Boulevard Of Broken Dreams
33 Capítulo 33 - Pais e filhos
Notas iniciais
Scott chegou apenas no mês seguinte, para visitar a família e conhecer o novo irmão. De fato, ele geralmente só vinha visitá-los mais para o final do ano e/ou começo, uma vez que esse período do meio do ano era bem agitado onde ele trabalhava. No entanto, era uma ocasião especial, sua mãe não cabia em si de felicidade e Scott sabia o quanto significaria para ela se pudesse reunir todos os filhos embaixo de sua asa.
Foi dessa maneira que, em um dia agradável ( havia chovido um pouco pelo início da tarde, mas fora apenas uma garoa passageira), Scott bateu à porta de casa.
O caminho de volta para casa fora muito agradável. O dia estava absolutamente adorável e o jardim da casa de sua mãe continuava magnífico. Sorriu de leve. O quintal, as flores, aquela casa, aquela rua... tudo fazia parte das lembranças de uma vida muito feliz que tivera ali. A primeira apresentação de música que fizera e tivera a mãe sentada lá, tirando fotos e sorrindo; os almoços em família; as confusões e brigas entre ele e o irmão...
Riu consigo mesmo e balançou a cabeça. Estava sendo tolo e sentimental, mas podia culpar a tarde por estar sendo bucólica demais. Simplesmente deixou a pequena mala no chão e tocou a campainha.
– Scott! – disse Elizabeth, dando um sorriso de orelha a orelha ao ver o filho mais velho. De fato, ela atendera a porta tão depressa que ficara um tanto óbvio que ela estivera contando os minutos para vê-lo de novo.
O rapaz sorriu de volta e abraçou a mãe. A senhora batia na altura de seu peito, no máximo, o que era engraçado. Era sempre estranho ficar mais alto que os pais. Muito embora Elizabeth sempre dissesse que achava muito bom que eles tivessem ficado mais altos que ela. Era sempre ótimo ter alguém para pegar as coisas de cima dos armários...
– Entra. Seu irmão está na sala. – disse a senhora, dando espaço para o filho passar. – Temos alguns de seus favoritos hoje no almoço. – continuou ela. – Seu novo irmãozinho está dormindo agora, assim que ele acordar, vocês podem se conhecer. – disse ela, com um meio sorriso.
Ambos seguiram em direção à sala, a fim de que Scott cumprimentasse Arthur antes de deixar a mala no quarto. No entanto, para a surpresa do irmão mais velho, o loirinho não estava sozinho na sala. Scott franziu o cenho, um tanto irritado. Tinha um sujeito meio espalhado no sofá, com um braço ao redor dos ombros do seu irmão mais novo, que parecia irritado com alguma coisa.
De fato, era apenas a discussão deles de cada dia, que terminaria como a maioria delas terminava. Antes que Elizabeth pudesse anunciar a presença de Scott aos dois distraídos no sofá, Alfred puxou o loirinho pela nuca e o beijou, ignorando os protestos de Arthur.
Scott arregalou os olhos e congelou onde estava. Uma pequena veia parecia ter-lhe saltado na testa.
Elizabeth pigarreou, ao que os dois se afastaram imediatamente.
– Ahn... Filho, esse é o Alfred. – começou ela, indicando com a cabeça o garoto. Tentou manter seu tom o mais natural possível, embora a situação fosse meio... atípica. – Bem, ele é o namorado do Arthur.
Scott apertou os olhos. Namorado? Aquele, aquele, aquele idiota? Além de desleixado, se o tênis imundo dizia alguma coisa. Para piorar tudo, a primeira coisa que vira do sujeito fora ele beijando seu irmão mais novo à força. Imagine, imagine....
O irmão mais velho de Arthur levou uns dez segundos, mas pareceu recuperar-se do choque. Respirou fundo uma vez. Duas. Três. Sentou-se no outro sofá, com cara de desinteresse.
– Ehh... Então você está namorando o Arthur... – comentou ele, olhando-o de cima a baixo.
– Está, algum problema? – rebateu Arthur, irritado.
Scott deu de ombros.
– Se ele quer mesmo namorar você, o que eu posso dizer? Gosto não se discute, se lamenta. – cutucou ele. Arthur arremessou uma almofada na cara do irmão, contentando-se em cruzar os braços e morder a língua antes que soltasse um palavrão na frente da mãe. Scott catou a almofada e arremessou com força na cara de Alfred, levantando os cabelos dele e derrubando seus óculos.
– Desculpe, eu queria acertar o Arthur. – desculpou-se o ruivo com um sorrisinho sacana. Alfred estava morrendo de vontade de atirar a almofada de volta naquele infeliz, mas estava sem óculos e não enxergava de longe. Muito irritado, passou a procurar os óculos, torcendo para que eles não tivessem quebrado. Depois de alguns instantes, sentiu quando Arthur pegou sua mão e colocou seus óculos sobre ela.
– Obrigado. – murmurou, assim que voltou a enxergar a mais de meio metro da própria cara.
Scott assobiava calmamente sua canção favorita ( Scotland, the brave, por sinal) e passava mensagens em seu celular.
– Bem, já que estamos todos apresentados, vou colocar a mesa do almoço. – tomou a palavra Elizabeth, que desistira de intervir na briguinha, meramente revirando os olhos e suspirando. — Arthur, querido, me ajude aqui. – chamou ela. Uma vez que os outros dois rapazes eram visita, eles não foram chamados para ajudar com as tarefas.
Scott esperou pacientemente os dois saírem da sala até se levantar abruptamente do sofá e parar na frente do garoto. Ergueu-o pela gola da camiseta e sacudiu-o um pouco, quase fazendo os óculos do outro caírem de novo.
– Escuta aqui, seu almofadinha. – rosnou ele. – Qualquer gracinha pro lado do meu irmão e eu arranco a sua pele, faço uma gaita de fole com ela e ainda aproveito o seu sangue para temperar whysky, entendeu?
Alfred piscou atônito por cinco segundos. Foi sacudido outra vez e largado no sofá um segundo antes de Elizabeth voltar à sala, muito sorridente.
– Vamos, meninos?
Scott deu um sorriso agradável e foi na frente, seguindo a família até a sala de estar, parecendo muito contente consigo mesmo. Alfred vinha espumando de raiva atrás, mas calado. Não tinha como armar um escândalo contra o pródigo filho mais velho que voltara para casa visitar a família.
E, embora ele não fosse admitir nunca, Alfred achava o irmão mais velho de Arthur assustador.
No entanto, Alfred parecia que não era o único a achar isso. Peter pareceu ter uma opinião semelhante.
Lá pelo final da tarde, a criança pareceu cansar-se da paz e silêncio, pondo-se a chorar assim que acordou. Elizabeth foi até ele, seguida dos outros três rapazes. O mais novinho dos Kirkland riu para Elizabeth e Arthur assim que eles entraram em seu campo visual.
No entanto, assim que ele viu Scott, as coisas foram um pouco diferentes.
Peter abriu o maior berreiro da história assim que viu aquela criatura de cabelos muito vermelhos aproximar-se de si. Por mais que Elizabeth tentasse apaziguar os ânimos, a criança só parou de chorar quando Scott saiu do quarto.
– Pobre Scott. — lamentou a senhora. — Eu vou lá falar com ele. — disse a senhora, passando o bebê para o colo de Arthur.
O loirinho ajeitou-o em seus braços com facilidade. Acostumara-se realmente a cuidar de Peter. Elizabeth ainda era ocupada, então ele ajudava quando podia dando a mamadeira na hora certa, dando banho, ocasionalmente acudindo quando o irmãozinho desatava a chorar. Claro que ela ainda fazia a maior parte do trabalho, que incluía acordar de madrugada, mas Arthur aprendera o básico.
