Boulevard Of Broken Dreams

12 Capítulo 12 - O arcano 11, parte III


Notas iniciais
E eu dedico esse capítulo para as pessoas maravilhosas que recomendaram essa historia TT-TT (quase tive um avc quando vi xD) Susipoleta e InvisibleJu, beijo para as senhoritas *beijo* E vamos ao capítulo, depois eu explico o resto nas notas finais o/ Leiam com calma que esse capítulo é meio cheio de detalhes e meio grande.. Sem pressa, vou ver se atraso o próximo, ok?


Arthur segurou a mão de Alfred com força, respirando aliviado quando o garoto o envolveu e os estrondos se tornaram mais baixos. Tentou se concentrar no ritmo da respiração do garoto, deixando que o perfume dele dominasse os seus sentidos, acalmando-o. Sua respiração ainda era rasa e parecia muito difícil; mas, dentro de alguns minutos, Arthur parou de tremer.

No entanto, seus olhos encheram de lágrimas e ele soluçou contra o uniforme de Alfred. Sentiu-o abraçando com mais força, os dedos dele afundando em seus cabelos. Arthur continuou a chorar em silêncio, sem conseguir conter as lágrimas que transbordavam. Não era a dor. Ele estava simplesmente tão aliviado de não estar passando por tudo aquilo sozinho. Tão feliz por ser Alfred a estar ali com ele, segurando a sua mão como se eles nunca tivessem se separado.

Naquele instante, embora a dor o crucificasse, Arthur desejou que aquele momento durasse para sempre.

Eles permaneceram daquele jeito por alguns minutos. Arthur não soltou a mão de Alfred, apertando-a com força quando a dor era particularmente difícil de suportar. O garoto retribuía o aperto gentilmente e, com a outra mão, fazia Arthur se esconder melhor em seu abraço, tentando protegê-lo dos sons violentos que preenchiam o ar.

Ninguém soube ao certo quanto tempo se passou. Podiam ter sido meros dez minutos como podia ter sido uma vida inteira. O fato é que quando finalmente houve silêncio, os dois esperaram, com a respiração suspensa, outra explosão. O silêncio se arrastou e nada aconteceu. Arthur procurou normalizar o ritmo com que respirava, tentando ao máximo se manter alerta, cada centímetro de seu corpo tenso. Os minutos se arrastaram e nada aconteceu. Arthur encontrou cada vez mais dificuldade em se manter consciente. Alfred passara a fazer carinho gentilmente em seus cabelos e a mover-se lentamente para frente e para trás, embalando-o. Aos poucos, o corpo de Arthur relaxou e sua visão desfocou. Ele se sentia tão seguro. Como se estivesse tudo bem se ele dormisse alguns minutos. Ao mesmo tempo, por um instante, ele não quis dormir, apesar de esse ter sido seu desejo nos últimos dias. Era tão aconchegante estar ali, parecia tão seguro. E ele não se sentia bem ou seguro há muito tempo. Ele queria ficar acordado para continuar sentindo o carinho que Alfred fazia nos seus cabelos, perto da nuca, que o deixava estranhamente mais calmo. Queria ficar acordado para sentir, nem que fosse só mais um pouquinho, como era ter alguém ao seu lado quando ele mais precisava. Porque, quando acordasse, poderia descobrir que nada daquilo era real. E ele não queria deixar um dos poucos momentos em que se lembrava de ter estado realmente feliz. Queria continuar sentindo a mão de Alfred na sua. O abraço dele. Só mais um instante. Só mais um pouquinho...

Alfred sentiu o aperto em sua mão enfraquecer e a mão do loirinho escorregar por entre os seus dedos. Quando olhou para o rosto de Arthur, percebeu que ele havia perdido a consciência, exausto pela dor e enfraquecido pela perda de sangue. Os dedos de Alfred tocaram a face do loirinho e afastaram a franja suada da testa dele. Suas mãos tremeram e ele já começava a perceber a própria lucidez se esvaindo. Ele não conseguiria ficar por muito mais tempo. Aquela sua faceta gentil era muito, muito fraca em comparação ao maníaco que ele alimentara durante todos aqueles anos. Alfred já conseguia ouvir uma voz, que ficava cada vez mais alta, tentando-o a enforcar Arthur enquanto ele dormia. Suas mãos tocaram o pescoço delicado do britânico e seus dedos começaram a apertar. Não havia quase nada da sua consciência ali, mas o garoto conseguiu soltá-lo. Sua vontade era degolar o outro, a loucura tomando todos os seus sentidos.

Mas ele nada fez. O seu amor por Arthur acabou por impedir que ele cometesse um crime que condenaria a sua alma.

– Eu sinto muito. – murmurou o garoto, depositando um beijo devoto sobre a testa de Arthur, deixando-o encostado na parede. Alfred se levantou, jogando seu casaco quente sobre o corpo do outro e se afastando. Andou de costas, seus olhos relutando em deixar a figura encolhida e ferida de Arthur.

– Eu sinto muito... – sussurrou de novo, correndo e se afastando o mais rápido possível.



Arthur acordou poucos minutos depois com um estardalhaço de pessoas adentrando o galpão. Seus olhos esverdeados abriram fracamente e ele olhou em volta. Então, sobressaltou-se, acordando completamente alerta. Alfred não estava mais lá. Seu coração pulava em seu peito, assustado, e seus olhos o procuraram em vão. Será que Alfred estivera lá mesmo? Podia ter sido só um delírio seu em meio à dor física. A ideia o magoou profundamente. Ele quase podia chorar.

