Boulevard Of Broken Dreams

39 Capítulo 39 - O Sol


Notas iniciais
Gente, pessoas lindas que eu adoro de todo o coração, voltei. Peço mil perdões por ter entrado em hiato, e deixado vocês, não tenho palavras para me desculpar. Estive ausente por problemas de saúde mesmo, passei por uns momentos complicados e.. enfim, crises de ansiedade, seguidas de crises alérgicas e complicações.. enfim, as coisas deram errado em vários sentidos, e eu não conseguia escrever. Não sei, eu não sentia que tinha algo de bom para passar e.. enfim, foi difícil. Mas eu estou superando :)) Uma das razões era que eu pensava que precisava colocar minha cabeça e minha vida no lugar para conseguir ordenar meus sentimentos e finalmente escrever. Eu lembrava do apoio de vocês e continuava a persistir xD Apaguei várias vezes o capitulo, fui e voltei, reli a história, e, finalmente, terminei esse capítulo! Esse é o penúltimo capítulo dessa história, e eu agradeço a cada um de vocês que leu e que deu uma chance a essa história com a pior sinopse possivel (a autora é incapaz de sinopses). De todo o coração, um beijo para todo mundo que leu até agora, mesmo que a essa altura tenha desistido, eu vou entender e agradeço mesmo assim. Fiquei muito emocionada quando loguei hoje, pela primeira vez em meses, e vi uma recomendação da Guardian. Obrigada mesmo, mesmo, espero que eu não decepcione você ou as demais pessoas lindas que ainda estão por aqui. Agora, ao capítulo :)

Em algum ponto, talvez Alfred tenha adormecido. Acordou uma hora e meia depois, com Peter dormindo a sono solto no berço e Arthur voltando ao seu lado da cama.

– Hey, Arthur... – murmurou o garoto, um pouco hesitante, um pouco pensativo, mas firme, soando maravilhosamente como ele mesmo.

– Hm?

– Eu acho que vou... visitá-los. – disse finalmente. Não mencionou nomes, mas ambos sabiam que ele se referia aos seus pais. Era só que... bem, embora Alfred estivesse disposto a enfrentar aquilo, não significava que tivesse conseguido se livrar do ressentimento e da mágoa. Então, não conseguira se fazer chamar aquelas pessoas de pai e mãe como se nada tivesse acontecido, como se eles ainda fossem uma família, como... antes. Mas estava disposto a conversar agora.

– Isso é bom, Alfred. Muito bom. – murmurou o loirinho, e havia um sorriso contido, e, em parte, orgulhoso.

O garoto sorriu de leve.

Alfred abraçou o loirinho, apertado. Sentiu os braços dele se fechando em torno de seu tronco.

No fundo, estava com medo de enfrentar aquilo. Mas... bem no fundo também, sabia que era inevitável. Assim como Arthur tivera de enfrentar suas próprias batalhas, ele também teria. Fugir não era mais uma opção. Eles tinham se tornado adultos.

Porque... e se ele fosse rejeitado de novo?

Virou-se para trás e viu o loirinho apoiado na porta, de braços cruzados e cabelos um tanto bagunçados.

– Você... vai estar em casa?

Arthur sorriu de leve e assentiu.

Alfred deu um meio sorriso e se afastou. Era uma pergunta meio tola e infantil, mas... pensar que Arthur estaria esperando que ele voltasse fazia tudo parecer menos assustador.

A parte assustadora foi refazer o caminho de casa. Foi estranho fazer o mesmo caminho que fazia na volta do colégio, passar pelos mesmos lugares e... perceber que era infinitamente diferente da pessoa que costumava andar por aquelas ruas. Era assustador o quanto o tempo o tinha mudado, e a distância que sentiu entre o dia de hoje e alguns meses para trás. Foi estranho fazer o caminho contrário que fizera na noite em que fora expulso de casa. Percorreu o caminho lentamente, olhando bem as casas e construções, o cenário matutino. Ele se lembrava de feito aquele percurso de noite, e de ter chorado durante o caminho, e de como a rua estreita estava fria e escura. Lembrava de quando percebera que nunca iria para a faculdade e de como de repente, pessoas que eram tudo em sua vida lhe deram as costas.

Era estranho chegar ao outro lado do mistério. Era estranho saber o que acontecia depois do game over. Lembrava de como se sentira quando decidira contar para os pais sobre Arthur, de como tivera medo de ser rejeitado e de que... enfim, de que acontecesse exatamente aquilo que tinha acontecido. Mas agora... era estranho estar do outro lado dos próprios medos.

Passou pelo portão, destrancado. Respirou fundo diante da porta. Ele era infinitamente diferente do menino que saíra por aquela porta. Ele era... melhor. Se orgulhava do que tinha feito desde que saíra de casa. Não deixara Arthur quando ele mais precisara, e os dois enfrentaram juntos tanta coisa, tantos dias difíceis, tantas discussões e problemas financeiros. Peter crescia bem sob os cuidados dos dois, que se alternavam nas tarefas, brincavam com ele. E à noite, antes de dormir, os dois se revezavam para ensinar Peter a andar, equilibrando-o de pé sobre o colchão macio da cama e segurando-lhe as mãos. Sorriu ao lembrar das risadas de bebê, que, de algum jeito, se tornaram parte do seu dia-a-dia. Lembrou-se de como os olhos muito azuis do seu bebê faiscavam e cintilavam quando conseguia ficar em pé alguns segundos, caindo sentado na cama depois, rindo e rindo.

Subitamente, não se sentia mais tão nervoso, ou com medo. Uma tranquilidade austera e estranha tomou conta de seu peito. Hoje, ele poderia dizer coisas que ele tivera medo, poderia admitir verdades que escondera. Porque hoje ele conseguiria. Hoje, ele sabia que tinha um lugar para voltar, mesmo que tudo desse errado. E se havia algo que dava coragem aos homens era aquele sentimento particular de ser amado, querido, de pertencer a algum lugar.

Tocou a campainha.

Seu pai apareceu à porta alguns momentos depois. Os cabelos claros dele já rareavam um pouco e ele parecia cansado. O tempo pareceu parar no segundo em que os olhos dele se fixaram nos seus, e havia tantos sentimentos conflituosos, que, por um minuto inteiro, os dois se encararam e nenhum dos dois disse nada. Alfred colocou as mãos no bolso do casaco, não o de seu pai, que jazia dobrado em uma gaveta de seu armário, mas um que Arthur lhe dera, bege claro.

– Quem está aí?

A voz de sua mãe soou de dentro da casa, sobressaltando os dois. Poucos instantes depois, com a falta de uma resposta, ela apareceu à porta.

O silêncio se estendeu por longos minutos. Sua mãe olhou-o de cima a baixo, e, estranhamente... ela parecia... aliviada que ele estivesse ali? Alfred franziu o cenho, absolutamente perdido. No entanto, quando seus olhos claros encontraram os de sua mãe, ela desviou o olhar, parecendo... envergonhada? Incerta? Não sabia dizer.

– Melhor entrarmos. – disse seu pai finalmente, dando espaço para que o garoto passasse.

Alfred respirou fundo e os seguiu.

– Você pode deixar o casaco aqui. – murmurou seu pai, apontando para o cabideiro próximo à porta, sentindo-se incrivelmente estranho e desconfortável em apresentar as coisas da casa a Alfred como se ele fosse um estranho. – Nós só precisamos avisar no trabalho que não vamos hoje, pode esperar na sala. – disse, se retirando, seguido da esposa.

Alfred tirou o casaco e pendurou-o, percorrendo o caminho familiar até a sala. Sentou-se no sofá. Respirou fundo. Entrar naquela casa de novo estava lhe custando cada centímetro do seu controle emocional. Todas as lembranças que tentara evitar pareciam rodeá-lo, pareciam... rondá-lo.

Conseguia ver a mesa de jantar.

Alfred nunca nem se lembraria do que comeu no jantar daquela noite. Estava tão apreensivo que nem sentiu o gosto da comida, seja ela qual fosse. A televisão estava ligada, e foi ela que encobriu o não usual silêncio do garoto. A sobremesa de chocolate poderia ter sido feita de cimento que Alfred nem perceberia a diferença.

Os pratos foram lavados e os três sentaram-se na sala para continuar a assistir o noticiário, seu pai e sua mãe em um sofá, e o garoto no outro. Alfred esperou até o comercial e respirou fundo.

– Ahn... pai? Mãe? – chamou, e sua voz tremia um pouco. Ele alcançou o controle e colocou a televisão no mudo. Então, colocou as mãos dentro do bolso, de modo que elas não tremessem também. – Queria falar uma coisa...

– Diga, filho. – respondeu o seu pai, que, assim como sua mãe, virou para olhá-lo. Eles pareceram confusos com a repentina seriedade do filho.

– Hm... Eu estou namorando. – começou, o coração batendo furiosamente contra sua garganta.

– Que maravilha, meu filho! – sorriu sua mãe, batendo palminhas.

– Como é o nome dela? – perguntou seu pai, abrindo um sorriso raro, igualmente orgulhoso.

Aí estava. A pergunta que ele estava esperando. Alfred respirou fundo e soltou o ar.

– ... Arthur.

A sala mergulhou no mais absoluto silêncio. As imagens continuaram a passar na televisão, mas o tempo parecia ter congelado na sala de estar.

– Como? – foi tudo o que seu pai pôde dizer.

– O nome do meu namorado é Arthur. – disse Alfred, com todas as letras, devagar.

– Alfred, isso não tem graça.

– Eu estou falando sério. – disse Alfred, fitando ambos seriamente. Ele não estava sorrindo e realmente não havia tom de brincadeira em sua voz. Pai e filho se encararam em silêncio. E foi a mãe de Alfred que se pronunciou primeiro, ainda que trêmula.

– A-Alfred! – e ela se levantou do sofá, olhando-o escandalizada. — Como você pôde fazer isso comigo?! E-eu... Eu não acredito! – desabafou finalmente, desviando o olhar.

– Mãe, calma. Olha, é sério, o Arthur é uma pessoa ótima, quando você conhecê-lo... – começou o garoto, tentando alcançar a mão dela.

– Eu não quero conhecer nem morta o maldito menino que te deixou assim. – as palavras duras detiveram a mão do garoto, que tentara alcançar a mãe. — Provavelmente só um deliquentezinho pervertido querendo uma aventura.

– Não fala assim do Arthur! – respondeu o garoto, sentindo o sangue subir-lhe à cabeça, também erguendo-se do sofá.

– Ele é doente! – gritou ela de volta.

– Você nem o conhece! – argumentou o garoto, desesperado. Quer dizer, ele merecia uma chance de se explicar antes de ser condenado não?