Alfred aproximou-se dos dois e sorriu. A criança imediatamente riu para ele, ao que Arthur revirou os olhos, em leve frustração. Peter tinha um favoritismo quase injusto por Alfred.
Elizabeth voltou ao recinto em alguns minutos, encostando a porta.
– O Scott disse que volta depois, quando o Peter estiver dormindo. — disse ela ao entrar. Arthur devolveu a criança ao colo da mãe, ainda que Peter parecesse querer ir para o colo de Alfred. Jogou os bracinhos na direção dele e fechou a cara quando não conseguiu o que queria. O garoto sorriu um pouco de lado.
Elizabeth riu com a situação. Alfred aprendera a segurá-lo no colo, mas geralmente não o fazia com muita frequência por receio de deixar o menino cair no chão. Mas, de um modo geral, gostava de brincar com a criança.
– Não, não, deixe o Alfred. – riu a senhora, fitando o bebê em seu colo. Olhou os olhos claros dele e sorriu de leve. – Engraçado. Ele realmente tem os seus olhos...
Arthur calou-se. Seria mentira se dissesse que nunca tinha reparado.
Elizabeth foi dar o leite à criança ( leite materno, que ficou combinado que ela receberia uma parte enquanto Peter estivesse na fase de aleitamento materno.) e em seguida colocou-o para dormir. Ela mesma foi se deitar por volta de sete horas da noite. Scott fora rever alguns conhecidos e Alfred ficara conversando com Arthur até um pouco mais tarde.
Obviamente, sua primeira pergunta a Arthur fora sobre quando seu irmão mais velho ia embora.
– O Scott deve voltar para Escócia semana que vem. – respondeu Arthur distraidamente. No entanto, ouviu um suspiro aliviado por parte do garoto. Ergueu uma sobrancelha. – Nossa, eu achei que vocês tinham se dado bem até.
– Ahn... sim, nos demos sim. – gaguejou Alfred. – ele... só é um tanto implicante.
– Isso porque você não viu ele irritado. – riu Arthur, se jogando sobre a própria cama.
– Eu já vi o suficiente, obrigado. – resmungou o garoto, cobrindo o corpo de Arthur com o seu, até alcançar os lábios do loirinho, roçando-os nos seus. Arthur desviou-se e deslizou os lábios pela bochecha do garoto, beijando de leve a curva do pescoço dele.
– Vejo você amanhã? — perguntou, distraidamente entrelaçando os dedos nos cabelos de Alfred.
– Uhum... Você pode almoçar lá em casa. — respondeu o garoto, fechando os olhos enquanto sentia Arthur brincando com seus cabelos.
– E comer fast food? Não, obrigado. — respondeu o loirinho, com um meio sorriso.
– E se eu prometer fazer comida? Juro que sei fazer macarrão. — murmurou o garoto, sentindo-se um tanto sonolento.
– Hm... Sendo assim, acho que eu iria. — respondeu Arthur, recebendo um selinho por parte do garoto.
Antes que acabasse dormindo, Alfred decidiu ir para casa, e Arthur seguiu o exemplo de Elizabeth, indo dormir bem cedo. Em fato, sua mãe vinha dormindo cada vez mais cedo nos últimos tempos e parecia muito cansada. Talvez por causa de Peter. Mas Arthur se lembrava de ela estar agindo um pouco estranho antes até da adoção. Não estranho o suficiente para ser digno de nota. Era mais como... outra daquelas estranhezas do dia a dia, que ninguém prestava muita atenção. A vida corria muito rápido naqueles tempos para que uma pessoa se atentasse a tudo.
Quando Arthur saiu pela manhã, Scott ainda não havia chegado e Elizabeth ainda estava dormindo. Seu caminho até a casa de Alfred foi tranquilo e rotineiro. O garoto o esperava para que eles fossem ao mercado comprar os ingredientes necessários para o almoço. E, tirando Alfred tendo a brilhante ideia de brincar de correr pelo supermercado com o carrinho de compras, foi um passeio bem pacato.
Arthur chegara a se oferecer para ajudar com a comida, mas Alfred queria fazer tudo sozinho. E, para a surpresa geral do loirinho, ele sabia cozinhar. Mesmo que Arthur tenha discordado da quantidade de manteiga e queijo com que Alfred temperara aquilo, assim que colocou a primeira porção na boca, não encontrou o que dizer. Os olhos muito azuis do garoto o observavam atentamente, esperando uma reação. Arthur engoliu e tomou um pouco de água, com uma expressão pensativa.
– É... não está nada mal. – disse, tentando não soar muito impressionado. Deus saberia o que poderia acontecer se ele inflasse mais ainda o ego daquele garoto.
– Há! Eu disse! Cara, eu sou bom mesmo. – sorriu o garoto, servindo-se de uma larga porção e apreciando o próprio feito.
– Sorte. – resmungou Arthur, cruzando os braços.
– Diga o que quiser, eu estou certo. – cantarolou o garoto, tomando um pouco de refrigerante para tirar o gosto. Quando pareceu-lhe doce o suficiente, levantou-se da cadeira e roubou um beijo de Arthur, que fez um som levemente indignado, mas retribuiu. Entreabriu os lábios levemente e sentiu a língua do garoto contra a sua, ao mesmo tempo em que ele movia os lábios lentamente. Alfred afastou-se um pouco e apenas roçou os lábios nos do loirinho, como que se deleitando do fato de que tinha intimidade o suficiente para permanecer a uma distância tão ínfima. Arthur aproximou-se um pouco mais, tornando o selinho um beijo sem língua.
Um celular começou a vibrar sobre a mesa, ao que os dois se afastaram.
– É o seu, Alfred, o meu tá sem bateria. – disse o loirinho. O garoto voltou a se sentar e achou o próprio celular atrás da panela de macarrão.
– Oi. – atendeu o garoto preguiçosamente. Seu cenho franziu e ele sentou-se melhor na cadeira. – Scott?
– Alfred, me escuta. – a voz dele tremia levemente, e ele falava um tanto rápido demais, embora estivesse tentando se manter calmo. – Meu irmão está aí com você?
– O Arthur? Está, por quê? — a conversa chamou a atenção do loirinho sentado ao seu lado.
– O que ele quer? — perguntou Arthur, um tanto alarmado.
Alfred fez sinal com uma das mãos, pedindo que Arthur ficasse quieto enquanto ele tentava falar com Scott.
– Olha, avisa que a nossa mãe está passando muito mal e que eu preciso que ele volte para casa e fique com o Peter. Eu estou indo pro hospital.
– Ok, e-eu aviso. – disse o garoto rapidamente, embora não tivesse certeza se Scott ouvira. A ligação terminara abruptamente.
– O que aconteceu, Alfred? — interpelou Arthur imediatamente.
– Era o seu irmão, você precisa voltar para casa. — disse o garoto, levantando de sua cadeira e colocando a panela dentro da geladeira de qualquer jeito.
– O que aconteceu? — tornou o loirinho, levantando-se também.
– Sua mãe passou muito mal e eles estão indo para o hospital. — disse Alfred, de uma vez.
– O quê?! O que ela tem? — perguntou Arthur, visivelmente atordoado.
– E-eu não sei, ele não me explicou. — respondeu o garoto, nervosamente.
Arthur saiu da cozinha quase correndo e alcançou a porta da frente, seu coração batendo com força contra a sua garganta.
– Me espera, eu vou com você. — disse Alfred, alcançando-o antes que ele saísse.
