Bourbon Street
4 Capítulo Quatro - Preliminares
Notas iniciais
Já fazia horas que eu estava andando pelo centro da cidade entregando currículos e tentando arranjar um emprego novo, afinal, com todo aquele escândalo, acabei sendo demitido por justa causa, e coloca justa nisso. Passei por várias empresas de psicologia, mas nada, já estava ficando cansado.
As ruas estavam cheias de pessoas, que por sua vez estavam atrasadas para o trabalho ou tinham a mesma preocupação que eu. Encontrei alguns amigos pelo caminho, mas foi tudo bastante estranho, eles pareciam diferentes.
— E aí Enzo — Matthew cumprimentou me abraçando por trás assim que adentrei em uma lanchonete.
— Oi Matt — o cumprimentei em um aperto de mão.
— Aceita um café? — perguntou — Oh! — fez uma cara de falso espanto — Desculpe, eu não quero que pense que estou a fim de você — murmurou. Não dei muita importância para aquilo, afinal éramos amigos há tanto tempo e as brincadeiras eram constantes.
— Obrigado, mas não posso aceitar — Lancei a ele um falso sorriso amigável e me virei, com o objetivo de ir para casa. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer além de apenas esperar pela resposta dos grandes donos das empresas.
— Hey grande Enzo — Louis apareceu com um sorriso estampado no rosto à medida que me puxava para um abraço — Como vai seu marido? — perguntou e logo fez a mesma expressão que Matt havia feito segundos atrás — Ah! Desculpe-me, como vai sua mulher?
— Está tudo bem... — murmurei desajustado — Eu preciso ir, até depois — informei e rapidamente fui puxado para trás.
— O que é isso, cara? Sente-se aqui com a gente, vamos tomar um café e bater um papo.
Sentei-me totalmente contrariado em uma das cadeiras enquanto os via sentar um de cada lado. Matt agarrou o cardápio e o observou divertido.
Nós três nos conhecíamos desde o colegial quando minha família mudou para cidade. Éramos conhecidos como os nerds do colégio, mas no final, quem se deu bem na carreira fomos justamente nós.
— Sabe Enzo, você não acha que... — Matt arredou a cadeira para o meu lado e apoiou o braço em meu ombro — ... é melhor ter dois amigos cachorros como nós, do que um bambi como você? — eles riam como dois babacas estúpidos, mas eu não iria perder minha paciência.
— Mas falemos sério — Louis sorria ao me encarar — Como está indo seu relacionamento com a Jeane?
— Ah... a gente está se separando... Ela não é o que eu procuro, sei lá — estava um pouco desajustado.
— Sempre dizem por aí que um homem procura o mesmo que uma mulher, ou seja, uma pessoa sensível, romântica e atenta... Talvez a sua cópia esteja por aí — Matt sorriu provocando altas risadas no outro colega.
— Olá, querem algo? — uma garçonete loira se aproximou da nossa mesa e os dois caras pareceram engoli-la com os olhos.
— O que a gente quer talvez não possamos ter — Louis falou lançando a ela um sorriso sacana, que retribuiu ao mesmo, um olhar de desprezo.
— Tem sanduíche, empada, enrolado de salsicha...
— Opa! Salsicha é com o nosso amigo aqui — segurou meu ombro novamente em um gesto nada legal.
— Quando se decidirem, me chamem — revirou os olhos irritada e se afastou.
— Hm... Ela é nervosinha — Louis balbuciou — Gosto assim.
Os dois sorriram.
Para falar a verdade, eu não sabia o que ainda estava fazendo ali com aqueles dois babacas. O importante era que eu não estava entendendo nada daquele papo preconceituoso e queria mais do que nunca ir embora.
— Eu vou indo... — me levantei.
— Que isso, Enzo? Fica com a gente, podemos não ser bonitos, mas...
— Desculpe Matthew, mas você fala demais — grunhi.
— Hm... — torceu a boca levemente – A bicha ficou irritada?
— Vá se foder — rosnei entre dentes.
— Vai você!
— Acalme-se Matt, ele pode querer ir mesmo — Louis bradou divertido e, sem esperar por mais alguma coisa, eu prossegui para fora da loja, totalmente tomado pelo ódio.
O vento gelado envolveu meu corpo por inteiro, fazendo-me tremer de frio. Aprumei meu agasalho enquanto via meus pés macerarem a neve em alto nível no chão, constituindo pequenas fendas esbranquiçadas.
