Bourbon Street
30 Capítulo Trinta - Carne boa ou ruim?
Notas iniciais
— Já ouviu essa música?
Olhei para baixo, analisando os belos olhos azuis à minha espera. Rafael soltou um sorriso sincero e me ofereceu um dos dois fones de ouvido. Sem pestanejar, o posicionei.
— McCartney?
— É — alargou o sorriso — Queenie Eye.
Ele mordeu o lábio inferior ainda tendo um sorriso nos lábios. Tão sexy. Eu sorri ao ver a cena e ele começou a balançar a cabeça incessantemente ao ritmo da música. Não conseguindo me conter, levei a mão até seus cabelos e comecei a acariciá-los, sentindo os fios rebeldes deslizarem pelos meus dedos lentamente. Eu sorria largamente, observando a espontaneidade do homem e, de repente, me peguei sendo envolvido pelo clima bom. Ele riu alto ao me ver livre, movendo-me alegremente de acordo com o ritmo e aquilo causou uma onda de arrepios em meu corpo, como se alguém me fizesse cócegas. Aquele pensamento me fez rir ainda mais alto, contagiando-o também. Quando percebemos, todos nos olhavam com olhares curiosos.
— Você é tão esquisito — eu disse em meio a gargalhadas.
Ele riu alto.
— Você é ainda mais — sua mão deslizou pelo meu braço até estar envolta no meu pescoço.
A toquei com meus lábios, vendo o sorriso em seu rosto aumentar.
— É bom estar aqui com você — disse, voltando a ficar sério — Ultimamente tem ficado mais com o seu irmão.
— Nós dormimos juntos todas as noites.
— Não estou reclamando, mas é que... bom... às vezes sinto falta das suas visitas à minha sala.
Sorri malicioso, envolvendo sua mão carinhosamente e a deitando no meu colo ao lado da sua cabeça.
— Vou começar a dividir meu tempo, está bem?
Ele assentiu com um sorriso, voltando a olhar para a entrada do parque. Fiz o mesmo que o moço deitado com a cabeça em meu colo, começando a prestar atenção nas outras pessoas que ali frequentavam. Casais andando juntos, algumas crianças brincando com os pais, e jovens com seus cachorros. Era uma tarde ensolarada e o clima era de relaxamento naquele belo e pequeno parque aconchegante.
— Como acha que o Nicholas está? — ele perguntou de repente, ainda tinha os olhos distantes.
Quando chegamos ao parque, resolvemos ficar sentados embaixo de um grande carvalho solitário que ficava mais ou menos no meio do campo aberto. Estávamos escondidos do sol.
— Eu não sei — confessei — Tento não pensar muito nisso.
Ele assentiu.
— Porque está falando nele? — cerrava os olhos.
— Não sei, talvez porque ele esteja bem ali — apontou para a carrocinha de pipoca ao lado do portão principal.
Cerrei os olhos mais profundamente, sentindo meus sentidos se aguçarem. Lá estava ele, parado e com um sorriso no rosto enquanto comprava um saquinho de pipoca. Completamente diferente do que eu o via antes. Ao olhar mais atentamente, percebi que carregava algo. Mais especificamente, uma criança. Senti-me aliviado por vê-lo com o filho e, ainda melhor, com um sorriso no rosto.
— Ainda sente algo por ele? — perguntamos em uníssono.
De repente nossos olhares se encontraram. Um sorriso simpático nasceu nos lábios de ambos.
— Nada além de preocupação — eu respondi — E você?
— Nada além de preocupação — sorriu de lado — Mas ele tem a vida dele agora e parece que está seguindo em frente.
— É, parece.
O que encerrou a conversa foi o celular de Rafael, que apitou no mesmo instante. Ele o pegou e resmungou ao avaliar a tela.
— Acabou a hora de almoço — revirara os olhos.
Eu sorri de lado, acariciando seus cabelos.
— Nos veremos mais tarde.
— Mesmo assim, acho que eu deveria aumentar minha hora livre para duas horas — parecia pensativo — Eu almoçaria em cinco minutos só para passar o resto do tempo com você.
Nossos sorrisos se alargaram ao mesmo tempo em que ele se esforçava para se levantar do meu colo. Colocando-se entre minhas pernas, Rafael aproximou os lábios dos meus e me envolveu em um beijo carinhoso e cheio de paixão.
