Boulevard Of Broken Dreams

30 Capítulo 30 - Boulevard of broken dreams


Notas iniciais
Oláá 8D Antes que me perguntem, calma, ainda não é o último capítulo xD Não sei, eu achei que dava essa impressão depois que coloquei o título. Enfim, mas ainda não. xD
Além disso, peço muitas desculpas pelo tamanho do capítulo. Saiu realmente muito grande, eu não esperava. Mas decidi não parti-lo ao meio porque senão eu iria ter um problema com o número de capítulos xD
Enfim, tudo esclarecido, deixa eu ficar quieta, o resto é nas notas finais xD Boa leitura :D

A senhora piscou algumas vezes, sem reação. Então, pareceu se desequilibrar um pouco, pousando uma mão sobre o peito.

Arthur correu até a mãe e a fez sentar na cadeira que ficava ao lado da mesinha com o telefone.

– Mãe? Mãe! – chamou, segurando-a pelos ombros, provavelmente mais nervoso e assustado que ela.

Elizabeth balançou a cabeça e o tirou de cima de si.

– Eu to bem, to bem. Só... – ela tomou fôlego e levantou-se, colocando as mãos na cintura. – Arthur Kirkland, como é que você anda namorando e eu não estou sabendo? – disse ela, apertando os olhos e encarando o filho, que imediatamente desviou o olhar e recuou um passo diante do uso do seu nome completo.

– V-veja, eu ia contar, sabe. – começou Arthur, encontrando a expressão incrédula da mãe e ficando um tanto mais desesperado. — Juro! É só que aconteceu tanta coisa e-e sabe, e... eu não encontrei a hora certa de te dizer que eu... – droga, ele não queria que ela descobrisse daquele jeito que ele era gay. Quer dizer, nem ele mesmo tinha exatamente aceitado tudo isso, embora ele estivesse ignorando, muito mais do que pensando sobre o assunto. Foi meio de repente e, bem, Alfred era o primeiro garoto em que ele tinha se interessado então ele meio que era bi...? Mas como explicar? Arthur estava começando a pensar em uma explicação para aquilo, mas então o que ela disse lhe ocorreu novamente. — e... espera. – pediu ele, respirando fundo e erguendo uma mão. Era muito para a sua cabeça. — Está brava porque eu escondi que estava namorando?

– Sim. – respondeu ela, de imediato, ainda olhando-o feio. Arthur permaneceu um minuto inteiro olhando para ela.

– ... O Alfred é homem. – constatou ele tolamente.

– Sim. — ela lançou-lhe um olhar exasperado, ainda muito brava e aparentemente perdendo a paciência.

– ...? – Arthur tentou dizer alguma coisa, mas estava tão chocado que... simplesmente parou e olhou para ela interrogativamente.

Ela suspirou e voltou a se sentar, sua expressão suavizando.

– Ah, Arthur, é claro que eu fiquei surpresa, você já trouxe uma ou duas namoradinhas aqui pra casa, então... – começou ela, em um tom mais ameno.

Alfred mordeu a própria língua para se impedir de discutir com Arthur. Como assim, namoradinhas?

– Eu não tinha como adivinhar que você er- — continuou a senhora, mas foi interrompida pelo filho.

– N-nem eu exatamente sabia, se isso conforta a senhora. – resmungou Arthur, corando fervorosamente e desviando o olhar. Certo, garotas eram legais, e ele tinha atração por elas. Mas Alfred... sabia Deus o que era aquilo que ele sentia por Alfred. Que o fazia desejá-lo daquele jeito. Que fazia seu coração falhar uma batida toda vez que o olhar deles se encontrava.

A senhora o olhou seriamente e ponderou. Diante do silêncio do filho, chamou-o mais para perto e sussurrou.

– Você gosta dele de verdade, não gosta?

Arthur corou até a pontinha das orelhas. Ela o olhou muito seriamente, e ele se sentiu de novo uma criança sendo repreendida. Um tanto embaraçado, ele assentiu. Ela riu um pouco e se levantou, fazendo o caminho de volta à cozinha.

– Eu... – Arthur sentiu a própria voz tremer. Seu coração batia com tanta força que parecia que ia romper a qualquer momento.

– Hm? – sua mãe virou-se para olhá-lo e, naquele momento, Arthur verdadeiramente hesitou.

Então, respirou fundo, tomou coragem e perguntou o que mais queria saber, mas o que mais tivera medo de perguntar. — ...não está decepcionada comigo?

Arthur pareceu tão pequeno, tão assustado diante da possibilidade. Seus olhos claros fitaram a senhora com certo desespero, e cada fibra do seu corpo parecia tensa, fria de medo. Elizabeth sentiu o coração apertar um tanto ao vê-lo assim. Fazia muito tempo desde a última vez que vira Arthur tão assustado.

– É claro que não, Arthur. – suspirou ela, um tanto triste por Arthur ter pensado naquilo. — Você sabe que eu sempre vou ficar ao seu lado. Quando é que foi diferente? – e o olhar dela era muito honesto e claro. — Eu nunca mudei a minha vida pelo o que a minha família dizia, nunca deixei vocês apesar das críticas. Eu não me importo. Eu só não gosto de você escondendo as coisas de mim. – admitiu ela para um Arthur um tanto embaraçado por ter duvidado da senhora.

– Desculpe. – murmurou Arthur, dirigindo um olhar verde arrependido e embaraçado, daqueles que derretiam os coraçõezinhos das mães, Elizabeth não sendo exceção.

– Não faça essa cara pra sua mãe, vem cá. – disse ela, abraçando o loirinho e apertando-o contra si, embora ele fosse um tanto mais alto.

– Te amo. – foi baixo, mas extremamente sincero. Arthur abraçou a senhora com força, incapaz de encontrar algum outro jeito de contar sobre como ele a amava. Como ele era grato por ela ter entrado em sua vida. Ele nunca, nunca esqueceria aquela pessoa.

Elizabeth sorriu e o apertou contra si. Arthur era tão adorável, tão querido. Era verdade que ela já tinha imaginado como seria ter netos, que ela tinha imaginado uma vida completamente diferente para o filho. E era verdade que agora ela tinha medo do que o futuro reservava a Arthur. Tinha medo que ele sofresse. Mas também era verdade que ela não o condenaria. Porque ela mesma já fora condenada por ser estéril, o que não era sua culpa, assim como não era culpa de Arthur se ele acabasse por não lhe dar netos. Ela sabia o que era sofrer nas mãos da própria família e, se havia algo que ela se recusava, era repetir aquilo com seus filhos.

– Pronto, chega! – disse ela, respirando fundo e se afastando. – Não é nada bom fazer senhoras da minha idade se emocionarem assim. Arthur, vá lá na cozinha e tire aqueles scones para mim, certo? – disse ela, empurrando-o na direção da cozinha e fechando a porta assim que ele entrou. Arthur estranhou, mas não se opôs. Era um tanto que óbvio que Elizabeth queria falar com Alfred a sós.

Ela suspirou e ergueu um olhar muito sério ao garoto. Pela primeira vez, os anos pareceram pesar na maneira como ela olhava.

– Você tem certeza do que sente sobre o Arthur? – perguntou ela, baixo, fitando o fundo dos olhos claros do garoto.

– Eh? – a pergunta pegou Alfred de surpresa. Ele piscou algumas vezes, ainda sem entender.

– Ele está realmente sério sobre você. – murmurou ela, afastando-se da porta da cozinha, demonstrando que aquela era uma conversa só entre os dois. — Eu nunca o vi tão feliz quanto nesses últimos tempos. – confessou, com um meio sorriso doce, pensando em como Arthur tinha mudado desde que Alfred chegara. — E eu fico feliz também. Mas... – ela respirou fundo e olhou Alfred seriamente. — eu odiaria vê-lo de coração partido. – e, nesse momento, sua voz foi levemente intimidadora. Porque ela sabia que se Alfred estivesse brincando, Arthur inevitavelmente se machucaria. E isso ela não iria permitir.

– Eu... – o garoto parou por alguns momentos, respirando fundo. Seu olhar se desviou e suas bochechas adquiriram um sincero tom de rosa. — eu não sei nem explicar o quanto ele é importante pra mim. – murmurou, extremamente embaraçado com a própria sinceridade. – Eu... eu não acho que eu consiga amar alguém mais do que eu amo o Arthur. – sua confissão fora quase um sussurro, e talvez ele estivesse falando mais consigo mesmo do que com a senhora.

– Isso é bom. – e a expressão dela suavizou, mas ganhou uma pontinha de tristeza. – Quando ele precisar... fique ao lado dele, certo? – disse ela com um sorriso cansado, alcançando a mão do garoto e apertando-a.

Alfred olhou-a, confuso.