Meus olhos se mantinham fixos no chão enquanto meus pensamentos me levavam direto ao ocorrido anterior. Eu não sabia ao certo, mas tudo me induzia a pensar que meus amigos sabiam da minha recente revelação, pois as brincadeiras nunca foram tão fortes e insinuativas quanto àquelas. A pergunta que não queria calar era: como eles sabiam? Tudo podia ser coisa da minha cabeça e eu rezava para que fosse, mas podia não ser.
Não fazia muito tempo e a noite já havia chegado. A lua brilhava majestosamente no céu azul marinho sendo acompanhada pelas milhares de estrelas. O vento antes calmo, agora passava fortemente por mim, bagunçando meus cabelos.
Passei por um restaurante de paredes de vidro e parei para observar o meu reflexo. Ele mostrava um homem de vestes normais naquela parte do ano. Um sobretudo de lã, calça jeans e sapatênis preto. Parecia um jovem universitário procurando por um estágio com sua mochila pendurada nas costas e os óculos, que só o deixavam mais sério do que realmente era.
As pessoas passavam por mim e me encaravam assustadas, talvez se perguntando se eu era louco ou se apenas havia bebido demais, então apenas balancei a cabeça tentando afastar alguns pensamentos ruins e prossegui em minha jornada.
Olhei para o relógio de pulso e respirei fundo ao perceber que eram oito e trinta da noite, e eu deveria ter encontrado Nicholas há trinta minutos em um local que ficava a dez longos minutos de onde estava.
Sem preocupar muito em ir para casa, comecei a andar mais e mais depressa na direção da Rua Bourbon. Não havia mais tantas pessoas pelas ruas, mas as poucas que tinham, apressavam-se, provavelmente querendo ver suas famílias antes de dormir. Eu não sabia como era essa vontade louca de estar perto de alguém, nunca soube.
Não demorou muito e eu estava parado de frente para o bar que Nicholas havia marcado para nos encontrarmos. Eu pensava se deveria ou não entrar, já que eu não queria liberar toda a raiva que meus amigos haviam desencadeado dentro de mim nele e, eu sabia que se ele fizesse algo que me irritasse, isso acabaria acontecendo.
Resolvi que se pensasse demais acabaria enlouquecendo, então empurrei a porta do estabelecimento e adentrei, visualizando o moço sentado de frente para a bancada. Uma garrafa de whisky estava firme em uma das suas mãos enquanto a outra estava apoiada em cima do balcão, servindo de base para sua cabeça. Parecia estar nervoso, mas também parecia estar tentando abafar aquilo.
Aproximei-me vagarosamente e toquei suas costas suavemente com uma das minhas mãos. Ele levantou a cabeça e me encarou com a expressão vazia. Seus olhos rapidamente adquiriram emoção e em menos de cinco segundos me vi encostado na parede com uma de suas mãos apertando meu pescoço com força.
— Onde você estava? — grunhiu entre dentes aproximando seu rosto do meu.
Sua respiração quente se misturava com a minha e, seu hálito parecia me envolver e me deixar um pouco zonzo. Meu corpo não mais sentia frio.
— Tive alguns imprevistos — coloquei minhas mãos em sua barriga, tentando afastá-lo e não conseguindo.
Assim que meus dedos tocaram seu abdômen senti os pelos da minha nuca se arrepiarem ao ver quão definido ele era.
— Imprevisto nenhum é tão importante a ponto de me fazer esperar — aumentou o tom de voz, fazendo toda a raiva borbulhar dentro de mim.
Sem pensar duas vezes forcei as laterais da sua barriga e o virei contra a parede. Forcei sua cintura e o mantive preso entre mim e a superfície vertical. Ele tentou me empurrar, mas eu estava nervoso demais para deixar que ele fosse mais forte naquele momento. Seu olhar topou com o meu e um sentimento de vingança tomou conta do meu ser. Levantei uma das minhas mãos e apertei seu pescoço, aproximando meu rosto do dele e sussurrando em seu ouvido.
— Hoje não é um bom dia para você me irritar, Dr. Phillips — rosnei e, logo senti meu corpo bater de encontro à outra parede.
— E hoje não é um bom dia para você me enfrentar, Carter — largou meu pescoço e prosseguiu vagarosamente na direção da porta. Seus passos cessaram enquanto eu o observava e seu rosto virou levemente para trás — Vamos.
Ultrapassou a porta.
Olhei para o lado e dei de cara com barman que havia me avisado para ter cuidado com o Nicholas. Ele me encarou como se pensasse “Eu avisei”. Aquilo acabou me lembrando da minha mãe, então balancei a cabeça e caminhei até o lado de fora do bar.
Avistei a Ferrari vermelha não muito longe e andei vagarosamente até ela. Nick estava encostado nela com uma expressão nada amigável.
