Bourbon Street
3 Capítulo Três - Isca viva
Notas iniciais
— Olá docinho — seu sorriso só não era maior, pois senão rasgaria sua boca.
Seus pés se mexeram e foram se aproximando vagarosamente de mim. Fixou-se à minha frente e me encarou de perto, mantendo o sorriso estampado nos lábios. Levantou a mão direita e tentou tocar meu rosto, mas me afastei bruscamente, sentindo os guardas apertarem meus braços ainda mais. Nicholas se aproximou novamente e seu rosto pairou a milímetros do meu.
— Vão — ordenou aos homens.
— Mas senhor...
— Me entreguem as chaves e vão — aumentou o tom. Um dos policiais andou até ele e fez o que foi pedido. Os outros dois se afastaram, deixando-me ainda algemado. O barulho da porta sendo fechada invadiu meus ouvidos e não foi diferente com Nicholas, que sorriu, agora muito mais solto e se afastou aos poucos, olhando para todos os lados menos para mim.
— Eu deixarei que me conte porque está aqui — se jogou na poltrona e colocou os pés sobre a mesa, um tanto largado — Comece — fez um gesto com a mão.
— Quem é você? — eu me irritava.
— O que aconteceu? — voltava ao assunto principal.
— Quem é você?
Ele se levantou bruscamente.
— Você não sabe com quem está se metendo, garoto — rosnou à medida que me forçava contra a parede. Sua mão segurava meu pescoço com força e eu não podia fazer nada — Não me desafie — soltou-me, voltando à poltrona — Comece.
— Causei uma briga — eu não prendia dizer tudo.
— Com quem?
— Dois seguranças — informei e ele novamente andou até mim.
— Onde? — pude sentir seu hálito de Halls de uva. Ele estava muito próximo de mim, consequentemente seu corpo definido estava colado ao meu. Seus olhos pareciam avaliar cada palavra minha e seu perfume invadia meus pulmões com magnitude.
— N-no o meu trabalho — gaguejei.
— Você está bêbado? — erguia as sobrancelhas.
— U... Um pouco — respondi arrancando um sorriso sarcástico dele, que forçou meu pescoço novamente com a mão.
— Quer dizer que o meu trabalho foi interrompido por um idiota bêbado? — gritou nervoso bem perto do meu ouvido, deixando-me um pouco zonzo. — Você tem ideia do que me impediu de fazer? — sua voz rouca não era nada mais do que excitante e sua respiração quente me causava calafrios intensos.
— Provavelmente nada — enfrentei.
— Ah é? Então você vai me ajudar a fazer nada — abriu minhas algemas e as jogou por sobre a mesa.
— Não vou fazer seu trabalho — grunhi e a única coisa que ele fez foi andar até a escrivaninha e retirar um revólver de dentro de uma das gavetas. Dei alguns passos para trás, fazendo com que ele sorrisse. — O que eu tenho que fazer? — mudei de ideia rapidamente.
Ele caminhou a passos lentos até mim, deixando seu corpo novamente junto ao meu. Levou os lábios até bem próximo da minha orelha e pronunciou suavemente.
— Ah, não estou te ameaçando, docinho...
— Não me chame assim — apoiei as mãos em seu peitoral e o empurrei.
— Não gosta? — sorriu sarcástico — Acostume-se, é assim que eu trato perdedores como você — rosnou voltando a ficar sério – Agora vamos, você vai ser minha isca.
Prosseguia até a porta.
— Você é um babaca, como pode me usar como isca? Eu nem sei o que você tá aprontando e já sei que vou me dar mal — estava assustado.
— Deixa de ser mocinha — revirou os olhos — E me chame de babaca outra vez e eu lhe deixo preso por trinta dias com direito a surra de cinco em cinco horas — ameaçou — Vamos e não fuja, pois eu não irei correr atrás de você, mas quando o encontrar e juro que vou encontrar, irá se arrepender.
Balancei a cabeça afirmativamente e andei cabisbaixo por todo o corredor de vidro. Eu podia senti-lo perto de mim mesmo sem vê-lo. Eu já disse que faço tudo errado? Saí de um casamento de três anos e perdi meu emprego de quase quatro para ir parar em uma delegacia com o idiota do Nicholas Phillips.
— Dr. Phillips, temos um problema — um guarda falou.
— Nós temos muitos problemas, Martin. Inclusive, estou indo resolver um bem grande agora — falou amargamente — Jimmy, eu não demoro — apontou para um homem negro sentado em uma cadeira giratória.
— Senhor, desculpe a intromissão, mas ele não deveria ficar? — o mesmo soldado que havia me prendido falou.
— Eu resolvo o que faço e ele virá comigo, irá me ajudar em algo — explicou andando até a porta principal.
— Mas chefe, ele pode tentar fugir — o cara voltou a falar.
— Qual o seu nome? — Nicholas me fitou.
— Carter — Proferi — Enzo Carter – completei e o vi se aproximar de mim.
— Então Enzo, vai tentar fugir? — estava muito próximo.
— Porque acreditaria em qualquer coisa que eu falasse?
— Eu dou uma chance às pessoas, se elas quebrarem minha confiança nunca mais a têm, então decida-se – bradou rapidamente.
— Eu não vou fugir — informei.
Ele assentiu.
— Eu confio nele, Paul — resmungou ainda me encarando — Agora nos dê licença — já andava até um dos carros estacionados no pátio da delegacia.
Não era uma viatura, o que era estranho. Entramos na Ferrari vermelha e ele seguiu velozmente pelas avenidas da cidade. Ele não precisava se preocupar por ser pego pela policia, afinal ele era a policia.
