Boulevard Of Broken Dreams

22 Capítulo 22 - A Roda da Fortuna


Notas iniciais
Agradecimentos à Ju, que influenciou Shirayuki a embarcar nessa história xD E, já que já estou agradecendo, agradeço imensamente a todos que leem/comentam/recomendam essa história xD Sério, vocês fazem isso valer a pena.

Alfred apertou um pouquinho mais Arthur em seus braços. Ele estava febril e inconsciente há horas. Apesar de todos os esforços por parte do garoto, o loirinho não acordava. Alfred sentia um desespero agudo subindo pela garganta, enquanto sua mente corria a mil por hora. Ele queria ficar com Arthur, mas precisava avisar a alguém. Foi com o coração apertado, e morto de medo que Alfred desvencilhou Arthur de seus braços e o deitou sobre os travesseiros. Ainda levemente trêmulo, saiu do quarto, atravessou o longo corredor e desceu as escadas.

Seu coração batia contra a garganta enquanto ele se deslocava pela casa silenciosa e vazia. Passou por vários cômodos até voltar à sala de estar, localizando um telefone. Desviou dos cacos de vidro no chão, o coração apertando ainda mais quando se lembrou dos cortes que Arthur trazia. Isso o apressou ainda mais, fazendo-o discar – com certo desespero — o número do francês.

A manhã já se insinuava, bela e clara. Havia uma pesada camada de nuvens, mas o sol por trás delas brilhava com força, fornecendo um dia claro, mas nublado. Aquilo deixou o garoto apreensivo, embora ele mesmo não soubesse o motivo. No terceiro toque, o francês atendeu.

– Alfred?

– F-Francis... – sua voz saiu muito baixa, para que não tremesse. — o Arthur não acorda... o que eu faço?



A conversa ao telefone duraria algo em torno de dez minutos. Porém, em cinco, Arthur acordou.

– É tudo o que eu tenho. – murmurou Arthur ao abrir os olhos. Aqueles espelhos esverdeados que ele detinha cintilavam com certa sinceridade perante o anjo. Porque aquele anjo vira tudo. Sabia todo e cada pequeno fato de sua vida. As mãos de Arthur notaram a cama abaixo de si. Um meio sorriso triste perpassou suas feições. Claro... Alfred. Arthur entendera errado. O garoto pareceu tão preocupado. Naquela noite, Arthur se perguntou se... bem, se Alfred talvez gostasse dele. Ledo engano... Bem, era fácil se enganar. Afinal, é mais fácil acreditar em algo que se quer acreditar, não é? O que ele achara que era amor era apenas uma centelha do que restara da relação deles como irmãos? Que desagradável, então. Alfred estava mortificado de nojo e com certa razão. Arthur também não gostaria que Scott o beijasse.

Mas, mesmo mortificado de nojo, Alfred o deixara em seu quarto, sobre travesseiros caprichosamente arrumados. Claro... Alfred não era cruel. Arthur não pôde deixar de sorrir um pouco ao tocar os travesseiros.

E o anjo fitou o protegido longamente. Arthur Kirkland era alguém que tinha suportado em vida muita dor. Ainda sobrara em seus olhos claros uma tristeza visível, lembranças demais destruindo o seu coração. Por mais que ele fingisse que não, ainda era viva em sua memória cada instante. Desde sua mãe morta ao seu lado quando abrira os olhos até Alfred empurrando-o naquela noite. O dia em que Alfred o deixara e o dia em que ele o abraçou e consolou de uma dor que os homens lhe impuseram. Todas as canções que ele usara para ninar o garoto, todas as palavras ácidas que ambos trocaram. Lembranças de quando o mundo ainda era novidade, vasto e cheio de luz. Lembranças de quando o mundo se tornou monótono e a morte se tornou algo comum. Tudo ainda era vivo nos olhos verdes de Arthur. Havia um pouco de todos os sentimentos que ele aprendera em vida.

Ele era agora, mais do que nunca, humano.

– Sabe, Arthur... Acabou. – disse o anjo, docemente. Ergueu-se brevemente, apenas para abrir as cortinas. A luz transbordou para dentro do quarto e o anjo voltou para perto de seu protegido. – Você finalmente se desapegou do seu eu enquanto nação. Você finalmente entendeu. Então... isso não é suicídio. Simplesmente, seu tempo acabou. – murmurou, suavemente. Sua mão tocou a de Arthur de leve e ele puxou-o, colocando o loirinho em pé. Houve silêncio por breves instantes, em que ambos apenas se entreolharam.


Alfred ouvira uma breve explicação por parte do francês e algo sobre ele estar vindo imediatamente. Mas a única coisa que o garoto realmente registrou foi que, segundo o que Francis descobrira, havia algo de errado com Arthur. Assim sendo, ele desligou na cara do outro e correu escada acima. Parou com a mão a centímetros da maçaneta do quarto de Arthur, um sentimento estranho e agoniante se espalhando em seu peito. Quando ia abrir a porta, escutou nitidamente a voz chorosa do britânico:


–... Então... você vai atender o meu desejo?


– Vou... – respondeu uma voz etérea, mas familiar. – Não por ser desejo seu, mas porque é hora. – a voz pausou alguns instantes, voltando triste. – Eu... só queria que você tivesse falado com ele antes que essa sua existência terminasse.


Alfred sentiu como se o tivessem jogado dentro de um lago congelado. “Terminar”? Arthur podia simplesmente... morrer? O mais puro pânico gelou todos os seus ossos. Em completo terror, ele abriu a porta e quase foi cego pela luz branca do sol que inundava o quarto. Em frente às janelas, estavam Arthur e outro rapaz, muito parecido com o britânico, só que ele tinha asas.