— Sua vez — jogou a chave na minha direção e eu a agarrei velozmente, meus reflexos não eram tão ruins.
— Acho que não — coloquei-a em sua mão.
— Qual o problema, docinho? — esboçou um sorriso debochado.
— Não enche, Nicholas, vamos acabar logo com isso —passei por ele como um furacão e entrei no lado do passageiro, deixando-o para trás.
— Sinto dizer isso, mas não acabaremos hoje.
Sequer ousei olhar para ele.
Mantive-me quieto apenas tentando não tracejar nenhuma emoção. Minha vontade era de gritar de raiva, socar alguém e chutar a merda de um saco de pancadas. Queria chorar em silêncio sem ninguém para me ver ou julgar. Desejava que tudo aquilo acabasse logo e eu pudesse voltar para a casa, deitar na minha cama, encostar a cabeça no meu travesseiro e dormir.
— O que aconteceu? — a voz aveludada do rapaz envolveu meus sentidos e, de repente, um manto de suavidade me envolveu, fazendo meus olhos se fecharem e abrirem de leve, respectivamente.
— E você se importa? — retorqui aos sussurros.
O mesmo silêncio de antes nos envolveu, mas esse era pior, incomodava.
— Talvez — se posicionou — Quer falar sobre?
— Porque eu não consigo ser normal? — virei-me para ele.
Nicholas respirou fundo.
— A pergunta é: porque você quer ser assim? — seus olhos estavam concentrados no transito à sua frente. Seu corpo, ereto sobre o banco e, os músculos dos seus braços estavam tensos e firmes.
— Eu não sei o que quero.
— Assim fica difícil de te ajudar — parecia abatido — Tem que me dar mais, docinho — sorriu divertido e eu soube que ele queria apenas me distrair.
— Nick... — ganhei um olhar repreensor como recompensa. — N-Nicholas — consertei — Aconteceu uma coisa hoje e... tem como alguém dessa boate me conhecer?
— A probabilidade é mínima, mas o que aconteceu? — sua voz era calma e pensativa.
— Alguns amigos ficaram insinuando minha opção sexual e...
— Tudo que acontece na boate, fica na boate... – balbuciou aos sussurros — Nada sai — seu olhar variava entre mim e o trânsito — Entendeu?
— Claro — ajeitei-me novamente sobre o banco.
Como no dia anterior, a paisagem se transformava em borrões coloridos. Não demorou muito para o veículo estacionar em uma rua vazia. Olhei para o lado e vi que Nicholas já me encarava.
— É seu por agora — deu um tapinha no volante — Não podemos chegar juntos hoje — cerrei os olhos, fitando-o.
— Porque não?
— Estamos brigados, esqueceu?
— Mas... está escuro e não é legal você andar sozinho por aí — não me julguem por estar preocupado.
— Está preocupado comigo, Carter? — esboçou um sorriso divertido — Eu sei me cuidar — completou.
— Eu sei, mas é que...
— Está com medo de chegar lá sozinho, docinho?
Sem esperar por mais, abri a porta do passageiro e prossegui para o banco do motorista. Abri a porta brutalmente e o puxei pela camisa, arrancando-o de dentro do carro. Adentrei o espaço quente e confortável sem dar nenhuma palavra e deixei que a janela abrisse apenas uma greta, para que pudesse avistar seus olhos.
Nicholas apoiou o corpo sobre o carro e me contemplou ainda sorrindo de um jeito sacana. Sua boca abriu e fechou algumas vezes, mas nenhuma palavra escapou dela.
— O que faremos quando nos encontrarmos? — perguntei impaciente.
— Seja criativo — sorriu.
E então ele se afastou passo por passo.
O observei até que o mesmo sumiu do meu campo de visão, então girei a chave e prossegui velozmente pelas ruas escuras e silenciosas.
xXx
Já haviam se passado quase quarenta minutos desde que eu havia chegado naquela droga de boate, e nada do Nicholas aparecer. Todos os homens olhavam esquisito para mim e por mais que eu bebesse, não conseguia me distrair.
Uma coisa que estava me incomodando era o porquê dele ter deixado um carro valioso como aquele nas mãos de um cara que ele nem conhece direito. Ele disse que confiava em mim, mas como chegou à conclusão de que sou confiável?
— Vejo que meu carro está inteiro — uma voz aveludada envolveu o ar à minha volta e eu nem precisei olhar ao redor para saber quem era.
— Você demorou — acusei, ouvindo sua risada baixa ecoar.