– O mundo é muito grande, Alfred. – disse ela finalmente. — E nem todo mundo vai aceitar vocês. Dentro da minha casa, vocês estão protegidos, mas lá fora, vocês estão sozinhos. – era verdade, muito verdade. Mas o garoto não tinha como imaginar. Ela suspirou, porque, no fundo, sabia que o sofrimento seria inevitável. — Mas vocês ainda vão ter um ao outro. Depois que meu marido foi embora de casa, eu senti o que era estar realmente sozinha. O Arthur também sabe como é isso. E, mais do que tudo nessa vida, eu gostaria que ele nunca mais tivesse que passar por isso.

– Eu não vou deixá-lo sozinho. Nunca mais. – e, por um momento, o garoto pareceu diferente. Todas as eras que ele já tinha visto pareceram pesar sobre a sua voz. A dor de perder Arthur permanecera cravada tão fundo, que para sempre Alfred temeria a ideia de perdê-lo de novo.

– Isso é ótimo. – disse a senhora em resposta, sorrindo e bagunçando os cabelos do garoto. – Sabe, Alfred. Talvez eu não pudesse esperar por uma pessoa melhor para estar com o meu filho. – disse ela, com um meio sorriso pensativo.

– O que vocês estão cochichando aí? – interrompeu Arthur depois de esperar alguns minutos na cozinha. Ele certamente não tinha muita paciência, embora tentasse parecer que tinha.

– Ah, eu estava dizendo que o Alfred podia até casar com você se ele abrisse essa geleia pra mim. – respondeu ela, rindo e piscando um olho para o garoto.

– Mãe! – disse um Arthur muito corado e indignado.

Alfred riu com a senhora, alcançando o vidro de doce esquecido no chão e abrindo-o, passando-o para a senhora.

– Hohoho... Obrigada, querido. – riu ela. — Arthur, meu filho, você pode tirar os scones do forno pra mim?

Arthur estreitou os olhos e saiu, um tanto desconfiado. Elizabeth esperou o filho entrar na cozinha, para só então puxar o garoto para o canto e começar a falar com ele em cochichos.

– Só para ter certeza, mas vocês ainda não...

– N-não! – respondeu Alfred imediatamente, tão embaraçado que sentia que poderia morrer de vergonha. Ele desviou o olhar, ainda sentindo suas bochechas fervendo.

– Hm, sei. – disse ela, não muito certa se acreditava. — Olha lá, hein. Eu quero vocês dois fazendo exames de rotina. E acho bom que vocês saibam colocar uma camisinha. Eu expliquei para o Arthur, mas não tenho certeza se ele entendeu ou se disse que tinha entendido porque achava muito embaraçoso que eu dissesse isso a ele. Sei lá se ensinam isso na escola. Bom, mas talvez ele já tenha... com alguma garota... – ela ponderou por alguns momentos, até dar de ombros. — Não sei se ele me contaria, agora pensando. Talvez se eu fosse o pai dele. Bom, mas enfim, sou mãe solteira, paciência.

– E-eu sei, sim, já tá bom, né? – gaguejou o garoto, desejando se esconder no buraco mais próximo, mortalmente envergonhado.

Ela riu e se afastou, indo continuar a montar a mesa do chá da tarde.

– Desculpe, querido, mas eu me preocupo com vocês. – disse ela, da porta da cozinha, com um olhar que também pedia desculpas.

Arthur logo voltou ao cômodo, encontrando um Alfred ainda muito corado.

– O que foi, Alfred? Você está vermelho, sabia? – comentou o loirinho, olhando-o interrogativamente.

– Uh... nada. – respondeu o garoto, respirando fundo e tentando se acalmar. Certo, a mãe de Arthur tinha razão. Mais dia, menos dia os dois acabariam transando e... Bem, agora que ela tinha falado, ele realmente não tinha muita noção do que fazer. Sendo bem realista, ele estava agradecido pela pergunta dela. Se não fosse por isso, talvez ele acabasse tendo uma primeira vez desastrosa com Arthur.

É, ele precisava ir atrás de algumas informações. E também procurar sondar o que o loirinho pensava, o que ele queria, entre muitas outras coisas. À bem verdade, Alfred não tinha pensado à longo prazo. Não era muito seu forte. Ele estivera tão feliz que era correspondido que nem pensara direito sobre o seu relacionamento com Arthur.

Mas agora que a mãe do loirinho sabia, o garoto sentia como... se seu namoro fosse oficial. Com certeza pensariam que ele era muito tolo por ter aquele tipo de pensamento antiquado, mas, secretamente, ele estava feliz. Mesmo que tenha sido embaraçoso e meio atrapalhado, não podia negar que tiveram sorte.

Arthur soltou um longo suspiro.

– Cara, eu não aguento mais um susto desses. – desabafou, revirando os olhos. – Achei que ela fosse ter um ataque do coração. – confessou, rindo um pouco.

– Você é muito bonitinho preocupado. – alfinetou Alfred, bagunçando os cabelos do namorado.

– É sério! – resmungou Arthur, inclinando a cabeça para longe da mão do garoto e tentando ajeitar os cabelos de volta ao lugar. – Uma vez eu vi uns exames dela de saúde, quem quase teve um ataque fui eu. – riu ele, lembrando-se de como ele repreendera a senhora pelos hábitos alimentares dela. — E hoje ela quase me mata do coração desse jeito. – disse ele, com um meio sorriso.

– É verdade. – disse o garoto, rindo também. Parou por alguns minutos, pensativamente. — Bom... mas deu tudo certo. – disse Alfred, suspirando e cruzando as mãos atrás da cabeça.

– Deu tudo certo. – respondeu Arthur quietamente. Ele cruzou os braços e sorriu de leve, seus olhos verdes cintilando em um tom muito claro e sua face perdendo, naqueles breves segundos, a expressão preocupada que ele sempre carregava. Um peso enorme parecia ter saído de suas costas. Alfred finalmente entendeu. Arthur sentia que estivera traindo a confiança de Elizabeth. E ela não era alguém que ele pudesse decepcionar. Não ela. Não depois de tudo que ela fizera, não depois da vida que ela lhe dera.

Alfred passou um braço em torno dos ombros de Arthur, beijando o topo de sua cabeça. O loirinho corou e resmungou um pouco, mas o garoto não prestou muita atenção. Arthur ainda parecia profundamente aliviado com o rumo que a situação tomara. Então, ainda que sem perceber, o loirinho apoiou a cabeça no ombro do garoto, que também sorriu de leve.

– Ah! – Arthur desencostou-se repentinamente. – Já que estamos nisso, acho que eu deveria apresentar você a elas, não?

– Elas quem? Arthur! Eii! – mas o loirinho meramente pegou sua mão e levou-os até o jardim, procurando fadinhas entre as roseiras. Elas riram e continuaram a se esconder. Nenhuma delas estava com pressa de ser encontrada. Afinal, todas elas já sabiam das novidades, mesmo sem Arthur contar. E pregar peças no amigo era divertido demais para deixar a chance escapar. O loirinho distraidamente continuou a procurar, enquanto o garoto o observava.

Alfred parou por um momento, fitando o amado ajoelhar por entre as roseiras e olhar entre as flores. A profusão de cores, o perfume, a voz de Arthur. Havia até mesmo uma réstia de sol iluminando aquele cantinho do mundo, lutando contra uma pesada camada de nuvens. O garoto sorriu e apertou a mão do loirinho na sua.

Era difícil não se sentir feliz em dias como aquele, em que o amor parecia tão possível.

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A pessoa que Luciano olhava era uma pessoa como qualquer outra. Claro que era. Quantos amigos seus não tinham exatamente aquela cor de cabelo? Aquele tom de castanha média, levemente tendendo ao chocolate? Um pouco ondulados, mas nem perto de serem cacheados?

Era verdade que ele conhecia muitos outros descendentes de portugueses, mas nenhum deles era parecido com Afonso. Simplesmente porque nenhum deles era seu namorado há mais de dois anos. Porque nenhum deles era tão adorável. Nenhum deles podia significar o que aquela pessoa ali deitada ao seu lado significava para si.

Porque aquele portuguesinho doce e irritadiço era... ele era especial. E mesmo dentro do próprio coração, Luciano não sabia encontrar uma palavra que pudesse definir. Uma palavra que pudesse ao menos expressar o que foram aqueles anos ao lado dele. Todas as vezes em que eles brincaram juntos, brigaram juntos, encararam a vida com todas as dificuldades que ela tinha... Tudo naquele espaço de tempo, tão precioso tempo, tão importante. Os melhores anos da sua vida, com toda a certeza. Os dois eram felizes e, no final, se completavam.

