Boulevard Of Broken Dreams

28 Capítulo 28 - Lost for Words


Notas iniciais
Agradecimentos super ultra especiais a Cath!! *-* Pessoa linda e maravilhosa, magnífica, que assim como a Moro-chan, Homumoemura, Yuina Hal, Jojo, Yaya, Neko, Abyssus, Bia, Shitsuzumi, Ju, Susipolela, odango e tiia recomendaram essa história! (Sério, nem tenho como agradecer. Obrigada mesmo por estarem sempre presentes, voês fazem tudo valer a pena! *-*) Eu tenho muita sorte em ter leitores tão maravilhosos *-* Cada review é um sopro de vida ao autor xD
E exatamente em respeito a vocês, eu estou publicando hoje! Marcaram uma viagem aqui de última hora e eu ia ficar sem pc por um tempão! D: Me apressei em terminar o capítulo e tudo para conseguir deixar a publicação de vocês em dia! ( fui dormir mais de cinco da manhã, mas consegui xD) Peço desculpas de antemão pelos erros ( revisei, mas não sei, se algo passou, infinitas desculpas)
Enfim, deixa eu calar a boca! xD Bom capítulo! o/


– Como está o dia lá fora?



A pergunta era simples e interessada, e foi dita em uma voz bem casual. Os olhos claros do francês refletiam o céu azul e as poucas nuvens, as árvores e as flores, a grama muito verde e os olhos de alguém especial para ele. Mas ele não viu nada daquilo. Seu olhar continuava em Matthew, esperando uma resposta.



Aquele era o único lugar a que o francês ia. Possivelmente por ser incrivelmente perto de onde ele morava. Mas... ele nunca soubera como aquele lugar parecia.



– Está... fazendo sol. Não tem muitas nuvens e o céu está bem azul. Tem... cinco árvores próximas, e mais algumas mais adiante... – começou o canadense, tentando contar tudo o que ele via para que o outro pudesse saber tantos detalhes que talvez pudesse visualizar a cena. Seu olhar recaiu sobre o francês ao seu lado. Ele piscava ocasionalmente, mas seus olhos nunca focavam em nada. Vagavam, errantes, como se estivessem perdidos para sempre. Seria tão bom se ele pudesse ao menos andar como as outras pessoas. Passear livremente, conhecer outros lugares. Claro, se Matthew o levasse, provavelmente Francis aceitaria ir a outros lugares, mas... O canadense queria que ele pudesse... andar sozinho. Por mais estranho que parecesse e por mais que ele gostasse de estar na companhia do francês, Matthew queria que ele pudesse... ter uma vida. Ter mais mobilidade, poder ser independente... ter orgulho de quem ele era.



No entanto, enquanto ele não sabia como fazer para que isso acontecesse, ele fazia o seu melhor para descrever como aquele dia era, como o parque era, como toda aquela paisagem se parecia. O francês perguntara e depois ficara em silêncio, ouvindo sua resposta com um sorriso nos lábios.



Só que... Francis não se importava com a paisagem. Como seria importante se ele mal sabia o que era uma cor? O máximo que ele sabia era que a grama estava muito macia e que fora regada recentemente. As flores exalavam um perfume agradável e uma brisa fresca batia em seu rosto. Não havia muitas pessoas ali, a julgar pelo silêncio e ausência de perturbações no chão sobre o qual ele havia deitado. Era agradável. E aquilo lhe era suficiente.



Então, por que ele fazia Matthew descrever uma paisagem que ele nunca veria?



Provavelmente porque a voz de Matthew era o acorde mais perfeito que ele já ouvira. Talvez porque ele gostasse de ouvir o outro falando e falando, o assunto nem importava. Ele simplesmente gostava daquela voz macia e baixa. Era como se a brisa sussurrasse. Ele não podia ver o jardim, mas ele tinha uma voz, que parecia feita de brisa e garoa, que lhe contava histórias. Histórias sobre um mundo que sempre lhe pareceu muito distante, mas que agora... pareceu ao alcance de suas mãos.

E, talvez para provar sua teoria, ele estendeu a mão para o lado e tateou, até que ela se fechou sobre uma mão macia e um tanto fria.

A brisa parou de sussurrar por alguns segundos. Porque às vezes, as palavras são insuficientes. Mas, ainda que um tanto hesitantes, cinco dedos se fecharam em torno da mão do francês. E ele sorriu.

