Bourbon Street
12 Capítulo Doze - Travesseiros são ótimos companheiros
Notas iniciais
Eu não queria ver aquilo. Meu coração idiota não aguentava aquela visão, muito menos minha cabeça. Abaixei os olhos e respirei fundo, tentando arranjar forças para ir embora.
— Enzo?
Ao ouvir meu nome ser dito por uma voz desconhecida, levantei o rosto.
Encarei a mulher de Nick com os olhos cerrados e as sobrancelhas erguidas. Ela sorria para mim, parecia que me conhecia. Eu não me lembrava dela, tinha certeza disso, mas como diabos ela sabia quem eu era?
Meus olhos encontraram os de Nicholas, que parecia bastante assustado. Ele moveu os lábios em um pedido silencioso para que eu fosse embora, mas eu não dei muita importância e desviei o olhar.
Meu rosto não tinha expressão alguma, eu estava cansado demais de tudo aquilo para demonstrar qualquer emoção de fosse.
— Oi — cumprimentei.
Ela pareceu surpresa com minha falta de interesse, mas sorriu animada.
— Você não se lembra de mim?
Abri a boca várias vezes, tentando falar algo gentil, mas minha cabeça estava vazia.
— Ah... d-desculpe-me, mas não — fiz uma careta triste, não era tão difícil.
Nick continuava a tentar chamar minha atenção, mas eu não ligava. Não que eu quisesse acabar com o casamento dele, a verdade é que eu não falaria nada sobre nós dois, eu só queria entender porque ele havia mentido para mim. Entretanto, a vontade de ir embora era grande e talvez eu cedesse aos seus pedidos.
— Denise? — ela cerrou os olhos e eu fiz que não com a cabeça — Sua companheira de faculdade? — continuou, mas eu realmente não fazia ideia alguma.
— Pegue ele um pouco — Nick apareceu por trás dela como uma mãe tentando proteger o território e entregou o menino para a mulher — Acho que ele te quer.
Seu olhar novamente estava em mim, mas eu o ignorava e observava o garotinho. Parecia com Nicholas. Os olhos, a curva da boca e até mesmo o queixo.
Ele olhou para mim e sorriu. O cabelo poderia até ser da mãe, mas tinha o sorriso do pai. Acabei sorrindo também em um gesto inconsciente. O menininho ergueu os braços na minha direção e, sem perceber, dei um passo para trás. A mãe dele me olhou sorridente, mas o pai parecia estar a ponto de ter um ataque do coração.
— Como ele se chama? — ouvi minha própria voz dizer.
— Vinicius — ela sorriu.
— Oi — o cumprimentei mesmo sabendo que não me responderia.
Ele inclinou o corpo um pouco para frente ainda com os braços erguidos. Parecia querer vir comigo.
— Posso? — pedi erguendo as mãos.
— Sim.
— Não.
Eles disseram em uníssono.
Troquei olhares entre os pais do garoto, que pareciam estar em uma briga interna. Por fim ela sorriu e me entregou o menino, que aceitou de bom grado vir para meu colo.
Ele tocou meu rosto com sua mãozinha enquanto sorria incontrolavelmente. Seu sorriso era lindo, apaixonante. Os olhos verdes como os do pai brilhavam e transmitiam uma alegria sem igual.
Nicholas começou a caminhar de um lado para o outro. Pelo canto do olho percebi que a delegacia não estava tão cheia de funcionários como sempre, tinha apenas Jimmy, Amélia e mais duas mulheres no fim da sala, mas elas não prestavam atenção na cena. Jimmy também parecia estar mais interessado no seu computador, enquanto Amélia fingia escrever algo.
— Tem certeza de que não se lembra de mim? — Denise tornou a falar.
— Absoluta — gani sem prestar muita atenção.
— Como não? Você perdeu a virgindade comigo.
— O quê? — Nick e eu falamos ao mesmo tempo, ambos com o rosto corado e os olhos esbugalhados de susto.
Ele e eu trocamos olhares incrédulos e ao mesmo tempo desviamos o olhar para a mulher ruiva.
