Boulevard Of Broken Dreams

27 Capítulo 27 - Koi no Yokan


Notas iniciais
Estou de voooolta! o/o/ Agora acabou meus vestibulares e tudo, estou de volta. As atualizações vão voltar ao normal, desculpe a confusão das últimas semanas. ( e rezem por mim, se possível xD preciso passar, socorro xD)
Agradeço muito, de todo o meu coração, por quem ainda está aqui acompanhando essa história! Obrigada mesmo! Escrevi e reescrevi partes desse capítulo durante a semana, então, se houver algum erro, me avisem e me desculpem!

Matthew sentou-se à mesa da cozinha de Francis. O aposento em si era muito bem organizado e cada coisa parecia ter um lugar exato. Nem um centímetro a mais, nem um centímetro a menos. Os potes pareciam ordenados em alguma ordem lógica sobre a prateleira branca, e nenhum deles era de vidro. Havia uma pequena mesa e duas cadeiras, além de geladeira, fogão e uma pequena despensa.



– Quer tomar um refresco ou alguma coisa assim, Matthew? – a voz do francês soou ao seu lado, charmosa e educada.



– Ah, água está bom. – murmurou o canadense, observando Francis se mover pela cozinha. — Hoje a confeitaria não vai abrir, não é? – perguntou timidamente, tentando iniciar uma conversa.



– Não... – respondeu o outro distraidamente, pegando dois copos. – Como eu moro ao lado, eles sempre mandam comida e essas coisas. Então eu sempre sei de cor os horários deles. – comentou ele.



– Por que eles mandariam comid- oh, desculpe. – murmurou o canadense, muito envergonhado com o deslize. Claro. Como alguém iria deixar Francis cozinhar sozinho?



– Esta tudo bem... – suspirou o francês, pousando um copo de água gelada sobre a mesa. Tateou a cadeira mais próxima e sentou-se.



– Desculpe. É só que... você age tão naturalmente que eu... esqueço. – disse, sentindo as bochechas esquentarem, apertando o ursinho em seu colo.



– Eu só memorizo onde as coisas ficam. – disse o francês. Parecia uma sentença curta e simples, mas era um passo que ele nunca havia dado. Ele nunca... falava sobre aquele tipo de coisa com ninguém. Era um golpe dolorido em seu orgulho admitir os seus limites. Mas... Matthew nunca tentava impedi-lo ou o tratava como um inválido. Parecia impressionado, no máximo. Até... encantado em ouvir mais. Então... se fosse para ele, o francês sentia que podia contar.



– Woow... – ele estava sorrindo, Francis sabia. — E como você faz para... olhar as pessoas nos olhos enquanto fala com elas?


– Pelo som da voz, eu consigo dizer mais ou menos onde ficaria a cabeça. Então, eu tento imaginar como seria o rosto dessa pessoa. E ergo a cabeça mais ou menos na direção onde eu imagino os olhos dela. – ele riu um pouco. – Não funciona sempre, mas pelo menos eu não fico encarando o ombro de alguém enquanto ela fala comigo.

O canadense ficou em silêncio por alguns momentos. De algum modo... ele entendia. Por que aquele homem podia enxergar beleza em tudo. Ele criava um mundo, que existia apenas no coração dele, no qual tudo era exatamente o que ele imaginava. E ele precisava daquele mundo. Porque o mundo lá fora era completa escuridão. Permanente, profunda, solitária escuridão. Não havia cores. Não havia luz. Nem ao menos vultos. Ele abria aqueles lindos olhos claros e não via. Ele acordava, abria os olhos e continuava no escuro.

Mas mesmo assim, Francis tinha uma altivez fora de série. O orgulho que ele ostentava, a independência que ele insistia em ter. Tudo aquilo fazia parte da personalidade de um homem que Matthew achou simplesmente... incrível.

– Matthew?

– Ah, me desculpe! – surpreendido pensando demais no rapaz loiro à sua frente, o canadense deu um grande gole em seu copo d’água, tentando disfarçar seu embaraço. – Err então, você está de folga hoje?

– Ah sim, eu toco em outros lugares, mas hoje vou ficar por aqui mesmo. – disse o francês, sorrindo de leve. Matthew estava um tanto nervoso naquele dia, isso era engraçado. Francis se divertia perto dele. Nos quatro meses desde que Matthew chegara, o francês havia se divertido como nunca. Matthew era uma companhia inigualável, em sua opinião.