Mas então, ele se mexeu e algo escorregou de cima de si. Seus olhos esverdeados acompanharam, mas o loirinho não tinha certeza se deveria acreditar. Era o casaco de Alfred. Seus dedos seguraram a peça, sentindo a textura aveludada da superfície e acetinada do forro da parte de dentro.

O barulho de passos aumentou e Arthur olhou para cima, encontrando alguns de seus oficiais. Um deles o pegou e jogou sobre o ombro, tirando-o apressadamente dali. Arthur sibilou quando sentiu o ferimento no flanco esquerdo se chocando contra o ombro do oficial. Seus dedos apertaram o casaco em suas mãos com mais força.

Os oficiais o levaram até um hospital desativado próximo, onde eles poderiam tratar rapidamente dos ferimentos de Arthur. Arthur mal entendia a confusão de pessoas falando, seu corpo realmente doendo com cada passo brusco do oficial, sua mente sem conseguir acompanhar o que acontecia. Sentiu-se ser colocado sobre uma cama, as pessoas à sua volta fazendo muito barulho, algo metálico batendo, gavetas sendo abertas. Seu uniforme foi retirado às pressas e alguém pressionou um pano úmido contra o seu tronco, fazendo tudo arder como se alguém tivesse ateado fogo nele. Ele gemeu dolorido, ainda desnorteado demais para falar alguma coisa. Algumas lágrimas se formaram em seus olhos, mas ele as conteve. Logo, seu tronco foi enfaixado, apertando seus ferimentos. Alguns minutos depois, as pessoas finalmente saíram e Arthur suspirou aliviado com o silêncio que se seguiu.

Inclinou-se para o lado, ainda que seu rosto torcesse em dor diante do movimento. Seus dedos trouxeram o casaco de Alfred para o seu colo e ele sentiu o coração palpitar com as lembranças de algumas horas antes. Ele quase podia sentir os braços do outro em volta de si; a voz dele sussurrando palavras muito suaves, que Arthur não conseguia entender; o corpo dele protegendo-o daquele estardalhaço violento lá fora que tanto o assustava. E quando Arthur acordara, fora para encontrar o casaco do garoto sobre si. Mesmo agora, ele podia sentir o perfume do garoto. Seu coração disparou.

– O que é isso...? – murmurou o loirinho, confuso, pousando uma mão sobre o próprio peito, sentindo o coração pular lá dentro. Havia uma sensação esquisitíssima que o percorreu. Era uma espécie de euforia, somada à sensação de que tinha gelo na boca de seu estômago. Ele teve vontade de sorrir tolamente.

Que sentimento era aquele? Arthur não sabia. Mas ninguém poderia culpá-lo por não saber. Porque era quase improvável. Porque quisera o destino que Arthur descobrisse algo delicado e criado pelos Céus como o amor em meio a um dos piores infernos que os homens inventaram.

Em alguns minutos, a euforia passou, deixando seu peito levemente aquecido. Arthur escolheu se cobrir com o casaco do garoto, que era notoriamente grande demais para vestir. Alfred não era tão mais alto, mas tinha os ombros bem mais largos, o que deixava a peça muito desajustada para Arthur. O tecido cobriu seus ombros nus, assim como seu tronco, até pouco abaixo do quadril.

Aquilo acalentava a sua dor, mas não era a mesma coisa de ter Alfred ali consigo. Arthur virou-se, seus olhos fitando o teto, de um branco já meio acinzentado. Havia poucas luzes acesas no corredor, a maioria queimada. Seu quarto era meio iluminado pela luz no corredor, parca e fria. Ele estava exausto, mas não conseguia dormir. O silêncio era total e o prédio estava deserto. Os minutos se arrastaram e logo se tornaram horas. No entanto, Arthur ainda não conseguira dormir. Nervoso demais, assustado demais para isso, milhares de pensamentos distraindo-o.

Alguns instantes depois, no entanto, o loirinho sentiu um arrepio agourento percorrendo o seu corpo e seus olhos verdes arregalaram.

– Meus meninos... – murmurou, com o coração apertado, levantando-se bruscamente da cama. Ele sabia, ele sentia, ia acontecer. Iam atingir uma área civil. Suas crianças... Ele se apoiou na beira da cama e obrigou-se a andar até a porta, seu corpo ainda ardendo com os ferimentos anteriores. Seus dedos tocaram a maçaneta, mas foi tarde. Ele sentiu um golpe, pouco acima de seu peito, que o fez gritar, o som ecoando pela construção vazia. Ele se apoiou na porta, sentindo-se começar a tossir. Sua boca foi corrompida com um gosto férrico e a porta à sua frente manchou de sangue. Lentamente, seu corpo fraquejou e ele bateu o rosto contra a madeira, escorregando até bater no chão. Seu corpo tombou meio de lado e sua cabeça bateu no chão com força, reabrindo o ferimento que ele tinha ali.

– Frio... – murmurou ele, a pele nua de seus ombros e do final de seu tronco chocando-se contra o piso gelado do quarto de hospital. Ele se encolheu. Só queria não ter deixado o casaco de Alfred na cama...



Ele é só um Império decadente, garoto. O que você quer com ele?

– Eu amo ele... – murmurou Alfred em um fio de voz, escondendo o rosto entre os braços.

