Boulevard Of Broken Dreams
25 Capítulo 25 - Fireflies
Notas iniciais
(Para quem quiser ouvir a música, eis um clip muito bonitinho dela: http://www.youtube.com/watch?v=rO3gg2cVfxg - não me pertence, assim como a música, ok? xD)
– Ei, moça!
Elizabeth virou-se na direção da voz, seus olhos castanho-esverdeados se detendo na figura de um rapaz alto, de cabelos loiro meio caramelo. Para a sua surpresa, o rapaz lhe estendeu uma rosa azulada, um tanto violácea. – Toma. – e, sem mais nenhuma explicação, se afastou.
Ela piscou algumas vezes, aturdida. O vento bagunçou um pouco seus cabelos de cor castanha envelhecida. Era uma rosa linda, volumosa, um pouco esbelta no cálice. E que cor misteriosa. Por alguns instantes, ela apenas permaneceu olhando, até se dar conta da situação. Aquele garoto devia tê-la confundido com alguém. Ela já nem era tão jovem assim ( fizera 39 no mês passado ) para receber atenções de um rapazote que não devia ter mais que 19 anos. Elizabeth franziu o cenho. Agora parando para pensar bem... os olhos do garoto pareciam um pouco vermelhos. Será que ele estivera chorando?
Por alguma razão, ela quis saber porquê. Seu olhar percorreu a rua, enquanto suas mãos seguravam a rosa firmemente contra o colo.
Encontrou-o um pouco longe, olhando para o vazio.
– Hey, garoto!
Mas ele não parecia estar ouvindo. O olhar dele se ergueu, mas ele não olhava para ela. Ele estendeu a mão, como se tocasse alguma coisa. Mas, no segundo seguinte, ele dobrou-se sobre o próprio corpo, uma das mãos sobre o peito, apertando-o como se doesse muito, como se... O corpo dele tombou para frente e ele não se levantou.
– Meu Deus. Parada cardíaca. – constatou ela, assombrada. Correu até o garoto, agachando-se ao lado dele no chão. Seus dedos afastaram os cabelos do garoto de perto da nuca e ela procurou-lhe o pulso. Várias pessoas já se aproximavam para ver o que acontecia. Elizabeth, no entanto, nem percebera, apenas constatando o silêncio oco sob seus dedos.
Alguns momentos depois, a polícia chegou, assim como a ambulância. O garoto foi identificado como Alfred F Jones, e seu corpo foi colocado em um saco mortuário. O zíper se fechou e suas feições bonitas foram encobertas pela mortalha. Em alguns minutos, a confusão já se desfizera e Alfred fora levado ao necrotério.
Elizabeth permaneceu alguns instantes em choque, parada, inconscientemente segurando a rosa com força.
– Elizabeth? – sua irmã aproximou-se e tocou-lhe o ombro. – O que aconteceu?
– ... – por alguns momentos, ela não respondeu. Respirou fundo, então. – Nada...
A irmã ergueu uma sobrancelha, mas resolveu deixar o assunto de lado. Se sua irmã não queria responder, ela não responderia e não adiantava insistir. Elizabeth podia ser incrivelmente geniosa quando queria. Apenas deu de ombros e checou as horas. – Enfim, Elizabeth. Nosso táxi já chegou. Temos que estar no aeroporto em alguns minutos.
– Acalme-se, mulher, a Inglaterra não vai sair do lugar! — resmungou Elizabeth, seguindo a irmã.
Mas uma ideia martelava em sua cabeça... ela queria plantar aquela rosa. Fazê-la viver, por um garoto sem nome, com o qual ela trocara duas palavras.
No entanto, ela logo desistiu da ideia. A flor era artificial. Há duas semanas ela jazia sobre sua escrivaninha e não murchara. Aquilo a entristeceu um pouco, mas ela manteve a rosa sobre a mesa mesmo assim. Mas era estranho, parecia tão... natural. Mas não era possível.
Por oito anos, a rosa adormeceu sobre sua mesa, sem murchar, mas misteriosamente exalando perfume.
