Boulevard Of Broken Dreams
10 Capítulo 10 - O Arcano 11, Parte I
Notas iniciais
– Eu amo você, Matthew. Como eu nunca achei que fosse amar alguém.
O canadense delicadamente se afastou, enxugando as lágrimas.
- Desculpe, eu realmente não posso aceitar isso. – sussurrou, fitando os olhos claros do francês. – Você não pode esperar que eu simplesmente acredite em você depois de tudo o que aconteceu. – murmurou, desviando o olhar finalmente. – Você já mentiu tantas vezes. Por que eu deveria acreditar em você agora?
- Eu sei, você não deve. – admitiu Francis, colocando as mãos no bolso e dando um leve sorriso. Eram muitos anos, eram muitas mágoas deixadas pelo passar dos anos. – Mas eu tentei.
Matthew suspirou, levemente exasperado.
- Não é que eu não goste de você. – eu te amo. – Mas... simplesmente, eu não posso aceitar os seus sentimentos enquanto eu não puder acreditar em você – eu preciso que você me mostre que eu valho a pena.
- E se eu te provar? – arriscou o francês, seus olhos claros brilhando com uma pontinha de esperança.
O canadense se calou por um instante. Os dois sabiam que existia muita pouca coisa que pudesse provar e desmentir anos e anos do quase desdém que Francis lhe reservara. Não havia perspectiva alguma, muito menos chances para eles. Talvez a hora deles tivesse passado. Mas ambos não queriam acreditar nisso. Embora fosse possível e provável. Eles se fitaram, em um silêncio que gritava como eles queriam que aquilo desse certo. Como eles queriam que pudesse haver uma chance.
- Matthew? – chamou de novo, o nome do outro estranhamente diferente no sotaque do francês, leve como pluma descendo dos céus.
- Se você me provar, você vai saber. – disse, finalmente, corando levemente. Francis sorriu conformado. Era mais do que ele merecia, com toda a certeza. O francês era convencido, mas não completamente idiota. Fora algo que se define como perfeito vagabundo por anos e anos a fio, deixando que o canadense sofresse por ele. Porque Francis sempre desconfiara. Mas nunca tivera coragem de apostar naquilo. Nunca quisera um romance de verdade. Porque... e se tudo acabasse? E se... ele descobrisse que o amor não existia mesmo? Era melhor flertar com todo mundo e se enganar, pensando que tudo aquilo era amor e que sua pessoa prometida estivesse ainda a ser encontrada, em alguma rua, algum bar. Só que agora, vendo todas aquelas previsões de agouro... Ele se perguntou... E se ele moresse naquele momento? Ele teria algum arrependimento?
A face de Matthew lhe veio à mente. O jeito magoado com que ele às vezes o olhava. A evidente solidão em que ele vivia. É, o francês se arrependeria, pelo resto da sua existência, por nunca ter tentado fazê-lo feliz. Arrependeria-se, do fundo da alma, se é que ele ainda tinha uma. Seus olhos claros se desviaram e ele fitou algum ponto no chão, sem realmente ver o que estava ali.
- A propósito, o que você está fazendo aqui tão tarde? – questionou o canadense, mudando de assunto e voltando a segurar o ursinho pela pata. Ele não queria mais daquele silêncio desagradável. Ele não queria mais ouvir o próprio coração palpitando dentro do peito, não queria pensar naqueles sentimentos. Não agora. Tudo fora tão repentino..
O francês suspirou.
- Você tem tempo? – Matthew acenou positivamente. – Então sente-se... É uma longa história.
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“Arthur, corre!”
Olhos muito verdes se fixaram na figura do francês, coberto de sangue e fuligem. Eles estavam cercados. As tropas alemães avançaram sobre o território francês e encurralaram seu exercício, assim como os britânicos, que vieram tentar auxiliar os franceses em terra. No entanto, a França caiu muito mais rápido do que qualquer um previu e os dois exércitos aliados viram-se cercados no porto de Dunquerque.
A frança já estava condenada. Os britânicos precisavam recuar para protegerem a Grã-Bretanha, agora único país aliado fazendo frente contra a Alemanha. A força expedicionária britânica viu-se obrigada a voltar às pressas, deixando para trás tanques, armamentos, equipamentos. Arthur sentia um ferimento enorme em suas costas ardendo e o impedindo de andar direito. Ele mais ou menos ouvia o que Francis gritava para ele no meio daquele pandemônio.
