Bourbon Street
11 Capítulo Onze - Mentiras
Notas iniciais
Sentado com as pernas flexionadas no sofá, eu olhava diretamente para a televisão ligada, sem exatamente assistir. Meus pensamentos vagavam por tantos assuntos, que eu chegava a me esquecer do anterior antes mesmo de partir para o próximo.
De onde eu estava, dava para ouvir o barulho do chuveiro e da água tocando tanto o chão quanto o corpo de Nick.
As palavras dele ainda ecoavam pela minha cabeça.
“Ninguém pode saber do que estamos fazendo”
Nunca fui muito de entrar em um relacionamento e me prender no mesmo e, nunca me senti mal em trair, mas Nick me fez parecer um cafajeste e, logo depois, para mim, ele que se tornou um próprio.
Sei que Nick nunca me prometeu nada e desde o início eu só pensava em fazer sexo com ele, mas com o tempo eu percebi que queria muito mais do que isso. Talvez um carinho, um beijo ou um abraço quando fosse preciso. O problema é que eu poderia ter isso apenas quando estivéssemos longe de todo mundo.
— Bom dia, docinho.
Olhando para o lado, pude ver Nicholas caminhando até mim. Ele tinha um sorriso sapeca desenhado nos lábios, um olhar safado e um jeito másculo. Estava apenas de boxer e,uma das suas mãos, esfregava o cabelo com uma toalha.
— Bom dia — murmurei, vendo-o já próximo.
As mãos dele agarraram as laterais da minha barriga, acariciando-me com seus dedos carinhosos. Sua boca tocou a minha em um selinho rápido e, eu fechei os olhos, tentando guardar seu sabor.
— Está tudo bem? — ele acariciava minha bochecha.
Abri os olhos e o observei. Estava de joelhos sobre mim, minhas pernas estavam entre as suas, sua barriga definida e os ombros tensionados se mantinham bem próximos.
— Não, não está nada bem — virei o rosto de lado ao sentir sua respiração quente e seu hálito delicioso me envolver.
— O que eu fiz? — se jogou do outro lado do sofá de uma só vez.
Ele revirava os olhos, irritado ou cansado de me aturar.
O olhei, pensando se diria a verdade ou não.
— Não é nada demais — disse enquanto balançava a cabeça.
— Outra mentira? — ergueu as sobrancelhas.
Suspirei pesadamente, livrando-me de toda a tensão.
— Você não quer saber das reclamações de um passivo, muito menos de uma prostituta ou da sua amante.
Levantei-me em um movimento rápido, mas fui puxado para trás, caindo com as costas no sofá.
— Para com isso — Nick rosnava enquanto subia sobre mim e me prendia contra o encosto do móvel — Você não é nada disso.
— Não? — ironizei — Então tira essa roupa e me deixa entrar em você, sussurra no meu ouvido que eu não sou uma prostituta e me prova que vamos ficar juntos sem nos preocupar com sua mulher ou com as outras pessoas.
Ele abaixou o olhar e encarou o estofado sem dizer sequer uma palavra. Um sorriso sarcástico brotou em meus lábios quando consegui, finalmente, me levantar.
Nick não me impediu, apenas deixou que eu fizesse o que queria e, se manteve sentado como antes, olhando o estofado como um idiota medroso.
Como eu já estava arrumado para o trabalho, apenas agarrei minha mochila em cima da mesa e saí de casa, deixando para trás minha felicidade mais conhecida como Nicholas Phillips.
Talvez fosse muito drama da minha parte, mas ele fora quem mais me fez feliz, além, claro, de me fazer esquecer os problemas com minha mulher. Ou ex, seja o que for.
Eu não conseguia entender aquele sentimento dentro de mim que lutava para sair e mostrar para todos que Nick estava comigo e que estávamos felizes. Mas não estávamos felizes e a culpa era minha. Eu estava sendo um idiota em pensar que poderia desafiá-lo a se esquecer da esposa e ficar comigo e, estava sendo mais idiota ainda ao imaginar que poderia ficar triste ao receber seu grande não, mesmo que ele não tivesse exatamente dito.
Com um suspiro pesado e os pensamentos longes, cheguei ao meu trabalho. Estava prestes a dizer bom dia quando fui interrompido por Lia.
— Você está ferrado.
— O que eu fiz? — cerrei os olhos.
— Não sei, mas a cara do Sr. Chapman não está muito atrativa — ela arrumava uma pasta de documentos sobre sua mesa.
Balancei a cabeça, dizendo que tinha entendido e coloquei minha mochila sobre uma cadeira.