– Hmm... então... – o canadense começou a brincar com as orelhinhas de seu ursinho, tentando disfarçar o nervoso. – Eu... estava pensando... se você não gostaria de dar um passeio. – terminou ele em um fiozinho de voz, vermelho como um pequeno morango. – Ah! C-como amigos, claro! – esclareceu ele. Porque senão Francis podia ter a ideia errada. Francis era um amigo. Muito bonito e interessante e divertido e... fazia seu coração ficar esquisito... mas um amigo!

– ... Eu... fico muito feliz com o convite, Matthew, mas... não posso.

– Eh? – os olhos violáceos do outro rapaz ergueram-se e fitaram o francês. — ... por que? – murmurou ele, sentindo seu coração afundar um pouquinho.

– Não fique assim, mon petit. – pediu o francês, ao que Matthew ficou um pouquinho indignado sobre como ele sempre sabia quando Matthew ficava triste ou irritado ou feliz, mesmo que nem pudesse dizer a expressão que ele fazia. – É só que... eu nunca saio em passeios. – confessou, sua voz mais baixa do que antes. – Eu consigo me mover livremente em lugares que eu conheço, mas na rua... tem muitas pessoas passando e obstáculos. E eu odeio aquele bengala estúpida de cego. – disse ele ao final. Matthew não pôde deixar de reparar como ele pareceu triste com aquilo. Seu orgulho não o permitia sair com uma bengala que ele julgava idiota. Mas ele provavelmente sentia falta de ar fresco, sol em seu rosto... uma caminhada. Uma caminhada era o que aquela pessoa queria e Matthew não sabia como dar-lhe algo tão simples.

– Ah, claro. Eu sinto muito. – murmurou, envergonhadíssimo. – Desculpe, eu não tive a intenção.

O francês riu, achando muito adorável a forma como Matthew sempre pedia desculpas milhares de vezes sobre a mesma coisa.

– Tudo bem. Eu perdoo você. Na condição de que você me faça companhia hoje. – e sorriu, um sorriso que se reservava apenas àquela pessoa à sua frente.

Então Matthew correspondeu e deu um sorriso que ele não costumava ter. Um que não era por educação. Um por pura felicidade mesmo.

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– Experimento de Young?

Alfred espiou, por cima do ombro de Arthur, o conteúdo dos papéis sobre a mesa. De algum modo, ele já estava enfurnado no quarto de Arthur, fuçando suas coisas. A conversa na sala, durante o chá, trouxe à tona os hobbies de cada um, o que trouxe à tona o fato de Alfred também ser apaixonado por física. “Também”, porque física era tudo que Arthur mais amava nos estudos, além de ser sua escolha de graduação.

Elizabeth, como toda mãe um tantinho coruja, saiu contando sobre como Arthur tinha excelentes trabalhos e experimentos interessantes. Alfred, como o ser completamente espaçoso e curioso que era, quis, por tudo nesse mundo, ver.

O que nos traz de volta ao quarto de Arthur. Onde Alfred estava enfurnado há mais de meia hora fuçando as anotações do outro. Aquilo tinha se tornado rotina naqueles últimos quatro meses, por estranho que parecesse. Bem, Alfred não estava reclamando. Ele descobrira muitas coisas sobre Arthur. Ele era uma pessoa muito intrigante.

Surpreendentemente, ainda que Arthur amasse física, ele parecia ter grande gosto pela literatura. Alfred descobrira que Arthur, particularmente, tinha certo gosto por Lord Byron, apesar de dar a Shakespeare seu crédito. Discutia os méritos do soneto inglês em relação ao italiano. Parecia também gostar de todo o tipo de história de terror, quanto mais antiga e bizarra, melhor.

Mas, ele sempre voltava à física. Alguns questionavam os trabalhos de Shakespeare e Byron, mas era difícil quem questionasse a importância de Newton para a mecânica clássica ou Faraday para a elétrica.

À bem verdade, era difícil quem soubesse questionar o trabalho de qualquer um deles. Então quando Alfred, o garoto mais novo, barulhento e aparentemente desmiolado, começou a discutir a fundo os méritos de Faraday, Arthur ficou realmente surpreso.

– Você já estudou isso? – foi a pergunta, um tanto chocada.

