Boulevard Of Broken Dreams
21 Capítulo 21 - O Arcano zero
Notas iniciais
Por volta de 1998, a Rússia quebrou. O crime organizado aumentou, doenças que haviam sido erradicadas retornaram, a mortalidade disparou, muitas pessoas passaram a viver nas ruas, foi um verdadeiro caos.
América não podia deixar de sentir-se vencedor quando percebeu que seu antigo rival sucumbira completamente. E graças a algo que o americano tinha uma pequenina participação. Em 1997, o México passara a integrar um bloco econômico com Estados Unidos e Canadá. No entanto, por estar junto de países desenvolvidos, houve grande especulação e muitos investidores passaram a aplicar no México. Entretanto, logo viram que não era um lugar seguro para seus investimentos, retirando-os rapidamente. Nisso, o México quebrou. Aí a crise atingiu os tigres asiáticos e bateu na Rússia, que quebrou definitivamente.
Os demais emergentes sentiram a desconfiança do mercado. Em 1999, a desconfiança chega ao Brasil, mas não consegue quebrá-lo. Havia uma política para combater a inflação que previa a paridade real-dólar, ou seja, um real valia, por mecanismos artificiais do Estado, um dólar. Entretanto, quando a desconfiança do mercado veio, o governo desatrelou as duas moedas. Então, o país mostrou que tinha reservas, que podia honrar seus compromissos, que tinha leis de responsabilidade fiscal – limitadoras dos gastos públicos — e que não havia razão para a desconfiança. Mesmo assim, o dólar se valorizara a um patamar absurdo, chegando a valer quase quatro reais. Mas, ao ver que realmente não havia razão para o pânico, logo a situação se acalmou. No entanto, a crise bateu na Argentina, que sofreu uma crise violenta.
América sentia-se confiante ao ver Ivan passando tais dificuldades. Ser realista era necessário. Não existia aquilo de países sendo amiguinhos e querendo o bem um dos outros. E a queda da União Soviética era algo a se exultar. Era como... se não houvesse nada que pudesse assustá-lo ou atingi-lo.
E foi por isso que, um dia, por mero capricho, ele abriu o seu antigo depósito.
Precisou forçar um velho cadeado cuja chave ele não sabia mais onde estava. Entretanto, foi simples, uma vez que o trinco estava enferrujado e o garoto era bem mais forte do que há alguns anos atrás. Foi sem esforço por parte dele que o cadeado bateu no chão, indefeso.
Havia muito pó, foi a primeira coisa que o americano notou. Muitos dos objetos estavam cobertos por lençóis velhos, embora ele não conseguisse se lembrar porque os escondera tanto. Sorriu de lado. Eram só velharias, que ele deveria ter jogado fora há muito tempo.
Seus olhos fixaram-se em algumas pecinhas no chão. Aquilo seria... soldadinhos?
Suas mãos se fecharam sobre a peça. Algum sentimento estranho se espalhou, sentindo a textura do brinquedo, caprichosamente polido, embora a tinta já saísse em vários pontos.
Naquele dia, o britânico tivera alguns trabalhos a mais para fazer e algumas reuniões, o que deixou o garoto sozinho pela parte da manhã. Ele detestava ficar sozinho, mas aprendeu que não adiantava fazer birra sobre isso. Arthur tinha que trabalhar e ponto final. O garoto foi brincar sozinho com seus brinquedos favoritos. Por coincidência, seus favoritos eram todos aqueles que o britânico viera em pessoa trazer.
O garoto tocou a face de alguns soldadinhos que Arthur lhe trouxera. Quando o britânico lhe dera aquele presente, ele tinha um braço quebrado e provavelmente ferimentos por baixo da roupa de manga comprida que ele usava. Mas ele lhe garantira que estava tudo bem.
Alfred deixou que sua mão caísse sobre o seu colo. As lembranças eram tão antigas... Respirou fundo, rindo um pouco da própria nostalgia. Mas não era como se algo como aquilo fosse afetá-lo. Ele era os Estados Unidos da América e com certeza não se importava com o que quer que Arthur e ele tenham vivido no passado.
– Eu não vou mais usar isso... Eu vou jogar fora. – murmurou consigo mesmo, mas voltando a pousar o soldadinho onde ele estava.
Virou-se, encontrando um terno velho e empoeirado. Seu cenho franziu. Por que ele guardava roupa ali...?
Mas então, seus olhos claros arregalaram levemente quando a memória o atingiu. Azul muito azul fitou o tecido elegante da vestimenta esquecida. Arthur... Arthur lhe dera aquele terno, não?
No mesmo dia em que o ensinara a dançar.
– Alfred, é um conhecimento essencial para um cavalheiro – disse, exasperado.
– Mas Arthur, quem disse que eu quero ser um cavalheiro? – o garoto não queria. Mesmo. Ele com certeza faria papel de ridículo na frente do britânico.
– É importante, Alfred. Como você faria a dama que você gosta se apaixonar por você se não souber um mínimo disso? – respondeu-lhe Arthur charmosamente, bagunçando seus cabelos.
Alfred fitou longamente o rosto de Arthur. O britânico não fazia a menor ideia. Quem ele queria que se apaixonasse por ele estava bem diante de seus olhos, querendo ensinar-lhe as artes para cortejar mulheres.
–Ahhh e eu te trouxe uma coisa! – disse o loirinho animadamente, completamente alheio ao conflito que se passava no coração do garoto.
Foi assim que Alfred ganhou seu primeiro terno.
Arthur o olhou, admirado. Alfred reclamou, porque ele não gostava de ternos. Ele não ia usar. O britânico lhe dizia como isso era um problema para ele, já que Alfred era uma de suas colônias e não condizia andar como um caipira. O garoto reclamou e reclamou. Aquela foi a única vez em que ele usou aquele terno.
Mas também nunca teve coragem de jogar fora. Porque aquilo era presente de Arthur. Era do país dele. Era uma lembrança. E Alfred sempre se lembraria daqueles dias pacíficos em que ele estava ao lado de Arthur. Lembranças que se tornariam suas memórias mais queridas de toda a sua vida.