Eles se conheceram, brigaram, se apaixonaram, encontraram dificuldades e ficaram juntos. E, a partir dali, era o felizes para sempre. Ali, deveria começar o conto de fadas. Se era para ser assim... por que eles resolveram fazer aquela viagem? Por que aquele carro bateu? E por que, quando aquele carro bateu, o rapaz só pudera assistir o sangue fluindo e deslizando pela face do outro? Por que aquele portuguesinho irritante não respondeu quando ele gritou seu nome?

Por que ele não abria os olhos?

– Por favor, por favor... Deus, por favor... Faça ele acordar. – sua garganta trancou e ele realmente teve medo de nunca mais ver aquela pessoa acordada. Seus dedos se fecharam sobre o crucifixo de prata em seu pescoço, que o lusitano lhe dera. – Por favor, de qualquer jeito que for... devolve ele pra mim. – murmurou sua prece, sob o som quase aterrador dos equipamentos médicos.

O rapaz não podia fazer nada. Mas isso não o impedia de ficar ao lado daquela cama de hospital todos os dias, teimosamente, e olhar para aquela face adormecida. Sonhando que ele acordaria. Sabendo das chances. Acreditando. E morrendo de medo. Rezando. Pensando-se culpado. Porque ele podia ter dito para o seu amigo ao volante dirigir mais devagar. Porque ele poderia ter dito para ele não ultrapassar daquele jeito. Porque não dissera tudo o que queria dizer para Afonso. Porque ele deveria ter dito que o amava mais vezes. Porque deveria ter implicado menos, se preocupado menos, brigado menos. Por tantas e tantas coisas.

Então, ele ficaria em silêncio, ouvindo o constante som dos equipamentos que marcavam os sinais vitais do outro. Aterrado de culpa. Morto de medo. Vivo de expectativas. Às vezes, ele murmurava canções, porque era bom acreditar que aquilo podia fazer o outro dormir melhor. E que, depois de dormir tão bem, ele pudesse acordar. Era verdade que parecia tolo. Mas ele não podia deixar de ter aquela pequena e tola esperança.

Levou semanas. Semanas até aquela rotina ser quebrada. Luciano estava sentado ao lado da cama, olhando distraidamente pela janela depois de falar um pouco com namorado e chamar seu nome algumas vezes, como fazia sempre.

Foi aí, que aconteceu. O lusitano se moveu.

A tímida movimentação fez a atenção do rapaz voltar imediatamente para a face adormecida de Afonso. Seu coração passou a bater com tanta força que chegou a doer. Inconscientemente, seus dedos seguraram a cruz de prata, apertando-a com força. Então, depois de poucos segundos, mas que duraram e perduraram como uma eternidade, ele foi a primeira pessoa que Afonso viu quando abriu os olhos novamente. Luciano sentiu o seu mundo parar quando viu-se fitado por aquela pessoa outra vez.

Ele tinha os olhos verdes. Mas não era aquilo que lhe chamara a atenção. O próprio brasileiro tinha os olhos levemente verdes. Não... Nada era tão notável quanto a cicatriz que o lusitano trazia na face. Ela cortava seu rosto exatamente sobre a pálpebra, realçando ainda mais seus olhos esverdeados. Ele se tornara uma beleza trágica, quase como um anjo de asa quebrada. Era triste como enxergar toda maldade que parecia descabida a alguém de bom coração. Havia outro corte, na testa, outros ferimentos, mas nada era tão notável. A franja caía um tanto displicente e o restante do cabelo vinha preso em um rabo de cavalo baixo. E, por entre a franja, aqueles olhos verdes se voltaram na direção do rapaz à beira de sua cama. Eles piscaram algumas vezes, até focarem naquela pessoa, que ele tinha amado tão verdadeiramente.

– Eu conheço você?

O rapaz sentiu o coração apertar, e então estilhaçar completamente. Sua garganta trancou e seus olhos ameaçaram se derramar. Ele fechou as mãos com força e segurou as lágrimas a todo o custo. Seus olhos estavam embaçados, mas ele sorriu. Um sorriso absolutamente despedaçado, mas ele sorriu. Porque era necessário. Sempre era.

– Bem... conhece um pouco. – mentiu. Mas achou que falava a verdade. — Não que eu fosse muito importante para você. – disse sorrindo. Um sorriso doce e conformado. Porque Luciano tinha o coração errado. Ele sorria quando estava triste. E chorava quando estava muito feliz. E talvez fosse essa a razão de porque ele vivia sorrindo. – Eu vou chamar o médico, tá? – disse ele, levantando-se e saindo do quarto.

Avisou a uma enfermeira, que logo trouxe o médico. Houve exames, houve espera, mas a cabeça do rapaz estava em outro lugar. Ele estava confuso. Aliviado e triste ao mesmo tempo. Eufórico e destruído.

– Então senhor... – começou o médico, chamando sua atenção. – Embora ele tenha ficado desacordado por muitos dias, parece que vai se recuperar normalmente. Não há nenhum dano irreversível ou grave. Ele está bem, responde, lembra até do acident-

– Mas ele não me reconheceu. – interrompeu o rapaz imediatamente, sentindo o coração bater contra a garganta diante do nervosismo.

– ... Isso é estranho. – murmurou, voltando a checar os papéis. – não tem nada de errado com ele, fisicamente. Mas é comum depois de um trauma, que o paciente esqueça algumas coisas. Não por um problema, mas porque não quer se lembrar. Vocês brigaram ou algo assim antes do acidente? – indagou ele.

– Não... – respondeu-lhe baixo. A decepção subiu amarga pela sua garganta. – Enfim, muito obrigado doutor! Eu... vou vê-lo mais um pouquinho depois eu vou embora. – disse, saindo da sala enquanto ainda conseguia manter um frágil sorriso em seu rosto.

Assim que fechou a porta atrás de si, algumas lágrimas escorreram sem a sua permissão. Ele imediatamente se repreendeu por isso, respirando fundo, fechando os olhos e ignorando a própria dor. Porque sua tristeza era egoísta. Afonso tinha acordado. Ele estava vivo. Ele ia ficar bem.

– Obrigado, Senhor. – murmurou ele, seus lábios tocando o metal frio da cruz que ele carregava no pescoço.

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Arthur encontrava-se presentemente em sua cama, deitado com cabeça no colo de Alfred e com um livro de física aberto a sua frente.

A termodinâmica confirma a experiência cotidiana da passagem do tempo: existe passado, presente e futuro, e os fenômenos na natureza, que presenciamos durante nossa vida, são irreversíveis. Por exemplo, se deixo cair um copo de vidro no chão, ele se quebra. Este fenômeno não é reversível, isto é, na natureza não é possível acontecer como num filme rodado ao contrário, onde o copo quebrado no chão pode, no final da cena, acabar inteiro na minha mão

O garoto distraidamente mordia a ponta de um lápis e brincava com os cabelos de Arthur com a mão livre, focado em um caderno do loirinho cheio de anotações. Arthur tentou voltar a atenção ao seu livro, mas desde que Alfred começara a fazer carinho em seu cabelo, estava ficando cada vez mais difícil manter o foco. Os dedos do garoto roçaram de leve em sua nuca, o que o fez respirar fundo e fechar o livro, pondo-o de lado.

– Vai parar por hoje? – perguntou o garoto, tirando o lápis da boca e se virando para olhar.

– É. Vamos descansar um pouco. – propôs, se inclinando na direção do garoto e beijando de leve os lábios dele.

Alfred sorriu e colocou o caderno de lado, puxando Arthur pela manga da blusa que ele usava e beijando-o de língua. O loirinho gemeu baixo e correspondeu-o, sentindo suas costas baterem contra o colchão devido a um leve empurrão do garoto.

Alfred beijou seu pescoço de leve, então voltando a tomar seus lábios devagar, quase preguiçosamente. Arthur inclinou o quadril e roçou-o no do garoto, fazendo-o gemer baixo e beijá-lo com mais força. A mão de Alfred deslizou para baixo da camiseta do loirinho, sentindo a pele macia se arrepiar sob o seu toque. O britânico suspirou, mas afastou-o.

– Minha mãe já está chegando. – murmurou o loirinho, ainda ofegando um pouco. Deu um selinho no garoto e se levantou, tirando Alfred de cima de si. – Quer beber alguma coisa? – perguntou, ajeitando um pouco as roupas e saindo do quarto com Alfred em seu encalce.

– Ughh... – resmungou o garoto, levantando-se também. – Aceito um refrigerante. – disse ele, também desamassando um pouco a própria roupa.

Quase um minuto depois, a porta da frente abriu e Elizabeth os viu quando passava pelo corredor.

– Olá, Alfred. – sorriu ela, desviando o guarda-chuva molhado que carregava e pousando uma mão sobre o ombro dele.