Tem certeza? Você queria matá-lo. Lembra?

N-não! Eu não queria... – seus olhos encheram de lágrimas. Por que era tão confuso? Quanto mais ele fazia o que aquelas vozes queriam, mais altas elas ficavam.

Ele deve ter morrido.

– Não. Ele não faria isso comigo... – murmurou o garoto. Mimado como sempre, mas nunca cruel. Alfred não entendia. Ele não sabia separar quem ele era de o que o seu país era. Ele não entendia porque ele sempre afastava Arthur, quando o que mais queria era tê-lo perto.

Claro que deve estar morto. Você o largou lá sozinho.

O garoto engoliu em seco. Não deveria ter feito aquilo. E se...

Houve um estrondo da cadeira em que ele sentava caindo no chão e uma porta batendo. Ele precisava encontrar Arthur. Podia ser que ainda houvesse tempo.

Ele correu pelas ruas escuras de uma cidade que já experimentava o frio congelante da noite. Devia ser algo em torno de oito horas da noite. Sua respiração condensava à sua frente enquanto ele corria o mais rápido que podia. Alguém gritava na sua cabeça, mas ele não tinha tempo para isso. Na sua cabeça, existia Arthur e existia o fato de que ele talvez precisasse de Alfred. E isso era muito mais que o suficiente.

Mas quando o garoto retornou ao galpão, não havia mais ninguém ali. Havia apenas algumas manchas do sangue de Arthur, mas o loirinho em si não estava ali. Alfred correu até o quartel britânico mais próximo e exigiu saber onde Arthur estava. Depois de muita discussão e ameaças, ele saiu de lá com um endereço em mãos, até onde ele se dirigiu o mais rápido possível.

Quando finalmente chegou ao endereço, tentou ignorar o medo que percorreu os seus ossos. A fachada do hospital estava quebrada em muitos pontos e algumas janelas estavam sujas e estilhaçadas. A construção se erguia entre os demais prédios, com seu branco corrompido e seu interior no mais completo escuro. Havia apenas alguns pontos em que a iluminação ainda funcionava, mas, mesmo nesses pontos, a luz piscava e ameaçava queimar. O garoto respirou fundo e entrou.

Alfred passou pela recepção vazia, seus passos ecoando pelo piso frio de pedra, rompendo o silêncio mórbido e absoluto que jazia ali. Sua respiração tremia. Ele andou pelos corredores vazios. As poucas luzes acesas iluminavam muito fracamente. Muitas piscavam e queimavam pelo caminho. Seus olhos claros procuravam com desespero o quarto de Arthur. Nenhum dos oficiais lhe contou o estado dele e ele não encontrara tempo para perguntar. Ele não queria apenas saber, ele queria ver o loirinho, com seus próprios olhos, e assegurar-se que ele estava mesmo bem.

Em alguns minutos de agonia, ele percebeu que não era aquele andar. Nenhum dos quartos estava em mínima condição de ser utilizado. Alfred subiu algumas escadarias no mais completo breu, tropeçando várias vezes.

Finalmente, ele encontrou o corredor certo. A luz só existia no começo do corredor. O resto era o mais completo abandono. Andou apressado, parando em frente a um dos últimos quartos da ala. Seus dedos encontraram a maçaneta, que cintilava um pouco sob a luz muito longínqua do começo do corredor. Então, sua mão fechou em torno da maçaneta e ele empurrou a porta gentilmente.

Mas ela não abriu.

Em pânico, o garoto empurrou-a com força, sentindo algo pesado sendo arrastado para fora do caminho. Ele andou em direção ao centro do quarto, seus olhos acostumados a pouca luz agora, encontrando e pegando o próprio casaco sobre a cama. Mas nada de Arthur. Resolveu olhar no quarto ao lado. Talvez ele tivesse se enganado...

Seus pés refizeram o caminho até a porta, ainda fitando o próprio casaco em suas mãos. No entanto, ao chegar próximo à saída, seus pés bateram contra algo pesado jogado no chão. Seus olhos azuis lentamente se fixaram na figura largada sobre o piso gelado. Seu coração parou de bater por um segundo inteiro.

Era Arthur.

O corpo dele não era mais que um pequeno montinho, que respirava quase que imperceptivelmente. Alfred olhou, horrorizado, para uma mancha de sangue que fazia um rastro até o tronco ferido de Arthur. Subitamente, entendeu o que era o objeto pesado que fora arrastado para fora do caminho. Cuidadosamente, o garoto agachou ao lado de Arthur, com o intuito de levar seu corpo inconsciente até a cama.

Mas, ao chegar perto, ele percebeu, chocado, que Arthur estava acordado. Seus olhos verdes fitavam à frente sem foco, como se ele já tivesse desistido de sentir dor. Na verdade, ele poderia estar morto, se não fosse um tímido oscilar de seu tórax. Alfred tocou o rosto dele, percebendo-o frio demais.

– Arthur? – chamou, pouca coisa acima de um sussurro. Aqueles olhos esverdeados se voltaram e o fitaram vagamente.

De repente, Alfred entendeu. O loirinho estava bem mais ferido do que antes. Devia ter havido outro ataque e, conhecendo o outro, ele deve ter entrado em pânico e tentado avisar alguém que pudesse salvar ao menos algumas de suas crianças. No entanto, ele provavelmente não tivera tempo para isso e acabara golpeado enquanto tentava sair do quarto. E não conseguira levantar. Mesmo agora, o loirinho não respondia.