==================================================================================================

Alfred jogou-se na cama, terrivelmente nervoso para fazer qualquer outra coisa que não fosse deitar na cama e encarar o teto do próprio quarto.

Seu coração pulava dentro de seu peito com tanta força que ele podia ouvi-lo.

Aquele dia era o primeiro que ele encontrava com Arthur desde que ele viu aquele documentário na casa dele.

Mas, durante todo o tempo, seu coração se agitava a cada vez que o outro se aproximava, como se muito contente, como se muito ansioso. A verdade era... ele ansiava por Arthur. Ele queria vê-lo. Ele queria... saber mais sobre ele.

Arthur se desculpara pelo escândalo e depois fingira que nada tinha acontecido. Mas Alfred não conseguia esquecer. De como Arthur chorara em silêncio, como que absolutamente aterrorizado, como que morto de medo de fazer qualquer som. E depois disso... ver a maneira como Arthur continuou a agir normalmente... fez o garoto pensar que o loirinho era, infelizmente, bom demais em esconder as coisas que realmente o perturbavam. Claro, Arthur obviamente não era honesto sobre várias coisas pequenas, mas suas mentiras eram óbvias. Difícil era quando se tratava de coisas que realmente importavam. Nesses casos, ele era assustadoramente bom em não confiar em ninguém.

– Mas... ele confiou em mim, não? – perguntou o garoto, para ninguém em especial. Seu cenho franziu e seus olhos claros vagaram pelo teto. – Bom... ele não me empurrou, mas também não me abraçou de volta. – o garoto se virou de lado. – Mas...! Eu disse que... eu sempre estaria lá por ele. E que se ele precisasse de mim, era só me chamar. – Alfred se virou para o outro lado. – mas... – o garoto suspirou e olhou para o relógio na cabeceira. Duas da manhã.

O garoto voltou a encarar o teto. Era angustiante aquela incerteza. Ao mesmo tempo em que a amizade de Arthur significava muito... algo o dizia que... não seria nada mal se ele tentasse ter seus sentimentos correspondidos. Porque, sinceramente, ele nunca tinha se apaixonado daquele jeito. Ele não se sentia... perdido ou engolfado por um sentimento forte e passageiro. Era algo mais pacífico, silencioso e constante. Não era imaginar coisas e fantasiar sobre uma pessoa. Era conhecê-la de verdade e... gostar dela, de coração. Havia ainda certo nervosismo, mas, ao mesmo tempo, a presença de Arthur era muito reconfortante. Era exatamente como ele se lembrava de ter se sentido quando olhou pela primeira vez naqueles olhos verdes. O sentimento era como... voltar para casa.

Seu celular vibrou sobre a mesa. O garoto apressadamente colocou os óculos e atendeu.

– Alô?

– ... Hey.

– Arthur? Que foi, caiu da cama? – disse, rindo um pouco.

Mas o silêncio do outro lado da linha o deixou apreensivo.

– Arthur, aconteceu alguma coisa? – tornou a perguntar, agora muito sério.

– Não... – disse o loirinho, embora fosse mentira. Ele estava um tanto grato pelo fato de Alfred não poder ver que suas mãos tremiam levemente. Ele nem sabia por que estava ligando. Arthur não fazia isso. Não dependia dos outros. Não confiava nos outros. Mas... Se fosse Alfred, talvez... não tivesse tanto problema. Não que Arthur fosse dizer isso. Não que fosse admitir que tivera outro sonho horrível e que estava chorando. Pareceria idiota se ele dissesse. Como ele explicaria? O desespero daqueles momentos diários? Como contar aquela cena? Aquele... sangue escorrendo pelas suas pernas? E aquele medo, ele estava assustado, aterrorizado, ele queria gritar, mas não podia gritar, não havia quem ajudasse, não havia como se libertar, não havia o que fazer, ele se sentia sujo, doía, por Deus, doía. Ele acordara com o rosto coberto em lágrimas, mas quieto, absolutamente quieto. Seus olhos verdes focaram na realidade e ele... procurou Alfred. E a ausência dele despertou um medo muito estranho, uma impressão sombria, aquilo... o lembrava de algo ruim. Então, sua mão alcançou o bilhetinho em que o garoto anotara o telefone dele. Seus dedos trêmulos discaram o número sem que ele parasse para pensar.