Apesar de ele ter dito que confia em mim, eu não me sentia à vontade com a sua presença. Eu não desconfiava dele, mas também não confiava. Sempre fui assim, só não sei ao certo se isso é bom ou ruim.
Do lado de fora da janela a paisagem havia se transformado em borrões. Nada era descoberto pelos meus olhos, que a todo custo tentavam descobrir onde estávamos indo. Dentro do carro fazia frio, mesmo com o aquecedor estando ligado no máximo.
Olhei para o lado e dei de cara com um Nicholas bastante tenso. Suas mãos estavam fixas no volante enquanto seus ombros estavam colados no banco e todo seu corpo ereto. Seus olhos não descolavam da estrada e parecia estar envolvido por pensamentos.
A velocidade foi diminuindo assim que as luzes começaram a diminuir, dando lugar a uma paisagem escura e diferente. Haviam vários prédios destroçados ao redor das ruas vazias e sombrias. Capitei um barulho não muito longe, mas percebi que aquele era nosso destino quando o carro foi estacionado na frente da boate.
Saímos vagarosamente do veículo. Ambos olhávamos para a entrada e o logotipo logo acima da porta enferrujada. Alguns homens estavam parados conversando, e assim que nos viram, trocaram olhares divertidos entre si.
— Tudo que eu fizer, faça também — Nicholas sussurrou em meu ouvido e eu assenti.
Andamos lado a lado até estarmos dentro do estabelecimento. A música estava incrivelmente alta e as únicas luzes eram as dos vários strobos espalhados. Havia uma pista de dança e um bar destacado pelas luzes néon. Homens e mais homens dançavam juntos em cima de mesas e no centro da boate. Nick e eu sentamos em bancos de frente para a bancada, e antes que eu pudesse falar algo, ele tomou a iniciativa.
— Hey, traz duas Tequilas — pediu ao garçom, que apenas assentiu com a cabeça.
— Não quero beber.
— Você vai beber.
— Não entendi porque me trouxe aqui – informei – Que lugar é esse? – perguntei em um tom mais alto, já que todo aquele barulho me impedia de ter boas maneiras. — Estão todos olhando para mim — ouvi sua risada alta. Um sorriso malicioso brincava em seus lábios enquanto seus olhos me encaravam divertidos.
— Olhando para você? Tá se achando demais, garoto — foi sacana — Se você não percebeu, isso aqui é uma boate gay — eu rapidamente olhei para todos os lados, tentando arranjar provas de que aquilo era realmente verdade e tive a surpresa de descobrir que era.
O barman voltou com os copos de Tequila e antes que Nicholas pegasse também o meu, agarrei um deles e dei um enorme gole.
— O que a gente está fazendo aqui?
— Teatro — respondeu divertido — Sabe encenar, docinho?
— Pare de me chamar assim — grunhi nervoso e ele sorriu sarcástico.
— Eu faço o que eu quiser.
— Não comigo — gritei. Nessa hora todos nos olhavam sem distinção alguma. Parecíamos um casal em crise, o que era bastante esquisito. A expressão de Nick mudou um pouco, e ele logo falou:
— Acalme-se, eu só falei que ele parece ser bom na cama — levantou as mãos em sinal de rendição e eu encarei aquela cena totalmente confuso.
“Tudo que eu fizer, faça também”
— Você está comigo agora, não pode ficar olhando para ele — apontei para um dos caras sem camisa no início do corredor. Eu entraria naquele jogo, apenas para sair dali o mais rápido possível.
— Pare de agir como se eu fosse um canalha, pois eu não sou — afirmou aparentemente irritado.
— Então o que é? — eu não sabia mais o que dizer, aquilo tinha que acabar logo.
— Quer saber? Se você não sabe, não vai ser eu quem vai te lembrar — Nicholas deixou um dinheiro em cima do balcão — Vá se foder.
E assim ele se afastou. Eu estava realmente enraivecido por aquilo.
— Acho melhor mesmo procurar outro homem, já me cansei de você.
Respirei fundo e bebi mais uma dose de Tequila. Com o tempo tudo voltou ao normal e, não ousando demorar, eu sai do estabelecimento.
Entramos no carro em silêncio e assim continuamos por um bom tempo, até que eu não resisti e falei.
— Que droga foi aquilo?
— Teatro.
— Precisava daquilo?
— Sim, agora todos acham que somos gays e estamos juntos.
— Eu sou gay.
— Eu não — suspirou.
— Vai me explicar o que está acontecendo?
— Esse lugar que você viu é apenas mais um ponto de tráfico de drogas — murmurou.
— E porque precisa de mim?
— Não posso ir para uma boate gay sozinho, sou gostoso demais para isso, vou ser estuprado — falou de forma séria, mas eu me permiti a rir. Aquela frase fora idiota demais para não ser zombada pelo resto da vida.
— Ok, gostosão — zombei.
— É serio — sorriu — E então, onde você mora?
— Me deixa na Rua Bourbon mesmo — pedi e ele estacionou o carro rapidamente.
— Vai me ajudar a resolver isso, entendeu? — fitou-me — Amanhã te encontro nesse mesmo bar às vinte horas.
— E se eu não voltar?
— Você vai.
Assenti, eu realmente iria.
— Até amanha então — suspirei saindo do carro e batendo a porta.
Caminhei sozinho pela cidade até estar há poucos metros da minha casa. Olhei para a construção antiga e lembrei-me do que estaria me esperando quando chegasse lá.
Eu precisava seguir em frente.
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