– Arthur. – chamou Alfred mais alto, a preocupação crescendo a cada segundo que se arrastava. – Arthur, fala comigo!

– Alfred? – foi tão baixo que o garoto apenas percebeu os lábios dele se movendo. O loirinho se encolheu mais. Alguém falava consigo e soava como Alfred. Arthur articulou a primeira coisa que lhe passou pela cabeça. – Está frio... – murmurou finalmente.

O garoto enfim conseguiu reagir, segurando o outro pelos ombros, erguendo-o na altura de seus olhos, fazendo-o ajoelhar para olhá-lo no rosto. Seus dedos conseguiam sentir o quão frio estava o corpo do loirinho. Alfred o trouxe para perto, abraçando-o, envolvendo a figura pequena dele. Arthur estremeceu diante do calor repentino, tentando se manter ajoelhado, cada centímetro do seu corpo protestando contra a ideia.

Alfred se afastou um pouco, fitando o rosto do outro.

– Arthur, olha pra mim... – pediu, sustentando o corpo do loirinho, percebendo a cabeça dele pendendo para frente. Sem resposta. Alfred percebeu os olhos dele perdendo foco de novo e a face dele mais pálida a cada segundo. O garoto levantou o rosto dele pelo queixo, logo depois sustentando a face dele com as duas mãos. Seus dedos, no entanto, sentiram um líquido meio denso empapando os cabelos claros do loirinho.

– O que... – seus olhos azuis se arregalaram ao fitarem os próprios dedos manchados de sangue. – Arthur, olha pra mim. – murmurou, dando pequenos tapas na face dele, tentando fazê-lo reganhar os sentidos. Em alguns minutos, os olhos dele focaram um pouco mais e ele fitou o garoto.

– Arthur, olha pra mim. – pediu, sustentando o corpo dele o melhor possível, olhando nos olhos dele. Sua garganta pareceu dar um nó e sua voz saiu um pouco chorosa. – Arthur, por favor. Você não vai morrer assim, vai?

– Eu... – o loirinho respondeu em um meio sussurro, tentando acompanhar o que o outro dizia e formular uma resposta. Sua cabeça doía... – Eu não sei... Está tão frio. Eu estou cansado... – murmurou, fechando os olhos.

– Arthur! Arthur, fala comigo! – suas mãos agarraram os ombros dele, sacudindo. E se ele perdesse a consciência agora e acabasse em coma? – Arthur! — O loirinho, no entanto, não respondia. Alfred olhou em volta, tentando encontrar alguma coisa que pudesse ajudar. Mas não parecia haver nada por perto e ele estava relutando em deixar Arthur e ir procurar mais longe. Sem saída, passou a pressionar delicadamente, mas com firmeza, o ferimento na cabeça de Arthur, tentando ao menos estancar o sangue. Seu outro braço circundou a cintura dele fazendo-o repousar a cabeça sobre o seu ombro.

Aos poucos, o sangue pareceu fluir em uma quantidade progressivamente menor, até praticamente parar. Alfred limpou a mão na calça, para não tocar o rosto do outro e manchá-lo.

– Arthur? – chamou baixinho, desvencilhando-o de seus braços para segurar sua face entre as mãos. Viu-se fitado por olhos esverdeados mais atentos. Aliviado, voltou a abraçá-lo, dando um suspiro trêmulo e sentindo-o tentar se aninhar melhor.

– Por que? – murmurou o loirinho fracamente. Por que agora? Por que Alfred não o tinha procurado antes? Por que por vezes ele era tão cruel e por vezes tão gentil? Tudo era muito confuso e sua cabeça latejava.

– Eu.. sinto muito. – murmurou o garoto simplesmente, afundando os dedos nos cabelos de Arthur, tomando cuidado para não tocar no ferimento. Por alguns minutos, ele apenas brincou com os fios, Para então se afastar e olhar, triste, para os olhos do outro. – Eu queria que você pudesse me salvar. – confessou, seus dedos ajeitando uma mecha de Arthur para trás da orelha dele. – Eu queria que eu vivesse em um país pacífico, e você também. – confessou, muito, muito baixinho. Era possivelmente um dos seus maiores segredos. Embora ele soubesse que talvez não fosse um desejo possível, era um sonho que ainda persistia nele. Ele se perdeu naqueles pensamentos por alguns minutos, antes de rir um pouco. – Do que que eu to falando? – seu riso morreu e tornou-se só um sorriso leve. – Você precisa descansar. – murmurou, tocando a face exausta do outro.

Arthur queria dizer que sonhava com tudo aquilo também. Queria dizer o quanto ele desejava que Alfred nunca mais lhe mostrasse aquela face cruel dele. Queria lhe contar que estava feliz por tê-lo ali, consigo. Mas ele não encontrou palavras para isso. Ele nunca soube falar sobre como se sentia. Seus lábios tremiam de frio.

Alfred percebeu e envolveu a pele nua do tronco de Arthur com o seu casaco. Com certa pressa em tirá-lo do chão, pegou-o rapidamente no colo. No entanto, quando se pôs em pé e o tronco de Arthur dobrou-se, ele deu um grito choroso e Alfred assistiu, horrorizado, as bandagens no flanco direito dele se tingindo de sangue.

– Desculpa, Arthur. – murmurou, continuando a andar, apesar de isso torturar o pequeno em seu colo. No entanto, era melhor que deixá-lo no chão para congelar. Os poucos passos que o separavam do leito pareciam uma distância enorme quando cada leve sacudir causava tanta dor ao outro.