O anjo ergueu a mão em frente à face de Arthur, tocando o topo da cabeça dele gentilmente, quase um carinho. Arthur sentiu como se devesse olhar para trás. Seus olhos verdes, afogados em tristeza como sempre, voltaram-se para o garoto. Alfred demorou algo que lhe pareceu uma vida inteira para entender a expressão de Arthur. Ele... sorria. Era o sorriso mais despedaçado e magoado que Alfred tinha a lembrança de ter visto. Um pouco de lado, como se ele nem soubesse mais como se fazia para dar um sorriso inteiro, como se fazia para expressar felicidade. Só um pedacinho visível de uma dor que Arthur nunca conseguira diminuir sozinho.


O toque do anjo era suave e delicado. Aos poucos, ele sentiu-se ficar com sono. Realmente, muito sono. Bem, Arthur não podia negar que estava aliviado. Nunca mais sentiria sangue inocente encharcando o solo abaixo de si. Nunca mais daqueles campos de batalha. Seu amor se tornaria irrelevante e seu nome seria esquecido. Seria como... se ele nunca tivesse existido. Tudo foi ficando um tanto vago conforme o sono parecia sussurrar-lhe um convite.

Alfred ficou estático por alguns segundos. Sua mente parecia ter parado. Aquilo não podia acontecer. Mas... o olhar do loirinho lhe dizia outra coisa. Ele parecia se despedir. Não sabendo de onde tirava forças, Alfred correu até ele, abraçando o corpo de Arthur, percebendo a respiração dele cada vez mais tênue, desaparecendo pouco a pouco como orvalho pela manhã.

– Arthur, por favor... me diz que não é verdade. – sua mente parecia não conseguir sequer atar as palavras umas às outras. Não podia estar acontecendo, aquilo não era verdade. Sua voz saiu em um sussurro, porque o medo foi muito real. – você não.

– Hah... hey Alfred... eu gosto quando você me abraça assim... – murmurou Arthur, baixo e um tanto devagar. Ah... ele sentira falta daquele abraço aquecido que aquele garoto tinha. Era difícil ficar triste se ele tinha tido a chance de ser envolvido nos braços dele de novo. O preço que pagara pareceu pequeno e ele pagaria outra vez se isso significasse que teria aquele abraço de novo.

– Arthur, não... – o que... estava acontecendo? Não, não estava acontecendo. Não podia estar. — shh, por favor...

– ... – não importava mais, no entanto, Arthur sentiu vontade de dizer que amava aquele garoto. Mesmo agora, ele não conseguia se arrepender por tê-lo conhecido. O abraço dele não tinha mudado nada naqueles últimos anos. Ainda o fazia se sentir seguro e aquecido. Quase como se ele realmente fosse amado. Mesmo que isso não fosse verdade, ainda era muito bom ter os braços de Alfred à sua volta. O perfume dele permeava o ar.

Um dia, Arthur decidiu ir ao novo mundo. Lá, ele encontrou um garoto, adorável como o próprio loirinho nunca poderia ter sido. Quando ele poderia imaginar que aquele menino iria mudar sua vida tão drasticamente? O Arthur que havia sido deixado para trás, magoado e ferido... quando ele poderia imaginar que tudo terminaria nos braços de Alfred?

Alfred sentiu a bochecha de Arthur, que estava encostada em seu pescoço, mover-se um pouco, formando algo que ele sabia que era um sorriso. Quando o garoto afastou-se para olhar, sentiu o coração estilhaçando. Arthur lhe ofereceu outro sorriso. O sorriso mais belo e mais triste que ainda sabia dar. Era lindo porque Arthur pareceu feliz. E era triste porque ele estava feliz simplesmente por Alfred estar ali. Independente de tudo o que acontecera, independente de todas as palavras que eles trocaram.

O garoto o abraçou apertado. Tão apertado que ele podia sentir o coração de Arthur batendo contra o seu. Tão apertado que Arthur talvez pudesse sentir o quanto o seu peito doía. Na verdade, doía tanto que Alfred não conseguia falar. O nó em sua garganta machucava e suas lágrimas corriam tão depressa que pareciam que nunca iriam estancar.

Arthur pousou a mão sobre o peito do garoto e sentiu o coração dele batendo com força contra a sua palma. Seus olhos fecharam, mas ele sorria.

– Idiota... Arthur, não me deixa aqui. – disse o garoto, a voz quebrando enquanto ele se forçava a falar, qualquer coisa, qualquer coisa, que o impedisse de perder aquela pessoa em seus braços.

– Hah... No final de tudo... – murmurou Arthur, muito baixo, um tanto devagar, como se ele estivesse prestes a adormecer. – você veio. – murmurou, e ele parecia feliz quando se aninhou melhor no abraço.

– Arthur, por favor, não. – o pedido foi tão sincero que mal cabia na voz do garoto, que tremia como uma folhinha em um vendaval. Na verdade, Alfred nunca soube como aquele sussurro existiu, sendo que ele chorava tanto que o próprio ar o engasgava. – Idiota, idiota... – sussurrou, a voz quebrando e seus braços envolvendo Arthur com mais força.

Arthur sorriu ainda mais e entreabriu seus olhos.

– Sabe... – seus olhos fecharam e seu sorriso diminuiu em tamanho, mas pareceu ainda mais suave. – eu... amei você. – era estranho, mas, naquele momento, Arthur sentiu que entendia.