Arthur assentiu e segurou a mão do garoto, apertando-a na tentativa de se acalmar. Assim que chegaram à sua casa, o loirinho fez menção de entrar, mas Alfred tomou as chaves de sua mão e sorriu de leve.
– Pode ir lá no hospital, eu fico com o Peter.
Arthur fitou-o por um momento inteiro. Seus olhos esverdeados piscaram algumas vezes, até que um breve sorriso abriu-se em suas feições. Houve um breve murmúrio em que ele agradeceu ao garoto antes de sair correndo. Não chegara nem perto de expressar o quanto estava grato pelo gesto de Alfred, mas esperava ter a oportunidade depois. Seu coração parecia estar sendo esmagado pelo medo, pela falta de notícias, por não poder nem ao menos estar ao lado de Elizabeth, quando pela primeira vez ela precisara.
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Alfred fechou a porta atrás de si e respirou fundo. Sinceramente, às vezes não sabia o que lhe dava na cabeça. Que loucura. Parecia haver uma pedrinha de gelo na boca de seu estômago e suas mãos suavam um pouco quando ele subiu até o quarto de Elizabeth e olhou Peter no berço. Respirou fundo de novo. Era muita responsabilidade. Para a sua sorte, a criança parecia estar cochilando.
O garoto olhou em volta, não muito à vontade. Pensou em se sentar, mas só havia a cama da mãe de Arthur e lhe pareceu esquisito sentar ali. No entanto, não era como se ele pudesse passar a tarde inteira em pé, não é mesmo? Pensou por alguns momentos, ate que decidiu levar o berço até o quarto de Arthur. Afinal de contas, aquele negócio tinha rodinhas por um motivo, não? E depois era só devolver para o lugar que ninguém ia nem dar pela falta.
Deu de ombros e sorriu consigo mesmo. Quietamente, segurou o berço e moveu-o pelo corredor até o quarto do loirinho. O mais lentamente possível, empurrou o móvel, constantemente verificando se a criança estava dormindo.
Mas exatamente na porta do quarto de Arthur, o garoto acabou esbarrando o berço contra o portal, fazendo Peter acordar. Ao olhar para cima e não ver ninguém, ele começou a chorar.
– Shhh... Não, não. – murmurou o garoto, inclinando-se e olhando para a criança. O choro parou, mas o irmãozinho de Arthur inclinou-se na sua direção, querendo colo.
– Merda, merda... – murmurou o garoto. Respirou fundo e tentou conter o nervoso. Fechou os olhos e lembrou-se do que Arthur dizia sobre como se segurava uma criança. Ok, cuidado com as costas e a cabeça, dê apoio, seja firme.
– Muito bem, Alfred, acalme-se. Você já fez isso, você é capaz. – murmurou consigo mesmo. — Um, dois. — Respirou fundo uma última vez e pegou o bebê no colo. Estranhamente, a criança parecia se encaixar perfeitamente nos seus braços. Alfred abriu um sorriso muito largo, ao que foi espelhado pelo bebê, que voltou a rir. O garoto piscou algumas vezes, um tanto atordoado. Era tão estranho. Aquela risada era tão alegre, tão... parecia gritar com todas as forças que estava viva, que estava se divertindo naquele mundo tão novo. Alfred sorriu de lado e empurrou o berço com o pé para dentro do quarto.
Então, sentou-se na cama e ficou brincando de fazer caras engraçadas para a criança, fazendo-a a rir e ouvindo-se rir também. Logo, o sono pareceu voltar e o bebê voltou a dormir. Alfred aproveitou a oportunidade e colocou-o de volta no berço. Esticou os braços, alongando-se um pouco e respirou fundo. Fora um tanto tenso, mas bem melhor do que ele imaginara.
Seu celular voltou a tocar, ao que ele atendeu rapidamente.
– Alô?
– Alfred? É o Scott. Deu tudo certo aí? – a pergunta veio imediatamente, sem muitos floreios e cumprimentos.
– Ah, sim. Eu fiquei aqui com o Peter, o Arthur foi até aí. Ele estava muito preocupado, achei melhor ele ir.
Scott calou-se, surpreso. Não... imaginava que Alfred se importasse tanto.
– Ahn... isso é ruim? – tentou o garoto diante do silêncio que se seguira.
– Não, não é isso... – murmurou o rapaz do outro lado da linha. – É só que... bem, sobre o motivo da internação... – hesitou e voltou a se calar. Permaneceu alguns instantes em silêncio. — Não fala disso com o Arthur, ok? — pediu finalmente, o tom baixo e muito sério.
– Por que não? – interpelou o garoto imediatamente.
– Porque... ele vai se sentir culpado. Ela passou mal depois de uma ligação que ela recebeu da família, pelo visto um dos nossos primos viu você e o meu irmão juntos na rua e... Bom, você sabe como essas coisas funcionam. Eu sei que a discussão foi muito feia e ela acabou passando mal, quando eu cheguei ela estava caída no chão. — continuou o rapaz, nervosamente bagunçando os cabelos com uma mão e contendo a vontade de puxar um cigarro do bolso. Estava tentando parar. — Enfim. Como ele foi o motivo da briga, acho melhor o Arthur não ficar sabendo disso. Afinal, isso nem importa mais. Ela está melhor, e isso é tudo. Se ele perguntar, foi... sei lá, estresse acumulado, cansaço.
– ... por que você está me dizendo tudo isso? – perguntou o garoto finalmente. Se... aquilo nem ia chegar em Arthur... por que Scott estava lhe dizendo aquelas coisas? Claro que Alfred estava morto de ansiedade e preocupação, mas não achava que Scott se importaria. Ao menos não o suficiente para abrir uma situação a ele dessa maneira. — Achei que você não gostasse de mim.
Scott suspirou. Mesmo que nem fosse com a cara do garoto, tinha que admitir que ele estava ajudando. A verdade era que ele achava, de certa forma, que Alfred parecia fazer bem a Arthur. Seu irmão parecia... mais feliz. Talvez... o garoto nem fosse tão ruim. Mas não era algo que ele diria em voz alta. Avistou Arthur se aproximando pelo corredor do hospital, quase correndo. – Preciso desligar. Não esquece de dar a mamadeira daqui a pouco.
– O quê?! Não, não, Scott, pelo amor de Deus, eu não sei fazer isso!
– Até mais. – disse ele, encerrando a ligação. — Arthur, você já pode entrar, se quiser. — disse o rapaz ao se aproximar do irmão mais novo. O loirinho assentiu brevemente e se encaminhou até a porta que Scott lhe indicara em um aceno com a cabeça.
Arthur entrou em um quase atropelo no quarto, abrindo a porta abruptamente. Apenas quando seus olhos se detiveram na figura da senhora sentada na cama, sua postura relaxou e ele sentiu um peso enorme sair de seus ombros. Com um suspiro, fechou a porta atrás de si e aproximou-se devagar. Sentou-se na cadeira ao lado do leito e olhou nos olhos de Elizabeth.
– Mãe, a senhora tem certeza de que está bem? — ela parecia tão... frágil. Desde quando ela estava com aquela expressão tão cansada? E tão pálida..?
– Tenho, menino, tenho. – disse ela, revirando os olhos. — Ou acha que vai se livrar de mim assim tão fácil? – sorriu ela, pousando uma das mãos sobre a cabeça do filho.
– ... não tem graça. – murmurou Arthur, com um nó na garganta. Seu olhar tremeu e ele voltou a se calar. Como ele não tinha reparado em nada de errado?