Mas Elizabeth acreditava em magia. E por isso, mesmo que ela soubesse que era impossível, ela passou a aprender jardinagem. Durante oito anos, aos poucos, espremidos no pouco tempo que a enfermeira tinha, ela plantou duas roseiras nos fundos de sua casa. Eram rosas comuns, um trabalho amador, mas era de coração.
–
As tais rosas assistiram Elizabeth sair de casa, naquela manhã cinzenta e tediosa de domingo, encaminhando-se até seu novo emprego. No entanto, ela voltou em poucos minutos, colhendo algumas flores e levando consigo.
Uma amiga a chamara para ajudar na enfermaria do colégio em que trabalhava. Lá também funcionava um orfanato, então sempre havia várias crianças que precisavam ser assistidas. Elizabeth, particularmente, resolvera sair do antigo emprego e ir trabalhar no colégio, com uma carga horária menos exigente que a do hospital. Sem contar que poderia trabalhar com várias crianças, o que sempre fora seu sonho.
Levou as flores cuidadosamente no colo, quem sabe enfeitar o quarto dos pequenos. Pareceu-lhe simpático, além de que sua roseira estava mesmo muito carregada.
O colégio tinha um grande portão de ferro, cercado por muros altos de cor pastel. Parecia um tanto velho e o jardim um tanto ignorado, mas ao menos era grande. O porteiro abriu a porta assim que a viu, já que fora avisado de antemão da chegada da nova enfermeira. Essa reparou que havia pouquíssimas crianças por ali. Só depois lhe ocorreu que era fim de semana e que os alunos regulares da escola deviam estar em casa.
Uma certa tristeza se abateu sobre a senhora quando ela observou as crianças que sobraram ali. Por muito tempo ela... quis ter um filho. Mas ela era estéril e o marido a deixara quando soube.
Suspirou e voltou a caminhar, sem conseguir se lembrar quando é que havia parado. A vida continuava. Ajeitou melhor as flores no colo e encaminhou-se até a porta.
No entanto, no segundo seguinte, um menininho do orfanato esbarrou com tudo na senhora, que se desequilibrou de leve. O menino, no entanto, era um tanto magro demais e acabou caindo com tudo no chão.
– Ah meu Deus! Você está bem, menino? – a senhora ajoelhou-se perto dele, checando a cabeça da criança, tentando ver se ele a havia batido. Os dedos dela afundaram-se no cabelo loiro e macio, que tinha certo tom de areia e se arrepiava para todos os lados. Ele corou até as orelhas e desajeitadamente se afastou, murmurando infindos pedidos de desculpa e saindo correndo sem nem olhar a senhora, arisco, como se com medo que ela resolvesse bater nele.
Elizabeth piscou algumas vezes, aturdida. Uma funcionária do orfanato veio correndo de dentro do colégio, aparentemente atrás do pequeno fugitivo.
– Arthur! Arthur, volte aqui! – ela deu um suspiro frustrado e bateu as mãos na saia. – Sinceramente, eu não sei o que há com esse menino. O Scott só queria brincar.
Arthur era pequeno, mas notoriamente rápido quando queria.
O loirinho ainda sentia as bochechas febris, assim como a pontinha das orelhas. Que embaraçoso, a senhora devia achar que ele era muito mal educado, e devia estar brava. Bem, provavelmente seria melhor levar umas palmadas dela do que a surra que Ludwig vinha lhe prometendo na semana passada. Ou os tapas que ele levava/tentava revidar de Scott... O que o lembrava que ele precisava sumir das vistas de um garotinho dinamarquês, que pegava no seu pé desde que chegara. O que já faziam... dois ou três anos.
Seu anjo da guarda seguia-o, silencioso e invisível. Apenas se manifestou quando Arthur pensou em virar à direita e ir para o parquinho.
– Gilbert está atrás daquele balanço. – murmurou.
A ideia de olhar para o balanço ocorreu ao menino, que imediatamente percebeu o perigo e o evitou.