Então, entre a poeira e a fumaça, surgiu Ludwig. Arthur se lembrava de ter olhado para os olhos claros de francês e deste voltando para olhar para ele.
Arthur hesitou por um segundo, olhando para o francês no chão e o alemão voltando a se aproximar. Sentiu um pressentimento muito ruim. Então, fechou os olhos e embarcou de volta. Já dentro do navio que o levaria de volta, o loirinho apoiou a cabeça na parede, dando um soco na superfície, frustrado.
Droga....
De volta em casa, Arthur analisou a situação. A França caiu, a Itália era aliada da Alemanha, a Espanha era ideologicamente alinhada aos alemães também, a Rússia tinha um pacto de não-agressão com a Alemanha... A bélgica tinha sido tomada, a Áustria anexada, a Polônia invadida... O loirinho deu um suspiro cansado, descansando a cabeça sobre os mapas em sua escrivaninha. A Europa inteira praticamente tinha caído.
Ele estava sozinho.
Olhou pela janela do escritório. O céu tinha um tom de azul meio aveluadado e as ruas estavam muito silenciosas. A hora se fazia tarde. O relógio na sala fazia um tique-taque constante, que ecoava pela casa vazia. Arthur apoiou o rosto nos braços, olhando para frente, meio perdido. Em breve, ele iria para a guerra. E alguma coisa dentro de si lhe dizia que aquela guerra não seria como as outras que ele viu. Os livros muito antigos em suas estantes o fitavam, mas não lhe disseram nada. Mesmo se eles pudessem lhe dizer algo, eles não saberiam o quê. Eles já eram muito antigos e o mundo havia mudado.
Arthur suspirou, seus pés tocando suavemente o tapete sob sua cadeira. Havia uma xícara de chá ao seu lado, mas já tinha esfriado. Fazia um pouco de frio. Por um momento ele se lembrou de uma vez, já há vários anos atrás, quando Alfred o abraçara. Era estranhamente reconfortante. E quente. Era...
Ele não sabia ao certo. Era diferente.
O loirinho dobrou os mapas. O dia seguinte provavelmente traria agouro e más notícias, de modo que ele resolveu dormir mais tarde e adiar o seu inevitável encontro com o amanhecer. Abriu a gaveta à sua direita, afim de guardar seus relatórios. No entanto, havia uma pequena pilha de cartas, que ele lera e relera nos últimos anos.
Ei, Arthur!
É o Luciano, lembra de mim? Pois é, desde que você foi embora, muita coisa aconteceu por aqui. Eu lembrei de escrever para você depois de começar a observar algumas coisas nos últimos dias. Sabe aquele rapaz que você me contou, o Alfred? Pois bem, ele tem arranjado alguma confusão por aqui, achei que talvez você fosse querer saber notícias dele, acho que vocês não andam se falando muito...
Era verdade. Mesmo antes da primeira guerra, Arthur não tinha muitas notícias do garoto. Ele nunca lhe falava nada e nas conferências, ele se fingia de desentendido, era barulhento e fazia coisas desnecessárias. Arthur não se enganava por aquela máscara que ele vestia. Dia após dia, ele ficava mais e mais estranho e aquela sombra atrás dos olhos dele... No entanto, todo o resto achava que ele era só um garoto meio idiota e inofensivo. Arthur tinha medo de que aquilo fosse muito mais distante da realidade do que ele imaginava.
Bem, graças a Deus eu moro meio longe dele, mas os países que moram perto vivem tendo vários problemas. O México teve, há algum tempo, quando Alfred tomou quase metade do seu território. Mas ultimamente não só eles têm tido problemas... Em Cuba houve uma guerra de independência e lá estava ele se intrometendo de novo. Eu sei que ele anexou Porto rico, Guam e as Filipinas, essas últimas como colônia. Pois bem, acho que ele ficou com medo de que assumisse um governo que prejudicasse os negócios dele, porque eles ocuparam Cuba por uns quatro anos. Depois que os cubanos aceitaram que os americanos fizessem mais ou menos o que bem entendiam lá, com direito a intervir militarmente, eles foram desocupados...
