CAPÍTULO 6

— Que tal este? – Sun perguntou erguendo um jaleco cinza.

— O caimento é ótimo, mas será que não tem branco? – Perguntei me aproximando.

— Não sei, você pode ir perguntar ao vendedor. – Disse me estendendo a roupa. Olhei para ela suplicante. – Aigo, eu pergunto. Mas um dia eu te obrigo a isso. – Revirou os olhos.

— Eu pergunto quando é necessário, o preço, se não tiver. – Falei. – Mas essa informação era algo que eu podia encontrar sozinha.

— Se ficasse o dia todo procurando. – Sun resmungou.

Já tínhamos comprado todos os instrumentos que eu ela iria precisar, só faltava o jaleco e eu poderia ir para casa. Sun falou com o vendedor que lhe entregou a última peça branca, que estava guardada no depósito. Ela ergueu as sobrancelhas para mim num gesto que queria dizer “ta vendo, se eu não perguntasse ficaríamos horas tentando achar”. Compramos e voltamos para a minha casa.

...

Eu finalmente havia terminado o segundo quadro de horários. Tenho certeza que se fosse em português seria tudo bem mais fácil. Eu estava usando uma pequena sala ao lado do escritório de meu pai, visto que ele precisaria dele para realizar as entrevistas. Eu já estava morrendo de dor de cabeça e muitas vezes olhava para o notebook e só via desenhos sem sentido. Eu precisava de um café, isso se eu gostasse de café... Precisava de algo doce. Em casa seria uma xícara de chocolate gelado ou uma taça de açaí. Aqui eu terei que me contentar com um energético.

Fora o cansaço, eu até que gostei de ter um emprego temporário aqui na BigHit. Desse modo eu tenho um local só meu, onde posso esperar meu pai. Deixei a porta aberta enquanto desligava o computador.

— Quase não acreditei quando te vi. – Encarei assustada um Jimin que entrava todo sorridente e suado na minha sala. – O que está fazendo nessa salinha?

— Ajudando meu appa. – Sorri.

—Quer dizer que agora tem uma sala própria? – Balancei a cabeça concordando. – Já sei aonde vou me esconder dos ensaios. – Sorriu maroto. Era para o meu sangue ter ido parar nas bochechas mesmo?

— Golpe baixo Jimin. – Falei o encarando. Oh céus, eu estava pegando intimidade rápido demais com ele.

— Chang-ssi veio conversar comigo hoje. – Comentou casualmente, mas não pude esconder minha expressão de choque. O que meu pai queria com ele? – Mandou eu ser cuidadoso com a filha dele. Disse que não queria ter que me tirar do grupo. – Sorriu. Eu só revirei os olhos.

— Appa não tinha esse direito. – Resmunguei. – Mas não se preocupe Jimin, não deixaria ele lhe demitir só por causa das paranoias de sua cabeça. – O homem a minha frente me encarou interessado.

— Posso estar sendo muito intrometido, mas... – Fiz sinal para ele prosseguir. – Tem namorado Mi? – Corei. Ele estava interessado em mim, não estava?

— Nunca tive. – Falei e ele me encarou surpreso.

— Mas Chang-ssi comentou algo sobre não precisar ver sua filha beijando de novo... – Alguém com certeza estava diminuindo as coisas. Ou Jimin ou meu pai. A única vez que meu pai me pegou com um homem, estávamos de trajes íntimos no meu quarto de hotel.

— Talvez isso seja ocidental demais. – Disse me lembrando das ações do Suga ontem. – Mas no Brasil não precisamos ter um relacionamento sério para nos envolvermos. – Oh não. Eu não estou fazendo isso. Não estou flertando com ele. Não estou olhando para os músculos visíveis nessa regata folgada. Porque ele não pode ser como todos os outros e não mostrar os ombros... e os braços...

—Eu tenho que voltar para o ensaio. – Jimin falou me encarando, não... acho que ele não estava me encarando... – Posso te ligar mais tarde? – Sorriu e eu assenti.