– Tem um bosque nos fundos... – voltou a murmurar o anjo.
Arthur decidiu continuar andando, seguindo silenciosamente até chegar ao jardim dos fundos. Tinha um ar um tanto obscuro, uma vez que ninguém ia lá e as árvores e plantas precisavam ser podadas. O vento fazia os galhos rangerem um pouco. Alguns quebravam e iam ao chão de terra escura e arroxeada, para lá apodrecer. Arthur adentrou um pouco o curto, porém denso, bosque, e sentou-se debaixo de uma árvore, tirando alguns arbustos do caminho. Olhou em volta, um tanto apreensivo. Nunca tinha ido àquela parte do orfanato. Abraçou os próprios joelhos para se proteger do frio, tornando-se pouco mais que um embrulhinho de casaco. O melhor era esperar até a hora do jantar, quando ele provavelmente não encontraria nenhum de seus desafetos. Acomodou-se melhor para o que seria uma espera longa e tediosa, como acontecia toda vez que ele precisava se esconder de alguém maior que queria lhe dar uma surra.
Em alguns minutos, o silêncio entediou a pequena criança, que adormeceu.
Acordou com uma confusão de sons, que lembravam vagamente vários e vários sininhos. Arthur abriu seus olhos verdes, que não encontraram o verde chato e escuro do jardim. Seus lábios entreabriram, mas qualquer coisa que ele fosse dizer, não saiu.
O jardim estava preenchido por dezenas e dezenas de pequenas luzes coloridas. Azul-gelo, branco neve, amarelo girassol, verde esmeralda, violeta claro... E a cada vez que as luzinhas se mexiam, havia um pequeno tilintar de sino. Uma das fadas – porque qualquer pessoa que tivesse lido os contos que Arthur lia perceberia que eram fadas – aproximou-se a poucos centímetros do nariz arrebitadinho e bem feito do menino. Os olhos verdes de Arthur arregalaram-se ao fixaram-se na pequenina garota alada.
You would not believe your eyes
If ten million fireflies lit up the world as I fell asleep
(Você não acreditaria nos seus olhos
Se dez milhões de vagalumes acendessem o mundo enquanto eu adormecia)
A fadinha observou-o por alguns instantes, até que deu um gritinho eufórico, que assustou o menino, fazendo-o afastar-se um pouco.
– Gente! – tilintou ela, chamando as outras. – É o Arthur! – disse ela, extremamente feliz, agitando suas asinhas.
Houve uma confusão entre as fadas e ao menos uma dúzia delas voou até um estupefato Arthur, algumas pousando sobre sua cabeça, outras sobre seus ombros, fazendo-lhe festinhas. Assim que o reconheceram, várias desataram a chorar pequeninas lágrimas de orvalho, que caíam como garoa sobre Arthur, ainda chocado demais, encantado demais para reagir.
Cause they fill the open air
And leave teardrops everywhere
You’d think me rude, but I’d just stand and stare
(Porque eles enchem o ar livre
E deixam lágrimas por toda a parte
Você pensaria que eu sou rude, mas eu apenas pararia e olharia.)
– É tão bom te ver de novo!- ecoaram elas ao mesmo tempo.
– De novo…? – repetiu o menino, confuso. – Ahn... me desculpe... vocês são muito gentis. Mas... eu conheço vocês?
Houve silêncio entre elas, ao que todas fitaram os olhos claros e confusos de Arthur. Ele... realmente não fazia ideia do que estava acontecendo.
– Bem... Nós te encontramos na floresta. Não se lembra?
– Perto da sua mãe morta.
– Minha mãe? – o cenho do garoto franziu. – minha mãe não morreu. Ela só se cansou de mim. – murmurou, em uma voz mínima.
As pequenas garotas se entreolharam.
– Não, nós temos certeza! Aconteceu não faz nem mil anos!
– Mil anos?! – o garoto pareceu extremamente chocado.