Uma vez com o terno, Alfred acabou tendo as tais aulas de dança. Embora isso tenha sido, como ele mesmo previra, muito embaraçante, também fora muito agradável.
– Aqui, pegue na minha cintura... – Arthur guiou a mão de Alfred para a própria cintura, colocando sua mão sobre o ombro dele. O garoto sentiu o corpo todo se arrepiar quando sua mão envolveu as costas do loirinho, sentindo seu quadril estreito, a firmeza de seu corpo por baixo das roupas que ele usava... E ainda tinha a mão de Arthur em seu ombro, segurando-o. Sem contar que o loirinho ficava absolutamente adorável visto de cima. Alfred nunca agradeceu tanto por ter ficado mais alto que Arthur. Porque os olhos verdes que ele tanto amava ficavam absolutamente adoráveis vistos dali. Seus cabelos loiros caíam suavemente, em um contraste quase injusto de tão perfeito.
–E agora você se move... – Arthur guiou-o, ainda que Alfred estivesse na posição masculina do par, suavemente lhe mostrando o que fazer. O garoto tropeçou, seu rosto absurdamente quente, suas mãos começando a suar. Arthur ria e Alfred se fascinava ainda mais.
E eles dançaram a tarde toda, rindo, nem sentindo o tempo passar. Alfred pisou no pé de Arthur várias vezes, chegando a tropeçar e cair em cima dele alguns pares de vezes. Seu rosto ficava completamente vermelho quando ele ia ao chão, seu corpo sobre o do britânico, suas faces centímetros uma da outra. Arthur ria do seu garoto atrapalhado, aceitando a mão que ele lhe oferecia para levantar.
Sua garganta realmente trancou com a lembrança. Ele havia esquecido como ele outrora tinha sido tão bom em fazer Arthur feliz. Na verdade, ele ainda era bom nisso. Mas ambos eram teimosos demais, orgulhosos demais, inseguros demais. Um pouco de sinceridade faria bem para os dois. Sinceridade como a que havia no embaraço do garoto quando ele valsara com o seu primeiro amor.
Ele deixou o terno de lado. Gradualmente, ficava mais e mais difícil lutar contra os sentimentos de Alfred, que desnorteavam a lógica.
– Eu... também deveria jogar isso fora. – murmurou América, em um fiozinho de voz.
Entretanto, quando ele alcançou a arma de fogo que Alfred apontara contra Arthur, ele soube que tinha perdido.
– Ei, Inglaterra. Eu... no final das contas... eu escolho a liberdade. – a voz de Alfred tremia. Ele tinha chegado tão longe, mas ainda estava com tanto medo. Porque agora ele se perguntava se Arthur entenderia os motivos que o levaram a destruir tudo o que eles tinham juntos.
– Eu não sou mais criança, nem o seu irmãozinho. Por isso, agora, eu estou me separando de você! – seus olhos muito claros vacilaram, mas sua voz saiu sem estremecer. Seu tom já não era a voz doce que ele tinha. Seu timbre era mais masculino, mais grave. Mas seu rosto ainda tinha as feições meio infantis, assim como seus olhos aparentavam uma inocência de alguém que nunca vira nada.
Arthur hesitou. E tentou travar sua expressão em uma severa, como se ele soubesse o que estava fazendo. Mas, no fundo, ele não sabia. Porque ele olhava no fundo dos olhos de Alfred e via um garoto. Suas íris muito verdes tremeram quando ele avançou na direção do seu garoto.
– Eu não vou aceitar isso! – gritou ele em uma voz trêmula. Sua expressão vacilou por uma fração de segundo. Porque a determinação dele escondia aquele medo sincero que ele tinha de ficar longe do garoto.
Alfred viu Arthur se aproximar e retirou sua arma da frente, por medo de machucá-lo. E seus olhos azuis se arregalaram, seus lábios se abrindo levemente, perplexo. Porque mesmo tendo chegado até ali, ele nunca imaginara o dia em que Arthur lhe apontaria uma arma. Não Arthur. Porque o seu Arthur lhe apontava flores. E ele tinha um perfume surrealmente delicado, alguma coisa entre canela, chá e papel de livros antigos. Ele sorria para ele em tardes que tinham cor de pôr-do-sol e ria quando o garoto se confundia ao dançar com ele. Arthur lia histórias e contava sobre um lugar muito bonito que ficava muito, muito além do horizonte. Ele lhe estendia a mão e o guiava de volta para casa, porque sabia que ele tinha medo de se perder.
A arma de Alfred caiu no chão com um baque surdo, mas ele não conseguiu se mexer.
– Você é muito ingênuo, seu idiota... – sussurrou Arthur, sua respiração tremendo. O garoto não reagia. Apenas fitou a arma que lhe era apontada. E o loirinho percebeu, à beira das lágrimas que o garoto não ia voltar atrás. Percebeu que, mesmo ingênuo assim, ele queria se jogar no mundo, para qualquer lugar. Qualquer lugar bem longe dele. Alfred preferia morrer a voltar para perto dele.
Então, finalmente, o loirinho viu que não havia mais sentido naquilo tudo. Ele estivera lutando para ter o seu garoto de volta. Mas ele não voltaria. Alfred preferia morrer a estar com ele. Então não era em vão tudo aquilo? Ele devia atirar na cabeça dele e acabar com tudo aquilo. E, mesmo tão magoado, Arthur fitou o rosto de Alfred e, sinceramente, não conseguiu. Porque Alfred era tão querido para ele, tão especial. Como ninguém nunca fora. Então, sua arma também caiu ao chão, assim como o loirinho, os soluços aos poucos deixando sua garganta, que doía como se houvesse algo entalado nela.
– Inglaterra... – Alfred não ousou pronunciar o nome de Arthur. Porque o nome de Arthur era doce em seus lábios. E sua boca estava corrompida com um gosto amargo que ele não sabia dizer exatamente o que era.
E Arthur se calou. Porque estava profundamente decepcionado. Porque ele tinha se entregado e acreditado em algo que jamais poderia ser verdade. Aqueles dias de paz em um mundo imenso e cheio de luz, preenchido pela companhia de alguém por quem ele tinha uma afeição tão profunda... Aquelas promessas de que eles nunca se separariam, de que ele nunca mais teria que ficar sozinho.
