comprar novos, mas visto que demoraria para chegar aqui, seria bem melhor comprar novos.

Fui até a cozinha e fiz meu café da manhã. Sentei-me no chão da sala e conectei a televisão na minha conta da netflix. Dei play na serie e me encostei nas pernas do sofá. Foram somente dois segundos de paz e sossego até que o meu celular começasse a tocar.

— Alô?— Atendi em português. Mas não houve resposta, desligaram na minha cara. Olhei o número e entendi tudo.

Abri o aplicativo do whastapp e me surpreendi ao ver tantas mensagens. Eu desativo as notificações e por isso alguns amigos usam a ligação como o “chamar atenção” do falecido MSN.

MILENA — “Estou aqui agora”

BEATRIZ – “Que demora demonia. Só porque está do outro lado do mundo acha que pode nos esnobar?”

CAIO – “Você fala isso como se não fosse comum a Milena dar longos vácuos na gente”

MILENA – “KKKKKKKKKKKK, ME DESCULPEM”

CAROL – “Enfim, a gente só te atazanou porque estamos com saudades e...”

GUSTAVO – “Eu e a Bea assumimos de vez nosso caso”

CAROL – “Somos oficialmente as solteiras do grupo amiga”

MILENA – “Finalmente né. Não aguentava mais os dois fingindo que não se pegavam cada vez que olhávamos para o lado”

CAIO – “Nem as desculpas esfarrapadas, ‘vou ali e já volto’, ‘vou ver porque a beatriz ta demorando tanto’”

BEATRIZ – “Nem era tão ridículo assim.. :P”

CAIO – “Claro que não. Até o Pedro que só precisou presenciar duas vezes essas cenas, notou”

MILENA – “Por falar nele, como que ele ta se virando sem a bolsa?”

CAIO – “Na corda bamba, essa greve ta acabando com todo mundo. Ele arrumou um bico numa lanchonete e ta podendo pagar as coisas”

CAROL – “Meu irmão chamou ele para morar conosco, ai ele economiza no aluguel”

MILENA – “hmmmm, meu casal favorito ta morando junto. Tuts tuts.”

BEATRIZ – “Não pode mais falar isso. Vou ficar com ciúmes!”

GUSTAVO – “Ela só diz isso pro Caio achar que é amado, é obvio que ela prefere eu a ele”

BEATRIZ – “Que ela prefere eu e você ao Caio e Pedro***”

CAROL – “Vocês ai com briguinha de fandom... Saibam que os dois casais estão abaixo de mim”

MILENA – “O que deu em vocês hoje, hein? Tão me amando tanto que eu to quase vomitando arco íris”

CAIO – “Sua sem coração”

Ri com a declaração de Caio. Estava com saudades dos meus amigos. Fechei o chat e liguei para a Carol.

CAROL – Me ligando? Conta a fofoca.

MILENA – Ainda gosta de kpop?

CAROL – Para tudo. Minha melhor amiga, metade coreana, que ta no país dos meus ídolos... Em quem tu esbarroou?

MILENA – Tas ligada que meu pai virou empresário faz uns dois anos né.

CAROL – Tu deve ter comentado por alto.

MILENA – Ele é sócio da BigHit. Conheci os membros do BTS, sabe quem são?

CAROL – QUEM NÃO SABE? Eles são o maior nome do kpop desde que debutaram! Não sou ARMY, mas gosto das músicas deles e deles. Porque né? Eles são uns amores.