E então, lá estava ele. Alfred. A voz dele. Preocupado. Presente. E Arthur não sabia o que dizer. Nem sabia se conseguiria dizer alguma coisa sem que o outro percebesse que ele estava chorando.

– Arthur, você está aí? Acho que a ligação está ruim... Eu vou desliga-

– Alfred. – interrompeu o loirinho, respirando fundo. – Só... fale comigo. – disse, numa voz mínima. Ele nunca diria o motivo. Ele nunca diria que simplesmente precisava ouvir a voz do garoto. Era idiota. Era... estranho. Que tipo de pessoa liga para um amigo no meio da madrugada para ouvir a voz do outro? Mas... Arthur precisava daquilo. Ele estava no seu limite. Havia um limite do quanto ele podia suportar sozinho. E... se fosse Alfred, talvez... estivesse tudo bem?

Talvez... Arthur tivesse gostado de ser abraçado por ele?

O garoto começou a falar sobre várias coisas, sem saber ao certo sobre o que conversar, mas falando o que lhe vinha à cabeça. Por sorte, ele era excelente em monólogos. Arthur não se importou. Ele simplesmente continuou ouvindo as bobagens de Alfred até esquecer os seus problemas. Depois de quase meia hora falando praticamente sozinho, o garoto suspirou e tomou coragem para perguntar.

– Você está bem? – e a voz dele voltou ao tom sério, nem um pouco parecido com quando ele papagueava sobre inutilidades. Era um tom grave e masculino, estranhamente sério e preocupado, mas gentil ao mesmo tempo.

E Arthur não conseguiu mentir para aquela voz. – Não. – mas arrependeu-se em seguida. – D-digo... eu...

– Eu também não estava conseguindo dormir, então... bom. É... o que eu quero dizer é que.... nós podemos ficar conversando se você quiser. – disse, um tanto desajeitadamente, sentindo as bochechas esquentarem.

Arthur riu baixo e balançou a cabeça. – Desculpe por isso.

O garoto tornou a falar, algo sobre ser rude rir das pessoas que estão tentando ajudar. Arthur voltou a deitar na cama e fitou o teto, ouvindo a voz do garoto. Ria ocasionalmente das bobagens dele. Por algum motivo, Arthur sentiu-se... melhor. Depois de mais de uma hora de conversa, ele interrompeu o garoto.

– Obrigado, Alfred. De verdade. – murmurou, apenas tendo tempo para desligar antes de adormecer.

O garoto não soube como reagir ao certo. De algum jeito... ele se sentia bem. Por mais que Arthur é que tivesse ligado em busca de consolo, Alfred é que se sentia consolado, de algum jeito. Ele sempre ficava ansioso quando não tinha notícias de Arthur, ou quando achava que ele estava escondendo alguma coisa. Era um alívio saber que ele ainda estava lá, que ele procurou o garoto quando precisou.

Porque mesmo Alfred tinha cicatrizes profundas de uma época da qual ele não fazia ideia. Mesmo ele aprendera lições tão difíceis e dolorosas que ele nunca conseguiria se livrar delas.

Ele não sabia por que, mas sentiu-se incrivelmente aliviado em ouvir a voz de Arthur. Ele se sentiu realmente bem. Arthur tinha um jeito muito estranho de fazê-lo se sentir melhor, mesmo quando ele era o que deixava Alfred nervoso. O garoto dobrou os óculos e os deixou sobre a cabeceira. Então, apagou a luz e se cobriu, acabando por dormir em poucos minutos.

==================================================================================================

– AH! Eu ganhei?! – Arthur franziu o cenho diante do quinto aviso de ‘you win’.

Alfred piscou algumas vezes, chocado.

– Você... está jogando isso a sério? – perguntou Arthur, erguendo uma notável sobrancelha para o garoto ao seu lado. Os dois estavam sentados no chão do quarto de Alfred, na maratona de jogos que eles tinham combinado há uma semana. Havia uma vasilha quase vazia de pipocas entre eles e algumas roupas do garoto entendidas sobre um pequeno sofá que ficava em seu quarto, em uma bagunça que lhe era característica.

