Bourbon Street

29 Capítulo Vinte e Nove - Desejaria um amor pra recomeçar


Notas iniciais
Eu sei que estou postando os capítulos muito rápido, mas é que pretendo finalizar essa história até amanhã mais ou menos, então espero que continuem gostando xD Beijos :*

As portas do elevador se abriram.

A tensão parecia estar espalhada no ar, pelo meu corpo e sentimentos. Eu respirava fundo tentando controlar meu pânico, meu corpo formigava e meu pulso se acelerava.

Era claro que eu estava nervoso.

— Não precisamos fazer isso hoje — aquela voz aveludada preencheu o ar gélido.

Olhei para baixo, procurando seus dedos com os meus.

— Precisamos sim.

Ele não disse mais nada, apenas apertou minha mão e me guiou pelos corredores. Encontrei o olhar do médico de plantão e ele soltou um sorriso melancólico ao me ver. Sabia o que eu estava prestes a fazer.

Com a permissão dos seguranças, Rafael e eu adentramos o quarto. E o encontramos vazio.

Respirei fundo, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ele apareceu:

— Oi — Nicholas disse ao sair do banheiro, tinha um sorriso no rosto — Pensei que não viesse mais.

Soltei a mão de Rafael às escondidas e tentei sorrir.

— Eu não deixaria de vir.

Ele sorriu, sentando-se sobre a maca.

— E então, o que você está fazendo aqui? — ele olhava para Rafael.

— Você não reclama quando eu venho sozinho — Rafael se encostou à solteira da porta.

Nicholas permaneceu em silêncio.

Minha mente por um minuto inteiro ficou cheia de pensamentos confusos e medos constantes, mas eu sabia o que queria e o faria.

— Queremos conversar com você — Rafael e eu dissemos em uníssono.

Nicholas arregalou os olhos e trocou olhares entre o outro homem e eu.

— Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba?

Engoli em seco.

Em um segundo eu estava parado sem expressão e no outro eu tinha Rafael ao meu lado. Senti-me em segurança e aquilo me deu forças para continuar.

Puxei duas cadeiras para perto e me sentei em uma enquanto oferecia a outra para Rafael. Nicholas observou em silêncio, mas eu podia ver em seus olhos o quanto estava confuso.

— Hã... — tentava começar a falar, mas minha voz parecia sumir toda vez que eu me sentia corajoso — Você ficou muito tempo aqui neste hospital — eu dizia — Aconteceu muita coisa e...

Respirei fundo, tentando encarar seus olhos e não sucumbir.

— O que está querendo dizer, Enzo? — a voz dele estava baixa.

— Nós ficamos ao seu lado — Rafael tomou a palavra — Durante todos os dias, estávamos aqui.

— É verdade — engoli em seco — Nossa vida se resumiu a você durante quase cinco meses.

Nicholas trocava olhares confusos entre o outro homem e eu.

— Eu não sei onde vocês querem chegar, mas já está bastante assustador, é hora de parar.

— Não podemos — eu murmurei — Você precisa nos ouvir.

Ele não disse nada.

Ansioso, levantei-me repente da cadeira e comecei a andar pelo quarto, esfregando as mãos umas nas outras rapidamente. Quando olhei novamente para eles, encontrei dois pares de olhos claros sobre mim. Respirei fundo e tentei me concentrar nos olhos azuis, eles me passavam força.

— Nós também temos nossa vida.

A expressão dele mudou de repente, sua pele se branqueou tão rápido que pareceu um fantasma, seus olhos verdes se arregalaram e suas mãos começaram a tremer.

— V-você não...? — ele tentava dizer.

— Nós sentimos muito — Rafael murmurou baixinho, olhando-o nos olhos.

Nós? — Nicholas zombou — Então é assim agora? Nós? Bem que eu percebi quão próximos vocês estavam.

— Nicholas...

— Vocês se tratam como um só — ele sorriu debochado — Eu deveria ter percebido isso antes.

Ele me encarou de forma intimidadora, mas eu não abaixei a cabeça.

— Você não hesitou em nada ao ficar com ele, não é mesmo? — olhava diretamente para mim — É uma prostituta.

Senti algo tão intenso subir pelas minhas veias, que quando vi, estava andando em sua direção como um touro. Rafael se levantou de repente e apoiou as mãos no meu peito, mantendo-me longe.

— Schh — ele sussurrava — Fique calmo.

— E-eu... eu vou...

— Você vai ficar calmo — ele tinha um sorriso no canto dos lábios — Ele ainda não está totalmente recuperado, você precisa se controlar. Entendeu?

Assenti com um aceno, então ele se viu livre para se virar para Nicholas. Por um instante pensei que Nicholas fosse dar um soco nele, mas então Rafael tomou a palavra.

