Boulevard Of Broken Dreams
26 Capítulo 26 - O arcano 17
Notas iniciais
Um super beijo a Homumoemura e Yuina Hal, que assim como a Jojo, Yaya, Neko, Abyssus, Bia, Ichimoku, Ju, Susipolela, odango e tiia recomendaram essa minha historinha O/
(A música do capítulo é Dimension of Love - http://www.youtube.com/watch?v=FFv5EsDC3vs) -> não me pertence, ok? xD
O vidro da pequena janela embaçou com o silencioso suspiro que a atingiu. O céu lá fora era azul, mas havia muitas nuvens. Matthew apenas observou os rastros de seu suspiro desaparecerem da janela como se nunca tivessem existido. Seu olhar recaiu sobre a poltrona do lado, onde um senhor dormia. O copo de suco do senhor balançava de leve, ao que o canadense reparou que a aeromoça havia passado e pulado sua vez.
Ele havia sido esquecido. De novo.
Suspirou. Não era como se fosse novidade, era? Mas ele não conseguia deixar de se sentir um tanto... solitário quando isso acontecia. Bem, mas não era por isso que ele estava ali? Não era por isso que ele saíra de casa para estudar fora e morar sozinho?
Talvez fosse porque ele quisesse ver o mundo. Talvez porque ele precisasse se sentir vivo. Talvez porque ele se cansara de ser completamente ignorado em casa. Ele queria se mudar, estudar os melhores cursos, provar para si mesmo que... existia. Sim, porque mesmo agora, com seus dezoito anos, não parecia como se... ele tivesse vivido alguma coisa.
Respirou fundo, reunindo coragem. Não era como se algo fosse mudar se ele continuasse sentado e se queixando. O aviso de aterrissagem soou e ele se levantou para pegar sua bagagem de mão. Sentiu um pouco de pena do ursinho de pelúcia, que teve de ficar junto com sua mochila. Se dependesse apenas do canadense, ele não ligaria em ficar com o bichinho o tempo todo. Havia certas vantagens em ser praticamente invisível. Na verdade, havia muita liberdade nisso. É, em alguns momentos, ele aceitava ser invisível. Mas ele não desperdiçaria a vida inteira sendo imperceptível o tempo todo.
Sorriu de leve quando encarou as ruas francesas, arrastando duas malas de rodinhas e equilibrando a mochila nas costas. Era... tão estranho estar em um lugar novo, sem nada nem ninguém conhecidos. Não havia alguém para buscá-lo no aeroporto, não havia alguém em casa perguntando onde ele estava... Era muito, muito estranho. Matthew sentiu-se um tanto nervoso. Estar completamente sozinho assim era novidade. Em casa, por mais que seus pais não lhe dessem muita atenção, ele sabia que se precisasse de ajuda, alguém viria. Ali, em um outro país, longe, muito longe de casa, não havia nada. Respirou fundo outra vez. Precisava, mais do que nunca, estar atento e não se meter em confusão.
O endereço da confeitaria onde faria seu tão sonhado curso de gastronomia vinha seguro dentro do bolso do casaco quente e fofo de capuz. Seu sorriso alargou e seu coração bateu um pouquinho mais rápido de ansiedade. Ficou realmente tentado a ir direto para a confeitaria perguntar logo sobre como seria o curso e os próximos dias e as pessoas que ele conheceria. No entanto, uma dor no ombro o lembrou de que precisaria se livrar das malas antes. Sua primeira parada foi na pequena casinha alugada, que ele conseguiria manter nos primeiros meses com ajuda dos pais e com a própria mesada.
Ligou a chave geral, abriu o controle hidráulico, acendeu algumas luzes e foi suficiente para que a casa parecesse agradavelmente habitável. O antigo morador saíra há não muito tempo, de modo que tudo estava razoavelmente limpo e ainda mobiliado, como era parte do acordo, por um módico acréscimo no valor do aluguel.
As malas foram deixadas do lado da cama de solteiro forrada com lençóis azul-claros. Ordenadamente, Matthew desfez as malas e rearranjou tudo nos cabides, rezando para não haver traças ali. Bem, se sua checada rápida lhe dizia algo, o armário parecia bem limpo. O canadense ajeitou tudo dentro das gavetas e recolocou os cabides. Não era uma arrumação espartana, separando roupas por tonalidade, mas também não era o total caos. Estava bem simpático, se alguém lhe perguntasse.
– Não que alguém fosse me perguntar. – murmurou consigo mesmo, revirando os olhos e dando um meio sorriso um tanto auto depreciativo.
Bem, mas ele não chegara tão longe para ficar se lamentando.
Checou o relógio de pulso, que lhe informou as quatro horas da tarde. Decidiu-se por um banho rápido, uma calça jeans azul petróleo, uma camiseta verde clara e o casaco de capuz bege. Procurou na internet o caminho até o endereço do papel e saiu de casa.
No entanto, em cinco minutos, estava de volta. Esquecera o ursinho polar sobre a cômoda.
De volta às ruas, ele seguiu fielmente o endereço, Kumajiro firmemente em seu abraço. Agora sim, bem melhor. Matthew não se sentia ele mesmo sem Kumajiro. No final da rua que indicava o mapa do gps, estava um estabelecimento de fachada média, mas aparentemente espaçoso por dentro. Tinha um quê de requinte, com um pequeno e rendilhado cortinado branco revelando parte do interior através do vidro. Era um ar clássico, ainda que algum jeito de... romantismo? Rococó? Enfim, Matthew não saberia definir que escola artística aquilo lhe lembrava, mas certamente podia afirmar que nada ali parecia ao acaso, desordenado. Cada pequeno enfeite parecia fazer parte de algo maior, pareciam compor um conjunto artístico.
Bem, Matthew não pôde deixar de sorrir, animado. Ele gostava muito das artes e sempre acreditara que a gastronomia devia sim andar junto com a arte. Seguramente, em casa, o canadense era considerado melhor cozinheiro. E para alguém reconhecer qualquer coisa que um ser tão imperceptível como ele fizesse era notável.
Mas Matthew não se importava com isso. Era uma daquelas coisas que se faz por paixão, e, mesmo que ninguém soubesse, percebesse ou valorizasse, ele continuaria. Porque Matthew gostava mesmo de culinária. De imaginar combinações, tentar ingredientes novos, pesquisar receitas de toda a parte.
O que, de uma forma ou de outra, trouxe-o até ali. Ou ao menos era o que ele pensava que o trouxe até ali.
Entrou no estabelecimento e encontrou um salão amplo e agradável como a fachada. O chão era de pedra, mármore provavelmente, em tom champagne, que casava interessantemente com as mesas redondas, entre as quais os garçons passavam com doces e salgados bonitos e elegantes, apetitosos e perfumados.
Para completar, no final do salão, havia um piano de cauda, que cintilava como uma pérola negra sobre o piso claro.
Mas não foi o piano que roubou sua atenção. Nem o piano, nem os doces, nem o mármore, nem as mesas. O piano contava algo quase timidamente entre as vozes dos clientes. Uma música doce e cheia de arranjos complicados, cheia de ornamentos, uma verdadeira escultura barroca, explodindo em sentimentos contidos.
Mas também não fora exatamente a música que lhe fez simplesmente estagnar no meio do salão e olhar.