– Não tuuudo isso. Eu acabei de fazer dezessete. – riu o garoto, apontando para a pilha de papéis referentes ao último ano de escola de Arthur. — Mas algumas partes, que me pareceram legais. – comentou, pegando um livro qualquer e abrindo em uma página aleatória. – Quem precisa de professor quando se tem internet? -

– H-hey! – Arthur deu-lhe uma pancada com um caderno. – Professores são importantes, tá? Pirralho. – resmungou, corando de leve. Certo, ele já tinha pensando em ser professor. A ideia parecia legal.

– E quantos anos você tem, então?

– Dezoito.

–.......

– Tem algumas coisas que são bem mais simples se outra pessoa explica. – continuou Arthur, ignorando completamente a enxurrada de reclamações por parte do outro. Algo sobre o britânico estar se achando por ser um pouquinho só mais velho. Certo, Arthur parecia ter mais idade que tinha, mas isso não o fazia ter mais idade.

– Bem, ao menos quando essa outra pessoa sabe do que está explicando. – ponderou Arthur consigo mesmo, ainda pensando sobre o assunto anterior, completamente alheio ao que o outro dizia. Arthur tinha a estranha capacidade de se distrair completamente de todo o resto e se concentrar em apenas um assunto. Daí porque ele era excelente em trabalhos de laboratório. O mundo podia estar desabando lá fora que Arthur continuaria a medir seu experimento como se nada mais estivesse acontecendo.

Isso afastava a maioria das pessoas, uma vez que Arthur parecia ignorar todo mundo por se achar muito melhor que o restante das pessoas. Não que Arthur não fosse um tantinho petulante, mas não era exatamente como as pessoas imaginavam.

No entanto, e era engraçado como essas coisas acontecem, um dos maiores defeitos de Arthur transformava o pior defeito de Alfred em uma qualidade. Alfred não suportava ser ignorado. E isso era incrivelmente irritante para a maioria das pessoas, uma vez que ele tentaria chamar a atenção de qualquer maneira.

– O google sempre sabe! – o garoto disse, e, no fundo, sabia que estava sendo irritante. Mas era melhor que ser ignorado.

E o que teria irritado extremamente a maioria das pessoas serviu simplesmente para tirar Arthur de seus devaneios e deixá-lo parcialmente irritado. Parcialmente, apenas, uma vez que era um tanto justo já que ele fora rude com o outro primeiro.

– Ah é, engraçadinho? Então tenta entender essa. – disse, resmungando, jogando um livro com uma página marcada em cima do garoto.

– Haa... Young? – o garoto começou a ler, de vez em quando fazendo uma careta confusa ou resmungando consigo mesmo. – Hmm... – suas feições ficaram sérias e ele ajeitou os óculos na frente de seus olhos claros.

Woah... Azul. É possível alguém ter os olhos dessa cor?

Arthur sacudiu a própria cabeça, espantando os pensamentos estranhos. Tinha alguma coisa errada com ele. Por um momento, ele tinha achado... bonito? N-não, claro. Imagine, que absurdo. Quem ia achar bonito? Só porque acontecia de ser o azul mais azul que ele já tinha visto e parecia ser tão cristalino quanto a água que degela depois do inverno... e... e...

– E depois disso? – perguntou o garoto, procurando a continuação do artigo.

– Ahn? – o loirinho sentiu o rosto esquentar por alguns segundos. O que ele estava fazendo? — Bom... – Arthur tomou um lápis e rabiscou um esquema na margem do papel. – A experiência era para definir se a luz era partícula ou onda. Mas... Imagine se você tentasse formar essas imagens de interferência usando um elétron...

Alfred sentiu o coração pular dentro do peito quando Arthur inclinou-se sobre o seu ombro e começou a falar sobre o assunto. A voz dele era bem grave... E ele tinha um perfume tão diferente. Parecia... livros. E, seria possível, chá? Ou seria só o hálito dele? Era... confortável. Ehh? Mas... perfumes podiam ser... confortáveis? Alfred não sabia, mas o de Arthur era. Sabe-se lá como, mas era. Era... familiar? Não, mas ele tinha certeza que nunca tinha conhecido outra pessoa com um perfume assim. Até porque não parecia ser um perfume de loja. Só... o cheiro que Arthur tinha mesmo.

O garoto sacudiu o cabeça, tentando espantar os pensamentos difusos que lhe ocorriam. Francamente, tinha algo de errado com ele ultimamente. No que ele estava pensando? Era um novo amigo, e só. Um amigo muito divertido e tudo, mas... nada mais que isso.

