Boulevard Of Broken Dreams

38 Capítulo 38 - O Julgamento


Notas iniciais
Pessoas, primeiramente, MIL PERDÕES. Sério. Primeiramente meu atraso se deveu a eu ter resolvido consertar o capítulo e reescrevê-lo várias vezes. Então, quando estava eu respondendo os reviews na altura do natal, meu pc me traiu, deu um problema do sei lá o que e eu fiquei a ver navios @.@ Fiquei mais que furiosa, deprimida e culpada por ter deixado vocês a ver navios também por tanto tempo, peço mil perdões. Sei que não desculpa muito, mas saibam que o atraso não foi preguiça/negligencia/falta de vergonha na cara minha kkkk Enfim, para compensar ( espero que seja uma coisa positiva) esse capítulo é duplo! eeee o/ quer dizer que tem o dobro do tamanho de um capitulo normal, que, no meu caso, já são grandes, então este beira a imenso. Recomendo que pausem para lanchinhos quando se cansarem e depois voltem xD (Espero que o nyah deixe eu postar algo desse tamanho... )Enfim, qualquer problema me avisem! Beijos e bom capítulo ( para os que ainda estão aqui comigo kkkk e, para estes, como sempre, minha profunda gratidão =*) Um agradecimento muito, muito, muuito especial a Neko Sagatimotto, que recomendou essa historinha x))) Muito obrigada mesmo mesmo, meu coraçãozinho derreteu-se diante dessa bondade. Espero que continue gostando e que eu não decepcione vocês x)

Hm... Alfred? – começou Arthur, ainda sem muita certeza de que gostaria de começar aquele assunto.

– Que?

– Você... tem tido notícias dos seus pais?

Alfred imediatamente parou o que fazia. Arthur podia ver como o corpo dele imediatamente ficou tenso à mera menção dos pais. Por alguns segundos, o garoto nem respirou. Até que ele suspirou e voltou a fazer o café, ainda absolutamente quieto.

– Alfred? – perguntou Arthur, depois de minutos de silêncio.

O garoto virou-se para ele, com um sorriso que enganaria qualquer pessoa que não fosse Arthur. Ele encostou-se ao balcão da pia e tomou um pouco da sua caneca de café.

– Eu não tenho pais. – e deu um meio sorriso que quase partiu o coração de Arthur. Incapaz de sustentar o olhar por mais tempo, o garoto baixou seus olhos muito azuis e não o encarou.

– Alfred, isso não é verdade.

– Foi o que disseram quando me chutaram de lá. – cortou o garoto, um tanto friamente.

– Alfred...

– Arthur. – interrompeu ele, começando a ficar nervoso. — Eu não quero falar sobre eles. – disse o garoto antes que o outro pudesse dizer qualquer coisa. — Na verdade, sinceramente? – a voz de Alfred baixou e ele parecia que ia chorar. De repente, Arthur se lembrou que ele não era muito mais que uma criança, que acabara de terminar o colégio. Ele... deveria estar na faculdade. Devia estar correndo atrás dos próprios sonhos ingenuamente. Devia estar saindo com os amigos, não cuidando de uma criança em casa. Não devia.... dizer o que ele estava dizendo. — Eu não quero ver nenhum deles nunca mais.

Arthur engoliu em seco, mas o nó em sua garganta ainda parecia muito real. Por que... estava lembrando daquilo agora?

Arthur encarou a porta da frente da própria casa. O metal frio das chaves já tinha aquecido em suas mãos diante dos largos minutos em que o loirinho hesitou. Ainda era muito viva na sua memória a noite em que Alfred recebera o presente de natal da própria mãe. Era como... se Arthur ainda pudesse sentir as lágrimas dele caindo no seu ombro e a maneira como ele tremia. Sabia que Alfred não podia admitir a maneira como foi tratado simplesmente porque... gostava de outro garoto.

Mas... a faculdade. Os sonhos de Alfred.

Tinha feito... a coisa certa, não é?

Respirou fundo e soltou o ar, um pouco trêmulo. Seus dedos giraram a chave na fechadura e, em um suave clique, Arthur entrou em casa.

Alfred não estava na sala. O loirinho olhou escada acima. Provavelmente, ele estava no quarto de Arthur, que os dois dividiam. Respirou fundo e deixou o casaco no cabideiro próximo à porta, para em seguida subir as escadas e abrir a porta do quarto.

– Hey, Arthur! – Alfred estava deitado na cama, aparentemente folheando uma revista qualquer. Havia um copo de refrigerante na mesinha de canto, que, a propósito, estava molhando e marcando a madeira. – onde você andou? Eu já dei até o jantar do Peter. Aconteceu alguma coisa com o seu trabalho da faculdade? – perguntou, como sempre perguntava. Alfred sempre perguntava sobre um monte de coisas e puxava assunto sobre amenidades, talvez porque não gostasse muito de silêncio. Era uma mania quase irritante que ele tinha. Mas Arthur se acostumara com ela. Acostumara-se à presença do garoto, às manias que ele tinha. Um pensamento lhe ocorreu.

E se ele perdesse aquela vida que tinha com Alfred?

Balançou a cabeça, tentando clarear os próprios pensamentos.

– Alfred. – Arthur se ouviu chamando o nome do garoto, então se viu fitado por dois olhos muito azuis. Seu peito pareceu repentinamente apertado. O sorriso de Alfred, pela primeira vez, deixou-o inseguro.

– O que? – perguntou o garoto, virando-se para olhá-lo melhor.

Por um momento, Arthur quase desistiu. Sempre... podia inventar alguma coisa. Dizer que tinha economias. Ou sei lá... que Alfred tinha ganho uma bolsa de estudos.

– Arthuuur. – chamou o garoto, que havia se levantado, e agora agitava uma das mãos na frente dos olhos do loirinho, tentando ganhar sua atenção.

Arthur piscou algumas vezes, sendo trazido de volta à realidade. Ficou em silêncio por um minuto, então, respirou fundo.

– Alfred... me diz. – começou, mas não olhou nos olhos do garoto. — o que você acharia... quer dizer, o que você me diria... se eu dissesse que você poderia começar a faculdade amanhã mesmo? Na hora que você quisesse? – perguntou finalmente, sua voz soando um tanto fraca, mas foi a melhor maneira que ele conseguiu dizer.

Alfred piscou algumas vezes, confuso. Então abriu um meio sorriso.

– Eu diria que você finalmente ficou maluco. – riu ele, aproximando-se de Arthur e apoiando uma mão em seu ombro.

– É sério. – disse o loirinho, se afastando.

O garoto ficou sério e olhou-o em seus olhos.

– Isso é impossível, Arthur. – disse, dando aquele meio sorriso triste que ele costumava dar quando tocava naquele assunto. — E a gente já combinou que o dinheiro que a sua mãe deixou nós vamos guardar para o seu irmãozinho quando ele precisar.

– E se... eu tivesse arranjado dinheiro de outro lugar?

Alfred afastou-se um passo, começando a se irritar. Alfred estava sério como poucas vezes ficava. Era um assunto sensível e Arthur não era muito bom com palavras. Alfred não era muito bom com a paciência.

– Arthur. Você não é de dar voltas em cima de um assunto. Onde você quer chegar com isso? – ele estava realmente irritado.

Arthur não era assim. Arthur não faria perguntas e perguntas evitando dizer algo que pensava, evitando ser direto em um assunto. Ele não estava agindo como ele mesmo. Mas... nem mesmo a melhor das pessoas consegue ser ela mesma o tempo todo.

O loirinho ergueu o olhar e fitou o garoto.

– Os seus pais vão pagar todos os custos para você frequentar uma boa universidade aqui. – disse, como se lesse uma fala ensaiada em sua cabeça, sem olhar para Alfred.

– O quê?! – a voz do garoto já estava alterada e a expressão dele era confusa e irritada. — Arthur, mas como eles poderiam saber que... eu precisaria de ajuda... – os lábios dele permaneceram entreabertos e ele não terminou o que dizia. Apenas virou-se e olhou para o loirinho, atordoado, seus olhos muito claros fixos em Arthur, como se implorasse uma resposta negativa. — Arthur. Você não...

– Eu fui lá e conversei com eles. – disse. Sua voz era grave e suave, quase nada acima de um sussurro. Como se o tom gentil em que suas palavras saíam pudesse aterrar pela sua culpa.

– Eles nunca me ajudariam só por causa de uma conversa. – disse, sem nunca desviar o olhar do loirinho. O ressentimento era quase palpável. Mas... Arthur não sabia se o garoto ressentia aos pais... ou à pessoa que trouxera aquele assunto à tona.

Arthur calou-se. Por um minuto inteiro, houve silêncio. Era... estranho. Arthur tinha certeza de que tinha feito a coisa certa. Mas... então por que se sentia... tão angustiado? Por que mal tinha coragem de olhar nos olhos de Alfred?

– Eu implorei. – respondeu finalmente.

Alfred apenas fitou-o, verdadeiramente horrorizado. Não. Ele não podia imaginar aquilo. Arthur, na casa da qual o garoto tinha sido expulso, implorando... para aquelas pessoas? A mera imagem lhe dava repulsa. Como... Arthur tivera coragem? Alfred sentia que podia vomitar só de imaginar. Não queria lembrar daquilo. Odiava ser pressionado e cobrado, assim como odiava pessoas se metendo em assuntos seus. Odiava as pessoas lhe dizendo o que fazer.

Odiava o fato de que Arthur pudera fazer uma coisa daquelas pelas suas coisas. Seus sentimentos estavam um caos. Desordenado. Fora de controle.

E, no momento, Alfred precisava, desesperadamente ter controle sobre alguma coisa. Foi... impensado. Mas ele simplesmente recuou e acertou o loirinho com toda a força que podia.

Arthur sentiu o impacto e a dor surda que se seguiu. Mas ele mal se moveu. Quantas brigas já tinha arrumado? Quantos socos como aquele ele já não tinha tomado? Arthur... não era fraco.

Sentiu outro tranco sobre a sua face direita, fazendo um de seus dentes rasgar a parte interna de sua bochecha e um gosto férrico se espalhar em sua boca. Sua cabeça estava doendo com força agora e Arthur sentia-se realmente desorientado. Mas não tentou afastar o garoto. Se aquilo era o preço que pagaria, achava justo. Na verdade, era quase pouco. Arthur sabia que tinha magoado Alfred, sabia que falara demais. Mas se eles... não, se Alfred pudesse ser mais feliz depois que tudo aquilo acabasse, Arthur achava que podia viver com um hematoma ou dois, um lábio partido. Ele... não tinha medo. Arthur... não queria ser fraco. Não era... fraco.

Mas algo realmente doeu quando o garoto ergueu os olhos e fitou-o com raiva e mágoa, seus olhos muito azuis se derramando. De fato, ele parecia ferido como se tivesse sido ele a levar um soco.

O peito de Arthur doeu. Ah. Era isso. Quando o olhar magoado do garoto encontrou os seus olhos, Arthur entendeu. Sua angústia. Ele... estivera com medo de machucar Alfred.

– Arthur,você me traiu. – os olhos muito azuis do garoto cravaram em si e Arthur sentia que aquele olhar podia cortá-lo no meio.

– Alfred... – ele tentou manter a voz firme.

– Não! Eu não acredito. Como você faz uma coisa dessas sem falar comigo?

– Você não teria concordado! – gritou Arthur de volta.

– Claro que não! Eu não quero nada vindo dos meus pais! Eu não preciso deles!

– Precisa sim! – gritou Arthur. Sua voz tremia, e ele não saberia dizer se era frustração ou desespero. – Precisa. – sussurrou e olhou diretamente para o garoto. — Em que mundo você vive, Alfred?! Eu não tenho condições de te oferecer nada melhor que isso! Você quer passar quanto tempo mais em serviços estúpidos e empregos mais ou menos para pagar as contas do mês?!

Ah. Acabara de dizer o que não devia. Soube, assim que terminou de dizer aquelas palavras, que havia magoado muito o garoto. Chamar de estúpido um emprego que Alfred se esforçava tanto para conseguir, esforçava-se para manter, embora odiasse, embora o fizesse se sentir inferior.

Sabia que... Alfred apenas o queria bem. Sabia que a atitude mais nobre que se poderia ter era suicidar um sonho por alguém que se ama. Mas... Seus olhos encheram de lágrimas e todo o quarto pareceu terrivelmente embaçado.

Ele não queria nobreza por parte de Alfred. Ele não precisava alguém idealizado. Ele precisava de Alfred. Da maneira que pudesse tê-lo, com o jeito insuportável dele, com aquela risada estúpida... que Arthur não ouvia há muito tempo.

– Arthur. – pela primeira vez, a voz do garoto saiu baixa e séria. — Eu realmente não quero te ver agora.

E Arthur percebeu que aquelas palavras doíam mais do que seu rosto. Seu peito pareceu estranhamente apertado quando o garoto, que sempre, sempre estivera consigo, recusou-se a olhar em seus olhos. De repente, Arthur sentiu que daria tudo para voltar atrás e nunca ter feito aquilo. Sentia vontade de pedir a Alfred que entendesse. Que... o desculpasse. Ao menos, que olhasse para ele outra vez.

Mas porque Arthur não sabia admitir que sentiria muito a falta do garoto, ele apenas assentiu e virou-se para sair do quarto. Delicadamente, tirou o irmãozinho do berço e começou a sair do quarto.

No entanto, quando alcançou a porta, assim que a criança percebeu que Alfred não vinha também, desatou a chorar em seu colo e a tentar alcançar o garoto.

– Peter, agora não. – murmurou o loirinho, sua voz um tanto fraca, tentando conter a criança. — Por favor, não complica o que já é complicado.