Bom, logo depois teve uma crise no canal do Panamá. Você deve saber, a companhia que ia construir o canal era francesa ( a mesma que construiu o canal de Suez, sabe?) e ela tinha um acordo com o governo da Colômbia, mas aí essa empresa faliu. Aí o Alfred quis fazer o canal, mas com total controle americano, só pagando aluguel pela área. Nem preciso dizer que o pessoal da Colômbia não quis, né? O Senado não aceitou. Mas, enfim, o Alfred não gosta de não ter o que quer, você sabe. Ele instigou a independência do Panamá, aquele presidente dele Theodore Roosevelt dando a entender que se o Panamá quisesse a independência, eles seriam ajudados pela marinha americana. Tudo isso tendo a ver com aquela política que ele adotou... Como era... Big Stick! Isso. Qualquer coisa sobre poder intervir no caribe e na América central. Nem preciso dizer como ninguém aqui anda muito feliz com ele, querendo mandar e desmandar na gente... Bom, no fim das contas, a Colômbia não teve muito o que fazer, o Alfred estacionou os navios de guerra dele ali ( em qualquer coisa que ele disse ser “Exercícios de treinamento”) e os colombianos ficaram com medo de entrar em guerra com os Estados Unidos, sabe? Enfim, depois de tudo, ele conseguiu o canal que ele queria. No entanto, acho que o pessoal daqui gosta dele cada vez menos...
Arthur suspirou e largou a carta. Alfred, Alfred... Ele sabia que era tolice se preocupar tanto com o garoto, mas ele não conseguia evitar. Seus pensamentos escapavam e, frequentemente, ele se via pensando sobre ele. Pensando sobre o futuro... A europa estava mergulhada em mais uma guerra. E, francamente, Arthur estava preocupado. Ainda que suas tropas tenham recuado do porto de Dunquerque e, como diria Churchill, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Certamente foi um feito notório e Arthur estava feliz em ter devolvido para casa todos os seus meninos, nem que fosse para que suas mães pudessem enterrá-los.
Em falar em seu primeiro ministro... Arthur torceu as mãos, nervoso. O chefe da Alemanha queria um acordo com o Reino Unido. Nunca foi desejo dele lutar contra os britânicos. Churchill, no entanto, se recusou terminantemente. Segundo ele, agora a Bretanha ia lutar. Eles não cairiam. Em uma questão mais que política, mas ideológica. Arthur estava contente com isso. Ele tinha orgulho do seu povo por isso. Ao mesmo tempo, ele sabia que tempos muito funestos estavam para vir. Seus dedos entrelaçaram e ele pousou a cabeça sobre eles, respirando fundo. Tanta responsabilidade nas suas costas, tanta destruição estava por vir... Arthur parecia muito jovem, mas os anos pesavam em seu coração. Ele teria um sono muito inquieto naquela noite.
No dia seguinte, o loirinho sairia de casa mais uma vez. Passaria a morar nos acampamentos militares e não voltaria para casa tão cedo. Era um adeus aos seus livros, às suas coisas, às suas fantasias.
Não sobrava muito tempo para sonhar no meio de um campo de batalha.
O dia amanheceu claro, ainda que nublado e levemente acinzentado. Arthur trancou a porta atrás de si e respirou fundo. Por alguma razão, que não soube precisar qual, suas mãos tremiam ao segurar as chaves. Havia um vento muito gélido naquela manhã e não havia quase ninguém nas ruas. Arthur se encolheu levemente em seu uniforme militar e passou a andar em passos largos.
A situação militar da Grã-Bretanha era delicada. Arthur logo percebeu que aquilo não ia ser nada fácil. Ele deveria ficar grato se sobrevivesse àquela batalha. A marinha britânica era muito poderosa, mas pouco podiam fazer contra a força aérea alemã. A Royal Air Force era excelente, mas não tinha aviões suficientes, nem pilotos suficientes diante do poderio da Luftwaff, que, a cada dia mais, crescia. E se àgua e ar falhassem, Arthur dependeria inteiramente do exército. E a grã-bretanha, como uma ilha, nunca teve um exército de terra de excelência. Além disso, muito equipamento foi perdido durante a batalha da Bélgica, quando eles tiveram que deixar tudo para trás e recuar.
