Boulevard Of Broken Dreams

11 Capítulo 11 - O Arcano 11, Parte II


Londres, o Alvo.


Acidentalmente, um dos aviões alemães deixou algumas bombas caírem sobre Londres. Londres era de pouca importância estratégica em si, mas era um símbolo nacional e ideológico muito importante. Isso gerou uma reação da Grã-Bretanha, que imediatamente mandou retaliação, enviando alguns poucos aviões para bombardear Berlin.


O chefe da Alemanha ficou completamente possesso. Era um insulto em última instância e ele não admitiria aquilo. As demais estratégias foram esquecidas. Só havia um objetivo agora.


Destroçar a capital da Inglaterra.



Foi assim que Arthur se viu sozinho, andando sobre uma rua muito deserta em Londres. As bombas haviam caído em armazéns de produtos químicos, bebidas e outros inflamáveis, transformando vários pedaços de Londres em infernos flamejantes.


O uniforme militar do britânico estava encharcado de sangue, dele e de outras pessoas. O céu noturno era puro chumbo, misturado em um vermelho doente. O cheiro de sangue e dos cadáveres o nauseava profundamente. A cada passo, ele conseguia sentir, ele sabia o que tinha acontecido. As pessoas morriam e o amaldiçoavam. O loirinho se encolheu e se abraçou, encostando em escombros do que um dia foi um prédio.


– Isso aqui só pode ser o inferno... – sussurrou consigo mesmo.


Ele se amparou na parede destruída e tentou se levantar, apesar da perna, que tinha um enorme estilhaço de vidro cravado na parte da coxa. Assim que ele arranjasse algum tempo, retiraria o vidro dali. Era muito difícil andar enquanto os pedacinhos de vidro entravam ainda mais fundo, mas Arthur não estava reclamando. Ele não ia desistir, ele não ia se render. Que fosse pro inferno o império britânico, mas ele não abaixaria a cabeça pra Alemanha.


– Talvez eu seja o único que ainda tem como lutar. – sussurrou, tentando se confortar.


Mas era mentira.


Na verdade, ele sabia que existiam mais países que poderiam salvá-los daquele pandemônio. Ele percebeu também, e isso doía, que Alfred sabia da guerra, sabia que ele estava morrendo, mas ele não viria. Doía, mas ele era grato por isso. Alfred podia tê-lo abandonado, podia ser um idiota que nunca o ouvia, podia até ter um lado sombrio. Mas... Arthur o queria bem. Mesmo sabendo que Alfred o amaldiçoava. Mesmo sabendo que o outro nem precisava dele.


Mesmo sabendo que ele talvez morresse sem ver outra vez aqueles olhos. Fazia tanto tempo que ele não os via. Ele só lembrava-se da cor, como se a figura de Alfred fosse ficando cada vez mais vaga com o passar dos anos. Mas Arthur tinha uma certeza na vida. Os olhos de Alfred eram azuis. Azuis como um céu que o britânico não tinha a chance de ver há muito tempo.



Arthur parou de andar por alguns instantes, fechando os olhos e tentando esquecer a dor do ferimento na perna. A cada passo, o estilhaço remexia e cortava ainda mais. Voltou a apoiar as costas na parede de um armazém destruído, os olhos fechando mais uma vez e tentando pensar em outra coisa.


Ah... Quando ele fechava os olhos, era para ver uma outra época. Em que ele tinha uma família. Ir para o Novo Mundo sempre fora um alívio para ele. Lá existia ele, Alfred e tantos e tantos dias cheios de sol. Era triste ter de voltar para casa. Ele deu um meio sorriso melancólico. A Europa era um pesadelo para ele. Ele experimentara dor o suficiente quando era criança e quando adulto nada mudou muito. Por Deus, ele só agradecia por ter ficado forte. Ele sentiu as lágrimas quentes lhe correrem a face e sufocou um soluço quando mais lembranças vieram.


Ele nunca se esqueceria de todas as vezes em que ... A humilhação e o desespero ainda eram tão recentes. Aquela agonia o visitava em pesadelos tantas vezes... O loirinho sacudiu a cabeça e enxugou as lágrimas rapidamente. Não estava acontecendo. Voltou a deixar mais lembranças invadirem sua mente confusa.