– Espera... – uma fadinha violeta, que aparentava ser a mais velha de todas interrompeu a confusão. – Eu... eu acho que então... aquilo aconteceu mesmo.
– O que aconteceu? – Arthur perguntou.
A fadinha olhou bem para ele. Lembrava-se de um dia, há sete anos atrás, talvez oito. Tinha um rapaz enterrando Arthur. Mas todas as fadas se convenceram de que Arthur estava apenas brincando. Fadas tendem a levar as coisas na brincadeira. Talvez seja por isso que elas vivam tanto.
A fadinha violeta ficara observando a brincadeira. Até deixou uma rosa sua numa caixa cheia de rosas, achando que era parte do jogo.
Mas... não fora brincadeira. Pelo visto Arthur tinha mesmo morrido há mais de sete anos atrás. Como mais ela explicaria encontrá-lo de novo tão criança? Fazia muito tempo desde que ela o vira tão pequeno.
– Ahn... não aconteceu nada. – riu ela, ao que foi seguida das outras. – Acho que te confundimos com outra pessoa!
– Mas vocês sabem meu nome! — replicou ele, desconfiado.
– Era outro Arthur! – mentiu a fada, ao que as outras confirmaram com a cabeça. – Enfim! Quer ser nosso amigo?
Arthur sorriu e estendeu a mão, onde três fadinhas pousaram.
– Quero!
I’d like to make myself believe
That planet Earth turns slowly
It’s hard to say that I rather stay awake when I’m asleep
Cause everything is never as it seems…
(Eu gostaria de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu preferia estar acordado quando estou dormindo
Porque nada é o que parece.)
Elas brincaram de ensinar pequenos encantamentos (que o Arthur que elas conheceram costumava saber) ao menino. Perguntaram tudo sobre a vida nova dele, mas não contaram o que sabiam. Nem mesmo quando Arthur disse que costumava sonhar com alguém de olhos muito azuis, mas que nunca conseguia se lembrar do sonho inteiro, apenas daquela imagem, daqueles íris cor de safira. No entanto, depois de mencionar isso, as fadas fizeram questão de ensiná-lo a dançar. Diziam elas que nunca se sabe quando seria preciso ensinar a outra pessoa.
(Cause I'd get a thousand hugs from ten thousand lightning bugs
As they tried to teach me how to dance)
(Porque eu pegaria mil abraços de dez mil vagalumes
Enquanto eles tentassem me ensinar a dançar)
Por duas horas elas o fizeram companhia e Arthur não conseguia se lembrar da última vez que tivera algo assim. Elas até fizeram um feitiço em conjunto para que começasse a nevar! No entanto, aquilo deixou as fadinhas cansadas, de modo que elas foram todas dormir. O garoto ainda ficou lá algumas horas, sonhando acordado e pensando em tudo que as fadas lhe ensinaram. Sua respiração condensava à sua frente e a ponta de seus dedos já doía de frio quando ele decidiu voltar para dentro. Era tarde quando o garoto ergueu-se e saiu, congelando de frio, mas contente e esquecido de todos os seus problemas.
Bem, ele talvez tenha esquecido seus problemas, mas seus problemas não esqueceram dele. Perto da entrada para os dormitórios, Arthur deu de cara com o garotinho dinamarquês que ele andara evitando. Garoto esse havia ficado responsável por fechar as portas do orfanato. Ele apenas sorriu de leve e trancou a porta, deixando o loirinho do lado de fora a noite inteira.
O anjo agachou-se perto do protegido e suas asas permaneceram abertas sobre a criança. A neve lentamente foi se acumulando sobre as penas acetinadas, congelando as pontas. Salvara-o da neve, mas nada pôde fazer quando ao frio.
No dia seguinte, Arthur já constava na lista da enfermaria. Fora encontrado perto da entrada, febril e desacordado. Ele estava muito frio, mas estranhamente seco, como se não estivesse sob a nevasca da noite passada.