Naquele momento todos pareciam estar prestando atenção, inclusive as mulheres ao fundo.
Denise tinha uma expressão calma no rosto como se tivesse anunciado o resultado do jogo de domingo. Rapidamente entendi o estilo dela, sem noção, não importava se causaria vergonha em alguém e, pelo jeito, não incomodava em dizer certas coisas na frente do marido.
— O quê? — Nick tornou a dizer.
O menininho em meus braços continuava a sorrir, mas meu humor havia piorado horrores para eu prestar atenção naquele sorriso tão bonito.
— Fica tranquilo, querido, aconteceu há muito tempo — ela sorriu para ele e logo colocou a mão na frente do rosto, tentando impedir que eu visse — E ele era horrível na cama — sussurrou como se pensasse que eu não estivesse ouvindo.
Ele ergueu o olhar para mim e eu o olhei irritado, pedindo que ele a desmentisse, mas ele apenas balançou a cabeça em sinal negativo.
— C-como? — ele iniciou.
— Agora não, preciso ir — ela anunciou, retirando o bebê do meu colo. Ele me deu um último sorriso antes de enfiar o rosto no pescoço da mãe — Foi bom te ver — se aproximou aos poucos — Agora se lembra de mim, não é mesmo? — eu assenti, envergonhado e assustado — Ótimo — beijou meu rosto antes de sorrir para Nick e se afastar rapidamente.
O que se estabeleceu ali pareceu uma guerra fria. Nicholas e eu trocávamos olhares tensos enquanto uma corrente elétrica passava pelos nossos corpos. Ele estava enraivecido, mas eu também não ficava por baixo. A raiva que eu sentia dele era extremamente incontrolável.
— Para a minha sala, Carter — ele se virou e chamou por cima dos ombros.
Eu não aceitaria aquilo, não seria novamente submisso a ele.
— Não, Dr. Phillips — neguei e ele rapidamente se virou, encarando-me com os olhos cheios de ódio — Amélia, quer sair comigo qualquer noite dessas? — sorri para a garota ao lado.
Pelo canto do olho pude ver que Nick mordia o lábio, nervoso. Aquilo era mesmo para provocá-lo.
— Eu juro que não sou ruim de cama — disse, arrancando um sorriso dela.
— Pegue — ela me entregou um papel com seu número escrito.
— Me espere — pisquei, mordiscando meu lábio inferior.
Já ia me movimentando para a porta quando fui impedido por um chamado.
— Carter, venha até aqui.
Virei-me calmamente e sorri sarcástico.
— Desculpe-me, mas tenho muito que fazer hoje, Dr. Phillips.
Decidi ignorar seus olhos e voltei a andar na direção da saída.
xXx
Agarrado a um travesseiro eu chorava, não como uma pessoa normal, era como um bebê com dor de barriga ou com fome. Sei que não é muito masculino chorar, meu pai mesmo me dizia isso antes de morrer, mas eu não me importava naquele momento. Precisava apenas por para fora tudo que eu estava sentindo.
Então Nicholas estava bem com a mulher, estava feliz e havia mentido para mim. Por quê? Porque ele fez isso e porque eu acreditei? O olhar enraivecido dele sobre mim era o que eu lembraria por todo o tempo, pois eu não iria atrás dele e sabia que ele era orgulhoso demais para ir atrás de mim.
Totalmente atordoado eu cravava meus dedos no travesseiro. Estava sem estrutura e completamente seco de tanto chorar. As lágrimas já não saíam mais dos meus olhos, mas apenas porque não mais havia lágrimas.
Procurei com dificuldade um cobertor sobre minha cama e me cobri. Aquele seria o meu lugar e eu permaneceria ali até o amanhecer do outro dia.
Nosso tempo havia passado, aproveitamos o que tínhamos que aproveitar e pronto, aquele fora o fim. A vida não nos enganaria mais.
Eu já não tinha mais uma razão para viver.
Do lugar dele eu podia ver o quão simples era a nossa história. As coisas passavam sem parar na minha cabeça, os momentos, lembranças, brigas e sorrisos. Eu amava aquele sorriso, adorava beijar aqueles lábios e acariciar sua barriga.