Um dia, ele conheceu Alfred. E ele acreditou que os dois estariam sempre juntos. Ele não se importava com questões políticas. Pela primeira vez, ele não era só a Inglaterra. Ele era Arthur Kirkland e ele, Arthur, gostava da companhia de Alfred. Ele o visitava, muitas vezes ferido de batalhas, muitas vezes agonizando em dor devido a algum conflito com outro navio pirata. Mas ele sorria, escondia o sangue e as lacerações e contava histórias para Alfred dormir. Só quando ele quebrava algum membro que Alfred percebia, mas Arthur mentia e dizia que não estava doendo, quando na verdade a dor era suficiente para cegá-lo. À noite, depois de certificar-se de que Alfred dormia, Arthur se embriagava até conseguir dormir.


Mas tudo isso valia a pena. Ele leu centenas de contos ao garoto, mostrou um pouco de tudo o que sabia. Ensinou-o a dançar... Há quanto tempo Arthur não ouvia uma música? Como antes? Eles tiveram tardes juntos, passeios no campo, porque Arthur não estava mais sozinho. Ou, ao menos, era o que ele achara. Alfred foi crescendo e passando a ficar cada vez mais distante dele. As lembranças daqueles dias foram sendo substituídas por outras. Aquela noite, naquele campo de batalha... Chovia e ele chorava sobre a terra, a mágoa chegava a doer. Ele ainda lembrava daquele dia em todos os seus detalhes. Lembrava-se de como acabara sozinho. Seus olhos esverdeados voltaram a fitar o chão à sua frente, naquele momento, no presente. Arthur estava sozinho de novo. Mas... Ele só sabia que não queria que o mais novo entrasse naquele inferno.


Arthur meramente fechou os olhos de novo, para encontrar Alfred em suas lembranças... Lá, ele sorria. Então lá, Arthur estava em paz.



Hey, is there any other way I can meet you? It's sad.
I don't want you to get hurt, even if it kills me... please.
Even if our fate gets engulfed into the sinking sea.

Ei, existe algum outro jeito para que eu possa encontrar você?

É triste...

Eu não quero que você se machuque, mesmo que isso me mate. Por favor...

Mesmo se o nosso destino seja engolfado

por esse oceano que afunda.


Estava frio.... Arthur sentia o corte em suas costas ardendo em contato com a superfície dura de concreto. Sua respiração era um pouco rasa. Seus olhos fitavam o chão abaixo de si, mas seus pensamentos não mais estavam ali. Ele olhou para o chão queimado e corrompido, que parecia prendê-lo àquela terra, mantendo-o cada vez mais distante do céu. Um meio sorriso abençoou suas feições por alguns segundos. Pelo menos o garoto não estava ali.


Porque talvez Alfred fosse livre como ele clamava ser. E o loirinho desejava que ao menos o seu Alfred pudesse continuar livre. No fundo, talvez ele fosse mesmo o que o americano tanto lhe acusava ser. Talvez Arthur fosse mesmo como uma prisão. Talvez ele fosse mesmo como uma masmorra, fria e assombrada. E ele quase sorriu de lado. Ele era mesmo uma masmorra. Feia e solitária, da qual ninguém queria se aproximar.


E mesmo assim, e ele não tinha a menor ideia de por que, ele pensava o tempo todo em alguém que era como o próprio vento.


Please, ride the winds and ring the daybreak's bell
I will protect you, my life I trade in for your pain
Stop the wars.


(Eu vou proteger você, minha vida eu troco pela sua dor

Pare a guerra)



Ele sabia que a culpa não era dele, não era de Ludwig nem de Kiku... Assim como ele, todos os outros estavam acorrentados à vontade de seus governantes, condenados a sofrer todas as consequências, muitas vezes incapazes de aguentar a própria consciência os açoitando. No final de tudo, era só mais sangue encharcando o solo europeu. E Arthur só conseguia odiar tudo isso. Ele não queria mais daquela dor, mais da melancolia ao ver tantos dos seus meninos mortos, mais daquele terror todos os dias. Ele queria voltar para casa.