Alfred mentira, enquanto Arthur se abrira. E, finalmente, estava na hora de ele pagar pela ingenuidade. Era a hora em que ele se arrependeria por ter baixado a guarda, por ter deixado seu coração tão na mão do outro. Porque agora, Alfred o magoaria. E não havia sarcasmo nem frieza que o protegesse. Era o seu coração na linha de tiro, e apenas ele. Porque Arthur se deixara levar. Acreditara em palavras, que são breves como a vida de uma borboleta.
– Você costumava ser tão grande. – disse Alfred, olhando do alto para o que lhe pareceu um Arthur muito patético.
E o estrago estava feito. Os soluços do loirinho sacudiam seu corpo e sua mão tentava, inutilmente esconder as lágrimas que desciam e queimavam suas faces. Finalmente, Alfred dissera suas últimas palavras, como em um golpe pouco misericordioso em alguém que já tinha caído. Porque Arthur tinha caído. Finalmente, deixado seu coração ser despedaçado por alguém. E agora ele se ajoelhava, embaixo de uma chuva que parecia querer fazê-lo sumir, magoado e ferido, finalmente quebrado.
Suas tropas recuaram e Alfred foi embora junto com seus colonos, rumo a uma suntuosa comemoração. Mas Arthur apenas continuou ali, chorando como se alguém se importasse. A chuva continuou a açoitar seus ombros, o encharcando até os ossos. E o loirinho chorou, tremendo em soluços, por uma mágoa dolorida demais para suportar. Seus olhos verdes se derramaram, cintilando em uma cor muito triste enquanto ele fitava o chão abaixo de si, suas luvas brancas apertando com força a terra barrenta. Porque ele estava tentando se segurar. Qualquer coisa que o desse apoio, porque a dor chegava a cegá-lo e confundi-lo. Nada nunca tinha doído assim porque Arthur nunca se entregara. Mas ali estava. A dor era real e a mágoa era verdadeira. E, por Deus, doía. O loirinho chorou, como há muito tempo não chorava, tentando ignorar a maneira como seus olhos ardiam e como seu corpo tremia, como o ar queimava quando ele inspirava bruscamente, soluçando.
Alfred sentou-se no chão empoeirado do depósito, cercado por aquela infinidade de lembranças. Seu coração apertou quando ele se deu conta de quanto tempo ele deixara passado. Seu amor se confundiu com a história do próprio mundo. E, mesmo depois de tanto tempo, ele não alcançara nada.
Foi ainda com certa culpa e cautela que ele quis ser, ao menos, amigo de Arthur. Foi aos pouquinhos. Algumas provocações, algumas conversas triviais, algumas refeições apressadas feitas só os dois. Em momentos como esse, em que Alfred descobrira esparsos e tolos fatos sobre Arthur. Por exemplo, descobrira que Arthur sempre quisera aprender a tocar guitarra e baixo, mas acabara nunca o fazendo por conta da seriedade do seu trabalho e da falta de tempo. Descobrira que Arthur amava chá preto com leite, embora a quantidade de açúcar dependesse do seu humor no dia — uma colher para dias normais, duas para dias difíceis.
Os dois ainda implicavam um com o outro, muito mais por orgulho do que por realmente ter a intenção de incomodar. Isso os deixou estranhamente separados por um muro invisível, que nenhum deles sabia exatamente se deveria ultrapassar. Havia história demais entre eles para saber como agir em situações tão comuns. Mesmo assim, era divertido. Ainda que Arthur não sorrisse, ele parecia menos tenso, ainda que sempre irritado. A verdade é que estava melancólico, mas não era como se ele quisesse admitir algo assim.
O olhar de Arthur não era mais o mesmo há muito tempo. Ele conversava como se nada estivesse acontecendo, mas havia algo de errado. Alfred só falhara em não perceber. Apenas reparara como Arthur parecia... distante às vezes. Além disso, havia certa... ternura. Mas isso deixava o garoto inseguro. Não era incomum que Arthur trouxesse sua infância à tona e eis um assunto que Alfred queria evitar. Era lógico relacionar o olhar afetuoso com as lembranças que Arthur guardava. Só que isso doía. Porque era como se o loirinho estivesse sempre buscando a criança que conhecera. E isso era admitir que Alfred nunca, nunca seria mais do que isso para si. O garoto podia aceitar uma vida toda apenas amando Arthur de longe. Mas não podia conviver com o fato de que Arthur nem ao menos o enxergava como igual.
Talvez o mundo fosse mesmo uma questão de ponto de vista. A falta de diálogo entre os dois por todos aqueles anos gerou uma série de mal entendidos que só os fizeram mal. Alfred entendera tudo errado. Arthur não estava buscando sua criança. Ele realmente o via. Ele realmente o amava.
Bem, mas o garoto não estivera de todo errado. Havia algo. O olhar de Arthur realmente espelhava tristeza.
Ele já não tinha ideia porque ele fazia aquele trabalho. Arthur reparara alguns anos antes, mas agora a situação vinha se tornando insustentável. Ele já não sentia a sincronia entre o que acontecia em seu país consigo próprio. Os assuntos pareciam distantes, o trabalho parecia não ter sentido.
Havia... algo de estranho.
E aquilo vinha perturbando Arthur.
Demorou algumas semanas para que ele viesse a admitir, mas... Ele precisava falar com alguém. Só não contava ele que era ainda mais difícil conseguir a atenção de alguém. Era estranho. O mundo parecia girar cada dia mais depressa e o sol parecia correr nos céus e findar os dias cada vez mais cedo. Era a única explicação de porque, de uns tempos para cá, as pessoas estavam sempre apressadas. Nunca havia tempo para ouvir umas as outras. Às vezes, parecia faltar tempo para se importar com alguém que elas amavam.
– Er... Alfred, nós podemos conversar? – a pergunta veio praticamente de lugar nenhum, no final de mais uma reunião.
– Ahh, precisa ser agora, Arthur? – Alfred checou o relógio. O chefe dele o estaria esperando e ele já estava atrasado. — Eu realmente não tenho tempo para isso agora.