— E porque tem que ser comigo o problema? — sentei-me em frente a ela.
Ela abriu a boca para falar.
— Sr. Carter? — ao ouvir aquela voz, virei o rosto para o lado de repente, sentindo os músculos do pescoço reclamarem de dor — O senhor tem dois minutos para estar na minha sala — dizendo isso, o homem simplesmente se afastou.
Troquei olhares tensos entre Lia e meu chefe, que já estava longe.
— Me deseje sorte — pedi mesmo sabendo que não adiantaria em nada.
— Hoje você realmente precisa — ela mexeu a ponta do nariz, como uma coelhinha — Boa sorte.
— Obrigado — respirei fundo e prossegui até o fim do corredor.
Meus pés pareciam trair minha mente, eles seguiam até a tortura enquanto minha mente desejava voltar e ir embora.
Assim que abri a porta, dei de cara com o homem loiro de costas para mim. Ele usava uma camisa social e seus músculos estavam realçados através da mesma. Parecia nervoso.
— Senhor? — minha voz estava horrível.
O homem se virou aos poucos, exibindo um sorriso divertido e uma expressão calma.
Então ele não estava nervoso? Era apenas fachada? Se eu fosse diretor de algum filme o chamaria para atuar como personagem principal, pois eu podia jurar que ele estava possesso com algo. Ou comigo.
— Eu jurava que você não voltaria.
— E eu jurava que você estava com raiva — retruquei com os olhos cerrados.
— Ah, não — ele exclamou ao mesmo tempo em que caminhava na minha direção — Por você eu só sinto uma coisa — soltou um riso sem fôlego — Tesão — seu hálito me envolveu, mas eu não me deixei levar.
Afastei um passo, livrando-me da sua mão que acariciava meu queixo.
— É bom saber que eu causo algo assim em alguém, senhor, mas eu realmente preciso voltar para o meu trabalho — meus músculos estavam tensos.
— Seu trabalho é me foder, Enzo, será que não percebeu isso ainda? — segurou minha barriga com as duas mãos.
Fechei os olhos e a imagem de Nick apareceu na minha mente. Eu não poderia traí-lo novamente e, mesmo sabendo que não éramos nada e que nunca seríamos, eu não podia decepcioná-lo. Eu não seria uma prostituta.
— Então eu me demito, Sr. Chapman — o afastei bruscamente — Obrigado pela oportunidade, mas eu não sirvo para isso.
Sem sequer olhar para trás, virei-me e prossegui para fora da sala. Assim que cheguei à secretaria, agarrei minha mochila e a joguei por cima dos ombros.
— Foi bom conhecer você — suspirei para Lia, que me encarou assustada.
— O que? Como assim? Você foi demitido? Por quê?
— Eu me demiti — mordi o lábio.
— Por quê?
— Foi preciso — sorri de lado, um pouco melancólico — Até algum dia, Lia — eu nem vi e já estava perto dela, abraçando-a com apenas um braço.
Quando fui deixar um selinho na sua bochecha, ela se virou e os meus lábios tocaram os dela. Afastei-me suavemente, encarando-a e percebendo que ela havia feito aquilo de propósito.
Ótimo, eu tinha um chefe tarado e uma colega de trabalho que gostava de mim. Emprego incrível que eu fui encontrar.
— Até algum dia, Enzo.
Fui andando de costas até alcançar a porta e a partir daí me movi como uma lebre na direção do elevador. Eu não queria ficar nem mais um segundo naquele lugar, tudo que eu precisava era ver Nick e dizer que estava tudo bem comigo e que eu aceitava ficar com ele de acordo com suas condições.
O tempo passou incrivelmente devagar enquanto eu caminhava rapidamente pelas ruas, era como uma força inversamente proporcional, quanto mais rápido eu corria, mais lento a hora passava.
Quando cheguei à porta da delegacia, respirei fundo e caminhei até a mesa da Amélia.
— Oi — sorri — Nick está ai?
— Aquele ali serve? — ela apontou para o lado.
Minha mente demorou a acreditar no que meus olhos viam. Tentei segurar meu espanto e guardá-lo apenas para mim, mas foi impossível. A imagem de Nick segurando um bebê envolto em mantas enquanto beijava uma mulher parecia ter estigmatizado na parte interna dos meus olhos. Eu me lembraria daquilo para sempre.
Ela não estava com raiva dele, os dois pareciam muito felizes juntos e, um arrepio percorreu todo o meu corpo quando eu percebi que Nick havia mentido para mim.
Justamente ele.
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