O mais delicadamente que podia, Alfred o colocou na cama, cobrindo-o com os lençóis ralos. Arthur trancara a mandíbula, ofegando, tentando ignorar a dor. O garoto cobriu-o com o casaco, observando-o ficar menos tenso. Os olhos esverdeados dele se fixaram, alertas, nos seus. Ele parecia extremamente cansado, mas pouco disposto a adormecer.

– Você precisa dormir agora... – murmurou Alfred tirando a franja dele da frente de seus olhos.

– Não consigo. – confessou Arthur dando um suspiro derrotado. Ele não conseguia parar de pensar, impedir-se de ficar assustado a cada mínimo ruído, imaginando se era ou não o prenúncio de outro ataque, de mais dor, de mais sangue.

– Há quanto tempo você não dorme? – murmurou o garoto, preocupado, seus dedos tocando o rosto de Arthur, então retirando-os.

– Eu não sei... – murmurou o loirinho de volta, apertando os olhos entre o indicador e o polegar. – Uma semana ou mais, eu não tenho certeza.

Alfred segurou a mão de Arthur, impedindo-o de apertar ainda mais os olhos para se manter atento. – Você precisa pelo menos tentar.

– Mas e se... Alfred, e se...! – seus olhos verdes estremeceram e ele não terminou a frase. Alfred via o que ele não queria dizer. Ele estava preocupado com aquela guerra, que se arrastava há anos e matava cada vez mais das suas crianças. Ele era corajoso e lutava o melhor que podia, mas estava assustado. E se houvesse outro ataque? E se eles perdessem? Arthur escondeu o rosto com os braços. E se quando ele acordasse, Alfred tivesse ido embora?

Alfred tirou os braços de Arthur da frente do rosto dele e segurou-os dos dois lados da cabeça do loirinho. Seus dedos entrelaçaram com os de Arthur, que o fitou, surpreso. Alfred tinha se inclinado sobre ele e a franja do garoto caía um pouco, aqueles olhos claros dele fitando-o, a mão dele na sua... Arthur sentiu o coração disparar. O garoto soltou uma de suas mãos e deitou ao seu lado na cama. Virando-se de lado, ele tocou o rosto do loirinho.

– Nada vai acontecer, Arthur. Eu vou ficar aqui... – murmurou, seus olhos azuis cintilando à meia-luz delicadamente. Seus braços circundaram Arthur, que afundou o rosto no uniforme do garoto.

– Mas, Alfred... – murmurou, incerto.

– Shh... — seus dedos afundaram nos cabelos macios de Arthur, fazendo um carinho leve e delicado. – Tá tudo bem.

– Ei, Alfred... – chamou Arthur, baixinho, com a voz meio abafada, já que ele ainda mantinha o rosto contra o peito do outro. – Eu estou com medo... – admitiu, finalmente, sentindo um peso enorme sendo tirado das suas costas. O garoto o apertou mais entre os braços, com uma pontada no coração.

– Não seja bobo, Arthur... – murmurou, beijando o topo da cabeça do loirinho. Afastou-se alguns centímetros e olhou nos olhos verdes do outro.- Eu estou aqui, sabia...? – começou, seus dedos ainda nos cabelos do outro. – Você não precisa ter medo. – voltou a abraçá-lo apertado, fechando os olhos, ignorando o fato de que ele mesmo estava morto de medo. – Você pode dormir... – murmurou, suas mãos largas fazendo carinho perto da nuca do outro, seus dedos enlaçando os fios claros.

Arthur sentiu seus olhos fecharem, como se... Como se estivesse tudo bem, só porque o garoto dissera que estava. Alfred o abraçava e parecia que só aquilo era capaz de protegê-lo de um mundo que ruía lá fora. O corpo dele era maior e mais quente e Arthur tinha a estranha sensação de que era muito certo o jeito como os dois estavam entrelaçados. As mãos de Alfred brincavam lentamente com os seus cabelos, como se sussurrassem pequenos encantos, que, pouco a pouco, deixavam-no com mais e mais sono.

Finalmente, a exaustão o venceu e Arthur adormeceu, seus braços em volta da cintura de Alfred. O garoto sorriu. Seu polegar acariciou a face adormecida do loirinho e seu coração bateu um pouco mais depressa. Finalmente Arthur dormia. Finalmente ele encontrara algum descanso em meio a tanta dor.

Alfred continuou a brincar com seus cabelos, tomando cuidado para não tocar no ferimento de Arthur. Ele respirava quase que imperceptivelmente e seu coração batia fracamente contra o peito do garoto. Alfred o abraçou mais apertado, fechando os olhos e respirando fundo.

– Senti sua falta... – murmurou contra os cabelos dele, muito baixo para não acordá-lo de seu mais que merecido descanso. Agora ele percebia o quanto Arthur fazia falta. Faltava o cheiro dele, o rosto dele, aqueles olhos tão verdes, tão vivos... Não tão vívidos naqueles últimos tempos, no entanto. Arthur parecia constantemente acuado e Alfred não entendia ao certo porquê. As marcas que o alemão deixara no loirinho já não eram mais visíveis, então Alfred nunca soube. As marcas que restaram existiam apenas no coração de Arthur. Então, o garoto nunca soube o que havia de errado.