Havia alguém ao piano.
Os cabelos loiros vinham lisos na raiz, mas se ondulavam elegantemente nas pontas. Mesmo com o movimento cadenciado de seus dedos no piano, os cabelos do pianista não pareciam terem se desarrumado. Caíam como seda, finos e leves. Ele ainda ostentava olhos de um certo azul celeste, um tanto desbotado, como uma vidraça embaçada, talvez. Havia alguns rastros de barba em seu queixo, tornando-o estranhamente clássico, ainda que despojado. O rosto era fino e bem adulto, ao contrário das feições de criança que Matthew ainda tinha. Havia um meio sorriso terno no rosto do pianista, como se a própria música fosse sua família. E aquele meio sorriso gentil parecia... conhecido.
Mas o pianista não seu deu conta de Matthew. Na verdade, ele não parecia se dar conta de coisa alguma. Ele nem mesmo trouxera partituras, uma vez que parecia saber aquelas músicas de cor.
Alguém tocou o ombro do canadense, sobressaltando-o.
– Oii, você deve ser o Matthew, não? — Uma mocinha começou a contar um monte de coisas sobre estar sendo esperado, sobre o curso que faria, sobre como ele ia amar tudo aquilo. Matthew piscou atordoado nos primeiros momentos, tentando ser polido e prestar atenção no que a moça dizia. No entanto, apenas percebeu-se irritado com a voz dela por se sobrepor à música que o pianista tocava. Ainda assim, ele respirou fundo, engoliu o que pensava e foi educado.
– Ah, bom dia, senhorita. – disse, em sua voz macia e baixa. – Eu imagino que minhas aulas começam na semana que vem, não? – ajeitou Kumajiro em seu colo enquanto falava, o que geralmente fazia quando incomodado ou pressionado.
– Ahn... sim, sim. – a moça ergueu uma sobrancelha ao ver um rapaz bonito e daquele tamanho se agarrando a um ursinho de pelúcia. Ia dizer alguma coisa, mas percebeu que a atenção do canadense tinha se desviado do assunto. Seguiu o olhar dele, alcançando o rapaz pianista.
– Ele é bonito, não? – murmurou ela enquanto apontava para quem Matthew olhava, fazendo-o corar algo em torno de dois tons de vermelho.
– O que? – o canadense quase engasgou, embaraçado, morrendo de vontade de voltar para casa e sair do meio daquele monte de pessoas. Pessoas essas que começaram a aplaudir assim que a música se encerrou e o pianista se levantou.
Matthew não pôde deixar de perceber como o olhar do pianista loiro não recaía sobre ninguém. Ele olhava vagamente para todos, em uma profusão de sorrisos e beijos, agradecendo a todos, mas a ninguém em especial. Observou-o ajeitar uma mecha loira atrás da orelha, charmosamente. Com certo cuidado excessivo, ele contornou a cadeira do piano e se afastou a passos elegantes, ainda que calculados e um tanto lentos. Ele foi andando pelo salão, olhando para frente de uma maneira distraída.
– Francis! – a mocinha do seu lado o chamou assim que ele passou ao lado dos dois.
O francês virou-se na direção deles e Matthew encarou os olhos azuis dele. Foi... tão estranho. Matthew se sentiu... de volta. Olhar nos olhos dele era como voltar para casa. Mas...
– Matthew, Francis Bonnefoy. Francis, Matthew Williams. – disse a moça, ao que o francês imediatamente sorriu e mandou-lhe um beijo no ar. – Eu preciso ir, mas o Francis pode te contar um pouco sobre o lugar. – ela hesitou um pouco. – Tudo bem por você, Francis?
– Claro, claro, mon amour. – disse ele charmosamente. – Vá para casa, tem gente esperando você. – e com isso, piscou um de seus olhos claros.
– Até semana que vem, Matthew! – e com isso, ela deixou os dois sozinhos, ainda que parecesse levemente apreensiva em deixar o amigo pianista sozinho com o novo visitante.
– Vamos nos sentar, pequeno Matthew, tenho milhares de coisas a dizer sobre essa linda e charmosa confeitaria. Me acompanha? – e estendeu uma mão, esperando o canadense aceitá-la. Com certa hesitação, como se tivesse algum medo inexplicável que aquela pessoa o enganasse, Matthew aceitou a mão.
– Escolha um lugar. – convidou o francês, ainda segurando a mão do canadense, como se tudo aquilo fosse muito normal.
Matthew o olhou com certo espanto. Nunca ninguém o convidara a escolher coisa alguma, ele normalmente ficava com o que sobrava. Ainda um tanto atordoado, ele avistou um lugar mais ao canto, atrás de um vaso alto de decoração, longe daquele excesso de pessoas ao qual ele não estava acostumado. As flores escondiam a mesinha com pés delicados e floreados de metal. Havia um sol leve e agradável transparecendo pelas cortinas claras e translúcidas. O francês não questionou sua escolha, apenas seguindo-o pelo salão.
– Então, pequeno Matthew. – disse o francês assim que ambos conseguiram se acomodar. – O que o traz à linda França?
– B-bem, eu... vim fazer o curso de gastronomia... – respondeu ele, reticente.
– Honhon.... Então temos um chef por aqui?
A pergunta veio charmosa, assim como tudo que parecia sair dos lábios do francês. Ambos passaram horas conversando, sobre tudo e sobre nada, realmente. Francis parecia também amar gastronomia, mas não exercia mais, embora tenha muito polidamente não dito o motivo. Agora ele acabara por exercer outro talento seu, que era a música.
E quando ele falava sobre a música que ele fazia, Bonnefoy era uma outra pessoa. Seus gestos não pareciam mais tentar encantar o mundo. Ele simplesmente falava, com ternura e cuidado, como se seus acordes maiores fossem a maior alegria de sua vida e como se seus acordes menores fossem seu único consolo de tudo aquilo que o magoava. Ele amava arte. De verdade. Ele não passou horas criticando movimento artístico nenhum ou dizendo como tal artista não fazia nada direito. Ele simplesmente começou a falar de grandes compositores como se fosse grato a eles, como se... como se a beleza da arte justificasse um pouquinho do mundo.
Percebeu o silêncio do canadense, ao que pareceu acordar de seu devaneio. Piscou algumas vezes seus olhos claros, parecendo desconcertado por alguns momentos. Voltou ao tom espalhafatoso e charmoso, para a decepção de Matthew. Ele... gostava de quando o outro parecia... sincero. Seu silêncio fora porque... ele gostava da voz daquela pessoa. Era agradável. Principalmente quando ele dizia coisas sinceras, quando ele parecia se divertir enquanto conversava com Matthew. Não quando parecia um teatro no qual ele era agradável por educação. Aquela mudança de comportamento incomodou o canadense, que não conseguiu se conter.
– Por que você é assim? – a pergunta saiu mais irritadiça do que Matthew queria. Aquela pessoa ali tinha o estranho dom de fazê-lo sair do sério. De... falar o que queria, o que sentia, ofendesse a quem ofendesse. Era libertador, mas também terrivelmente assustador. Seu coração parecia que ia sair pela boca.
– Assim como? – o francês franziu o cenho, ainda olhando vagamente na direção do outro.