Seus olhos verdes fitaram os papéis à sua frente. Aquilo não era nada, nada bom. Seu exército contava com apenas 786 unidades de artilharia e uns 167 canhões antitanques. Havia só duas divisões blindadas e uma estava incompleta. Somando tudo, A Gra-bretanha inteira não devia ter mais que uns 200 canhões.
Já a Alemanha contaria com 4500 aviões, 1100 caças, 1,6 mil bombardeios e muitos veteranos extremamente bem treinados. Arthur jogou os papéis na mesa e respirou fundo. Agora que ele estava nessa, ele não ia desistir. Seus olhos verdes cintilavam com certa fúria, com uma certa rebeldia. Porque ele não se entregaria, ele não abaixaria a cabeça pro Alemanha. Seu povo também provaria um pouco de determinação crua e o loirinho ficaria muito orgulhoso de todos eles. Arthur odiava guerras, mas ficava feliz quando via as pessoas dali se unindo, todas sob um único propósito.
Criou-se a Guarda Doméstica, composta por 250 000 civis, que se voluntariaram a compor um exército auxiliar e que protegeriam a Grã-Bretanha se o pior acontecesse. Em junho de 1940, criou-se a corporação dos Observadores. Uma vez que o exército não tinha equipamento ou pessoal suficiente, civis integraram esse grupo. Munidos com simples binóculos, eles monitoravam os céus, sempre atentos à qualquer sinal de um avião alemão se aproximando. Arthur viu muitos senhores, jovens, rapazes, ajudando. Durante a noite, a escuridão era completa e quase densa de tão profunda, de modo que os binóculos eram inúteis. No entanto, seus meninos persistiam. Eles foram treinados para distinguir o motor de um avião alemão e passavam a noite toda alertas.
Arthur se via sobrecarregado de trabalho, nunca parando um instante sequer para dormir ou descansar. A prévia da batalha era sempre difícil. Ele sabia que cada detalhe podia salvar centenas e que uma única estratégia mal calculada os destruiria e faria com que os esforços de todos fossem em vão. Então, ele nunca parava. Ele se mantinha alerta quase 24 horas por dia, por vezes adormecendo alguns minutos enquanto lia os relatórios. A tensão crescia e ele sentia o conflito se aproximar.
No entanto, havia algo que o tranquilizava. Uma vez que os britânicos inventaram o radar, eles podiam saber com antecedência se um avião alemão estava invadindo e podiam focar o seu pouco pessoal para os lugares certos. Claro que o sistema era complicado e necessitava de muito pessoal monitorando. Foi aí que entraram as suas meninas, sempre atualizando as posições informadas, em uma grande central. A tensão aumentava e as preparações consumiam todas as energias do loirinho. Eram 24 horas por dia em que ele ficava alerto, trabalhando o tempo inteiro, organizando pessoal, levantando equipamento, todos em uma corrida desesperada contra o tempo.
No entanto, no meio de toda essa confusão, apareceu alguém que Arthur sinceramente não esperava.
O loirinho estava sentado em uma mesinha de metal simples, lendo milhares de dados e informações. Uma xícara de chá cheio de cafeína repousava ao seu lado. No entanto, sua atenção foi roubado dos números no papel por um estardalhaço na porta do quartel general.
Seus olhos verdes se ergueram de seu trabalho e encontraram um grupo no mínimo inesperado.
Canadá, Polônia, Nova Zelândia, Austrália e Àfrica do sul.
Arthur sentiu os olhos arregalarem e seus dedos largaram o papel, em choque.
- O que... – piscou, confuso.
O polonês foi primeiro a se prouninciar. Ele riu, convencido.
- A Alemanha pode ter me derrubado, mas alguns dos meus pilotos queriam vir ajudar, eu acabei vindo também. – disse, piscando. Arthur percebeu que ele estava muito pálido e muito ferido também. Provavelmente ele ainda conseguia sentir a dor infligida pelos danos em suas terras, pelos seus meninos morrendo, ainda que estivesse fisicamente longe. Arthur se sentia mal ao ver tantos envolvidos naquele conflito. Ele só rezava para que nenhum deles acabasse muito ferido por ajudá-lo... Eles pareciam tão novos, tão crianças para tudo aquilo. O loirinho, no fundo, sentiu como se tivesse falhado em algum lugar ao permitir que aquilo acontecesse.
Mas, no final, os canadenses, poloneses, tchecos, australianos... se tornaram alguns dos pilotos mais perigosos e mais valiosos à Grã-Bretanha.