– Ele costuma ficar comigo nesse horário, por isso ele não quer ir. – crianças naquela idade já tinham uma noção boa de horários. Era bom porque Peter já dormia a noite toda e, Alfred e Arthur também, por consequência. Era ruim porque ele se acostumara a ficar com os dois em determinados horários.

Alfred se aproximou e cuidadosamente tirou a criança do colo de Arthur.

– Mas...

– Shh... – sussurrou, ajeitando Peter em seu colo. Ao lado dos dois, ele adormeceu em menos de um minuto.

– Alfred! – tentou o loirinho, após minutos de absoluto silêncio.

O garoto olhou-o por um momento. Então, fechou a porta, deixando Arthur do lado de fora.

O corredor pareceu estranhamente grande demais naquela noite. Arthur teve a sensação de que aquela casa era realmente... grande demais. Por um minuto, ele fitou a porta fechada, que o separava de Alfred e Peter. Teve a estranha sensação de que estava sufocando. Seu coração batia em desespero dentro do seu peito, e seu colo sentiu falta do embrulhinho de cobertores que costumava carregar.

Instintivamente, seus dedos se estenderam em direção à porta. Talvez ela não estivesse trancada. Mesmo assim, e talvez fosse mais pelo olhar que o garoto lhe dirigira do que pela porta em si, Arthur não pôde abri-la. Queria estar junto dos dois. Mas... e se seu irmãozinho chorasse e se recusasse a ficar em seu colo? E se Alfred... lhe dirigisse aquele olhar de repulsa outra vez? E se Arthur entrasse e acabasse com a certeza de que nenhum dos dois... precisava dele?

Alfred não trancara a porta, mas Arthur foi incapaz de entrar. Seus medos o haviam trancado do lado de fora.

Seus passos o levaram para longe da porta e ele se dirigiu ao quarto mais ao fim do corredor. O loirinho sentou-se na beirada da cama de solteiro e deixou-se cair no colchão em seguida. Sentiu seus olhos se encheram de lágrimas, ao que ele apagou a luz. Seus sentimentos o envergonhavam.

Arthur escondeu o rosto com um braço e engoliu em seco. Uma lágrima quente escorreu e silenciosamente caiu sobre o travesseiro. Ele cobriu a boca e conteve a vontade de gritar. Doía. Doía de verdade.

Arthur sentia que... trocaria tudo o que tinha para ser incapaz de sentir. Doía. Era... uma mistura de remorso e... arrependimento e humilhação, perda. Tentou afastar as lágrimas de seu rosto, mas elas continuavam a cair.

Quando foi que ele se tornara tão fraco?

Tinha raiva de si mesmo também. Frequentemente tinha a impressão de que fazia tudo errado. às vezes... tinha a certeza de que... de que não faria muita falta se ele não estivesse mais ali.

Queria não ficar triste. Queria se abrir para as pessoas e não se machucar por isso.

Mas, no fundo, Arthur sabia que nada daquilo era possível. Inevitavelmente... ele acabaria se magoando. As palavras de Alfred o assombravam. A ausência do berço ao seu lado o enchia de um tipo de remorso que não sabia explicar. Estava... confuso.

No dia seguinte, sua cabeça doía. Não conseguira dormir. A claridade machucava seus olhos também. Instintivamente, ele se virou de lado e procurou Alfred.

Mas o outro lado da cama estava vazio.

No outro dia também. E no próximo.

Pela primeira vez em muito tempo... Arthur não tinha a menor ideia do que fazer para melhorar aquilo. Alfred estava se distanciando cada vez mais e... não havia nada que Arthur pudesse fazer para impedir isso. A decisão estava com Alfred. De sua parte, dissera tudo o que precisava dizer, o resultado daquele problema estava nas mãos de Alfred.

E... o resto...

O que ele deveria fazer com o resto? Com a faculdade? Com o emprego? Com... a própria vida? Claro, ele gostava de física, mas... e se não fosse aquilo? Algumas vezes ele estava simplesmente tão cansado que mesmo a física que ele tanto gostava parecia uma tortura. E... depois? Será mesmo que ele conseguiria arrumar um emprego diretamente saído da faculdade? E, mesmo que conseguisse, será mesmo... que ele seria feliz?

O loirinho respirou fundo e olhou pela janela. Estava um dia nublado, como tantos e tantos outros. O cenário estava levemente molhado pela garoa de alguns minutos atrás e ventava um pouco. Do lado de fora da casa, havia o leve sussurrar das folhas ao vento. Do lado de dentro, silêncio. Arthur fechou os olhos e apoiou a cabeça no vidro frio da janela. Não entendia mais nada. Se... Alfred realmente o deixasse... como ele se sentiria?

Sem mais dos sorrisos do garoto. Sem a conversa fiada na hora das refeições ou quando Arthur queria se concentrar no filme. Sem a risada dele. Sem cheiro de café pela manhã. Apenas... Arthur. Sozinho.

De novo.

Fechou os olhos. Estava cansado. Realmente,cansado. Não sabia o quanto mais aguentava.

Mas mesmo assim, levantou-se da cama e se forçou a seguir a própria rotina. Seus pensamentos estavam muito longe do chá que ele tomou antes de sair ou da previsão do tempo sobre chuva durante o dia.

E, amaldiçoada fosse a única vez em que a previsão do tempo estava certa, porque de fato chovera terrivelmente naquela manhã. Na altura em que Arthur entrou em sua sala, ele tinha a sensação de que tinha encharcado até os ossos. Mesmo o seu tênis estava absolutamente ensopado e, provavelmente, além de qualquer salvação. Seu cabelo estava pingando e ele teve a sensação de que suas roupas estavam congelando. Suspirou frustrado e tirou a mochila das costas, abrindo e procurando a pasta com o seu questionário respondido.

Apenas para perceber que havia esquecido em casa.

E Arthur teve realmente vontade de chorar. Não porque tudo estava dando errado. Mas porque a culpa era sua. Esquecera o guarda-chuva. Esquecera o trabalho. Brigara com Alfred.

Fazia tempo desde a última vez em que Arthur tivera tanto ódio de si mesmo.

Precisava anotar a aula. Tinha que estudar para as provas. Precisava ir atrás do professor e pedir para entregar o seu trabalho outro dia. Não tinha tempo... para sentir. Arthur já não sabia o que fazer. Aquela rotina às vezes o sufocava. E ele não conseguia deixar de se perguntar... como é que ele fazia para ser feliz entre tantas obrigações?

Bem... ele costumava ser feliz com Alfred.

Sentia... tanta falta de Alfred. Faltavam os sorrisos dele. Faltava o abraço que só aquele garoto tinha. Faltava... e era como se faltasse um pedaço de si mesmo. Seu peito parecia apertado.

Tudo era tão sem sentido.

.

Arthur cruzou com Alfred saindo de casa, mas eles não conversaram. Arthur sabia que... provavelmente, se dependesse do garoto, ele teria saído de casa e dado um tempo, mas Arthur precisava de alguém para ficar com Peter enquanto ele estava na faculdade. Era estranho pensar nisso, uma vez que aquela briga começara quando Arthur tentara realizar o sonho de Alfred de ir para a faculdade. Ao mesmo tempo, o garoto prometera que o ajudaria e... ele estava cumprindo a sua promessa.

Arthur engoliu em seco quando a porta se fechou. Alfred estava indo trabalhar. Sentia remorso por ter... dito que eram empregos estúpidos. Claro que não eram. Eram parte importante do orçamento deles. Mas também era um auto-sacrifício por parte de Alfred que Arthur... odiava. Embora admitisse a nobreza do ato, odiava assistir aquilo. Então, tomara uma decisão sozinho. Fechou os olhos e respirou fundo por um momento.

Fora egoísta, mas era o único caminho que conseguira encontrar para que Alfred tivesse a vida que merecia. Em seu coração, sentia que... era a decisão correta.

Mas isso não o impedia de se sentir profundamente angustiado toda vez que deitava na cama de solteiro do quarto de Scott, sozinho. Alfred estava no quarto que os dois costumavam dividir, e Arthur não... era bem vindo a estar junto dele.

Naquela noite também, o loirinho apagou as luzes e deitou-se sozinho. Seus músculos doíam do dia longo e sua mente parecia correr a mil quilômetros por segundo. Respirou fundo e fechou os olhos. Estava cansado. Não dormira durante a noite em nenhum daqueles dias, o que resultara em alguns cochilos em sala de aula ou sobre os seus livros durante o dia. Pensando, pensando, remoendo.

Seus dedos instintivamente tocaram sua face, traçando o hematoma que Alfred deixara ali. Não deveria ter sido desse jeito. Era... culpa… será que a culpa era de Arthur? Era… possível, muito possível.

Às vezes Arthur tinha a impressão de que estragava tudo em que tocava.

Naquela noite, Arthur apagou as luzes e deitou-se na cama sozinho, mais uma vez. As cortinas deixavam apenas um pouco da claridade da lua adentrar o quarto, que, à exceção do tímido filete de luar, estava imerso no escuro. A casa estava muito silenciosa. Havia apenas um estalido ou outro às vezes, em outros cômodos da casa. Era... levemente assustador. Muito embora Arthur soubesse que era provavelmente apenas o frio da noite brincando com o que os físicos chamavam de dilatação de sólidos. Com o calor, os materiais dilatavam, de acordo com um coeficiente específico para cada um deles.

Arthur virou-se de lado na cama, fechando os olhos. Saber, ou pelo menos achar que sabia, a razão dos barulhos não o ajudava muito.

Ajudaria ter Alfred ao seu lado agora. Ajudaria dormir vigiando o berço de Peter. Não... gostava muito quando dormia sozinho. E... cuidar, estar ao lado dos dois, fazia Arthur sentir que ele tinha algum propósito. Em algum momento do martírio que sua mente lhe impusera, Arthur adormeceu.

Repentinamente, tudo doía. Era como se cada centímetro do seu corpo estivesse suportando algum tipo de ferimento ainda aberto, o cheiro de sangue era insuportável e Arthur se sentia simplesmente congelando. Havia também uma dor excruciante no lado esquerdo de seu tronco, e sua boca estava com um gosto ferroso de sangue.

Uma sensação agourenta pareceu lhe percorrer os ossos, fazendo-o estremecer de horror. Seus olhos se abriram imediatamente, seu coração parecendo tentar escapar pela sua garganta.

O que... estava acontecendo? Que lugar era aquele?

– Arthur, o que foi? – Alfred segurou-lhe a mão, parecendo preocupado.

Alfred? Mas... por que Alfred? Ele não devia estar ali.

– Vai acontecer de novo. – se ouviu dizendo, empurrando o garoto e tentando sair da cama. – Eu preciso avisar alguém. – disse, mais alto, sua respiração descompassando. Precisava... ir. Não sabia para onde, mas não podia ficar ali. Suas mãos tremiam, mas Alfred não o soltou.

In your head, in your head

They are fighting

With their tanks and their bombs

And their bombs and their guns

(Na sua cabeça, eles estão lutando…

Com seus tanques e suas bombas

Suas bombas e suas armas)

– Arthur, você não pode! – sua voz foi alta, mas ele praticamente implorava. Seu tom baixou e sua expressão entristeceu. – Você vai acabar morrendo desse jeito.

– Mas Alfred! – sacudiu a mão dele, tentando que ele o soltasse. Por que ele não entendia? O desespero parecia subir garganta acima, frio, rápido, rápido demais. Quase...

Inevitável.

– Você sabe que não há o que fazer. – sussurrou, puxando o loirinho de volta.

– N-não! Você não entende! – ele se debateu, tentando se soltar. No entanto, aquilo apenas fez o sangramento piorar. Ele fechou os olhos com força. A dor chegou a nausear o loirinho.

– Arthur, por favor, pára. – a voz de Alfred tremia. Mesmo assim, continuou a segurar o loirinho, abraçando-o em uma tentativa de contê-lo sem machucá-lo.

– Me solta, Alfred. Não vai dar tempo... – murmurou, desesperado, empurrando o garoto e soltando-se do abraço dele. Mas, realmente, não houve tempo. Arthur sentiu como se um tiro lhe atravessasse o coração. Morreram. Ele sabia quem, sabia onde. Arthur fechou os olhos com força, as lágrimas correndo muito rápido, uma atrás da outra. Alfred voltou a passar os braços em volta dele, abraçando-o. Mas o loirinho se debatia e tentava sair, a respiração quebrando e as lágrimas correndo.

Sentiu-se abaixar o rosto, como se a culpa pudesse chegar a ser física, insuportavelmente pesada sobre si. Seu peito estava apertado e era como se ele pudesse ouvir ao longe, muito baixo, pessoas chorando. Um soluço entrecortou sua respiração e ele se sentiu sufocando. O remorso... ele precisava ter feito alguma coisa. Ele... podia ter feito alguma coisa. Fechou os olhos com força.

In your head they are crying…

(Na sua cabeça, eles estão chorando…)

– Você mentiu pra mim... – murmurou chorando enquanto tentava empurrar o garoto.

– Do que você está falando, Arthur?

– Eu não posso estar sonhando. – murmurou, magoado. – Se isso é um sonho... Por que dói tanto? – perguntou, as lágrimas correndo sobre sua face enquanto ele se debatia. Doía. Tudo era tão estupidamente doloroso. Por que é que ele precisava viver assim? Por que... Arthur não podia ser feliz?

– Shhh... Arthur, pára. – sussurrou o garoto. Arthur estava muito agitado e já se machucava com todo aquele movimento. Mas... ele precisava sair dali. Por que Alfred não entendia?