Talvez o amor não fosse tão incompreensível como ele achara a principio. Naquele momento, ele viu que era simples. Arrependeu-se um pouco do que disse. A verdade é que ainda amava. Talvez devesse ter dito isso no presente...? Arthur não sabia mais. As palavras pareciam ter se tornado... borrões de tinta, aquarela se diluindo em água... Havia um tom muito bonito de azul em seu campo visual. Cintilava como safira, em uma cor que ele amava muito.

Alfred sentiu o mundo inteiro parar quando ouviu o breve sussurro de Arthur. Com delicadeza, ainda que lentamente, como se não ousasse acreditar no que ouvia, o garoto afastou Arthur e olhou para o rosto dele. O sorriso gentil escorregou lentamente e aqueles incríveis olhos verdes o fitaram e, então, se fecharam. O anjo inclinou-se e abraçou o corpo inerte do loirinho. Muito gentilmente, ele tomou a alma de Arthur nos braços.

Alfred nunca viu como a alma de Arthur parecia dormir docilmente no colo do anjo. Apenas sentiu a falta da respiração morna do loirinho contra o seu rosto. Quando o abraçou, não sentiu o coração dele batendo contra o seu. Sentiu apenas o próprio coração batendo sozinho, agora com mais força que antes, como se quisesse acordar o de Arthur. Como se estivesse solitário.

Alfred teria dado o mundo para sentir aquele coração batendo de novo.

Ele sabia que Arthur já não vivia, mas isso não o impediu de abraçar o corpo que seu amado deixara para trás. Não impediu o soluço que rasgou sua respiração e a dor que parecia transpassar o seu peito. Seus olhos claros piscavam e permitiam que as lágrimas queimassem as faces de Alfred, que meramente continuou abraçando Arthur. Não havia pensamento coerente. Só... doía. Tudo doía. Ele não conseguia se mexer, apenas aninhar o corpo de Arthur contra si, quase que instintivamente querendo aquecê-lo.

Francis correu escada acima e entrou no quarto de Arthur, que tinha a porta escancarada, deixando parte do corredor mergulhada em luz. Matthew o seguiu e, juntos, eles encontraram Alfred chorando, abraçado a um Arthur que parecia dormir. No entanto, era visível o fato de que o loirinho não respirava. A realização atingiu os dois recém-chegados com o peso de uma muralha de pedras.

– Alfred... – murmurou o francês, desviando o olhar. Ele não quis olhar nos olhos do garoto. Matthew, no entanto, olhou e percebeu-o despedaçado.

– Acabou, Alfred... – murmurou o outro garoto, lágrimas silenciosas deslizando por suas faces enquanto sua mão tocou o ombro de Alfred. – Acabou... solte-o.

No entanto, o garoto não o fez. Ele não podia. Seus dedos afundaram nos cabelos claros de Arthur e seu rosto afundou no pescoço dele, sentindo falta do calor e da respiração. Arthur não podia ter ido, certo? Ele... não faria isso.

– Alfred. – o francês respirou fundo e tocou o outro ombro do garoto. – Solte-o... Você sabe que o Arthur está morto. – viu o garoto se encolher e a respiração dele quebrar quando ouviu a verdade sendo jogada em sua cara. Cruel e irreversível.


– É como uma velha concha abandonada. – murmurou o francês, puxando o garoto para trás. – Não há nada de triste em uma velha concha...


Com isso, Alfred suprimiu um grito de pânico e apenas continuou a chorar no silêncio mais desesperado que já conhecera. Matthew desvencilhou o corpo de Arthur dos braços de Alfred e o deitou no chão, fazendo-o repousar as mãos sobre o peito e entrelaçando-as como se ele rezasse.


–---------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Arthur só precisava de um motivo. Um motivo, qualquer que fosse, que fizesse sua vida valer minimamente a pena. E o que mais doeu em Alfred é que ele podia ter dado a Arthur esse motivo. Ele podia tê-lo salvo. Porque era tão simples! Arthur passara a vida toda sonhando com uma única coisa, que Alfred muito simplesmente podia ter dado a ele. Arthur sonhava em, um dia, ser amado por alguém.

Mesmo depois de ter visto tantas e tantas pessoas morrendo. Mesmo tendo sido magoado tantas e tantas vezes. Mesmo que o sorriso dele talvez nunca fosse perfeito de novo. Mesmo assim, Arthur podia ter sido feliz. Ele só precisava de alguém que o provasse que ele valia a pena. Alfred podia ter provado aquilo. Podia ter mostrado a Arthur que ele se importava.

Podia ter evitado aquela sepultura que jazia fria e silenciosa naquela manhã quieta.

Havia uma brisa levemente gélida que soprava ali e bagunçava os cabelos cor de caramelo do garoto. Ele trazia as mãos no bolso e a gola do casaco levemente erguida para se proteger do frio. À sua frente, só o que restara do enterro de Arthur. Fora meramente simbólico e quase ninguém viera. Alfred não era forte o suficiente para avisar a tantas pessoas que a pessoa que ele mais amava nesse mundo estava morta.

O garoto apenas comunicara às autoridades, que o autorizaram e permitiram que Arthur tivesse uma lápide. Fora um caixão lacrado, preenchido de rosas, símbolo da Inglaterra. Alfred escolhera cada uma delas. Apenas as rosas mais lindas da Grã-Bretanha.


Ele se trancou com as caixas que encomendara e não deixara ninguém entrar. Estava um pouco escuro, mas ele preferia assim. Porque, assim, ele podia fingir que não estava chorando até agora. Podia fingir que o azul de seus olhos nunca esteve tão azul de tão avermelhada que estava a região em volta, irritada com o choro contínuo.