No entanto, ainda era muito pouca gente, as linhas de produção funcionam alucinadamente. O clima ficava cada dia mais tenso, seus pilotos cada vez mais cansados e seus trabalhadores também, tentando produzir equipamentos à tempo. No dia 4 de julho, seus navios foram atacados à caminho de casa. Arthur estava chorando quando recebeu a notícia. Ele chorava por lembranças que ainda o magoavam. Porque sabia que a pessoa por quem ele chorava não se importava. Alfred o tinha abandonado e ele sabia disso. Não só naquele mesmo dia, há muitos anos atrás. Mas naquele momento também. Assim que seu oficial entrou, no entanto, ele enxugou o rosto rapidamente e respirou fundo. Estava escuro, então o soldado não viu. Assim que recebeu a notícia, Arthur se impediu de continuar a chorar. Não havia tempo para suas emoções bobas ali. Não havia espaço para ter esperanças.
Ele não viria.
No dia 10 de julho, invadiram o canal da Mancha. No dia 10 de julho começava, oficialmente, a Batalha da Bretanha.
Arthur saiu do quartel general em alguns diase rumou a regiões mais ao sul, onde provavelmente se dariam os ataques. Lá encontrou seus oficiais e logo começou seu turno de vigília. Ele se viu sentado sobre a grama, que se estendia pelos morros à frente e atrás. Os campos eram muito extensos, a perder de vista. No entanto, não eram como os campos em que ele costumava sentar e ler enquanto Alfred corria, abaixo de um céu muito azul, aquecido por um sol muito cálido. À bem verdade, o clima estava nublado e estava frio. A grama falhava em várias partes e tinha um tom de verde monótono e meio escurecido. O clima era úmido e o vento, gélido. Arthur se sentou ali, meio encolhido, a olhar para cima. Como havia uma camada de nuvens muito grossa, não dava para saber muito bem que hora do dia era.
Ele simplesmente fitou o céu. Os minutos se arrastavam e o silêncio era total. Nem mesmo as nuvens pareciam se mover muito. Arthur abraçou sua arma, ainda olhando para cima. O metal frio era de pouco consolo, mas não havia nada melhor com o que contar. Alguns oficiais remexiam papéis la atrás, em uma espécie de cabana improvisada.
Arthur esfregou os olhos. Por Deus, ele estava cansado. Era horrível ter de se manter alerta o tempo todo. Aquelas horas de trabalho excessivo dos últimos dias estavam começando a pesar sobre seus ombros. Tantos relatórios, contas, estatísticas, estratégias... Tantas noites viradas tentando achar soluções, tentando proteger os seus meninos. Depois de tanta pressão naquelas semanas, aquele era o seu primeiro momento em silêncio, apenas observando. Aos poucos, aquela monotonia foi embalando-o e seus olhos ficaram pesados. A cada vez que ele piscava, demorava mais tempo para seus olhos acharem o foco de novo, borrando o cenário à sua frente. As horas se passaram e nada aconteceu. Sem querer, Arthur acabou adormecendo.
Horas depois, repentinamente, o ar foi cortado por um som agoniante, como o de uma mulher morta que gritava, se erguendo do túmulo para amaldiçoar as almas viventes. Era uma sirene, alertando um bombardeio. O loirinho abriu os olhos, perdido, assustado com aquele barulho todo. No entanto, quando abriu os olhos, não conseguia enxergar nada. À sua frente, havia uma escuridão muito, muito profunda. A noite era de lua nova e estava nublado. Não havia iluminação pública ali, no meio do nada. Seus olhos se arregalaram e ele se ergueu, trôpego, completamente perdido. Havia uma sensação horrível em suas costas, como se a sirene fosse realmente a voz de uma mulher amaldiçoada, que o perseguia pelo descampado, sua carne podre arrastando sobre a grama seca. Ele estava tão assustado. Estava tão escuro e os sons eram tão violentos e ele estava sozinho, tropeçando entre aquela escuridão densa, quase correndo como se o cadáver daquela mulher pudesse alcançá-lo. Olhou para cima, conseguindo ver apenas alguns lampejos de luz, onde os poucos holofotes que eles ainda tinham iluminavam a fuselagem dos aviões alemães. Houve mais lampejos e, de repente, o ar foi preenchido por sons de explosões, gritos, Arthur conseguia ouvir o pânico das pessoas na própria cabeça.