– Ah, Arthur... não precisa ficar assim. – suspirou a senhora. — Você não tem com o que se preocupar, mesmo que aconteça alguma coisa comigo. Eu te criei muito bem, sabe, modéstia a parte. Você saberia se virar sozinho. – ela esteve muito, muito séria dizendo aquilo, o que assustou um pouco o loirinho. Ela talvez tivesse reparado no medo que se espelhou por um breve momento nos olhos verdes do filho, porque voltou a sorrir e seu tom tornou-se ameno. — E, claro, conseguiria cuidar do Peter também.
– Eu nunca nem conseguiria a guarda. – riu ele fracamente, balançando a cabeça.
– Claro que conseguiria. Deixei bem claro nos termos de adoção que a guarda jamais irá para a minha família. Imagina, jogariam o menino de volta no orfanato. – resmungou ela. — E Scott não leva muito jeito para a coisa. – sorriu ela. – O pobre Peter nunca viu alguém tão ruivo na vida, parecia que tinha visto uma assombração.
A senhora riu um pouco, ao que Arthur acabou por fazer o mesmo. Parou por um momento e segurou a mão dela. Seus dedos entrelaçaram e desentrelaçaram algumas vezes, ao que ele não disse coisa alguma. Sua mão já era bem maior que a dela. E agora, era como se ele a estivesse protegendo, e não o contrário. A senhorinha notou e deu um sorriso nostálgico. Ah, eles cresciam tão rápido. Mas... ela também pareceu aliviada em constatar aquilo, embora Arthur não pudesse entender porquê.
O loirinho continuou calado pelos minutos que restaram de sua visita. Havia uma porção de sentimentos explodindo em seu peito, mas ele não sabia expressar nenhum. Não como queria, não como eles eram. Era gratidão, em maior parte. Àquela pessoa ali deitada. Adoração. Mas também era certa... melancolia. Arthur não entendeu o motivo, mas sentia-se profundamente triste.
Sentiu um carinho em sua bochecha, ao que se sobressaltou e tornou a olhar para a sua mãe.
– Não chora, meu anjo. – disse ela, para um Arthur estupefato.
– Eu... não estou chorando. – murmurou ele fracamente.
– Mas assim parece que você vai, a qualquer momento.
Arthur calou-se.
A visita acabou antes que ele pudesse pensar em algo para dizer. Então, ele meramente tomou a mão da senhora e beijou em silêncio. Porque talvez não houvesse gesto que pudesse expressar melhor a gratidão e a adoração, assim como a melancolia, como um beijo distante como aquele. Seus olhos verdes cravaram nos dela por um momento, até que se desviaram e ele seguiu a enfermeira.
– Filho...
O loirinho se virou para olhar.
– Amo você.
– Eu também. – disse ele, com um quase sorriso.
Arthur quietamente saiu e fechou a porta.
Scott o viu saindo do quarto, e alcançou-o em alguns passos. Mas seu irmão não virou para olhá-lo. Arthur continuou a fitar o chão vagamente, com uma expressão de dor que nem ele próprio saberia explicar.
– Arthur?
O loirinho virou e o olhou por um momento, mas não disse nada. O outro rapaz também se calou, porque não sabia o que dizer para ajudar. Scott pousou uma mão sobre o ombro de Arthur e apertou levemente.
Arthur pareceu surpreso por um momento, mas sua expressão aliviou. Scott sorriu de leve e resolveu falar, um tanto que para acabar com aquela tensão no ar.
– Acabei de ligar para o babaca do seu namorado. – começou, recebendo um soco nos ombros por parte do irmão. Riu um pouco. – Acho melhor você voltar para casa, ele está meio apavorado em dar a mamadeira. Ele realmente acha que o menino vai engasgar.
Arthur revirou os olhos. Francamente, Alfred.
– Uma criança cuidando de outra, onde eu estava com a cabeça quando o deixei lá? – disse ele, com um meio sorriso.
– Volta para casa, toma um banho, qualquer coisa eu ligo. – disse Scott, com certa tranquilidade. – Eu ainda preciso ver uns papéis aqui, nada importante, certo? Eu também já devo estar voltando.
– Ok... – concordou Arthur, vendo-o ir até uma das enfermeiras e seguindo-a até o balcão. Deu de ombros e percorreu o longo corredor até a saída.
De fato, quando chegou em casa, Alfred o recebeu com alívio evidente. Peter começara a chorar tinha cinco minutos e ainda não havia parado. Cinco minutos era um tempo pequeno para se esperar pela condução, para esperar a vez de ser atendido em uma lanchonete, para achar uma vaga em um estacionamento. Mas cinco minutos era absolutamente a eternidade se fossem passados ouvindo uma criança que nem era sua chorar a plenos pulmões.
– Arthur, graças a Deus! – exclamou o garoto assim que o viu. O loirinho imediatamente tomou o irmão mais novo no colo e assumiu o turno. De fato, as coisas correram bem depois daquilo. Depois de alimentado, Peter pareceu muito contente em dormir. De fato, provavelmente não havia nada de muito mais interessante a se fazer quando se é um bebê. Embora brincar com chaveiros e coisas afiadas também figurasse na lista das coisas mais interessantes na vida do mais jovem dos Kirkland.
A noite chegou aos poucos, e lá por umas dez horas, Arthur e Alfred concordaram em pedir uma pizza. Houve apenas a tradicional discussão a respeito do sabor, mas nada fora do comum. Eles permaneceram à mesa ainda mais uma hora depois de terminarem de comer, conversando amenidades. O irmãozinho de Arthur voltara a dormir depois do próprio jantar ( bem mais cedo que o dos rapazes ), de modo que tudo estava bem silencioso. Na realidade, não havia outro som senão o das vozes dos dois na cozinha, sob a parca e aquecida luz amarela. Depois de um tempo, a louça foi deixada na pia e ambos subiram até o quarto de Arthur para dar uma olhada em Peter. A conversa alongou e continuou, ainda que mais baixa.
O som lá fora também minguou aos poucos. As luzes das demais casas foram se apagando e a hora foi avançando.
Mas nada de Scott voltar para casa.
Quando era uma e meia da manhã, o telefone da casa tocou. Um arrepio gelado percorreu a espinha dos dois rapazes. Arthur cravou seus olhos muito verdes nos do garoto. Não era um bom horário para se receber ligações. Nunca era.
Com o coração aos pulos, Arthur saiu do quarto, deixando Alfred sentado em sua cama e observando-o se afastar. Entrou no quarto de Elizabeth e atendeu.
– Arthur...?
– Scott?! Scott? Aconteceu alguma coisa?
– Arthur... eu... – começou ele, soando um tanto perdido.
– Scott. – o loirinho engoliu em seco. — Por Deus. Me diz o que está acontecendo.
– Arthur, ela... os exames dela... são... muitas coisas. — deveria ter contado a verdade, desde o início. Isso tornava tudo tão mais difícil. — Foi... de repente, o estado dela piorou muito e... Ela já tinha infartado uma vez, mas foi quando nós ainda éramos mais novos e... problemas coronários-
– Scott. – interrompeu Arthur, tentando manter sua voz firme e calma. Estava totalmente atordoado com o excesso de informações. — Eu não dou a mínima para isso. – mas as últimas sílabas ainda tremiam em seus lábios. — Eu só quero saber como ela está.
Scott não lhe respondeu.
– Me deixa falar com ela. – pediu Arthur, sua voz alteando um pouco, o nervosismo subindo pela sua garganta, quase trancando-a.
No entanto, seu irmão permanecera quieto.
– Scott. Por favor, fala comigo. – murmurou Arthur, em um fio de voz.