Os dois discutiam, implicavam, mas eram amigos. Eles tinham muitos assuntos em comum, mas opiniões contrárias, o que incendiava argumentos, propunha desafios um ao outro. Sem contar que ambos tinham personalidades particularmente difíceis, o que os fazia implicar um com o outro sempre que possível.

Como, por exemplo, o dia em que Arthur teve a infelicidade de começar um trabalho com Alfred ao lado. Não bastasse o barulho e o caos que se seguiam à chegada do garoto, naquele dia, ele ainda resolvera dar palpites no que Arthur fazia. Tudo culminando em uma discussão muito acalorada sobre a espontaneidade ou não da reação que Arthur escrevia. Alfred fora embora quase meia noite, deixando certo britânico fervilhando de raiva.

– Ahh aquele, aquele... – resmungava Arthur, as bochechas avermelhadas de irritação. Ele fuçava seus papéis e anotava furiosamente considerações sobre o experimento. – Ele vai ver só uma coisa....

Elizabeth o encontrou debruçado sobre seus livros, resmungando continuamente sobre Alfred. Ela chegou a abrir a boca para dizer para ele não se chatear com aquele tipo de implicância. Mas a senhora desistiu e deu meia volta, rindo consigo mesma. Arthur pareceu empolgado. Feliz.

Deu de ombros. É, um amigo faria bem a Arthur. Ele nunca fora bom em fazer amizades, de modo que era surpreendente como ele e Alfred conseguiram ficar amigos. Arthur não gostava de visitas, mas não pareceu se importar muito quando o garoto passou a ir a sua casa quase todos os dias. Reclamava sempre, dizia que era um incômodo, mas sua mãe sabia que ele dizia da boca para fora.

– Olááá! – e foi como ele apareceu à porta no dia seguinte, cumprimentando Elizabeth em alto e bom tom. Aliás, era como ele vinha aparecendo à porta todos os dias. Alfred realmente não parecia ter bom senso, então nunca lhe passou pela cabeça que talvez isso fosse inconveniente. Ainda bem. – O Arthur tá por aí?

– Não! – gritou Arthur do outro lado da casa.

– Arthur! – exclamou uma chocada senhora, acostumada a ver o filho agir como um cavalheiro.

– Velho ranzinza!

– Ele é só dois anos mais velho que você. – observou a senhora, erguendo uma sobrancelha.

– Um ano e três meses! – corrigiu o garoto, muito indignado. – Mas ele vive me chamando de pirralho, como se fosse uma vovozinha que tivesse o que, uns trezentos anos a mais que eu!

– Eu posso te ouvir, sabe?! – gritou Arthur enquanto descia as escadas.

– Nessa idade? Tem certeza? – alfinetou o garoto, rindo de se acabar quando Arthur ergueu uma sobrancelha diante da piadinha. – Não aponte essas coisas perigosas para mim, vovô! HAUSHAUSHA

– Você...

– Er... Eu vou pegar algo para vocês lancharem... – disse a senhora, resolvendo deixar os dois se entenderem sozinhos. Bem, parecia meio maluquice, mas Alfred parecia ser uma das pouquíssimas pessoas com quem Arthur conseguia se dar bem, então... se estava dando certo, para que se intrometer? A senhora deu de ombros. Alfred parecia um bom garoto. Ele era barulhento por natureza e um tanto escandaloso, o que enchia a casa de movimento toda vez que ele chegava. Bom, aqueles dias estavam sendo divertidos... Elizabeth sorriu e balançou a cabeça, indo buscar um refrigerante para o garoto.

No entanto, os poucos instantes de calmaria se acabaram quando a senhora ouviu um grito vindo da sala. Assustada, ela voltou correndo, com o coração aos pulos. Esperava um acidente, ossos quebrados, joelhos ralados, tudo aquilo que costuma povoar a fértil mente materna. Mas, quando ela alcançou a sala, viu que não era nada daquilo.

Era Alfred. Aparentemente ele achara uma boa ideia fazer cócegas em Arthur, que tentava empurrá-lo, mas sem muito sucesso. As bochechas do loirinho já estavam um tanto avermelhadas com a falta de ar, mas Elizabeth não pôde interferir.