O coração de Alfred voltou a apertar quando percebeu Arthur se esconder ainda mais em seu abraço, estremecendo, seu rosto torcendo em dor mesmo quando ele dormia. Ele se revirou e remexeu, acabando por acordar, assustado, de um sono que durou poucos minutos. Seus olhos verdes abriram novamente, cintilando em lágrimas que ele não queria derramar, vasculhando à sua volta.

Então, deu um suspiro baixo ao perceber que Alfred ainda estava ali. Abraçou-o com um pouco mais de força, ainda confuso com a dor e o cansaço.

–Shhh.... Volta a dormir, Arthur... – murmurou o garoto, suas mãos cobrindo os olhos do outro, tentando suavizar a expressão no rosto dele. – Eu vou ficar aqui... – murmurou, afastando a mão e espalhando beijos sobre o rosto de Arthur, tentando consolá-lo da dor. Os olhos verdes dele fechavam brevemente a cada beijo, mas ele não parecia conseguir registrar o que acontecia.

Arthur, no entanto, estava registrando tudo aquilo. Ele só não entendia. Não entendia porque alguém lhe beijaria o rosto. Aliás, não se lembrava de sequer já ter sido beijado assim. Para ele, beijos nunca tiveram aquele toque macio, aquela afeição delicada, cheio de palavras não ditas. Arthur só conhecia beijos na boca, trocados enquanto ele transava, sem significado algum, muitas vezes com alguém cujo nome ele nem se lembrava.

Então, o gesto de Alfred não lhe fez o menor sentido. Seu coração batia com tanta força agora que ele teve medo que rompesse. E isso não fazia o menor sentido. Seu rosto esquentou e ele absolutamente não conseguiu pensar em um motivo para isso.

Alfred segurou a face dele com as duas mãos e selou os lábios dele com os seus. Arthur abriu os olhos um pouco mais, tentando entender o que acontecia. Então, o empurrou, no que Alfred entendeu como rejeição. O que não era verdade. Arthur só... estava confuso. Aquele beijo não tinha o gosto dos beijos que ele conhecia. E tudo que é desconhecido nos deixa com medo. Aquele beijo tinha gosto de aurora e pôr-do-sol, tudo ao mesmo tempo. Mas auroras não tinham gosto e aquilo não fazia o menor sentido. Além disso, não fora mais do que lábios se unindo, por menos que vinte segundos. Como algo assim podia ter gosto?

E fora tão breve! No entanto, delicado como uma brisa ou como chuva muito fina em um dia de sol. Era tão confuso, tão difícil de entender. Sua cabeça doía e sua mente parecia uma coisa muito espaçosa e desajeitada. Seu coração batia com tanta força que ele podia senti-lo em sua garganta. Por que aquilo agora? O que estava acontecendo?

– Alfred...? – chamou baixinho, soando terrivelmente perdido. – o que você está fazendo?

– Shh... – Alfred sentia a culpa trancando a sua garganta. Era tão errado se aproveitar da confusão e da dor de Arthur, da vulnerabilidade que o garoto conseguia ver em seus olhos.

Ele realmente ainda era o mesmo covarde que fora quando roubara, de um Arthur que dormia, seu primeiro beijo. Era errado, mas isso não conseguira impedir o garoto. Porque... só Deus sabia quando ele estaria ciente de novo. Só Deus sabia se ele teria alguma chance de sentir aquela doçura outra vez.

– Alfred? – murmurou o loirinho de novo, ainda olhando-o confuso.

Beijou-o na bochecha, envolvendo-o em seus braços novamente e beijando o topo de sua cabeça. – Você está sonhando, Arthur... – murmurou, tentando consertar o estrago que fizera, tentando desfazer o nó que parecia haver em sua garganta. – Isso não é real... – murmurou suavemente, observando os olhos do loirinho fechando e os braços dele envolvendo sua cintura.

– Bem que eu sabia... – escutou Arthur dizer, muito baixinho. – Não tinha como você estar mesmo aqui...

– Shh, não fala assim... É claro que eu estaria aqui... – voltou a murmurar o garoto, com o coração partido, sem certeza se Arthur ouviu. Assim que voltou a olhá-lo, ele havia adormecido.

Alguns minutos se passaram, ao que Alfred procurou fazer com que o sono do outro durasse um pouco mais. O rosto do loirinho lhe pareceu mais triste. Seu polegar acariciou de muito leve a bochecha de Arthur e a expressão dele suavizou. Minuto a minuto, Alfred procurou fazer com que ele não acordasse. Não era bom que ele continuasse tanto tempo em claro, sempre alerta, sempre sentindo dor. O garoto queria que ele continuasse do jeito como ele estava naquele momento. Ressonando silenciosamente, a respiração pausada, seu rosto sem sustentar a eterna expressão preocupada ou nervosa. Por uma hora, aquela tranquilidade durou.

Depois, no entanto, Arthur ficou agitado e terminou por acordar de novo.

– Arthur, o que foi? – Alfred segurou-lhe a mão, percebendo-o com os olhos mais cheios de lágrimas ainda.

– Vai acontecer de novo. – murmurou, empurrando o garoto e tentando sair da cama. – Eu preciso avisar alguém. – disse, mais alto, sua respiração descompassando. Suas mãos tremiam, mas Alfred não o soltou.

– Arthur, você não pode! – sua voz foi alta, mas ele praticamente implorava. Seu tom baixou e sua expressão entristeceu. – Você vai acabar morrendo desse jeito.