– Não, não, está tudo bem.
Por que “tudo bem” nunca significa “tudo bem”?
Arthur estava confuso. E começou a se perguntar... para que existências como a dele estavam ali? Para que serviam? Sua relação consigo mesmo tornava-se cada dia mais instável. Ele se sentia... inútil. Sem qualquer propósito. Os interesses do seu país já não falavam tão alto quanto sua própria consciência, que o crucificava. Arthur achava que merecia sofrer.
Com o passar dos dias, ele ficou meio como... anestesiado. No fim, cansara-se de estar triste. De se sentir inútil. De tentar achar uma saída, ou, ao menos, um consolo. No fundo, ele estava com medo de criar novas esperanças. A esperança era algo assustador. Porque se tudo desse errado de novo, ela o deixaria em pedaços e ele sabia disso. Ao mesmo tempo, era tão... difícil viver sem esperança alguma. Cada ato parecia mecânico demais, nenhum lugar era onde ele realmente queria estar. Às vezes, a hora avançava e ele sentia como se estivesse desperdiçando os seus dias. Ele se sentia fracassando em cada pequeno aspecto de sua vida. Seu trabalho, no qual ele não conseguia mais se focar, cada vez mais envolvido e menos profissional. E sua vida pessoal, que era um desastre maior ainda. Ele tinha qualquer coisa que era obrigado a chamar de família, mas que ele sabia que o afogariam se tivessem a oportunidade.
Arthur sentia-se velho. Imensamente velho. Os anos pareciam jogar cada vez mais fardos em suas costas. E, mesmo que ele se sentisse tão velho, diante da própria insegurança, ele se sentia uma criança.
Não era como se ele nunca houvesse pensado em se declarar. Pensara, mas nunca pareceu valer a pena. Nem ele mesmo conseguia se amar. Como ele poderia pedir para que outra pessoa o amasse? Arthur não sentia como se tivesse coisa alguma a oferecer. Se fosse por aparência, certamente havia pessoas muito melhores por aí. E, quanto à personalidade, nem ele mesmo conhecia a própria. Sabia-se solitário e inseguro. Sabia que se sentia imundo. Sabia que tinha pesadelos com frequência.
Já era insuportável a confusão em sua mente. E as pessoas a sua volta falhavam em perceber. Ou talvez simplesmente não se importassem.
O fato era: Arthur estava em seu limite emocional.
E então, em meados de setembro daquele ano, aconteceu.
Arthur estava em casa, tirando alguns livros das estantes da biblioteca e movendo-os para as estantes da sala. Passava a maior parte do tempo lendo, e sua sala de estudos era um tanto abarrotada demais. Pareceu-lhe uma atividade plausível para uma manhã tediosa. Durante sua arrumação, havia apenas o som dos livros sendo colocados sobre as prateleiras, ecoando solitários pela sala deserta. A solidão era uma constante, mas não era como se fosse fácil se acostumar àquilo. Equilibrando alguns livros na mão, Arthur suspirou e ligou a televisão, a fim de fugir do silêncio monótono e desconfortável.
Jogou o controle sobre o sofá e reequilibrou os livros em seus braços. Entretanto, seus olhos bateram na tela e observaram brevemente o noticiário.
– Ora vejam. Uma das cidades do Alfred. – mas ei... não, havia algo errado.
Seus olhos verdes arregalaram e os livros caíram no chão com um baque surdo. Ele cobriu a própria boca, perplexo.
– Santo Deus.
Sua primeira reação foi se precipitar em direção ao telefone e tentar falar com o garoto. No entanto, como era de se esperar, dava ocupado. Nervosamente, Arthur mordeu o lábio, o coração batendo com força no próprio peito. O que teria acontecido? Pior, o que estava acontecendo? Por que Alfred não atendia? Logicamente ele estava bem, mas... Estava? Claro que estava. Precisava estar. Mas, e se... "E se" coisa alguma, ele estava bem. Mas era preciso ter certeza. Mas ele não atendia.
Vários e longos minutos depois, o telefone tocou, fazendo-o sobressaltar-se. Um tanto trêmulo, ele atendeu.
– Alô?
– Inglaterra?
– Chefe...? – a voz de Arthur deixava transparecer sua surpresa.
– Você... viu o que aconteceu, não viu?
– Sim...
– Então. Os americanos ligaram para mim. Parece que... o menino deles está... estranho. – a hesitação irritou Arthur, que estava tão nervoso que mal podia se conter.
– Por favor, seja mais claro. – disse, tentando respirar fundo enquanto apertava o telefone em mãos com tanta força que mal sentia os próprios dedos. Ele... estava falando de Alfred. Mas o que acontecera?
– O menino deles, o América. – retomou o homem do outro lado da linha, sentindo a irritação do loirinho. – Eles... tentaram contatá-lo, mas ele se recusa a deixar qualquer um entrar. Quando aconteceu, ele estava em casa e, desde então, não sai de lá. Ele parece anormalmente desconfiado. Não deixou que ninguém entrasse e atendeu o telefone apenas uma vez.
– O que ele disse? – atropelou-se Arthur, sentindo o coração bater contra a garganta.
– Era exatamente isso que eu precisava falar com você. – deu um suspiro nervoso. – Ele disse que não ia deixar ninguém entrar... Além de você.
– O quê? – a pergunta saiu em um fiozinho de voz fraco e incrédulo.
– Ele disse que não queria falar com ninguém além de você. E pediu para te chamar.
Arthur piscou, aturdido. Alfred estaria... confiando nele? Mais importante, como ele estava? Se estava falando, então provavelmente estava bem, mas... O loirinho soube-se tomado por um pânico inexplicável. Todos os motivos podiam ir para o inferno, que ele simplesmente não ligava. Como estava o seu garoto?
– Inglaterra...? – a voz do outro lado da linha chamou, pela terceira vez.
– Ahn? – Arthur foi arrancado subitamente de suas divagações. – Sim?
– Você vai? – perguntou, um tanto devagar, estranhando a reação pouco racional do loirinho. – Eu posso marcar uma passagem para você...