— Eu iria adorar — passei meus dedos pela sua bochecha e sorri de lado — Pode providenciar isso.
Ele sorriu também.
— É a primeira coisa que farei ao chegar à torre hoje — selou nossos lábios uma última vez antes de se levantar.
Antes de voltar a olhar para mim, enfiou as mãos nos bolsos e olhou para o horizonte, respirando profundamente. Por um instante inteiro, fechou os olhos e relaxou os ombros. Com um sorriso alegre tomando conta dos belos lábios rosados, ele se virou para mim e estendeu a mão na minha direção. Aceitei-a.
— Até mais tarde — sussurrava com os lábios próximos ao lóbulo da minha orelha.
Tremi por inteiro e, soltando um sorriso, assenti.
— Até mais tarde.
Ele se afastou lentamente, piscando para mim. Mantive-me parado e com as mãos nos bolsos, observando seu trajeto. Quando se afastou, sentei-me em um banco próximo e deitei a cabeça em minhas mãos. Um silêncio agradável se formou e tudo que eu ouvia eram as risadas baixas das crianças que corriam ao longe, assobios de pássaros e o estrondo da bola de futebol ao tocar o pé de algum adolescente. Suspirei profundamente e coloquei as mãos ao lado do meu corpo, ajeitando-me melhor.
Estava imerso em pensamentos quando senti uma mão sobre meu ombro. Era ele.
— Nicholas?
Ele assentiu levemente.
— Como vai, Carter?
Pensando em me posicionar à sua frente, levantei-me do banco. Os meus olhos continuavam nos dele.
— Muito bem — suspirei sem perceber — E você?
Ele deu de ombros, sorrindo de forma sarcástica.
— Estou construindo aquela nova vida que você me aconselhou — olhou para o outro lado, distante — É assustador.
Pensei um pouco sobre o assunto.
— Tenho certeza que sim.
— E eu não tenho ninguém além dele — indicou o filho com o queixo.
O olhei, recebendo um sorriso do mesmo. O garoto se remexeu em seu colo até que o pai o colocasse no chão e, quando o fez, ele saiu correndo pelo jardim.
— Vinícius — gritou — Fique onde eu possa te ver.
— Como está sendo na delegacia?
— Não trabalho mais lá — disse amargo — Nem podia.
— Por quê?
— Não sou mais respeitado e muito menos temido — olhava fixamente para meus olhos — Essa é a consequência de se deixar levar.
— Não entendi — eu tinha entendido.
— A culpa é sua.
— Sinto muito, mas não fui eu que te demitiu.
— Não diretamente.
— É bem mais fácil jogar a culpa nos outros, não é mesmo? — comecei — Nos deixa com a consciência limpa.
Ele parecia começar a se enfurecer.
— Porque não para de fugir?
— Você fez isso a vida inteira.
Seus olhos pareciam queimar. Há muito tempo eu não presenciava aquilo.
— Eu não sei do que você está falando — retrucava.
— Vou mesmo ficar sem conhecer seus verdadeiros sentimentos?
— Você escolheu a opção mais fácil.
— Eu escolhi não chorar ao ouvir seu nome — não me amedrontei em dizer.
Ele me encarou por um instante inteiro.
— Enzo?
Ouvi meu nome e resolvi me virar. Ao lado de um rosto masculino conhecido, estava um rosto feminino conhecido. Cerrei os olhos ao observá-los juntos, tentando imaginar de onde eles se conheciam.
— Amélia — balbuciei — Oi.
Ela trocou olhares apreensivos entre Nicholas e eu.
— Onde está o Rafael? — indagou.
— Acabou de voltar ao trabalho — eu sabia que ela estava achando que eu podia estar o traindo — Também preciso voltar daqui há pouco.
— Entendo — não tirava os olhos de Nicholas — Como você está, Nicholas?
— Eu gostava mais de você quando me chamava de Dr. Phillips, Amélia — sua voz era rude.
— Você não é mais meu chefe — ela voltava a olhar para mim.
Entretanto, meus olhos não conseguiam se afastar dos do homem ao lado dela. Eu sabia quem ele era, ele sabia quem eu era e, da mesma forma, continuávamos calados.
Ela pareceu não perceber, porque no mesmo instante em que seus olhos foram parar em mim, o homem falou, chamando a atenção de todos.