– Mas Alfred! – sacudiu a mão dele, tentando que ele o soltasse.

– Você sabe que não há o que fazer. – sussurrou, puxando o loirinho de volta.

– N-não! Você não entende! – ele se debateu, tentando se soltar. No entanto, aquilo apenas fez o sangramento piorar. Ele fechou os olhos com força.

– Arthur, por favor, para. – Alfred sentiu a própria voz tremendo. Mesmo assim, continuou a segurar o loirinho, abraçando-o em uma tentativa de contê-lo sem machucá-lo.

– Me solta, Alfred. Não vai dar tempo... – murmurou, desesperado, empurrando o garoto e soltando-se do abraço dele. Mas, realmente, não houve tempo. Arthur sentiu como um tiro lhe atravessasse o coração. Morreram. Ele sabia quem, sabia onde. Arthur fechou os olhos com força, as lágrimas correndo muito rápido, uma atrás da outra. Alfred voltou a passar os braços em volta dele, abraçando-o. Mas o loirinho se debatia e tentava sair, a respiração quebrando e as lágrimas correndo.

– Você mentiu pra mim... – murmurou chorando enquanto tentava empurrar o garoto.

– Do que você está falando, Arthur?

– Eu não posso estar sonhando. – murmurou, magoado. – Se isso é um sonho... Por que dói tanto? – perguntou, as lágrimas correndo sobre sua face enquanto ele se debatia.

– Shhh... Arthur, pára. – sussurrou o garoto. Arthur estava muito agitado e já se machucava com todo aquele movimento. Alfred olhou em volta, ainda com o loirinho preso em seu abraço. Deteve-se nos equipamentos e frascos que os oficiais deixaram ao lado da cama. Com uma mão, abriu algumas caixas, derrubando vários remédios, os quais ele não tinha ideia de para que serviam. Arthur se debateu com mais força e Alfred agarrou o primeiro frasco que reconheceu, assim como uma tira de pano. Arthur parou alguns segundos, ofegando, a dor estonteando-o. Alfred abriu o frasco rapidamente, molhando o pano e voltando a fechar o vidrinho com pressa. Afastou-se um pouco do loirinho, olhando-o nos olhos. Seu coração apertou. Arthur ainda chorava muito. Aquilo o entristeceu. Arthur não era alguém que tipicamente chorava. Ele era forte demais para isso, determinado demais, orgulhoso demais. No entanto, estavam finalmente conseguindo quebrar a força dele, a determinação que inflamava seus olhos claros.

Porque Arthur, sinceramente, não queria mais. Aquele sonho era tão cruel, doía tanto. Bem ali, ele percebeu que queria não estar sonhando. Queria que Alfred estivesse mesmo lá, que ele o amasse como parecia amar ali. Arthur queria que fosse verdade. Porque aí então, talvez, eles pudessem estar juntos depois que aquela guerra acabasse. Porque aí quem sabe, ele pudesse construir alguma coisa nessa vida que tivesse algum sentido, ao lado de quem ele amava.

Porque ele amava Alfred. Seu choro tornou-se ainda mais desesperado e ele escondeu o rosto. Ele realmente não queria aquilo. Não fora de propósito. Completamente sem querer, Arthur se apaixonara por Alfred. O que ele deveria fazer agora? Se aquele Alfred gentil era só um sonho, o que infernos ele faria com aquele sentimento quando acordasse?

– Arthur... – chamou o garoto em um sussurro engasgado. Ganhou a atenção do loirinho por uns instantes. Então, deixou um beijo leve sobre os lábios dele, que dizia a mesma coisa que sua voz disse em seguida. – Eu sinto muito.

– Alfred, o qu-... – o garoto forçou-o a inalar o clorofórmio que encharcava o pano.

– Shhh...

Os braços que tentavam afastar o garoto foram perdendo a força e os olhos verdes que o fitavam foram desfocando e se fechando. O corpo do loirinho amoleceu e ele apagou. Alfred afastou o tecido e colocou-o dentro do bolso, de qualquer jeito. Com as mãos livres, tocou o rosto do outro com a ponta dos dedos, seu polegar fazendo um carinho lento sobre a bochecha de Arthur. Enxugou as lágrimas dele com carinho e recolheu a mão, contentando-se em fitar aquele rosto adormecido, ao mesmo tempo em que tentava ignorar a culpa que o corroía. Era para o bem do loirinho, mas fora muito difícil ter de contê-lo daquela maneira.

Pelo menos agora Arthur descansava. Alfred continuou a olhar para ele, um tanto surpreso. Uma semana sem dormir, anos de guerra sobre as costas dele, mas Arthur ainda dormia como uma criança em seus braços. No entanto...

Alfred queria que Arthur pudesse dormir — não em uma cama estreita e abandonada de um hospital desativado — mas em uma cama larga e macia, cheia de lençóis e travesseiros, onde ele não sentiria frio. Queria que Arthur pudesse adormecer, não sangrando e dopado para escapar da dor que o torturava, mas simplesmente porque tivera sono e se rendera aos braços de Morfeu. Em algum lugar longe, em que existisse paz. E, na verdade, o garoto queria estar com Arthur, vivendo com ele naqueles dias de paz.

Alfred riu um pouquinho. Se ele e Arthur fossem humanos, ele sempre teria que chegar em casa mais cedo e impedir que o inglês cozinhasse alguma atrocidade. Ele riu, mas foi breve. O sorriso logo morreu em seus lábios e deslizou por seu rosto.