– M-mas é claro que estou! E-eu sempre faço tudo muito a sério! – gaguejou ele, desviando o olhar e sentindo o rosto esquentar. A culpa era sua se Arthur fazia caras e bocas enquanto jogava e isso acontecia de ser mais interessante que o jogo? Só porque ele talvez estivesse reparando naquela mania que o loirinho tinha de morder o lábio toda vez que se concentrava... Ou então em como ele passava a mão pelos cabelos enquanto o jogo carregava. Ou então... – Caham... — Tossiu de leve para disfarçar o embaraço. — Sorte de principiante. – declarou o garoto, jogando o controle em cima da cama.

– Diga o que quiser, eu provei minha teoria. – disse Arthur, muito contente, também deixando o controle de lado.

– Tch... – o garoto fez um biquinho adorável, olhando para a tela, incrédulo.

Bem, Alfred era de certo modo adorável. Ao menos Arthur achava que era. Já havia uns bons meses desde que eles se conheceram, estando para fazer um ano. Naquele meio tempo, ele descobriu uma porção de coisas sobre Alfred e já há uns dois meses chegara à conclusão de que ele era... perturbadoramente interessante.

Embora perturbador talvez não fosse a palavra. Era só que... Estar perto de Alfred era... estranho às vezes. Ele se sentia um pouco ansioso e nervoso, sabia Deus porquê. Bem... talvez tudo tenha ficado diferente desde que Alfred o vira chorando. Normalmente Arthur odiaria uma situação assim, mas... Ele estava um tanto... feliz que Alfred tenha estado lá. Arthur nunca tinha chorado na frente de ninguém, à exceção de Elizabeth e, mesmo ela, vira aquilo bem poucas vezes. Ele não podia preocupá-la, ele sabia disso. Na verdade, ele era tão grato à Elizabeth e a amava tanto que... ele se sentia responsável por ela. Então... ele nunca contava o que havia de errado. E sempre achara que estava tudo bem assim. Só que...

– Vou tirar uma foto. A sua mãe não vai acreditar se eu contar. – disse o garoto, tirando o celular do bolso e focando a tela. – Sua mãe é muito legal, né? – sorriu ele, checando como a foto tinha ficado.

Arthur suspirou e deitou-se no chão, cruzando os braços atrás da cabeça.

– Ela é. – respondeu Arthur quietamente, um meio sorriso dançando em suas feições.

– E bonita. – acrescentou o garoto pensativamente. – Mas vocês não se parecem muito. Eu sei que o seu pai não mora com vocês, mas talvez você seja parecido com mais alguém da família, talvez uma tia. Eu queria ver alguma foto! – sorriu o garoto, um tanto ingênuo.

– ... – Arthur fitou o teto, sem expressão. Ele ergueu uma mão e a olhou, notando os dedos longos e pálidos, o formato alongado e os ossinhos proeminentes. A mão de Elizabeth era totalmente diferente. Era pequena e um tanto gordinha, com uma estrutura óssea muito diferente. Sim, ele reparara em cada um dos detalhes que não o faziam filho dela. Não era algo sobre que ele falasse, mas... Bem, em algum momento... ele meio que superara aquilo. Não que tivesse deixado de pensar sobre isso, mas... não se importava de falar a verdade a Alfred.

– Ela... não é minha mãe de verdade. – disse, um tanto devagar.

– Eh? – o garoto virou-se para olhar Arthur, estupefato.

– Ela era só uma enfermeira que veio ao orfanato onde eu e meu irmão morávamos. – disse, ainda fitando o teto pensativamente. Sua expressão não denotava tristeza, só uma leve nostalgia. Como... um ferimento antigo, algo que já doeu muito, mas que sarou à custa de muitas lágrimas. – Naquele dia, eu fiquei trancado do lado de fora do orfanato. – seus olhos esverdeados vagaram pelo teto. – Nevou a noite toda. Eu achei que fosse morrer. Estava... tão frio. – não foi mais que um sussurro, como se ele ainda tivesse um pouco de medo daquela lembrança. – No dia seguinte, eu acordei numa das camas da enfermaria. Eu era o último paciente que ela veria antes de ir para casa, já que eu tinha dormido o dia inteiro e só acordei à noite. – nessa hora, um suspiro escapou de seus lábios. – Ela... foi a primeira pessoa que me tratou como se eu fosse... importante. Eu menti quando ela perguntou se eu estava bem, mas ela não ficou brava. Ela cuidou de mim. – e eu chorei no colo dela, como nunca tinha chorado na vida. – Ela acabou adotando Scott e eu. O Scott ano passado conseguiu um estágio incrível na Escócia e está morando por lá. Talvez você o conheça quando ele vier para cá em algum feriado. – disse ele, em um tom mais ameno.