Ele descobriu a vida ao meu lado, mas isso não queria dizer que devia passá-la da mesma forma.
Outro dia iria nascer e eu não ficaria sofrendo por ele, apenas me levantaria, procuraria outro emprego e seguiria em frente. Nós não precisávamos um do outro, ele mesmo havia me provado isso.
Minha mente dizia o quanto eu estava certo em tentar esquecê-lo, mas meu coração lutava para dizer que eu devia procurá-lo.
Eu não podia esperá-lo, não, não naquele dia.
Enquanto eu tentava imaginar como seria se eu pudesse mudar uma única escolha na minha vida, ouvi um barulho vindo da sala. Pareciam batidas na porta. Eu não iria ver quem era, não queria dar de cara com minha ex-mulher ou coisa do tipo. Principalmente estando detonado.
Assustei ao ouvir meu nome sendo gritado. Era a voz dele. Fechei os olhos com força e cobri minha cabeça com o travesseiro, mas não adiantou.
— Porra, Enzo — gritou novamente — A gente precisa conversar.
Respirei fundo enquanto pensava se aceitava ou não falar com ele. Por fim, descobri que minha cama estava muito mais interessante do que ele, então continuei deitado, olhando para a parede, sem expressão alguma.
Pude ouvir mais alguns barulhos, mas nada que me incomodou.
Tudo havia voltado a ficar silencioso e eu finalmente tinha parado de soluçar.
Quando olhei para cima, acabei me assustando ao ver Nicholas ao pé da minha cama. Seu olhar já calmo estava sobre meu corpo seminu enrolado no cobertor. Ele andou até estar ajoelhado de frente para meu rosto.
— Como conseguiu entrar aqui? — escondi a cara no travesseiro.
— Prática no assunto.
Tirei o rosto do travesseiro e o encarei nervoso.
— Eu poderia te denunciar — puxei as cobertas e o travesseiro e me virei para o outro lado, dando as costas para o delegado.
Eu podia ouvir barulhos rasos, mas não me viraria e veria o que ele estava fazendo. Não se passou nem trinta segundos e eu já podia ver Nick rodeando minha cama e parando na minha frente. Ele subiu descalço no colchão, arrancou o travesseiro das minhas mãos e o jogou do outro lado do quarto.
— Enzo, me escuta — ele passou os braços por mim, enfiando o rosto no meu pescoço.
— Eu só quero que você vá embora, é pedir demais? — torci o nariz, tentando não tocá-lo.
— Você não quer nada disso, eu sei – suspirou.
Seu hálito quente aqueceu o meu pescoço, arrepiando todos os meus poros.
— Eu quero parar de sofrer, eu não gosto de sofrer e é exatamente isso que você causa em mim — impedi-me de começar um pranto exasperado — Sofrimento.
Seus braços se fecharam com mais força ao meu redor e eu podia sentir seu coração bater junto ao meu.
— Eu não quero te causar isso, mas você tem que me entender.
— Entender o quê? — tentei empurrá-lo, mas ele era mais forte no momento — Entender que você abomina os gays e por isso não quer assumir que é um? Que você não sabe o porquê está comigo?
— Eu estou com você porque gosto de você — ele ergueu o olhar e me encarou.
Soltei uma risada sarcástica.
Sentir o corpo dele colado ao meu, o calor que exalava do mesmo, seu hálito delicioso e suas mãos grandes em mim era incrível, mas eu não queria sentir aquilo uma vez e sofrer dez. Eu preferia não sentir.
— Vá embora.
— Enzo, porra, eu quero ficar com você — ele suspirou e se afastou para me olhar. Senti meu corpo se eletrizar e um arrepio tenso descer pela minha coluna — Quando eu olho seu corpo dessa forma...
— Você só quer ter um buraco para enfiar seu pau, Nicholas, nada mais do que isso.
— Não, não é nada disso — ele olhou para as minhas mãos soltas no ar — Porra, me pega de jeito, conversa comigo do jeito que você é.
— Eu sou assim — praticamente gritei.
— Não, você não é assim — começou — Você é carinhoso e doce, apesar de...