– Olá. — disse ele, levemente embaraçado. Era estranho pensar que ela sabia. Certo, já tinha pelo menos três ou quatro meses que ela sabia, mas ainda assim, era estranho. Sorriu com a gentileza dela mesmo assim. – Trabalhou bastante? – perguntou, lembrando-se de um mínimo de educação.

– Pff... demais. – disse ela, dando um suspiro cansado. – Mas eu amo o meu trabalho, não consigo largar. Enfim, vou tomar um banho, daqui a pouco vou fazer o jantar. Você vai ficar hoje, querido? – perguntou ela casualmente, uma vez que Alfred às vezes ficava para as refeições. Não vezes o suficiente para ver por si mesmo os jantares que Arthur cozinhava, uma vez que Elizabeth dificilmente o deixava perto da cozinha. Normalmente o loirinho saía de lá irritado, frustrado, com um ou dois dedos queimados, algum corte e alguma louça quebrada. Alfred apenas sabia que algumas vezes, nos lanches da tarde, havia alguns bolinhos que pareciam uma pedra de carvão e outros desastres assim, mas Elizabeth nunca lhe disse que aqueles foram a parte que Arthur fizera. Não fazia exatamente diferença. Alfred os comeria mesmo assim, embora por razões diferentes. Atualmente, ele comia por educação e respeito a Elizabeth. Se soubesse que Arthur é que era o autor, ele comeria para deixá-lo contente. Embora provavelmente fosse reclamar.

– Não, não, eu preciso ir para casa. – respondeu Alfred. – Minha mãe acha ruim eu incomodar muito. – riu ele. – Já já eu estou indo embora.

– Desde quando você se preocupa com essas coisas? – riu Elizabeth. – Fique o quanto quiser, certo? – completou ela, bagunçando os cabelos do garoto e subindo para tomar banho.

Arthur e Alfred continuaram até a cozinha, onde começou a fazer um pouco de chá para si enquanto pegava o refrigerante para o garoto.

– Ah! – lembrou-se Arthur subitamente enquanto passava o copo para Alfred. — Por sinal, amanhã é dia de faxina, ela vai vir nos expulsar daqui para conseguir limpar em paz. – riu ele. – Eu geralmente passo o dia fora, e você não vai poder entrar aqui também, ela quer encerar tudo. – sua mãe era bem exigente quanto à limpeza. Ela tirava folgas regulares para colocar a casa em ordem.

– Ahh mentira! – exclamou o garoto, contrariado. Fez um biquinho enquanto tomava o refrigerante.

– Pior, é verdade. – disse Arthur, rindo um pouco e colocando seu chá em uma caneca, contente com o aroma perfumado.

– Mas ela faz tudo sozinha? Ela já não é tão jovem assim, não seria melhor contratar alguém ou pedir ajuda? – perguntou o garoto.

– Pfff... E você acha que ela deixa? Ela gosta das coisas do jeito dela e detesta gente dando opinião sobre como ela deve manter a casa dela ou sobre como ela deve criar os filhos dela. – riu ele, se presenteando com uma colher de mel dentro do próprio chá, para dar uma variada, assim como um pouco de leite. Arrumou um pouco a bagunça que fizera e saiu do cômodo, sentando-se no sofá da sala, sendo seguido por Alfred.

O garoto passou um braço em torno dos ombros de Arthur enquanto este se deliciava com o próprio chá. Estava sendo um ótimo dia. Era uma pena que eles não se veriam no dia seguinte, justo agora que ambos estavam com os horários mais livres. Tomou outro gole do chá, respirando fundo o aroma que se desprendia. O loirinho ficou em silêncio alguns instantes, até que algo lhe ocorreu.

– Ei, Alfred... Eu posso ir na sua casa amanhã? – perguntou, virando para encarar o outro. Desde que eles tinham começado a sair, ele nunca mais voltara a pisar na casa de Alfred. E não é que Arthur se importasse, c-claro que não. Ele nem ligava. Era só que... Bem... era estranho, não?

– Na minha casa? – o garoto hesitou, não olhando nos olhos de Arthur. — É... meio complicado, Arthur... – disse ele, um tanto desconfortável. – A gente podia sair para algum lugar.

– Mas, Alfred, por que eu não posso ir a sua casa? – insistiu o loirinho. Não que tivesse algo contra sair para um outro lugar com Alfred. Mas aquilo o vinha incomodando.

– Meus pais meio que... ainda não sabem sobre a gente. – entregou o garoto cautelosamente.

– Minha mãe sabe. – você tem vergonha de mim? A pergunta estava inscrita, dolorosamente cravada nos olhos esverdeados de Arthur, embora ambos soubessem que ele nunca a diria em voz alta. Havia apenas algo de decepção nos olhos dele que era impossível esconder. Ele tentou, no entanto, desviando o olhar e olhando para a caneca de chá entre suas mãos.

– Eu... – Alfred calou-se. Certo, era injusto. Ele não podia ficar escondendo Arthur, não era justo com ele. E... bem, eles já haviam conversado com Elizabeth, conversar com a mãe de Alfred era o próximo passo óbvio, embora Alfred tivesse enrolado por semanas e semanas e ignorado aquilo. Respirou fundo. – Eu vou falar com eles amanhã, certo? À noite eu te conto como foi e depois você nos visita. É melhor eu falar com eles primeiro. – decidiu, em uma voz firme o suficiente para convencer a Arthur e a si mesmo.

– Certo. – disse o loirinho, voltando a beber um pouco de chá, fingindo não se importar, mas evidentemente contendo um sorriso contente.

Alfred beijou os cabelos macios de Arthur, pensativo. É, provavelmente não seria tão ruim assim. Era melhor mesmo contar, não podia esconder aquilo para sempre.

Alfred passou o dia seguinte inteiro remoendo o que dizer. Com a mãe de Arthur fora mais fácil porque nenhum deles precisou contar nada, ela mesma descobriu sozinha. Claro que não era o jeito mais certo de se dar uma notícia, mas pelo menos eles não tiveram que pensar no que dizer.

Agora, não. Ele teria de explicar.

Quando amanheceu, à mesa do café-da-manhã, o garoto olhou pensativamente para os pais. É... seria melhor contar para todo mundo de uma vez do que ficar repetindo... Respirou fundo e engoliu um pouco de café. O líquido desceu com muita dificuldade, uma vez que sua garganta parecia estranhamente apertada. O gelo na boca de seu estômago parecia muito real e seu coração batia audivelmente em seus ouvidos. Não tinha ideia da reação que eles teriam... Seus olhos claros encontraram olhos igualmente claros do outro lado da mesa. Sua mãe tinha os mesmos olhos azuis e usava óculos. Os cabelos eram de um loiro envelhecido, que ela já começara a ter de tingir. Os lábios finos dela se abriram em um sorriso enquanto ele a olhava, e seu coração acelerou.

Lembrou-se de quando eles costumavam sair em passeios, ela sempre tentando convencê-lo a passar protetor solar, a não correr demais, a comer direito. Aquele tipo de passeio não era exatamente frequente, ou rotineiro. Na verdade, provavelmente eram exceções. Mas a memória que ficou era quase mágica, como um monte de outras memórias de infância que ele tinha daquelas pessoas sentadas a sua frente.

Sua mãe era seu porto seguro, mas o seu pai... o seu pai sempre fora algo como um herói. Daqueles dos quadrinhos que ele lhe comprava. Daqueles que faziam um monte de coisas importantes e difíceis.

Quando ele tinha tempo, costumava levar o filho para o que ele chamava de aventura. Fosse pescar ou acampar, mesmo que nem fosse muito longe de casa, parecia mesmo uma aventura.

Ele era sim ocupado, de modo que isso acontecera poucas vezes. O senhor Jones era ocupado e gostava de fazer o seu trabalho, da maneira antiga, não gostando nada de modernidades. Havia certa diferença entre o homem que ele era e quem estava nas lembranças do garoto. Mas, talvez como a maioria das lembranças de infância, todas aquelas memórias pareciam envoltas por certa aura dourada. Assim como toda decepção de infância era imensa, toda pequena alegria era imensurável. O mundo era grande e interessante, tudo era um grande mistério, até mesmo o que ficava em cima daquele armário no corredor, que era alto demais para uma criança enxergar.

Seus pais o criaram e tentaram fazer dele a melhor pessoa que podiam. Estavam até fazendo planos e guardando dinheiro para que ele pudesse ser engenheiro, como ele queria.

Em algum momento, que Alfred não sabia precisar quando, pareceu ficar mais difícil dividir as coisas com seus pais. Era um equilíbrio estranho que envolvia respeito e medo de decepcionar. Pensando naquilo, ele sentiu que entendeu Arthur. Entendeu porque ele estivera tão nervoso e preocupado.