– Arthur, eu quero que você fique calmo e me escute. – por Deus.. a voz de Scott estava tremendo. Pior. Ele... ele parecia estar chorando.
– Scott, pelo amor de Deus...
– O coração dela não resistiu.
– O que v-
– Arthur...- começou ele, e o loirinho quase pediu para que ele parasse. Porque ele sabia o que ouviria depois disso. Ele sabia, sabia, sabia. Mas não suportaria aquilo. Seu irmão continuou, apesar de tudo. — Ela... ela se foi.
Houve silêncio, dessa vez por parte de Arthur.
–Arthur? Arthur!
O loirinho não respondeu. Sua mente parecia ter ficado... em branco. O que... o que Scott estava falando? Uma coisa assim não podia... acontecer. Não, não. Não em um dia como aquele... Um dia tão igual aos outros. Não... Ela nem era tão velha assim. Tudo bem, Elizabeth passara dos sessenta anos, mas aquilo não significava nada. Sua mãe entraria por aquela porta a qualquer segundo e estalaria um beijo em sua testa. Ela... bagunçaria seus cabelos de leve e diria que ele devia ir dormir. Ela não podia ter ido embora. Não assim. Ela nunca... faria isso.
– Arthur, eu preciso que você mantenha a cabeça no lugar. Eu vou resolver as coisas, amanhã eu vou para aí. Não faça nenhuma bobagem. Eu não vou perder você também.
Arthur devolveu o telefone à mesa lentamente, quase mecanicamente. Ele piscou algumas vezes, atordoado. O quarto estava escuro. Mas seus olhos verdes lentamente distinguiam a cômoda, os armários, a penteadeira, os perfumes de Elizabeth. Havia fotos dos filhos dela na mesinha de cabeceira.
Não podia estar acontecendo.
De algum jeito, aquele quarto, para onde Arthur já fugira tantas vezes quando era criança, pareceu... sufocante. O próprio ar parecia denso demais, o escuro era quase palpável. Sua garganta trancara e uma dor aguda e constante parecia se instaurar em seu peito. Aos poucos, a ideia, a própria ideia da morte pareceu... lentamente entrar na sua cabeça. Era... era real. Aquela maldita realidade... existia. Elizabeth tinha... ela... ela estava... morta. Ela nunca... voltaria a estar naquela casa.
Mas... não... podia ser verdade. Ele quase podia ouvi-la ao seu lado. A lembrança parecia nítida, parecia recente. Mas fora há mais de uma década atrás.
Dorme agora...
é só o vento lá fora...
E como se pudesse fugir da dor, o loirinho lentamente saiu do quarto. Então, fechou a porta devagar e encostou a testa na superfície de madeira. Seu punho fechou e ele tentou, por tudo nesse mundo, não chorar. Mordeu o lábio inferior com força quando sentiu as lágrimas transbordarem e sua garganta trancar. Socou de leve a porta, tentando ficar com raiva de alguma coisa para não sentir a dor da perda ou aquela solidão densa que se instaurava aos poucos. E ele não soube o que fazer com ela.
Como ele poderia esquecer? Daquela senhorinha gentil que estendera a mão a uma criança como ele, rejeitada, estranha e desajeitada? Daquela senhora que tanto já sofrera na vida, mas que ainda tinha coração suficiente para acolher a ele como filho? Ela o aceitou, mesmo quando soubera sobre Alfred. Não só aceitou como acolheu o garoto também. Arthur nem poderia mensurar o quanto ela significava, o quanto ele a amava, o quanto... doía. Chorou em completo silêncio, lembrando-se de tentar não acordar o irmãozinho que dormia.
Meu Deus, Peter. A realização atingiu Arthur como um tapa. Santo Deus, e Peter? O choro que ele ainda segurava transbordou com força e um soluço rasgou sua respiração. O que ele faria agora? O único que restara em sua família era Scott, e ele não tinha como se mudar de volta para a Inglaterra sem perder o emprego. E o que ele ganhava era suficiente apenas para sustentá-lo, não aos outros dois irmãos. O que quer que acontecesse, Scott não podia voltar. E, ao contrário do loirinho, que vivenciara com Elizabeth, Scott não tinha idéia de como cuidar de um bebê.
Arthur... estava sozinho nessa. Sozinho, órfão, dezenove anos na cara e uma criança que mal tinha sete meses.
Alfred ouviu o choro baixo vindo do corredor. Seu coração apertou e ele sentiu a urgência de ir até Arthur. Seus olhos claros recaíram sobre a criança no berço. Olhinhos muito azuis tinham se aberto e agora fitavam os seus, como se quisessem se certificar de que ele não iria embora. O garoto respirou fundo. Não podia deixá-lo sozinho, mas também não podia deixar Arthur sozinho. Tomou o bebê no colo e saiu do quarto.
Encontrou Arthur em frente à porta do quarto de sua mãe, chorando como uma criança.
– Arthur? Arthur, o quê... – a pergunta morreu em seus lábios quando o loirinho o fitou em total desespero. Ela...
– Eu... eu a perdi, Alfred. — as palavras de Arthur pareciam ter um efeito mais doloroso que o fio de uma navalha. Porque tudo que era posto em palavras, se tornava perturbadoramente... real.
O garoto sentiu as lágrimas deslizarem tão rapidamente que algumas nem chegaram a tocar seu rosto. Mordeu o lábio inferior e tentou lidar com aquela dor estranha no peito, como se sua melancolia chegasse a ser física, realmente doendo como se tivesse algo atravessado em seu peito. O olhar de Arthur recaiu sobre o embrulhinho de cobertores e ele fez um gesto mudo para segurá-lo. Alfred permitiu, com todo cuidado que podia desvencilhando o bebê de seu colo, enxugando o rosto assim que o loirinho assumiu seu posto. Respirou fundo e engoliu o nó em sua garganta, tentando colocar a cabeça no lugar, tentando achar força para amparar o loirinho, que com certeza, dos dois, era quem estava mais machucado com tudo o que vinha acontecendo.
Por longos minutos, Arthur apenas fitou a criança, sentindo-se perdido. Outras lágrimas voltaram a escorrer de seus olhos verdes, mas Alfred tirou-as do caminho. No entanto, pareceu surtir o efeito oposto, porque Arthur pareceu realmente entrar em pânico. Sua respiração veio quebrada e fora de ritmo, ao que ele tentava parar de chorar.
– Shh... Arthur, calma. – murmurou o garoto, tirando algumas lágrimas das faces do loirinho. Arthur quis odiar a voz gentil do garoto, quis odiar o carinho em sua bochecha, quis odiar aqueles olhos tão azuis que o fitavam. Mas ele não conseguiu. Provavelmente, nunca conseguiria.
Mas como ele queria. Porque... agora, tudo tinha mudado. Sua vida não era mais a mesma. Seus dias nunca mais seriam os mesmos. Arthur ia criar uma criança e sozinho. Ele não podia mais oferecer aquele tipo de amor quase adolescente, jovem e sem responsabilidades. Ele não podia mais ser a mesma pessoa que ele era antes. Alfred... não tinha motivos para ficar.
Arthur voltou seus olhos verdes para Alfred, que sentiu o coração apertar mais um pouco. O desespero de Arthur se refletia em suas pupilas dilatadas, que pareciam querer engolir as íris coloridas, ameaçando tornar tudo negrume, deixando apenas uma fina auréola esverdeada.