Eu não estou me reconhecendo. Cadê a Milena tímida que não consegue se envolver? Cadê a mulher que só pega desconhecidos na balada? Arg, tenho que organizar meus pensamentos. A prioridade era fazer amizades, eu consigo fazer as coisas voltarem a seus lugares, desde que Jimin não me tente... vou aumentar isso aqui, desde que nenhum deles me tente. Meu cérebro tem que entender que será amizade e não uma pegação rápida.

Falei com a Carol pelo telefone. De acordo com ela o meu problema era falta de sexo (mas qualquer coisa para a Carol se resolvia com sexo), não ficava com ninguém desde minha viagem para Fortaleza seis meses atrás. E como eu não costumava fazer amizades, principalmente fora do meu habitat (sim, essa vadia me usou para fazer uma tese para algum futuro artigo de sociologia que ela venha a publicar), estava confundida.

Sai da sala, precisava comer algo doce. Entrei no refeitório que estava vazio e comprei um petisco junto com refresco. Sentei-me numa mesa afastada e comi. Um homem entrou no refeitório e me viu. Que ele não venha para cá, que ele não venha...

— Olá, eu sou Chung Kwan. – Ele me cumprimentou. – Trabalho com marketing, é nova aqui não é? – Assenti.

— Sou Chang Mi-Lena. – Vi sua expressão quando falei meu nome. Chefe ou nome estranho?

— É a filha brasileira do Chang-ssi. Não é? – Perguntou e eu concordei com um gesto de cabeça. –Se Parece com ele, Milena-ssi, só que mais bonita. – Ele tentou acertar a pronuncia do meu nome, mas saiu um pouco estranho. Ri baixinho.

—Obrigada. – Falei direcionando o olhar para minhas mãos que repousavam em meu colo. Eu realmente não sabia como prolongar uma conversa.

— Você é bem tímida, uma gracinha. – Falou rindo. Modo errado de conversar com pessoas tímidas e reclusas Kwan.

— Me desculpe. – Levantei depois que terminei minha comida. – Mas tenho que ver meu appa. – Dito isso, tentei sair sem parecer que estava fugindo.

Assim que entrei em minha sala e me sentei na cadeira soltei um suspiro de alívio. Eu sou uma medrosa, isso é fato. Tenho medo de relações e não faço a mínima ideia do porquê.

A porta se abriu revelando Jin e Taehyung um pouco encabulados esperando permissão para entrar.

— A que devo essa visita? – Perguntei sorrindo.

— Um passarinho nos contou que estava aqui. – Jin falou.

— Acho que o Jimin está se saindo um ótimo fofoqueiro. – Falei.

— Não o culpe Mi. Ele chegou tão sorridente no ensaio que sabíamos que só podia ser a Mi. – Taehyung comentou olhando para a minha mão. O que raios ele estava achando tão interessante? – É um relógio anel?

— S-sim. – Falei um pouco constrangida. Como Tae podia jogar aquela informação e depois mudar completamente de assunto?

— Não tente entender a mente dessa criança. – Jin falou fazendo Tae o encarar sério. O olhar só durou um segundo, logo após o mais novo estava rindo. Isso sim é uma pessoa estranha.

— Okay. – Respondi sem saber direito o que fazer.

— Já ia esquecendo! – Jin disse piscando freneticamente. – Viemos aqui para convida-la. Irei fazer um jantar especial amanhã e sua presença foi requisitada por quase todos os integrantes.

— Quase todos? – Perguntei apreensiva. – Acho melhor não. Será incomodo.

— Deixe disso Mi. O único que não se manifestou a respeito foi o Suga, mas sabemos como o hyung é... – Taehyung comentou como se fossemos amigos há séculos.

— Você precisa parar de falar como se todo mundo nos conhecesse. – Jin o repreendeu fazendo com que o outro abaixasse a cabeça envergonhado. – O que ele quis dizer é que o Yoongi é mais na dele. Na verdade acho que se são parecidos nesse quesito.

Não soube o que responder. Mas eles também não ficaram esperando por outra frase minha. Logo após dizer isso os dois saíram da minha pequena saleta.