– Arthur... – chamou o garoto em um sussurro engasgado. Arthur fitou aquele lapso azul por um momento, então sentiu os lábios do garoto nos seus, por menos que um segundo. Então, a voz de Alfred voltou a soar, em um murmúrio. – Eu sinto muito.

– Alfred, o qu-... – o garoto forçou-o a inalar o clorofórmio que encharcava o pano.

– Shhh...

De repente, parecia que alguém tinha incendiado suas vias respiratórias. Arthur tentou empurrar o garoto, mas ele era forte e o loirinho estava cada vez mais zonzo. E se sentia sufocando, os seus sentidos estavam ficando distantes muito rapidamente. Os sons pareciam um borrão confuso, o cenário estava borrando, desfocando, sua respiração estava errada, seu coração parecia errado.

Arthur tinha a sensação de que estava afogando.

Debateu-se com mais força, mas sua visão estava muito embaçada. Sua consciência escorregou por entre seus dedos e tudo mergulhou na mais completa escuridão.

Arthur acordou em um pulo, puxando o ar com dificuldade. Afastou a franja suada da testa, sentindo sua mão tremer.

Sempre que se sentia inseguro ou acuado, seus pesadelos voltavam. Sempre... que ele tinha aquela sensação familiar de desprezo próprio.

Respirou fundo, sentando-se na cama. Ainda estava escuro lá fora, o que significava que ele não dormira mais que umas poucas horas. Escondeu o rosto com uma das mãos, respirando fundo outra vez. Costumava dormir melhor com Alfred. Mas... aquilo era definitivamente ruim. Ele não podia continuar dependendo do garoto daquela forma. Arthur... precisava encontrar uma maneira de viver em paz consigo mesmo.

O problema é que ele não sabia como fazer isso.

Suspirou e se jogou de volta na cama. Estava muito cansado. Provavelmente tinha se debatido muito enquanto dormia porque seu corpo estava pesado, como se ele tivesse levado uma surra. Fechou os olhos. Estava cansado. Mas não queria adormecer. Levantou-se e acendeu o abajur, puxando um caderno e tentando ficar em dia com a matéria. Não durou muito mais que uma meia hora, até Arthur dormir sobre os livros espalhados na cama.

E se ver em outro cenário.

– Ahn... com licença, senhor.

Arthur virou-se para olhar.

O que Elizabeth estava fazendo ali?

Era uma senhora de olhos castanho esverdeado. Ela abraçava um ramalhete com várias rosas comuns. Não... não era ela. Mas alguma coisa nela era idêntica à sua mãe. O loirinho continuou a olhar, confuso, sem sequer se lembrar de dizer alguma coisa.

– São do meu jardim. Achei que... podiam te alegrar um pouco. – disse ela sorrindo e arrumando-as em um vaso na mesa de cabeceira de Arthur.

Arthur se sentia profundamente triste e exausto, mas se viu verdadeiramente fascinado por ainda existir coisas como flores. Provavelmente sua voz não saiu, mas ele sorriu. Um sorriso pequeno e extremamente cansado, mas estava ali.

What’s in your head?

A enfermeira voltou seus olhos castanho-esverdeados na direção do menino que olhava suas flores comuns como se fossem o maior tesouro que ele já tivesse visto. E quando saiu do quarto, sentiu um leve nó na garganta. Quem podia ser aquele menino, tão ferido que não podia sequer levantar, e que ainda via importância em rosas comuns?

Ah, se a vida fosse um pouco diferente. Ela gostaria de ter tido Arthur como filho.

E ele viria a ser tão estupidamente feliz com ela como sua mãe.

Another mother’s breaking heart is

Taking over

Arthur continuava a fitar as rosas, desatento às divagações da velha enfermeira. Lembravam as flores em seu jardim. Seus dedos longos e pálidos, com algumas bandagens, fizeram menção de tocar uma pétala vermelha. No entanto, elas lhe pareciam delicadas demais para um toque como o seu e puras demais para que ele sequer pensasse em tocá-las. Ele abaixou a mão e simplesmente continuou a olhar para elas. Decididamente, ele amava rosas. Elas eram tão suaves e cheias na forma, pétalas levemente côncavas que se encaixavam perfeitamente uma na outra...

Ele suspirou. Aquelas flores eram tão delicadas e bonitas que era quase fácil acreditar em finais felizes.

Era isso que Arthur estava buscando? Havia... algum sussurro no fundo da sua cabeça, que lhe dizia que aquele rapaz no sonho e ele mesmo... talvez estivessem ansiando pela mesma coisa? Arthur queria felicidade, mas muito mais que isso, ele queria... acreditar. Porque parecia que quanto mais tempo passava, quanto mais adulto ele se tornava, mais era difícil acreditar em si mesmo, acreditar nas outras pessoas, acreditar... nos próprios sonhos.

Havia uma sensação de quase fascínio e alívio em seu peito, mas... aquele sentimento não o pertencia. A cena continuou.

A porta do quarto foi aberta de novo. Arthur ainda sorria levemente, esperando encontrar a senhora. No entanto, voltou a ficar sério quando reconheceu o oficial britânico.

– Aqui, seu uniforme. – disse o homem, jogando sobre a cama um pacote de roupas. – Em cinco minutos, me encontre lá embaixo.

A porta fechou novamente e Arthur respirou fundo. Sabia que cinco minutos seriam mesmo cinco minutos. Lentamente, levantou-se da cama. Foi surpreendido por uma dor nauseante, que irradiava do lado esquerdo de seu tronco e parecia que estava queimando. Fechou os olhos com força quando se pôs em pé, forçando os músculos próximos ao ferimento no tronco. Sobre o dorso enfaixado, ele colocou a parte de cima do uniforme, sibilando toda vez que o tecido arranhava os ferimentos. As luvas pretas cobriram dolorosamente a mão ferida e sensível. Quando outro oficial chegou para apressá-lo, ele terminava de calçar os pesados coturnos militares.

Os passos para fora do quarto foram firmes. Arthur tinha a impressão de que aquele rapaz carregava nos ombros uma responsabilidade... imensurável. Ele parou apenas alguns segundos e admirou as rosas da senhora uma última vez. Depois, acompanhou o oficial.

When the violence causes silence

We must be mistaken

(Quando a violência causa silêncio

Nós devemos estar enganados.)

A cena mudou bruscamente, deixando-o extremamente nauseado pela alteração repentina. Houve um barulho, uma explosão seca, alta, estupidamente alta, que o deixou absolutamente surdo por minutos inteiros. Ele abriu os olhos, mas estava muito escuro, muito confuso, muito barulhento, muito... macabro. Por que ele estava no chão? Algum lugar estava queimando ao seu lado, e as chamas iluminavam parte do que parecia um corpo aberto e... aquilo eram... intestinos? Arthur fechou os olhos, tentando bloquear a imagem, embora o corpo estivesse carbonizando muito rápido e exalando um cheiro extremamente nauseante, impossível de ignorar.

In your head, in your head

They are still fighting

With their tanks and their bombs

And their bombs and their guns

In your head, in your head they are dying…

(Na sua cabeça, eles ainda estão lutando

Com seus tanques e suas bombas

Suas bombas e suas armas

Na sua cabeça, eles estão morrendo...)

O chão estava frio e úmido, fazendo seu corpo inteiro tremer com a baixa temperatura.

Mas... por que ele estava no chão?

De repente, a compreensão caiu sobre si como uma muralha de pedra. Conhecia aquele lugar, tinha tido aquele pesadelo repetidamente ao longo daqueles anos, sempre que se deixava levar pelos seus pensamentos mais negativos, sempre que se sentia tentado a ouvir suas tendências autodestrutivas, sempre que...

Ele estava no chão, de costas, alguém estava segurando-o em posição, de novo, de novo...

Os gritos chorosos de Arthur foram abafados pelo som de prédios destruídos e bombas caindo.

A dor era insuportável. Tudo doía, sua capital estava indo abaixo, seu peito queimava, as pessoas gritavam na sua cabeça, o frio da noite lhe gelava até os ossos, o cheiro dos corpos o enjoava.

A sensação de total agouro, era como se a qualquer momento algum daqueles corpos fosse levantar e o segurar ao chão, tentar enterrá-lo vivo naquela terra, por vingança, vingança de Arthur, que poderia tê-los salvo, poderia tê-los protegido...

In your head, in your head

Zombie, zombie

What’s in your head?

A agonia o percorria por dentro, engasgando, subindo garganta acima como algo viscoso, fervendo, dolorido. O loirinho acordou em um pulo. O enjoo o tonteou por um momento e ele correu até o banheiro, vomitando na pia. Abriu a torneira, seus dedos trêmulos segurando o metal frio com força, tentando se segurar. Apressadamente, lavou a boca e jogou um pouco da água gelada sobre o rosto. Afastou-se trôpego e encostou-se à parede fria de azulejos, escorregando até sentar-se no chão do banheiro. Soltou um suspiro trêmulo e afastou a franja suada da testa.

Por vários minutos, seu coração pulou no peito e Arthur se concentrou em respirar mais devagar. Fechou os olhos com força e baixou a cabeça, apoiando a testa sobre os joelhos.

Ouviu o telefone tocando na sala. Sua vontade era ignorar o maldito barulho e fechar a porta, se esconder, infernos, qualquer coisa, menos atender. Mas se o barulho continuasse, acordaria o resto da casa. E seria impossível esconder que estivera chorando. Seus olhos estavam muito irritados e suas mãos ainda tremiam. E... se Alfred o visse? Talvez ele o consolasse, mas seria falso, ele ainda estaria irritado, só estaria ao seu lado por... pena. E, talvez ainda, Alfred ignorasse. Porque era possível que... ele não se importasse.

Arthur levantou-se e correu até a sala, atendendo a ligação e acabando com o barulho irritante.

– Alô? – sua voz soou um tanto fraca, mas não estava muito trêmula. Era alguma coisa.

– Hey, Arthur!

– Scott.

– Sim, eu. Eu estava no laboratório e recebi um projeto novo, acho que não vou conseguir voltar para casa para o Natal... Eu estou te ligando para perguntar sobre o... – seu irmão parou de falar abruptamente assim que ouviu Arthur respirar fundo, pesadamente, quase fungando, como se... como se ele estivesse... chorando? – Arthur? Arthur, o que aconteceu?

–nada... – murmurou, tentando disfarçar a sua voz trêmula.

– Arthur, você está chorando? – insistiu o mais velho.

– E-eu preciso desligar, Scott. Eu te ligo mais tarde. – disse em um fôlego só, desligando antes que seu irmão tivesse a chance de responder.

Arthur sentou-se no chão da sala escura, seus joelhos tocando seu tórax. Teve vontade de se bater por um momento. Que jeito estúpido de terminar a ligação, agora Scott com certeza sabia que havia algo de errado e ligaria de volta.

O loirinho passou as mãos pelos cabelos, puxando-os para trás e apoiando a testa sobre seus joelhos. Quando Scott ligasse, em alguns minutos, ele precisava de uma desculpa. Sabia disso, mas... estava cansado, sinceramente. Abraçou os joelhos e respirou fundo.

Mas o telefone não voltou a tocar. Sentiu-se... estranhamente... desapontado com Scott.

Arthur sentou-se no sofá da sala e permaneceu fitando vagamente os móveis, que afundavam na escuridão do cômodo. Arthur não se preocupara em acender as luzes. Apenas sentou ali, com intenções de permanecer acordado o resto da noite. Não particularmente queria voltar a ver o próximo cenário com o qual seu inconsciente o presentearia na próxima vez em que ele resolvesse dormir. Apenas... sentou-se ali e tentou colocar os pensamentos no lugar.

Mas era como se seus pensamentos estivessem andando em círculos.

Fechou os olhos, muito ansioso para sequer conseguir ficar com sono. Os minutos se arrastaram e Arthur apenas permaneceu ali, em silêncio. Abraçou os próprios joelhos e apoiou a testa sobre eles. Não prestou atenção às horas, apenas... sentou e tentou encontrar um jeito de fazer a sua vida fazer sentido. Não observou o tempo, mas este passou pela sua figura encolhida na sala de estar e adicionou três horas à conta de Arthur.

E enquanto o tempo continuava a acrescentar minutos no vazio da sala, Arthur ouviu a campainha tocar. Ergueu a cabeça por um momento, confuso. A pessoa à porta tocou de novo, insistentemente. Arthur encarou o relógio na parede, que marcava três da manhã, e se levantou, abrindo a porta.

Era Scott.

Arthur arregalou de leve os olhos, ainda fitando, estupefato, o irmão parado à sua porta.

– E aí. – disse Scott, tirando o cigarro da boca e encarando o irmão mais novo.

– O quê? – o loirinho piscou, um tanto atordoado. — Scott, o que você está fazendo aqui?

O ruivo entrou, deixando Arthur com a porta aberta para trás, levando consigo algumas sacolas de algum estabelecimento 24h.

Em dois minutos, Arthur se viu sentado na mesa da cozinha com uma garrafa de whysky e uma garrafa de gin tiradas da sacola que Scott trazia. O ruivo ignorou todas as tentativas do mais novo de perguntar a razão de tudo aquilo, meramente pegando dois copos e colocando duas doses generosas. Arthur, resignado, e, em parte, agradecido, virou a sua dose de uma só vez, sentindo a queimação familiar e agressiva do whysky garganta abaixo. Sentiu-se levemente melhor. Em parte, talvez, por estar propositalmente se fazendo mal. Como uma autopunição, qualquer coisa que atenuasse aquele sentimento ruim em seu peito, aquele remorso, aquela náusea.

Demorou um pouco, algumas doses rápidas em um estômago vazio, mas, em alguns minutos, sua mente já estava um tanto anestesiada, um pouco vaga. Aquela sensação estranha de que... as bordas da sua consciência estavam... borradas. Tomou outra dose e deitou a cabeça sobre os braços cruzados sobre a mesa da cozinha.