– A-Alfred. E-eu... – sua voz quebrou e ele apertou um pouco mais o irmãozinho no colo. – Ele não tem mais uma mãe. Ela... ela nos deixou, Alfred. – soava tão irreal. Seus olhos verdes voltaram a fitar o garoto. – O que eu faço? – sussurrou o loirinho, contendo as lágrimas que ameaçavam derramar enquanto ele tentava ser muito mais maduro que seus dezenove anos. – E-eu... Eu não tenho mais ninguém. E eu não posso deixar o Peter sozinho. – o embrulhinho quente em seu colo era lembrete de sua responsabilidade. Se dependesse da família de Elizabeth, aquele menino voltava para o orfanato, nem que fosse a última coisa que eles fizessem. – Mas! Mas, Alfred, eu... eu não sei o que fazer. – confessou em um sussurro perdido. E a faculdade? Como ele iria sustentar os dois? Como... ele iria fazer sem mais ninguém? E-e a guarda do irmão? Como... ele faria? Seu tom baixou e as lágrimas deslizaram em silêncio.
– Por que, hein Alfred? Por que eu? – por que ele sempre acabava sozinho? –– Alfred... — porque não era possível. Não era possível que o acaso machucasse uma só pessoa tantas vezes. — Alfred, me diz... – o olhar do loirinho se ergueu, verde, muito verde, destruído e encantador verde. — eu mereço ser feliz?
Não parecia caber mais dor na voz de Arthur. Porque as coisas nunca aconteciam certo na sua vida. Quando finalmente ele estava feliz, algo sempre acontecia. E ele já começava a acreditar que... não era alguém que merecesse algo de bom. Sua pergunta fora quase uma súplica. Como se ele implorasse para que alguém o convencesse do contrário. A última das esperanças que Arthur ousou ter era aquela. A de que ele podia ser feliz. Mas mesmo esse seu sonho tão simples pareceu absolutamente fora da realidade. Mesmo sendo infinitamente pequeno, pareceu... impossível.
Alfred abraçou o loirinho, tomando cuidado com a criança que dormia em seu colo. Seus dedos afundaram nos cabelos claros e bagunçados de Arthur e ele o trouxe para o mais perto possível, sentindo-o soluçar contra si, segurando o choro com tudo o que podia. Mesmo assim, mesmo com toda a determinação do mundo, sempre havia o momento em que a tristeza era dolorida demais, grande demais para corações tão pequenos como os nossos. O garoto sentiu as lágrimas de Arthur sobre o seu ombro, ao mesmo tempo em que o loirinho respirava fundo e o abraçava. Mas Alfred não tinha palavras. Ele não sabia o que dizer. Ele não sabia como... alcançar Arthur naquele momento.
Era um lugar realmente muito misterioso o país das lágrimas.
Só sabia que aquilo não podia acontecer. Não, não era certo Arthur chorar. Não era certo ele sofrer assim.
– Arthur. – o tom do garoto foi baixo, mas estranhamente reconfortante. Havia, no fundo da sua mente, uma vontade crescente e urgente de fugir. Mas também havia, no fundo do seu coração, uma vontade inexplicável de continuar ali. Ele respirou fundo, nervoso, mas decidido. — Você acha mesmo que eu vou te deixar sozinho?
Arthur afastou-se, seus olhos muito verdes fitando o garoto, chocados, alertas. O que... o que aquele garoto estava dizendo?
– Esqueceu? Ele tem os meus olhos. – disse e deu um meio sorriso bobo.
– Alfred, não tem graça. – a voz do loirinho veio chorosa e quase desesperada.
– Eu não estou brincando. – o garoto afundou os dedos nos cabelos cor de areia do outro, em um carinho leve. – Eu vou estar com você, Arthur, juro. – disse, suavemente, beijando o topo da cabeça do loirinho.
Falara por impulso. Não pensara nas dificuldades, nos sacrifícios, no futuro. Sabia apenas que ali, no presente, Arthur estava sofrendo. Ele estava chorando e Alfred não queria aquilo.
Talvez ele não tenha pensado direito antes de fazer uma promessa daquele tamanho. Mas, ele mesmo se perguntara, no dia em que conhecera Arthur: quando foi que pensar o ajudou em alguma coisa? Alfred era assim. E, francamente? Talvez, o fato de ele nunca pensar demais antes de fazer alguma coisa... talvez essa fosse a qualidade mais notável daquele garoto. Talvez o próprio idealismo dele, que o fazia acreditar que podia mover o mundo se quisesse... talvez fosse parte essencial da pessoa que ele era. Talvez fosse parte essencial de porque Arthur amava tão sinceramente aquele garoto tão tolo.
– A gente... dá um jeito. – murmurou, beijando o topo da cabeça do loirinho e o abraçando, tentando pensar no que fazer dali em diante. — Eu posso... sei lá, sair do meu apartamento pra conseguir te ajudar com ele aqui. Ou você pode ir pra lá e a gente vende essa casa. Eu posso achar um emprego melhor...
Arthur fechou os olhos e voltou a deitar a cabeça no ombro do garoto. Estava cansado, triste e vulnerável. Mas sentiu-se inexplicavelmente mais leve quando Alfred o abraçou. Mesmo os planos improvisados e as soluções temporárias que ele propunha, tudo aquilo, de algum jeito, significava muito para Arthur. Sentia-se péssimo em jogar um problema daqueles nos ombros do outro, mas não podia negar que precisava muito dele, naquele momento mais do que nunca.
Beijou de leve o ombro do garoto, silenciosamente, um gesto que ele fez quase por si mesmo. Porque assim ele podia se convencer de que Alfred realmente estava ali. De que ele não estava completamente sozinho, apesar do sentimento de abandono, do medo do futuro, da tristeza. Seu irmãozinho ainda dormia silenciosamente em seu colo, protegido pelos braços de Arthur, que se viu abraçado por Alfred. Seus olhos muito verdes embaçaram de lágrimas e ele conteve um soluço.
Não eram mais que três meninos sozinhos parados em um corredor vazio, no meio da noite, tentando achar um rumo agora que tinham perdido a mãe.
– Alfred... – o murmúrio veio abafado, uma vez que Arthur ainda não desistira do abraço do garoto.
– Hm?
–... te amo. – foi baixo, mas Deus sabia o quão sincero era. Nunca tinha pensado que... Alfred permaneceria ao seu lado mesmo que fosse para passar por um problema daquele tamanho. Nunca tinha pensando que o amor podia ser algo assim. Tão distante do que podiam lhe contar os livros, tão diferente do romance comercial dos filmes, tão longe dos namoros descartáveis que se multiplicavam pelo mundo. O amor que ele conheceu, naquele instante, era completamente diferente. Não, não era perfeito; mas, Deus, estava lá quando todo o resto desabava. Arthur podia sentir os braços do garoto ainda abraçando-o, inegavelmente presente, inevitavelmente apertado, como se o garoto estivesse tentando juntar os pedacinhos que sobraram do loirinho. Arthur afundou o rosto na curva do pescoço do garoto. – Alfred, eu amo você. – murmurou em um fio de voz, exposto, cada palavra carregando uma sinceridade inegável, destilada pela dor que o consumia.
Alfred parou por um momento, surpreso. O mundo pareceu em suspensão naquele breve momento.
Era a primeira vez que Arthur dizia que o amava.
O garoto o abraçou apertado, sorrindo um pouco. Era estranho como ele podia sentir aquela pontinha de alegria, mesmo estando tão triste. Talvez a felicidade fosse uma das poucas coisas nesse mundo que tivesse tanta força a ponto de coexistir com seu oposto absoluto. Naquele momento, Alfred foi feliz e infeliz ao mesmo tempo. Porque o amor ainda era o arcanjo protetor dos paradoxos. Naquele dia tão triste, graças a ele, houvera uma pontinha de felicidade. Alfred sorriu e afastou a franja da frente daqueles olhos verdes, colando seus lábios aos de Arthur brevemente.