Assim que a primeira explosão se fez, o loirinho sentiu a dor rasgando as suas costas, assim como uma pancada na cabeça. Imediatamente, seu passo estancou e ele gritou de dor, caindo de joelhos no chão, uma das mãos segurando a cabeça com força. Arthur tentou puxar o ar com mais força, tentando respirar, mas, mais uma vez, seus pulmões pareciam cheios de areia e aquilo arranhava. Não chegava oxigênio o suficiente e ele tentava respirar com mais força ainda, apenas para ouvir o próprio som agonizante de seu fôlego quase inexistente. Seus dedos sentiram quando algo quente passou a escorrer de sua cabeça. Meio desnorteado, o loirinho não tinha muita certeza sobre o que era aquilo e estava escuro demais para que ele conseguisse enxergar. Lentamente, aproximou a mão do próprio rosto. Seus sentidos reconheceram o cheiro férrico de sangue e ele sentiu o líquido escorrer pelo seu pescoço e começar a encharcar o seu uniforme.
- Droga... – murmurou, se encolhendo e tentando conter o sangue que fluía. Estava frio. E estava tão escuro. Por mais que ele abrisse os olhos, não era possível enxergar nada à sua frente. E o ferimento em sua cabeça latejava, drenando sangue rapidamente enquanto suas costas ardiam. A dor era tão insuportável que o loirinho nem conseguia se mexer, apenas ali, ajoelhado e encolhido, tentando fazer o sangue parar. A sensação mórbida em suas costas não sumia e as sirenes ainda pareciam gritar na sua cabeça, a mulher morta parecia se arrastar, suas mãos esquálidas, frias e ossudas tentando alcançá-lo. Aos poucos, sua mente não conseguia mais entender o que se passava à sua volta, os sons cada vez mais distantes e a dor cada vez mais insuportável. O loirinho caiu de boca no chão, ainda segurando a parte de trás da própria cabeça, gemendo de dor. Ele mais ou menos entendeu o cheiro da terra contra o seu rosto, cortando-o, uma vez que o chão estava coberto de estilhaços de vidro e pedacinhos de concreto e metal.
Arthur já não entendia o que se passava à sua volta, não tinha a menor ideia do que se passava com o resto do seu território ou das suas pessoas. O cenário à sua volta foi dissolvendo e a dor confundiu-o ainda mais.
Então, seus olhos fecharam e aquela noite escura deixou de existir. A dor talvez fosse mera ilusão sua.
Porque havia alguém lá. Esse alguém sorria. Quem era?
O céu estava mais claro. Era música aquilo? Aquele alguém ria. Arthur também se ouviu rir.
O cenário mudou de novo. De volta a um descampado, em 1918. Alguém o abraçava. Ah... o ar parecia tão leve. Havia um perfume muito agradável pairando no ar. Talvez ele tenha se afastado um pouco e olhado para esse alguém.
Azul. Viu-se fitado por azul. Muito claro, muito limpo, muito azul...
Quando seus olhos abriram de novo, encontraram algo como o teto de uma pequena instalação militar. O que tinha acontecido? Arthur tentou se levantar, parando bruscamente ao sentir o ferimento em sua cabeça dar uma fisgada violenta. Ah, o bombardeio. As lembranças foram voltando aos poucos, mas não inteiramente. Sua mente parecia mais interessada em tentar lembrar-se do sonho que estava tendo. Sua memória estava meio borrada e todo aquele esforço estava começando a lhe dar dor de cabeça.
Virou para o lado, encontrando algumas folhas de relatório. Ainda que não estivesse bem, Arthur não se sentia no direito de negligenciar trabalho. Tanto dependia dele agora... Seus olhos verdes percorreram o papel, registrando tudo mais ou menos, entendendo o contexto geral. Os alemães estavam atacando suas torres de radar, tentando deixá-los às cegas naquela guerra. Seu sistema de informações estava abalado, mas várias torres resistiram, ainda que tenham tido suas transmissões interrompidas por várias horas. Se aquilo continuasse, eles não teriam a menor chance. A Grã-Bretanha sucumbiria. Ele voltou a largar os papéis sobre a mesinha. Era preocupante.