– Você não responda a sua mãe. – a voz do pai de Alfred soou com autoridade pela sala e todos se calaram.

– Alfred?

O garoto se sobressaltou com a voz do pai. Percebeu que seus pais já estavam sentados no sofá à sua frente. Sua mãe apertava um papelzinho na mão com força, mas permaneceu em silêncio absoluto. Havia tanto que ambos os lados precisavam dizer que, por um momento, ninguém disse nada.

– Eu não me arrependo. Mesmo. – disse finalmente a voz do garoto, suave e firme, constatando uma verdade que ele lutara muito para alcançar. Fitou o casal a sua frente, sem raiva, sem nervosismo. Ao menos naquilo, Alfred tinha certeza. – Eu não me arrependo, então, não vou me desculpar.

Sua mãe mordeu o lábio, nervosa e apreensiva. Não queria que Alfred se irritasse e não voltasse mais, no entanto, ainda tinha coisas a dizer, ainda... ainda não. Tomou coragem e voltou a falar.

– Filho... – começou ela, mas parou imediatamente assim que percebeu o garoto ficar tenso ao ser chamado assim. Os dedos dele estavam firmemente entrelaçados e seus lábios se comprimiram em uma linha fina. – Alfred. – corrigiu ela, lutando contra o nó que se formou na garganta.

Ele notou a maneira como os olhos claros dela, tão iguais aos seus próprios, marejaram. Frustrado, o garoto correu os dedos pelos próprios cabelos, fitando o chão.

– Eu... – respirou fundo. – Eu não quero dizer que... – suspirou, frustrado. – Eu preciso de um tempo.

– Fi- Alfred.

– Eu juro que não... – o restante do que ia dizer permaneceu apenas suspenso. Ele suspirou. — eu só preciso pensar mesmo.

– Eu... entendo.

A sala mergulhou em um silêncio denso e difícil. Por um momento, Alfred se lembrou dos dias felizes que viveu ao lado daquelas pessoas. Antes, quando o amor era simples, e ele tinha certeza de que aquelas pessoas o adoravam acima de tudo, amavam a ele realmente como um filho ansiava ser amado pelos pais. Antes, quando havia muito menos responsabilidades e muito mais beijos de boa noite. Parecia distante, como se aquilo tivesse acontecido em outra realidade, com outras pessoas, ou em um sonho.

– Vocês... tem um filho, pelo que sua mãe contou. – Alfred foi tirado dos próprios pensamentos pelas palavras do pai, surpreendido. Não imaginara que sua mãe tivesse contado.

– Não... – respondeu finalmente. — É irmão do Arthur. Não é meu filho, nem dele, de verdade. – murmurou o garoto, odiando as palavras. Amava tanto aquela criança. Era... injusto e doloroso ter que dizer que era apenas irmão de Arthur, quando Alfred sentia-se tão responsável por ele.

– Mas é como se fosse.

O garoto levantou a cabeça rapidamente, fitando o pai, incrédulo. Esperava ouvir muitas coisas naquele dia, mas aquela era a última das últimas coisas que imaginara. Diante do seu espanto evidente, seu pai deu de ombros.

– Quando eu casei com a sua mãe, ela já tinha o Matt. – disse ele.

Alfred se esquecia frequentemente de que Matthew era seu irmão apenas por parte de mãe. E, repentinamente, percebeu que era essa a intenção. Quando seu pai dizia para alguém que tinha dois filhos, Alfred nunca pensara realmente sobre isso, mas... Seu pai realmente considerava Matthew seu filho. Criara os dois da mesma forma, dava presentes de Natal para ambos na mesma medida e até mesmo permitira que a esposa espantasse os dois daquela casa da mesma maneira. Em todas as redenções e faltas, criara os dois como filhos.

Então, se havia alguma coisa sobre Alfred que aquele homem podia entender, era que família era bem mais ou bem menos do que laços de sangue. Era que Peter não era seu filho, mas...

– Mas é como se fosse. – disse Alfred finalmente.

Seu pai deu um meio sorriso e seus olhos encheram com algo que parecia quase como compreensão, quase como... se ele tivesse orgulho de Alfred. O garoto sentiu lágrimas ameaçando transbordar, e deu um sorriso um tanto tímido, mas muito sincero. Seu pai talvez nunca fosse entender que seu filho tivesse escolhido namorar um outro garoto, mas... talvez ele pudesse continuar sendo seu pai mesmo assim. Talvez ele pudesse, mesmo não entendendo, ter orgulho de quem o filho era.

– Ele é adorável.

Alfred levantou a cabeça, arrancado de seus pensamentos pela voz de sua mãe.

– O menino. Seu... filho. – disse ela finalmente. Hesitara. Queria se reaproximar, mas não sabia como, não depois de tudo o que acontecera, não depois de tudo o que dissera. Não mentiria que agora entendia Alfred. Não entendia. Mas não suportava de saudades do filho que criara, tão crescido agora, mas que ainda era aquele menininho de olhos alarmantemente azuis, com um sorriso enorme e um coração maior ainda, que um dia chorara em seu colo por medo de monstros embaixo da cama.

– Você tem uma foto? – disse o pai, um tanto hesitante e temeroso. Ele tinha medo de ser excluído da vida da única criança na família em tantos anos. Medo de ser excluído da vida do filho. Medo de nunca mais rever nem ele nem Matthew. Medo de morrer sozinho. Medo de viver sozinho.

Alfred tirou o celular do bolso e achou uma foto de Peter, passando o aparelho para o pai.

Peter não tinha muito mais que dois meses, e era um embrulhinho de cobertores azul-claros no colo de Alfred, que tinha um sorriso estupidamente radiante em seus lábios, parecendo, de algum jeito, muitos anos mais novo do que nos últimos meses. Parecia fazer muito tempo, mas não fazia nem um ano. Lembrava-se de quando tirara aquela foto.

–Deus... vocês são tão parecidos! – dissera a mãe de Arthur ao passar a criança para os seus braços. — Arthur! Arthur! Tire uma foto dos dois!

– Mãe...! – Alfred podia quase ouvir a exasperação na voz de Arthur. Em suas memórias, ele soava bem mais novo, embora não tivesse sido há muito mais do que alguns meses atrás.

– Agora de nós três!

Lembrava de quando Arthur olhara para os céus pedindo misericórdia, mas sorrira, achando tudo aquilo um tanto engraçado. Lembrava também que, no momento seguinte, o loirinho acionara o timer da câmera e a deixou sobre a mesa, correndo e se juntando à foto. Arthur pousara a mão sobre seu ombro direito, e Elizabeth colocara a mão sobre seu ombro esquerdo, o bebê em seu colo observando a movimentação curiosamente. Ainda podia lembrar de Arthur, despreocupado, sorrindo na cozinha de sua mãe. Sua mãe, ainda viva, ainda ao lado dos dois.

O garoto engoliu em seco, lutando contra um nó que se formara em sua garganta. Seu pai também parecia com os olhos um pouco marejados, mas Alfred não comentou nada.

Poucos minutos depois, ele anunciou que precisava voltar para casa, sentindo que seu limite emocional ia mais ou menos até ali. Seus pais o acompanharam até a porta, e os três pararam à soleira, incertos do que dizer ou o que fazer.

Surpreendentemente, a mãe de Alfred foi a primeira a agir. Ela abriu a mão e revelou uma folha de caderno dobrada em um retângulo pequeno, e que fora apertada entre seus dedos durante toda a conversação devido ao nervosismo. Um tanto incerta, ela desdobrou o papel e o estendeu ao garoto.

– A-a receita da torta de maçã que você mais gosta. Pro Natal. – completou ela, mordendo o lábio, incerta.

Alfred não soube o que fazer, e, por um momento, encarou o papel sem entender. A senhora foi parecendo cada vez mais desconfortável conforme o silêncio se estendia, mas não retirou a oferta. Sabia que não tinha como Alfred aceitar vir para casa no Natal, mas... ao menos um pouquinho, talvez, ela quisesse que ele levasse um pouco de casa.

Não era o fim da guerra, mas era uma trégua. Era um acordo de paz, era um armistício, era um interlúdio entre batalhas. Não era vitória, não era reconhecimento. Mas era recuperação, reestabelecimento, aceitação, talvez resignada e restrita, mas alguma forma de aceitação. Era a possibilidade de que os três voltassem a se encontrar, e que recuperassem ao menos um pouco do relacionamento que tinham. E porque Alfred se tornara um adulto, porque ele sabia que podia ser tão pior, ele apreciaria as pequenas melhoras que viessem.

Então, o garoto finalmente tomou o papel, com um meio sorriso nervoso e um tanto aliviado, embora surpreso. Deu um sorriso educado e acenou com a cabeça. Virou-se para ir embora, chegando até o portão e abrindo-o, mas seu pai o deteve.

– Alfred! – chamou, ainda parado à porta.

O garoto virou-se, parado à frente do portão. Viu quando seus pais se deram as mãos, apertado.

– Eu queria dizer que sinto muito. De verdade. Eu me envergonho de ter levantado a mão contra você e da maneira como eu perdi o controle. Você... não merecia. – a voz dele talvez tenha tremido um pouco, mas Alfred não saberia dizer, porque seus olhos subitamente encheram de lágrimas. Seu pai continuou. – Eu e sua mãe... nós... – respirou fundo. – eu não vou mentir para você, filho, eu não posso dizer que entendo você, nem que... mas... – o nó na garganta do senhor pareceu muito, então sua esposa, também à beira das lágrimas, completou. – mas nós não queríamos que as coisas tivessem acontecido assim. Nós te amamos e... sentimos muito.

Alfred encarou-os por algo que pareceu uma eternidade. Não... esperava por aquilo. Mas agora, ouvindo aquelas palavras, percebeu quão triste estivera e o quanto a rejeição daquelas pessoas o magoara. Segurou firme, com cada milímetro do orgulho que tinha, com cada pedaço de controle emocional que ainda tinha, e se impediu de chorar.

Saiu sem olhar para trás e correu, refez o caminho de casa, e era estranho como o lugar que dividia agora com Arthur era mais a sua casa do que a casa dos próprios pais, com quem morara uma vida toda. Quando abriu a porta, encontrou o loirinho sentado no sofá, usando um casaco de moletom azul claro de Alfred, que ficava um tanto largo em si, mas que era quentinho e confortável. Ele ergueu os olhos assim que o garoto entrou.

– Alfred, como foi? – perguntou ele, colocando o artigo que lia em cima da mesa de centro.

O garoto não respondeu. Fechou a porta e marchou decididamente até o sofá e sentou-se ao lado de Arthur. Alfred respirou fundo uma vez, duas, e olhou no fundo dos olhos verdes de Arthur.