– Assim. Você fica o tempo todo enfeitando as coisas. O que você diz, como você fala. – por que estava falando assim? Por que estava irritado? Sua voz foi baixando. — Parece que... aparência é tudo pra você. – murmurou o canadense, morto de vergonha com sua explosão repentina.
– Você fala isso, mas não sou eu que ando julgando pelas aparências, não? – o francês sorriu, apoiando o rosto sobre uma das mãos. – Bem, você está errado. Eu invento beleza em tudo porque... bem porque eu sou como o amor. – Ele gostava daquela metáfora. Fazia com que sua vida parecesse ter sentido.
– Uma criança cigana? – porque ‘irresponsável’ soava muito rude.
– Não. – o francês riu um pouco, mas foi triste. – cego.
Matthew parou por um segundo inteiro. O motivo pelo qual Francis não carregava partituras. Pelo qual ele nunca olhava ninguém nos olhos. Pelo qual ele andava com elegância, mas devagar, como se tentasse não esbarrar em nada nem ninguém. Pelo qual ele pedira para Matthew guiá-lo até a mesa. Ele... era cego. Mas orgulhoso demais para pedir a ajuda de outras pessoas. O mundo para ele não passava de uma escuridão densa e constante, a qual ele tentava enfeitar com palavras. Com adjetivos que coloriam uma realidade a qual ele não podia ver, mas que ele gostava de imaginar que era bonita.
E Matthew nunca saberia que o francês escolhera aquele destino, muito antes de nascer. Porque ele um dia prometeu que provaria a Matthew que o amava de verdade. Que, por mais que ele amasse o belo, seu amor por Matthew era mais do que isso. Prometeu que um dia faria o canadense acreditar. E levou sua promessa às últimas consequências.
Porque Francis Bonnefoy era um romântico incorrigível.
Mas tudo isso era desconhecido aos dois. Matthew meramente fitou os olhos azuis e sem luz do outro.
– D-desculpe. – murmurou, o coração ainda palpitando dentro do peito.
– Não tem problema. Eu meio que... levo as pessoas a pensarem assim com as coisas que eu falo e que eu faço. – admitiu o francês, pensativo. Em seguida, sorriu de lado. – É a primeira vez que sou tão sincero assim. Acho que podemos ser bons amigos, não? – seu sorriso tornou-se levemente mais doce, ao que ele estendeu uma mão e esperou o canadense apertá-la.
Notou como a mão dele era alongada e macia, e como o aperto dele era tênue. A voz baixa e macia do canadense era um alívio para alguém como Francis, que tinha que se guiar o dia inteiro por sons e barulhos altos e confusos. Era como se todo o resto do mundo pudesse se silenciar e existisse apenas aquele sussurro baixo e encantador. O coração do francês também acelerou, fazendo com que ele se sentisse... estranhamente eufórico. Fazia muito tempo desde que ele se sentira tão vivo. O sol muito leve do fim da tarde tocou seu rosto. A luz dourada era morna e macia e, se Francis pudesse saber o quanto aquela tarde estava linda, ele teria ficado encantado.
O mais estranho é que, mesmo que ele não soubesse do tempo claro e agradável que fazia naquela tarde, Francis estava encantado. Por uma pessoa como tantas outras. Por alguém que ele queria conhecer. Era estranho como dezenas de pessoas já tinham visto Matthew na vida, mas Francis pareceu ser o primeiro a realmente vê-lo. A reparar em sua voz baixa e em como ela mudava levemente de acordo com o humor dele. Ele via. Ele sabia. Mesmo que não visse ou soubesse que cor o céu tinha hoje. Ou que teria amanhã.
– Amigos. – disse o canadense, sorrindo também, ainda um tanto encabulado.
– Mas então, me conte. Sua família! Irmãos? – Francis retomou o assunto, soando interessado e divertido.
– Um pai e uma mãe separados, e um meio irmão. – resumiu o canadense, sorrindo.
– Irmão? — isso era uma surpresa. — E ele se parece com você?
– Nem um pouquinho. – disse Matthew, revirando os olhos ao se lembrar do irmão. – Isso é, fisicamente, um pouco. Mas de resto, ele é o contrário de mim.
– Honhon, como assim, contrário?
– Ele é sem noção, teimoso e meio intrometido, mas é uma boa pessoa. Fala pelos cotovelos, o que faz com que ele fale mais do que devia às vezes, mas é divertido. Sei lá, o tipo de pessoa que você nota quando não está, de tanto espaço que ela parece ocupar, sabe? Só metia a gente em confusão. — riu, fascinando o outro com a risada baixa e suave. – Em resumo, um teimoso meio sem educação e com uma dúzia de parafusos a menos na cabeça.
– Atchoooo!
Os cabelos cor de caramelo do garoto se bagunçaram completamente depois do espirro escandaloso que ele dera. Olhos muito azuis se abriram, um tanto marejados, conforme ele desejava saúde a si mesmo.
– Alfred! Alfred, anda logo com essas caixas! – o senhor Jones gritou ao longe, mas com um meio sorriso orgulhoso ao ver o filho ajudando.
O garoto se ergueu, sacudindo a cabeça e tentando bater o pó em suas roupas. As caixas da mudança estavam sendo empilhadas nos cômodos empoeirados da nova casa que seus pais compraram. As coisas de Matthew acabaram ficando com eles, uma vez que o canadense deveria voltar para casa depois do curso que fora fazer na França.
França. O que diabos Matthew fora fazer na França? Alfred suspirou. Como se pudesse falar algo do irmão. O que ele mesmo viera fazer na Inglaterra? Sinceramente, não tinha outro lugar para o seu pai ser transferido?
– Ughh e esse pó. – resmungou, embora sua real preocupação era de aparecer algum tipo de assombração. Malditas casas velhas com cara de assombradas. N-não que ele estivesse com medo! Imagine. É só que... ora, sua mãe poderia se assustar! Imagine, dar um susto na pobre senhora.
Colocou as três caixas que levava empilhadas sobre o chão coberto de poeira da sala de estar. Uma senhora de cabelos com certo tom de dourado envelhecido postou-se ao seu lado e passou a contar as caixas.
– Trinta e duas.... Certo! Acho que temos tudo aqui. Obrigada, querido. – murmurou a senhora Jones, puxando o filho para baixo, alcançando-lhe a bochecha com um beijo estalado.
– De nada, mãe. – e o rapaz, que não tinha mais que dezesseis ( dezessete só em julho), deu um sorriso largo e voltou a se erguer ( tivera que abaixar um pouco para que sua mãe conseguisse alcançar-lhe).
– Vou sair um pouco, ok? Mais tarde eu volto! – e, sem pedidos de permissão ou um horário fixo para voltar, Alfred saiu porta afora correndo. Sentiu aquela familiar adrenalina subindo, percebendo-se muito contente em estar do lado de fora, abaixo de um céu estranhamente azul. Havia algumas nuvens sim, mas elas prometiam chuva para o final da tarde, ao que Alfred deu-se por muito satisfeito. Não gostaria que estivesse um clima muito mórbido e sem graça. Não hoje. Por que não hoje? Não sabia. Mas ‘hoje’ parecia um momento fantástico. ‘Agora’ parecia uma hora perfeita. Para o que? Também não sabia.