– Eu também amo você, Arthur. Você é tudo que eu tenho agora. – olhou-o nos olhos, tão certo do que dizia que sua voz não falhou nenhuma vez. Viu-se refletido naqueles espelhos esverdeados, notando o quão claro era aquela verde, o quanto eram sinceros os sentimentos daquela pessoa. O garoto sorriu de lado. Realmente, deixar Arthur nunca fora uma opção. Não quando sabia que ele era capaz de deixá-lo sem ação apenas por dizer que o amava.
Sem contar que... Arthur e Elizabeth o ajudaram tanto depois que ele saíra de casa. Mesmo que tudo tenha começado por Arthur, mais dia ou menos dia seus pais teriam descoberto que Alfred era... diferente. E ele nunca teria conseguido enfrentar tudo sozinho. Não sem a ajuda daquela família ali, tão pequena, e que tinha acabado de se tornar menor ainda. Não se Arthur não tivesse o abraçado e ficado ao seu lado.
Arthur voltou a deitar a cabeça no ombro do garoto, como que lhe dizendo que acreditava nele. Alfred beijou-lhe o topo da cabeça e enxugou mais algumas lágrimas teimosas, que insistiam em deslizar sobre o rosto de Arthur. Afastou-se um pouco e beijou-lhe a bochecha, sentindo-a esquentar quando o loirinho corou e desviou o olhar. O bebê remexeu de leve no colo de Arthur, ao que o garoto sorriu e beijou a testa da criança. – Amo você também, maninho!
Arthur balançou a cabeça, sorrindo de leve com a tolice de Alfred. Peter estava no décimo quinto sono e parecia completamente alheio ao mundo. Mas Arthur não podia dizer que não achara o gesto do garoto adorável.
– Ele deve conseguir dormir a noite inteira. – murmurou Arthur, checando as horas. – Vou colocar ele de volta no berço e tentar dormir. – disse, suspirando e beijando a mãozinha da criança, sentindo aquele cheirinho de bebê, doce e suave.
–É, você precisa mesmo descansar um pouco. – murmurou o garoto. – Dorme, amanhã eu volto e a gente pensa no que fazer, certo? – beijou o topo da cabeça do loirinho, sorrindo de leve.
Arthur assentiu, incerto. Disse que só ia colocar Peter no berço e voltava para abrir a porta para o garoto ir embora. Alfred foi descendo as escadas, deixando Arthur sozinho no corredor. O loirinho respirou fundo e entrou no quarto ---, delicadamente deitando o irmãozinho no berço. Por alguns instantes, ele fitou a criança, sentindo-se totalmente perdido. Como ele deveria seguir sem Elizabeth? Sem a gentil e materna senhorinha, que tivera coração o suficiente para acolher aqueles meninos?
O nó em sua garganta apertou e o loirinho afastou-se, apagando a luz. Fechou a porta, deparando-se com o corredor deserto. Foi tão estranho. Não havia luz no quarto de sua mãe. Ela não estava lá. Não havia luz no quarto de Scott. Ele também não estava lá. Arthur sentiu-se estranhamente... solitário. Sua casa de repente pareceu... grande demais. O que costumava ser familiar parecia frio e distante, vazio. Era tudo tão... deserto.
Respirou fundo, um tanto trêmulo, e desceu as escadas. Encontrou Alfred próximo à porta, encostado à parede, esperando-o. Arthur mostrou um sorriso que não alcançava seus olhos e pegou as chaves sobre a mesinha no canto enquanto encarava o garoto dar-lhe as costas.
– Arthur...? – o garoto virou-se e tentou chamar a atenção de Arthur, que meramente fitava as chaves em sua mão, mas sem fazer menção de abrir a porta. Não houve resposta por parte do loirinho. Em um instante, Alfred estivera fitando-o. No instante seguinte, viu-se prensado contra a porta, com Arthur beijando-lhe a boca com languidez e desespero, tudo ao mesmo tempo.
– Arthur? – o garoto tornou a perguntar assim que o loirinho se afastou, ambos completamente sem ar. – Arthur, eu tenho que ir. — Arthur, no entanto, simplesmente desceu os lábios e começou a beijar suavemente o seu pescoço.
– Fica. – murmurou o loirinho, afundando o rosto na curva do pescoço do garoto. Suas mãos seguravam fracamente a frente da camiseta que o outro usava. – Fica comigo. – murmurou Arthur, tentando tirar o casaco do garoto. Suas mãos tremiam e as lágrimas ameaçavam denunciá-lo.
E o garoto entendeu. Arthur faria qualquer coisa. Qualquer coisa para convencê-lo a ficar. Arthur só... não queria ficar sozinho
Alfred segurou os pulsos do loirinho e o afastou de si. Mas então o choro que Arthur tanto evitara, tanto contera a todo o custo, transbordou. Ele não conseguiria dormir ali sozinho naquela noite. Não com aquelas lembranças. Não com aquele vazio absurdo.
Não com aquele medo de que Alfred não voltasse na manhã seguinte.
– Arthur, pára. – foi baixo, mas estranhamente sério. Arthur pareceu magoado e ferido, ao que o garoto tornou a falar, dessa vez mais gentil. – Se você quiser, eu fico com você hoje. – soltou-lhe os pulsos e o abraçou apertado, sentindo-o soluçar contra si. – Francamente, Arthur, o que você acha que eu sou? Você não precisa se oferecer para mim só para eu ficar com você aqui. – beijou o topo da cabeça do outro, sentindo o coração esmagar a cada soluço que o loirinho dava. – é só falar pra mim, ok? – seus dedos entrelaçaram no cabelo claro de Arthur, em um carinho lento e reconfortante.
Arthur simplesmente deixou-se afundar no abraço do garoto, triste e despedaçado, embaraçado, sentindo como se tivesse tentado usar o garoto. Não era verdade, ele simplesmente não sabia mais o que fazer. Sua cabeça estava uma bagunça e seu coração estava um caos. O garoto o abraçou com força, tentando confortá-lo, tentando diminuir um pouco a tristeza daquela pessoa que ele amava tão sinceramente. Arthur fechou os olhos e abraçou o garoto de volta. Sentiu-se seguro o suficiente para desistir de segurar as lágrimas. Era difícil admitir que sua mãe nunca mais estaria ali. Ele apoiou a cabeça no ombro do garoto e chorou. Como há muito tempo não se permitia chorar. Chorou porque estava triste e assustado. Porque não sabia o que fazer. Porque doía. Porque ele não podia entender. Chorou porque simplesmente já não podia fazer mais nada. Por longos minutos, ele se permitiu quebrar na frente de outra pessoa. Seus sentimentos se expuseram e o seu coração ficou na linha de tiro. Qualquer coisa que Alfred dissesse poderia partir seu coração de uma maneira sem volta.
Mas, daquela vez, naquela vida e naquela sala de estar, o garoto não disse nada. Mesmo porque ele também começou a chorar em silêncio, as lágrimas deslizando devagar. Ele beijou o topo da cabeça de Arthur e apertou uma de suas mãos, daquela vez tentando não ferir o loirinho mais ainda.
Porque ele já tinha aprendido aquela lição. Nada de bom acontecia por se prejudicar alguém, ainda mais alguém a quem se quer tão bem. Ele nunca mais abandonaria Arthur. Nunca mais o deixaria chorando, como uma vez deixara, em um passado muito distante, em um campo de batalha já há muito esquecido.
– Desculpe. – murmurou Arthur, respirando fundo e lutando contra as lágrimas.