– E você? Pretende... ser professor? – perguntou o garoto, incrivelmente preso à história.

– Bem... é o que eu estou fazendo. Agora eu estou cursando física e é isso que eu gostaria de fazer da vida. Mas... às vezes... Eu não sei se vou ser bom nisso e... Bem, eu me sinto mal pela minha mãe.

– Por que...?

– A família dela nunca entendeu por que ela trouxe a gente para casa. – ele voltou a se sentar, traçando círculos imaginários com seu dedo pelo chão liso de madeira. – Nenhum deles aprova a gente e eles descontam na minha mãe. O Scott conseguiu coisas ótimas academicamente e isso ajudou a eles pegarem mais leve nas críticas. Mas eu não sei se vou ser tão bom. – ele deu um meio sorriso e finalmente ergueu o olhar. – E mesmo assim, eu não quero desistir. É idiota, não é? – disse ele, bagunçando os cabelos com uma mão, ainda com um meio sorriso.

– ... na verdade, não. Eu acho que... acreditar em alguma coisa e insistir nela... é... incrível. Ninguém tem nada a ver com isso e... eu acho que você... é bom exatamente como você é. – disse o garoto, terrivelmente embaraçado e certamente vermelho até as orelhas. – Sua mãe é sua mãe de verdade sim. Ela te ama e... te criou para ser quem você é. E não tem nada de errado com quem você é. Você também me apoiou quando eu disse que queria ser engenheiro e conseguir trabalhar em algum projeto da NASA, enquanto todo mundo sempre me disse que isso é idiota. E-então! E-eu também acho que você consegue, se você tentar. – disse ele, um tanto baixo, mas sinceramente.

O olhar dos dois se encontrou em silêncio. Não houve discussão. Não houve uma fachada. Não houve mentira. Apenas, surpresa. Porque os dois viviam em um mundo em que encontrar alguém que nos aceite é surpreendente. Em que as pessoas não param para ouvir. Alguém que tentaria entender, alguém que te aceitaria? Tudo bem se... Arthur fosse exatamente como era?

Arthur olhou no fundo dos olhos claros do garoto. Por um momento, ele percebeu. Aquela pessoa era diferente. O que quer que acontecesse no futuro, provavelmente ele não encontraria outra igual. Era estranho ter alguém com quem ele podia ser ele mesmo. Era estranho ser aceito. E era assustador também. Alfred era um amigo com o qual ele gostaria de continuar vivendo pelo resto da vida. Em algum momento, eles se tornaram amigos. Mas não o que um amigo significava no mundo em que eles viviam. Não era alguém com quem se passava o tempo e que se ignorava quando se começava um romance. Não era uma pessoa que servia para se distrair e conversar sobre coisas sem importância.

Era sim alguém para se conversar sobre coisas sem importância. Mas também alguém para se falar sobre coisas importantes. Em quantos amigos se pode confiar? Para ser honesto? Para dizer o que realmente acontece? E quantos não trairiam essa confiança? Quantos tentariam entender e aceitar?

Arthur não sabia. Mas sabia que Alfred era diferente. Sabia que... ele era especial. Seu coração falhou uma batida, e ele desviou o olhar.

– Ouvir isso de um idiota... tch. – murmurou Arthur, com um meio sorriso divertido.

– O quê? Quer briga, velho? Que absurdo falar uma coisa dessas para alguém que está tentando ajudar!

Arthur riu. Era estranho como ele vinha fazendo isso com frequência nos últimos tempos. Era estranho se sentir bem perto de alguém.

Mas, mais estranho ainda era o fato de que seu coração vinha adquirindo o péssimo hábito de disparar toda vez que Alfred chegava muito perto.

– Andou bebendo, velho ancião? Ou quer briga mesmo? – resmungou o garoto, tentando não rir também, segurando Arthur pelos pulsos.

– Ganho de você de olhos fechados. – rebateu o loirinho, com um sorrisinho petulante.