Hey, why do people keep repeating their mistakes?
I loathe this blood, flowing in people who haven't made any progress.
Fighting each other with flames, in this land that belongs to no one.


(Ei, por que as pessoas continuar a repetir seus erros?

Eu desprezo esse sangue, correndo sobre todos nós, sem progresso

Lutando contra os outros com chamas, nessa terra que não pertence a ninguém.)


Londres estava quieta naquela altura da noite. Arthur passou por algumas ruas, ainda intocadas, adormecendo em paz naquela noite. Parecia uma fria e pacífica sepultura… Ele respirou mais aliviado. Sua capital estava segura, ele poderia descansar um pouco. O loirinho se desencostou da parede, meio cambaleante. Talvez ele conseguisse chegar a alguma instalação militar ou quem sabe até à sua casa... Seria bom. Quem sabe dormir alguns minutos?


Sirenes. O céu foi coberto por aviões alemães, em um ataque relâmpago. Dezenas de bombas foram jogadas sobre Londres e Arthur caiu no chão, segurando o próprio peito, sentindo-o incendiar junto com a cidade. A dor foi ficando insuportável e ele mal enxergou quando Ludwig apareceu à sua frente. Ele voltou seus olhos verdes, avermelhados por causa das lágrimas e da fumaça, na direção do alemão. E ele percebeu que Ludwig se odiava pelo o que ele faria agora. Ao mesmo tempo, ele não tinha como desobedecer. Ele fora ordenado a humilhar a Bretanha. E ele humilharia.


O menor foi jogado no chão, tendo imediatamente o uniforme rasgado, revelando muito sangue por cima de uma pele cor de leite. O alemão o virou de cara para o chão, não querendo olhá-lo nos olhos. Arthur sentiu o gosto da terra e do próprio sangue, nauseado pela visão de muitos corpos dilacerados pelas bombas. Outra explosão e no meio da gritaria, uma dor rasgou-o ao meio quando o alemão se enfiou dentro dele. Os gritos chorosos de Arthur foram abafados pelo som de prédios destruídos e bombas caindo.


A dor era insuportável. Tudo doía, sua capital estava indo abaixo, seu peito queimava, as pessoas gritavam na sua cabeça, o frio da noite lhe gelava até os ossos, o cheiro dos corpos o enjoava. Entre as lágrimas, ele viu uma flor solitária no chão. Decidiu por olhar para ela, tentando ignorar o que acontecia à sua volta. Tocou-a delicadamente, fascinado por sua ternura, entristecido por sua brevidade.


If a clear future comes, even flowers dwell in weapons.

My wish is over their airspace.

Someone, please wake me up from this nightmare

(E se um futuro claro vier, talvez flores morem em armas

Meu desejo paira sobre o espaço aéreo deles

Alguém, por favor me acorde desse sonho ruim)


Outra bomba e a flor perdeu suas pétalas. E Arthur se perguntava se ela estaria sofrendo como ele.

It this dream comes true,

My life I trade in for your pain

(Se este sonho se tornar verdade, minha vida eu troco pela sua dor.)


Então, repentino como veio, o ataque alemão se dispersou. Arthur sentiu sangue e algo viscoso descendo entre as suas pernas e sinceramente, se sentiu um lixo. Ele só podia se perguntar o que ele tinha feito para merecer aquilo. Ser a representação humana de uma nação era doloroso, era cruel. Ele era forçado a viver para sempre, aguentar os caprichos de cada governante, era forçado a conviver com memórias que ele queria esquecer. Perdido, o loirinho olhou um resto de construção, que tinha a imagem da Britania, com um leão ao lado. Ela parecia um anjo...


How much will I have to pray for it to reach the sky?

(Quanto eu devo rezar para alcançar o céu?)


Arthur juntou o resto de seu uniforme e vestiu-se como pôde. Encostou-se aos escombros e fechou os olhos. O dia começava a amanhecer e ele não conseguira dormir nada na noite passada. Ele só olhou para céu, percebendo-o começar a ficar azul. Azul como era o oceano, que parecia separá-lo do resto do mundo inteiro. Oceano onde Arthur experimentara a liberdade de um pirata. Ele imaginou o cheiro do mar e o balançar suave das ondas, levemente consolado em pensar que o sol também estava tocando a face do mar, assim como estava tocando a face dele. E ele teve esperança de que o céu amanheceria azul.


