Brasil-Coreia
4 Ensaio
Sentei-me num canto afastado, de modo que pudesse dar mais privacidade pra eles. Eu não gostava quando alguém vinha me ver dançando e imaginava que eles também não. Mas ao que parece eu estava enganada. Jimin começou cantando, achou-me e ficou me encarando pelo espelho, fiquei um pouco envergonhada o que gerou risos de alguns deles, mas relaxei quando ele balançou a cabeça rindo ao final de seu solo. E a partir dai foi só ladeira abaixo, cada um fazia uma palhaçada diferente e eu não aguentava e começava a rir assim como todos.
— Se todos os ensaios de vocês forem assim, não entendo como são famosos? – Falei rindo quando acabaram. – Seus fãs sobrevivem de palhaçadas é?
— Acho que ela está duvidando de vocês. – Suga falou apontando pra Jimin, Jungkook e J-Hope (pasmem, já decorei o nome de todos). – Se eu fizesse parte da dance line não deixaria isso barato. – Falou erguendo as mãos. É impressão minha ou ele está atiçando os outros?
— Ela não acredita no nosso talento Jimin. – J-Hope falou magoado.
— Mi não nos conhecia antes de... – Jimin parou e olhou para mim confuso. – Por acaso já viu algum vídeo nosso?
— Depois que te encontrei no metrô eu assisti ao vídeo clipe de Fire e ouvi Mic Drop pelo spotify. – Falei e na mesma hora escutei exclamações dos garotos.
— Ela não conhece a gente. – Tae falou um pouco chocado. Me encolhi de vergonha, devia ter pesquisado um pouco mais.
— Não fale assim Tae. – Jin interveio. – Ou a Mi-ssi vai achar que cometeu uma grande falha.
— Devíamos mostrar para ela o que realmente é o BTS! – J-Hope falou animado fazendo uma dancinha estranha.
— Certo, Mic Drop então? – Namjoon perguntou e em seguida todos se posicionaram de frente para mim... exceto o Suga.
— Não podemos só mostrar o vídeo? – Perguntou jogando a cabeça para trás.
Ri quando Jungkook bateu em seu pescoço apontando para mim. Eles eram engraçados.
Jin colocou a música para tocar e eles se posicionaram.
Retirem o que eu disse sobre eles só fazerem palhaçada. Nossa. Era para essa dança ser tão sexy assim ou sou somente eu que não consigo irar os olhos dos braços do Jimin e nem do Yoongi. Não, só pode ser paranoia minha, desviei o olhar para um ponto mais neutro... Mas não conseguia, era realmente para eles me encararem com essas expressões no rosto?
Agora eu entendo o porquê deles serem tão famosos, eles são realmente muito talentosos.
— O que achou? – Jungkook perguntou deitado no chão. Todos tinham se jogado após terminarem.
— Nunca mais eu tiro uma com vocês. – Falei. – Vocês são demais, como que eu não tinha percebido antes?
— Obrigado Mi-ssi. – Jimin falou. – Mas essa apresentação foi especial, só para você, normal que tenha sido mais emocionante do que vídeos no youtube. – Falou corando. Oh meu Há, como pode ser tão fofo e gostoso ao mesmo tempo?
— Posso pedir uma coisa para você. – Perguntei. – Para vocês, quero dizer... – Eles assentiram e me olharam curiosos.
— Me chamem só de Mi. – Sorri. – Não gosto desses honoríficos.
— Iremos tentar, mas não se zangue conosco se deixarmos escapulir alguma vez. – J-Hope falou sorrindo. Acho que ele nunca tira esse sorriso do rosto, que pessoa alegre.
— Não vou mais atrapalhar vocês, podem continuar eu ficarei aqui quietinha.
Eles concordaram e começaram o ensaio propriamente dito. Jungkook e J-Hope orientavam Jin e Namjoon em um canto da sala. Os outros três estavam no meio do recinto repassando a coreografia, era engraçado de se ver, pois como não podiam colocar a música para não atrapalhar os outros, eles ficavam cantarolando. De vez em quando algum staff passava e os lembrava de algo ou levava algum deles por pouco tempo e depois voltava. Mas o que mais me impressionou foi o quanto eles se esforçavam.
Depois de um tempo Jimin se jogou ao meu lado e ficamos conversando asneiras até que o Suga o repreendeu dizendo que ainda tinham mais de uma hora de ensaio.
— Quanto tempo vocês passam ensaiando? – Perguntei para Kook que havia parado para beber água.
— Obrigatoriamente umas 10 horas, das nove da manhã até sete da noite. Todos os dias, exceto o domingo e os sábados quando não estamos perto de apresentações ou gravações. Mas geralmente eu e os hyungs ficamos um pouco mais para praticar, trabalhamos duro para as ARMYs. – Falou sorrindo.
— É um pouco puxado, não é? – Perguntei baixinho.
— É sim, passamos quase o dia todo treinando e melhorando. – Sentou-se ao meu lado. – E é por isso que tudo vale a pena, quando vemos o amor das ARMYs ou o orgulho dos nossos pais e empresários... – Ele olhou para mim e abaixo a cabeça com um sorriso tímido. – Desculpe, eu sou um pouco tagarela.
— Não precisa se desculpar. – Falei rindo. – É lindo ver como gosta e se preocupa com o seu trabalho.