Os dois começaram a se empurrar, um tentando imobilizar o outro e ganhar. A bacia de pipocas foi chutada em algum momento, mas nenhum deles pareceu se importar. A disputa durou ainda alguns minutos, acabando apenas quando Arthur tentou apoiar uma mão no chão e acabou apoiando-a sobre uma camiseta do garoto jogada no piso, que o fez escorregar e bater a cabeça no chão.

– Owwwww.... – o loirinho segurou a parte da trás da cabeça, fechando os olhos com força. Ainda meio zonzo, continuou deitado no chão, sentindo o piso estremecer quando o garoto correu em sua direção e sentou-se ao seu lado.

– Arthur! Arthur, caramba! – chamou o garoto, nervoso.

– Eu to bem, to bem... — murmurou o loirinho, abrindo os olhos. O que ele não esperava é que Alfred estivesse perto. Muito perto.

E os olhos de Arthur encontraram os do garoto. Eram lentes muito azuis fitando-o silenciosamente, estranhamente vívidas, estranhamente familiares. Alfred inclinou-se e chegou mais perto do loirinho. Talvez ele tenha perguntado se estava doendo. Mas Arthur não estava ouvindo. A franja do garoto escorregou um pouco e pendeu para frente. Os cabelos dele... o cheiro que ele tinha. E aquele azul. O coração do loirinho palpitou com tanta força que talvez acabasse rompendo. Na verdade, ele podia senti-lo batendo contra a sua garganta. E todos os sentimentos contraditórios que Alfred despertava nele pareciam... convergir na mesma ideia.

Arthur quis beijá-lo. Sua mão afastou a franja do garoto da frente dos olhos dele. O que estava acontecendo? E-ele tinha se apaixonado por aquele garoto? Impossível. Não, não era verdade. Quando foi que tudo mudou? As coisas não aconteciam de uma hora para outra. Ele não podia se sentir assim. Não por alguém que ele conhecia há só alguns meses. Não por outro garoto. Não por aquele garoto. Arthur achou que tinha ficado louco. Por que Alfred não o afastou? Por que nenhum dos dois se moveu?

Especialmente... por que Arthur sentia que podia confiar nele?

Arthur vivia em tempos difíceis. Tempos em que o mundo inteiro diria que você é louco se souber que você acredita em sentimentos e destinos. Tempos em que te julgariam tolo por acreditar em alguém, e, muitas vezes, estariam, infelizmente, certos. Era um mundo corrompido, preenchido por tudo que era mórbido e hipócrita. Mas, por pior que aquele mundo fosse, era ali que Arthur tinha nascido. Ele era uma pessoa, imperfeita, prepotente e efêmera. E, como toda pessoa que vivia naquele mundo tão triste, Arthur tinha, na palma de sua mão, a chave para a própria felicidade.

Seus dedos percorreram a bochecha do garoto e se aninharam na nuca dele. Seu coração batia tão alto que Arthur não se surpreenderia se Alfred pudesse ouvi-lo. Uma parte de si gritava para que ele se afastasse. E-ele não podia. Ele não podia deixar aquele garoto se aproximar mais. Ele precisava parar antes que Alfred chegasse mais perto. O perfume do garoto invadiu os seus sentidos e Arthur apertou a mecha de cabelos que segurava entre os dedos, sua mão ainda na nuca do garoto. Arthur queria que ele se aproximasse. Mas também não queria. Porque... ele tinha a estranha sensação de que se ele deixasse aquilo acontecer... ele acabaria se apaixonando por aquela pessoa de uma maneira que talvez... ele não fosse capaz de voltar atrás, mesmo que quisesse. E isso era assustador.

A respiração do garoto estremeceu. Ele não era mais o tipo de pessoa que suportava manter seus sentimentos entalados em sua garganta. Então, quando ele se viu tão perto... Ele acabou se decidindo, embora sem nem um pouco da confiança que gostaria de ter. O próprio mundo do garoto pareceu tremular naquele breve instante em que ele se aproximou de Arthur. Sentiu quando a respiração dele encontrou a sua, e ela parecia tão trêmula quanto à do garoto. Por um momento, os olhos de ambos se encontraram. Por um instante, eles procuraram nos olhos um do outro o que aquilo tudo significava. E, por um segundo, eles souberam a resposta.