Mas... Arthur se sentia... bem. Voltou a repousar a cabeça no travesseiro. Provavelmente tinha sido um sonho muito bom, porque ele ainda sentia os efeitos suaves que ele lhe trouxera. Fora um sonho breve. Arthur mal conseguia se lembrar dele inteiramente, mas... Salvara-o em meio àquela confusão, àquele escuro. Com um suspiro, o loirinho voltou a fechar os olhos. E talvez ele tenha sonhado de novo. Não era o mesmo sonho de antes, ele sabia, embora não conseguisse se lembrar de nenhum deles com clareza. Mas em ambos havia algo de que ele não conseguia esquecer.
Uma cor azul, clara, cristalina como água que se derrama do alto de uma montanha no fim do inverno, quando a neve finalmente cede e se derrete sob o sol ofuscante. Azul, muito azul...
Foi a última vez que Arthur dormiu realmente em paz naqueles anos.
Os bombardeios noturnos se seguiram. O loirinho se viu de novo gritando de dor em meio àquela escuridão horrível, cada osso do seu corpo sentindo a presença horrenda de algum espírito de mau agouro atrás de si. A dor o excruciava e o deixava tonto, perdido em meio aos tiros e explosões. Tentava sair do caminho quando isso acontecia, escondendo-se em um canto e esperando a dor passar.
Arthur cumpria seus deveres militares, dava ordens, virava noites e noites em claro traçando planos, passando e repassando estratégias. Quem ouvia seus comandos, confiava neles, confiava na voz levemente grave com que ele dizia tudo aquilo, em seu tom firme.
Mas, sinceramente, Arthur estivera com medo. Naquelas horas em que ele se escondia, se encolhendo em meio ao escuro, suas mãos trêmulas tentando tapar os ouvidos e não escutar aquele estardalhaço lá fora. Os sons eram horríveis, a dor o tonteava e a escuridão o perseguia. As sirenes que anunciavam os bombardeios eram seu pior agouro, a noite era uma tortura, que parecia não terminar. Ele estremecia a cada explosão, seus olhos enchendo de lágrimas. Ele estivera tão assustado. Com tanto medo, tão sozinho. Só que não tinha como admitir isso. Tanta gente dependia dele, tanta gente acreditava nele. Ele não podia agir como uma criança assustada, embora não passasse disso. Arthur nunca disse nada a nenhum de seus homens, nenhum de seus oficiais, nem mesmo para Matthew e os outros.
Ele guardara tudo para si.
Todos os bombardeios passaram a ser durante a noite, muito para o desespero de Arthur. Tudo era dez vezes mais assustador quando se estava mergulhado naquele escuro, sozinho. Os alemães atacaram todos os dias até setembro. O loirinho já não gritava muito, exausto demais para isso. A dor continuava horrível, mas ele mais ou menos conseguiu lidar com ela, acostumando ao tipo de dor que um bombardeio causava.
Para a sorte da Grã-Bretanha, no entanto, os alemães desistiram de tentar destruir seu sistema de radares, concluindo que eram muitos gastos e que era muito difícil. Além disso, a inteligência britânica conseguira decifrar o código em que as mensagens dos alemães eram passados. Com a ajuda da Polônia, que enviou a eles a máquina Enigma, que decodificava as mensagens. Assim, os britânicos o estudaram e conseguiram decifrar o código.
Até que a batalha entrou em sua fase final.
Londres, o Alvo.
Notas finais
Fiz um pequeno resumo do que o Alfred anda aprontando, mas relaxa que já já trago o monstrinho aqui pra mostrar o que ele anda fazendo xD Sò não deu mesmo pra colocar tudo nesse, ficaria esdruxulamente grande @_@
Enfim... Não sei mais quem ainda tá lendo, quem desistiu disso aqui, maaas xD ( você sabe quando ninguém aguenta mais quando percebe que tem 18 leitores, mas uns 8 reviews xDD) Mas enfim! Se voce ainda não desistiu, não desista! Eu sei que é muita história, mas isso no fundo é a história deles como nações também. Bom, aos meus lindos corajosos que ainda não largaram isso aqui, um grande beijo :DD Carol, Ju, Lirium, Labi, Rolling Pride, Chibyya, Gabee e Susipolela! Voces me emocionam TT-TT Já irei responder suas amáveis palavras *-*
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