– Alfred? – perguntou o loirinho, inclinando a cabeça para o lado, confuso.- Alfred! — Assistiu uma lágrima quente desceu por uma das faces do outro, então uma segunda e uma terceira, e ele não pôde mais contar. O garoto encostou a testa em seu ombro e Arthur sentiu as lágrimas dele caindo delicadamente sobre o tecido claro. Em poucos segundos, ele chorava de soluçar no colo de Arthur, desabando na frente da pessoa que mais confiava nesse mundo.

– Shh... – sussurrou o loirinho, abraçando o garoto. Cuidadosamente, rearranjou os dois de modo que Alfred estivesse deitado sobre si, o rosto dele escondido na curva de seu pescoço, e os braços dele em torno da sua cintura, abraçando-o apertado. Os ombros do garoto tremiam, e ele chorou no colo de Arthur por longos minutos. O loirinho passou a fazer carinho nos cabelos macios do garoto, depositando um beijo suave sobre a têmpora dele. Então, abraçou-o contra si o tempo que foi necessário para que ele tivesse colocado para fora a angústia e a mágoa que tinham pesado em seu coração todos aqueles meses. Abraçou-o como se Alfred fosse absolutamente necessário, apertado, apertado como o seu coração ficava ao ouvir o garoto chorar, apertado como se pudesse consertar Alfred, como se pudesse curar todas as mágoas dele com simples amor e cuidado. Não apressou-o, nem pressionou por respostas, apenas esteve ao lado dele, beijando-o e sussurrando palavras macias, sentimentos bonitos, segredos entre só os dois.

Sentiu quando o garoto suspirou e relaxou no seu abraço. Ele continuou com o rosto em seu ombro, no entanto.

– Como você se sente? – murmurou o loirinho, afastando-se um pouco e afastando as lágrimas do rosto do outro. Alfred respirou fundo e se sentiu... livre.

– Bem. – disse finalmente. — Surpreendentemente, bem. – concluiu o garoto, surpreso com as próprias palavras. Em tudo, estava tudo... ok. E, depois do que tinha dito,depois do que... seus pais lhe disseram. Era como tirar o mundo das costas. O garoto deu de ombros e sorriu, voltando a descansar a cabeça sobre o ombro dele. Ainda estava um pouco chateado com o fato de que seus pais tinham preconceitos tão sólidos, e de como eles não entendiam. Mas... a conversa fora bem melhor que imaginara, e, com o tempo, era possível que as coisas melhorassem. O pedido de desculpas que recebera não apagava as palavras cruéis e não refazia o passado. Alfred sempre lembraria que levara um tapa do pai e de que sua mãe insultara a ele e a Arthur imensamente. Mas sentia que agora, conseguia conviver com a lembrança, deixá-la lá, na caixinha das lembranças, sem mais remoer, sem mais odiar ninguém por isso. Sentia o coração leve, como se pesasse menos que um raio de sol, e seguir adiante nunca pareceu tão simples.

– Fico feliz que tenha dado certo. – murmurou Arthur, correndo os dedos por entre os fios do cabelo do garoto. Verdade fosse dita, ele não conseguira entender uma linha do artigo que estava lendo, a cada dois segundos desviando o olhar e se perguntando o que estava acontecendo com Alfred. Preocupava-se tanto com ele. Amava-o tanto.

O garoto fechou os olhos. Estava feliz por ter ido. Não tinha percebido como aquele assunto o preocupava e como ele realmente gostaria de melhorar as coisas. Tinha sido uma espécie de peso constante sobre seus ombros, que ele tinha ignorado, mas que nunca deixara de perturbá-lo. Não apenas parecia que o peso sumira, mas... havia um sentimento agradável restante da conversa. Como se ele tivesse dado um grande passo, enfrentado algo grande e... saído inteiro do outro lado.

– Meus pais acham o Peter adorável. – dividiu com Arthur, porque sentia-se pronto para falar sobre essa parte da conversa. Eventualmente, talvez, pensava em levar o menino em uma visita. Não naquele dia ou naquela semana, talvez nem no ano que vem, mas, eventualmente, pretendia.

Arthur sorriu e beijou a têmpora do garoto, que continuava no seu colo e sem grandes pretensões de se mover.

O cantinho dos lábios do garoto ergueu-se leve em um meio sorriso. Estava cansado, fora difícil, mas... ia ficar tudo bem. Sua relação com os pais ainda estava frágil e sensível, mas existente outra vez. Por mais que ele dissesse que não se importava com o que ninguém pensava ou dizia, no fundo, bem no fundo, admitia que... não queria fugir do problema, continuar com aquele sentimento de que algo faltava, de que precisava fazer alguma coisa. Admitia também que não queria que nunca mais conseguisse falar com os próprios pais. Queria aquele pedido de desculpas. Em alguma medida... precisava dele.

E Arthur sabia.

Alfred abraçou-o pela cintura, seu sorriso um tanto mais largo se escondendo contra o ombro do loirinho. Arthur o completava de maneiras que ele nunca poderia imaginar. Lacunas que ele nem tinha percebido que existiam.

Em um impulso, o garoto se levantou e ergueu o loirinho no colo, que deu um pouco dignificado gritinho de susto e depois passou a dar murros no braço do garoto, absolutamente embaraçado. Alfred beijou-lhe as bochechas e riu, e o peso constante em seu peito parecia ter sumido. Arthur talvez tenha percebido o alívio nos olhos claros do garoto, porque seu próximo soco foi leve demais para ser uma punição, e seus lábios traíam seu cenho franzido, curvando-se em um meio sorriso.

Definitivamente, tudo ia ficar bem.

E, porque se era verdade que nenhum esforço era em vão, todas as horas de estudo de Arthur e todo o esforço que ele colocava em estudar, mesmo que fosse com Peter babando sobre as suas anotações, vieram a recompensá-lo.

Alfred estava requentando o espaguete do almoço para o jantar em uma frigideira na cozinha quando a porta da frente abriu. O garoto desligou o fogo e inclinou-se o suficiente para conseguir ver a sala sem sair da cozinha.

Arthur estava parado em frente à porta, seus cabelos pingando da chuva que o surpreendera no meio do caminho, mas ele parecia absolutamente, estupidamente e completamente eufórico.

– Eu consegui.

Foi tudo que Arthur disse, assim que abriu a porta de casa e encontrou o garoto. Havia um sorriso sincero em suas feições.

– Deu certo... eu consegui. Eu vou poder ajudar numa pesquisa. Remunerado. — Os olhos esverdeados de Arthur cintilavam e ele parecia quase emocionado. Não era muito. Mas... era tão especial ser retribuído pelo esforço. Seu sorriso não era largo. Parecia quase frágil, como se, no fundo, ele ainda tivesse um pouco de medo de ter a felicidade roubada de um momento para o outro. Seus lábios desenharam um sorriso modesto, mas absolutamente sincero. Mesmo seu tom não fora eufórico ou alto. Ele dissera baixo, quase como se não pudesse acreditar. Quase como se fosse um segredo só dele e de Alfred. O garoto percorreu a sala e o abraçou apertado, ouvindo-o rir baixo.

Alfred beijou a bochecha de Arthur, sentindo o cabelo dele molhando parte de sua camiseta e pouco se importando. Diante da afeição do garoto, por se sentir capaz, pela felicidade de inspirar orgulho em alguém querido, Arthur sorriu de verdade. Não seus usuais meio-sorrisos, mas um sorriso que acendia seus olhos verdes, que o fazia parecer realmente novo como ele era.

Houve um meio gritinho vindo da cozinha, ao que Arthur se afastou do garoto e correu até o seu bebê.

– E você, amor? – perguntou ele, erguendo a criança da cadeirinha alta e esfregando seu nariz no narizinho do bebê. – Hmm? Seu pai acaba de arrumar um emprego! – anunciou ele, beijando a bochecha macia e ganhando uma risada alta e alegre de bebê.

– Pai? – perguntou finalmente o garoto, um meio sorriso em suas feições.

Arthur mordeu o lábio, incerto, ajeitando Peter em seu colo, apoiando parte do peso em seu quadril, notando como ele estava bem mais pesado que há poucas semanas atrás. Crianças cresciam tão depressa. Ergueu os olhos e fitou o garoto por um momento. – Acho que sim. – murmurou finalmente. – Certo? – veio a pergunta, tímida, hesitante.

– Certo. – respondeu Alfred, um meio sorriso divertido e cúmplice.

E se os dois jantaram com as mãos dadas por baixo da mesa, Peter não se queixou, parecendo feliz em comer bastante e depois vomitar o excesso em cima da camiseta de Alfred mais tarde. O garoto deixou Arthur levá-lo de volta ao berço e foi tomar banho, resmungando o caminho inteiro sobre como contaria à primeira namorada de Peter como ele vomitara espetacularmente sobre um pobre e heroico homem como ele. Quando os dois voltaram para o quarto e deitaram na cama, Arthur ainda ria tanto que tinha as faces vermelhas, o que o fez receber uma travesseirada na cara e um resmungo por parte do garoto. Não se importou muito. Estava... feliz. Muito, muito feliz.

Por isso, algumas vezes, Arthur nunca realmente poderia acreditar nos dias que estava vivendo.

Algumas vezes, à noite, quando havia a sensação de que toda a cidade dormia, Arthur estava deitado na cama, absolutamente acordado, simplesmente... pensando. Era tão estranho... tão, tão estranho estar vivendo aquela vida. Tinha superado tantos maus momentos que pareciam que iam durar para sempre. Era estranho chegar do outro lado, olhar para trás e pensar “ah... eu consegui...” Porque tinha parecido que ele nunca entenderia, que ele nunca conseguiria. Algumas vezes, ao longo do caminho, ele estivera simplesmente tão... cansado de tudo, magoado e... triste. Quantas vezes ele não considerara, naquela mesma casa, percorrendo aqueles mesmos corredores... quantas vezes ele não considerara acabar com tudo? Agora, olhando para trás, estava orgulhoso das vezes em que respirara fundo e tentara de novo, ou mesmo recomeçara do zero.

– Arthur...? – a voz do garoto sobressaltou-o.

Arthur virou para olhá-lo. A luz quase inexistente da lua minguante equilibrava-se nos olhos muito azuis dele, e a franja farta do garoto deslizara e se espalhara sobre o travesseiro.

– Está acordado? – murmurou o garoto, franzinho o cenho em confusão.

– Não, Alfred, eu durmo de olho aberto. – rebateu o loirinho, um meio sorriso, divertido.

Alfred afundou o rosto no travesseiro, rindo contra a fronha.

– Certo, eu mereci essa. – resmungou, um tanto grogue. Espreguiçou-se na cama, seus ossos estalando satisfatoriamente, e virou-se de lado, observando sonolentamente o loirinho.