Parecia impulso. Parecia tolice. Porque nenhum deles podia saber que vinham se amando há quase tanto tempo quanto o mundo era mundo. Nenhum deles podia saber que promessas viviam para sempre. E que havia uma promessa, que eles haviam feito há muito tempo atrás, que precisava ser cumprida.

Talvez eles não soubessem, talvez eles não entendessem. Mas seus olhos se fecharam, quase que em um combinado mudo. No entanto, Arthur os abriu no instante seguinte, atingido por uma realização súbita. Sua mão pousou no peito do garoto e manteve-o longe.

– Por que isso agora? – murmurou, baixo, como se tivesse muito medo da resposta. Porque ele tinha. E se Alfred só estivesse com pena? Aquela pergunta ecoava e ela machucava. Sua garganta trancou e seus lábios tremeram.

– Eu... – começou, em um fio de voz, encostando sua testa na de Arthur, assustado, muito assustado. Alfred não sabia o que dizer. Como ele conseguiria colocar em palavras tudo aquilo que ele sentia pelo outro? Como explicar o quanto Arthur significava, o quanto aqueles olhos esverdeados dele o dominavam, a dor que era vê-lo chorar, o medo que ele tinha de perdê-lo? Como ele poderia fazer para colocar para fora aquelas promessas mudas que ele tinha feito a si mesmo a respeito do britânico? Porque ele prometera que sempre o protegeria, independente de qualquer coisa. Como ele poderia dizer tanta coisa quando sua voz falhava tanto? Ele teria que dizer tudo isso em palavras muito pequenas, mas que contivessem em si um significado maior do que qualquer um conseguiria explicar.

Então, respirou fundo e voltou a olhar no fundo dos olhos de Arthur. – Eu só... amo você. – confessou em um sussurro apavorado.

O loirinho sentiu seu coração parar de bater por um segundo inteiro. Seus olhos fitaram com desespero os olhos azuis à sua frente, procurando qualquer indício que mostrasse que o garoto mentia.

Mas tudo o que ele encontrou foram duas safiras que ameaçavam se derramar, cheias de medo e expectativa. O mais lindo de tudo aquilo era que elas eram sinceras. Aquele azul chegava a ser translúcido. Completamente despido de barreiras e farsas, vulnerável a qualquer palavra que Arthur resolvesse dizer.

Só que ele não disse nenhuma. Suas mãos simplesmente tocaram o rosto de Alfred, acariciando suas faces. Aqueles olhos muito azuis dele se arregalaram e Arthur conseguia vê-lo no sutil limiar entre a esperança e o desespero. O loirinho apenas fechou os olhos e o beijou.

Alfred sentiu quando seus lábios encontraram os de Arthur. E, naquele breve segundo, tudo pareceu estar exatamente onde deveria estar. O garoto suspirou e o retribuiu, lentamente movendo os lábios sobre os de Arthur, que o sentiu sorrir. Ele estava feliz. Tão feliz que gostaria de sair gritando para o mundo. Sua felicidade era tão tola e verdadeira que ele se percebeu incapaz de conter o sorriso enorme que se apossava de suas feições.

Arthur riu abaixo de si, afastando-o alguns centímetros para olhá-lo.

– Idiota. – murmurou a ofensa, mas faltou irritação. Faltou raiva em sua voz baixa, assim como faltou raiva em seus olhos claros. — Como você quer beijar direito com esse sorriso idiota na cara? – mas Arthur não era alguém para falar. Seu sorriso era tão tolo quanto o do garoto. Sua crítica servia meramente para... fingir que aquilo era normal. Fingir que suas bochechas não estavam queimando, que seu coração não parecia querer trabalhar no ritmo, que... que não estava chocado com o que tinha acabado de acontecer. Como se ele não tivesse acabado de beijar seu melhor amigo.

– Shhh eu sei o que eu estou fazendo. – murmurou o garoto, pousando o indicador sobre os lábios de Arthur e se contentando com um meio sorriso divertido. O outro sentiu como se uma pedrinha de gelo tivesse caído na boca de seu estômago. Ele estava perdido. Porque, naquele momento, ele achou que Alfred ficava realmente bem sorrindo. Seu coração ainda batia furiosamente dentro de seu peito e Arthur percebeu-se nervoso. Mas também... terrivelmente encantado. Não era primeira pessoa que Arthur beijava, mas era a primeira vez que ele se sentia assim.