Porque Arthur sorria de verdade. Mesmo depois que o garoto parou, ele ainda ria um pouco e seus olhos verdes cintilavam em uma alegria muito simples, mas que a senhora nunca o viu ter. E, talvez contagiado pelas bobagens do garoto, Arthur passou a fazer cócegas nele por vingança, fazendo-o rir escandalosamente. Logo virou uma espécie de brincadeira de lutinha, nenhum dos dois querendo dar o braço a torcer e desistir de uma revanche.

– Meninos... – concluiu a senhora, deixando o refrigerante sobre uma mesa longe da confusão que os dois faziam. Ela sorria.

– Ah! Mãe! – chamou Arthur enquanto segurava os pulsos do garoto em uma espécie de trégua.

– Hm?

– Eu posso ir na casa do Alfred? – a resposta era do interesse do garoto, que imediatamente parou de tentar nocautear o outro.

– Hmm... quando?

– Seria ahn... semana que vem.

– Hmm... não sei. Você avisou a mãe dele que ia?

– Eu avisei! – se manifestou um Alfred muito animado. – Antes de ontem, quando eu desafiei o Arthur a ganhar de mim no videogame!

– Er... Hmm... Não sei... – Elizabeth pesou a decisão. Bom, Arthur era grandinho já e... Alfred tinha convidado, a mãe dele estava sabendo... videogame era uma atividade inofensiva... — Bem, tudo bem então. – cedeu a senhora. Tentou não sorrir demais quando percebeu a animação dos dois. – Mas leva o celular. E não atrapalhe. E não faça muita bagunça. E...

– Mãe... eu tenho dezoito anos.

– E eu, muito mais do que isso, me obedeça. – riu ela.

– Ihh, levou! – gargalhou o garoto.

Arthur elegantemente chutou o garoto para fora do sofá.

– Mas, meu filho, videogame? — retomou a senhora, desistindo de ralhar com o filho sobre não chutar as visitas do sofá. Quer dizer, Arthur tinha um videogame já antigo, encostado há alguns anos no sótão, servindo para pouco mais que acumular poeira. E, pelo o que ela se lembrava de quando ele ainda brincava com aquilo, julgando pela quantidade de vezes que ela leu a frase GAME OVER, Arthur não parecia levar muito jeito. — Tem certeza? Você é tão ruim nisso... – lamentou a senhora, sem a mínima intenção de ofender.

Arthur corou até as pontinhas das orelhas diante do comentário, resignando-se em socar a cabeça de um Alfred que ria demais para o seu gosto.

– Eu exatamente dizia a esse mentecapto que é possível ser bom em jogos simplesmente entendendo a estruturação do programa, em teoria. – disse Arthur, com muita elegância apesar de estar com as bochechas fervilhando.

– Bom, enfim, o importante não é só ganhar, certo? – relembrou a senhora, enquanto pegava sua bolsa. – Filho, eu to indo trabalhar. Deixei um copo de refrigerante para o Alfred e deve ter alguns lanches no armário, seja gentil e pegue alguns para o seu amigo. – avisou, beijando o topo da cabeça do filho e se encaminhando em direção à porta. – Eu não volto tarde, tentem não explodir nada. – disse ela, séria, fechando a porta atrás de si.

– Explodir... ela fala como se você soubesse fazer alguma experiência explosiva.

– ...

– ... Sério?

– Bom, saber até sei, mas ela ia me matar se eu explodisse alguma coisa de novo. – ponderou Arthur. – Já não basta a vez em que eu quase botei fogo na cozinha e... – ele corou e decidiu que já era o suficiente daquele assunto. — E-e em todo o caso, não vamos explodir nada! – disse, um pouco para si mesmo, já que era difícil resistir a essas ideias, uma vez que todo experimento perigoso parecia ser mais interessante.

– Ahh, chato. – resmungou Alfred, voltando a se sentar no sofá. – O que vamos fazer, então?

– Bem. – Arthur suspirou. – Você tinha que ver aquele documentário, não tinha? Para seu trabalho de história?

– Ughhh... merda. É mesmo. – lamentou-se o garoto. – Ainda bem que você tem esse negócio na sua casa. Eu não tava nem um pouco a fim de alugar isso.

– É... Tá em cima da mesa, pode ir colocando, eu vou pegar alguma coisa para a gente comer. Ou então minha mãe vai ficar dizendo que deixo as visitas passarem fome. – riu ele, balançando a cabeça. Ah, Elizabeth. Ela era uma pessoinha fantástica.