— Amélia, você faria um favor para mim?
Ela olhou para o lado.
— Claro que sim — sorriu.
Ele entregou a ela algum dinheiro e pediu que comprasse chocolate quente para os dois na cafeteria que ficava do outro lado da rua. Ela foi.
— Não te vejo há muito tempo — o rapaz disse com os olhos fixos em Nicholas.
— Não sei do que você está falando — ele retrucara.
— Você sumiu e nem mesmo falou nada — os olhos do moço começavam a ficar vermelhos — Por quê?
— Eu não sei do que você está falando.
— Claro que sabe, Nicholas — aumentou o tom de voz — Por quanto tempo você planejou sumir? Cinco meses?
— Eu estava em Coma, imbecil — rosnou.
O homem pareceu perder o chão de repente. Observei sua feição se modificar, esperando o momento em que ele cairia para trás, mas não aconteceu. Ele segurou as pontas.
— Tenho sorte em estar vivo.
O rapaz olhou para mim.
— É verdade?
— Foi você que me alertou — eu disse com os olhos nos dele — Afinal, o que está acontecendo aqui?
— Você não me escutou, garoto — riu debochado — Poderia ter escapado de uma enorme enrascada.
— Eu só quero saber o que está acontecendo aqui — repeti.
Ele sorriu de lado, olhou para o outro lado da rua e suspirou.
— Esse ser ali... — apontou para Nicholas — ...me abandonou sem nem mesmo dizer nada.
— Como eu iria dizer?
— Quando foi isso? — meu coração começava a diminuir.
— Não sei ao certo — seus olhos voltaram para mim — Há seis meses mais ou menos? Não faço ideia.
Não pude me conter.
— Seis meses? — virei-me para Nicholas — Estávamos juntos.
— Enzo...
— Como pode me julgar tanto, Nicholas? — eu começava a me exaltar, sentindo uma lágrima estúpida escorrer pela minha bochecha — Me chamava de prostituta e tantas outras coisas enquanto fazia coisa pior. Com quantos homens transou durante o tempo em que estávamos juntos?
Ele ficou calado.
O outro rapaz ficou calado.
Eu fiquei calado, esperando que em algum momento ele me respondesse, mas nada aconteceu. Meu celular vibrava no bolso de trás do meu jeans, mas eu não me importava. Tudo que eu queria naquele momento era descobrir tudo que eu não tive a chance de saber durante tanto tempo. Eu precisava daquilo apenas para me livrar completamente dos distúrbios causados por ele, da confusão mental e da angústia que sentia apenas por saber que fui eu quem o deixei sozinho. Eu precisava muito parar de sentir qualquer coisa por ele. Muito.
— Não tenho nem noção — respondeu com a voz falha.
Eu não sabia o que sentir.
Um sorriso sarcástico e ao mesmo tempo melancólico nasceu nos meus lábios trêmulos.
— Resolveu dizer a verdade agora?
— Não há mais porque mentir, Enzo — murmurava aos sussurros — Você não é mais meu — tentou sorrir, falhando miseravelmente — Vou responder suas perguntas.
— E as minhas?
— Escuta aqui, porque você não vai se foder? — me virei para o rapaz completamente enraivecido — O que você queria ao me dizer aquilo? Sequer me conhecia, sequer se importava.
— Não é obvio? Queria te manter longe dele — apontava novamente para Nicholas — Eu o queria só para mim.
Gargalhei alto.
— Estupidez querer isso.
— Então você também é estúpido — rebateu.
— Fui e não nego — minhas mãos se fechavam em punho — Mas deixei de ser assim há muito tempo. Você continua tentando alcançar o que não está ao seu alcance.
— Eu nunca fui de desistir. Lutava até o fim para conseguir o que eu queria — engoliu em seco — E é isso que vou fazer.
— Eu também pensava assim — sorri solidário — Mas com o passar do tempo, eu percebi que embora um objetivo pudesse parecer a coisa certa em determinado momento da minha vida, depois ele já não seria a melhor opção — olhei para Nicholas de soslaio, mostrando a verdadeira intenção das minhas palavras — É sábio saber o momento de desistir.
— Está dizendo tudo isso para me afastar dele.
Eu soltei um riso debochado.
— Tudo bem, acredite nisso — fiz um gesto de reverencia — Siga em frente.