E por um breve momento, ele viu um pássaro solitário e assustado cruzar o céu, onde instantes antes estavam aviões alemães. Alfred amava pássaros. Arthur sorriu com melancolia. O americano quando criança, sempre dizia que queria ter asas. Mas que se ele tivesse asas, ele voaria e nunca mais voltaria.


Arthur olhou para cima e teve uma pontinha de esperança.


– Por favor... só um pouquinho de cor – implorou ele.

Mas o céu não estava nem um pouquinho azul quando amanheceu. Amanheceu um céu esbranquiçado, nublado. E a fumaça cinza roubava qualquer cor que aquele céu pensasse em ter.


Arthur continuou encostado à parede destruída. A manhã cinzenta só tornou os corpos mais fáceis de serem vistos. Por um lado ele sentiu orgulho do seu povo. Eles não desistiram. Por outro, ele sentia a dor deles. E, por isso, ele se culpava. Olhou os céus, mas realmente não haveria cor naquele dia.


Voltou a olhar para o chão. Era decididamente melhor ele parar de ficar sonhando ali. Respirou fundo e levantou-se, dando um gemido de dor estrangulado. Aquilo não era nada bom. Ele não fazia ideia de como cuidaria daqueles ferimentos. Sozinho provavelmente ele não iria conseguir. Sua melhor chance era procurar uma de suas instalações militares e o mais rápido possível.


O certo era pedir ajuda, uma vez que ele, obviamente não estava na menor condição de andar. Não apenas porque estava ferido, mas porque a sua cabeça estava uma confusão. Ele tremia, tinha vontade de simplesmente ficar ali e chorar, morto de nojo de tudo o que tinha acontecido, estava acontecendo. Mas Arthur era teimoso e orgulhoso. Levou horas, mas ele chegou, sem ajuda, ao quartel general mais próximo.


– Inglaterra, bom você ter chegado agora. – um dos seus oficiais ofereceu-lhe uma cadeira, ao que Arthur deu um suspiro frustrado. A última coisa que ele queria agora era ter que discutir assuntos de guerra. Lentamente, ele sentou-se e olhou seu oficial, levemente exasperado. Aparentemente, seu uniforme completamente despedaçado e o sangue que corria, assim como o próprio sêmen do alemão não eram problemas significativos.


– As nossas forças aéreas estão aproveitando esse tempo e se preparando para uma ofensiva melhorada. – Arthur franziu a testa. Não estava gostando do rumo da conversa. – Isso significa que com o sacrifício de Londres, a atenção dos alemães estará desviada por um tempo, que nós utilizaremos para preparar nossas forças, descansar nossos pilotos e contra-atacar.


O loirinho empalideceu.


– Vocês não me ordenariam isso.


– Sim, Inglaterra, é a nossa chance. Você vai ficar aqui e manter os alemães... ocupados. – e voltou a olhar para os seus relatórios.


Arthur levantou-se, cambaleando, querendo sair dali o mais rápido possível, as lágrimas formando no cantinho dos seus olhos. Ele andou pelos corredores, abrindo uma porta aleatória, qualquer lugar servia. Era um depósito, cheio de caixas, cujo conteúdo não despertara o mínimo interesse de Arthur. Ele simplesmente sentou-se no chão, atrás delas, as lágrimas agora correndo, uma atrás da outra. Ele abraçou os próprios joelhos e continuou a chorar muito baixinho. Arthur sabia que devia estar acostumado, sabia que não devia estar ali, chorando como um menino magoado. Mas também sabia que estava sozinho. Ninguém se interessava em saber onde ele estava, se estava bem. Então ninguém nem saberia daquilo. Naquele momento, a solidão de Arthur o confortou. Naquele momento, era um alívio estar finalmente sozinho.


O resto daquela batalha fora tão horrível quanto Arthur esperava que fosse.


Realmente, o sacrifício de Londres permitiu o contra-ataque britânico. A operação Leão Marinho foi suspensa indefinidamente. A Alemanha sofria a sua primeira derrota na Segunda Guerra Mundial.