Arthur colocou os diversos lanchinhos sobre a mesa de centro, e apanhou alguns cobertores para ambos. Não estava frio lá fora, mas dentro de casa estava um tanto gelado. Além do mais, já que eles ficariam tantas horas ali, era bom que o fizessem com conforto.

Então, sentaram os dois no sofá da sala de Arthur, com um documentário um tanto monótono passando em frente de seus olhos. O dia lá fora estava nublado, era uma tarde comum de um dia como tantos outros. Nenhum dos dois percebia, mas aquele momento era inacreditável. Eram em dias como aqueles, comuns, cuja data ninguém nunca lembraria, que as pessoas começavam a se apaixonar. Talvez existisse sempre um ponto alto, em que aconteceria algo que os fizesse perceber. Mas o relacionamento entre as pessoas se estruturava durante cada segundo daqueles dias comuns, em tardes cinzentas e monótonas. Porque talvez os milagres acontecessem de pouquinho em pouquinho e os sonhos se tornassem realidade lentamente, a cada segundo um tantinho mais perto de se realizarem totalmente. Um segundo era provavelmente um bem muito precioso.

Arthur suspirou, apoiando a cabeça sobre uma mão, e o cotovelo, sobre o braço do sofá. O narrador do documentário continuava a dizer números e datas, mortes e razões de conflitos. O loirinho foi ficando gradativamente sonolento, embora ele até gostasse de documentários. Só... não soube dizer, mas ele se sentia tão confortável. Alfred interrompia o filme a todo o momento, reclamando sobre uma coisa ou outra. Mas o que deixou Arthur confortável foi... a mera presença do garoto. Ele engoliu em seco e tentou prestar atenção à conversa em vez de continuar pensando absurdos.

– Ehh? Você acha que foi isso mesmo, Arthur? – Alfred tinha uma boa noção de lógica, ele conseguia perceber que mesmo os documentários pareciam privilegiar certa visão sobre outra. Muito embora... bem, quando a visão oferecida o privilegiava... ele, como a maioria das pessoas, tendia a ignorar os demais pontos de vista.

Arthur suspirou, fechando os olhos, realmente cansado daquilo. Sinceramente, ele odiava aqueles filmes e documentários sobre guerra. De algum modo, parecia deixá-lo... doente.

– Não faz diferença... A História não existe para contar verdades. – seu olhar fixou-se brevemente na televisão. Seu coração apertou enquanto ele olhava um horizonte sem fim de trincheiras.

Arthur fechou os olhos e se cobriu melhor com o cobertor. Dormir parecia uma opção melhor do que ficar olhando aquilo. Dava... melancolia. O sono veio rapidamente e a última coisa que Arthur reparou é que os cobertores ficavam agradavelmente aquecidos com Alfred dividindo-os, sentado na outra ponta do sofá.

A guerra nunca pareceu tão sem sentido. Morte e ganância nunca pareceram tão inexplicáveis. Porque os dias de Arthur em um campo de batalha tinham terminado. E tudo o que sobrara daquela vida de antes se resumia ao garoto sentado ao seu lado. Embora, infelizmente, também restassem alguns ferimentos em seu coração, que eram fundos demais para simplesmente desaparecerem.

O documentário continuou rodando e o garoto falhou em perceber que o sono de Arthur ficava cada vez mais agitado.

De repente, o ar foi cortado por um som agoniante, como o de uma mulher morta que gritava, se erguendo do túmulo para amaldiçoar as almas viventes. Era uma sirene, alertando um bombardeio. O loirinho abriu os olhos, perdido, assustado com aquele barulho todo. No entanto, quando abriu os olhos, não conseguia enxergar nada. À sua frente, havia uma escuridão muito, muito profunda. A noite era de lua nova e estava nublado. Não havia iluminação pública ali, no meio do nada. Seus olhos se arregalaram e ele se ergueu, trôpego, completamente perdido. Havia uma sensação horrível em suas costas, como se a sirene fosse realmente a voz de uma mulher amaldiçoada, que o perseguia pelo descampado, sua carne podre arrastando sobre a grama seca. Ele estava tão assustado. Estava tão escuro e os sons eram tão violentos e ele estava sozinho, tropeçando entre aquela escuridão densa, quase correndo como se o cadáver daquela mulher pudesse alcançá-lo. Olhou para cima, conseguindo ver apenas alguns lampejos de luz, onde os poucos holofotes que eles ainda tinham iluminavam a fuselagem dos aviões alemães. Houve mais lampejos e, de repente, o ar foi preenchido por sons de explosões, gritos, Arthur conseguia ouvir o pânico das pessoas na própria cabeça.