– Sim. – a resposta saiu automática. – Sim, por favor, faça isso. O primeiro voo, ok? – dito isso, desligou, desatando a correr para trocar de roupa e enfiar o estritamente essencial em uma pequena mala. Seus pés pularam a bagunça de livros no chão e ele ignorou a louça suja e todo resto, tendo presença de espírito suficiente apenas para desligar a televisão.
Para o extremo desgosto de Arthur, a viagem levou mais horas do que ele esperara. Estava tudo uma confusão. Só conseguira realmente pisar em solo americano depois de bater boca com uma dúzia de pessoas, telefonemas que confirmavam sua presença indispensável e muitas horas desgastantes.
Mesmo assim, o momento em que Arthur estivera mais nervoso fora quando parara em frente à casa de Alfred. Todas as janelas pareciam ter sido lacradas manualmente pelo garoto e era impossível saber se alguém estava em casa ou não. Por um momento, o loirinho parou, engolindo em seco. Havia um local para identificação próximo ao portão.
– Er... Arthur Kirkland. – disse, um pouco hesitante. Não houve resposta. Apenas ouviu um clique metálico e o portão se abriu, fechando assim que ele passou.
Havia câmeras pela propriedade e os olhos atentos do britânico perceberam como elas o seguiam. Havia uma câmera perto da porta, que, assim que registrou o loirinho, destrancou a maçaneta.
Ainda hesitando, Arthur entrou, encontrando a casa em completo silêncio.
– Alfred? – tentou, deixando o casaco pesado perto da porta, olhando ao redor. Andou pelo corredor, notando uma escadaria que levava para um pavimento inferior. Um porão provavelmente. À sua esquerda, havia a sala de estar. Então mais portas e outros corredores. Droga, a casa de Alfred era enorme.
– Vamos lá, Arthur, pensa. – murmurou consigo mesmo. – Onde ele estaria... Quarto? – valia a pena tentar.
Depois de vários minutos de procura, ele achou uma escadaria, seguindo-a e encontrando outro corredor. Arthur sentiu um cheiro férrico muito leve, imperceptível para a maioria. Nervoso, ele seguiu o aroma, precipitando-se em direção à terceira porta do corredor e abrindo-a.
Ele estava certo. Sentado com as costas apoiadas à cabeceira da cama, estava Alfred. A primeira coisa que a mente preocupada de Arthur registrou é que havia sangue. Óbvio que haveria, com o número repentino de pessoas mortas ao mesmo tempo por ataque externo. No entanto, Arthur não estava pensando com clareza. Jogou a bagagem, que até esquecera que estava carregando, para o lado e andou apressadamente até o garoto, que virou para olhá-lo.
Seu nariz estava quebrado. O sangue já manchava o lençol e o garoto olhava para o loirinho, perdido. Seus óculos estavam sobre a cabeceira, de modo que era fácil ver que ele chorava.
– Alfred? – chamou Arthur, tão preocupado que se sentia quase enjoado. – Alfred, fale comigo. – murmurou com a voz baixa, nervosamente notando o ossinho que havia sido quebrado na face do garoto.
– Arthur... – a voz dele veio chorosa, e o coração de Arthur apertou.
– Alfred, você está bem? – murmurou Arthur, sentando-se ao lado dele e tirando a franja um pouco da frente dos olhos azuis do outro.
O garoto meramente negou com a cabeça, recomeçando a chorar.
–Não, não, sh... – sussurrou Arthur, abraçando Alfred, um tanto desajeitado, tentando não esbarrar no nariz dele. – E-eu... estou aqui, ok? – murmurou, ainda que não tivesse muita certeza se aquilo servia de consolo a Alfred. Bem, ele o chamara não? Ele... queria que Arthur estivesse ali, não é?
Seja lá o que fosse, o fato é que Alfred o abraçou de volta com força, agarrando-se a ele como se Arthur realmente fosse capaz protegê-lo. O choro dele tornou-se mais entrecortado e o loirinho podia senti-lo tremendo. Alfred nunca poderia descrever o alívio que era ter Arthur ali naquele momento. A voz grave e o perfume familiar, o toque delicado e as palavras murmuradas. Ninguém, ninguém era mais importante para si do que Arthur. Esse tirou um pouco das lágrimas do caminho, depositando um beijo de consolo sobre os cabelos macios do outro. Alfred ignorou a dor latente em seu peito quando percebeu que o cuidado de Arthur parecia o cuidado que ele teria com uma criança. Normalmente, ele tentaria evitar aquilo, mas, no momento, ele realmente precisava de Arthur, da maneira que fosse.
– Shh... Vai ficar tudo bem, Alfred. – eu espero, completou mentalmente, enquanto se afastava para fitar o garoto, que o soltou com alguma relutância. – Você... já falou com alguém ou tratou desse machucado? – perguntou seriamente, analisando a quantidade de sangue que já havia secado no rosto dele.
– ... falei para chamarem você. – murmurou Alfred em resposta, fingindo estar muito entretido em observar os cobertores, a expressão levemente emburrada e desconcertada. O loirinho sentiu o coração palpitar, um tanto feliz demais por ter sido a primeira e única pessoa que passara pela cabeça de Alfred em uma hora como aquela. Quem pensaria nisso, sabendo como o garoto agira durante a independência... Arthur voltou a ficar sério. Respirou fundo, tentando esquecer aquelas memórias, ao menos por enquanto. Pela ausência de comentários acerca de curativos, Arthur concluiu que ele não havia feito nada daquilo.
De fato, Alfred simplesmente fechara tudo, tomado por uma paranoia inimaginável e se refugiou no próprio quarto. No momento, ele não quisera explicações, não quisera ver ninguém. Qualquer um podia ser um traidor.
Menos Arthur, não é? Arthur não faria aquilo.
Diante da inédita falta de palavras por parte de Alfred, o loirinho foi até a suíte do quarto do americano, molhando uma toalha e voltando rapidamente para o lado do garoto.