Arthur assistiu quando um sorriso equilibrou-se nas feições de Alfred, doce e despreocupado, como se o garoto nem percebesse que estava sorrindo. Como se Arthur fosse a pessoa mais especial de todas, como se Alfred fosse o sortudo dos dois. Ele então passou um braço em torno da cintura de Arthur e puxou-o mais para perto. Entrelaçou os dedos da outra mão nos cabelos do loirinho, e apoiou o queixo sobre seu ombro.

– Te amo. – murmurou contra o pescoço de Arthur.

Arthur abraçou-o mais apertado e escondeu o rosto no moletom largo de Alfred, sentindo um nó na garganta. Por que Alfred tinha a mania de dizer essas coisas sem avisar? Ali, abraçado pelo amor da sua vida, com uma criança que ambos amavam sinceramente dormindo quietamente no berço, em uma hora tarde, mas misericordiosamente livre de sonhos ruins... Arthur se sentia tão feliz, mas tão estupidamente feliz que parecia que seu peito ia explodir. Era estranho estar ali, era estranho como, de algum jeito, ele tinha conseguido colocar a própria vida no lugar. Encontrado um lugar no mundo, na verdade, talvez.

Arthur percorrera um caminho tão longo até poder estar ali e adormecer ao lado de pessoas que ele amava e que o amavam de volta, que eram tudo na sua vida, que percorreriam os dias ao seu lado e os preencheriam de sentido. Finalmente, Arthur se sentia... suficiente. Como se fosse bom o bastante. Não por causa de Alfred ou Peter, mas porque, em algum momento do caminho, com um pouco mais de tempo, com um pouco mais de pessoas certas em sua volta, Arthur conseguiu se perceber melhor. Sabia que era impaciente, sensível, irritadiço e estourado, mas reconhecia que era esforçado, dedicado, leal e, com todos os tropeços, era uma boa pessoa e isso realmente importava. Talvez, fosse o que mais importava.

Respirou fundo, confortado pelo cheiro familiar de Alfred no moletom e pelo abraço, aquecido e aconchegante. Em poucos minutos, adormeceu quietamente.

O anjo de pé ao lado da cama inclinou-se e beijou suavemente o topo da cabeça do protegido. Mesmo a aura do anjo cintilava em um tom de ouro cálido, gentil, infinitamente bela, enriquecida pela felicidade e paz que Arthur sentia. Como de costume, o anjo checou o bebê, que dormia no berço. O anjo da guarda da criança acenou e sorriu de leve, observando-o quietamente.

Lá fora, a chuva tornara-se neve na noite muito fria. Mas, daquela vez, ela não apanhou nenhum menininho loiro trancado do lado de fora de um orfanato. Daquela vez, o menininho estava aconchegado entre várias cobertas e outro menino, que tinha o abraço mais aquecido e mais adorável de todos os abraços de todas as noites frias.

E, como todas as coisas, os dias foram passando e o ano foi chegando ao fim. Então, as pessoas se apressavam para fazer tudo antes que o tempo acabasse. Arthur, por exemplo, se encontrava às dez da noite tentando terminar de escrever sobre sua pesquisa, a pedido de seu professor. Alfred estava no quarto quando o escutou derrubando uma pilha de livros e papéis no chão, seguido de um suspiro alto e frustrado. O garoto estivera conversando com Peter pela última hora (ouvira que conversar com as crianças incentivava a fala), mas em algum ponto da conversa, seu pequeno interlocutor adormeceu. Deixou-o no berço, muito agradecido que bebês eventualmente aprendiam alguma coisa sobre horários e passavam a dormir uma noite inteira, e foi procurar Arthur na sala.

Encontrou-o batendo a cabeça contra a madeira da escrivaninha em frustração. Seu cabelo, naturalmente bagunçado, estava ainda mais bagunçado com a quantidade de vezes que correra os dedos por entre os fios em frustração. Repentinamente, ele ergueu a cabeça e continuou remexendo impacientemente as pilhas de papel e revezando entre várias janelas abertas no computador.

– Que está fazendo? – perguntou o garoto.

– Pesquisa. Preciso terminar isso logo. – resmungou o loirinho.

Alfred se esgueirou até estar atrás de Arthur, seus lábios um pouco abaixo da orelha do loirinho.

– Hmm, é mesmo...? – murmurou o garoto, beijando de leve a nuca pálida à sua frente.

– Ahnn... Alfred, eu tenho que terminar isso aqui... – gemeu Arthur, ainda que tivesse fechado os olhos diante da sensação.

– Pra quando é?

– Depois de amanhã. – murmurou Arthur.

– Então tem muito tempo... – murmurou, os lábios descendo devagar pela pele sensível do pescoço, sentindo Arthur inclinar a cabeça um pouco mais para o lado, dando-lhe acesso, ainda que relutantemente. – eu prometo que te ajudo.

– Alfred, não- Ahh... – sentiu quando o garoto o mordeu e a língua dele tocou a sua nuca.

– O que? – murmurou o garoto, se fazendo de desentendido enquanto suas mãos circundavam a cintura de Arthur.

– Hmm... – o loirinho inclinou a cabeça e deu-lhe mais espaço, contente com a atenção.

– Então, o que você estava me falando?

– Foda-se o que eu tava falando, vem cá. – murmurou ele, puxando o garoto contra si e beijando-o de língua, com força.

Sentiu o sorrisinho insuportável de Alfred durante o beijo.

– Seu viado. – resmungou ele, ao que o garoto começou a rir.

– Que é isso, amor, vem cá. – sorriu Alfred assim que conseguiu parar de rir.

Arthur ainda esteve rindo pelo resto da noite, mesmo que em alguns momentos fosse apenas um sorriso enquanto ele suspirava na cama, beijando Alfred como se o mundo fosse acabar no segundo seguinte.

Bom, verdade fosse dita, o mundo não ia acabar no segundo seguinte, mas o ano acabaria nas três semanas seguintes. Por isso, quando amanheceu, o dia encontrou os dois sentados na sala com uma porção de contas, pagas e não pagas, assim como uma calculadora.

Alfred observava atentamente Arthur rabiscar uns papeis e mexer na calculadora. O loirinho estava com uma camiseta preta com estampa de uma caveira, uma boxer branca, e seus cabelos um total caos devido à mania que ele tinha de correr os dedos por entre os fios quando frustrado. Voltou a rabiscar o papel e fuçar na calculadora. Resmungou algo sobre fazer uma planilha no ano que vem.

– Há! – gritou Arthur, vitorioso, depois de alguns minutos.

– Conseguimos?!

– Conseguimos! – o sorriso de Arthur abriu quando ele se ergueu e fitou o garoto, que imediatamente o envolveu em um abraço de urso, rindo junto com ele. Assim que o garoto o soltou, deu um soco no ombro dele, com um sorriso muito largo.

– Cara, eu nem acredito. – disse Alfred, sorrindo, puxando Arthur e beijando-o brevemente. O loirinho correspondeu-o por alguns minutos, até se afastar e retomar o papel, anunciando o feito do ano.

– Não fechamos o ano no vermelho! Na verdade, sobrou alguma coisa, o que quer dizer que vamos ter uma festa de natal propriamente.

– Ótimo! – exclamou o garoto, esfregando as mãos, extremamente empolgado. — A gente precisa empurrar o sofá mais para lá.

– Que?

– Pra caber a árvore de Natal na sala, mas é claro! — continuou Alfred, medindo a sala com os olhos e mentalizando a decoração de Natal.

– Alfred. Por que eu deveria ficar pendurando bolinhas bregas em um pinheiro no meio da minha sala? A gente não pode fazer um Natal sem árvore de Natal? – indagou o loirinho, tendo arrepios só de imaginar o trabalho que teria decorando tudo para ter que tirar em janeiro.

– É o nosso primeiro ano comemorando o natal juntos! – reclamou o garoto. — E é claro que a gente precisa de uma árvore de natal para a nossa festa de Natal! – e olhou-o absolutamente afrontado, como se Arthur tivesse sugerido que ele cortasse a própria mão fora.

– Você não vai me deixar em paz se nós não fizermos isso, né? – suspirou Arthur, sentando no sofá.

Não. – cantarolou o garoto, já sentindo que tinha ganhado a discussão, um sorrisinho tão estúpido e feliz que Arthur teve um quase impulso de dar-lhe uma na cara. Mas Alfred riu e os olhos dele cintilavam com uma felicidade muito simples, mas que Arthur sentia que nunca era demais. Então, Arthur meramente revirou os olhos e reclamou boa parte da manhã.

Muito embora Arthur dissera tudo aquilo, acabou se contagiando com a empolgação do garoto e com o clima das festas. Na mesma semana, o loirinho se encontrou em uma discussão fervorosa com Alfred na sala de estar sobre as decorações natalinas, aparentemente eleito como assunto muito sério da casa.

Era um enfeite horroroso. A maior estrela que Alfred conseguira achar na loja. Dourada, cheia de glitter, quase uma aberração. Era tão esdrúxulo que estava escondido na prateleira de cima da lojinha. Alfred só achou depois que a estrela despencara na cabeça de Arthur, enquanto este tentava pegar uma caixa de enfeites da última prateleira de cima dos fundos da lojinha.

– Eu não acredito que você comprou isso! – Arthur parou, observando, chocado, Alfred se inclinar e tentar colocar aquela estrela horrorosa em cima da árvore que eles gastaram duas horas enfeitando. — Você não vai colocar isso, né?

– Claro que sim! A árvore não vai ficar incrível se eu não colocar. – respondeu o garoto absolutamente sério.

– Alfred, esse é o enfeite mais horroroso em que eu já botei os olhos na minha vida.

– Falou a pessoa que comprou enfeites de fadinhas no lugar dos sinos que eu queria! – resmungou o garoto.

– Qual o problema com elas? – perguntou Arthur, colocando as mãos na cintura e analisando de perto as fadas penduradas.

Peter observava as coisas coloridas que os dois iam colocando naquele mato engraçado no meio da sala, confortavelmente sentado em sua cadeira alta, balançando os pezinhos. Quando Arthur colocou o pisca-pisca, Peter tentou alcançar as luzes coloridas da cadeira, quase caindo no processo e matando os dois rapazes do coração. Diante do choro que inevitavelmente seguiu a manobra, Alfred levantou-o no colo e deixou-o mexer um pouco nas pequenas lâmpadas, que piscavam alegremente em azul, verde, dourado e vermelho. Depois, quando Peter pareceu ter se divertido o suficiente, Arthur desligou o pisca-pisca da tomada.

O pinheirinho permaneceu apagado, por uma questão de economia de energia, até a noite de 23 de dezembro, quando Alfred lembrou-se de ligar antes de dormir. No dia seguinte, levantou cedo para alimentar Peter e brincou um pouco com ele até que dormisse lá pelo meio da manhã. Então, apagou as luzes e voltou para debaixo das cobertas com Arthur, passando boa parte da manhã dormindo.