Em 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética. Em julho, a URSS formou uma aliança com a Grã-Bretanha, que não mais lutava sozinha no fronte europeu, muito para o alívio de Arthur. Os Estados Unidos ainda não se envolvera, esperando que os alemães acabassem com a resistência soviética. Ignoraram os pedidos soviéticos para abrir um fronte na Europa. No entanto, na Batalha de Moscou, os alemães foram derrotados. O Japão reagiu ao bloqueio imposto pelos norte-americanos e atacou a base militar de Pearl Harbor, ao que os Estados Unidos responderam entrando na guerra do Pacífico. A reação soviética avançou e passou libertando os países próximos do domínio alemão. Isso viria a despertar o receio norte-americano, pois o comunismo ameaçava se espalhar pelo mundo. E comunistas não pagam dívida.


A Alemanha e a Itália declararam guerra aos Estados Unidos e os americanos entraram no conflito europeu. Formou-se mesmo a Grande Aliança, composta pela Grã-Bretanha, União Soviética e Estados Unidos.


Arthur nunca se esqueceria de quando viu Alfred entrando na ampla sala de reuniões. Altivo, parecia mais velho, ainda que tivesse em si algo de muito jovial. Seus cabelos estavam perfeitamente no lugar, a despeito de uma mecha rebelde, que o garoto nunca fizera questão de abaixar. Seus olhos estavam em um tom de azul médio e ele tinha uma expressão neutra, nada de mais, nada de menos. Ele decididamente estava muito bonito. Alfred tomou uma cadeira e sentou-se, seus olhos finalmente encontrando Arthur.


Então, alguma coisa na expressão dele mudou. Arthur não era o único que tinha sido afetado por um encontro depois de tanto tempo. O rosto de Alfred suavizou e ele tentou acenar displicentemente. Seus olhos clarearam algo em torno de dois tons, mas ele não parecia feliz em ver Arthur.


Porque ele realmente não estava. Alguma coisa em si doía muito quando ele observava a figura de Arthur. Mesmo de longe, Alfred conseguia perceber o quanto ele estava diferente. Por trás da voz firme com que ele participava da reunião, dava para perceber que ele tremia um pouco. Por trás da atitude autoritária, Alfred percebia como os olhos dele tinham mudado nesses anos todos. Eram alertas e pareciam constantemente assustados, como um coelho acuado. Por vezes, quando ele ficava em silêncio para ouvir os demais, Alfred percebia o rosto dele torcer em dor por alguns segundos. Os braços dele permaneciam cruzados, como se tentasse colocar uma distância permanente entre ele e o resto do mundo; mas, ao mesmo tempo, como se ele se abraçasse em busca de consolo.


Alfred não ouviu nada da reunião. Sua mente se ocupava simplesmente em obter o maior número de detalhes sobre o loirinho, saber como ele esteve em todos aqueles anos. Ele nem percebeu quando a reunião terminou. Os demais se levantaram e Arthur saiu também, andando com alguma dificuldade. Em alguns minutos, o garoto se levantou também.


As vozes em sua cabeça voltaram a falar com ele.



Aos poucos, ele voltou ao seu usual, acostumando-se à presença de Arthur. Os dois não conversavam muito, mas saíam para algumas missões juntos. Alfred voltou a ficar frio e distante, ao que Arthur fingiu não se importar. Magoava, mas não era algo que ele pudesse se queixar sem acabar brigando com o garoto. E, francamente, ele queria evitar aquele conflito.



Arthur recebeu ordens para checar uma área civil, ao que Alfred acabou acompanhando-o, por insistência de seus superiores. Aquele silêncio desagradável persistiu a caminhada inteira.


Os dois andavam lado a lado entre os escombros. Arthur caminhava muito silenciosamente, em passos leves, suas botas mal tocando o chão. Alfred fazia mais estardalhaço e seus passos eram a única coisa que quebravam o silêncio total. O céu estava recoberto de cinzas e fuligem, o que jogava uma enorme escuridão acinzentada sobre os dois.