–Tudo bem, é sua mãe. – mesmo o garoto sentiu algumas lágrimas deslizarem em silêncio. – Ela era incrível.
– É. – o loirinho deu um meio sorriso, afastando-se um pouco e respirando fundo. – É melhor a gente dormir. Amanhã... – ele precisaria avisar a família. Ia ser um pesadelo. — Amanhã vai ser um dia difícil. – murmurou, abatido, ainda tentando se achar no meio daquele caos que sua vida tinha se tornado.
– A gente dá um jeito. – murmurou o garoto, beijando o topo da cabeça do loirinho.
Arthur deu outro meio sorriso, ainda triste demais para se parecer com um sorriso, e pegou na mão do garoto. Voltou a subir as escadas, encarando o corredor vazio e os dois quartos sem ocupantes. Decidiu-se pelo próprio quarto em que seu irmãozinho dormia. Depois de ter perdido alguém tão importante, Arthur percebeu que se sentiria melhor se estivesse perto do máximo possível de pessoas de quem ele gostava.
Alfred deitou na cama, abrindo os braços em um convite mudo de acolhida, que Arthur prontamente aceitou. Ele deitou no abraço do garoto, profundamente aliviado por não ter que passar aquele dia sozinho. Seus braços circundaram a cintura de Alfred, trazendo-o para perto.
– Obrigado. – murmurou o loirinho, sinceramente. Ele nunca conseguiria explicar o quanto aquilo significava para ele.
– Sem problema, Arthur. Sem problema. – murmurou o garoto, beijando o topo da cabeça do loirinho e puxando os edredons para cobrir a ambos.
Alfred permaneceu com os dedos entrelaçados nos cabelos claros de Arthur, fazendo um carinho distraído e pensativo. Seu outro braço circundou a cintura do loirinho. Arthur não disse nada, apenas apoiando a cabeça sobre o peito do garoto, por longos minutos apenas ouvindo o murmurar sólido do coração dele batendo. Sua garganta trancou e ele fechou os olhos, tentando não pensar em nada. Lembranças só serviriam para machucá-lo naquele momento. E ele não precisava de mais nada aprofundando a saudade dolorida que atravessava o seu peito.
Seus olhos esverdeados abriram novamente e ele encarou o tecido da camiseta branca que Alfred usava. A respiração dele vinha constante, estranhamente reconfortante. O carinho em seu cabelo significava que o garoto ainda estava acordado. Arthur fechou os olhos e respirou fundo, realmente grato por não estar sozinho. Chegou um pouco mais perto do garoto, realmente não se importando se aquilo o fazia parecer frágil. Ele estava pior do que isso. Não era fragilidade, era... desistência. Ele entendia que a vida dava suas surras eventualmente. Mas havia um limite até mesmo para a dor. Depois de um ponto, ela parecia perder o sentido. Lutar parecia tolice. E Arthur só não desejou amanhecer morto porque ainda não estava completamente sozinho no mundo. Porque não seria justo com Peter. Porque não seria justo com Scott. Porque talvez Alfred se importasse.
Os dedos do garoto entrelaçaram nos cabelos claros do loirinho, em um carinho lento e reconfortante.
E talvez, naquele dia, sem perceber, o garoto tenha sido mesmo um herói. Mas talvez também, tenha sido mais que isso. É sempre triste um lugar que precisa de heróis. Significa um lugar em que a morte permeia tudo, e as pessoas precisam de alguém que se sacrifique por todas elas. Então, talvez, Alfred não tenha sido um herói. Porque, por mais que aquele dia fosse triste, o fato de ele estar ali não era um sacrifício. Ele não estava fazendo aquilo por motivos idealistas. Estava ali porque... queria estar. Porque uma pessoa que ele amava precisava. Talvez ele não tenha dito tudo o que deveria, mas ele com certeza fez tudo o que podia. Alfred não foi um herói. Mas que diferença fazia? Às vezes o que uma pessoa precisa não é um herói.
Alfred continuou a olhar para o teto do quarto. Sentiu quando Arthur voltou a chorar, mas não disse nada. Não o impediu. Ninguém merecia engolir um choro que precisava ser colocado para fora. Deixou que ele chorasse o quanto precisasse, e isso foi até que Arthur acabasse adormecendo sobre o seu peito. Arthur não teve pesadelos naquela noite. Não estava com frio. Ele não estava sozinho.
Era estranho, mas um abraço podia salvar alguém.
O garoto tirou-lhe as lágrimas do rosto, beijando uma de suas bochechas. Abraçou-o com um pouquinho mais de força, trazendo-o mais para junto de si. Por um momento, temeu perdê-lo. Temeu não ter dito o que realmente importava antes que o tempo acabasse. Teve medo, realmente, muito medo. Então, prometeu a si mesmo que diria a Arthur que o amava assim que eles acordassem no dia seguinte.
No entanto... sabia que seu plano tinha uma falha em seu próprio cerne. Queria dizer o que importava antes que o tempo acabasse. Mas iria adiar suas palavras para o dia seguinte?
– Arthur. – murmurou baixo, finalmente. — Arthur.
Olhos muito verdes se abriram e fitaram os seus, um tanto alarmados, como se ele esperasse uma má notícia, como se ele esperasse que tudo desabasse ao seu redor outra vez.
– Amo você. — murmurou.
O loirinho o abraçou apertado, muito apertado.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar,
Na verdade, não há.
A criança continuou adormecida, alheia, quase misericordiosamente alheia ao fato de que acabara de perder a mãe. De que seu futuro agora dependia daqueles dois garotos deitados na cama ao lado de seu berço.
O que você vai ser
Quando você crescer?
Notas finais
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Scotland the brave é uma música maravilhosa, quem quiser conhecer: http://www.youtube.com/watch?v=GowMI4wvmU4 ( não me pertence, certo? Se alguém se sentir ofendido - não sei por que se sentiria, mas sei lá - eu tiro xD)
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A citação sobre o país das lágrimas é do Pequeno Príncipe, que também não me pertence ( ahvá u.u)
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E bem, sobre os demais casais, tenho as cenas, pensei muito se deveria incluir nesse cap ou não, mas decidi por não incluir. Esse capítulo já é muito grande e acho que não existe espaço nele para inserir os side pairings... Mas BrPt e franada voltam xD
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Sobre a história do leite materno, não sei como é a lei na Grã-Bretanha, nem nada, mas achei bom comentar porque todo mundo sabe que é importante leite materno u.u E achei maldade deixar o Peter a míngua xD Não sei como funciona em casos de adoção lá na gbr, só coloquei o que me pareceu mais razoável. A maioria das coisas eu pesquiso antes de colocar aqui ( acreditem, fui pesquisar até a média de temperatura kkkkkkkkk) , mas esse é um caso muito particular, pode ser que dependa de muitas coisas... E enfim, isso não é uma tese de direito xDD
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O título do capítulo e a estrofe do final fazem referência à música que acho que todo mundo aqui conhece. Cantada pelo nosso coleguinha poeta Renato russo xD Essa música é muito bonita...
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Um beijo muito especial para a Yuki, a Ju, homumoemura ( estou adorando a fic de vcs xD) Cath, Sir Arthur e Shirayuki! :DDD Que comentaram o capítulo passado, foram minhas inspirações e razões para seguir adiante! Mil desculpas a Shirayuki, por não ter respondido o review antes, mas a autora é muito baka e enviou respossta, mas acho que não deu certo. Devo ter atualizado a pagina sem querer, algo assim u.u Desculpe. Ja vou lá arrumar. E beijo, suas lindas!
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