– Então. – ouviu Scott ao seu lado, e, pela voz dele, o ruivo não passara da segunda dose. — Vai falar comigo agora?

Arthur entendeu, então. Scott o conhecia. Sabia que seu irmão mais novo nunca se abriria sóbrio. Porque Arthur sempre escolheria sofrer sozinho. Ele esconderia a dor, como se ela fosse preciosa, e a apertaria contra o peito, como se pudesse abraçá-la. Como se isso pudesse diminuir a solidão.

Scott viu os olhos verdes do irmão se voltarem para si. Os lábios de Arthur estavam levemente pressionados, como que numa última tentativa de evitar que as palavras saíssem.

– Eu... eu fiz algo que não devia. – começou Arthur, finalmente, baixo. Sua voz soava um tanto distante, seu sistema nervoso estava definitivamente confuso, um pouco lento, mas Arthur sabia o que estava fazendo. Só... parecia mais fácil agora. — E... eu e o Alfred... a gente brigou.

– Você tentou falar com ele, se explicar..?

– Er... é complicado. – disse Arthur finalmente, voltando a deitar a cabeça sobre seus braços. – Eu... fui atrás dos pais dele... – respirou fundo. Seu peito queimava com a humilhação, ainda nítida em sua memória. –... e pedi dinheiro para ele voltar a estudar.

– Você o quê?! – os olhos claros de Scott encararam a figura de seu irmão mais novo, meio jogado sobre a mesa, admitindo que... que tinha se humilhado para outras pessoas e... – Como o Alfred te deixou fazer uma coisa dessas?!

Arthur respirou fundo e fez sinal para que o outro falasse baixo. Scott estava realmente nervoso. Nem se lembrara de acrescentar alguma ofensa carinhosa ao nome do garoto.

– Ele não deixou. – disse finalmente, um tanto contente em não estar fazendo aquilo completamente sóbrio. Francamente, não achava que conseguiria. Quanto mais falava em voz alta, mais estúpido se sentia. – Eu... fiz tudo escondido dele.

Scott respirou fundo e permaneceu em silêncio. Alguns minutos se passaram e Arthur ergueu a cabeça para encará-lo. O ruivo terminou a sua dose e encarou o copo por alguns minutos.

– Você sabe que não deveria ter feito isso, não é? — disse seu irmão, depois de um suspiro pesado.

Arthur suspirou também e assentiu.

– Você explicou para ele porque você fez isso? – tornou Scott, encarando o irmão.

– Ah, Scott, eu... eu fiz tudo errado. – desabafou Arthur, seus dedos afundando nos próprios cabelos e puxando-os. Terminou por apoiar a face em uma das mãos e a fitar a garrafa, agora um tanto mais leve do que há alguns minutos atrás. – Se não fosse o Peter, ele teria ido embora. – choramingou Arthur, seus sentimentos menos controlados com o álcool. Sua cabeça estava confusa e manter uma fachada de calma parecia estúpido. – Eu gosto dele, Scott. Eu só estava tentando consertar as coisas, eu ... – a verdade o atingiu com força, resumindo a sua angústia. – eu não quero que ele vá embora. – murmurou.

– O que ele te disse? Quando você contou para ele o que você tinha feito.

– Ele... – Arthur hesitou por um momento. – Ele me disse que eu tinha traído... que não queria mais me ver. E... as coisas meio que saírem de controle. E... bem, nós dois exageramos um pouco. – disse, seus dedos inconscientemente traçando o hematoma em sua face. Percebeu Scott ficar tenso em sua cadeira.

– Eu tinha percebido antes, mas eu sabia que você não me diria a verdade se eu perguntasse, mas... Arthur, ele te bateu? – e parecia custar cada fibra do corpo de Scott permanecer calmo e não subir as escadas e quebrar o namorado de seu irmão mais novo ao meio por ter ousado... O ruivo respirou fundo. — Você revidou, não? Pelo amor de Deus, Arthur, se você deixou aquele almofadinha bater em você sem reagir... – ele apertou o copo quase como se quisesse enforcá-lo. – Se eu não encontrar um hematoma igual na cara dele da próxima vez em que eu botar os olhos nele...

Arthur assentiu, com um meio sorriso. Estranhamente, muito estranhamente... sentia-se melhor agora que colocara para fora. Parecia... mais simples. Tão mais simples, tão menos complicado do que aparentava em sua cabeça.

– Ok, certo. – suspirou o mais velho. – Deixando isso de lado. Qual o problema?

Arthur virou-se e encarou o irmão. Seus lábios entreabriram levemente e o loirinho apenas continuou a encará-lo, confuso.

– Tem mais, não é?

Arthur voltou a apoiar a testa sobre os braços, cruzados sobre a mesa. Respirou fundo.

– Eu... – hesitou. Verdadeiramente, hesitou. Não gostava de falar sobre... assuntos sensíveis, não gostava de expor suas fraquezas. Mas...

Suspirou e bagunçou os próprios cabelos, frustrado. A verdade é que queria ajuda. Francamente, não tinha ideia do que fazer, e falar sobre os seus problemas realmente o estava fazendo se sentir melhor.

Mesmo assim colocou uma dose de gin antes de começar a falar. O gosto acentuado e puramente alcoólico da bebida desnorteou-o levemente. Parecia vagamente como se ele estivesse engolindo perfume.

Ignorou o gosto e bebeu outro gole, reestabelecendo parte da sensação de anestesia em sua mente.

– Scott, lembra que eu costumava ter pesadelos quando eu era criança? – não olhou nos olhos do ruivo. Apenas... encarou o líquido transparente em seu copo, pensativamente inclinando-o e observando a luz refratando através do vidro.

– Lembro. – respondeu o outro, encarando o irmão.

– Eu... menti. – disse, quase baixo demais para que Scott conseguisse ouvir. — Eu ainda tenho. — Seus olhos verdes continuavam fixos no vidro, mas ele já não estava mais prestando atenção nos reflexos ou na luz. Seu olhar era um tanto perdido, como se ele tentasse encontrar sentido no que dizia. Na verdade... como se ele tentasse encontrar sentido no que vivia.

Scott não encontrou o que dizer. Não... sabia como alcançar Arthur. Não podia dizer que sabia como ele se sentia, porque não sabia. Lembrava, é claro, de quando os dois eram crianças e... Arthur gritava enquanto dormia, como se estivesse sendo torturado, algumas vezes. Como se estivesse vendo o inferno na frente de seus olhos, outras vezes. Geralmente acontecia quando o loirinho estava magoado ou triste com alguma coisa que aconteceu em seu dia. Quando... ele estava vulnerável, torturando-se com sabe Deus que tipo de pensamentos negativos. Lembrava que nos primeiros anos fora particularmente... ruim.

– Eu... pensei que você tinha melhorado. Como... isso acontece? – o tom que Scott utilizou parecia alguma coisa entre... decepção e culpa. Decepcionado...? Por Arthur ter escondido, por não ter confiado isso a ele por todos aqueles anos. Culpado por não ter percebido.

Arthur baixou o copo, registrando o barulho discreto do vidro encontrando a superfície de madeira da mesa. Encarou a superfície do gin, cujo volume no copo já havia baixado consideravelmente. Estava realmente tonto. Parte de si tinha vontade de sair correndo e evitar as perguntas de Scott, mas ele estava inteiramente convencido de que não conseguiria ficar em pé e colocar um pé na frente do outro e sair andando em seu atual estado. Respirou fundo e voltou a apoiar a testa sobre seus braços cruzados em cima da mesa.

– Sabe, Arthur... – começou Scott, fitando o copo em sua própria mão, mas sem consumir a bebida, fitando a cor âmbar pensativamente. – Eu entendo porque o Alfred brigou com você. – mais uma vez, sem piadinhas, sem apelidos. Aparentemente desistira de pressionar o assunto sobre os sonhos ruins que Arthur andava tendo insistentemente. A voz de seu irmão soava pensativa e um pouco distante. – Você sabia que era uma coisa invasiva a fazer, mas aceitou os riscos.

– Você acha... que eu fiz certo? – perguntou o loirinho, em um fio de voz, sem erguer a cabeça, sua voz levemente abafada.

Scott bebeu o conteúdo de seu copo, mas não pediu outro.

– Eu não sei. – disse ele finalmente. Seus olhos azuis fitavam vagamente algum ponto à sua frente. – Mas você também nunca vai saber. Você não sabe o que aconteceria se você tivesse feito diferente. – seus dedos longos contornaram a borda do copo contemplativamente. – Então... você meio que tem que viver com as escolhas que você fez. É assim com todo mundo. As pessoas cometem erros, e vivem com isso. – disse, finalmente voltando para fitar o irmão mais novo.

Viu-se encarado por dois olhos verdes, um pouco marejados, que vasculhavam os seus próprios olhos, tentando encontrar alguma coisa que dissesse que ele mentia. Porque... aquilo era dizer que... estava tudo bem. Que Arthur talvez não estivesse fazendo tudo, mas estava fazendo o melhor possível. Estava... fazendo o suficiente. Estava sendo suficiente.

E como era... bom.

Em certa medida, Arthur sabia que a briga com Alfred fora difícil e complicada, mas... não era a única coisa que estava acontecendo. Os problemas pareciam ter o péssimo habito de virem acompanhados. No fundo, Arthur... estava assustado. Tinha... medo de não ser o suficiente. Ele tinha só dezenove anos, e nenhuma confiança de que estava realmente fazendo aquilo direito. Arthur... ainda ficava assustado em pensar sobre Peter, sobre Alfred... sobre como eles eram novos e como era fácil estragar tudo. Depois que conseguira brigar com o garoto na tentativa de consertar as coisas, Arthur não tinha mais confiança de que estava fazendo alguma coisa direito. Ficava... pensando que, se ele fosse mais velho, talvez, ele soubesse as respostas.

Então, ouvir alguém mais velho lhe dizendo que não, ninguém sabia as respostas. Que as pessoas erravam, mas... que estava tudo bem. Fazia Arthur sentir como se tivesse tirado uma muralha de seus ombros.

Deu um sorriso cansado, mas verdadeiro, a Scott, que meramente riu e bagunçou seus cabelos.

Seu irmão voltou para a Escócia no mesmo dia, apenas esperando um pouco para o álcool sair razoavelmente do seu sistema. Despedira-se de Arthur no portão da sua antiga casa, bagunçando-lhe os cabelos e não dizendo coisa alguma.

Scott era uma presença curiosa em sua vida, Arthur admitia. Por mais que os dois se desentendessem, Scott ainda era seu irmão mais velho e... Arthur confiava nele. Da janela da sala, viu os cabelos ruivos do irmão sumindo na distância.

Arthur não permaneceu em seu quarto naquela noite. Não... podia. Se ficasse lá, seria obrigado a ver que... o quarto continuava vazio. Tinha receio... Sonhos tristes talvez seguissem os seus passos até que amanhecesse.

Apagou a luz de todos os cômodos, até chegar à porta da frente. Silenciosamente, seus dedos se fecharam sobre a maçaneta e ela lhe abriu passagem. Arthur saiu e encostou a porta.

A noite estava fria. Muito, muito fria. Pelas grades do portão, ele pôde ver que a rua estreita estava absolutamente vazia àquela hora. Virou à direita, tendo acesso ao próprio jardim, onde suas rosas descansavam silenciosamente na noite. Sentou-se na grama, ao lado da roseira, detendo-se em uma rosa particularmente cheia. O perfume suave o atingiu e o confortou, ao que ele se sentiu quase mal por não dar tanta atenção ao seu jardim ultimamente. Ainda regava e aparava ocasionalmente, mas... não lhe dedicava mais tanto tempo. Na verdade, não tinha tempo livre suficiente para fazê-lo, mas...

Respirou fundo e se deitou. A grama estava fria também. A umidade sobre folhas parecia prestes a congelar, de tão fria. Arthur estremeceu ao sentir sua camiseta fina de mangas longas se molhando. Talvez estivesse muito frio para aquela roupa. Mas Arthur não conseguia se importar muito no momento. Meramente pousou a cabeça sobre o gramado e voltou seus olhos para cima.

O céu parecia tão grande. Havia uma ou outra estrela visível, e elas se sustentavam em uma imensidão incalculável. O azul era muito profundo e não havia lua. No entanto, na cidade, era muito difícil ver mais estrelas.

Mas... elas estavam lá, não estavam? Seria bom... se ele pudesse vê-las. Por um momento, Arthur imaginou como seria se, naquela noite, a cidade toda se apagasse. Sem uma única luz, uma única vela acesa, em uma noite sem lua. Seria... assustador. Mas ele definitivamente veria mais estrelas no céu. Então, Arthur não pôde deixar de pensar como era... estranho.

Talvez a escuridão fosse parte necessária.

Em muitos sentidos.

Fechou os olhos. Estava frio e o gramado estava úmido, mas ele se sentia estranhamente confortável. O silêncio... estava tudo tão quieto que era quase como se aquela quietude pudesse silenciar... tudo. Parecia possível que pudesse silenciar a sua própria existência. De olhos fechados, do lado de fora de casa, sem paredes nem chão, abaixo de um céu tão escuro e tão imenso... era como se nada importasse. Arthur sentia que quase podia adormecer ali. Estava... frio, mas... era tudo tão quieto. Tão... calmo. Mas... era frio demais. Aquilo estava lhe fazendo mal.

E, embora Alfred e Peter fossem parte de suas razões para seguir em frente, de alguma forma, naquela noite... Naquela noite, Arthur decidiu cuidar de si mesmo... por si mesmo. Porque uma parte de si... queria aprender a gostar da pessoa que ele era.