Os lábios de Alfred voltaram a cobrir os do loirinho e dessa vez, o garoto não o soltou tão rápido. Arthur aproveitou-se da boca entreaberta do garoto e passou sua língua entre os lábios dele, enquanto sua mão tomou a nuca de Alfred, trazendo-o mais para perto, aprofundando o beijo.

O garoto sentiu a mão um pouco fria de Arthur em seu pescoço, o que o fez estremecer levemente, seus braços segurando o loirinho pela cintura e o abraçando, querendo nada mais do que se afundar na própria existência do outro. Partiu de Arthur reduzir um pouco o ritmo, transformando o beijo longo em vários pequenos, então um pouco de língua, depois apenas lábios se tocando. Sua mão repousou sobre a face um pouco quente do garoto com carinho, e eles partilharam um beijo breve e delicado. Alfred não se afastou. Pelo contrário, encaixou sua cabeça perto da nuca de Arthur, seus lábios quase tocando uma orelha muito vermelha.

O loirinho sentiu-se estremecer levemente quando ouviu um sussurro baixo por parte de Alfred.

– Arthur... – e houve uma pausa, porque o garoto estava tentando tomar coragem para aquilo há um tempo. Ele respirou fundo e afastou-se alguns centímetros, fitando as bochechas levemente coradas do garoto abaixo de si, assim como os olhos verdes que cintilavam, esperando o que ele tinha a dizer. Alfred engoliu em seco, sentindo as próprias bochechas esquentarem. – E-eu... hmm... sabe. Queria saber... se... – o garoto sentiu o coração martelando furiosamente dentro do peito, ainda percebendo-se fitado por olhos muito verdes. Ele tinha que dizer. Com toda a coragem e determinação e... e coragem... – Quer... namorar comigo? – mas não foi mais do que um sussurro muito tímido. Embora Alfred quisesse muito que fosse uma confissão mais incrível e confiante, o máximo que ele conseguiu foi um murmurar baixo, acompanhado de bochechas muito vermelhas.

A sua sorte era que Arthur conseguira ficar ainda mais vermelho.

– A-acho que eu poderia. – gaguejou Arthur, terrivelmente embaraçado.

Bem, sempre se diz que não se pode confiar na opinião de um apaixonado. Mas, confiando ou não, se perguntassem a Alfred, ele diria que um anjo não poderia dar um beijo mais suave que o que Arthur lhe deu depois de dizer aquilo.

Verdade ou não, não fazia diferença. Palavras eram importantes; mas, às vezes, eram insuficientes para conter o tamanho do sentimento que as pessoas precisavam colocar nelas.

Notas finais
Bem, o título do capítulo é de uma música de Pink Floyd. Linda demais, pena que ela não se encaixa com o capítulo. bem, mas o título caiu como uma luva xD
-
Ahhh e em resposta a Yuo-chan! o/ Eu estou sim planejando momentos de PtxBr! Na verdade, tenho umas cenas escritas já, mas elas acontecem um pouquinho mais para frente. Fico muito feliz mesmo que você tenha gostado dos dois! *-* Agora que você falou, vou tentar caprichar xD
-
Bem, enfim, tomara que vocês tenham gostado do capítulo! Por favor, me digam suas opiniões xD Eu fiquei muito feliz de ter conseguido atualizar antes de viajar, acho que seria muito injusto sair sem postar. Espero que tenha ficado bom xD
-
E por fim, não menos importante ( como colocar a cereja em cima do bolo xD Ou comer a cereja - sou do tipo que come a cereja só no final xD) Um beijo super especial a Yuki Kirkland, Ju, Neko, Moro, Shirayuki, Yuo, England ( que bom que você fez contaaa 8D Bem vinda o/), Homumoemura e Cath! Pessoas muito maravilhosas que comentaram o capítulo passado. Já estou indo responder seus amáveis e maravilhosos reviews! ( devia ter respondido antes, mas eu realmente precisava terminar o capítulo antes de sair @_@ Mas saibam que sempre que eu não conseguia mais escrever, eu olhava os reviews de vocês e me inspirava de novo *-*)
-
Enfim, eu falo muito xD Mil beijos para vocês! :DD