– Filho, nós já vamos, certo? Beijo! – disse sua mãe, levantando-se da mesa e deixando os pratos na pia. Seu pai ajeitou a gravata e pegou sua pasta, sendo seguido pela esposa.

– E-espera!

Ambos se viraram na direção do filho. Alfred viu-se fitado por um par de olhos azuis e outro par de olhos levemente acinzentados. O olhar deles pareceu perfurar a sua alma.

– Ahn... N-nada. – e calou-se novamente. Seus pais saíram e deixaram o garoto sozinho, em pé na cozinha, fechando as mãos em punhos. Alfred mordeu o lábio inferior, frustrado. Não, ele não podia continuar com isso.

Daquela noite, não passava.

Alfred nunca nem se lembraria do que comeu no jantar daquela noite. Estava tão apreensivo que nem sentiu o gosto da comida, seja ela qual fosse. A televisão estava ligada, e foi ela que encobriu o não usual silêncio do garoto. A sobremesa de chocolate poderia ter sido feita de cimento que Alfred nem perceberia a diferença.

Os pratos foram lavados e os três sentaram-se na sala para continuar a assistir o noticiário, seu pai e sua mãe em um sofá, e o garoto no outro. Alfred esperou até o comercial e respirou fundo.

– Ahn... pai? Mãe? – chamou, e sua voz tremia um pouco. Ele alcançou o controle e colocou a televisão no mudo. Então, colocou as mãos dentro do bolso, de modo que elas não tremessem também. – Queria falar uma coisa...

– Diga, filho. – respondeu o seu pai, que, assim como sua mãe, virou para olhá-lo. Eles pareceram confusos com a repentina seriedade do filho.

– Hm... Eu estou namorando. – começou, o coração batendo furiosamente contra sua garganta.

– Que maravilha, meu filho! – sorriu sua mãe, batendo palminhas.

– Como é o nome dela? – perguntou seu pai, abrindo um sorriso raro, igualmente orgulhoso.

Aí estava. A pergunta que ele estava esperando. Alfred respirou fundo e soltou o ar.

– ... Arthur.

A sala mergulhou no mais absoluto silêncio. As imagens continuaram a passar na televisão, mas o tempo parecia ter congelado na sala de estar.

– Como? – foi tudo o que seu pai pôde dizer.

– O nome do meu namorado é Arthur. – disse Alfred, com todas as letras, devagar.

– Alfred, isso não tem graça.

– Eu estou falando sério. – disse Alfred, fitando ambos seriamente. Ele não estava sorrindo e realmente não havia tom de brincadeira em sua voz. Pai e filho se encararam em silêncio. E foi a mãe de Alfred que se pronunciou primeiro, ainda que trêmula.

– A-Alfred! – e ela se levantou do sofá, olhando-o escandalizada. — Como você pôde fazer isso comigo?! E-eu... Eu não acredito! – desabafou finalmente, desviando o olhar.

– Mãe, calma. Olha, é sério, o Arthur é uma pessoa ótima, quando você conhecê-lo... – começou o garoto, tentando alcançar a mão dela.

– Eu não quero conhecer nem morta o maldito menino que te deixou assim. – as palavras duras detiveram a mão do garoto, que tentara alcançar a mãe. — Provavelmente só um deliquentezinho pervertido querendo uma aventura.

– Não fala assim do Arthur! – respondeu o garoto, sentindo o sangue subir-lhe à cabeça, também erguendo-se do sofá.

– Ele é doente! – gritou ela de volta.

– Você nem o conhece! – argumentou o garoto, desesperado. Quer dizer, ele merecia uma chance de se explicar antes de ser condenado não?

– Você não responda a sua mãe. – a voz do pai de Alfred soou com autoridade pela sala e todos se calaram. Ele se ergueu do sofá e fitou o filho seriamente. — Eu já escutei o suficiente de vocês dois, pra mim chega. – disse, censurando a mulher com o olhar. — Alfred, acabe com essa coisa nojenta e nós vamos fingir que nada aconteceu.

– O que? – o garoto olhou para o pai, recusando-se a acreditar que tinha ouvido aquilo mesmo. O que... o que ele estava falando? — E-eu não acredito.

– Alfred, isso é uma ordem! – diante da relutância do filho, a raiva também subiu à cabeça do pai, que acabou por gritar.

– Eu não posso obedecer isso! – a voz do garoto tremeu e ele empurrou o pai, dando as costas e saindo da sala, rumando escada acima.

– Alfred, volta aqui! – gritou o seu pai, indo atrás dele e chegando a tempo de impedi-lo de fechar a porta do próprio quarto. O garoto viu o pai jogar a porta contra a parede com força, obrigando-a a ficar aberta. Era a primeira vez que ele o via tão descontrolado.

– É melhor a gente conversar sobre isso depois. – murmurou o garoto, desviando o olhar e recuando um passo, realmente no próprio limite emocional. Ele não queria mais ouvir nada daquilo. Não... Ele não aguentaria mais ouvir nada daquilo.

– Termine com ele, Alfred. – mandou seu pai novamente, em voz baixa, evidentemente tentando se controlar.

– Eu não vou fazer isso! – gritou o garoto de volta, acuado.

Um som seco ecoou pelo quarto de Alfred quando seu pai lhe deu um tapa com força no rosto. O garoto segurou a bochecha avermelhada, olhando para o pai, incrédulo.

– Essa casa é minha, garoto. As regras também são minhas! Ou você termina com ele, ou eu te expulso dessa casa.

– Você esta me pedindo pra escolher? – o olhar do garoto encontrou o olhar lívido do pai. Alfred parou onde estava e o olhou. D-do que ele estava falando? Ele... estava dizendo que ia colocá-lo para fora? Como amar Arthur podia ser tão errado para ele?

– Pai, eu n-

– Eu não preciso de um filho viado. – cortou ele, antes que o garoto dissesse qualquer coisa. Seu tom baixou e ele fitou o próprio filho seriamente. — Eu não te criei para ser uma vergonha para mim.

Os olhos claros de Alfred se arregalaram levemente. Sua mente estava em branco. Ele piscou algumas vezes, tentando acordar. Porque aquilo não estava acontecendo de verdade. Não... podia estar.

– Você entendeu? Ou ele ou essa casa. A escolha é sua. – disse seu pai, dando-lhe um ultimato, com apoio silencioso da esposa.

– ... ótimo. – disse Alfred finalmente, saindo de seu estado de choque, sacudido pela raiva que aquelas palavras despertavam. C-como eles podiam pensar assim do Arthur? Eles nunca nem o viram. — Ótimo. Não precisa me expulsar.

– Eu sabia que você ainda tinha juízo. – disse seu pai, relaxando a postura e suspirando de alívio.

– É, não precisa me expulsar. Eu mesmo vou embora. – disse, pegando a mochila de escola e abrindo as gavetas, tirando coisas como documentos e carteira e jogando dentro da bolsa. Em menos de um minuto, passou pelos pais, deixando-os parados na porta, em choque.

– Alfred! – ouviu sua mãe gritar atrás de si, correndo nas escadarias.- Alfred, volta aqui! Não ignora a sua mãe!

– Eu amo ele, tá?! – gritou o garoto, sua voz finalmente quebrando e as lágrimas ameaçando cair. — Que droga!

Sua mãe alcançou-o, no final da escadaria. Ela tremia, decepcionada, chocada, com raiva. Mas o garoto não viu. Ele continuou andando.

– Eu queria que você nunca tivesse nascido.

Alfred parou por um momento e virou, encarando a mãe. Os olhos claros dela cintilavam em lágrimas e os lábios vinham apertados em uma linha fina e irritada. O garoto piscou algumas vezes, atordoado.

– Eu devia ter abortado você.

Os olhos claros do garoto fitaram a mãe, e ele esperou que ela se desmentisse. Que ela mudasse de ideia. Mas nada aconteceu. As palavras dela o atingiram como uma surra, mas ele não encontrou o que dizer. Ele meramente, estupidamente, começou a chorar. E não houve consolo, não houve quem o abraçasse. Ele ficou ali, sentindo as lágrimas caindo, sentindo-se mais do que traído, mais do que sozinho.

Arthur. Ele precisava ver Arthur.

E foi a única coisa que o moveu naquele momento, quando seu mundo tinha caído por terra. Alfred deu as costas e saiu pelo corredor, chegando à porta.

– Meu casaco. — ouviu a voz do pai atrás de si. Claro... aquele casaco de aviador era o maior orgulho de Alfred. O presente que fora do seu heroi e que ele lhe passara.

Em qualquer outro momento de sua vida, aquilo teria sido sua maior decepção, seu pior castigo. Mas... depois do que ele ouvira da própria mãe, aquilo não era muito. Aquela dor não era nada. Ele se desvencilhou do casaco, que lentamente escorregou até o chão. Então, Alfred saiu, sem olhar para trás.