– Eu... vou limpar isso um pouco, ok? – avisou, ao que Alfred estremeceu um pouco, mas assentiu. Como o garoto previra, ardeu, e ele choramingou como uma criança. Arthur chegou a considerar tentar consertar-lhe o nariz na base da força, mas Alfred chorava tanto que o loirinho acabou não achando coragem. O machucado cicatrizaria. Tornar-se-ia imperceptível eventualmente. Mesmo agora, não era como se a aparência entregasse o ferimento. Parecia quase normal, exceto que estava vermelho e quente o local onde o osso quebrara. Fisicamente, os danos não eram expressivos. Mas, psicologicamente, Alfred parecia à beira de um ataque de pânico. Com certo esmero, o loirinho enxugou as lágrimas com a pontinha da toalha, ao que o garoto sentiu as faces avermelharem fervorosamente. Não era muito heroico chorar na frente de quem você gosta.
– Pronto, pronto... parei. – murmurou Arthur, com o coração apertado. Deixou a toalha de lado e suspirou, segurando a mão do seu garoto e olhando-o nos olhos.
– O que foi que você aprontou dessa vez?
– Eu?!
– Bem, isso não é algo que acontece com qualquer um, aleatoriamente. – murmurou Arthur em um tom mais ameno, tentando não irritar muito o garoto.
– Eu não fiz nada de errado. – bateu o pé, cruzando os braços teimosamente.
– Tudo bem, tudo bem. – disse Arthur, decidindo por não pressionar mais sobre o tema. Alfred relaxou a postura novamente, descruzando os braços. Em poucos segundos, sua mão procurou a de Arthur e a apertou. O loirinho sentiu a mão do outro na sua e permitiu, timidamente apertando-a de volta. Decididamente, não adiantava. Alfred poderia fazer qualquer coisa que Arthur ainda acabaria por mimá-lo.
Houve silêncio e os dois meramente continuaram de mãos dadas. Um gesto tão pequeno, mas tão significativo. O sentimento era tão real, que mesmo que suas mãos mal se tocassem, a intenção era clara. Tinha a ver com apoio, confiança, proteção e cuidado. Mas também, reticência por parte de ambos. Se não houvesse aquela hesitação, aquele orgulho, aquela teimosia, eles poderiam estar lado a lado, procurando um futuro para ambos. Poderiam estar mais perto. Acabar com toda a distância desnecessária. Mas o passado. O passado pesava entre eles. Não era como se anos de palavras não ditas, conversas pela metade, sentimentos escondidos e hesitação pudessem não significar nada de uma hora para outra. Mas seria bom... Deixar o passado para trás.
Arthur teve de voltar para casa no dia seguinte. Havia muito que fazer e os últimos acontecimentos provavelmente viriam a afetar o seu país também.
No entanto, isso fora como trair a confiança que Alfred depositara em si. Ele nunca deveria ter deixado o garoto sozinho. Assim como Alfred falhara por nunca ter deixado que Arthur soubesse que ele lhe era especial, Arthur falhara por deixar Alfred sozinho em um momento como aquele. O trabalho falara mais alto.
O loirinho não tinha ideia do que pensar ou que opinião ele deveria ter. Os assuntos políticos estavam ficando cada vez mais distantes. Era como uma parte de si que ele não mais conseguia alcançar. Mesmo assim, ele insistira. Voltara para casa e se jogara de cabeça no trabalho. De certo modo, era porque queria que Alfred melhorasse logo. Mas o que o garoto precisava não era de melhora física. Ele precisava de Arthur. Mas Arthur nunca pensaria que sua presença seria importante a alguém, então nunca lhe ocorreu que talvez ele deveria ter ligado para Alfred todas as noites, dito meia dúzia de palavras que acalmariam o garoto – não por si mesmas, mas por serem todas ditas na voz da pessoa que ele mais amava.
Bem, se Arthur não iria dizer nada, seus chefes o fariam.
E com certeza era assustador. Alfred não podia sair na rua sozinho, porque poderia ser emboscado. Também não deveria beber ou comer em festas, pois alguém poderia colocar algo como arsênio e ele ficaria meses degenerando de dentro para fora pelos efeitos da radiação, mesmo que provavelmente fosse incapaz de morrer. Disseram a ele para evitar qualquer um que parecesse não ser do Ocidente, porque quem sabe o que eles poderiam fazer. Disseram-lhe também para voltar a andar armado – hábito que ele largara depois da limpeza do armazém. O circuito interno das câmeras em sua casa era visto e revisado todos os dias por agentes do serviço secreto. Quem garantiria que alguém não invadiria sua casa e implantaria algum tipo de explosivo?
Não lhe contaram como sempre havia algo por trás das guerras. Não lhe contaram como o mundo estranhara a coincidência de uma guerra acontecer em lugares tão interessantes geopoliticamente. Nunca lhe disseram, mas Alfred também nunca perguntou. Internamente tudo estava uma bagunça e ele já não sabia onde deveria se sentir seguro. Afinal, seu sistema de segurança deixara algo crasso passar. Na hora do atentado, havia centenas de voos acontecendo ao mesmo tempo. Os controladores civis perceberam que havia algo de errado, mas eles não tinham comunicação direta com os militares. A discussão se estendeu e as ligações tiveram de continuar. Os caças para abater os aviões só poderiam sair sob ordens de Washington. Foi uma confusão sem tamanho. Mesmo quando os caças foram autorizados a partir, receberam ordens confusas e contraditórias, acabando por ficarem dando voltas pelo céu americano e não capturando nenhum dos quatro aviões a serem abatidos.
Enfim, fora um desastre. E Alfred sentia o golpe no orgulho. Ele era uma nação rica e poderosa, como algo assim tinha acontecido? Aquela guerra também veio em resposta aos cidadãos que queriam vingança. Havia quem achasse certo se vingar, assim como havia outros que achavam que a violência não solucionaria nada e que o país deveria parar de interferir nos assuntos do Oriente Médio.
Ou seja, a opinião pública se contradizia, seus chefes corriam de um lado a outro, sem explicar coisa alguma, apenas dando-lhe listas do que não fazer e de como não poderia sair de casa e de como não podia confiar em ninguém e de como qualquer coisa podia ser um artefato explosivo e dando-lhe o telefone do esquadrão anti-bombas e aumentando o gasto bélico e...