Porque Arthur estava amadurecendo. Como todas as outras pessoas no mundo, aprendendo como é que se fazia para viver nesse mundo tão estranho. Como é que se fazia para ser uma pessoa melhor. Ele... queria superar aquela parte de si mesmo que sempre o puxava para baixo. Queria superar sua tendência autodestrutiva.

Porque, finalmente, chegava o dia em que Arthur tentaria fazer as pazes consigo mesmo.

.

Era domingo de manhã, o que queria dizer que Arthur estaria em casa àquele horário. Alfred trancou-se no quarto que costumava ser dos dois, e sentou-se na cama.

Há dias que ele não falava com Arthur. O loirinho tentara falar consigo e pedira desculpas várias vezes nos últimos dias, mas Alfred o ignorou em todas elas. Não... sabia o que responder. E ainda não conseguia entender seus sentimentos. Estava confuso e irritado, então afastara-se de Arthur, porque deveria se sentir melhor longe dele.

Mas estranhamente, não poder estar ao lado de Arthur, de alguma maneira, deixava-o incrivelmente... vazio. Respirou fundo e esfregou o rosto com uma das mãos. Sendo sincero, nem sabia mais porque estava magoado com Arthur. Depois de vários dias, a raiva inicial tinha arrefecido, restando talvez só uma certa irritação com o fato de alguém ter tentado tomar controle da sua vida dessa forma.

Suspirou irritado, batendo uma das mãos sobre a mesa de cabeceira com força. Por que Arthur tinha que se meter naqueles assuntos? Alfred só queria esquecer de certos problemas, fingir que eles não existiam. Era... estúpido, mas era o melhor que ele conseguia fazer. Alfred crescera, amadurecera em muitos sentidos, mas... ele ainda não tinha as respostas. Ele ainda não sabia o que fazer com certos problemas.

O problema é que ele não era nem velho o suficiente para saber o que fazer nem novo o suficiente para que ninguém o culpasse por isso. Se ele ainda fosse uma criança, não teria problema se ele não soubesse. Mas... ele era um adulto. Passara a ser desde o momento em que vira a casa de seus pais pela última vez, sendo expulso da mesma.

Não queria se lembrar. Não queria pensar sobre aquilo. No fundo? Não queria mais sofrer. Queria ignorar aquela mágoa, aquela dor da rejeição, já um tanto anestesiada pela distância e pelo tempo.

Sentou-se na beirada da cama e apoiou a cabeça sobre as mãos. Peter dormia no berço. Arthur estava na faculdade. Arthur… há dias não falava com ele. Evitava-o. Ignorava-o. Morava sob o mesmo teto que ele, mas nunca o teve tão distante. Respirou fundo.

Sentia falta de Arthur. Muita falta. Era verdade que estivera com raiva e… decepcionado. Além de cansado e irritado com outros problemas e partes de sua vida. Mas, Deus, como ele sentia falta de estar com Arthur. Da vida que os dois levavam. Arthur... completava-o de uma maneira que ele nunca julgara que fosse possível. Sendo ranzinza às vezes, reclamando sobre a bagunça no quarto, sendo chato quando achava que Alfred estava comendo muita besteira. Mas ainda sendo seu melhor amigo. O que ainda era ruim com videogames, embora bom com jogos de tabuleiro. Que era inteligente e encantador, com quem Alfred poderia passar horas conversando, ou mesmo horas em silêncio. Que acordava cedo todos os dias e preparava a mamadeira de Peter e o café de Alfred, corria para a aula, voltava, estudava e cuidava do irmão, e quando o garoto voltasse para casa à noite, estaria lá, esperando-o. Aqueles cabelos loiros bagunçados, que agora ele usava ocasionalmente para esconder o piercing do irmãozinho mais novo, que às vezes queria puxar a pecinha de prata.

Arthur, que falara com seus pais sem lhe consultar.

O garoto respirou fundo outra vez e fechou os olhos. Tivera muita raiva quando Arthur lhe contara sobre o que ele havia feito. Mas... agora pensando... Alfred não sabia bem a quem sua raiva se dirigia. Não era... algo racional. Era só que... seus pais. Que deveriam ser a sua referência. Que por toda a vida, o garoto acreditara que... o protegeriam. De repente, as pessoas que desde sempre lhe disseram que o amavam o traíram e magoaram, rejeitaram. E ainda assim, ainda havia aquela sombra, aquela sua parte inconsciente que sempre veria seu pai e sua mãe como muito maiores que ele. Alfred... se sentia acuado. Seus pais o haviam ensinado sobre... tantas coisas. Eram as pessoas que tinham lhe ensinado o que era certo e o que era errado. E de repente... essas pessoas haviam lhe dito que a melhor coisa que acontecera na vida de Alfred era errada. Que Arthur... era doente. Que o amor deles era... nojento.

O garoto sentiu a garganta trancar. Seu sangue fervia quando ele lembrava disso. Como... como alguém podia dizer uma coisa dessas? Arthur, que desistira de ter a vida de um estudante normal de quase 20 anos para cuidar de uma criança. Que não era o mais forte, nem o mais bem preparado, mas que nunca, nunca deixava de enfrentar o que acontecia em sua vida. Que sobrevivera uma noite estupidamente fria de neve trancado do lado de fora de um orfanato. Que continuou lutando, mesmo quando absolutamente destruído pela morte de Elizabeth. Arthur...

Que se humilhara para os seus pais para que ele fosse para a faculdade.

O garoto deitou as costas na cama, seus olhos muito azuis fixos no teto. Odiava Arthur por isso, mas conhecia-o o suficiente para saber que era o tipo de coisa estúpida que Arthur faria. Fechou os olhos. Idiota. Será… que o rosto dele ficou marcado por causa daquele soco…? Não tivera coragem de olhar, em todos aqueles dias. O garoto engoliu em seco e fitou o teto. Não deveria ter batido em Arthur. Não importava o motivo, era... errado. Ele não podia consertar as pessoas aos tapas, as coisas não funcionavam assim. Não era porque Arthur não revidaria que isso lhe dava o direito de bater nele.

Voltou a sentar-se na cama. Respirou fundo. Precisava se concentrar. Qual era, no final de tudo, a pergunta que ele estava tentando responder? Seus pensamentos ficavam dando voltas e voltas, mas... ele não conseguia chegar a nenhuma conclusão, porque sequer conseguia entender a que pergunta estava tentando responder.

Qual era o problema? Ele... estava procurando um culpado? Provavelmente não. Os dois estiveram errados e Alfred não era estúpido o suficiente para não perceber isso. Era orgulhoso o suficiente talvez para não admitir, mas não significava que ele não percebesse. Arthur podia ter sido absolutamente intrometido, mas Alfred exagerara ao bater nele e recusar-se a conversar.

Segurou os cabelos com as mãos, puxando com força e soltando-os, acabando por deixá-los bagunçados. Qual era o problema? Ele precisava saber. Senão ele e Arthur continuariam naquela situação horrível que Alfred estava tentando... resolver.

Era isso.

Essa era a pergunta. Não importavam os motivos, os arrependimentos, os culpados. A questão era se ele perdoaria Arthur. Aquela situação só tinha duas saídas: ou os dois se reconciliavam e voltavam a viver juntos, ou... eles se separariam definitivamente.

O garoto fechou os olhos e escondeu o rosto entre as mãos. Separar-se de Arthur... Significaria viver o resto de seus dias daquela forma? Sentindo falta da voz dele, das conversas, da... maneira como os dois se encaixavam. Arthur não era apenas seu namorado. Era também o seu melhor amigo, seu maior confidente.

Ainda não tinha ideia do que fazer sobre o assunto com seus pais. De verdade, não queria lembrar deles. Mas... sabia que era inevitável. Enquanto ele não resolvesse aquele assunto inacabado com a sua família, ele nunca teria paz. Pensaria em alguma coisa. Mas, antes disso... iria se desculpar com Arthur. Levantou-se da cama e seguiu para o corredor, parando apenas para colocar uma cobertinha mais grossa sobre Peter. Estava esfriando rapidamente esses dias.

A porta do quarto que costumava ser de Scott estava fechada. Provavelmente, não estava trancada.

Alfred respirou fundo e pousou a mão sobre a maçaneta, inclinando-a de leve e abrindo a porta do quarto.

Arthur estava deitado, com um livro apoiado sobre a cama. Sua face direita repousava sobre uma de suas mãos, e seus olhos verdes corriam as linhas com pouco interesse. Dava para ver sua face direita inchada, um contorno violáceo tentando desaparecer na superfície pálida, mas ainda evidente demais. Era um hematoma feio, e Alfred podia ver que a contusão tinha o formato da sua mão. Seu peito revirou de remorso.

– Arthur... – chamou o garoto, ajoelhando ao lado da cama. O loirinho virou-se para olhar e Alfred se viu fitado por dois olhos verdes incrivelmente expressivos.

Arthur estava irritado, um tanto culpado ainda, e, em certa dose, magoado com o garoto. Mas, acima de tudo, havia alguma coisa de muito reconfortante em estar perto dele de novo. Seus olhos permaneceram fitando as íris muito azuis de Alfred, e, de alguma maneira, era como se Arthur pudesse entender. Como se Alfred fosse... quase uma parte de si.

Ou talvez, Arthur simplesmente soubesse que Alfred o amava muito. Que ele fazia coisas por Arthur que mais ninguém faria. Que ele era a melhor coisa que acontecera em sua vida nos últimos anos. Tirando conhecer Elizabeth. Contando que ele estivera lá quando Arthur a perdera.

Contando que Arthur amava aquele menino tão desesperadamente.

O loirinho suspirou e abriu um pouco de espaço para Alfred deitar ao seu lado. Sentiu o colchão afundar um pouco assim que o garoto apoiou um joelho sobre a superfície, então afundar um pouco mais quando Alfred subiu totalmente na cama. Ele apoiou cada uma das mãos perto de um dos lados da cabeça do loirinho, parcialmente sobre ele. A franja de cabelos cor de caramelo deslizou com a gravidade e escondeu parcialmente os olhos muito azuis do garoto.

– Arthur... – murmurou o garoto.

O loirinho afastou a franja da frente dos olhos de Alfred e esperou. O garoto pareceu prestes a chorar por um momento, e no seguinte, abraçou Arthur apertado contra si.

– Eu... desculpa, Arthur. Eu não... – sua voz quebrou e ele não soube o que fazer ou o que dizer – desculpa. – murmurou. — Eu só... estava frustrado em ter que depender dos meus pais e descontei em você. Eu bati em você e te ignorei todos esses dias. Eu... sinto muito, Arthur.

Arthur assentiu, silenciosamente perdoando o garoto, tentando ele mesmo encontrar palavras para pedir desculpas. Não confiava muito em sua voz no momento. Arthur entrelaçou os dedos nos cabelos macios do garoto e manteve-se calado, simplesmente sentindo a sensação familiar do abraço de Alfred. Respirou fundo e fechou os olhos. Uma adoração suave e aquecida parecia ter pousado sobre o seu peito. Abraçar Alfred era como... voltar para casa. Como retomar um pedaço que lhe faltava. Era um sentimento tenro, suave como uma tarde de chuva em casa, persistente como o sorriso de uma criança fazendo aniversário.

Alfred lhe fazia tão bem.

Antes que percebesse o que fazia, Arthur beijou de leve o topo da cabeça do garoto, ao que foi retribuído com um abraço mais apertado. Conseguia sentir o cheiro familiar de Alfred. Seus olhos esverdeados se abriram e por um momento Arthur fitou o teto do quarto. Respirou fundo, incrivelmente tranquilo depois de dias tão turbulentos. Alfred era parte importante de sua vida. Muito, muito importante. E... se os dois se comprometessem a resolver aquilo, com certeza... com certeza podia dar certo.

– Isso foi estúpido. – murmurou, entrelaçando os dedos nos cabelos do garoto.

– Não teria acontecido se você tivesse falado comigo. — murmurou Alfred de volta, sem se afastar.

– Continua sendo estúpido.

– eu sei. – havia um meio sorriso nos lábios do garoto ao perceber que Arthur não negava que o que tinha ouvido era verdade.

Os dois tinham brigas estranhas. Complicavam tudo na hora da raiva, diziam centenas de coisas que não queriam dizer de verdade e se arrependiam, mas eram orgulhosos demais para procurar um ao outro por um bom tempo. E... depois de tudo, admitiam o erro para si mesmos. Sutilmente, faziam com que o outro soubesse que entendiam onde tinham errado. Sem palavras, prometiam não fazer de novo. Era estranho. Mas é claro que tinha de ser estranho. As pessoas não expressavam afeição da mesma forma. As pessoas não expressavam gratidão ou perdão da mesma forma. Havia tantos sentimentos no mundo quanto havia pessoas. Os relacionamentos não se estabeleciam da mesma forma. Não existia uma fórmula mágica que funcionasse para todo mundo. A vida era mais ou menos um emaranhado de tentativas e erros consecutivos, que ninguém sabia muito menos aonde ia dar.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos.

– Você não precisava ter me batido. – retomou Arthur, mas seu tom era leve, quase um comentário.

– Eu sei. – murmurou Alfred, sua face sobre o peito do loirinho e suas mãos gentilmente fazendo carinho na cintura do outro. Estava desculpado, sabia, mas ainda se sentia mal sobre isso.

– Eu poderia quebrar a sua cara aqui e agora.

– Eu sei. – murmurou o garoto de volta, seus lábios se curvando em um leve sorriso. Sentia-se melhor lembrando que Arthur não fora, de maneira nenhuma, coagido pela sua brutalidade do momento. Que ele era perfeitamente capaz de dar uma surra no garoto e, que se verdadeiramente não quisesse, Alfred nunca conseguiria obrigá-lo a nada. Riu um pouco. Arthur dissera aquilo com o mero objetivo de animá-lo.