— De ser uma prostituta? — o interrompi.
— De ser macho.
Suas mãos começaram a escorregar pelo meu corpo, me tocando com vontade. Eu sentia todos os meus poros se arrepiando e todo meu interior lutando para corresponder aos seus toques, mas minha mente estava certa do que fazer.
— Para com isso — segurei suas mãos — Para de me tocar desse jeito porque eu não vou transar com você.
Virei-me para cima e apoiei meu braço na testa. O silencio passou a reinar ali e tudo que eu podia ouvir era sua respiração áspera contra meu peito. Eu gostava de tê-lo ali, não queria perder aquela sensação. Meus pensamentos me traíam e eu odiava aquilo.
— Para mim você consegue negar, não é mesmo? Mas para qualquer filho da puta você libera — grunhiu.
— Para com isso, Nicholas — eu podia sentir meu rosto corar de raiva — Você ainda não entendeu que o errado aqui é você?
— O que eu fiz?
Soltei um riso irônico e fechei os olhos. Nick aproveitou esse segundo de distração e segurou meu pescoço, percorrendo o lóbulo da minha orelha com a língua. Suas mãos corriam soltas pelo meu corpo e eu não podia negar que aquilo era excitante.
— Para, Nicholas — segurei suas mãos novamente — Vá embora.
Virei para o outro lado, completamente nervoso e me encolhi. Meus joelhos quase alcançavam meu peito. Não demorou sequer um minuto para o corpo dele se colar ao meu.
Senti como se um raio passasse por toda a minha pele. Virei-me para o colchão, como um verdadeiro submisso, e enfiei o rosto no travesseiro. Eu podia sentir o corpo dele se moldando ao meu e seu membro roçar nas minhas costas.
Não consegui me conter, apenas me virei e agarrei os lábios dele loucamente. Ficamos naquele briga, nossas línguas disputando espaço e nossas mãos indecisas sobre onde permanecer até que eu tive um colapso de realidade e me afastei.
— Você me quer, não fuja — ele suspirava em meio à respiração falha.
— Eu não te quero — falei e saiu mais sincero do que eu pensei — Não, não — balancei a cabeça em sinal negativo — Eu te quero até demais — ri sarcástico — Na verdade, eu não sei o que pensar.
— Nunca daremos certo — ele saiu de cima de mim com uma desistência explicita em sua feição.
— E a culpa é sua — suspirei sentindo falta do seu calor.
— Não é totalmente minha, seu idiota, o que eu fiz de mais grave que você? — ele praticamente rugiu.
— Você mentiu — acusei.
— Você também — retrucou já calçando seus tênis.
— Mas a sua mentira foi pior, Nicholas, você mexeu com meus sentimentos e os jogou fora como se eu fosse uma bolinha de papel amassado — eu me sentia completamente devastado naquele momento.
Ele suspirou, parando para me encarar.
— Naquele dia em que te chamei de prostituta, eu estava nervoso, acabei me exaltando com a única pessoa que me dá carinho e... — fungou — Eu só queria vir atrás de você, mas meu orgulho não me deixava pensar em nada, então quando cheguei à porta da sua casa, fiquei parado apenas observando e pensando se batia campainha ou não — olhou para baixo — Eu queria te ver, então bati e, quando você me perguntou o que tinha acontecido, eu menti porque eu não queria te dar o gostinho da vitória.
— Você não precisava, eu estava aqui para você.
— Mas eu sou um bosta.
— É, você é sim — sussurrei.
Trocamos olhares singelos por um tempo extremamente grande. Eu queria que ele voltasse para cama e me abraçasse, para que pudéssemos dormir e pensar sobre este assunto só pelo amanhecer, mas resistir ao máximo era do feitio dele.
Nicholas olhou para baixo, respirou fundo e pronunciou algo que me deixou mais abalado do que eu estava.
— Adeus, Carter.
Sua voz ressoou por todo o local antes de invadir meus ouvidos e minha mente. Quando eu percebi o que aquilo significava ele já estava longe e a porta já havia sido fechada.
Ele sequer me olhou antes de dizer adeus.
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