Quando Elizabeth adentrou o quarto do último doente que atenderia, reconheceu-o do dia anterior. A diferença é que ele agora estava com as faces avermelhadas por conta da febre e se revirava sobre um dos leitos, desconfortável. Checou as informações sobre ele e se aproximou da beira da cama.
– Olá, Arthur. – cumprimentou ela gentilmente, fitando o rosto do menor. – Se sente melhor?
Os olhos esverdeados do menino voltaram-se vagamente para a voz calma e materna da senhora.
– Sim, senhora. – murmurou Arthur.
Elizabeth colocou as mãos sobre os quadris, com um sorriso.
– Vamos ver se é mesmo verdade.
O termômetro dela desmentiu Arthur. O loirinho esperava que ela se zangasse, mas ela só parecia preocupada. Fez com que ele tomasse alguns remédios e trouxe várias cobertas, aconchegando-o na cama. Segundo ela, era preciso descansar para a febre baixar ou ela teria de dar-lhe um banho gelado. Arthur tentou fechar os olhos e dormir, mas sua cabeça doía e a febre ardia. Deitou de lado, depois virou-se outra vez, mas não pareceu surtir efeito. A senhora percebeu o desconforto de Arthur, então ela sentou-se à beira da cama e deixou que ele deitasse em seu colo. O menininho voltou a corar até as orelhas, mas não se afastou. Ela sorriu e passou a fazer carinho em seus cabelos. Arthur demorou um minuto inteiro para entender o gesto. Fazia... tanto tempo. A senhora ficou com o coração apertado quando sentiu o menininho se aninhar mais contra o seu toque e começar a chorar.
– Shh... Não, não, meu amor. Shh, não chora. – murmurou ela, abraçando-o. – Olha só. – ela apontou o vaso cheio de flores que ela deixara ali enquanto ele dormia. – Eu trouxe pra você. – murmurou, beijando-lhe o topo da cabeça e enxugando as bochechas do loirinho. Não soube porque lhe disse aquilo, mas a ideia lhe ocorreu de que talvez... não sei, ele talvez se sentisse melhor se soubesse que ela estava ali porque se importava, que ela se preocupara em trazer flores para ele também.
Para a sua surpresa, no entanto, Arthur pareceu encantado. Inclinou-se um pouco na direção da flor e ergueu a mão. Mas, a poucos milímetros da flor, o menininho se deteve. Por alguma razão, ele não parecia ter a menor intenção de tocar a rosa. A senhora franziu o cenho, um tanto confusa. Crianças geralmente gostavam de ver com as mãos, tocar, explorar o mundo inteirinho se pudessem. Mas havia certo respeito velado por parte daquele menininho. Ele tinha os cabelos loiros em um tom meio arenoso, extremamente despenteado, e sobrancelhas grossas e muito escuras para o tom de seu cabelo, que se destacavam e o deixavam ainda mais desajeitado. Por longos minutos, seus olhos verdes flertaram com a flor, como se ela fosse muito especial, provavelmente o tesouro mais precioso que ele já vira.
A senhora piscou algumas vezes, aturdida. Quem podia ser aquela criança, rejeitada e esquecida, que ainda se importava com coisas comuns como suas rosas amadoras e sem-graça?
Era uma vida diferente. E quando ela vira o olhar de Arthur sobre suas rosas, ela reconheceu que era uma criança especial. Uma criança sonhadora e rejeitada que... ela gostaria muito como filho.
Ele desviou o olhar das flores e agradeceu. Suas faces avermelharam ainda mais, ao que Elizabeth acabou abraçando-o apertado. Ele hesitou por alguns segundos, mas acabou abraçando-a de volta. Era tão menos assustador ter alguém consigo.
A senhora o embalou e ninou, até que ele adormecesse, então o cobriu com as várias cobertas. Quando saiu do quarto e apagou todas as luzes, Arthur choramingou um pouco em seu sono. Ela então, deixou a porta entreaberta e acendeu uma pequena luminária no corredor. Passou vários minutos olhando a silhueta pequenininha de Arthur, adormecido e febril. Na verdade, ele acordara quando ela saíra de perto de si, mas não disse nada. Apenas não conseguiu ficar em completo silêncio quando as luzes apagaram e o quarto mergulhou em escuridão.