A primeira rosa que ele deixou sobre o tecido de cetim do caixão foi uma rosa grande e de formato perfeito. Ela tinha jeito aveludado e cor de chocolate quente, como os muitos que Arthur lhe fizera na infância. Mais algumas dezenas daquela variedade forraram o fundo do caixão. Hot chocolate veio seguida da rosa que foi batizada com o nome de Summertime. Pelos verões que os dois tiveram, há muitos anos, pelas últimas vezes que Arthur sorrira. Depois, ele sobrepôs com uma rosa com um misterioso tom de amarelo, Golden memories, por todas as memórias daquele tempo que ele mesmo destruíra.

Destruíra sendo egoísta. Achando que era o único que tinha sentimentos ali. Ignorando o fato de que estava magoando uma pessoa que já tinha o coração tão despedaçado que mal sabia confiar nos outros. Depois daquilo Alfred ainda o machucara fisicamente, chegando a realmente bater nele durante uma briga na segunda guerra. Aí desconfiara dele, atirara insultos e caçoara de memórias que ele sabia que eram importantes, querendo atingi-lo.

Realmente, tanto o atingira que ali estava ele. Cuidando do funeral da única pessoa que realmente importava. Ele mesmo havia cavado a sepultura de Arthur. Ignorando-o. Magoando-o. Matando-o aos poucos com palavras cruéis, com mentiras que só serviam para machucá-lo. Alfred sabia que já não havia o que ele pudesse fazer sobre aquilo. O tempo dos dois tinha passado. Estava terminado. Depositou as últimas flores, algumas rosas levemente alaranjadas, tendendo para um gracioso tom de rosa.

– Sunset Boulevard... – porque aquilo era mais triste que um pôr-do-sol. Era...

Era mais triste do que imaginar que o sol nunca mais apareceria. Era como percorrer uma longa avenida, correndo atrás de um sonho que, por um momento, pareceu possível. Para então depois, perceber que não era. Perceber que o dia tinha terminado e o sonho tinha se esvaído com o final dele.

E Arthur estava mais belo que um sonho, deitado como se dormisse sobre o que agora parecia uma imensidão de aquarela. Ele parecia tão jovem. A morte não lhe roubara um único traço, tampouco ameaçava destruí-lo. Talvez por não ser humano, mas ele não demonstrava sinal algum de que aquele corpo se desfaria.


If I die young bury me with satin

Lay me down in a bed of roses

(Se eu morrer jovem, me enterre com cetim

Me deite sobre uma cama de rosas)


Alfred tocou-lhe a bochecha, como que para ter certeza de que Arthur não apenas dormia. Sua expressão era pacífica o bastante para que se pudesse crer em um milagre. O garoto fez um carinho leve sobre a face do amado. Por mais que continuasse macia ao toque, ela estava inegavelmente muito fria. As rosas disfarçavam o fato de que Arthur não mais tinha perfume algum, como uma flor estéril ou algo assim. A mão de Alfred pousou sobre as do loirinho e não houve resposta. Era tão estranho... Não importa quanto ele olhasse, Arthur parecia dormir. A diferença é que ele nunca mais acordaria. As lágrimas correram com mais força e ele sentiu dificuldades para respirar. Não havia palavras que pudessem contar sobre o quanto ele amava aquela pessoa. Doía. Além do que ele achara que era possível algo doer sem piedosamente o matar.


Sink me in the river at dawn

Send me away with the words of a love song

(Me afunde em um rio ao amanhecer

E me mande embora com as palavras de uma canção de amor)


O garoto levantou-se e bateu levemente na porta, murmurando que estava pronto. Alguns funcionários do cemitério lacraram e levaram o caixão, surpreendendo-se com o quão leve ele era. Alfred os seguiu, arrastando pelo chão uma caixa ainda repleta de flores. Sobre o caixão fechado, durante o enterro, ele jogou rosas vermelhas. Não rosas comuns, no entanto. A vencedora como a rosa mais linda do reino unido em 1983, cheia, redonda, aveludada, perfeitamente carmim em cada pedacinho perfumado de suas pétalas. Beautiful Britain...

Matthew fez menção de ir até Alfred, mas o francês segurou-o pelo ombro e acenou com a cabeça. Algum tempo sozinho era necessário para tentar achar um jeito de viver com o coração partido. Os dois saíram em silêncio.

As rosas já tinham acabado e Alfred apenas fitou o caixão descendo lentamente. Como ele queria ser forte o suficiente para ao menos sussurrar uma canção de amor para ele. Como ele queria dizer o que estava entalado em sua garganta. Mas a morte havia surpreendido a vida tão de repente, que o garoto viu-se sem palavras.

Começou a chover suavemente. Fina e levemente gélida, uma triste garoa naquele início de manhã. Foi estranho, porque Alfred soube. A Grã-Bretanha chorava.

Mas, quem poderia culpá-la? Que mãe não choraria no enterro do próprio filho?


Lord, make me a rainbow, I’ll shine down on my mother

She’ll know I’m safe with you when she stands under my colours.

(Senhor, faça-me em um arco-íris, eu irei cintilar sobre a minha mãe

Ela saberá que estou seguro com você enquanto ela estiver sob as minhas cores.)


Alfred tentou conter um pouco das lágrimas que caíam, uma atrás da outra. Pelo vidro do caixão, ele vislumbrou o rosto de Arthur. Era possível ver inúmeras medalhas sobre o uniforme militar de gala.

E o garoto percebeu como aquilo não valia nada. Medalhas, uniformes ou salva de tiros. Nada traria Arthur de volta. De repente, Alfred entendeu as famílias dos seus meninos. Não importava o tamanho da honra militar que ele concedesse. Não importava por qual ideal. Quantas mães não foram obrigadas a enterrar seus filhos daquele mesmo jeito? De que valiam aquelas medalhas luzindo sobre um coração que não batia mais?