Talvez fosse simplesmente mais um daqueles dias normais, em que é meramente um bom dia para se estar bem. Talvez fosse presságio de boa sorte. Mas quem iria saber? Havia tanto mais entre o céu e a terra do que podia sonhar a vã filosofia daquele garoto naquele dia.
Olhou em frente de casa e memorizou o endereço. Depois se viraria para achar aquele lugar de novo. Por enquanto, ele iria sair e andar a esmo, sem pensar. Ele gostava da ideia de aventura. Ele não queria se preocupar. Ele não gostava de se sentir limitado ou preso. Como se quisesse ser uma folhinha carregada por um vento sem destino. Como se aquilo tudo fosse mesmo uma aventura e ele estivesse atrás de alguma coisa. Ou alguém.
Abaixo daquela céu imenso, o destino acontecia todos os dias.
Sakura ga chiru koro ni guuzen aimashou
Minarenai fuku wo kite tanin no kao shite
(Na época em que as flores de cerejeira se abrem, nós vamos nos encontrar por acaso
Eu vou estar vestindo roupas que você não vai reconhecer
E eu vou parecer um estranho para você)
Respirou fundo, olhando para o alto e sentindo a brisa contra o seu rosto. Não estava muito frio naquele dia. Não era muito mais que meados de março, anunciando uma primavera que prometia ser eterna. Na realidade, já era primavera e o garoto sabia que aquela estação passaria. Mas alguma coisa naquela brisa tinha um certo ar de eternidade. No entanto, Alfred não percebeu que a brisa era diferente, distraidamente apenas contente com o fato de não ser inverno. Ele odiava frio. Aquele cenário triste de árvores quase mortas. A impossibilidade de sair se quisesse.
Por isso ele se sentia muito bem naquele dia. O velho casaco marrom de seu pai se moldava perfeitamente em torno de si, fielmente consigo desde que ganhara de presente, protegendo-o da brisa fresca. Colocou as mãos nos bolsos do casaco. A camiseta por baixo era azul clara e a calça jeans, preta. O tênis adolescente e da moda vinha meio surrado e desamarrado. Seus olhos azuis miraram o céu acima de si, claros e curiosos, atentos e com um certo cintilar de alguém que não se lembrava mais das atrocidades do passado. De guerras e de campos de batalha dos dias de antes, em que havia mais medo e menos razões para se viver.
Alfred era livre. Mais do que ele sequer conseguiria compreender um dia. Uma liberdade pela qual ele não precisara matar ninguém. Roupas que não indicavam patente ou um exército. Olhos de um azul tão claro que chegava a ser quase translúcido, como água-marinha derretida.
Um azul que perseguia os sonhos de uma outra pessoa. Uma que talvez precisasse de Alfred. Que talvez estivesse esperando por ele, mas nem sabia que estava. E que, por acaso, naquele dia, daquela primavera, vinha correndo da escola, fugindo de confusão. Alfred não sabia do que ele corria. Na verdade, o garoto sequer notou que ele se aproximava, distraídamente olhando para uma nuvem com formato engraçado.
Ele não viu, mas com certeza sentiu quando algo pesado chocou-se contra o seu lado direito, fazendo-o cambalear para o lado. Já o outro rapaz — porque o 'algo pesado' era uma pessoa — , visivelmente mais leve, caiu sentado no chão. O cabelo muito claro do rapaz estava completamente bagunçado e se desordenara ainda mais quando ele caíra.
– Hey, você está bem? – o garoto perguntou, preocupado, e se aproximou para ajudar o outro a levantar. Mas sua mão não o alcançou. Apenas na menção do ato, ela parou. Alfred simplesmente parou.
Porque Arthur fixara seus olhos muito verdes no azul muito profundo dos olhos do garoto.
Mou ichido hajimaru itsudatte modoreru
Nagai jikan wo kaketa saikou no koi da mono
(Nós vamos começar uma outra vez e a qualquer momento poderemos voltar
O melhor amor é um pelo qual se esperou por muito, muito tempo)
Algumas horas antes, no mesmo dia
– Mãe, já to indo! – gritou Arthur, já da porta, jogando a mochila sobre o ombro e girando a maçaneta.
– Tchau, querido, e boa aula. – disse ela do começo do corredor, correndo um pouquinho para alcançá-lo. Tentou abaixar o cabelo dele com uma escova, mas continuava tudo tão bagunçado quanto antes.
– Mãe! – Arthur fez uma careta quando ela tentou pentear com mais força. – Eu tenho que ir, beijo! – disse, depositando um beijo na testa dela e correndo porta afora.
– Tchau, gente! – disse, acenando para uma dúzia de fadinhas que haviam se reunido para tomar um pouco do orvalho que se formara sobre as rosas.
As fadinhas esperaram Arthur estar a uma distância razoável até continuarem o assunto.
– Ele é tão bonzinho! Agora eu sei porque aquele garoto gosta dele. – murmurou uma fadinha lilás.
– Mau humorado e meio encrenqueiro, mas é sim. – riu uma fadinha amarela. De fato, Arthur tentava não se meter em encrenca. Mas a encrenca se metia com ele com frequência, embora Elizabeth nem sonhasse com isso. A verdade era, Arthur tentava fazer as coisas certo. Mas o seu temperamento nem sempre o ajudava.
– Ele já foi mais mau humorado e mais encrenqueiro. – sorriu a fadinha violeta, a mais velha de todas. – Mesmo o garoto... eles não se davam bem naquela época. — disse, rindo disso também. Aqueles dois...
– Conta pra gente! Nós queremos saber do Arthur de antes! – ressoaram as demais fadinhas, olhando com admiração para a mais velha.
– Bem... – ela suspirou e bateu suas asinhas violáceas.
Bem, era uma vez um garotinho. Arthur era o nome dele. Eu o conheci quando ele ainda era muito pequeno. Naquela época, ele sonhava com muitas coisas. Ele vivia dizendo que... queria ser como as outras pessoas. Eu ainda me lembro de quando ele, pela primeira vez, viu alguém morrer. Era uma velhinha. O marido dela segurou a mão dela até o fim. Arthur ficou olhando meio de longe os dois pela janela. E eu soube que ele desejou ter alguém. Ele queria ser amado por alguém. Arthur nem ligaria se ele tivesse que morrer, desde que não estivesse sozinho.
Ele era uma criança adorável. Mas... bem, ele cresceu. E deixou os sonhos dele morrerem. Ele não queria mais se importar. Arthur não ligava mais. Vocês precisavam ter visto. Ele era arrogante, forte e ousado. Arthur Kirkland não era um nome que ele usasse. Ele era a Inglaterra.
– Não me interessa os seus motivos. Ordens são ordens. – o olhar de Arthur era ácido, perigoso. Seu porte era altivo. Arthur Kirkland era belo como um sonho, mas arrogante, prepotente, orgulhoso.
Anata to deatta ano koro no watashi wa
Anata no ichiban kirai na taippu data
(Aquele eu que conheceu você
Eu sempre fui o tipo que você mais odiava)
Bem, quando ele conheceu o Alfred... Ah, aquele garoto. Eu nunca vi o Arthur tão feliz quanto naqueles anos. Cuidando daquela pequena criança humana, embora ele mesmo fosse só um rapazote.
– Humana? — questionou uma fadinha de asinhas transparentes. — Ele não era uma nação?