O loirinho suspirou.

– Eu não sei o que eu faço com você. – deu um meio sorriso e um suspiro.

– Eu sei. – o garoto ergueu o rosto, e seus olhos claros encontraram os de Arthur. — Você me desculpa.

– ...certo. – disse Arthur, medindo o garoto com os olhos. Afastou-o um pouco, meticulosamente. Então, encheu a mão e deu um soco em Alfred.

– Ouch!

– Desculpado. – murmurou, com um sorriso quase divertido. Alfred não sabia, mas Arthur acabara de salvá-lo de uma bela surra por parte de Scott. Beijou de leve os lábios do garoto e afastou-se, rindo. Alfred franziu o cenho como uma criança contrariada, mas sua irritação se esvaiu ao ouvir a risada de Arthur. Fazia... algum tempo desde que ele ouvira Arthur rir.

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E por um momento, que talvez tenha durado um segundo ou talvez tenha durado a própria eternidade, os dois se olharam. Tinham... enfrentado tantas coisas juntos. Tantos dias. Na verdade... enfrentaram centenas de anos juntos. Alfred, de certa forma, salvara a alma de Arthur quando passara a amá-lo, há muito, muito tempo atrás. Arthur o salvara, em mais sentidos do que apenas um.

E nenhum dos dois lembrava desses tempos. Mas... lhes restara o sentimento. Suas almas pareciam ansiar uma pela outra.

Alfred aproximou-se e beijou-o uma vez também. Arthur sorriu e delicadamente retirou os óculos do garoto, que estavam atrapalhando, depositando-os sobre a mesinha de cabeceira. Então, puxou o garoto pela camiseta e beijou-o de novo, sua língua sutilmente tocando os lábios do outro, sentindo-os entreabrir. Foi devagar e sutil, provavelmente nem muito profundo. Era muito mais para sentir a respiração de Alfred confundindo-se a sua, como um carinho leve sobre seus lábios. Sentiu o beijo escapar e terminar em sua face esquerda.

Mas, estranhamente, Alfred se demorou ali. Seus lábios tocaram a pele macia da bochecha de Arthur, traçando padrões inexistentes, leve, muito leve, mal roçando a superfície. Então, seus dedos tocaram o local, como que medindo-o com os olhos. Então Arthur lembrou. Ah, sim... a briga. Alfred o batera com força suficiente para deixar um hematoma por alguns dias.

– Eu sinto muito, Arthur. – murmurou o garoto, beijando sua bochecha.

– Shh... tudo bem. Eu não me importo.

– Deveria. – murmurou o garoto, e ele parecia realmente chateado. – você não pode deixar as pessoas fazerem isso com você. – disse, sua mão deslizando pela face de Arthur e entrelaçando nos cabelos claros perto da nuca dele, carinhoso, devagar.

Arthur suspirou, fechando os olhos. Aquilo era bom. Em alguma parte de sua cabeça, uma que não estava ocupada estando meramente contente, Arthur sabia do que Alfred falava. Sabia que não deveria ter ficado quieto e deixado o garoto bater na sua cara daquele jeito. Mas... Arthur não tivera vontade de revidar. Não achava que... socar Alfred de volta o fazia se sentir melhor. Testara minutos antes e, de fato, estava certo.

– Não vai mais acontecer. – murmurou Arthur finalmente, suspirando e sentindo o perfume do garoto, assim como o cheiro familiar do shampoo que ele usava. – Na próxima vez nós vamos tentar sentar e conversar. Certo? – perguntou, afastando-se um pouco e dando um meio sorriso, olhando nos olhos do garoto.

– Certo. – e houve um sorriso de volta, muito bonito, que formava uma covinha na bochecha esquerda do garoto. A franja dele escorregou com a gravidade, e pendeu sobre a sua fronte. Arthur ajeitou-a de volta para trás, sentindo os fios deslizarem por entre seus dedos. Alfred inclinou-se para baixo e alcançou os lábios de Arthur, sentindo-os entreabrir abaixo dos seus. O garoto mordeu de leve o lábio inferior do loirinho, então voltando a beijá-lo, sentindo quando a língua de Arthur enlaçou a sua. Gemeu de leve, seu corpo tocando o do loirinho abaixo de si levemente. Sentira falta do beijo de Arthur. De estar assim com ele.

Alfred passou a deslizar os lábios sobre o pescoço sensível de Arthur, mordendo de leve sua nuca e ouvindo-o gemer baixo. Beijou seu pescoço outra vez e subiu, acertando um beijo sobre a bochecha direita de Arthur, que riu de leve. Alfred sorriu também. Sentiu o loirinho morder o lóbulo da sua orelha e beijar de leve o seu pescoço, rindo um pouco. Era estranho. Aquele relacionamento tinha tomado aquele contorno agradável, em que ambos estavam confortáveis na presença um do outro. Alfred afastou-se um pouco e olhou no fundo dos olhos esverdeados de Arthur.

– Te amo. – murmurou, tão perto que sua respiração se confundia com a do loirinho.

– Também. – ouviu Arthur murmurar, tão baixo que poderia ter sido apenas sua imaginação. No entanto, sentiu os dedos dele sobre suas faces, contornando suas feições como se pudesse guardá-las na memória. Ou talvez... como se as tivesse lá desde sempre, de alguma época anterior à própria memória. Alfred segurou uma de suas mãos e apertou, enquanto seus lábios beijavam o rosto de Arthur. As faces dele estavam um pouco quentes sob seu beijo, a cor aflorando de leve na pele pálida, tornando-a aquecida e vívida.

O loirinho fechou os olhos. Alfred não sabia explicar, mas havia muita confiança no gesto. Como se Arthur confiasse inteiramente em si. O garoto tocou-lhe a bochecha com o nariz, aninhando-se um pouco contra o loirinho.

Era... estranho. Perfeito, quase assustador.

Arthur avançou e alcançou os lábios do garoto, que o correspondeu e aprofundou o beijo, com um pouco mais de força, com um pouco menos de fôlego, seus sentimentos mais claros e menos controlados. A língua do garoto enlaçou a sua, contornando, ao que Arthur suspirou, suas mãos descendo e puxando a camiseta de Alfred para cima, tentando tirá-la.

Alfred afastou-se e tirou a peça, bagunçando seus cabelos e revelando o tronco forte que ele tinha. Arthur percorreu a pele exposta com a ponta dos dedos, sentindo os músculos, o contorno, a textura. Alfred alcançou o tronco de Arthur sob a camiseta, sua mão subindo e levando consigo o tecido, até ele chegar na altura da clavícula do loirinho. Foi quando Arthur sentou-se na cama e tirou ele mesmo a peça, alcançando o garoto e voltando a beijá-lo, com mais força, levemente sem fôlego.

Alfred retribuiu o beijo, enquanto suas mãos desceram e encontraram o cós da calça do loirinho. O garoto começou a descer a peça, suas mãos largas tocando e apertando durante todo o percurso, de maneira especial as coxas de Arthur, macias, firmes, sentindo um gemido sob seus lábios.

Alfred parou de beijar o loirinho, olhando para baixo e observando a boxer branca tentando acomodar uma ereção que já umedecia parte do tecido. Sem retirá-lo, passou a massagear o volume com uma de suas mãos largas, apertando, sentindo Arthur ofegar e inclinar seus quadris estreitos, ansiando por mais contato, mais pressão. Alfred prendeu os pulsos de Arthur com uma das mãos, sobre a cabeça do loirinho, restringindo-o. Recebeu um gemido em parte frustrado e, em outra parte, excitado.

– Pervertido. – murmurou, a milímetros da orelha de Arthur, que gemeu baixo e sorriu de lado.

Alfred desceu os lábios e passou a beijar e morder o pescoço do loirinho, enquanto uma de suas mãos baixava a roupa íntima de Arthur, que o ajudou apressadamente.

– Ahnn... – o loirinho gemeu baixo ao sentir a mão do garoto em sua ereção. Seus olhos verdes se fecharam e ele sentiu os lábios de Alfred, há segundos atrás em seu pescoço, descendo. Seu corpo arrepiou e estremeceu de leve quando ele sentiu a respiração quente do garoto em seu baixo-ventre.

– Alfred...? — Arthur entreabriu os olhos e encontrou dois olhos muito azuis olhando-o de volta. Alfred umedeceu os lábios e Arthur sentiu-se estremecer. Os lábios do garoto se entreabriram e a língua dele tocou o membro do loirinho.

– Ahn...- gemeu, baixo, a sensação quente e molhada pegando-o de surpresa. A língua contornou a ponta e desceu, até a base. — A-Alfred!

O garoto deu um meio sorriso malicioso, segurando as coxas de Arthur e abrindo-lhe as pernas para ter mais espaço. O loirinho estava com as faces avermelhadas devido ao calor, seu tronco subindo e descendo com a respiração entrecortada, seus olhos verdes implorando para que ele continuasse. Excitado, o garoto entreabriu os lábios, e desceu o rosto em direção aos quadris de Arthur, fazendo o melhor possível para relaxar a garganta e envolver o membro do loirinho.

– Alfred,e-eu... ahnn! – o loirinho jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, um gemido alto se arrastando para fora de sua garganta.

Alfred não estava muito certo quanto ao gosto, mas a textura era interessante. A língua do garoto moveu-se de leve e Arthur gemeu manhosamente, seus dedos tocando a nuca de Alfred de leve, entrelaçando nos cabelos claros. O garoto passou a se mover mais rápido, embora raso, sua língua pressionando a ereção de Arthur com mais força. O loirinho ofegava, estremecendo a cada vez que sentia a língua de Alfred deslizando. – A-Alfred... hnn... n-não... – suas mãos fracamente tentaram afastar o garoto, mas seu corpo não obedecia. – A-Ah! A-Alfred... awnn... e-espera... – as mãos do garoto pressionaram o seu corpo contra a cama e sua ereção afundou um pouco mais na boca de Alfred. Arthur gemeu alto e fechou os olhos, o orgasmo o atingindo com força. O garoto se afastou um pouco e parte derramou sobre os lençóis.

A boca do garoto desencaixou-se devagar e sua língua se arrastou por todo o percurso. Arthur estremeceu, fechando os olhos e desabando na cama, absolutamente sem ar.

Por alguns minutos, nos quais Arthur mal se moveu, o garoto fuçou a mesa de canto e tirou uma camisinha e um frasco de lubrificante. Não era a primeira vez que acabavam no quarto de Scott por acidente, pensou, levemente culpado e divertido. Bem, na verdade o irmão de Arthur não morava mais ali e tinha concordado sobre vender a casa, então estava tudo no lugar. Com um meio sorriso satisfeito, tirou a calça no meio do caminho e jogou-a de lado. Então, voltou para a cama, cobrindo o corpo de Arthur com o seu e depositando um beijo leve sobre o pescoço dele.

O loirinho, ainda de olhos fechados, apenas sentiu os lábios macios do garoto na pele sensível do seu pescoço, em um carinho leve, mas que o deixou arrepiado.

– Eu... também quero. – murmurou Arthur, invertendo as posições e sentando-se sobre o quadril de Alfred. Sentiu a ereção do garoto, ainda por baixo da roupa íntima. Moveu os quadris sobre o membro de Alfred, ouvindo-o murmurar qualquer coisa desconexa.

– Hnn... – ele gemeu de leve e tentou tocar o loirinho, mas Arthur pegou suas mãos e segurou-as contra a cama, apoiando parte de seu peso, de modo que Alfred não conseguisse se mover. — Arthur, seu... – ele ainda tentou um pouco, mas desistiu quando o loirinho voltou a mover os quadris sobre a sua ereção, simulando uma penetração, sem retirar a boxer do garoto. — A-ahn.... – o garoto assistiu Arthur movendo-se, seus lábios avermelhados curvos em um meio sorriso divertido. As mãos do loirinho desceram e ele se afastou um pouco, seus dedos tocando a ereção do garoto, ainda coberta pela roupa íntima. Alfred estremeceu. Estivera se segurando há algum tempo e agora estava excitado demais para durar muito. Sentiu a mão de Arthur massageando-o por sobre o tecido enquanto loirinho se movia mais rápido sobre seu colo. Em alguns minutos, Alfred gemeu baixo e gozou, arruinando uma de suas boxers, mas não se importando nem um pouco.

Puxou Arthur pela mão e beijou-o devagar, quase preguiçosamente. Sentiu-o sorrindo contra seus lábios, fazendo com que Alfred sorrisse de volta. Separaram-se por um momento, ofegando. O garoto desceu os lábios pelo pescoço de Arthur, beijando e mordendo de leve a pele dele, que marcava com certa facilidade. O loirinho mordeu o lóbulo de sua orelha, a respiração quente dele deixando Alfred arrepiado. O garoto desceu a mão, fechando-a sobre o membro de Arthur, sentindo que ele estava um tanto excitado depois de fazer Alfred gozar.

Arthur tateou em volta na cama, até encontrar o frasco com lubrificante.

– Eu ou você? – perguntou o garoto, inclinando-se para morder a nuca do loirinho.

– ... eu. – decidiu Arthur em alguns instantes. Riu um pouco. – Você precisaria... de alguns preparos anteriores... diários. – murmurou, inclinando a cabeça para o lado e deixando o garoto beijar seu pescoço. – mas eu explico depois.

– Certo. – murmurou Alfred, seus lábios movendo-se suavemente contra a garganta do loirinho.

Arthur ouviu o clique familiar do frasco sendo aberto, decidindo por deitar-se, suas costas repousando sobre o colchão macio e os lençóis da cama de solteiro.