A porta se fechou com um estrondo atrás de si. O garoto ajeitou a mochila no ombro e fitou a noite escura. Pela primeira vez, sozinho. Era... surreal. Ele não tinha mais uma casa. Ou seus pais. Naquela mesma manhã ele estivera tomando café na cozinha da sua casa, como todos os dias, como sempre fora. E agora... ele não tinha a menor ideia do que iria fazer.

Ele respirou fundo e o ar congelado da noite fria invadiu seus pulmões. Então, fez pela última vez o caminho que levava até o portão de sua casa, encostando-o ao sair.

A partir dali, a rua estreita e vazia se estendia na noite escura. Seu coração ainda batia violentamente em seu peito e o ar gelado açoitava seu rosto levemente febril. Ele tirou as lágrimas do rosto com força, mas não conseguiu parar de chorar.

Eu devia ter abortado você.

Como o garoto queria ter levado uma surra. Quebrado um braço. Mas não ter ouvido aquilo. Seus passos eram silenciosos pelas ruas vazias.

I walk a lonely road

The only one that I have ever know

Don’t know where it goes,

But it’s home to me and I walk alone.

Tentou… pensar. Em qualquer coisa. Mas ele não conseguia esboçar nenhuma reação. Era tudo muito... surreal. A sua cabeça estava uma bagunça e o seu coração era um completo caos. A única coisa muito presente, muito notável, era aquela solidão, aquele frio. A chuva ainda não tinha parado e era suficiente para congelar os seus ossos. Ele arrastou os cabelos molhados para trás com dedos muito brancos de frio. Na verdade, era como se o frio não estivesse do lado de fora, e sim, dentro. Porque o abandono era incrivelmente gelado e o abraçava inteiramente.

Estava... tudo acabado, não estava? O que ele iria fazer? Céus... ele... nunca iria para a faculdade. A realização o atingiu de repente. Ele teria de arranjar um emprego. Simplesmente, racionalmente, ele teria que abandonar aquele sonho. Tinha acabado de perder a família e imediatamente teria que perder aquele sonho.

Estava frio. Realmente muito frio. Ele estava, pela primeira vez, realmente sozinho.

Então, Alfred entendeu o que Elizabeth quisera dizer. Aquilo era estar sozinho. Arthur já estivera exatamente assim. Arthur já tivera a sua parte de dor. E era a ele que Alfred tinha escolhido. Estúpido, mal-humorado e inseguro Arthur. A pessoa que ele mais amava nesse mundo. A pessoa que ele definitivamente protegeria. Porque ele nunca mais iria deixar Arthur estar tão sozinho de novo.

O garoto engoliu o choro e tentou não pensar. Porque se o fizesse ele definitivamente quebraria.

I walk this empty street, on the Boulevard of Broken dreams

Where the city sleeps and I’m the only one and I walk alone

Arthur esperou com ansiedade o dia todo. Na verdade, estava nervoso. Sua mente o fazia imaginar todo o tipo de conversa que Alfred estaria tendo naquele momento. Andou nervosamente pela casa, tentando achar algo que o distraísse. Tentou um livro, que durou dez minutos de sua paciência, minutos nos quais ele lera a mesma página e não entendera nada. Tentou regar o jardim, mas a chuva fora recente e parecia que viria novamente, de modo que suas flores já estavam quase afogadas.

Sua mãe, embora não soubesse a razão, vendo o desalento do filho, pediu que ele fosse comprar alguns itens para a despensa, muito mais para lhe dar o que fazer e distraí-lo do problema que o consumia que por real necessidade.

A senhora suspirou, sentando-se à mesa da cozinha. Voltara a chover já havia uns quarenta minutos, mas agora era com certa força. Sorriu contente consigo mesma quando se lembrou de que mandara Arthur levar um guarda-chuva.

A campainha tocou. Bem, nada era perfeito. Ela se lembrara de mandar Arthur pegar o guarda-chuva, mas esquecera de recordá-lo sobre as chaves. Bem, ao menos ele não tomaria friagem... Pegou as chaves e caminhou apressadamente pelo corredor até a porta para acolher o filho da chuva.

Mas à porta não estava Arthur. Era Alfred. A senhora parou alguns segundos, aturdida.

O garoto estava encharcado e com algum jeito de filhote de gato na chuva. Seus olhos claros pareciam um tanto vermelhos e em uma das mãos ele levava frouxamente uma mochila.

– Alfred?

– Ahn... er.. oi. – sua voz estava meio rouca. O garoto apoiou uma das mãos na parte de trás do pescoço, coisa que ele geralmente fazia sempre que estava nervoso. – Ahn... desculpa mesmo vir agora e sem avisar. – ele parecia realmente inseguro e assustado. — Mas... – sua voz quase sumiu. – Eu posso ficar aqui hoje?

O pedido baixo e desamparado pareceu despertar a senhora de seu choque. Ela apressadamente o colocou para dentro, indo buscar algo para ele se secar e mentalmente pensando em roupas limpas e algo quente para dar ao menino. Entregou uma toalha grande e felpuda ao garoto, que começou a enxugar os cabelos em silêncio.

– Meu filho, o que aconteceu? – perguntou ela, diante do garoto, que estranhamente não falara nada desde que entrara.

– Ahn... – ele parecia... atordoado. — eu... meio que fui expulso de casa. – murmurou ele, soando absolutamente perdido.

– O que?! – ela se sobressaltou, tentando absorver a informação. D-do que ele estava falando?

– M-mas não se preocupe, amanhã mesmo eu vou procurar algum lugar pra ficar e algum emprego, se eu tiver sorte. – emendou ele imediatamente.

– Não é esse o problema, meu anjo. – suspirou ela, decididamente aquela sendo a menor das preocupações para se ter no momento. — Você pode ficar aqui o quanto quiser. – disse ela, tentando acalmar o garoto. Ele... não tinha noção da dimensão daquilo. Na verdade, ele mal parecia capaz de acreditar. Ela respirou fundo e tentou entender a situação. — Por que você foi expulso de casa?

– Hah... – ele tentou rir, como se não se importasse. — meus pais não... – sua fala era hesitante e o fazia soar estranhamente perdido. — eu... eu contei a eles sobre eu e o Arthur.

A realização atingiu a senhora, que sentiu o coração afundar um pouco.

– M-mas não tem problema! Eu estou realmente sério sobre o Arthur e não fiz nada de errado, então! Então estou bem. Mesmo. Isso não muda nada. – disse, devolvendo os óculos à face seca, tentando convencer a si mesmo de que não se importava. Seus olhos encheram de lágrimas e ele respirou fundo. Não, ele não podia lembrar, ele não ia chorar.

A senhora assistiu o lábio do garoto tremer e ele respirar fundo de novo. Alfred era alto, bonito, cheio de força. Mas ele parecia um menininho aos olhos da senhora, magoado e rejeitado. Ela se aproximou e o tomou em um abraço maternal e aquecido.

– N-não, desse jeito a senhora também vai ficar encharcada! – disse ele, tentando se desvencilhar.

– Filho. – o tom dela foi firme e baixo, o que calou o garoto. — Eu sei que você está arrasado. Você não precisa mentir na minha casa. Nem pra mim, nem para o meu filho.

As palavras simples e murmuradas vieram e pareceram libertar o garoto da obrigação de parecer forte. Alfred sentiu as lágrimas descendo queimando sobre as suas faces, uma atrás da outra, sem que ele realmente tivesse controle sobre elas. Abraçou a senhora um pouco mais apertado, tentando disfarçar um soluço que lhe cortara a voz.

– Shh... vai ficar tudo bem, filho. – murmurou ela, sentindo o garoto chorar ainda mais em seus braços.

– Eu só queria que eles me aceitassem. – murmurou o garoto, sentindo mais lágrimas desceram diante da própria confissão arrancada. – Minha mãe disse... – a memória era dolorida então ele tentou evitá-la. — Por que eu não posso amar o Arthur? – afastou-se do abraço, tentando tirar as lágrimas do rosto enquanto fitava a senhora, como se implorasse respostas a alguém que já vivera tantos anos.

– Shh... eles precisam de tempo, querido. – disse ela, ajeitando maternalmente os cabelos encharcados do garoto. – Não tem nada de errado. Meu menino também ama você. Eu também fiquei surpresa, no começo, mas... ah, Alfred, mãe ama independente disso. – ela percebeu que o garoto ainda segurava o choro, mesmo evidentemente magoado. – Eles querem o que acham bom pra você. Eu sei que não é fácil entender, mas eles amam você, do jeito deles. — ela voltou a arrumar o cabelo do garoto com as mãos, sorrindo um pouco.