A fadinha violeta corou de leve. — Pequena criança nação, então, senhorita Ju! *- disse ela embaraçada. — Todos os seres não mágicos são a mesma coisa para mim. — resmungou ela. — Mas isso não vem ao caso! Como eu dizia...
Enfim, ele foi muito, muito feliz. Mas aquele garoto cresceu. E Arthur falhou em perceber isso. Alfred se apaixonou, mas Arthur nunca percebeu. O garoto esperava todos os dias no cais, mas Arthur não apareceu por anos. As cartas entre eles foram ficando vazias. Eles discutiam. Alfred desistiu de esperar e não respondeu às cartas que chegavam. À bem verdade, ele era um garoto bem mimado naquela época, Arthur nunca impôs muitos limites.
– Chegou alguma carta para mim? – Arthur perguntava ao seu oficial. Diante da negativa, bufava frustrado quando percebia que o garoto fazia de propósito.
Itsudemo watashi wo mushi shiteta anata wa
Hanashi no awanai yabottai otoko data wa
Você sempre me ignorava
Alguém com quem eu nunca conseguia concordar, você era um homem muito chato
Mas... quando Arthur voltou, ele ensinou aquele garoto a dançar. — nesse momento, a fada riu, acompanhada de algumas outras fadas mais velhas. – Vocês precisavam ter visto!
– Aqui, pegue na minha cintura... – Arthur guiou a mão de Alfred para a própria cintura, colocando sua mão sobre o ombro dele. O garoto sentiu o corpo todo se arrepiar quando sua mão envolveu as costas do loirinho, sentindo seu quadril estreito, a firmeza de seu corpo por baixo das roupas que ele usava... E ainda tinha a mão de Arthur em seu ombro, segurando-o. Sem contar que o loirinho ficava absolutamente adorável visto de cima. Alfred nunca agradeceu tanto por ter ficado mais alto que Arthur. Porque os olhos verdes que ele tanto amava ficavam absolutamente adoráveis vistos dali. Seus cabelos loiros caíam suavemente, em um contraste quase injusto de tão perfeito.
–E agora você se move... – Arthur guiou-o, ainda que Alfred estivesse na posição masculina do par, suavemente lhe mostrando o que fazer. O garoto tropeçou, seu rosto absurdamente quente, suas mãos começando a suar. Arthur ria e Alfred se fascinava ainda mais.
E eles dançaram a tarde toda, rindo, nem sentindo o tempo passar. Alfred pisou no pé de Arthur várias vezes, chegando a tropeçar e cair em cima dele alguns pares de vezes. Seu rosto ficava completamente vermelho quando ele ia ao chão, seu corpo sobre o do britânico, suas faces centímetros uma da outra.
Ah atsui koi ni yokan nante nai
Sukoshizutsu sukoshizutsu futari kawatta
(Ah, um amor passional pelo qual eu nunca esperava
Aos poucos, nós dois mudamos)
Os anos passaram e eles se separaram. Arthur sofreu por muitos anos e eu não sei se ele um dia se recuperou do que aquela separação significou para ele. Enfim, os homens entraram em guerra outra vez e Arthur esteve lá. Ele nunca esqueceria. O clima ficava cada dia mais tenso, seus pilotos cada vez mais cansados e seus trabalhadores também, tentando produzir equipamentos à tempo. No dia 4 de julho, seus navios foram atacados à caminho de casa. Arthur estava chorando quando recebeu a notícia. Ele chorava por lembranças que ainda o magoavam. Porque sabia que a pessoa por quem ele chorava não se importava. Alfred o tinha abandonado e ele sabia disso. Não só naquele mesmo dia, há muitos anos atrás. Mas naquele momento também.
Ele não viria.
No dia 10 de julho, invadiram o canal da Mancha. No dia 10 de julho começava, oficialmente, a Batalha da Bretanha.
Foi tanta dor... Tanto horror, que vocês não podem imaginar. Foi tão aterrorizante que demorou anos até Arthur voltar a me ver. Os homens... atiravam coisas do alto e tudo embaixo incendiava e se destruía. Casas, jardins, pessoas. Tudo... Eu nunca pensei que fosse ver Arthur tão ferido. Ele lutava em campos muito escuros, uma escuridão densa e estranha, desesperadora. Um homem... obrigou Arthur a fazer coisas que ele não queria. Arthur gritava e chorava, mas ninguém se importava.
A fadinha respirou fundo — E quando Arthur já estava quase destruído, quando quase já não havia mais tempo, Alfred voltou à vida dele.
Alfred tomou uma cadeira e sentou-se, seus olhos finalmente encontrando Arthur.
Então, alguma coisa na expressão dele mudou. Arthur não era o único que tinha sido afetado por um encontro depois de tanto tempo. O rosto de Alfred suavizou e ele tentou acenar displicentemente. Seus olhos clarearam algo em torno de dois tons, mas ele não parecia feliz em ver Arthur.
Porque ele realmente não estava. Alguma coisa em si doía muito quando ele observava a figura de Arthur. Mesmo de longe, Alfred conseguia perceber o quanto ele estava diferente. Por trás da voz firme com que ele participava da reunião, dava para perceber que ele tremia um pouco. Por trás da atitude autoritária, Alfred percebia como os olhos dele tinham mudado nesses anos todos. Eram alertas e pareciam constantemente assustados, como um coelho acuado. Por vezes, quando ele ficava em silêncio para ouvir os demais, Alfred percebia o rosto dele torcer em dor por alguns segundos. Os braços dele permaneciam cruzados, como se tentasse colocar uma distância permanente entre ele e o resto do mundo; mas, ao mesmo tempo, como se ele se abraçasse em busca de consolo.
Alfred não ouviu nada da reunião. Sua mente se ocupava simplesmente em obter o maior número de detalhes sobre o loirinho, saber como ele esteve em todos aqueles anos.
Era estranho, mas o garoto se preocupava. Eles brigavam e discutiam, competiam um com o outro. Qualquer o jeito que fosse, eles ficavam juntos, porque mesmo brigar era melhor que ficar sem o outro.
– Alfred, o que você pensa que está fazendo? Seu idiota, você podia ter morrido! – Arthur estava tremendo de alívio em vê-lo bem e de raiva em saber o quão descuidado ele vinha sendo.
– O que EU estou fazendo?! – o garoto sentiu o sangue ferver. Quem infernos Arthur pensava que era para criticar as suas operações? – Eu estou resolvendo essa merda, porra! Nós temos que reconquistar a Europa antes que a União Soviética o faça!
Anata no kotoba ni sakaratte bakari no
Tsuyoki no watashi ni te wo yaite ita deshou
Watashi no koto nado kinishinai furishite
Itsumo tsukihanasu anata ga nikurashikatta wa
Eu era contra cada palavra que você dizia
Aposto que você tinha inveja do quão forte eu era
Você fingia que não se importava comigo
Sempre me empurrando para longe, você parecia me odiar
Bom... Mas, mesmo com tudo isso, eles tiveram momentos em que eles não brigaram. Em que eles... confiaram um no outro.