Seus olhos encontraram os de Alfred, seus olhos azuis cintilando em quieta euforia, seus cabelos claros bagunçados, o garoto inteiro parecia uma bagunça. Delicioso. Arthur puxou-o para um beijo, sentindo quando a língua dele passou por entre seus lábios, enlaçando a sua. Gemeu baixo, percebendo que Alfred levara uma das mãos mais para baixo. Estremeceu de leve quando reconheceu o toque um tanto escorregadio do lubrificante. Um dedo entrou, ao que Arthur continuou a beijar o garoto, relaxando o melhor que podia.

Alfred mordeu de leve seu lábio inferior, puxando um pouco a carne macia, sua língua contornando e entrelaçando na do loirinho, que sentiu-se arrepiar agradavelmente enquanto Alfred penetrou-o com outro dedo.

– Awnn... – Arthur gemeu de leve com o contato. Era sempre um pouco estranho, mas Alfred estava ficando gradativamente melhor naquilo. Os dedos da outra mão dele estavam tocando a sua ereção, brincando com ela enquanto ele espalhava lubrificante em quantidade atrás, preparando-o. — Isso é bom. – murmurou Arthur, fechando os olhos e aproveitando a sensação. – A-ah! Nnn... Aí... – gemeu o loirinho assim que o garoto inclinou na direção correta os dedos que o penetravam. – Nnn... chega, Alfred... já... hnnn...

Alfred retirou os dedos e sentiu Arthur afastando-o, até que ele estivesse sentado na cama. Então, o loirinho subiu em seu colo, colocando os braços em torno de seu pescoço e roçando os lábios suavemente sobre os do garoto. Alfred inclinou-se um pouco e beijou-o, suas mãos descendo e segurando Arthur pelos quadris, ajeitando-o em seu colo e ajudando-o a descer sobre a sua ereção.

– Hnn... – os lábios do loirinho escaparam do beijo e ele fechou os olhos enquanto sentia a penetração. Foi mais profunda que geralmente era, por causa da posição, de modo que quando sentiu que Alfred o tinha penetrado por completo, Arthur gemeu um tanto mais alto que de costume, sua respiração quebrada e totalmente fora de ritmo. Estava doendo um pouco mais que das outras vezes. Sibilou, fechando os olhos com mais força. Fazia... um pouco de tempo desde a última vez.

– Tudo bem? – ouviu a voz do garoto, um pouco rouca e grave, murmurar.

Assentiu, tentando normalizar a respiração. Sentiu Alfred beijando a curva de seu pescoço, as mãos dele ainda em seus quadris, mas sem movê-lo. Arthur, no entanto, moveu-se de leve, sentindo as mãos do garoto apertá-lo com mais força.

– Hnn... – o loirinho gemeu baixo, erguendo um pouco os quadris e baixando-os, apreciando a sensação.

Por alguns momentos, Alfred assistiu Arthur subindo e descendo sobre a sua ereção, gemendo baixo, os cabelos loiros suados e bagunçados.

– A-ah! – aparentemente Arthur fizera algo muito certo quando baixou os quadris outra vez, seus lábios entreabrindo e um gemido escapando conforme ele fechou os olhos. Alfred apertou seus dedos em torno dos quadris do loirinho, movendo-o em seu colo, penetrando-o com mais força. Em algum momento, que Arthur nunca saberia dizer quando, o ritmo lento e lânguido se tornou rápido, quase desesperado. Seu coração batia com força em seu peito, a excitação subindo e envolvendo-o, embriagando seus sentidos, fazendo-o fechar os olhos e concentrar-se nas sensações difusas dos seus outros sentidos.

Sentia Alfred beijando seu pescoço, os braços dele mantendo-o em seu colo. Arthur entrelaçou os dedos nos cabelos do garoto, aninhando-se contra ele, sua respiração rasa e confusa. Arthur definitivamente gostava daquilo. Transar com Alfred era sempre tão mais do que o seu corpo. Ele sentia o garoto, os sentimentos dele, verdadeiros, violentos e graciosos como a correnteza de um rio. Tão dele, tão perto, e Arthur precisava dele perto, como se estar separados fosse uma mutilação da sua própria natureza.

Alfred passou a morder a pele sensível da nuca do loirinho, que gemeu, excitado. O garoto empurrou-o para trás, fazendo-o deitar na cama. Arthur sentiu o colchão macio em suas costas, então quando o garoto ficou por cima e penetrou-o com mais força.

– A-ah! Alfred- hnn... – Arthur fechou os olhos,o orgasmo atingindo-o pela segunda vez na noite, fazendo-o gemer baixo por entre seus lábios avermelhados, seu cenho levemente franzido.

Então Alfred estava penetrando-o com mais força, rápido, fazendo o loirinho estremecer e gemer baixo. Arthur sentiu as mãos do garoto apertando seus quadris com mais força, então uma mordida e um gemido abafado quando Alfred gozou. O loirinho continuou de olhos fechados, sentindo o corpo em cima do seu relaxar e pousar parte do peso sobre si.

Os dois permaneceram na mesma posição, suas respirações confusas se entrelaçando, perto, muito perto. Arthur respirou fundo, na curva do pescoço do garoto, sentindo o cheiro, a pele levemente febril. Deus, como sentira falta disso. Seus dedos entrelaçaram carinhosamente nos cabelos claros de Alfred, ao que o loirinho sentiu-o sorrindo contra o seu ombro.

Alfred afastou-se um pouco e retirou-se de Arthur, deitando ao seu lado e puxando-o contra si, escolhendo ficar de conchinha. Arthur permaneceu de olhos fechados, deixando Alfred movê-lo na cama.

Sentiu quando o garoto beijou o topo da sua cabeça, os dedos dele entrelaçados nos cabelos finos e claros perto de sua nuca. Um sorriso contente equilibrou-se nos lábios do loirinho, embora seus olhos continuassem fechados, satisfeito demais para se dar ao trabalho de abri-los, aproveitando a sensação agradável do carinho.

Estava com o coração tranquilo. Estranhamente, era isso. Aceitara que sua vida nunca seria perfeita, um reino sem problemas e sem preocupações. Na verdade, as coisas eram difíceis. Mas ele era capaz de muito mais do que imaginava. Se esforçando de verdade... não havia motivos para não fazer as pazes consigo mesmo. Não havia razões para continuar sendo o seu próprio pior inimigo. Em algum momento, Arthur começara a entender o que significava viver em paz consigo mesmo.

Gostaria que Alfred também pudesse se conciliar consigo mesmo.

– Alfred... – murmurou, abrindo os olhos e virando-se para o lado do garoto. Ao ouvir seu nome, Alfred abriu os olhos também.

– Hmm? – murmurou, ajeitando uma mecha de cabelo para trás da orelha de Arthur.

– Você... – respirou fundo. Voltou seus olhos muito verdes para o garoto e olhou-o diretamente. – Como você se sente sobre os seus pais? De verdade. – a última parte era um sinal claro de Arthur queria sinceridade por parte do garoto. Sem que Alfred sentisse necessidade de mentir para parecer uma pessoa mais forte do que ele era.

Os olhos muito azuis do garoto se abaixaram e ele fitou longamente os lençóis. Seu cenho franziu por um momento e ele permaneceu calado.

– Ei... – murmurou Arthur, erguendo o rosto do garoto pelo queixo com apenas um dedo. Mesmo sem colocar força no gesto, Alfred tornou a olhá-lo. Arthur escorregou os dedos até os cabelos do garoto, gentilmente, aproximando-se até sua respiração quase tocar a do outro. – Somos só eu e você aqui. – o sussurro fora baixo, como uma confidência, como se... de fato, não houvesse mais nada além dos dois. Sem roupa alguma, abaixo dos mesmos lençóis, olhando-se nos olhos na penumbra do quarto. Estava anoitecendo lá fora.

Alfred inclinou-se um pouco e beijou Arthur de leve. Afastou-se minimamente, voltando a colar seus lábios aos do loirinho, suavemente, sem língua. Então, deitou a cabeça sobre o ombro de Arthur, evitando olhar em seus olhos.

– Eu... não odeio os meus pais. – murmurou finalmente. De alguma forma, as palavras pareciam sair com dificuldade. Sua voz quebrou um pouco. – É... mágoa. Ressentimento. – seu cenho franziu e seus olhos embaçaram. – um pouco de raiva também. – ergueu o olhar, encontrando a expressão séria, embora comovida de Arthur.

Arthur... não o estava julgando. Seus olhos esverdeados pareciam um pouco marejados e ele parecia imensamente preocupado por sua causa.

Deveria ter conversado com ele sobre isso antes. Deveria... saber que não havia pessoa em quem ele mais pudesse confiar. Arthur poderia dizer um monte de coisas, brigar e ralhar por bobagens, às vezes até dizer coisas que realmente não pensava. Mas Arthur o amava. E, em algum ponto, aprendera a pedir por momentos de sinceridade. Em que nem ele nem Alfred mentiriam. Em que... eles diriam exatamente o que tinham a intenção de dizer.

Com a voz baixa e um pouco fraca, o garoto continuou.

– Eu só... não sei se posso desculpar o que eles me fizeram passar. – e Arthur percebeu o quanto Alfred saíra magoado. Os olhos claros do garoto se fixaram nos seus, e pareciam prestes a se derramar. Alfred desviou o olhar. – Eu tive tanto medo naquela noite. – murmurou, muito baixo. Se sentira uma criança, de repente do lado de fora de casa, diante da rua deserta e escura, sem ter para onde ir, sabendo que ninguém viria buscá-lo. Tinha raiva... pelo medo que os seus pais o fizeram passar. Pelas palavras duras. Pelo tapa que seu pai lhe dera. Por tudo o que disseram sobre Arthur, a quem Alfred amava tão sinceramente.

Mas ao mesmo tempo, amava seus pais. Entendia que eles tinham feito muito na hora da raiva. Sabia que... de certa forma, eles queriam para ele o melhor possível. Lembrava das noites em que estivera doente e sua mãe permanecera ao seu lado o tempo todo. Lembrava dos acampamentos, das viagens de férias, das festas de fim ano. De como eles sempre o apoiaram em seus estudos e no que ele queria fazer no futuro. Em certa medida... Alfred sentia falta. Sentia falta de poder perguntar ao seu pai o que fazer quando tinha dúvidas. Conversar com sua mãe. Mas... era tão difícil.

Talvez a sua tristeza e confusão tenham transparecido em seus olhos, porque Arthur se aproximou gentilmente de si no instante seguinte.

– As coisas passam rápido, Alfred. – murmurou o loirinho, entrelaçando os dedos nos cabelos do garoto, deixando que ele escondesse o rosto em seu ombro. Beijou a têmpora do garoto levemente, aninhando-o contra si. — Mais rápido do que é possível imaginar. – continuou, baixo. — Quando você for ver, o Peter já vai ter crescido, e eu e você vamos ter ficado velhos. – murmurou, afastando-se e olhando nos olhos do garoto. — Vamos ser nós no lugar dos seus pais. É tudo... rápido demais para se guardar mágoa de alguém. – era sempre rápido. Arthur tinha a sensação de que o tempo que tivera com sua mãe passara muito rápido. Como se... ele tivesse desviado sua atenção por um único minuto e ela já tivesse ido embora.

Alfred sentia sua garganta trancada. Nunca... tinha pensado tão longe no futuro.

– Para nós... um ano ou dois ainda é pouco. – de fato, as feições de Arthur ainda eram tão tenras, tão firmes. Sua face ainda era perfeitamente macia e lisa. E mesmo que ele passasse o tempo todo de cenho franzido, sua pele ainda não marcara. Não havia rugas. Sua voz era firme e enérgica. Vinte ou vinte e um, eles ainda eram tão jovens... — Mas para os seus pais...

O garoto não podia deixar de lembrar. Seus pais já passaram dos cinquenta e... pouco a pouco, de alguma forma... eles pareciam mais frágeis. Na correria do dia-a-dia, nunca parara para pensar mas... eles estavam ficando velhos rapidamente.

– Eles vão te deixar, Alfred. Inevitavelmente. – os olhos verdes de Arthur o encararam e a voz do loirinho parecia expressar parte de uma dor que ele ainda não pudera esquecer. Mesmo assim, Arthur continuou, sua voz mais suave, quase um sussurro. — E... você vai sentir falta deles. – pela primeira vez, o loirinho desviou o olhar. — Sempre... parece que fica alguma coisa presa na garganta quando alguém vai embora. Sempre... parece que era possível... ter dito mais alguma coisa.

Sentiu quando Alfred o abraçou contra si, ainda calado. Arthur suspirou e continuou.

– Eu sei que você está com raiva. – disse, sua voz um pouco fraca. — E entendo. Não foi justo o que eles fizeram com você. Além disso... você é maior de idade e consegue viver sem eles. Eu sei disso. – parou e acolheu a face do garoto entre as mãos, olhando-o nos olhos. – Eu te admiro, Alfred e... sei que você é capaz. – murmurou, sua sentença vulnerável, quase frágil, uma verdade que nunca dissera por pensar que Alfred soubesse, mas... agora, viu-se fitado por dois olhos etereamente azuis que refletiam o quão perplexo o garoto estava. Engoliu em seco, tentando destravar sua garganta, que pareceu muito apertada de repente. Murmurou o resto do que pretendia dizer.

– Eu sei que... agora parece fraqueza ir atrás deles. Mas... se você disser ao menos a maioria do que quer dizer, você vai se arrepender menos quando o tempo tiver acabado. – Arthur, naquele momento, pensando bem... percebera que ter razão não era suficiente. As pessoas brigavam por motivos em que acreditavam. Mesmo ele e Alfred. Talvez, Arthur tivesse razão na discussão que tiveram. Mas isso não o impedia de se desculpar também. Se não pelo motivo da briga, que fosse por ter causado sofrimento. Era... importante se reconciliar com as pessoas. Era importante perdoá-las.