Era muito. Alfred percebera-se praticamente preso. A pilha de documentos em sua mesa aumentava exponencialmente. À noite, tudo era particularmente grotesco e aterrorizante. Porque enquanto tentava somar os gastos que a guerra traria, o piso de madeira estalava atrás de si. A janela que ficava em frente à sua escrivaninha por vezes refletia vultos. Mas quando ele virava para olhar, não havia nada ali. Suas mãos tremiam e ele não raciocinava ao assinar os papéis. Era algo incrivelmente irresponsável, ele sabia. Mas ele não sabia o que fazer. Queria ligar para Arthur e perguntar, mas seu chefe lhe disse para nunca usar o telefone, pois a linha podia ser grampeada. Na verdade, não queria que Alfred pensasse muito ou pedisse outras opiniões.
Quando o cansaço não mais permitia seu trabalho mecânico em assinar papéis. Ele tentaria ir se deitar. Mas, com as luzes apagadas, a escuridão parecia se arrastar e chafurdar, agarrando-se a cada superfície, mergulhando tudo em breu e vazio. A casa estalava e rangia sozinha e o garoto evitava olhar para a porta do quarto. E se tivesse alguém ali? E se alguém o sufocasse enquanto ele dormia?
Como resultado de suas fobias, ele não mais conseguia dormir direito. O garoto estava uma pilha de nervos. Ele não tinha mais paciência para reuniões.
– Hey, Alfred. – a voz de Arthur cumprimentou-o normalmente. – Onde você vai almoçar hoje?
– Eu... vou para casa. Não posso ficar. – murmurou, afastando-se um pouco, colocando uma distância mais segura entre eles.
– Por que? – arrependeu-se assim que perguntou. Arthur odiava parecer que estava implorando pela companhia alheia. Bem, talvez fosse tolo, mas era uma questão de orgulho e Arthur certamente tinha uma porção disso.
– Bem... Pode ser perigoso. Você sabe. Estamos no seu país, que nem é tão incrível quanto o meu, então... qualquer coisa poderia acontecer.
– Você- — Arthur sentiu a raiva esquentar seu sangue, e suas mãos apertaram sua pasta com força. – Oh, me desculpe então, senhor incrível. Acontece que eu não sou tão odiado quanto você! E posso me defender muito bem, obrigado. – havia veneno em seu tom, assim como havia mágoa e melancolia, assim como sarcasmo.
Porque qualquer coisa era motivo para discussão. Nenhum deles parecia conseguir se livrar do orgulho para realmente ouvir o que o outro dizia. Nenhum deles conseguia se livrar da insegurança em deixar seus sentimentos serem revelados. E qualquer coisa abalaria um relacionamento tão instável e frágil.
Então, as brigas foram se tornando cada dia mais frequentes.
– Alfred, eu não admito esse tipo de palhaçada toda vez que eu venho visitar você! – Arthur reclamava, pelo o que parecia ser a milésima vez, a Alfred sobre a checagem ridícula e ultrajante a que ele era submetido para poder passar pelo aeroporto.
– Chama-se procedimento padrão, sua majestade. – havia uma ironia pesada e venenosa na reverência que ele fez a seguir. Alfred já estava em seu limite, pressionado e irritado. As constantes reclamações de Arthur não vinham em boa hora. — Qualquer um pode ser o inimigo, eles precisam fiscalizar. – seu tom foi mais sério, mas isso passou longe de tranquilizar o britânico.
– O que?! – a voz alteou e havia mágoa e choque na expressão do loirinho. — Eu represento o Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte! Eu nunca precisei de um passaporte, eu não preciso ter a minha bagagem revirada como se eu fosse um criminoso! – orgulho. Orgulho ostentado com dignidade de promotor.
– Eu não posso fazer nada quanto a isso! – o tom de Alfred se alterou também, dividido entre irritação e desespero.
– O quê?! Seu ingrato, eu praticamente te criei!
– Porra, quer parar de sempre trazer esse inferno de assunto?! – a voz de Alfred verdadeiramente quebrou enquanto ele gritava. Ele não aceitaria que Arthur voltasse com aquilo. Não. Ele lutou muito para ser mais que um irmão. Ele não podia suportar a dor que aquela ideia trazia. Sua irritação somou-se à mágoa. — Caralho, esquece isso! Deixa essa merda pra lá, inferno!
– Olha a porra do linguajar! – Arthur alteou ainda mais o tom, se algo assim ainda era possível. Alfred nunca aceitava suas lembranças. Alfred sempre fazia questão de demonstrar como aquelas memórias não valiam nada.
– E o quê?! Eu falo o que eu quiser, droga! – você não manda mais em mim. – E vê se não enche o saco.
– Encher o saco?! – então toda a sua preocupação era aquilo? Os seus esforços se resumiam àquilo? — Eu? Ah, claro, por que eu deveria esperar respeito e consideração? – seu riso foi amargo e ele desviou o olhar.
– Não seja dramático, é só uma checagem. – Alfred respirou fundo, desgastado com a situação, a discussão, o trabalho e as noites em claro. — Por que você está tão irritado? Se você não tem nada a esconder, não tem problema, certo? Ou será que você quer esconder alguma coisa? – a última parte fora desnecessária. Mas toda briga é, em parte, desnecessária.
– Eu não vou responder isso. – era isso, Alfred soube. Ele havia atingido Arthur e fora um estrago feio. O tom veio baixo, a mágoa finalmente se expressando mais do que o orgulho ferido. — Sinceramente, eu não preciso ficar ouvindo isso.
E, de fato, ele não ficou. Encontravam-se ocasionalmente, mas tudo revolvia acerca do orgulho, que precisava ser protegido; da política, que precisava ser discutida; das ofensas, que precisavam ser atiradas.
Mas para tudo existia um limite. E Arthur já havia atingido o seu há muito tempo. Honestamente, ele não suportava mais chorar, não suportava mais admitir o quanto as palavras de Alfred o atingiam. O desespero que se instaurara em si parecia cru e imensurável. Nem ele mesmo soube como conseguiu comparecer à reunião do dia seguinte.
Se bem que, depois, ele teria desejado que não tivesse comparecido.