Assim que a primeira explosão se fez, o loirinho sentiu a dor rasgando as suas costas, assim como uma pancada na cabeça. Imediatamente, seu passo estancou e ele gritou de dor, caindo de joelhos no chão, uma das mãos segurando a cabeça com força. Arthur tentou puxar o ar com mais força, tentando respirar, mas mais uma vez seus pulmões pareciam cheios de areia e aquilo arranhava. Não chegava oxigênio o suficiente e ele tentava respirar com mais força ainda, apenas para ouvir o próprio som agonizante de seu fôlego quase inexistente. Seus dedos sentiram quando algo quente passou a escorrer de sua cabeça. Meio desnorteado, o loirinho não tinha muita certeza sobre o que era aquilo e estava escuro demais para que ele conseguisse enxergar. Lentamente, aproximou a mão do próprio rosto. Seus sentidos reconheceram o cheiro férrico de sangue e ele sentiu o líquido escorrer pelo seu pescoço e começar a encharcar o seu uniforme.

– Droga... – murmurou, se encolhendo e tentando conter o sangue que fluía. Estava frio. E estava tão escuro. Por mais que ele abrisse os olhos, não era possível enxergar nada à sua frente. E o ferimento em sua cabeça latejava, drenando sangue rapidamente enquanto suas costas ardiam. A dor era tão insuportável que o loirinho nem conseguia se mexer, apenas ali, ajoelhado e encolhido, tentando fazer o sangue parar. A sensação mórbida em suas costas não sumia e as sirenes ainda pareciam gritar na sua cabeça, a mulher morta parecia se arrastar, suas mãos esquálidas, frias e ossudas tentando alcança-lo. Aos poucos, sua mente não conseguia mais entender o que se passava à sua volta, os sons cada vez mais distantes e a dor cada vez mais insuportável. O loirinho caiu de boca no chão, ainda segurando a parte de trás da própria cabeça, gemendo de dor. Ele mais ou menos entendeu o cheiro da terra contra o seu rosto, cortando-o, uma vez que o chão estava coberto de estilhaços de vidro e pedacinhos de concreto e metal.

Arthur já não entendia o que se passava à sua volta, não tinha a menor ideia do que se passava com o resto do seu território ou das suas pessoas. O cenário à sua volta foi dissolvendo e a dor confundiu-o ainda mais.

– Arthur. Arthur!

O loirinho acordou. Seu coração batia contra a sua garganta insistentemente. Seus olhos focaram a imagem de Alfred, mais especificamente os olhos claros dele. Sua mão agarrou o casaco dele, apertando o tecido entre seus dedos, tentando, por tudo nesse mundo, se acalmar. Mas a sua mão tremia e seu coração continuava batendo rápido demais, ele continuava respirando rápido demais.

Alfred ficou sem reação. Mas quando uma lágrima escapou dos olhos muito verdes de Arthur, o garoto o abraçou com força.

– Sonho ruim? – murmurou ele, seus dedos afundando nos cabelos claros do amigo.

Arthur se calou. Ele não queria dizer e ter que reviver tudo aquilo. Ele não podia sequer explicar porque ele sempre tinha esse tipo de sonho estranho. E porque isso sempre o deixava tão assustado. O loirinho simplesmente escondeu o rosto na curva do pescoço do outro, deixando que ele o abraçasse. Alfred não encontrou o que dizer. Não quando ele podia sentir o outro tremendo. Não quando ele viu, pela primeira vez, uma face que ele não conhecia de uma pessoa que ele achava que era sempre forte.

Então... Alfred quis protegê-lo. Não fisicamente. Arthur provavelmente nem precisava de proteção quanto a isso. Ele conseguiria se defender e, mesmo que ele levasse um soco ou dois, em alguns dias, ele estaria bem de novo. Não, não era daquilo. Alfred queria protegê-lo dos medos que Arthur escondia tão bem. Daquelas inseguranças e tristezas. De monstros invisíveis, que podiam, e que provavelmente já tinham causado dor a ele. Feito ferimentos que talvez não se curassem mesmo que se esperasse uma vida inteira. Alfred de repente, percebeu-se temendo pela felicidade de outra pessoa. Percebeu-se preocupado. E percebeu-se encantado. Como que caído em algum tipo de feitiço. Derrotado e vitorioso ao mesmo tempo.