Porque um dia, elas também terão ido embora. As palavras parecerão entaladas na garganta e o motivo da discussão parecerá muito distante. Na verdade, nesse dia, em que o tempo tiver acabado, mesmo as palavras já vão ter perdido o sentido.

– Desculpa ter falado com eles sem te avisar. – murmurou Arthur repentinamente. Muito embora quisesse ajudar... não era certo fazer algo assim sem ao menos perguntar a Alfred. E, mesmo se fosse, tinha magoado o garoto. Feito com que ele se lembrasse de coisas ruins. Inevitavelmente, causado sofrimento.

– Desculpa... por ter agido daquele jeito. – murmurou o garoto de volta. Se a sua voz tremeu e parecia um pouco rouca, como se ele estivesse chorando, o loirinho não comentou.

Arthur deu um meio sorriso e se aconchegou melhor, fechando os olhos. Sentiu o garoto abraçá-lo contra si, o perfume dele repentinamente muito presente. Sentira falta daquilo. Muita, muita falta daquilo.

Repentinamente, lembrou-se de algo.

– Alfred, que horas são?

– Ahn... sete? Por que?

Como era de costume àquela hora, e quase como que para enfatizar o que Arthur ia dizer, Peter começou a chorar no quarto ao lado.

– Hora do jantar, eu suponho. – resmungou o loirinho, olhando para cima como se pedisse clemência.

Alfred riu, rolando na cama e apoiando-se em um cotovelo, olhando o loirinho ainda deitado.

– Você vai ou eu vou?

– Eu vou. – decidiu Arthur, levantando e colocando uma camiseta larga jogada no chão. — Você não faz nada direito. – riu, apenas incomodando o outro.

– Faço sim. – sorriu o garoto, aproveitando a distração de Arthur e dando-lhe um tapa estalado em seu traseiro.

– Ah! – o loirinho franziu o cenho e se preparou para contra atacar, mas Peter começou a chorar mais alto, lembrando-o de seus outros compromissos. — Retardado. – resmungou Arthur, quase rindo, e saiu do quarto, correndo para fazer a comida do irmão mais novo.

Alfred virou-se na cama e fechou os olhos. O perfume de Arthur ainda estava nos lençóis. Suspirou. Tinha se acostumado com aquele cheiro. Com aquela cama. Na verdade? Tinha se acostumado àquela vida. Gostava dela.

Claro que... seria ótimo voltar a estudar. Em certa medida, agora, pensando com mais calma... talvez, estivesse... ansioso por isso. Ele poderia conversar com Arthur sobre teorias e experimentos, como eles faziam antes. Ele... saberia coisas que sempre quisera saber. Não mais teria que ficar calado, olhando, enquanto Arthur discutia com algum colega de curso coisas que Alfred não sabia. Poderia encontrar um trabalho que realmente gostasse.

E ainda voltaria para casa e teria pessoas esperando por ele. Não mais era uma escolha entre Arthur e sua faculdade. Ele... podia ter os dois. Poderia fazer o que gostava e ainda manter aquela família. Era... melhor que um sonho.

Em algum ponto, talvez Alfred tenha adormecido. Acordou uma hora e meia depois, com Peter dormindo a sono solto no berço e Arthur voltando ao seu lado da cama.

– Hey, Arthur... – murmurou o garoto, um pouco hesitante, um pouco pensativo, mas firme, soando maravilhosamente como ele mesmo.

– Hm?

– Eu acho que vou... visitá-los. – disse finalmente. Não mencionou nomes, mas ambos sabiam que ele se referia aos seus pais. Era só que... bem, embora Alfred estivesse disposto a enfrentar aquilo, não significava que tivesse conseguido se livrar do ressentimento e da mágoa. Então, não conseguira se fazer chamar aquelas pessoas de pai e mãe como se nada tivesse acontecido, como se eles ainda fossem uma família, como... antes. Mas estava disposto a conversar agora.

– Isso é bom, Alfred. Muito bom. – murmurou o loirinho, e havia um sorriso contido, e, em parte, orgulhoso.

O garoto sorriu de leve.

Alfred abraçou o loirinho, apertado. Sentiu os braços dele se fechando em torno de seu tronco.

No fundo, estava com medo de enfrentar aquilo. Mas... bem no fundo também, sabia que era inevitável. Assim como Arthur tivera de enfrentar suas próprias batalhas, ele também teria. Fugir não era mais uma opção. Eles tinham se tornado adultos.

Porque... e se ele fosse rejeitado de novo?

No dia seguinte, Alfred saiu cedo de casa. Arthur ainda dormia quando ele vestiu uma camiseta azul clara, uma calça jeans escura e um casaco cinza bem aquecido. No entanto, enquanto cruzava o espaço até o portão, ouviu a porta da casa abrir. Virou-se para trás e viu o loirinho apoiado na porta, de braços cruzados e cabelos um tanto bagunçados.

– Você... vai estar em casa? — perguntou Alfred, suas mãos no bolso e um meio sorriso, tentando manter sua voz casual.

Arthur sorriu de leve e assentiu.

Alfred deu um sorriso e se afastou. Era uma pergunta meio tola e infantil, mas... pensar que Arthur estaria esperando que ele voltasse fazia tudo parecer menos assustador.

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Matthew nunca fora particularmente notável em sua vida. Era bom na escola, mas tudo o que fazia as pessoas atribuíam ao seu irmão, uma vez que eles eram parecidos e Alfred sempre fora mais comunicativo. Era bom em culinária, mas nunca fora realmente reconhecido por isso. Ele era bonito, à sua própria maneira, mas nunca fora estupidamente ou obviamente bonito. Tudo isso somado a ser tímido e aos seus hábitos um pouco mais caseiros que a média para a sua idade. Sempre fora... esquecido em muitos aspectos de sua vida. Então, nunca sentira que estava, de alguma maneira, tendo sucesso na vida.

Mas agora, arrumando a última fornada de croissants na vitrine central da famosa e adorável confeitaria em que trabalhava, estava tendo pensamentos diferentes. O cheiro agradável de pães assando e de outros doces permeava o ambiente de forma encantadora. Seu chefe, que monitorava seu estágio naquela cozinha e eventualmente o promovera a funcionário permanente, lançou um olhar de aprovação sobre os croissants que Matthew fizera, registrando o tom muito adequado de dourado da massa e voltando para a cozinha.

O canadense sorriu consigo mesmo e arriscou uma olhada na direção do fundo do salão, rapidamente encontrando Francis tocando alguma sonata suave, seus olhos azuis fechados, aparentemente esquecido de que existia um mundo lá fora, além de seus acordes e arpejos. Tinham conversado e resolvido seus mal-entendidos, e agora Matt se encontrava em um relacionamento firme, com alguém que o fazia profundamente feliz. Matthew permitiu-se um suspiro tolo e mais meio minuto de observação antes de voltar para a cozinha para cobrir o resto de seu turno.

Era final de tarde quando os dois saíram da confeitaria. As ruas estavam ocupadas e barulhentas, várias pessoas passando, com pressa para voltar para casa. Matthew acompanhou-o, de mãos dadas até a sua casa. Foram meros minutos, mas uma absoluta tortura para os seus sentidos. Os carros, e a fumaça e as pessoas falando em sua volta...

Eventualmente, fechou a porta de casa atrás de si e Matthew murmurou algo sobre uma coisa que precisava pegar no segundo andar, saindo e deixando-o na sala sozinho.

O francês relaxou visivelmente, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Ele respirou fundo e permitiu que o silêncio o confortasse. Sem dissonâncias, sem perturbações, apenas... o nada. O silêncio tornava a escuridão que se estendia a sua frente interminável. Os minutos se passaram, e passaram, mas não parecia fazer diferença naquele escuro.

Então.. ele teve a impressão familiar de que estava imerso em um abismo muito profundo. Sem saída e sem perspectivas. Lembrava-se de como era o silêncio na sua casa. Vivera nele por anos. Aquela... escuridão. Muito embora estivesse acostumado a ela, algumas vezes, sentia aquele pânico, aquela ansiedade, aquele medo irracional. Era como estar caindo, permanentemente, cada vez mais fundo.

– Francis? – um acorde delicado e baixo o chamou e ele se sentiu puxado de volta à realidade.

– Me dê a mão. – disse ele, com o sorriso charmoso de costume, como se brincasse, como se não se importasse Mas seus dedos tremiam levemente. No fundo, pedira porque... tinha medo de que se não o segurasse, Matthew sairia do seu alcance. Como se... fosse perdê-lo entre aquela escuridão muito funda.

No entanto, uma mão um pouco menor encaixou-se na sua em silencio e... ele sentiu que era estranho. Era como se a escuridão não fosse mais uma realidade, mas... uma venda, uma tira de tecido escuro. Como se ele fosse mais forte que ela.

– Você está chorando? – sussurrou a voz de Matthew.

Francis meramente apertou a mão do canadense na sua com um pouco mais de força. Sentia-se estupidamente feliz e nem ele mesmo entendia direito o motivo.

Como é que mesmo que os olhos não vissem o coração podia sentir?

– Eu... pensei num presente. – murmurou Matthew, carinhosamente afastando as lágrimas e apertando com um pouco mais de força a mão do outro na sua.

– Pro natal? – perguntou Francis casualmente.

– Não, o de natal vai ser um pouco mais difícil, então você vai ter que esperar. – Francis imaginava o sorriso tímido nos lábios de Matthew enquanto ele falava. Seus dedos alcançaram os lábios do canadense por um instante, sentindo o sorriso contido que se sustentava nos lábios macios de Matt. O gesto durou alguns segundos, nos quais o sorriso não desapareceu. Matthew entendia. Algumas vezes, o francês apressadamente tocaria o seu rosto, geralmente quando sentia uma necessidade muito grande de saber ao menos um pouco sobre... as expressões de Matthew. Ele parecia particularmente feliz em sentir, na ponta de seus dedos, como era a felicidade sobre as feições de Matt quando ele sorria.

– Então o que é?

Ouviu algo que parecia ser plástico se movendo nas mãos de Matthew. Pareciam.. vários plásticos? Talvez... embalagens individuais de alguma coisa.

– Eu lembro que você me disse que gostava muito de olhar a sorte no amor das pessoas, mas que nunca mais pôde fazer isso depois de... – hesitou por um momento, até desistir da palavra. – enfim, depois. Eu fiquei pensando... e pensei em muitas coisas, até que me decidi nisso. – deslizou uma carta longa de tarot para fora de um dos finos invólucros de plástico.

O francês sentiu um perfume agradável, firme, mas refrescante, um tanto misterioso e não exatamente doce.

– Eu comprei 22 frascos de perfumes diferentes e cada um corresponde a uma das cartas. Eu vou precisar te dizer qual é qual no começo, mas depois eu tenho certeza que você vai poder fazer isso sozinho. – e havia certa empolgação na voz de Matthew em contar seu presente, tão delicado, que demonstrava toda a sua dedicação. Poderia simplesmente ter mandado escrever em braile nas cartas, mas não. Juntara a adoração que o francês tinha por perfumes e passara semanas procurando fragrâncias que lembrassem o significado das cartas, para facilitar a memorização.

Foi recompensando com um beijo um tanto eufórico do outro, que ainda segurava a carta em suas mãos, mas não deu atenção a ela naquela noite.

AS CARTAS — Arcano 20

O JULGAMENTO

SIGNIFICADO DIVINATÓRIO

Esta carta sugere reparação. julgamento. A necessidade de se arrepender e de perdoar. O momento de prestar contas pela forma como usamos as nossas oportunidades. A possibilidade de que a conduta presente, em relação a outras pessoas, seja injusta e sem bondade. Rejuvenescimento. Renascimento. Progresso. Desenvolvimento. Proteção. O desejo de imortalidade. Existe a possibilidade de que alguém esteja se aproveitando de você, e no futuro essa pessoa se arrependerá. O resultado de uma ação judicial ou de conflitos pessoais. Devemos analisar cuidadosamente as ações presentes, uma vez que elas afetam outras pessoas. O sucesso virá mais facilmente se você for honesto consigo mesmo.

Notas finais
Bem, pois é.. A música do capítulo é zombie, de Cramberries. A voz da cantora é muito impressionante, recomendo muito que deem uma tentada xD - Bem, as coisas estão começando a se resolver e estamos rumando para o fim da história... Sinto até uma coisa aqui no peito xD - Por último, não menos importante, um super beijo e minha sincera gratidão a: Luby Blue, ThegleameyesGin , Yuki Kirkland, Bia Miyazaki, tiia, shin no tamashi, catherine kirkland, Izzy Takashima, invisibleJu, Asami Phantomhive ( bem vindaa!! Muito obrigada mesmo por ter acompanhado tuudo desde o começo, você é fantástica) e Alice Neko Kirkland! ( eeee o/ uma linda e maravilhosa leitora que não é mais fantasminha =) Seja bem vinda tbm xD) Responderei os reviews o mais rapidamente possível, sinto muito mesmo por ter demorado tanto. Dei prioridade a postar o capítulo logo ( como podem ver, são cinco da manhã e ainda não fui dormir, dando a última revisada e postando aqui xD) Mas ja ja responderei tudinho. Sinto muito pela demora, saibam que vocês sao minha esperança e inspiração quando escrevo x) - Enfim pessoas, obrigada mesmo mesmo, pela paciência. E sinceros agradecimentos a quem ainda está por aqui apesar da autora ser meio baka e enrolada x) Mil beijos