— E você faz o que, Mi? – Perguntou.
— Eu cursei letras, um sonho meio louco na realidade já que eu não pretendia seguir a area, mas eu sempre gostei de literatura e línguas. – Ele assentiu. – Agora estou indo para o segundo ano de engenharia química. – Suspirei. Do jeito que as coisas estavam no Brasil, é possível que eu continue “indo” para o terceiro período por um bom tempo. Malditas greves.
— Está se sentindo mal, Mi? – Jungkook perguntou preocupado.
— Não é nada Kook. – Disse sorrindo.
Ele assentiu e voltou para o ensaio.
Meu pai voltou da reunião e me chamou para ficar em sua sala. Despedi-me dos garotos e trocamos telefones, Jimin prometeu me ligar quando tivesse tempo para me mostrar as maravilhas da cidade. Tenho certeza que ele esqueceu que eu sou metade coreana e já estive diversas vezes na Coreia.
— Está aqui há muito tempo? – Meu pai perguntou quando entrei em sua sala.
— Um pouco appa. Depois do almoço com Sun e Jae eu vim para cá. – Ele arregalou os olhos, já eram quase seis horas da tarde. – Não se preocupe appa, passei esse tempo com os meninos do BTS vendo seu ensaio.
— Não acha que está se aproximando demais deles? – Perguntou erguendo uma sobrancelha.
— Está preocupado com sua filha ou com sua galinha dos ovos de ouro? – Perguntei sarcástica.
— Não use esse tom comigo mocinha, não está falando com sua mãe, muito menos no Brasil. Exijo respeito, sou seu appa. – Ergueu a voz. Revirei os olhos, mas me endireitei. Eu não gosto muito dessa rigidez coreana, mas tenho que respeitar.
— Desculpe appa. – Respondi baixo.
— Assim está melhor. – Resmungou. – Estou preocupado com os dois. Não quero que a minha garotinha se envolva e muito menos que eles comecem a relaxar e deixem de trabalhar duro.
— Appa, me responda duas coisas. Eles já deram algum indicio de que iriam fraquejar? – Ele negou. – Eles são maus garotos, no sentido que me impeça de estar com eles? – Ele negou novamente. – Então estamos resolvidos appa.
— Me desculpe filha, mas vai demorar para o seu appa aceitar que já está crescida. – Falou. Malditos costumes coreanos...
— Appa. Eu tenho 22 anos, 24 aqui. Já sou uma mulher – Falei. – O senhor sabe que já me envolvi com homens. – Ele fez uma careta ao lembrar-se de algo, sei bem qual cena que ele está pensando. – E não se preocupe, eu não pretendo me envolver com eles. É só que eu não costumo fazer amizades e estou conseguindo agora.
— Tudo bem filha. Como eu disse da outra vez, é bom que tenha outras pessoas além da Sun.
Assenti e sentei junto a ele. Meu pai estava organizando alguma coisa relacionada a FlowerPower, parecia um quadro de horários.
— O que é isto? – Perguntei.
— Estou tentando organizar os horários de ensaio do novo grupo que iremos lançar, de modo que não choquem com o BTS ou o HOMME. – Ele tirou os olhos do computador e me encarou. – Não quer ajudar seu appa?
— Com o que? – Perguntei desconfiada.
— Não temos nenhum nutricionista ou mesmo personal trabalhando conosco desde que Lee pediu demissão ano passado e já estou tendo problemas com os antigos esquemas alimentares e físico, sem falar que as novas integrantes precisarão de um.
— Aonde o senhor que chegar appa?
— Preciso arranjar alguém para o cargo. Na verdade preciso lidar com todo o contato pessoal referente aos três cargos de staff disponíveis. E isso tomará muito tempo.
— O senhor quer que eu faça as entrevistas? – Perguntei perplexa.
— Não. – Ele riu. – Somente que termine estes quadros de horários. – Apontou para seu notebook. – Fora esse tem mais uns quatro e se ajudasse, talvez eu consiga ter mais tempo para você.
— Claro appa. – Falei sem conseguir reprimir um bocejo no meio da frase.
— Mas não agora. Vamos, já está tarde. Vou chamar um táxi para leva-la para casa.
— Eu posso esperar o senhor. – Falei sonolenta.
— Estou com tanta coisa acumulada que provavelmente só acabarei quando estiver amanhecendo. – Rolei os olhos e levantei.
Meu pai me mandou ir até a recepção e pedir para Yang me chamar um táxi. Olhei as horas no celular, eram dez da noite, passei o dia fora de casa.
— Pode pedir um táxi, por favor? – Pedi a recepcionista.
— Desculpe. – Me virei. – Está indo para casa, Mi? – Suga perguntou.
— Estou sim, vai demorar muito para meu appa largar. – Confirmei. Ele assentiu se aproximando de mim.
— Não precisa pedir outro veiculo Yang. – Se dirigiu a recepcionista. Encarei o mesmo confusa. – Acabei de pedir um, podemos dividi-lo. – Falou voltando a se sentar. – Não irá ser o primeiro espaço que dividimos. – Comentou me fazendo encara-lo. Ele estava flertando comigo? Não soube responder, pois ele parecia mais concentrado em seu celular do que em mim.
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