Leave my door open just a crack
(Please, take me away from here)
Deixe minha porta aberta, apenas uma fresta
(Por favor, me leve embora daqui)
Arthur virou-se de costas para porta, abrindo os olhos e fitando a parede. Deveria dormir, mas não conseguia.
Cause I feel like such an insomniac
(Please, take me away from here)
Porque eu me sinto como um insone
(Por favor, me leve embora daqui)
Why do I tire of counting sheep?
(Please, take me away from here)
When I’m far too tired to fall asleep
Por que eu me canso de contar ovelhas?
(Por favor, me leve embora daqui)
Quando eu estou cansado demais para dormir.
Elizabeth soube que não conseguiria deixar Arthur ali. Ela queria tanto ser mãe e ele precisava tanto de uma. Mesmo se julgando meio velha demais para isso (48 anos lhe parecia muito), ela se viu nas próximas semanas, lidando com uma montanha de papelada de adoção.
No caso, o dobro da papelada que ela imaginava. Arthur tinha um irmão. Mais velho. E como normalmente não se separavam irmãos, os dois tinham que ser adotados juntos. Em uma de suas muitas visitas a Arthur, ela conhecera Scott. A princípio ele parecera desconfiado, mas depois de várias tardes de conversa, disse que a achava muito inteligente e que era muito interessante conversar com ela.
Bem, isso era um menino de doze anos dizendo que também estava carente e que precisava sim dela, que gostava sim dela.
Foi assim que, quase um ano depois daquela noite na enfermaria, que Arthur se viu no jardim, esperando Elizabeth aparecer para buscá-los. Scott fora se despedir de alguns conhecidos, ao que Arthur teve a ideia de ir ver as fadas outra vez.
O loirinho estava muito feliz em ter ganhado uma mãe e ainda por cima uma mãe que realmente parecia gostar de si. Mas não pôde evitar as lágrimas quando se despediu das fadinhas do jardim, suas únicas amigas.
As fadinhas não entenderam porque ele estava triste, mas prometeram então ir vê-lo, já que essa ideia parecia animar Arthur. Elas lhe deram alguns presentes de despedida, que ele guardou em um jarro de maionese vazio e enfiou-o na mochila. Os presentes consistiam em pequenos ingredientes para encantos e outras flores para jardinagem. Cada uma delas deu-lhe um beijo na bochecha e sumiram novamente.
To ten million fireflies
I’m weird cause I hate goodbyes
I got misty eyes as they say farewell
But I’ll know where several are
If my dreams get real bizarre
Cause I'd save a few and I'd keep them in a jar
(Para dez milhões de vagalumes
Eu sou estranho porque odeio despedidas
Eu fiquei com os olhos embaçados quando elas disseram 'adeus'
Mas eu vou saber onde existem vários
Se os meus sonhos se tornarem realmente bizarros
Porque eu guardaria alguns e os manteria em um pote)
Elizabeth apareceu no portão, ao que Arthur correu até ela. Scott vinha trazendo uma mala sua e outra para o irmão, com alguns pertences que o menor havia esquecido no quarto, mas que Scott pegara quando passara por lá. Não que Scott um dia fosse admitir, mas ele era uma excelente pessoa. Quando o loirinho passou por si, ele bagunçou-lhe os cabelos e pinçou suas bochechas por pura implicância.
A senhora mandou-os parar de brigar, ao que os dois pararam quietos. Assim, ela deu a mão a Arthur e a Scott e os levou para casa.
Em dois anos, ela foi à primeira apresentação de gaita de foles de Scott e recebeu de Arthur a primeira rosa azulada que resultou da roseira que ele plantou com a flor violácea da mãe e com a ajuda das fadas.