Ele assentiu e voltou a olhar para Nicholas.
— Podemos ficar juntos, Nicholas — sussurrou — Eu quero você, sempre vou querer.
Nicholas revirou os olhos.
— Quando vai entender que eu não sinto nada por você? — falou secamente — Eu ao menos sinto muito por isso. Você só foi um pedaço de carne para mim. Durou o tempo que mereceu, mas acabou. Felizmente.
O rapaz não tinha palavras. Percebi que ele começava a tremer e, vendo uma lágrima escorrer pela sua bochecha, me virei para Nicholas.
— É isso que eu fui também? Um pedaço de carne?
— Enzo...
— É isso que eu fui? — gritei.
Ele balançou a cabeça negativamente ao mesmo tempo em que se levantava e seguia até o mim. Dei um passo para trás.
— Não precisa se aproximar para responder.
Ele suspirou, deixando os ombros caírem.
— Você foi um pedaço de carne, mas um que eu nunca me cansaria de comer.
Aquele foi um dos momentos que me deixou mais abalado em toda a minha vida. Eu fui um brinquedo o tempo todo.
— Você disse que me amava, eu acreditei.
— Todos acreditam — deu de ombros — Não é difícil. Eu finjo não me importar, então depois finjo o contrário e aí... bem... vocês acreditam.
— Você é um psicopata — limpei as lágrimas com as costas da minha mão, fungando profundamente — Você me fez perder toda a minha autoestima, felicidade e qualquer vontade de viver. E tudo isso para que, Nicholas? Para que?
— Eu sinto prazer nisso — sua voz se modificou completamente, sua feição também e, com mais um passo na minha direção, ele completou — Não posso viver só com um homem, eu preciso de mais, preciso me alimentar não só do corpo, mas também dos sentimentos. Sou um predador, Enzo. E predadores são frios. Não me julgue.
Suas palavras repercutiram em minha mente por alguns segundos. Ele sentia prazer em me ver sofrer. Eu não conhecia o homem à minha frente.
— Você se entregou para mim — dei um passo para trás ao vê-lo se aproximando.
— Não tinha outro jeito, você precisava acreditar que eu confiava em você.
— Você podia confiar em mim — rosnei entre dentes, sentindo minha voz se embolar com meu pranto exasperado — Você sempre pode confiar em mim.
— Não é tão fácil assim — suspirou — Eu não confio nem mesmo na minha própria sombra.
— Eu odeio você.
— E quem não odeia? — sorriu sarcástico — Só eu mesmo.
— Você não é um bom exemplo para o seu filho — apontei para o menininho no chão do outro lado do parque — Nunca será.
— Ele não sabe quem eu sou ou o que eu faço.
— Mas um dia vai descobrir e vai sentir nojo de você da mesma forma que estou sentindo agora.
Ele assentiu, procurando os olhos do outro rapaz.
— Você também está sentindo nojo de mim?
— Não, Nicholas — o outro sussurrou — Eu amo você.
Eu tentei esconder um sorriso debochado, mas não deu muito certo.
— Do que você está rindo? — ele se ofendeu.
— Nada — dei de ombros, respirando com um pouco de dificuldade — Aproveite — fiz um gesto com a mão, indicando Nicholas.
— Eu vou.
Eu me virei, mas antes que pudesse ir embora, senti uma mão sobre meu ombro.
— Enzo.
— Me solta — tirei sua mão de mim com um empurrão.
Seus olhos encontraram os meus.
— Ele pode te amar mais, mas eu posso te foder melhor — disse com os dentes cerrados.
Soltei um sorriso debochado.
— Você está enganado — disse — Você não tem nem ideia de como ele é.
Eu também não sabia como ele era no papel de ativo, mas eu mentiria mil vezes apenas para não deixar Nicholas zombar da imagem do meu namorado.
Ele não respondeu nada.
Eu não deixei que ele respondesse.
Fui andando até estar no prédio em que trabalhava. Rafael veio correndo na minha direção, perguntando o que aconteceu e porque eu não respondia às suas chamadas.
Eu não respondi, então ele me aconchegou em seus braços e beijou minha testa.
— Acalme-se — disse ao sentir meu choro contra seu peito — Nós vamos ficar bem.
Suspirou profundamente.
— Nós vamos ficar bem.
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