Se eles fossem pessoas comuns, talvez ele tivesse coragem de se declarar para Arthur. E talvez ainda, se eles não fossem nações, talvez eles pudessem ter uma chance. Eles poderiam trabalhar em qualquer coisa, ter uma casa simples, talvez sair para um passeio no domingo de manhã. Eles podiam morar juntos. Ele acordaria e veria Arthur ao seu lado. E o britânico teria o cabelo dourado todo bagunçado. Nos devaneios de Alfred, o sono de Arthur era tranquilo. Arthur dormia, os olhos cerrados com uma sutileza absurda, como se ele estivesse tendo um sonho muito bonito. Depois, ele acordaria, percebendo que dormira sobre o braço do americano. Então, quem sabe, com alguma sorte, ele ficaria um pouco corado. E se Alfred tivesse realmente sorte, o pequeno inglês ficaria completamente vermelho e isso seria adorável. Ele implicaria com o mais velho e receberia um soco de leve nos ombros. Então, Alfred o beijaria com devoção. E talvez, Arthur deixasse um suspiro escapar. E, quem sabe, se o americano tivesse realmente uma estrela da sorte, talvez, e isso o faria o homem mais feliz do mundo, Arthur sussurrasse que o amava contra seus lábios, com a voz ainda rouca de sono, portando um leve meio sorriso.



Mas... eles não podiam. Alfred não tinha nem certeza de quem era de verdade, como poderia sonhar em ter uma vida dele, em que pudesse viver tudo aquilo com Arthur? Às vezes ele queria matá-lo, por Deus! Alfred não entendia porque aquilo acontecia, porque às vezes sentia como se uma outra pessoa o controlasse. Ele tinha medo de acabar machucando Arthur nesses períodos de descontrole. E, principalmente, sabia que seus sentimentos não eram correspondidos. O beijo que o outro rejeitara ainda fazia seu peito doer.

Alfred apertou Arthur um pouco mais em seu abraço, perguntando-se quando os dois teriam a chance de estar assim de novo. Só que quando tentou imaginar uma resposta, percebeu que era praticamente impossível. Aqueles curtos momentos lhe pareceram tão voláteis...

Arthur se aninhou em seus braços um pouco mais, inconscientemente. Alfred se surpreendeu. Realmente, era como se ele dormisse. O rosto dele ainda não trazia a expressão que o garoto sonhava, mas, ao menos, ele parecia calmo. Mesmo que seu sono não fosse tão delicado ou cheio de sonhos bonitos. Mesmo que seus olhos não estivessem cerrados em sutileza absurda.

Mesmo que não fosse como ele sonhara. Ainda assim, estar ali, vivendo aquele momento, era tudo o que Alfred queria. Sua garganta trancou quando ele pensou o que seria quando o dia amanhecesse.

– Eu nunca menti pra você, Arthur... – murmurou, muito baixinho, seus lábios tocando o topo da cabeça do loirinho. – Isso não é real. – entrelaçou seus dedos com os de Arthur e fechou os olhos. – Nós estamos sonhando...

As lágrimas correram pelo seu rosto, uma depois da outra, e ele suprimiu um soluço magoado. Se alguém lhe perguntasse, ele diria que tudo o que ele quis, naquele momento, foi que aquela noite nunca terminasse. Seu coração doía, mas Arthur lhe pareceu em paz. Mesmo que o loirinho não o amasse como ele amava, os dois estavam juntos naquele momento e isso era tudo.

Alfred não se importaria se ele morresse naquele momento. Não se importaria se tudo acabasse bem ali.



O Arcano 11 — A Força

SIGNIFICADO DIVINATÓRIO

Força. Coragem. Força moral. Convicção. Energia. Determinação. Resolução. Resistência. Ação. Percepção das tentações e das capacidades físicas e mentais para superá-las. Confiança. habilidade inata. Zelo. Fervor. Força física. A matéria dominando a mente e, alternativamente, a mente dominando a matéria, dependendo das circunstâncias. Realização. À custa de consideráveis perigos, a pessoa consegue o que quer. Forças ocultas em atividade estão sendo desafiadas. Heroísmo. Força para resistir, a despeito de todos os obstáculos. Esforços incansáveis. Triunfo do amor sobre o ódio. Libertação.



Notas finais
Bom, sinto muito, o capítulo saiu enorme. Eu tentei, realmente tentei, mas esse é o melhor que dá pra fazer. Quando eu escrevi essa cena, eu não imaginei que ela fosse sair tão grande. Na verdade, eu estou trabalhando nessa cena ha semanas xD Afinal, ela é muito importante para entender como aconteceu dos dois terem se apaixonado e como os sentimentos deles foram evoluindo. Enfim, leiam com calma, se quiser releiam, sem pressão xD às vezes as pessoas ficam meio ressabiadas quando o capítulo é grande demais, sabe. Então, respirem, vou ver se delongo mais a saída do proximo capitulo pra todo mundo chegar junto aqui, ok? =D Bom, também me senti mais a vontade para deixar o capítulo maior porque, bem, eu fiquei tão feliz com as recomendações que tentei dar um presente pra voces ( nao sei se é um presente ou não, mas a intenção é o que vale -q kkkkkkkkk) Bom, agora irei responder aos amáveis reviews de voces! Beijo, beijo, muito obrigada por tudo :)