Um par de olhos muito verdes se voltou para Alfred, quase se derramando em lágrimas contidas. Arthur afastou-se e encostou-se na parede, fechando os olhos com força diante da dor no seu tronco, mas esforçando-se para ficar em pé. Tossiu de novo e, dessa vez, não pôde impedir Alfred de ver o sangue. Olhou para fora novamente e viu os oficiais checando papéis antes de entrar no prédio.
– Alfred, é melhor você ir embora. – murmurou, a voz tremendo e seus olhos esverdeados cintilando toda a sua confusão, o seu medo. Não era difícil perceber que Arthur não queria ficar sozinho. Não agora. Não ali. Não com aquelas pessoas.
– Do que você está falando, Arthur? Você está tremendo! – acusou Alfred, agarrando uma das mãos de Arthur entre as suas, sentindo-o tremer como uma folhinha ao vento. Havia mais sangue ali. Por que...? – Você... está com hemorragia interna...?
– Não, eu não estou... – mentiu Arthur, desviando o olhar, tentando empurrar o garoto. – Alfred, vai embora, por favor... – sussurrou, metade de si gritando para que ele pedisse para o garoto ficar; a outra metade, cheia de honra e orgulho, lhe dizendo que ele devia lutar as suas batalhas sozinho.
Alfred suspirou e abraçou o loirinho, aninhando contra o próprio peito como fizera na noite passada. Ele sentiu Arthur tentando afastá-lo fracamente. Mas ele parou de resistir em alguns minutos.
– Arthur, o que aconteceu com você? – murmurou Alfred, alguma doçura velada em suas palavras, seu polegar acariciando a bochecha macia do outro.
O loirinho, no entanto, apenas afundou o rosto ainda mais em seu casaco, abraçando-o, mas recusando-se a dizer uma só palavra. Ele se sentia tão inútil e fraco por estar assim na frente do garoto. Tão sem valor por não conseguir mais aguentar tudo aquilo sozinho. Ele não queria dizer o que tinha acontecido, porque inevitavelmente choraria se dissesse. E ele não queria que Alfred soubesse. Não queria que ele conhecesse um lado tão patético. Alfred o tinha deixado quando Arthur era o maior império do mundo. Aconteceria algo pior agora se o garoto soubesse que ele estava decaindo. Aquele dia há muitos anos atrás, em um outro campo de batalha, embaixo de uma chuva que parecia querer fazer com que ele sumisse... De repente, as lembranças vieram à tona e Arthur sentiu-as atingindo-o com força. Pior que qualquer bombardeio, que qualquer hemorragia, que qualquer outro ferimento que ele já tivera em vida.
– Arthur, Arthur... – murmurou Alfred carinhosamente, escondendo-o em seu abraço. – Você realmente não confia em mim, não é... Conta pra mim...– continuou baixinho, magoado e triste. Por que Arthur não contava? O loirinho balançou a cabeça, negando tudo. Ele não contaria. Nem uma palavra.
Alfred suspirou pesadamente, apenas aninhando o outro, seus dedos brincando com os cabelos dele. Afastou-se alguns centímetros, apenas para olhar os olhos claros de Arthur. Ali estava... Vulnerável, assustado. Implorando para não ficar sozinho. Cansado de sentir tanta dor. Lutando com cada pedacinho do seu ser para aparentar ser alguém muito mais forte do que ele era.
– Arthur... – abraçou-o apertado, envolvendo-o, tentando consolá-lo de uma dor que ele não entendia. – Sabe... você pode chorar, se quiser. Não vai me fazer pensar menos de você por isso... – murmurou, sentindo a respiração do loirinho quebrar.
– Idiota... – sussurrou Arthur, uma partezinha dele com raiva do garoto. Porque simplesmente, com aquelas pequenas palavras de Alfred, Arthur sentiu as lágrimas descendo sem o seu consentimento, queimando por onde elas passavam, testemunhas fiéis do quanto aquelas lembranças o machucavam. Embora o garoto nem desconfiasse, as lembranças que mais feriam Arthur eram lembranças que ele mesmo fizera. De uma batalha que começou há muitos anos atrás iniciada por ele mesmo, munido apenas de um amor não correspondido. Aquele dia ainda era o pior pesadelo de Arthur. E ele se perguntava... quanto tempo até aquilo acontecer de novo? Quanto tempo até Alfred ir embora outra vez?
Alfred sentiu a camisa que usava ficar molhada com as lágrimas de Arthur. Deu um sorriso de lado, um pouco triste. – Você que é idiota... Você deveria me contar o que aconteceu... – murmurou, apertando o loirinho um pouco mais em seus braços. Sentiu vontade de chorar também. O que estava acontecendo com Arthur? O que poderia ter acontecido de tão doloroso para fazê-lo chorar assim?
Alfred apenas continuou abraçando-o, sentindo as lágrimas dele correndo em silêncio. Arthur se esforçava para não soluçar, nem chorar muito alto. Foi um choro desesperado, mas muito baixinho, como se ele tivesse a esperança de que Alfred não percebesse que ele chorava. Arthur ainda tentava digerir a ideia de que teria que descer e enfrentar os seus superiores. E se... E se o dessem outra ordem como aquela? Ele não queria. O garoto olhou sobre o ombro do loirinho e percebeu os oficiais entrando no prédio. Seja lá o que tinha acontecido, Arthur ficara perturbado após ver os próprios oficiais...
Alfred afastou o loirinho de si, dando um sorriso um pouco triste, mas inegavelmente carinhoso.
– Você pode não confiar em mim... Mas eu vou proteger você, Arthur.
Aah, atsui koi ga amai hazu wa nai
Surechigai kizutsuite shitte yuku no
(Ah, um amor passional desses não deveria ser tão doce
De passagem, nós estivemos ferindo um ao outro)
–
– Mas e como termina a história? — questionaram as demais fadinhas quando a mais velha silenciou.
– Isso é o que nós vamos ter que esperar para ver...
–
Arthur suspirou. As aulas estavam incrivelmente tediosas naquele dia. Bocejou enquanto olhava para fora. Fazia um dia bonito. Havia nuvens como sempre, mas o céu azul aparecia por trás delas. Quando finalmente a aula terminou, uma brisa fresca de primavera soprava. Leve, como se ela respirasse, e perfumada. Arthur não se importou com o vento ou a paisagem. Simplesmente queria ir embora. Notou uma pessoa ou outra olhando-o atravessado, ao que respondeu com uma encarada fria e ameaçadora. Ria um pouco consigo mesmo quando a pessoa desviava o olhar. Seu humor estava melhorando.
– Yayy , espere por mi- AAH! – um idiota. Um idiota viera correndo e trombara em Arthur, fazendo com que ambos caíssem sobre um arbusto seco e duro.
– Desculpaa! — Feliciano tentou se levantar, mas acabou chutando a canela de Arthur, que sentiu o sangue subir à cabeça.
– Seu... — levantou-se, batendo as roupas e empurrando o desastrado para lá. – Eu vou te matar! – rosnou, tirando algumas folhas do cabelo.
– O que disse, Kirkland? – a voz de Ludwig rugiu atrás de si, ao que Arthur engoliu em seco.
– Amore! Ele disse que ia me matar. — murmurou o italiano, sentido. — Eu pedi desculpa, mas ele disse que vai me matar. — continuou, magoado, sem nem perceber que o alemão ao seu lado ficava progressivamente mais raivoso. Arthur, no entanto, reparou a aura assassina.