Arthur parou de andar de repente. Alfred parou ao seu lado e tudo mergulhou no mais completo silêncio. O garoto olhou para o loirinho, reparando-o muito mais pálido que o usual.


– Inglaterra...? – chamou, impaciente.


– Eu preciso sair daqui. – murmurou ele, se apressando em direção a um galpão próximo.


– Por que? – perguntou Alfred, seguindo e observando-o como se ele tivesse ficado louco.


– Eu vou estar completamente inútil dentro de alguns minutos. – murmurou ele, muito sério, ainda que parecesse um pouco assustado.


– O que quer dizer? – insistiu o garoto, segurando-o pelo braço e franzindo a testa. Arthur se debateu, com pressa de sair dali. No entanto, o garoto recusou-se a soltá-lo, impaciente por ter não sido respondido.


– Eles estão vindo. – explicou Arthur brevemente. O garoto soltou-o.


– Quem?


A voz do garoto foi abafada por um barulho alto de um foguete cortando os céus. Alfred reconheceu o modelo V1, última arma dos alemães, que agora, já no fim da guerra, se vingavam ao destruir o máximo do território britânico possível. Houve uma explosão, ao que Arthur ofegou, dobrando-se sobre o próprio corpo. Meio desnorteado, ele entrou no galpão, seguido por Alfred, que o assistiu cambalear até um cantinho e se apoiar em uma parede. O loirinho fechou os olhos com força, uma mão segurando o lado esquerdo do próprio tronco. O garoto se aproximou, sobressaltando-se quando ouviu um prédio próximo desabar. Arthur fechou os olhos, escorregando até bater no chão, gemendo agoniado.


– Inglaterra...?


O loirinho abriu um dos olhos, tentando focar a visão enquanto sua respiração falhava. Houve outro estrondo lá fora e Arthur gritou de dor, jogando a cabeça para trás e voltando a fechar os olhos com força.


– Vai embora... – murmurou. Ele se dobrou sobre o próprio corpo, revirando-se torturado.


Alguma coisa pareceu disparar dentro do garoto. Como se por uma pequena falha no muro, sua consciência conseguisse falar com ele de novo. Seu coração acelerou, e, de repente, o garoto sentia tudo. Ele estava preocupado, ele estava com medo, a adrenalina subia, seu coração pulava dentro do peito e ele queria ajudar Arthur, ele o amava. Por Deus, como ele o amava...


– Arthur! – gritou Alfred, segurando-o pelos ombros, desesperado.


O loirinho abriu os olhos embaçados em choque. Há quanto tempo Alfred não o chamava pelo nome? Ele olhou no fundo dos olhos claros do garoto, reconhecendo alguém que ele não via há muito tempo. E era azul. Como no sonho que ele tivera há algum tempo atrás. Ah, fora um sonho tão bonito... Seus lábios se entreabriram em uma pálida tentativa de sorriso.


– Eu... – estremeceu, fechando os olhos e virando a cabeça para o lado, tentando conter outro gemido de dor. Respirando com dificuldade, abriu os olhos e fitou o garoto com carinho. – Eu estou bem. Só... – seu rosto torceu em agonia e ele apertou ainda mais o lado esquerdo de seu tronco. – Me dê um minuto... – murmurou, jogando a cabeça para trás e recostando-a na parede, seus olhos fechando e sua respiração rasa e difícil. Logo, sua mão sentiu algo quente fluir de seu flanco esquerdo. Seus olhos focaram vagamente os próprios dedos, que tentavam, inutilmente, conter a hemorragia. — Arthur, isso é sangue?! – gritou Alfred, olhando, horrorizado, a mão do loirinho tingindo-se de carmim. – Arthur!


O loirinho forçou-se a focar a visão, tentando entender o que o garoto dizia. Ele mais ou menos registrava aqueles olhos azuis sobre ele, tão preocupados, tão cheios de luz.