Alguns quilômetros mais para lá, cruzando um pouquinho de água salgada, Francis e Matthew passaram boa parte da manhã fazendo biscoitinhos e outros doces, deixando para a tarde os pratos principais. Não se preocuparam muito com a decoração da casa, mas a mesa estava impecável. Francis não podia ver as luzes nas ruas ou o gorro que o ursinho de Matthew usava agora, mas ele sorria como se pudesse sentir o Natal na ponta de seus dedos. A casa cheirava a biscoitos com canela e chocolate, depois a assados e tortas, um pouco como a cozinha da confeitaria, mas diferente, menos profissional e mais familiar. O velho piano da sala, que Francis esquecera no canto durante os meses em que Matt partira e sua música perdera doçura, agora, ah, agora o velho piano encheu a tarde de sonatas e improvisos. Francis não podia ajudar muito Matt em suas receitas, mas estava tudo bem. Mesmo uma pessoa que enxergasse não era muito páreo para um confeiteiro de primeira linha como Matthew. E havia o piano, e a música, que era tão necessária quanto a comida, talvez até mais.

O amado baralho de tarot repousava sobre a parte de cima do piano, mas Francis não deu atenção à carta que estava em cima, meramente sentando-se no familiar banquinho. Os olhos claros do francês fecharam-se quando ele abriu o piano e começou a tocar. A voz de Matt soando às vezes, e a música, e o cheiro da ceia sendo preparada, o toque macio das teclas sob a ponta de seus dedos. Matthew apareceu alguns minutos depois, tocando-o no ombro e oferecendo-o um biscoito recém-confeitado. O sabor amanteigado envolveu sua língua e ele sorriu. O elogio fez o canadense rir baixo e depositar um beijo breve e familiar sobre seus lábios. Todos os seus quatro sentidos estavam sendo cortejados de alguma forma, e os quatro cantos do seu coração pareciam ter sido tomados por Matthew.

Quem poderia querer mais do que aquilo?

Francis sorriu assim que o canadense se afastou, e passou a tocar algo alegre e simples.

– Et je vois La vie en rose…

Lá por volta de umas três da tarde, já havia várias e várias receitas pela mesa, embora eles tivessem feito apenas porções pequenas, uma vez que seriam apenas os dois. Claro que era muito bom estarem os dois, mas Matthew sentia falta de uma mesa com mais pessoas. Ano que vem tentaria combinar com Alfred de comemorarem as festas juntos.

Alfred ficaria particularmente muito feliz em ter uma ceia farta e elaborada como a de Matthew, mas sobreviveria aquele ano com comida pronta mesmo. Enquanto Matt e Francis acordaram bem cedo e começaram a preparar a ceia, Alfred e Arthur passaram a manhã dormindo, eventualmente levantando para trocar a fralda de Peter. Apenas por volta das duas da tarde os dois juntaram coragem o suficiente para saírem de casa e irem ao supermercado para compras de última hora.

O mercado estava cheio de pessoas fazendo compras de itens que foram esquecidos, e até mesmo presentes de última hora. As pessoas passavam correndo, com celulares equilibrados no ombro, tentando achar os ingredientes faltosos. Arthur não tinha planos para presentes naquele ano (o dinheiro não era tanto assim a ponto de estar sobrando), mas Peter pareceu ter outras ideias. Havia uma seleção muito bonita de bolas coloridas, de superfície suave e macia, muito leves. Peter brincou de bater em uma delas ainda na prateleira, rindo com a textura diferente e as cores variadas. Pareceu muito chateado quando Arthur e Alfred começaram a se afastar da sessão.

Arthur notou os olhos claros decepcionarem-se e sentiu-se incrivelmente cruel. Olhou a bola, pensou nos vasos de Elizabeth, pensou na bagunça, olhou para Peter...

– Certo. – suspirou e pegou a bola, olhando para cima como se pedisse clemência. Mas sorriu mesmo assim.

Alfred bagunçou-lhe os cabelos e riu, aquela risada alta e estúpida que ele tinha. Arthur deu-lhe um murro no braço e virou para o lado, porque não ia admitir que também estava rindo.

No fim, além da bola, levaram a ceia toda praticamente pronta. Seria só uma comemoração pequena, uma vez que nem Scott nem Matthew viriam para o Natal. Matthew, no entanto, prometeu vir no ano-novo. Scott viria talvez quando tirasse férias, mas não aconteceria durante as festas. De resto, Alfred ainda não queria passar o Natal com os pais, até mesmo porque ele fazia questão de estar com Arthur e Peter, o que talvez não fosse dar muito certo se seus pais estivessem com eles. Talvez, no futuro, mas hoje, definitivamente, não. Estava bem e feliz em uma ceia pequena, só os três.

Depois de uma pequena discussão na sessão de bebidas, os dois acabaram decidindo-se por vinho (barato) e refrigerante. Não estava muito elegante, mas, no fim de tudo, as coisas talvez estivessem muito bem do jeito que estavam.

De toda a forma, Arthur queria cozinhar alguma coisa, e Alfred acabou concordando que os dois (era auspicioso não deixar Arthur sozinho na cozinha) fizessem uma torta de maçã.

Tirou do bolso do casaco um papelzinho escrito à mão e checou os ingredientes de que precisaria.

Obviamente, dez minutos depois, o caos estava instaurado.

– Afff! Não seja burro, Alfred, eu disse farinha! Isso é açúcar!

De vingança, o garoto apanhou o pote certo e assoprou um punhado de farinha na cara de Arthur.

– Filho de uma... – resmungou o loirinho, olhando feio para o garoto e tentando tirar a farinha do cabelo sacudindo-o com os dedos. Estava muito tentado a quebrar o ovo que tinha na mão bem na cabeça de Alfred, mas se fizesse, não teria com o que pincelar a torta. Tirou o excesso de farinha, lavou as mãos e jogou água no garoto, que riu e continuou o que fazia. Arthur revirou os olhos e deu um meio sorriso, começando a lavar as maçãs. Incrivelmente, Alfred conseguiu salvar a torta antes que Arthur conseguisse queimá-la, então considerou que seu milagre de Natal já estava realizado.

O minuto dourado que transformava a véspera e a espera em Natal e realização veio, e os dois brindaram. Toda a preparação desencadeou uma noite muito agradável, como energia potencial que se convertia em cinética. Os assados foram abertos e saboreados, a garrafa de vinho ficou cada vez mais leve, e a torta minguou rapidamente. Peter permanecera apreciando seu presente longamente, brincando de empurrar a bola e engatinhar atrás dela. Comera bem mais cedo que os adultos, de modo a manter seus horários mais organizados, então ficara livre para brincar enquanto os dois jantavam. Arthur e Alfred mantinham a atenção dividida entre a ceia e Peter, certificando-se de que ele não se metera em nenhuma encrenca nem ia se machucar com o brinquedo novo. Lá pelo meio do jantar, no entanto, a brincadeira pareceu ter cansado muito o pequeno aventureiro, que adormeceu sentado, com a cabeça encostada ao sofá. Arthur colocou-o no berço, ajeitando bem as cobertinhas para protegê-lo da noite fria, e voltou a se juntar a Alfred.

Por volta da uma e meia da manhã, os dois se levantaram e lavaram a louça, muito feliz por terem comprado coisas prontas e não haver muita coisa para lavar.

A noite de Natal, às duas da manhã, encontrou Arthur deitado no sofá com a cabeça descansando confortavelmente no colo do garoto. Alfred jogava qualquer coisa portátil como se o mundo fosse acabar se ele não terminasse aquela fase. O loirinho lia um livro distraidamente, aproveitando-se do calor do outro, uma vez que a noite estava muito fria. A árvore de natal, afinal, ficara muito agradável no canto da sala e dava certo clima familiar muito aconchegante. No final das contas, a árvore ficara mesmo com as fadinhas que Arthur queria e a estrela que Alfred queria, encerrando a discussão. As luzes coloridas piscavam em cores quentes e frias, dançando silenciosamente e se refletindo no vidro da janela.

Quando o garoto pareceu se cansar do jogo, colocou-o de lado e espreguiçou-se longamente, notando Arthur, que havia deixado o livro o de lado, optando por cochilar no colo do garoto, um tanto sonolento com a bebida. Alfred inclinou-se e beijou o loirinho, sentindo-o acordar e corresponder-lhe preguiçosamente.

– Hmm... – murmurou Arthur, voltando a virar de lado e fechar os olhos. Estava frio e o colo de Alfred, quentinho, o que tornava pouco atraente a ideia de se levantar dali e pisar no chão gelado. Além disso, a ceia havia sido agradável, os pratos já estavam lavados e ambos já tinham escovado os dentes, optando por ficarem de bobeira no sofá, com a agradável sensação de já ter todas as tarefas do dia cumpridas. Eles tinham fechado o ano sem entrar no vermelho, Peter já era grandinho o suficiente para dormir praticamente a noite toda, e o livro era interessante e relaxara Arthur, que se sentia preguiçoso e confortável como um gato deitado ao sol depois do almoço. Sentiu quando Alfred passou a fazer carinho em seus cabelos.

– Sono? – perguntou o garoto, sorrindo de leve ao constatar Arthur levemente enrolado no sofá.

– Uhum... – murmurou o loirinho brevemente antes de cair no sono de novo.

– O que seria de você sem alguém heroico como eu? – murmurou Alfred, erguendo-se e colocando o outro em seu colo.

– Heroico coisa alguma. – murmurou Arthur, metade dormindo, metade acordado, aconchegando-se e descansando a cabeça no ombro de Alfred. Continuou murmurando, ao que Alfred segurou uma risada que o acordaria completamente.

O caminho para o quarto foi feito com o máximo de cuidado possível e Alfred ficou contente consigo mesmo por ter conseguido fazer o percurso inteiro sem bater a cabeça de Arthur em porta alguma. Contava com a sorte de o britânico ser alto, mas ele não era muito pesado.

Depositou-o sobre a cama devagar, afastando-se para pegar algumas cobertas dentro do armário. Logo, juntou-se ao loirinho na cama, cobrindo a ambos e se aconchegando, um meio sorriso contente em seus lábios. Seus olhos lentamente foram se adaptando à escuridão do quarto, e ele era o único ainda acordado na casa. Sentia-se tão... contente e em paz que era quase surreal. Mesmo os pequenos barulhos que a casa fazia noite adentro não eram o suficiente para tornar a cena mais real. Ele estava tão feliz. Tão feliz que às vezes era difícil de acreditar.