— Você o chama de prostituta, mas ainda não pensou que você pode ser tão ruim de cama a ponto de ele ter vontade de transar com outros homens — ele disse naturalmente — Pensou?

Nicholas tinha os olhos queimando de raiva.

— Eu fiquei um mês deitado nessa cama, pensando no dia em que eu pudesse sair daqui e te fazer uma surpresa — rosnava, olhando para mim — Mas foi você quem me fez uma surpresa.

— Não tente me culpar.

— Te culpar pelo o que, Enzo? — tinha um tom superior — Por me trair durante um mês inteiro?

— Não estávamos juntos há muito tempo — andei até a janela, virando-me para ele novamente — Há quase cinco meses.

— Não importa — retrucou — Eu ainda tinha esperanças.

— Não é culpa minha — dei de ombros, sentindo meu peito arder.

Ele sorriu sarcástico, levantando-se da maca e andando até o outro homem.

— Você o colocou contra mim.

— Eu nunca fiz isso — Rafael respondia sem se alterar — Eu nunca faria isso.

— O que você fez para colocá-lo contra mim?

— Você não me intimida, Nicholas — Rafael se levantou e, por isso, ficou maior do que o outro — Ainda mais vestido nesses trajes.

Tentei esconder um sorriso idiota ao ver a bunda do delegado aparecer através do avental de hospital.

— E você? — ele ignorou o outro homem e andou até a mim — Porque ficou com ele?

Respirei fundo, perdendo as palavras dentro de mim. Os olhos de Rafael se encontraram com os meus e eu senti meu coração diminuir até o tamanho de uma bolinha de gude.

— Ele quer me ver feliz — consegui.

— E o que eu quero?

— Você quer mentir, enganar, encenar e destruir minha vida — as palavras pareceram deslizar para fora da minha boca — Antes de você entrar em coma, eu descobri tudo sobre você — soltei um sorrisinho debochado — Quase tudo, porque você é um livro fechado, nunca ninguém vai saber quem você realmente é.

Ele me encarou sem reação alguma até que se virou para Rafael.

— Você o contou.

— Eu não contei nada — Rafael o interrompia.

— Você contou o que aconteceu entre a gente — ele rosnou um pouco mais alto.

— Eu não contei.

— Sua ex-mulher contou — eu exclamei.

Ex-mulher? — levantara as sobrancelhas — Eu não assinei papel nenhum.

— O juiz concedeu o divorcio a ela, já que você estava em coma por tempo indeterminado.

Ele levou as mãos à cabeça, bagunçando os cabelos lentamente.

— O que mais aconteceu? Cadê meus pais?

Rafael suspirou.

— Precisa ficar calmo, Nicholas.

— Cala a droga da sua boca, passivo de merda — gritou, o rosto se tornando vermelho aos poucos — Cadê meus pais?

Eu puxei uma cadeira e me sentei.

— Eu não sei.

— Como não sabe?

— Eles sumiram — Rafael começou — Tentei localizá-los, mas não alcancei um resultado bom. Isso faz quase dois meses.

Nicholas se deixou cair por sobre a maca. Tinha os olhos fixos no chão.

— Cadê a Denise?

— Não a vemos há três meses — eu disse — Ela está namorando alguém.

— Eu quero ver meu filho — ele se levantou de uma só vez — Cadê meu filho? Ele já está falando? Andando? Me chamando?

Respirei fundo, tentava não me desesperar ao ver seu desespero.

— Eu não sei.

— Não, isso não pode estar acontecendo — e de repente ele estava andando de um lado para o outro — Não pode.

— Você poderá começar uma vida nova, Nicholas.

— Eu quero que a vida nova vá se foder — ele grunhiu, voltando a olhar para Rafael — E eu quero que você vá se foder.

— Eu consigo entender seu nervosismo, mas...

— Eu não preciso dos seus conselhos — rebateu — Vá embora, Rafael.

— Nicholas, tentamos falar com você antes, mas o médico não permitiu e...

— Vá embora, Carter — indicou a porta com uma das mãos — Vocês dois.

Engoli em seco, respirando fundo logo depois. Rafael apertou minha mão levemente e olhou nos meus olhos, incentivando-me a fazer o que foi pedido.

Nicholas estava parado de frente para à janela quando saí daquele quarto. Ele sequer olhou para trás. Suspirei profundamente, sentindo os braços de Rafael circundarem meu corpo de uma só vez. Ele me manteve colado a si, acariciando meus cabelos e sussurrando palavras de conforto.

— Como foi? — o médico passou por nós, mas só o que eu fiz foi esconder o rosto no peito de Rafael.

— Como imaginávamos — ele respondeu.

Não ouvi mais nada.

Não quis ouvir mais nada.

Eu só queria sair dali e pensar. Em silêncio.