Seu coração deu a última sentença ao disparar dentro do peito do garoto.

A verdade era que... Alfred estava amando.

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– Hondaaa!! – gritou o garoto assim que ligou a webcam.

Seu pobre interlocutor quase caiu da cadeira com o grito. Reconheceu o amigo escandaloso e fez a sábia escolha de abaixar o volume.

– Bom dia para você também, Alfred. – disse ele, bocejando, seu inglês um tanto menos compreensível do que o de sempre.

– Dia? – Alfred franziu o cenho. – Ah, é! Aqui são oito da noite. Hehe.

– Enfim. O que foi? – perguntou ele, um tanto sonolento. Estivera a noite toda acordado planejando o enredo de um novo doujinshi.

– Honda, socorro. Eu acho que preciso da sua ajuda.

– Certo, calma. Conte-me o que aconteceu. – disse ele, tomando um pouco de chá quente.

– E-eu... s-sabe... tem uma pessoa. E ela é ótima, mas está me fazendo me sentir esquisito. – concluiu ele, na explicação mais enrolada e desajeitada possível. Corou de leve, ao que torceu para não dar para ver pela webcam.

– Hmm... me desculpe, mas ‘esquisito’ como?

– E-eu não sei! É só que... às vezes... quando eu olho nos olhos dele. Eu sinto que... eu... poderia me apaixonar por ele. – murmurou, praticamente falando consigo mesmo nesse ponto da conversa. – Não... na verdade, é como se... me apaixonar por ele fosse... inevitável.

Kiku piscou algumas vezes, surpreso. Ele sabia o que era aquilo que Alfred dizia. Acontecia de ele conhecer o termo exato que descrevia isso. E acontecia também de ser o título perfeito para uma história. Ele pegou sua lapiseira com pressa e rabiscou no cantinho de um papel. Koi no yokan.


Notas finais
Bom, o termo 'koi no yokan' não me saiu da cabeça quando eu tava fazendo o inicio do novo relacionamento deles. Não havia um termo substituto, então eu o coloquei no original xD FIquei meio assim de ficar nada a ver com os demais títulos, mas koi no yokan também é um álbum que foi lançado nos eua e no uk xD olha que maravilha de coincidência xD
PS: A ju comentou que não sabia o que era 'koi no yokan'. Bem, é exatamente o que o Alfred está sentindo xD Vejam: "Koi No Yokan (Japanese): Koi No Yokan is a truly beautiful concept. It can defined the sense can have upon first meeting another person that the two of them are going to fall in love. In other words, it is the knowledge one has that he/she is going to fall in love with another person. This differs from the idea love at first sight in that it does not imply that the feeling of love exists, rather it refers to the knowledge that a future love is inevitable. (http://betterthanenglish.com/page/2/)"
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Além disso, estamos tendo um pouco mais de franada 8D Eles ficaram meio à margem na outra fase da história, mas agora estou tentando dar atenção a eles também, assim como ao casal principal, que ainda está na época de bonança xD
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Ahhh e a Yuki Kirkland gostaria de chamar vocês a lerem a história dela, never grows up! Achei bonitinho o primeiro capitulo xD xD Quem mais estiver escrevendo algo legal e quiser me dizer, eu aviso nas notas finais xD O fandom usuk deve se unir o/ ( Estou sabendo que a Ju esta escrevendo algo, mas admito que não li porque ela disse que talvez o final seja triste. A autora de vocês é covarde, desculpe TT3TT E coração de manteiga. Muito coração de manteiga. Mas talvez ela mude de ideia xD quem aí for corajoso, acho uma boa ideia ler!)
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Hmm...que mais... Bem, espero que vocês ainda estejam por aí e que ainda não tenham desistido dessa história! Milhões de beijos a quem comentou o capítulo passado, irei responder o restante dos reviews agora mesmo, vocês são minha fonte de alegria e inspiração! Beijo para Yuki, Ju, Moro, Neko, Cath, Yaya, Akimi, Ritsu ( belo nick xD), Carol E shirayuki! Peço mil perdões pela demora, mesmo. Mas acreditem, minha vida anda uma droga u.u É simplesmente maravilhoso poder voltar para cá xD beijo beijo! :D