– Não é isso, Alfred, mas eu não sei até onde essa sua guerra ao terror está certa. — disse, irritado e cansado. — Eu não sei por que eu estou me envolvendo nisso, aliás.
– Nós somos aliados, não somos? — ajudaria se Arthur agisse como se se importasse. Mas Arthur não era muito sincero com o que sentia e seu profissionalismo parecia muito mais descaso que qualquer outra coisa. — Special Relationship!
– Por que essa porra só funciona quando é conveniente para você?
– Ei, isso não é verdade. — o tom de Alfred baixou, um tanto ferido.
– É sim! – a voz de Arthur saiu em um fio, magoada. — É, inferno! – seus olhos claros marejaram, fazendo-o ficar irritado consigo mesmo. — Merda! Você sabe como os jornais chamam isso? Sabe do que me chamam?! – virou-se para encarar o garoto, torcendo para que as lágrimas não caíssem. No momento, de raiva, mas havia mágoa também.
– De quê...? — Alfred hesitou, porque tinha a impressão de que não queria saber.
– De seu cachorro. – foi um sussurro, quase insignificante perante o olhar magoado de Arthur. — O meu primeiro ministro é chamado de poodle do seu presidente.
– Olha, Arthur, não exagera, não é tão ruim-
– Exagero? – o tom do outro saiu ainda mais magoado e indignado. Ainda irritado, arremessou um jornal na direção do garoto. — Lê essa merda, aqui então. As pessoas do meu país acham isso também! Como você acha que eu me sinto? — sua voz tremeu, mas havia ainda fúria em seu olhar. Arthur Kirkland não era alguém que se humilharia e deixaria seus sentimentos à mostra.
– Eu... – Alfred engoliu em seco. Ok, era ruim. Mas Arthur não precisava gritar...
– Ah, sinceramente, eu não sei o que o meu governo está fazendo. – Arthur jogou-se de volta na cadeira da sala de reuniões, fechando os olhos e respirando fundo. — Eu não quero mais dessas intervenções militares. Sério, eu não tenho nada a ver com isso. Mas, nãão, o idiota aqui sempre vai quando o Alfred chama. Eu deveria ir embora e voltar para a isolação. Nunca estive tão bem quanto durante a minha isolação. — foi impensado o que ele disse.
– O quê? — havia tanto descaso na voz do outro que Alfred quase começou a chorar também. De raiva, talvez, mas de coração partido mais provavelmente. Ele achara... achara que o tempo que os dois passaram juntos fora o melhor de sua vida. Mas Arthur achava que estava melhor sozinho. O coração do garoto apertou quando ele percebeu-se sendo expulso da vida do outro. Doía. Bem, já dizia Augusto dos Anjos. "O homem, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera." Era essa a alma daquela discussão. Os dois estavam se machucando. E, a cada mágoa, rebatiam, ferindo o outro. — Já quer tirar o corpo fora? É isso que você chama de aliados?!
– Ahh, o que eu fiz? — Arthur agiu como se nem tivesse ouvido, apenas apoiando o queixo sobre uma das mãos e olhando para cima, exasperado. — Pelo doce nome da minha rainha, o que foi que eu fiz para merecer isso? Você era uma criança tão doce, quando foi que virou esse adolescente rebelado e boca-suja?
– Adolescente? Escuta, aqui, Inglaterra...
Mas Arthur não queria ouvir e não ouviu. Ele simplesmente cruzou os braços e olhou para o garoto, sem realmente enxergá-lo. As brigas eram tão constantes que não havia muita novidade em termos de insultos. Ambos já atiraram todo o tipo de palavras para atingir um ao outro. No entanto, Arthur se cansara. Nem ele sabia mais porque ele ainda tentava ter razão. Sério, importava? Ele já nem se sentia mais uma nação, por que ele estava fazendo aquilo? Por que ele ainda se sujeitava a escutar o que Alfred dizia? E Arthur sabia que palavras ditas na hora da raiva não necessariamente eram verdades, mas isso não o impedia de se sentir pior sobre si mesmo. Não impedia a porcaria da sua auto-estima ficar ainda pior, não impedia os sentimentos de auto depreciação. Mais do que isso. Crescia dentro de si um sentimento estranho. Ele sentia-se verdadeiramente esgotado. Sentia algo de agourento perseguindo-o. Como se...
– Arthur! Você está me ouvindo, velho estúpido?!
Notas finais
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Bom, esse capítulo citei os eventos históricos, mas o mais superficialmente possível. Afinal, ao contrário dos fatos históricos mais antigos, todos nós vimos esses anos acontecendo, então eu não precisei explicar o contexto, uma vez que todos viram xD Ahhh e sobre a questão do poodle. É sério oO Aconteceu mesmo. Enfim, não sei se vocês lembram, mas deram esse apelido pouco carinhoso ao primeiro ministro. xD É interessante também para eu poder ouvir a opinião de vocês sobre esse assunto, ainda sensível de tão recente. Apenas coloquei o ponto de vista pessoal dos personagens enquanto nações/indivíduos. Hm... Bem, esse foi um capítulo mais calmo. Espero não ter cansado vocês xD
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Bom, algumas observações técnicas. Sobre o capítulo passado, o que o Ivan fez realmente acontecia xD Era um comitê da kgb, com métodos bem inovadores como vocês comentaram nos reviews xD Outra coisa, às vezes, eu descrevo o cheiro do sangue como férrico, mas na verdade, seria ferroso, se fôssemos levar mais ao pé da letra. Férrico é para o íon ferro 3+, mas o ferro que tem na nossa hemoglobina é ferro 2+. Mas eu acho férrico uma palavra mais bonita kkkkkkkkkkkk xD Apenas dizendo para que ninguém aqui se confunda em alguma prova de química xD
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No mais... Como vocês bem percebem, voltamos ao presente o/ é, mas não posso dar spoilers xD Enfim, peço que não desistam dessa fic, tão longa e enfadonha xDD Por fim, mas não menos importante, agradecimentos super especiais a Labi< Jojo, Invisibleju, Bia, Mahchan, lirium, minha valente shirayuki e Cath o/ que, muito gentilmente, comentaram o capítulo passado. Beijo, beeeijo :DD
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