Alfred percebeu que o loirinho sentia muita dor e que apenas o fitava, desnorteado. O garoto sentiu a garganta trancar, seus dedos tremendo, o medo de perder o outro clareando sua consciência mais e mais. Houve um breve silêncio, ao que Arthur se apoiou na parede e se levantou. Quando conseguiu se por totalmente em pé, parou, encostando-se ao concreto, cada movimento parecendo muito doloroso. Alfred olhou para cima e encontrou os olhos muito verdes de Arthur fitando à frente com determinação. Sinceramente, o garoto o admirou. Pela fibra que ele demonstrava, pela coragem quase crua com que ele resistia. Alfred ergueu-se também e assistiu-o tomar impulso e desencostar da parede, andando vários passos, ainda apertando o ferimento em seu tronco.


No entanto, houve outro estrondo lá fora e Arthur estancou, se encolhendo e escondendo o lado ferido, fechando os olhos com força, um gemido choroso abandonando os seus lábios. Abriu um dos olhos, ofegando, e tentou dar outro passo. No entanto, seus joelhos cederam e seu corpo inclinou perigosamente e sem equilíbrio para frente. Ele fechou os olhos de novo, sabendo-se sem condição de reação, e esperou o seu rosto bater contra o chão.


Mas nada aconteceu.


No lugar do chão frio de concreto, ele encontrou o colo aquecido do garoto. Os braços dele envolveram o corpo pequeno de Arthur, aninhando-o contra o próprio peito e puxando-o para si. Com a maior delicadeza possível, Alfred sentou-se no chão, encostando-se à parede, com o loirinho em seu colo. Arthur apenas percebeu seu corpo frio ser envolto em um abraço incrivelmente quente.Alfred, agora com o outro em seus braços, conseguia sentir cada osso do tórax do loirinho, percebendo, com um aperto no coração, como ele estava magro. Muito mais pálido também, contrastando com a região escura abaixo de seus olhos verdes, denunciando algum tempo sem comer e sem conseguir dormir. Olhando mais de perto, ele conseguia ver a pele de Arthur levemente arroxeada em alguns pontos, o cansaço e a dor corrompendo o que costumava ser uma bochecha macia, coberta de uma pele cor de leite.


Alfred retirou as luvas que calçava, enojado com o cheiro de sangue nelas, tocando o rosto de Arthur com os dedos descobertos. Arthur sentiu um carinho muito suave sobre a sua bochecha, seguido de um abraço que o fez afundar o rosto no peito do garoto. De repente, seus sentidos foram tomados pelo cheiro de Alfred, pela suavidade com que ele tocava o seu rosto e com a firmeza com que ele o envolvia. O loirinho respirava com dificuldade, mas conseguiu dar um suspiro trêmulo, se aconchegando mais nos braços do outro.


Os minutos se passavam e Arthur mal se mantinha consciente, a dor suficiente para quase fazê-lo desmaiar. Seus olhos verdes olharam para cima, meio febris e perdidos, encontrando olhos muito azuis fitando-o. Tão verdadeiramente preocupados consigo, sinceramente atentos à dor estampada em seu rosto. O loirinho também o fitou com atenção. Alfred tinha um pouco de fuligem sobre o rosto e havia alguns cortes em sua bochecha, mas, de um modo geral, estava bem. Arthur sentiu o alívio inundar o próprio coração. Voltou a fechar os olhos, apoiando a cabeça no peito do garoto, sentindo-o apertá-lo ainda mais em seus braços. Estava tão quentinho. Arthur não se importaria se ele morresse bem ali, agonizando em um galpão esquecido, com uma guerra rugindo lá fora. A dor percorria cada centímetro do seu corpo e o sangue empapava o seu uniforme, no que muitos pensariam como uma morte dolorosa e indesejável. Era doloroso sim, mas Alfred o abraçava com suavidade e o ar estava preenchido pelo perfume dele. Arthur sentia a respiração do garoto movimentando seu tórax, embalando a semiconsciência do loirinho. Finalmente a sombra que se movia por trás daqueles olhos azuis parecia ter se esvaído e Alfred o fitava com carinho. O colo do garoto era aconchegante e as mãos dele o seguravam como se ele fosse algo muito importante.


E era quentinho. Aquilo o acalmava. Seria o que as pessoas chamam de afeição? Era algo assim a sensação de ser amado? Se fosse, Arthur achava que bem podia se acostumar a isso. Ele, sinceramente, não se importaria se tudo acabasse bem ali.