Merda.
Jogou a mochila sobre o ombro e saiu correndo em disparada, a adrenalina subindo e seu coração prestes a sair pela boca. Merda, merda, tinha que ser o Ludwig? Não podia ser alguém menor? Arthur escutou a voz do alemão trovejar atrás de si, ao que passou a correr ainda mais rápido, seus cabelos loiros arrepiando com o vento que batia contra o seu rosto. Ele puxou o ar com mais força, correndo como nunca, a brisa fresca parecendo avivar todos os seus sentidos. Seu coração começou a palpitar, mas talvez não fosse a corrida. Seu uniforme estava uma bagunça com a correria, seu casaco quase caindo conforme ele apertava o passo.
Na tentativa de despistar o outro, fez uma curva abrupta e impensada à esquerda. Virou para trás, ainda correndo, tentando ver se Ludwig ainda estava atrás de si. Enquanto ele olhava para trás, alguém muito distraído entrou na rua, olhando para o céu sonhadoramente. Arthur virou-se para frente novamente, mas foi tarde. Bateu com tudo contra algo sólido, cambaleando e caindo, ralando as mãos no chão.
Sakura ga chiru koro ni guuzen aimashou
Minarenai fuku wo kite tanin no kao shite
(Na época em que as flores de cerejeiras se abrirem, nós vamos nos encontrar por acaso
Eu vou estar usando roupas que você não vai reconhecer e eu vou parecer um estranho para você)
– Hey, você está bem?! – uma voz alta e clara soou, preocupada, ao seu lado.
Arthur virou-se para o lado, erguendo o olhar na direção do som.
Azul. Viu-se fitado por azul, muito azul. Seu coração parou por um segundo inteiro e sua respiração inexistiu. Havia uma sensação crescente de familiaridade, de reconhecimento. Era como voltar para casa depois de um dia muito, muito longo e fechar a porta atrás de si, silenciando a chuva que o castigara lá fora, sabendo-se seguro ali. Porque Arthur se sentiu seguro. Deus saberia porquê, mas Arthur sentiu-se seguro. Como nunca na vida tinha se sentido. Como se, repentinamente, um pedaço do seu coração tivesse sido colocado no lugar de volta. Pedaço esse que o loirinho nunca percebera que faltava, mas agora se dava conta de que era algo que doera a sua vida inteira.
Seu coração pulou dentro do peito. A mão que o garoto oferecia parou na metade do caminho. Alfred não se moveu. Arthur apenas olhou no fundo daquele azul, muito azul, claro, cristalino, azul...
Mou ichido hajimaru itsudatte modoreru
Nagai jikan wo kaketa hontou na koi da mono
(Nós vamos começar de novo e a qualquer momento nós podemos voltar
Pelo qual se esperou por tanto, tanto tempo, é um amor de verdade.)
Arthur nunca saberia dizer por quanto tempo ambos ficaram sem se mover, presos naquele olhar como se o mundo fosse se desfazer caso eles quebrassem contato visual. Na verdade, tanto fazia se o mundo fosse se desfazer. Naqueles instantes, Arthur nem saberia dizer se o mundo continuava girando, que dirá existindo. Ele só sentia algum sentimento estranho aquecer o seu peito, algo muito antigo mesmo, como se sempre tivesse estado ali.
O garoto também foi incapaz de dizer qualquer coisa. Seus olhos claros não conseguiam se desviar do outro rapaz. Algo dentro de si não parava de dizer que conhecia aquela pessoa. Ele tinha certeza que já tinha visto aquelas duas íris esverdeadas, quase jade líquido. Certeza que conhecia aquelas feições, as mãos pálidas de dedos longos, o delicado pomo de adão, tudo, tudo. O rapaz o olhava de volta, seus olhos verdes espelhando olhos muito azuis. Era familiar, era certo, fazia sentido.
Porque ambos guardaram um ao outro em um lugar mais definitivo que a memória.
Mas o coração é mudo. De modo que, por mais que eles jurassem que se conheciam, nem um único nome deslizou pelos seus lábios. Não havia nada de concreto. Não havia provas, não havia lógica. Portanto, eles não puderam acreditar. Tinha que ser impressão, coincidência, qualquer que fosse o nome que se desse para não acreditar. Arthur desviou o olhar e o momento inicial se desfez. Ambos voltaram a ouvir os carros passando, as pessoas em volta, o mundo pareceu voltar a rodar novamente, a realidade era concreta e lógica.
Arthur piscou algumas vezes e se levantou, ajeitando a mochila nas costas. Mas, antes que qualquer um deles pudesse dizer qualquer coisa, um rapaz alto e de cabelo loiro muito claro dobrou a esquina e chegou à rua em que ambos estavam.
– Kirkland!! – ele gritou, com uma voz alta e forte de comando, seus olhos azul cintilando como uma lâmina de aço.
– Ludwig. – constatou Arthur. Ele olhou o alemão no começo da rua e o garoto ao lado de si. Ludwig começou a correr, em poucos instantes diminuindo a distância entre eles.
Alfred olhou o alemão enorme e furioso. Arthur olhou para si.
E ambos saíram correndo em disparada, Arthur empurrando o garoto para fora do caminho, mas acabando por levá-lo junto consigo, ambos se atropelando e tropeçando na correria. Alfred começou a correr também, sem ideia de o que estava fazendo, sem realmente pensar. Ele simplesmente começou a rir. Ora, quando foi que pensar o ajudou em alguma coisa?
O garoto correu com tudo o que tinha, sentindo a adrenalina bater lá no alto enquanto seus pulmões tentavam fazê-lo respirar naquele atropelo. Ele virou para o lado e notou o rapaz ao seu lado. Ele era... tão bonito. Os cabelos dele estavam totalmente bagunçados pelo vento que batia contra o seu rosto, e seus olhos esverdeados faiscavam enquanto ele corria.
– Aqui! – sibilou o britânico, puxando o garoto para um pequeno beco. Alfred foi tirado da frente do caminho exatamente antes de Ludwig virar a esquina e entrar na rua em que os dois estavam. O loirinho encostou o indicador nos próprios lábios, ainda, sem perceber, segurando o braço do garoto. Alfred corou e olhou para o outro lado, de repente muito consciente do calor tênue do outro rapaz enquanto ele o segurava.
No começo da rua, Ludwig suspirou e deu meia volta. Há alguns quarteirões para trás, um rapazinho menor o esperava, ainda tremendo até o último fio de seus cabelos castanhos.
– Ele já foi? – murmurou.
– Sim.
– Wahh, graças a Deus! Espero que ele não implique mais comigo. Ele estava mais assustador que nunca hoje de manhã.
– Feliciano, eu já não disse que você não precisa ter medo do Kirkland? – suspirou o alemão.
– Hm... – o italiano pareceu ponderar por alguns momentos, até sorrir e abraçar Ludwig. – É verdade, você é bem mais assustador!
– E-ei! -
Arthur arriscou uma olhadinha fora do esconderijo. Não havia ninguém na rua.
– Ufa, finalmente. Maldito Ludwig persistente. – suspirou Arthur. – Merda, eu ia saber que o Feliciano era namorado dele? – verdade fosse dita, quando o britânico estava de mau humor costumava sobrar para qualquer um em redor.