A guerra não fazia sentido. Perder alguém assim era mais que descabido. Suas lágrimas não permitiam que ele dissesse coisa alguma enquanto o caixão descia. E, como ele não podia suportar ver aquilo por muito mais tempo, desviou o olhar para encarar a caixa de flores vazia.

No entanto, para a surpresa do garoto, no fundo da caixa, havia uma única rosa de cor índigo. Misteriosamente violácea, combinando com um verde muito profundo de seu cálice. Ele a segurou delicadamente e se inclinou para jogá-la também.

No entanto, ele se deteve e a guardou dentro do casaco. Longos minutos se passaram, e ele era a única pessoa que sobrara ali. Seus olhos percorreram o mármore da lápide e ele sentiu o peito apertar ainda mais, se é que algo assim ainda era possível. Ele nem sabia quando era o aniversário de Arthur ou que ano ele tinha nascido. O único número que constava ali era a data da morte e o nome. Alfred não fora sequer capaz de pensar em algumas palavras bonitas, que pudessem expressar um pouquinho do quão desesperadamente ele tinha amado aquela pessoa.

Então, talvez por ter se sentido imensamente solitário, ele puxou a rosa misteriosamente violácea de dentro do casaco e a fitou. O vento espalhou um pouco do perfume dela em volta.

Mas ele teria trocado o perfume de todas as flores de todos os jardins do mundo para sentir o perfume de Arthur uma última vez.


Seus passos se afastaram do túmulo e o guiaram até o enorme portão. Um pálido arco-íris cintilava no horizonte, sobre nuvens esbranquiçadas e pesadas. O sol passava por uma pequena fresta, lançando uma luz cálida e reconfortante ao mundo. Como podia fazer um dia tão bonito quando ele estava tão despedaçado por dentro? Como o mundo podia continuar exatamente o mesmo sem Arthur nele?

Mais do que isso... o que ele faria naquele mundo sem Arthur? As pessoas foram se dispersando, até que Alfred estava completamente sozinho ali. Seus olhos claros piscavam vagamente e sua cabeça parecia muito longe dali. Havia... um oco estranho em seu peito, como se houvessem arrancado seu coração para fora à força. Seu olhar apenas se moveu quando identificou alguma coisa se movendo em sua direção.

Era... uma pessoa. Aproximando-se a passos largos e rápidos, parecendo irritada. Era um rapaz alto, cujos olhos azuis pareciam em chamas, assim como seus cabelos. A franja carmim caía suave sobre a expressão dura que o escocês trazia. Alfred mal pôde registrar a sua aproximação. Em poucos segundos, ele estava à sua frente.

– Desgraçado! – Alfred apenas notou o ombro do rapaz tomar um impulso violento para trás e, no segundo seguinte, o punho fechado dele acertar-lhe o rosto com força, fazendo-o cambalear.

Antes, no entanto, que Alfred pudesse endireitar-se, Scott segurou-o pela gola de sua roupa e o prensou contra as grades do portão.

– Meu irmão está morto. – as palavras vieram duras e o olhar de Scott tremeu. – E a culpa é sua. – dito isso, largou o garoto no chão, percebendo os olhos claros dele enchendo de lágrimas. Scott arremessou o cigarro no chão, ao lado do garoto, resistindo ao impulso de usar a brasa na pele clara de Alfred. – E engole esse choro! Não finja que se importa agora. Ele está morto e nunca mais vai voltar. – deu as costas ao garoto, que trazia uma expressão de absoluto choque em sua face. Foi embora sem se dignar a um segundo olhar sobre o outro.


Alfred piscou algumas vezes, seu coração batendo com força. Em poucos segundos, suas mãos recomeçaram a tremer. A ideia de que Arthur tinha simplesmente o deixado não entrava em sua cabeça. Desde que ele podia se lembrar, Arthur estivera lá. Longe ou perto, mas ele estivera consigo. Apenas olhar no fundo dos olhos verdes dele já lhe dava segurança. A mera existência dele era algo que confortava o garoto, não importando o que estava acontecendo. Então, como ele poderia aceitar que Arthur simplesmente se fora? Que ele não existia mais?

Alfred estava assustado. O mundo pareceu-lhe, repentinamente, grande demais. Na verdade, o mundo nada mais era que um grande desperdício de espaço se Arthur já não vivia mais nele. A solidão o atingiu com força e o remorso o sufocou. Alfred já não sabia o que pensar. Só havia uma pessoa no mundo que podia fazê-lo se sentir melhor, então ele iria para perto dela.

Seus passos refizeram o caminho de volta para onde Arthur estava enterrado. E, assim que seus olhos leram a inscrição na lápide, as lágrimas escaparam e ele sentou-se ao lado do mármore. O choro veio extremamente doloroso e uma parte de Alfred torcia para que o nó em sua garganta o sufocasse de vez. Ele apoiou a cabeça nas mãos, assistindo suas próprias lágrimas caindo e tocando o chão. Os minutos foram se passando, mas não era como se a dor diminuísse. Talvez o tempo curasse as coisas. Mas, quanto tempo? Seus olhos ardiam, mas as lágrimas continuavam a cair, como se quisessem realmente machucá-lo.

Ventava um pouco e o cemitério era muito silencioso. As árvores farfalhavam de leve, como se sussurrassem preces aos que estavam enterrados ali. E aquilo era o único som. Aos poucos, foi escurecendo e a própria cidade foi se calando. Alfred escondeu-se quando o último vigia passou, de modo que ficou trancado do lado de dentro do cemitério.