Arthur encostou-se mais para perto do garoto, atraído pelo calor. Alfred enlaçou-o pela cintura e encaixou o rosto na curva do pescoço do loirinho. Sentia o pulso de Arthur contra a sua face direita, e seus braços sentiam o contorno dele variar conforme ele respirava.

Estar com Arthur era algo que Alfred nunca conseguiria explicar. Abraçá-lo daquele jeito, ambos juntos, dividindo a mesma cama em uma noite fria de Natal. Era... incrivelmente aconchegante. Aquela sensação crescente de que estava em casa. Não havia como explicar a sensação de familiaridade. Não havia como explicar a sensação de que havia retomado um pedaço que faltava de seu coração.

Arthur virou-se de frente para o garoto, também se aconchegando com um suspiro contente. Alfred ainda não conseguia acreditar que realmente o tinha para si. Tocou delicadamente a face do outro, afastando a franja da frente do rosto de Arthur. Sorriu. Um sorriso largo e verdadeiramente feliz. Estava tão feliz em ter escolhido ficar ao lado de Arthur. Em ter escolhido oferecer-lhe a mão quando ele precisara, em ter suportado problemas junto com ele, em ter estado ali aquele tempo todo. Ele nunca teria imaginado que aquele menino que ele conhecera amadureceria tanto em tão pouco tempo e se tornaria tão responsável, tão adulto, cuidando daquela pequena família que os três formavam. Deus, ele praticamente casara com Arthur, com direito a um filho pequeno e tudo. Só não era oficial.

Alfred parou por um momento, tendo uma súbita realização.

Será que...

Seus olhos fitaram Arthur outra vez. Será que ele aceitaria?

Era o último dia do ano.

Luciano olhou pela janela da sala de Afonso o dia amanhecer. O azul quase negro da noite clareou gradativamente, como que se diluísse, como aquarela, e o azul foi se tornando claro e suave. Tão bonito e inocente que corou quando tomou conta de todo o palco que era o céu, o azul claro se tornando rosa em alguns trechos. Então, alaranjado como um fruto de colheita, então dourado como o ouro dos homens, finalmente chamando a atenção do sol, que se esgueirou e ergueu-se um pouco acima da linha do horizonte para assistir.

O rapaz suspirou. Estava na casa do lusitano já há vários dias, mas não sabia bem ao certo o que fazer. Fitou sua cama improvisada no sofá, e lembrou-se da primeira noite que passara ali, depois que, estupefato, Afonso lhe deixara entrar e permitira que ele ficasse. Fechou os olhos e lembrou-se de como tinham sido aqueles dias.

A primeira noite fora estranha. Já era alta madrugada quando a casa do lusitano calou-se e mergulhou no escuro, com um rapaz moreno no sofá da sala fitando o teto pensativamente.

“Não, o acidente não justifica uma amnésia como a dele. Pelo que eu entendo, provavelmente é algum bloqueio emocional, muito comum nesse tipo de amnésia seletiva.”

Luciano abriu os olhos e encarou o teto da sala do lusitano. Lembrava das palavras do médico como se alguém as sussurrasse em seu sono todas as noites. Sozinho na sala, ele permitiu uma lágrima descer e cair quietamente sobre o sofá. Outra seguiu a primeira, e ele quis desistir. Uma terceira seguiu a segunda, como uma gota de chuva seguia a outra, e ele se esforçou para não fazer barulho. Chorou até que o número de lágrimas fosse desconhecido por ele mesmo, porque, no dia seguinte, ele precisava ter se esquecido delas. Respirou fundo.

Quando o dia amanheceu, Luciano encarou seu ex-professor sair do quarto, os cabelos castanhos bagunçados, a tira que os prendia caindo, fios castanho-dourados sobre os ombros pálidos que Luciano costumava conhecer muito bem. A franja, de um tom avelã, caía levemente sobre os olhos levemente verdes de uma pessoa que Luciano costuma amar.

Que ele ainda amava.

Porque Afonso ainda era fascinante, como há anos atrás era, quando ele andava pelos campos da faculdade abraçando uma pilha de livros. Ainda lia e conversava com Luciano e implicava e ria, aquela risada dele, que ele costumava esconder, abaixando a cabeça ou cobrindo os lábios com uma mão, como se o sorriso dele fosse um segredo maior que todos os segredos de Capitu.

Naquela mesma manhã, entre as duas canecas de café quente sobre a mesa, Luciano contou seus planos.

– Eu quero que você recupere a memória.

Afonso olhou-o como se ele tivesse enlouquecido. O silêncio se estendeu sobre a mesa, pairando sobre o café, que esfriava.

Finalmente, o lusitano estilhaçou a quietude com algumas palavras ditas baixo.

– Mas eu não esqueci nada.

– Esqueceu de mim. – e, tendo admitido aquilo tantas vezes para si mesmo, foi fácil dizer em voz alta. Mesmo que ainda soasse magoado, mesmo que ainda soasse solitário, as palavras saíram sem que ele tivesse que lutar com elas.

– Eu te conhecia?

– Como nenhuma outra pessoa no mundo. – disse finalmente. Seu ex-professor não respondeu, e ele mesmo não disse mais coisa alguma. O silêncio sentou-se à mesa com os dois, e não se levantou tão cedo.

No final das contas, Afonso cedeu e permitiu que ele ficasse, não precisando uma quantidade de tempo, ao que Luciano não deixou a oportunidade passar. Mesmo que seu peito apertasse em um pânico surdo toda vez que os olhos esverdeados do outro fitavam-lhe curiosamente, sem reconhecê-lo. Mesmo que seu coração acelerasse e batesse com muita força quando pegava Afonso olhando-o, então desviando o olhar rapidamente quando se percebia flagrado. Ele o olhava curiosamente, mas também um pouco... encantado. Como se não pudesse entender como uma pessoa tão maravilhosa como Luciano podia existir e como podia querer estar ali. Aos poucos, a respeitosa distância inicial foi ruindo, silenciosa, como tudo que havia de poderoso no mundo. Sutilmente, eles passaram a se sentar mais perto um do outro no sofá, e o eventual e fraterno tapinha no ombro foi sendo substituído por mãos dadas às vezes, abraços, e, em uma ocasião, Luciano ganhara um beijo na bochecha, que Afonso jurara que foi sem querer. De algum jeito, os sorrisos polidos se tornaram risadas, que se tornaram um beijo na bochecha, e Luciano, também encantado, assustado, mas feliz, se perguntava se aquela magia podia durar para sempre. Era assustador, mas também maravilhoso e grande, algumas vezes apenas maravilhoso e outras, apenas assustador.

E porque seus sentimentos eram aquela montanha russa, muitas vezes, não conseguia dormir. Então, muito quietamente, sentava-se no chão ao lado da cama de Afonso e o observava dormir. Na noite do dia 30 de dezembro, quando o ano dava seu último suspiro de dia, o rapaz estendeu a mão, seus dedos quase, quase entrelaçando nos cabelos macios, ondulados, onde tantas vezes ele havia respirado fundo o perfume do outro.

Mas agora era diferente. Mesmo o perfume não era mais o mesmo. O lusitano trocara de shampoo há algumas semanas. Ainda era um cheiro muito bom, no entanto. Ele ainda era quieto, mas também ainda sabia se empolgar com assuntos que ele gostava e ainda podia passar horas conversando sobre algo com Luciano no sofá, totalmente esquecido de seus afazeres. Ele ainda tinha uma pilha de livros que deixava na mesinha de cabeceira, e mais de uma vez ele derrubara a pilha sobre a própria cabeça enquanto dormia. Naquela noite, no entanto, ele não acordara com livros caindo, mas com o barulho que Luciano fez quando se levantou para sair.

– Lu... – o apelido familiar, readotado uma semana atrás, soou na voz sonolenta do lusitano, e o rapaz deteve-se. – Fica.

A voz sonolenta, um pouco rouca, familiar, suave, que o rapaz conhecia tão bem, e ao mesmo tempo, conhecia quase nada. Naquele momento, a realização atingiu-o, súbita e clara como um relâmpago. Não importava. Amaria aquela pessoa mesmo que ela se esquecesse dele todos os dias.

Silenciosamente, deitou na cama também, sentindo o outro se aconchegar, ainda dormindo. Abraçou-o apertado, depositando um beijo carinhoso sobre o topo da cabeça do outro. Não sabia mais sequer se se importava com o fato de que Afonso perdera todos os anos que eles tinham passado juntos. Queria os anos no futuro dele, queria beijar e conhecer de novo aquela pessoa, que era tão igual, mas tão absolutamente diferente da pessoa que ele conhecera.

Porque em tudo, se o rosto era igual, a fisionomia era diferente. Afonso era diferente de antes. Menos... triste? Ele agora estava ensinando as matérias que queria. Levava uma vida mais leve depois do acidente, conversava mais, era mais direto e sincero, passara a se interessar por outros assuntos. Ele obviamente cultivava uma quedinha por Luciano, e não parecia culpado com o fato. Ele comprava livros o tempo todo e cozinhava, e, em muitos sentidos, a rotina confortável de antes, a vida comum, parecia boa. Na verdade, aqueles dias eram melhor que antes. Antes, Afonso ainda parecia relutante com o fato de que estava com um estudante, mesmo depois que o rapaz se formara. Ele usaria seus seis anos a mais como forma de autoridade, às vezes.

Mas agora, com tudo aquilo para trás, Afonso era apenas... ele mesmo. Não professor ou ex-professor. Apenas um adulto como o outro, um adulto que trabalhava. E os dois confortavelmente sabiam estar juntos, como um quebra-cabeça completo, feito para encaixar. E Luciano, que ia ficar um dia ou dois, foi ficando e ficando.

Mesmo que Afonso ainda não se lembrasse dele. Todas as memórias de uma pessoa a quem ele tinha amado tão sinceramente não voltaram. Ao longo das semanas, Luciano introduzira silenciosamente técnicas de memorização. Tentara perfumes. Fizera doces que só se comiam nas festas de junho. Dançara com ele.

E Afonso sempre se divertia como se fosse a primeira vez. Seus olhos esverdeados faiscavam com as novidades, ele se fascinava e sorria e se apaixonava um pouquinho mais.

Naquela dia em especial, no último dia do ano, em seus últimos minutos, ele se fascinaria como nunca.

Luciano saiu da cama antes que o outro acordasse, não tendo dormido um único minuto da noite. Silenciosamente, foi para a sala e olhou pela janela o amanhecer. Em poucos segundos, o que era escuridão profunda se tornou uma confusão de aquarela, azul, azul claro, então rosa, avermelhado, laranja, azul novamente.

Se o céu, antigo como as estrelas, mudava eternamente, em um piscar de olhos, por que alguém imaginaria que as pessoas permanecem as mesmas?