— Tive alguns imprevistos — sorriu divertido e eu virei o rosto para encará-lo — Tudo bem, só falei isso para te irritar —sorriu mais uma vez — E aí, o que estamos bebendo? — perguntou ao retirar a garrafa de Tequila das minhas mãos e a virar garganta abaixo.
Ignorei aquilo e deixei que meus olhos passeassem pelo local, procurando um ponto inicial.
— E então, o que estamos fazendo aqui hoje? — indaguei aos sussurros. Nicholas pousou a garrafa em cima da bancada, fazendo uma careta ao sentir a queimação do líquido em seu estômago.
— Tenho que descobrir quem é o chefe do tráfico — olhou para os lados e só pronunciou ao perceber que estávamos sozinhos naquela parte da boate.
— Ainda não sabe? — revirei os olhos.
— Não faço a mínima ideia.
Chamou um barman.
— Como vai descobrir?
— Avaliando, oras — novamente aquele tom arrogante.
Peguei a garrafa de Whisky que o barman havia trago para o homem ao meu lado e virei todo o líquido garganta abaixo, sentindo cada pedaço de mim arder. Eu podia sentir os olhos de Nicholas me analisando assustado e até um pouco orgulhoso.
Repousei a mesma em cima da bancada e coloquei meus olhos no moço que já me encarava. Observei-o de cima a baixo, avaliando tanto o seu estilo quanto seu corpo. Hoje ele usava um coturno preto, um jeans escuro apertado e uma camiseta verde oliva. Não parecia se preocupar com o frio infernal que fazia lá fora ou com o calor demoníaco que estávamos presenciando.
— Ele não está aqui — falei de repente e ele cerrou os olhos, apenas me encarando.
— Ele quem?
— Quem você procura — observava cada pessoa ali.
— Como sabe?
— Você realmente acha que um homem com tal importância estaria se misturando assim? — fui arrogante.
— Aí é que está, docinho, todas as pessoas pensam do mesmo jeito que você, então com isso, pode facilitar para ele se locomover sem que ninguém perceba — retorquiu aos sussurros.
— Tem razão, mas para que ele vai se arriscar se pode mandar pessoas da sua confiança? — levantei as sobrancelhas totalmente cético, esperando que ele arranjasse uma resposta à altura.
— Odeio admitir, mas você está certo — agarrou a garrafa e jogou o líquido pela garganta abaixo.
— Eu sei — sorri soberbo.
— Oi, tem alguém aqui? — alguém perguntou e eu virei o rosto para avaliar quem era.
Um homem de mais ou menos trinta anos contemplava todo o meu corpo sem distinção alguma. Usava uma camisa branca e um jeans largo. Decidi não prestar tanta atenção nele, mas digamos que não era fácil abandonar aqueles olhos verdes e cabelos loiros.
— Ah... não — virei-me para Nicholas, que se mantinha quieto e concentrado nas pequenas letras da garrafa de bebida — Ficou um pouco mais difícil agora — assumi.
— Na verdade, ficou mais fácil, mas conversaremos isso depois — apontou com o queixo para o rapaz ao meu lado.
— Entendi — Resmunguei desanimado ao perceber que aquela história não acabaria tão facilmente.
Abaixei a cabeça suavemente e fiquei observando a textura da bancada, que não tinha nada de interessante, mas era o que tinha para fazer. Nicholas havia chamado o barman e pedido mais duas garrafas de Tequila, mas eu ainda não havia tocado na minha.
— E então, qual é o lance de vocês? — o rapaz perguntou e eu olhei para ele, pensando no que responder.
— Ah... Para falar a verdade não sei, vivemos brigando, e... fica difícil saber... — gaguejei.
— Ele é o ativo? — apontou para Nick com o queixo — Parece.
— Acho que esse assunto é meu e dele — Bradei.
O rapaz se mexeu inquieto ao ouvir minha resposta mais do que malcriada e assentiu, sem graça.
— Tem razão, desculpe-me — estava aparentemente envergonhado — Posso te pagar uma bebida? — sorriu de um jeito sacana e eu fiz que sim com a cabeça.
Ele chamou o barman e pediu uma garrafa de uma bebida qualquer. Começamos a beber e em poucos minutos estávamos rindo e falando coisas que não tinha noção alguma. Acabei esquecendo-me do outro homem ao meu lado e, quando eu menos esperava, ele se levantou brutalmente e prosseguiu a passos pesados para fora do estabelecimento. Eu sabia que ele estava irritado, mas o porquê ainda era obscuro para mim. Observei seu caminho antes de virar-me novamente para o rapaz ao meu lado e continuar com tudo o que estávamos fazendo antes.
Eu não queria brigar com Nick e, se eu fosse atrás dele, era exatamente isso que ocorreria.
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