Toda vez que olhava, Elizabeth não conseguia deixar de se surpreender como os seus meninos cresciam rápido. Mal acreditou quando a voz de Arthur começou a engrossar e ele começou a ficar mais alto. Scott se divertira como nunca nessa época, tendo ataques de riso histérico toda vez que a voz de Arthur falhava e voltava a um tom agudo e infantil no meio de uma frase.
Quando Arthur completou seus dezessete anos, já tinha praticamente todas as feições de um adulto. Ficara quinze centímetros maior que a mãe, embora uns cinco menor que Scott. Sua mandíbula pronunciou-se e um delicado pomo de adão completou suas feições, ainda que suas bochechas continuassem um tanto carnudas demais para um adulto.
O jardim ainda era preenchido por rosas vermelhas e pelas rosas violáceas que Arthur conseguira cultivar. Todos os dias, lá pelo fim da tarde, mas ainda sob um céu adoravelmente azul (embora Arthur não fizesse ideia de porque aquela cor significava tanto para si), ele podava e regava a roseira. As fadas ainda o visitavam, mas ultimamente elas andavam achando muito divertido se esconder entre as flores, para que Arthur as procurasse. O loirinho ainda passava grande parte do tempo sozinho, então, mesmo assim, ele não deixava de apreciar a companhia das pequenas travessas.
Nunca dissera a Elizabeth que se sentia sozinho, claro. Ela já fazia muito por aceitá-lo e por ter cuidado dele todos esses anos. Por isso Arthur preferia guardar seus problemas para si e deixar a mãe feliz. Que importava se todo mundo o odiava desde que pusera os pés na escola? Que importava se ele não tivesse uma autoestima? Que importava seus pesadelos idiotas?
Arthur era muito bom em esconder seus problemas e fingir que estava muito bem com isso. Aqueles anos no orfanato o deixaram com a certeza em mente de que... ele não valia nada. No fundo, não contava seus problemas porque tinha medo de que Elizabeth o devolvesse ao orfanato. Que ela... desistisse dele também. Ele não... sentia que aguentaria ser rejeitado de novo.
Então, ele tentava ser bom aluno, não criar confusão mesmo que provocado, não contar o que quer que acontecesse de errado. Arthur... queria fazer a mãe feliz. Queria retribuir de alguma maneira, não gerar mais problemas. E, com o passar dos anos, as coisas foram se tornando sem sentido para Arthur. Ele vivia apenas porque isso parecia fazer Elizabeth feliz. Mas não percebia que ela só desejava que ele lhe desse, ao menos uma vez, um sorriso que não tivesse nenhuma pontinha de tristeza. Ela queria que ele fosse feliz, mas Arthur não se abria o suficiente para que ela soubesse como fazer isso.
Era preciso derrubar as defesas de Arthur praticamente a pontapés, fazer-lhe perguntas diretas e interpretar suas respostas, que tantas e tantas vezes careciam de verdade. Era preciso praticamente invadir o espaço pessoal dele, coisa que o bom senso e a educação da senhora não permitiam. Talvez fosse preciso ser alguém muito bem intencionado, mas com uma dúzia de parafusos a menos na cabeça, teimoso e intrometido. E talvez ter olhos muito, muito azuis.
Porque talvez já estivesse passando da hora de Alfred voltar à vida de Arthur.
Notas finais
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Demorei também a decidir a ordem cronológica das coisas. Quase comecei a contar as coisas do ponto de vista do Matt, mas não deu por culpa da cronologia. Pensei em fazer flash-back, mas já chega de flash-back, vocês me esfolariam viva! kkkkkkkkkkk xD
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Bem, a história anda, gente e juro que ela acaba xDD Não parece, mas acaba xD Agradeço de coração a todos vocês que ainda não desistiram dessa epopéia xDD Ahh em falar em herois de coragem, um beijo para biz, jojo, carol, ju, akimi, neko, ichimoku, cath e shirayuki! Pssoas lindas que comentaram o capitulo passado! Responderei seus reviews já, só não podia enrolar mais com essa publicação! xD Beijo beijooo! :DD
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