– E enquanto eles precisarem de tempo pra pensar, você pode ficar aqui. Eu amo você como se você fosse meu filho. – foi gentil, de modo que todas as defesas do garoto caíram por terra e ele a abraçou, soluçando contra o ombro dela.

Por longos minutos, ele chorou no abraço dela, como há muito tempo não chorava. Feria um pouco seu orgulho, mas aquela sua mãe ali não o estava julgando. Daquela vez, naquela vida e naquele momento, ele estava agradecido por ser considerado parte da família de Arthur. Porque o destino tinha seus caprichos e suas ironias.

O garoto afastou-se um pouco mais, tentando tirar um pouco das lágrimas do rosto.

A porta da cozinha foi aberta por um Arthur que resmungava levemente por ter levado a chave da porta dos fundos por engano. Seus olhos verdes recaíram sobre a cena e ele ficou inerte por alguns segundos. Lentamente, apoiou as compras sobre a mesa e se encaminhou até os dois.

– O que está acontecendo? – perguntou imediatamente, olhando para os dois, muito sério. – A-Alfred? Você está chorando? O qu-

– Alfred, querido, vá para o andar de cima e tome um banho, certo? – interveio Elizabeth. O garoto assentiu em silêncio, fazendo o que a senhora dizia, olhando Arthur brevemente, baixando a cabeça e subindo as escadas.

– Mãe, o qu-

– Expulsaram o menino de casa. – murmurou com um suspiro, antes que o filho se desse ao trabalho de terminar a pergunta.

– Q-quê?! – a confusão deu lugar ao desespero nas feições do loirinho. — Mas por quê? – Alfred se dava bem com os pais, eles não discutiam, não havia motivos para aquilo, Alfred não havia feito nada que desagradasse aos pais e não havia acontecido nada naquele dia... A não ser que...

Os olhos do loirinho arregalaram levemente. E ele subitamente entendeu.

– ... por minha causa? – a voz de Arthur estremeceu muito levemente, mas não passou despercebido por sua mãe.

– Não é hora de se culpar, Arthur. – o tom veio incisivo e ela encarou o filho com firmeza. – Ele sabia que isso podia acontecer e mesmo assim ele te escolheu – o coração de Arthur disparou com aquelas palavras. – Agora vai, ele precisa de você. – disse, por fim, com um suspiro.

Com isso, Arthur correu escada acima, ansiando por encontrar Alfred e confortá-lo. Era o mínimo que ele devia fazer. Afinal, Alfred fizera aquilo porque ele pediu. Balançou a cabeça, tentando clarear os pensamentos e evitar os pensamentos de culpa.

Quando chegou ao próprio quarto, ouviu o chuveiro ligado. Havia um montinho de roupas encharcadas e geladas próximas à porta. Arthur suspirou um tanto frustrado. Alfred já estava no banho, provavelmente fugindo de uma conversa consigo. Bem, o melhor que podia fazer era esperar. O loirinho apanhou algumas roupas que ganhara no Natal passado de uns parentes de sua mãe. Eles nunca foram com a cara de Arthur então não se importaram em saber o número que o loirinho usava, de modo que eram grandes demais para Arthur. Bom, caberia como uma luva em Alfred. Arthur apanhou as roupas, incrivelmente grato pelos parentes que não gostavam de si e que vieram a calhar naquele momento. É, nada era de todo ruim... Deu de ombros e deixou as roupas dobradas em cima da cama, assim como uma toalha. Então, desceu as escadas para fazer um chá quente para o garoto.

Assim que chegou à cozinha, sua mãe distribuiu as tarefas. Elizabeth se encarregaria de preparar algo quente para o garoto tomar, deixando a cargo de Arthur arrumar um colchão em seu quarto para Alfred dormir. Arrumou tudo em poucos minutos, saindo apenas para pegar alguns travesseiros a mais. Quando voltou, Alfred já havia vestido a calça preta e a camiseta branca, e estava parado no meio do quarto, a toalha pendurada em seus ombros e um olhar meio vago em suas feições. Assim que Arthur ergueu o olhar, deixou os travesseiros sobre o colchão e se aproximou do garoto, abraçando-o com força.

Alfred sentiu o perfume familiar do loirinho e apertou-o contra si com um suspiro, sentindo-se estranhamente mais leve quando envolveu o corpo menor de Arthur nos braços. O aperto em seu coração pareceu diminuir. Como se Arthur realmente tivesse o seu coração e tivesse controle sobre ele.

Mas mesmo com o loirinho tão perto, a rejeição, a discussão e a expulsão de casa... Era tão doloroso. Quando ele estivera sozinho, no meio daquela discussão horrível, ele sentira vontade de chorar até realmente não suportar mais, e então, simplesmente, sumir. No entanto, bem ali, com Arthur abraçando-o com força, silenciosamente reafirmando que estaria lá por ele... Alfred não se arrependia. Seu coração pareceu leve quando Arthur o abraçou, sem perguntar nada, sem exigir nada. Alfred queria dizer como aquilo era importante. Queria dizer a Arthur como precisava dele. Mas sua garganta estava trancada e seus olhos levemente embaçados.

Arthur afastou-se um pouco e colou seus lábios nos de Alfred brevemente.

– Eu sinto muito, Alfred. – murmurou ao se afastar, fitando os olhos claros do seu garoto. – E-eu... não devia ter insistido. Eu nunca pensei que seus pais fossem...

– Shh... – o garoto pousou o indicador sobre os lábios do loirinho, ainda fitando seus olhos verdes. – Não é culpa sua. – murmurou, abraçando-o e afundando os dedos nos cabelos claros do loirinho. Segurou-o firme contra si, tentando consolar o próprio coração, que fora tão destruído naquela noite.

Arthur deixou-se ser abraçado por alguns minutos, até se afastar um pouco para beijar a bochecha do garoto.

– Quer me contar o que aconteceu? – murmurou, delicadamente afastando os cabelos molhados do garoto para trás. Ele ficava muito bonito assim, Arthur reparou. Os cabelos cor de caramelo estavam molhados do banho e vinham jogados para trás, comportados e lisos, ainda que despenteados. Os olhos azuis cintilavam quietamente, como a chama de uma vela triste e solitária. O loirinho sentiu Alfred retribuir o beijo na bochecha e puxá-lo para sentar na cama consigo. Ficaram lado a lado, ao que seus dedos se entrelaçaram, sem que nenhum dos dois soubesse quem tinha tido a ideia primeiro. O garoto suspirou, apertando um pouco a mão de Arthur na sua e começando a falar, sem encarar o loirinho.

–Meu pai me disse que não precisava de um filho viado. – murmurou quietamente, em um tom muito triste que Arthur nunca o tinha visto usar. Com o coração um tanto apertado, ele apertou a mão de Alfred, que retribuiu, respirando fundo. – Que... não me criou para que eu fosse essa vergonha para ele. – o garoto desviou o olhar e, por um momento, se arrependeu de ter começado a falar sobre aquilo. No entanto, sentiu a mão de Arthur sobre a sua, e isso... lhe deu coragem. – Minha mãe disse que... devia ter me abortado. — O garoto não precisava olhar para o outro para saber o olhar preocupado e chocado que ele tinha naquele momento. Arthur se aproximou um pouco mais e deitou a cabeça em seu ombro, tentando passar alguma confiança ao garoto. Alfred omitiu a parte em que sua mãe dissera que não conheceria nem morta o maldito britânico que o deixara doente daquela maneira.

– Foi... uma briga horrível. Então eles me disseram que... me perdoavam se eu nunca mais te procurasse e jurasse levar uma vida decente daqui por diante. – seus lábios formaram um meio sorriso inconformado. –... eles disseram que eu não ficava naquela casa se eu não esquecesse você. – o garoto respirou fundo, apertando a mão do loirinho. – Eu não podia. – confessou baixo, seus olhos claros derramando e suas mãos tremendo diante da própria sinceridade. – Então eu peguei algumas coisas que tinham nas minhas gavetas, joguei na mochila do colégio e saí. – disse, dando de ombros, como se fosse tudo muito lógico e simples, como se... como se Arthur fosse a escolha óbvia.

Arthur se afastou devagar, olhando o garoto, incrédulo.

– Você- Alfred! V-você não devia ter enfrentado os seus pais por minha causa! Saído da sua casa... – a voz do loirinho embargou enquanto ele apertava a mão do garoto. – Você tem uma família, Alfred. É importante! – Por Deus, claro que era importante. Mesmo com Elizabeth, Arthur nunca verdadeiramente superara o fato de que fora... jogado fora. Ele sempre quis uma família. E com Elizabeth aprendera o quanto aquilo era importante, especial, mesmo que não fosse perfeito. Então simplesmente não lhe entrava na cabeça que alguém deixaria algo tão precioso para trás por causa de alguém como... bem, alguém como Arthur. Depressivo, inseguro, estranho, defeituoso. Pareceu tão errado. Tão despropositado.