Era uma ideia boba e risível, mas ele sentia que não podia ir embora e deixar Arthur sozinho.

Mesmo que o garoto estivesse simplesmente quase estático de medo. As sombras se projetavam e os vultos bruxuleavam conforme ia ficando gradativamente mais escuro. O vento uivava ao passar pelas lápides, ao que Alfred se encolheu um pouco. Esfriava progressivamente e o cenário era incrivelmente mórbido. Se havia algo no mundo de que Alfred tinha medo era exatamente aquilo. Frio, mortos, sepulturas, escuro, solidão. Mas havia algo que era infinitamente mais assustador que tudo aquilo.

A ausência de Arthur.

Aquilo sim o aterrorizava. Aquilo sim o assustava a ponto de sentir sua alma gelar. Era terrivelmente mais assustador sair dali e admitir que Arthur nunca voltaria.

As horas se passaram e o garoto ignorou os sons estranhos que pareciam advir de dentro das tumbas. Ignorou quando ficou tão tarde que a escuridão era palpável e a noite parecia ter vida própria. Parte alguma do mundo tinha importância se Arthur não vivia mais.

Ainda assim, foi com certo alívio que ele viu o dia amanhecer. O sol que nascia lançou uma luz fraca e fria sobre a lápide de Arthur, que o garoto releu, talvez meramente para se martirizar ainda mais. Seus dedos tocaram o nome sobre a pedra gelada, traçando cada sílaba, que ele conhecia de cor. Seu coração sabia exatamente como o nome de Arthur soava em seus lábios. Seu coração lembrava exatamente a quem aquele nome se referia. Aquele verde vívido dos olhos de Arthur suspirava em sua mente. Os poucos sorrisos dele nunca se apagariam de sua lembrança.

Apenas ergueu a cabeça quando alguém tocou-lhe o ombro. Era um coveiro já de meia idade, que observava o jovem rapaz chorando sobre aquele túmulo já há vários minutos.

– Vai pra casa, garoto... – disse o senhor, apertando um pouco o ombro de Alfred.

– ... – o garoto se calou. Que lugar ele deveria chamar de casa agora? – Eu... – sua voz saiu estranhamente frágil, tanto que ele mesmo mal reconheceu.

– Deus sabe o que faz, garoto, acredite em mim. – disse, dando um meio sorriso e se afastando.

Alfred fitou brevemente o túmulo, então voltou-se para falar com o senhor.

Mas ele havia desaparecido.


Brittania sorriu um pouco, observando Alfred procurá-lo. Mas o anjo fez-se invisível, sorrindo um pouco mais. Sentiu um pouco de pena, então tocou a rosa que Alfred trazia consigo, para que ela não morresse. Então, voltou. Alguém precisaria dele em poucos momentos...


Arthur acordou, mas não abriu os olhos imediatamente. O ar parecia leve e fresco e se movia levemente em algo que ele poderia chamar de uma brisa. Porém, era menos que uma brisa. O vento meramente respirava. Arthur não podia negar que era absolutamente agradável. A claridade perpassava suas pálpebras fechadas. Alguém chamou seu nome e ele abriu os olhos. Viu azul. Claro e delicado como uma aquarela. Sentou-se e procurou por quem o chamara. Encontrou o anjo sentado ao seu lado.


– Eu... dormi? – sua voz saiu sem esforço e quebrou a quietude delicada do lugar como uma gota caindo sobre um lago de águas muito plácidas.


– Existe algo que se chama divina providência. Se a pessoa vai sofrer uma morte dolorosa, geralmente um anjo tira a alma antes para que ela não sinta dor. – a voz do anjo, no entanto, não parecia quebrar a quietude, mas fazer parte dela. Sua explicação foi calma e delicada. Arthur franziu um pouco o cenho, estranhando as palavras do anjo. Ele... se lembrava.


– Mas... minha morte não foi dolorosa. Você tocou a minha cabeça e eu me senti adormecendo. — a lembrança lhe ocorreu, mas não o entristeceu. Tudo era calma e quietude.


– Não a morte em si, mas seria muito doloroso para você ver como o Alfred reagiu. – continuou o anjo, olhando para baixo pensativamente. A expressão de Arthur se tornou triste e foi com alguma resignação que ele voltou a perguntar.


– Ele... chorou muito? – a voz do loirinho era hesitante e havia certa culpa nela.


O anjo assentiu.


– Ele... está melhor agora?


O anjo negou.



Alfred saiu andando pelas ruas vazias daquele início de manhã. Não se lembrou de pegar o carro, não se lembrou de pensar na distância, não se lembrou de coisa alguma. O vento soprava meio gélido da noite que acabara de ir embora. Seus pés fizeram um caminho levemente familiar. Um passo depois do outro, somando-se em vários metros, que se somaram em quilômetros, que se tornaram uma distância que nem ele soube ao certo quanto media. O céu estava cheio de nuvens, mas elas já não eram densas e pesadas. Parecia uma névoa, quase fumaça, esbranquiçada. No entanto, era uma camada pesada, que vedava o sol e tornava a manhã fria, muito fria. Na verdade, parecia que o sol nunca tinha sequer existido...


Quando o garoto chegou ao seu destino, colocou as mãos no bolso do casaco e olhou vagamente para frente.


– Eu sempre quis estar com você. Eu sempre quis que você olhasse para mim. Eu queria que você me amasse também... – confessou, ouvindo apenas o vento suspirar ao seu lado.


O porto estava vazio e havia meramente o som da água movendo-se e por vezes tocando a madeira do cais. O garoto abaixou a cabeça e fechou os olhos, uma lágrima escapando de cada uma de suas íris muito azuis.