Luciano não era o mesmo que era há um ano atrás, antes do acidente. Afonso não era nem mais o mesmo das lembranças que ainda tinha. Os dois tinham mudado, gradualmente, sutil como o vermelho, que ia se tornando laranja, até que se tornasse absolutamente diferente, azul. Luciano deixou seus medos e sua mágoa na sombra da lua, e respirou fundo, pronto para dar um passo que lhe custara meses e meses de negação e angústia, conflito e indecisão, medo, mágoa.

Naquele dia, os dois prepararam juntos a ceia de ano-novo, fingindo não perceber como os olhos de um se demoravam no do outro, como suas mãos pareciam se encontrar com mais frequência do que era aceito entre amigos, como Luciano brincava com os cabelos castanhos do outro com a suavidade de um amante. Os pratos foram ficando prontos, e os doces foram levados ao forno, a tarde foi se consumindo no céu. Apenas por volta das nove horas os dois terminaram de cozinhar, prometendo a si mesmos começar a preparação mais cedo no próximo ano.

Os dois colocaram algumas roupas mais apresentáveis para a passagem do ano, Luciano gastando bastante tempo decidindo as cores que usaria, para atrair energias positivas no próximo ano. Por volta das onze, ambos voltaram para a cozinha, dessa vez usando aventais para proteger a roupa de qualquer estrago, e começaram a arrumar um pouco da bagunça.

Luciano ia lavando os pratos, enquanto Afonso ia guardando cada item em seu devido lugar. Eventualmente, o rapaz terminou e passou a ajudar com a secagem dos pratos. Flagrou quando, muito orgulhoso, o pequeno poeta tentava guardar uma xícara numa prateleira muito alta para si. Rindo, o rapaz aproximou-se, encostando-se às suas costas e retirando a louça de sua mão, colocando-a segura na prateleira. As bochechas do lusitano coloriram-se de vermelho e ele se virou rapidamente para olhar o rapaz atrás de si.

Sua voz falhou quando terminou com a face a menos de um centímetro da do outro. Luciano não se moveu, ao que Afonso ainda cometeu o erro de olhar no fundo dos olhos dele. Seu coração batia com tanta força que chegava a doer, e o lusitano sentiu-se sem ar. Não deveria ter deixado Luciano ficar na sua casa. Não deveria estar deixando que ele soltasse seu cabelo e corresse os dedos por entre os fios.

Ele era tão bonito...

Afonso fechou os olhos e, pela segunda vez, foi beijado por aquele rapaz pela primeira vez. E, Deus, não era possível que ele tivesse beijado aquela pessoa antes. Ele com certeza se lembraria. Sentiu os lábios do rapaz movendo-se contra os seus devagar, tortuosamente, roçando, tocando e explorando a superfície. Os lábios dele entreabriram, mas ele não usou a língua, apenas mordiscou de leve, uma das mãos dele passando por entre os seus cabelos e entrelaçando os dedos entre os fios, fazendo-o inclinar a cabeça para cima, usando a diferença de altura a seu favor. Um braço circundou a cintura de Afonso, que se deixou ser suportado, uma vez que suas pernas pareciam ter se esquecido para que serviam. Então, finalmente, a língua do rapaz participou do beijo, e o menor gemeu baixo, suas mãos apertando a camiseta do outro na altura da cintura, seu quadril contra a bancada da cozinha. Lentamente, o rapaz se afastou, voltando e depositando um selinho antes de se afastar de verdade.

O lusitano viu o sorriso divertido do outro, percebendo que suas faces estavam muito, muito vermelhas. Embaraçado, afastou-se correndo, saindo da cozinha e indo se deitar no sofá da sala, sem nem acender as luzes, escondendo o rosto em uma das almofadas. Deus, que loucura estava fazendo? Desde quando beijava as pessoas aleatoriamente na cozinha de casa? Por que estava corando? Santo Deus, parecia que tinha quinze anos.

– Afonso? – chamou o outro, sentando-se na beira do sofá.

– Er... Eu, bem, nós, quer dizer... – começou, falhando miseravelmente. O rapaz a sua frente riu com tanta vontade, que ele se viu rindo também. Finalmente, respirou fundo, e levantou a cabeça. Queria dizer... queria dizer que o achava divertido e interessante, que gostava das conversas e da rotina, e que ele tinha o melhor beijo possível, mas tinha medo de dizer, medo que não conseguisse expressar seus sentimentos, o carinho, a euforia e fascinação, a felicidade. — Me diz... esse beijo quer dizer o que? – perguntou finalmente, desviando o olhar, mas não se afastando.

– O que você quer que ele queira dizer? – foi a resposta, suspensa na penumbra da sala.

O lusitano mordeu o próprio lábio inferior, sentando-se ao lado do outro, muito perto, nenhum dos dois desistindo de um único centímetro de proximidade que tinham conquistado.

– ... tudo. – murmurou finalmente, mortificado, mas acertando um beijo rápido sobre os lábios do outro, ganhando um sorriso de volta.

– Só você mesmo, portuguesinho burro, para se apaixonar duas vezes pelo mesmo idiota. – murmurou o rapaz, que então riu, seus dentes perfeitos emoldurados por um sorriso que formava uma covinha em sua bochecha esquerda. Então, ele se inclinou para beijá-lo outra vez, e o lusitano voltou a deitar no sofá, puxando o rapaz com ele. Foi um pouco mais lento, como que conhecendo um ao outro de novo. Afonso afastou-se em alguns minutos e segurou a face dele entre as mãos, sentindo a maciez, o calor, tentando decorar cada centímetro. Tentou abrir um pouco mais de espaço para ele, mas quase caiu, ao que o rapaz meramente o abraçou pela cintura e se ajeitou melhor na no sofá. Era... um abraço extremamente familiar. Como se ensaiado, os dois facilmente se encaixaram um ao outro, em uma coordenação silenciosa que permitia o máximo de conforto possível às duas partes. Era como se... como se eles sempre fizessem aquilo. Sentiu o braço do outro circundando sua cintura e aproximando-os automaticamente, como que por reflexo, manejando os dois naturalmente até que os dois formassem uma conchinha sem dificuldades.

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Eles provavelmente tinham o hábito de dormir assim muitas vezes. Afonso suspirou, sua franja escorregando e pousando sobre o estofado. Não se deu ao trabalho de tentar arrumá-la. Sentia-se tão... seguro. E também... amado. Corou com os pensamentos tolos, mas não conseguiu deixar de tê-los. Queria continuar daquele jeito, para sempre. Queria que ele nunca mais precisasse sair daquele abraço, perder aquela presença familiar e firme que o segurava como se ele fosse a coisa mais importante do mundo. Como se soubesse exatamente como abraçá-lo.

Como se tivesse passado os últimos seis anos abraçando-o.

Os dois permaneceram em silêncio por vários minutos, até que o lusitano tomou coragem e perguntou o que vinha querendo perguntar desde o dia em que Luciano colocou os pés em sua casa.

– O que aconteceu? – murmurou, muito baixo. — No dia do acidente?

O rapaz ficou sério, todo o riso e leveza subitamente ausentes. Afonso sentiu cada centímetro do corpo dele ficar tenso.

– Eu não quero falar sobre isso. – veio a resposta, depois de vários minutos.

– Por favor? – murmurou de volta. — Eu... ao menos isso, eu quero saber. – Sentiu o rapaz dar um suspiro pesado e apoiar a testa sobre o seu ombro. Levou vários minutos, mas, depois, em voz muito baixa, ele começou a falar.

Embora aquele dia estivesse melhor esquecido.

Poderia ter sido lindo. Como o último superlativo que José Dias disse em seu leito de morte a Bentinho. Mas foi a coisa mais grotesca e horrível que ele já vira.

Não lembrava bem do acidente. Sabia que o carro estava cheio de malas, várias coisas soltas no banco de trás, alguns equipamentos eletrônicos. Então, seu amigo ao volante fez uma curva e eles se viram frente a frente com uma carreta, que ultrapassava um ônibus na contramão. O rapaz lembrava-se de ter olhado e... nem um único pensamento lhe cruzou a mente. Nenhum flash-back, nenhum filme, sequer algum arrependimento. Simplesmente, nada. E uma sensação terrível de... morte.

Então, seu amigo puxou o volante para uma direção e o carro sofreu um solavanco violento. Alguma coisa de metal bateu na lateral do carro, mesmo com o desvio, e então, o mundo girou, e houve um estardalhaço, como se a realidade inteira ao seu redor estivesse explodindo, tudo embaralhou e aconteceu rápido demais para que ele entendesse. Abriu os olhos quando o barulho parou, olhando em volta. O carro estava de lado, o cinto prendendo-os no lugar. A realização o atingiu subitamente. Tinham... capotado o carro. Em desespero, checou o banco de trás, procurando por uma pessoa muito, muito importante, e seu coração apertou em total terror, seus dedos estavam dormentes, e ele não sabia se era de medo ou frio, ou algo pior, mas seu toque ainda lembrava de quão frágil era o corpo da pessoa no banco de trás, quão delicada era a ossatura, quão macia era a pele pálida.

Olhou para trás e se viu fitado de volta. Os olhos esverdeados que o fitavam piscavam com dificuldade. O sangue do corte havia caído nos olhos dele, ardendo, borrando o mundo à sua frente.

Luciano sentiu os olhos encherem de lágrimas. Seu pequeno poeta estava preso, encurralado no canto da extrema esquerda do banco do passageiro, entre uma confusão de metal, e havia sangue demais para ser um bom sinal. A batida fora na traseira, quando o ônibus tentara sair da frente para que a carreta passasse. O pior lado, que recebera o maior impacto fora o de trás, do lado de Afonso. Ele também tinha batido a cabeça com muita força, então soava terrivelmente confuso.

– ... Lu. – murmurou, tentando achá-lo. Piscou várias vezes. Não... conseguia ver direito. Demorou alguns minutos para perceber que o sangue de algum corte escorrera e entrara em um de seus olhos, causando uma ardência que ele mal conseguia registrar. Esforçou-se para mantê-lo aberto, e viu de relance um olhar muito profundo recair sobre si, em um tom de madeira nobre, levemente esverdeado no fundo. Parecia tão triste...

Era possível que alguém estivesse falando, mas... ele não conseguia entender. Os sons eram um borrão e sua cabeça estava confusa. Sabia que estava com muito frio. Seu braço inteiro parecia ter sido encravado com milhares de pedacinhos de vidro, e sua cabeça doía tanto que ele sentiu vontade de vomitar. No entanto, estava cansado demais para tanto. Por que estava com tanto sono? Queria dormir... Alguns velhos versos do livro que ele folheara na noite passada ficavam se repetindo como um disco quebrado em sua mente e ele não... conseguia se focar.