– Eu... – Arthur deitou a cabeça sobre o ombro de Alfred, abraçando-o com força enquanto as lágrimas caíam de seus olhos verdes em silêncio. Aquele garoto... por quê? Tão gentil consigo. Para quê? Arthur não podia entender. – Não vale a pena, Alfred. – sussurrou, ao que seus dedos seguraram o tecido da blusa do garoto com força. – Eu não valho a pena. – doeu no garoto a certeza com que Arthur dizia aquilo.

Alfred afastou-se e segurou o rosto de Arthur entre as mãos. Seus polegares tiraram as lágrimas do caminho e ele olhou no fundo daqueles espelhos esverdeados.

– Eu não vou desistir de você, Arthur. – não foi mais do que um murmúrio, mas continha mais verdade que todos os discursos que se gritavam pelo mundo. Os lábios do garoto colaram aos de Arthur por um instante, e, no seguinte, seu polegar acariciou a bochecha do loirinho. – Eu amo você, ouviu? – e ele parecia desesperado com isso. Porque amava Arthur de um tanto que não sabia mais o que fazer. — Meus pais também me rejeitaram. Mas está tudo bem, sabe por que? Eu tenho você. A sua mãe. Porque a gente nunca está completamente sozinho. Sempre tem alguém que se importa. – sua voz tremeu porque era toda a esperança que ele tinha. — Mesmo que a gente não saiba. Mas eu sei. Você se importa. E eu me importo com você. – disse, fechando os olhos com força, tentando achar coragem de algum lugar. — Você... não faz ideia do quanto significa pra mim. – murmurou, rendido.

Arthur não soube o que dizer. Ele não sabia sequer por que seu coração batia com tanta força, por que as palavras de Alfred importavam tanto, por que Alfred importava tanto. Sabia que se sentiu aceito. Como se ele importasse, de verdade. Mas por quê? Como... dizer o quanto Alfred era diferente de todas as outras pessoas? Como dizer o que sentia por ele? Sua voz não saiu.

Amar alguém era possivelmente a coisa mais assustadora que já fizera. Suas mãos tremiam de leve, mas ele abraçou o garoto com força. Afastou as lágrimas do rosto de Alfred e beijou sua bochecha uma, duas três vezes. Então, pousou o queixo sobre o ombro dele, uma de suas mãos entrelaçando nos cabelos molhados de Alfred. Sua outra mão apertou a do garoto, assegurando-o de que estaria ao seu lado, não importando que acontecesse no futuro. Não era mais que um abraço, mas era tudo que os dois precisavam. Não houve um milagre, não houve uma profusão de juras e promessas. Foi só uma conversa, em um quarto comum, em um dia como qualquer outro.

Mas foi importante.

Arthur se afastou e apenas manteve sua mão entrelaçada na do outro. Olhava para elas, talvez para não olhar para Alfred, talvez por que seria um tanto embaraçoso. Alfred delicadamente afastou as lágrimas do rosto do loirinho e encostou sua testa na dele. Então, os dois sorriram. Não havia uma explicação exata para por que eles sorriram ao mesmo tempo. Mas tinha a ver com uma cumplicidade que eles começavam a criar um com o outro.

Alfred enlaçou a cintura de Arthur com os braços e deitou com ele na cama. Respirou fundo quando o sentiu abraçando-o, tão perto que podia sentir o coração dele batendo contra o seu. A sensação o acalmou e o garoto deixou que as lágrimas entaladas corressem por seu rosto. Não queria admitir que estava chorando, mas, pelo jeito com que Arthur o apertou mais contra si, o garoto soube que o outro percebera.

Por longos minutos, ele simplesmente manteve o loirinho muito perto, sentindo o perfume dele e o aroma leve de seus cabelos. O coração de Arthur batia contra o seu, firme, constante. E aquilo lhe dava uma paz que ele sequer podia explicar. Os olhos muito azuis do garoto se fecharam, em parte porque ele estava despedaçado demais para encarar o mundo. Em parte porque assim ele podia fingir que o mundo inteiro se restringia a Arthur, ali, presente, em seus braços.

Não havia volta para a sua decisão. Aquele dia nunca deixaria de ter acontecido. Sua escolha estava feita.

Sentiu quando o loirinho depositou um beijo sobre o seu ombro, sem se distanciar, sem uma única palavra, apenas silenciosamente reafirmando seus sentimentos pelo garoto.

E aquilo significava tanto. As lágrimas quentes deslizaram pelo rosto do garoto, e ele internamente agradeceu por ter Arthur ali. E, diante da sutileza do amor de Arthur, Alfred soube que faria tudo de novo. Mesmo sendo tão doloroso.

Em alguns minutos, o garoto adormeceu, emocionalmente exausto, ainda segurando Arthur contra si, como se o loirinho fosse uma espécie de anjo da guarda.

Arthur percebeu quando a respiração do garoto tornou-se mais lenta e compassada. Era incrivelmente agradável notar o coração dele batendo e sua respiração leve. A vida era algo frágil e tênue, e isso o assustava um pouco. Especialmente ali, quando ele percebera o quanto Alfred, aquela vida que ele abraçava, era importante para si. Lentamente, seus olhos verdes se fecharam também, talvez por se sentirem solitários agora que os olhos azuis do garoto estavam fechados. Em poucos minutos, ele adormeceu também.

Elizabeth abriu a porta do quarto de Arthur, trazendo uma caneca de chocolate quente para o garoto. No entanto, deteve-se próximo à porta.

Os dois meninos já dormiam profundamente, Alfred escondendo Arthur em seu peito, com seus braços em volta dele, parecendo querer protegê-lo e ao mesmo tempo não deixá-lo ir para longe. O garoto pareceu quase frágil, encolhido daquele jeito, abraçando Arthur como se ele fosse tudo o que lhe restara. As lágrimas ainda eram recentes em suas bochechas, o que significava que ele provavelmente dormira chorando.

Não lhe pareceu justo. Alfred era um bom menino. Seria bom se, mesmo vendo seus sonhos se desmoronarem tão cedo, ele ainda pudesse seguir adiante. Ela suspirou. Por um momento, lamentou que o caminho que eles escolheram fosse tão difícil. Lamentou que os sonhos deles precisassem ser despedaçados daquele jeito. Perguntou-se se não deveria ter tentado impedi-los. Perguntou-se por que sua força nunca era o suficiente para proteger as pessoas que ela amava.

Seria bom se aqueles meninos pudessem ser felizes. De todo o coração, ela desejou isso enquanto os fitava longamente, parada, perto da porta, com apenas uma réstia de luz vinda do corredor iluminando seu rosto cansado. Quietamente, ela mesma tomou um pouco do chocolate, fechando a porta atrás de si.

Notas finais
Enfimmm! Finalmente apareceu a música título! o/ Embora eu já tenha explicado o título antes, essa cena sempre ficou martelando na minha cabeça, precisei fazer. ( só dizendo, a música não é minha xD pfff xD e assim como tudo que eu cito e que não me pertence, não tenho intenção ruim xD Mostro trechos para que as pessoas conheçam coisas legais xD Sintam-se a vontade para comprar os originais, viu? xDD)
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Olha, PtxBr está de volta 8D -q. Peço
muita calma, a autora é uma boa pessoa, só não parece xD
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Ahh, o negócio sobre termodinamica, eu li no site ciencia dos materiais. Não me pertence, só usei um pedacinho para ilustrar a situação. E enfim... pois é. xD
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Além disso... Bem, além disso preciso mandar um beijo para a jojo, jashin, yuki, moro, shirayuki, yaya ( parabeeens, você é o review número 300!! o/), Invisible Ju ( parabeeeeeeeeeens, você foi o review número 1!! o/ Incrível não? xD Pois é, achei que foram números incríveis. Sinceramente. 1 - essa história ter tido reviews. 2 - ter chegado a 300. Sinceramente, estou chocada. Vocês são maravilhosos e eu não tenho palavras. Pensei em premiar vocês. Pensei inicialmente em premiar o review número 300 - por ser provavelmente o último número redondinho de reviews a que essa fic vai chegar e o número 1 - que foi o primeeeeirissimo review, há mais de um ano atrás!
Que acham, yaya e Ju sugerem uma cena que queiram? - desde que não trombe com alguma parte do enredo ou algo assim xD Tipo sei lá, um lemon em especial? xD Digam o que querem, é tipo a mega-sena da fic, só que sem dinheiro pq a autora não tem xD), England, Cath e Homumoemura!Sério, vocês são demais T-T Já irei responder seus gloriosos reviews, que são minha fonte de alegria e inspiração!
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Enfim, obrigada mesmo por tudo, pela paciencia e tudo mais! Beijo beijo! :DD