Houve outro estrondo lá fora e o loirinho gritou de dor, revirando-se no colo do garoto. A hemorragia se agravou e ele sentiu algo golpeando o outro lado do seu tronco. Sua mão agarrou o casaco de Alfred, apertando o tecido e afundando o rosto no peito dele. Alfred tomou a mão do loirinho, deixando-o apertar os seus dedos no lugar do casaco. Alguma coisa desabou lá fora e o loirinho gemeu agoniado, segurando a mão de Alfred com força.


– Shh... Vai ficar tudo bem, Arthur... – murmurou Alfred, beijando o topo da cabeça do loirinho, em seguida enxugando com a manga do próprio uniforme algumas lágrimas que se formavam no cantinho dos olhos verdes do outro. – Vai ficar tudo bem... – suas palavras foram sussurradas, porque sua voz falharia se ele tentasse falar alto. Simplesmente porque ele mentia. Ele não tinha a menor ideia se tudo ficaria bem. O mundo parecia desabar lá fora e Arthur estava ferido e exausto. Alfred não sabia o que fazer, então apenas segurou o loirinho com força, ouvindo-o respirar fracamente.


Arthur sentiu algo muito suave tocar o topo da sua cabeça. Ele não entendeu o beijo sobre sua cabeça, mas seu coração se aqueceu estranhamente. A dor ainda o desnorteava e ele lutava para se manter consciente. Alfred fazia o melhor que podia para oferecer calor a ele, que estremecia de frio. Por vezes, o garoto murmurava palavras suaves e apertava a sua mão.


Quando o barulho lá fora se tornou ensurdecedor, Arthur se encolheu, estremecendo. Algumas partes do galpão ruíram. Embora a dor não fosse novidade, os estrondos ainda o assustavam. O loirinho fez o seu melhor para não gritar, tentando não se sobressaltar a cada nova explosão, tentando não tremer, apesar de assustado. Alfred percebeu e se dobrou sobre ele, abraçando-o e envolvendo quase inteiramente. Escondeu o rosto do loirinho em seu peito, procurando abafar o som.


Arthur segurou a mão de Alfred com força, respirando aliviado quando o garoto o envolveu e os estrondos se tornaram mais baixos. Tentou se concentrar no ritmo da respiração do garoto, deixando que o perfume dele dominasse os seus sentidos, acalmando-o. Sua respiração ainda era rasa e parecia muito difícil; mas, dentro de alguns minutos, Arthur parou de tremer.


No entanto, seus olhos encheram de lágrimas e ele soluçou contra o uniforme de Alfred. Sentiu-o abraçando com mais força, os dedos dele afundando em seus cabelos. Arthur continuou a chorar em silêncio, sem conseguir conter as lágrimas que transbordavam. Não era a dor. Ele estava simplesmente tão aliviado de não estar passando por tudo aquilo sozinho. Tão feliz por ser Alfred a estar ali com ele, segurando a sua mão como se eles nunca tivessem se separado.



Naquele instante, embora a dor o crucificasse, Arthur desejou que aquele momento durasse para sempre.


Notas finais
Olá, gente! :) Enfim, atendendo à pedidos, estou tentando cortar algumas partes para terminar logo as lembranças. Mas, como vocês podem ver, tem alguns trechos essenciais. Afinal, eu ainda preciso explicar como o Arthur acabou se apaixonando. Mas estou pulando trechos razoáveis já, pulei o longo século XIX quase todo xD Na verdade, esse capítulo demorou porque eu estava tentando tirar umas partes, pra não ficar muito grande. Ainda assim, esse trecho vai ser comprido e esse capitulo provavelmente terá parte III...
Cortei algumas partes do Alfred e um tanto de contexto histórico, alias.
Enfim, a música do capítulo é Daybreak's bell- L'arc~en~ciel o/
E sim, os foguetes V1 e V2 existiram mesmo. O V é de vingança em alemão mesmo xD Ficaram conhecidos como foguetes da morte.
Eu irei responder seus amáveis comentários agora mesmo ( só resolvi trabalhar no capítulo pra não enrolar mais vocês.) Muito obrigada mesmo! Beiijo :)