– Ahn... – o garoto não encontrou o que dizer, apenas olhando o outro rapaz com certo embaraço.
Até o loirinho perceber que ainda segurava o braço dele, em um quase abraço.
– D-desculpe! – disse, corando até as orelhas e soltando o garoto como se ele tivesse lhe dado um choque.
– N-não, imagine. E-eu... – o garoto procurou algo para dizer. Qualquer coisa antes que o outro fosse embora. Porque o loirinho não podia ir embora. Por que não podia? Alfred não sabia, mas não podia. – Eu vou acompanhar você até a sua casa!
– O que?!
– Logicamente. E se aquele maluco aparecer de novo, eu te ajudo. – e colocou as mãos na cintura, enfaticamente.
– Ah, como ajudou agora? – disse o britânico, mais irônico impossível.
– Exatamente! – mas Alfred parecia não ter percebido. Estava muito ocupado sendo heroico.
O loirinho hesitou diante do sorriso muito contente do garoto.
– Arthur. – e estendeu uma mão.
– Como?
– Meu nome. Arthur Kirkland. – era loucura. O que ele estava fazendo? Confiando em alguém? Por quê? Arthur estava fazendo uma porção de coisas por impulso naquele dia. Estava realmente começando a se arrepender, mas o garoto sorriu e os olhos dele cintilaram.
– Alfred! – os olhos dele eram muito azuis. Mesmo. Arthur sentiu que era... vagamente familiar.
A casa de Arthur não estava muito longe e em poucos quarteirões eles chegaram em frente a uma pequena casa com portão de metal e um jardim muito florido.
Alfred estancou o passo quando sentiu um perfume leve e floral. Seus olhos azuis encontraram rosas muito violáceas, com um cálice de verde profundo, e pétalas cheias. Ele se aproximou devagar. As palavras lhe faltaram. Que cor bonita. Mas... ele não gostava daquela flor. Ela era triste. Lembrava infelicidade. Mas ele amava aquelas flores. Uma gota de água deslizou pelo seu rosto. Mas não estava chovendo.
– Alfred? – a voz de Arthur veio muito mais baixa e gentil do que o garoto já tinha ouvido. Ele piscou algumas vezes, sem entender. Demorou um pouco até ele perceber que estava chorando.
– Filho? – Elizabeth acabara de chegar do trabalho e observava Alfred. – Arthur, meu filho, o que houve com o seu amigo? – aquele rapaz era familiar, mas Elizabeth não conseguia se lembrar de onde o conhecia. Bem, provavelmente algum amigo de Arthur.
– E-eu... não sei. – murmurou o loirinho, sem saber o que fazer.
– D-desculpe! – disse o garoto, muito embaraçado, tirando as lágrimas do caminho com força. Respirou fundo e tentou se lembrar das regras de boa educação que sua mãe tentara lhe ensinar por anos. – Alfred. – murmurou, estendendo a mão à senhora.
– Elizabeth, querido. – retribuiu a senhora, com um sorriso. – Entra! Eu faço um lanche para gente. — ficara com um tanto de dó da cara de desolado do menino.
Alfred procurou o olhar de Arthur. O loirinho assentiu com a cabeça, ao que o garoto sorriu. Arthur desviou o olhar, sentindo o coração disparar. Ele estava ficando louco, era a única explicação.
– Obrigado! – ouviu a voz alta e alegre do garoto dizer, ao que o próprio garoto foi entrando portão adentro.
Arthur estava tão distraído com o próprio coração em disparada, que nem percebeu que as fadas faziam uma pequena reunião secreta debaixo dos ramos da roseira.
– É ele, é ele! – murmuraram todas, como dezenas de sininhos, ao verem o garoto de olhos azuis atravessar o jardim.
– Ei, Francis, o que é isso?
O francês havia levado o canadense ao depósito, a fim de mostrar todo o estoque da confeitaria e os equipamentos disponíveis para as receitas.
– Isso o que?
– Esse... baralho? – Matthew bateu um pouco da poeira que se acumulara sobre o montinho esquecido. – Tem umas figuras neles. — leu as palavras escritas na parte de cima da carta. — Arcano 17...?
– Hm... serve para tirar a sorte. – respondeu o francês, suspirando. – Eu costumava fazer isso, é bem divertido. Eu dava muitos conselhos amorosos com ajuda disso. Mas... bem, agora eu não posso mais ver as cartas, não é? – disse, sorrindo leve.
Matthew fitou a carta que estava por cima do monte.
O Arcano 17 – A estrela
SIGNIFICADO DIVINATÓRIO
Esta carta representa, claramente, o aparecimento de novas oportunidades e a certeza da realização. Fé. Esperança. perspectivas brilhantes. Mistura do passado e do presente. Oportunidade promissora. Otimismo. Discernimento. Presságio favorável. Amor Espiritual. Estrela de ascensão. Influência astrológica. Culminação do conhecimento e do trabalho do passado e do presente. As energias dispendidas logo trarão resultados. Realização. Uma carta favorável, sugerindo que o desejo e a energia são essenciais para a felicidade.
Notas finais
Ufa, que capítulo monster, ne? xD Desculpa, era para ele ter sido a metade do que foi. Mas achei que ia ficar mais emocionante contar essa parte toda. Sem contar que eu já demorei tanto com vocês! D: Tinha que compensar! Eu revisei, mas sei lá, sou meio distraída, se passou algo, me avisem! Ahhh e mil perdões a quem me mandou mp e eu demorei esse tempão pra responder! Eu realmente só entrei no nyah hoje desde que postei o capítulo 25! Ademais, vamos às observações do capítulo!
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1 - Quanto ao Francis. Bem, acho que ele mais do que provou os sentimentos dele pro Matt xD A história dele foi um pouco baseada em uma história. Dizem que na frança ( se nao me engano era França xD) tinha um cara que era cego desde que nasceu. Mas aí curaram ele. Mas quando ele começou a enxergar, ele exigiu que o fizessem cego de novo! A realidade que ele imaginava era muito mais bonita do que a que ele via agora xDD Daí a ideia de fazer o francis inventar uma realidade que ele não podia ver, mas que ele gostava de acreditar que era bonita xD
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Bem, espero que vocês ainda estejam gostando da história xD Agradeço muito, muito por vocês estarem lendo e tendo paciencia comigo xD Ando estudando como doida, mas sempre imaginando a continuação dessa historia e como eu vou contar sobre isso e aquilo xD Sempre que estou chateada ou triste ou muito feliz eu começo a escrever e isso me faz muito bem xD É tão legal depois ver o que voces acharam e as sugestoes, aí o proximo capitulo vai se formando! xD
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Com tudo isso, quero agradecer muitissiimo a jojo, ju, moro, shirayuki, bia, homumoemura, neko, Yuki kirkland ( bem vindaaaaaaaaaa o/ é incrível ver gente nova a esse ponto do campeonato xD) Kukla, Akimi, Cath e Yaya! Já vou responder seus amabilíssimos reviews! Beijo beijo!! :DD
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PS: A fadinha transparente é para a Invisible(sintam meu trocadilho fail sobre as asinhas transparentes) Ju, que me apontou essa questão nos reviews! Obrigada! xD Por sinal, acredito que uma das leitoras mais veteranas daqui xD Obrigada mesmo! 8D
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