Teus olhos entristecem.

Nem ouves o que digo

Dormem, sonham, esquecem

Não me ouves, e prossigo.

– ... acho... que te amo. – murmurou, em uma confusão entre os versos que lembrava, as palavras que queria dizer. Estava frio e ele estava confuso, murmurando e murmurando, porque era muito importante que Luciano soubesse.

Digo o que já, de triste,

Te disse tanta vez...

Creio que nunca o ouviste

De tão tua que és.

– Shh... – sussurrou Luciano, tremendo, sua garganta apertada e sua voz um pouco rouca de tanto gritar o nome do outro. Não estava funcionando. Seu amigo no banco do motorista assistia suas tentativas frustradas. – Acha que consegue se mover? – perguntou novamente, mas não obteve resposta.

O lusitano apenas o olhava vagamente. Luciano tentou alcançá-lo, mas o ângulo não permitia. Seus dedos roçaram de leve sobre a mão pálida do outro, que descansava sobre o banco, entre pedacinhos de vidro. Seus olhos se ergueram e ele se viu olhado de volta por duas íris verde-escuras.

Afonso sentiu seu coração bater ainda mais rápido dentro do próprio peito. Definitivamente, muito rápido, o sangue aflorou com um pouco mais de intensidade. E ele tinha a vaga noção de que aquilo definitivamente o estava matando. Mas... que mal tinha isso? Talvez, tudo acabasse ali. Então, ele estendeu um pouco sua mão, mesmo que a dor excruciante provavelmente significava que ele tinha se machucado mais ainda, e segurou a ponta dos dedos do outro rapaz.

Olhas-me de repente

de um distante impreciso

Com um olhar ausente.

Começas um sorriso

– Frio...– murmurou, fechando os olhos. – Eu... estou cansado.

Continuo a falar.

Continuas ouvindo

O que estás a pensar,

Já quase não sorrindo.

Estava frio. E a realidade estava tão... confusa. Mas Luciano continuava ali. Claro que estava ali. Quando foi que ele não esteve? Quis sorrir, mas doía muito fazê-lo. No entanto, em seu coração, ele definitivamente estava sorrindo.

Então, em algum tempo, e ele não saberia dizer quanto, sua consciência cedeu e seus dedos escorregaram da mão do outro rapaz. Ah, o sorriso dele... também escorregara de suas feições.

Estava tudo tão quieto.

Até que neste ocioso

Sumir da tarde fútil

Se esfolha silencioso

O teu sorriso inútil.

Nesse momento, quis chorar. Porque Luciano definitivamente estava chorando agora. A pior parte é que não o veria mais. Seus olhos fecharam e ele não sabia se conseguiria abri-los outra vez. Talvez, conseguisse, e acordasse em uma cama de hospital. Talvez, não. E, qualquer que fosse a solução, ele tinha a sensação de que estava perdendo aquela pessoa ao seu lado, ainda que fosse ele mesmo a não mais abrir os olhos.

Perdi-te. Não te tive. A hora

É suave para a minha dor

Que estranho... ele... conseguia ouvir. Depois de um longo, longo tempo de silêncio, ele conseguia ouvir. Luciano estava chorando. Definitivamente, chorando de soluçar. A dor dele parecia palpável. Ele... estava sofrendo. Tanto, tanto.

Não importava mais. Seu peito apertou com remorso. Por ter amado aquela pessoa. E por ter causado aquelas lágrimas. Teve medo também. Daqueles sentimentos. Foi então que ele quis que nunca o tivesse conhecido. Se ao menos ele tivesse deixado aquele menino em paz naquela tarde há anos atrás... Se ao menos ele nunca tivesse recebido os bilhetes dele e deixado que ele o conhecesse. Se... ao menos eles nunca tivessem tido aqueles anos, aquelas memórias todas. Se nunca tivesse acontecido, aquele menino definitivamente podia ter sido mais feliz. Ele nunca... estaria chorando desse jeito, estaria?

Deixa meu ser que rememora

Sentir o amor.

Pelo longo tempo em que ele ficou no escuro, o ex-professor do rapaz andou pelas próprias memórias, como se numa imensa biblioteca, e cada livro fosse um momento da sua vida. Folheou carinhosamente os anos que passara ao lado do rapaz, até, finalmente, muito tempo ou tempo nenhum depois, ver a última recordação que tinha de Luciano. Se ao menos... nenhuma daquelas lembranças tivesse existido.

Ainda que amar seja um receio,

Uma lembrança falsa e vã,

E a noite deste vago anseio

Não tenha manhã.

Mas Luciano nunca soube dos pensamentos tristes, da poesia, dos sentimentos tão nobres e tão bobos daquela pessoa. Ele sabia que Afonso Henriques perdera a consciência e permanecera desacordado por um tempo que não sabia precisar quanto. Sabia que, quando a ambulância chegou, tão, tão tarde, ele já não tinha certeza se conseguia perceber o lusitano respirando.

– Podia... ter sido lindo. Era para ser. A morte parecia linda nas suas palavras, quando você lia e relia sobre ela. – murmurou. Afonso virou-se para olhá-lo, e foi pego de surpresa pela expressão torturada no rosto dele, que continuou falando. – Trágico, mas absolutamente lindo em sua essência. Como... quando Moema morria afogada tentando alcançar o navio que levava Diogo. – ele ergueu o olhar, e, pela primeira vez, ele não sorria. Pela primeira vez, ele... sofria abertamente, as lágrimas iluminando seus olhos dubiamente castanhos. – Mas, em tudo, foi como se... – sua voz falhou, e ele desviou o olhar. – Era você quem estava morrendo, mas eu que estava afogando.

O lusitano sentiu uma lágrima quente descer pela própria face. Odiava aquilo. Odiou ser comparado ao mar. Odiava ser culpado por ter afogado aquele menino.

Odiava o fato de que se apaixonara por ele de novo.

– Eu... – piscou, ao que outra lágrima seguiu a anterior, e ele não conseguia mais parar.

Porque se ele era a água amarga e cruel do mar, aquele menino era o deslize gentil das águas de um rio, irresistível como a correnteza, e doce, tão doce.

– Aposto que você gostaria de nunca ter me conhecido. – murmurou o lusitano finalmente, tentando um meio sorriso, mas falhando. Parecia que apenas Luciano era capaz de rir quando queria chorar.

Realmente, no segundo seguinte, Luciano deu um meio sorriso distante e balançou a cabeça em negativa.

– Você não entende... – murmurou o menino, carinhosamente afastando as lágrimas do rosto do outro. — Sim, parecia que eu estava me afogando, mesmo nos bons momentos, especialmente no último momento em que nós dois ainda... ainda estávamos juntos. – parou por um momento e fitou algum ponto à distância. – É... como é que se diz mesmo? Tinha um filme... Nós assistimos juntos quando... – quando minha vida era tudo o que eu queria que ela fosse, pensou consigo mesmo, mas as palavras nunca saíram de seus lábios. – Nós assistimos juntos, antes. – concluiu, a garganta um pouco apertada. – E, nesse filme, o principal sabia que morreria de uma doença que o consumiria aos poucos. E... ele decidia se afogar antes que isso acontecesse. Ele dizia... – pausou e manteve os olhos fixos em algum ponto qualquer. — “Eu quero finalmente terminar alguma coisa. Eu quero estar consciente quando eu me for. Eu... quero sentir alguma coisa, mesmo que seja a dor da água salgada nos meus pulmões. Eu quero sentir a luta. Algo... enorme, aterrorizante e corajoso.” — falou baixo, como se cada palavra contivesse em si um segredo, um lado desconhecido e assustador, e, ainda assim, deslumbrante. A verdade era desconhecida, assustadora, deslumbrante. A verdade é que ele sentia que seu ex-professor, seu poeta, sua nêmese, valia a pena. Enchia a sua vida de sentido, de felicidade e medo, de um sentimento enorme e assustador. – Eu nunca poderia me arrepender de ter te conhecido. – e, dessa vez, sorriu de verdade.

– Mas... e se eu nunca me lembrar?

O rapaz apertou-o contra o peito, suspirando. Por longos minutos, não disse coisa alguma, uma de suas mãos brincando com o cabelo castanho do outro, seus dedos fazendo carinho devagar.

– Uma vez você me contou uma história. – murmurou contra os cabelos do outro. – De que as pessoas morriam, e afundavam em um rio. Esqueciam de tudo. – calou-se de novo. Por alguns minutos, apenas sentiu o corpo do outro se movendo levemente quando ele respirava. – E quando voltavam, em outra vida, não lembravam da anterior. Quem sabe... – hesitou, incerto sobre as próprias palavras. Parou de mexer no cabelo do outro, trocando os fios pela mão, um pouco menor que a sua, apertando-a. – Quem sabe eu não te conheci uma vez, e também não me lembro? A gente pode... fingir que começamos agora.

Foi um sussurro, uma proposta tímida e incerta, mas também sincera e desesperada. Por longos minutos, o lusitano não respondeu. Também não se moveu, não se afastou do abraço reconfortante e aconchegante, da companhia, da quieta e suave felicidade. Queria aquilo. Mais do que tudo. Queria aquela pessoa em sua vida, queria outra chance. Fitou os números do relógio na sala por algum tempo, até finalmente falar.

– Em um minuto, vai ser ano novo. – murmurou. — Quando o ano virar... vamos fingir que começamos a viver só a partir daí.

O rapaz ia dizer que não era fingimento. Que, de verdade, ele começaria a viver a partir daquele momento.

Mas antes que as palavras saíssem de seus lábios, os números no relógio dançaram por uma fração de segundo, e o ano virou.

O Arcano 19 – O sol

SIGNIFICADO DIVINATÓRIO

Satisfação. Contentamento. Relacionamentos favoráveis. Amor. Alegria. Devoção. Sentimentos altruístas. Noivado. Presságio favorável. Um casamento feliz. Prazer na existência cotidiana. Felicidade terrena. O contentamento deriva de oferecermos a mão para outro ser humano. As compensações de uma nova amizade. Prazeres derivados de coisas simples. Sucesso nas artes. Libertação. Habilidade para aceitar a vida conforme ela é e viver contente.

Notas finais
Não tenho palavras a não ser para agradecer quem quer que tenha lido esse capítulo. Espero que tenha ficado razoável e que me desculpem por tudo. Responderei os amabilissimos e maravilhosos reviews de voces. O poema do Afonso é do Fernando Pessoa e há referências a Machado de Assis por várias partes do texto xD Como eu disse, com certeza, vou terminar essa história. O próximo capítulo será o último, espero que, quem quer que ainda esteja lendo, fique contente com o final dessa longa saga! Muito obrigada mesmo, mesmo por tudo e um beijo enorme!