– Mas, no final de tudo, eu só consegui despedaçar ainda mais o seu coração. Eu te fiz mal, porque eu sou um monstro. – admitiu quietamente, torturando-se com as próprias palavras.


– Só que eu nunca esperei que isso fosse te atingir desse jeito. – confessou, mordendo o próprio lábio enquanto seus olhos azuis se derramavam ainda mais. — Eu descobri que você me dava paz. Eu descobri que te amar em segredo e te olhar de longe, era o suficiente. Eu prometi a mim mesmo que eu te amaria para sempre. – e o garoto sorriu, ainda que chorasse.


There’s a boy here in town

Says he’ll love me forever


Porque, naquele segundo, aquele porto não existiu. Existia a risada de Arthur em uma tarde de sol há muitos anos atrás. Um Arthur que dançava com ele. E, por Deus, ele tinha um riso tão lindo! Agora, reparando bem, fora a última vez que ele vira Arthur sorrir. O loirinho era muito bom em mentir sobre si. Ele talvez tenha rido depois daquilo, mas fora mentira. — Você nunca esteve feliz e eu nunca percebi isso. Você estava destruído e ninguém viu. E no final, eu te perdi também... – Alfred olhou para cima, incapaz de parar de chorar. — por que você me deixou para trás? Você podia me dizer? Será que você não podia voltar pra mim...? – implorou, com um pouquinho de esperança de ouvir a voz do loirinho atrás de si, dizendo que nunca fora embora, mandando-o deixar de ser idiota.

Who would have thought forever could be severed by?

(Quem teria imaginado que 'para sempre' poderia ser destruído?)

Só que isso não aconteceu. Aquela era só uma partezinha egoísta do coração partido do garoto. E ele reconheceu isso, porque mudou de ideia um segundo depois. – Acho que não, não é? Mas mesmo se você pudesse, eu te imploraria pra você não voltar. Porque tudo o que eu quero é acreditar que você é feliz. Porque, pra mim, você esta em algum jardim, entre milhares e milhares de flores. E mesmo com todas aquelas cores e todos aqueles perfumes, você ainda seria meu favorito. E sabe do que mais? Com certeza você estaria sorrindo. Porque eu não estou perto... – continuou ele, em um fio de voz, as lágrimas borrando seus olhos claros. – E lá, você é feliz. Lá você não se sente sozinho! Porque você é como um anjo pra mim e eu sei que alguma coisa boa tem que te esperar em algum lugar! – em um soluço tímido, ele esboçou o melhor sorriso que conseguia. Sinceramente, não era muito, porque o seu sorriso tinha um único motivo. Um único nome. E Arthur levara com ele, quando ele se fora.


– E... você nunca mais vai se machucar... Eu nunca mais vou conseguir te magoar. Porque eu nunca mais vou encontrar você. – admitiu a pior verdade que conhecia. Doía a ideia de nunca mais ouvir a voz de Arthur. — E... você vai ser feliz, não vai? – perguntou o garoto, em um sussurro trêmulo, morto de medo da resposta. – Você vai ser feliz, não vai? E eu vou sempre imaginar você sorrindo pra mim. Porque eu nunca vou me esquecer de você.- e o garoto deu um meio sorriso e seu olhar se perdeu. Depois de alguns segundos em silêncio, ele acrescentou, em um sussurro muito tímido, quase inexistente. – Eu acho que agora é muito tarde pra isso, mas... Se você estiver por ai... Eu só queria que você soubesse que eu amo você. – admitiu ele, finalmente.


E de todas as vezes em que ele pensara em se confessar, ele pensara em diversas respostas possíveis. Ele pensara que Arthur ia rejeitá-lo. Pensara que ele podia aceitá-lo. Pensara que ele podia pedir que eles esquecessem aquilo. Só que nenhuma delas era uma resposta tão triste quando a que Alfred teve. Porque não houve resposta. Arthur estava mudo para sempre, morto, e nunca iria ouvir. Quando ele se deu conta disso, o garoto começou a chorar ainda mais, seus soluços quase o sufocando. Porque a culpa era dele. Arthur tinha ido embora porque ele nunca mostrara a ele que queria que ele ficasse. – Alguém me da uma chance, droga! – gritou ele, fechando os olhos com força. – Se eu tivesse uma chance eu ia te fazer a pessoa mais feliz desse mundo! E eu iria me redimir por tudo o que eu fiz porque aí eu ia poder merecer você, seu idiota! – e seu coração doeu tanto, que ele se abaixou, ajoelhando sobre a madeira.


Então, começou a chover. Alfred escondeu o rosto com uma mão. – Por que, droga? – mas então, ele percebeu que estava exatamente na mesma posição que Arthur estivera quando ele declarara sua independência. Ah, o destino era caprichoso e cruel. Alfred apenas balançou a cabeça e fitou seu reflexo na água perturbada. – Você costumava ser tão grande....


Havia quem acreditasse que chovia quando os anjos choravam. Talvez isso fosse mentira, mas era verdade que Arthur chorava quietamente. Por mais que devesse se sentir vingado, ele não conseguia ficar feliz vendo Alfred tão triste.

– Shh... – o anjo abraçou o protegido, o coração um tanto partido.

– Eu não posso fazer nada? – murmurou Arthur, em um fio de voz.

– ... – o anjo fitou o outro seriamente. – Você teve tantas chances. Mas você nunca entendeu. Acho que não posso te deixar tentar de novo enquanto você não entender. – disse, enxugando as lágrimas de Arthur carinhosamente.

– Eu... acho que entendi. — murmurou, afastando-se um pouco e respirando fundo. — Me deixe tentar de novo. Dessa vez, nós vamos entender.



A chuva encharcou o garoto até os ossos, mas não foi capaz de lavar-lhe a culpa ou apagar minimamente a lembrança de Arthur. Por isso que, ainda um tanto desnorteado, ele refez o caminho até o cemitério, teimosamente sentando-se ao lado da sepultura e ficando lá até o fim do dia. Quando o sol foi embora, ele voltou para casa, derrotado.

Atirou a roupa encharcada para o lado e trocou por uma camiseta branca e uma calça, sem se preocupar em tomar um banho quente depois de ter ficado tanto tempo sob a chuva. Tampouco fez qualquer coisa a respeito do hematoma que Scott deixara em sua face. O garoto jogou-se na cama, mas não dormiu. Também não podia dizer que pensou. Só... esteve ali. As lembranças iam e vinham, chocando-se contra ele tal qual um oceano revolto. Mas, ao contrário das pedras na enseada, o garoto continuava inteiro, para sua completa infelicidade. Os minutos passaram e tornaram-se horas. Mesmo não tendo dormido há mais de dois dias, não conseguia fechar os olhos. Sua cabeça doía de tanto que ele já chorara nas últimas horas.

Em duas semanas, ele não sairia de casa. Meramente, sobrevivia. Embora não tivesse conseguido comer nada naqueles dias. Dividia-se entre passar dias e dias em claro e dias seguidos dormindo, apenas quando a exaustão praticamente o fazia perder os sentidos. Fora em um dia, em que ele finalmente havia perdido a consciência devido ao cansaço, que aconteceu.

Cuidadosamente, Arthur puxou a janela, abrindo-a. Era razoavelmente uma noite clara, iluminada por uma lua cheia, e ventava um pouco. Várias nuvens densas de chuva ameaçavam cobrir a lua a qualquer momento, mas ela resistia. As folhas das árvores farfalhavam ao sabor da brisa e o perfume de Arthur adentrou o ambiente. O loirinho se agachou no parapeito, suas asas barrando parte da luz enquanto ele olhava para a cama.

Alfred dormia de lado e parte de seu rosto estava escondido pelo travesseiro. Arthur sorriu de leve quando olhou para ele de novo, as lembranças naturalmente inundando sua consciência. Naquele momento, o loirinho sentiu o peso do passado que existira entre eles recair sobre si. Não havia como fingir que não havia acontecido. Sentou-se na janela e fitou longamente o garoto adormecido.


Inevitavelmente ele ainda se lembrava dos dias que passara em um hospital, tendo esperanças de que talvez Alfred viesse vê-lo. No entanto, ele não veio. E Arthur desperdiçou seus dias em uma rotina entediante, vivo, mas morrendo a cada pequeno momento.


Mas... mesmo assim... Ele nunca esquecera os gestos de carinho que Alfred dedicara a ele. Nunca esqueceria como ele o abraçara e murmurara como tudo ia ficar bem depois daquele bombardeio. As palavras dele na manhã seguinte, a promessa de que iria protegê-lo... estava tudo marcado como que a ferro quente em sua lembrança. Desde que ele o escolhera, quando chegara ao novo mundo. Até ali. Um sorriso muito leve abençoou suas feições quando a memória lhe ocorreu.

O anjo tinha razão. Ele tinha entendido tudo errado. Afinal, agora ele percebia. Tudo o que ele podia se lembrar eram de momentos assim. Para Arthur, não importava seus dias de pirataria. Pilhagem, roubos, assassinatos, decapitações e torturas. Ele participara de tudo aquilo. Ele fora o ápice da arrogância e do orgulho. Existiu uma época em que Arthur Kirkland era um homem que não precisava de sentimentos. Ele só pensava em ser melhor que todos os outros e sobrejugá-los.

Mas ele conseguira mudar. Quando sua mão, ainda cheirando a sangue, tomou a mãozinha pequena de Alfred na sua, ele soube que nada seria o mesmo. Quando embalara aquela pequena criança, ainda nada mais que um adolescente, Arthur chorara sozinho. Mas chorara apenas porque o momento era doce. Seu coração conhecia um sentimento totalmente novo. Algo sobre se importar com alguém.

Aos poucos, aquele garoto lhe ensinou, desajeitadamente, o que era amar alguém. E, no final de tudo, não o deixara sozinho. Arthur morrera no colo de quem ele mais amava, depois de ter vivido todo o tempo que lhe fora destinado. Depois de ter aceito seus próprios sentimentos. Depois de liberto da sua maldição enquanto nação.

Desceu do parapeito e seus pés silenciosamente tocaram o chão do quarto de Alfred. Arthur respirou fundo e o ar fresco da noite inundou seus sentidos.

Alfred salvara a sua alma. Era hora de retribuir a gentileza.

O Arcano 10 — A Roda da Fortuna


SIGNIFICADO DIVINATÓRIO


Destino. Fortuna. Resultado. Ganho especial ou perda fora do comum. Conclusão. Conseqüência. Benefício ou malefício, dependendo das influências das outras cartas próximas. Acontecimentos inesperados poderão vir a ocorrer. Aquilo que foi, que é e que será, não sofrerá modificações se a pessoa não estiver atenta para uma oportunidade inesperada.



Notas finais
Não me matem.
-
(If I die young - the band perry, não me pertence.)
(A citação do Francis é do pequeno príncipe, antoine de saint exupery, também não me pertence.)
(Essas rosas existem mesmo. O concurso é real, se quiserem, joguem no google RosesUK. São lindas.)