Boulevard Of Broken Dreams
1 Capítulo 1 - O Arcano zero
– Arthur! Você está me ouvindo, velho estúpido?!
Arthur suspirou e olhou para seu interlocutor. A voz irritante de Alfred F Jones ainda ecoava na sala, enquanto os olhos verdes de Arthur perdiam-se na figura do americano. Ele estava vestido como sempre, seus cabelos loiros levemente fora do lugar, mas ainda mais arrumados que os de Arthur. Os olhos azuis eram profundos e transparentes e faiscavam em fúria. Era muito bonito, mas Arthur se cansara daquela mesma cena. Alfred estava ficando cada dia mais paranoico. Ele via terroristas em todos os lugares,gritava com as pessoas com extrema facilidade, estava completamente instável. Ele procurava pessoas o espionando, os chefes dele o estavam colocando maluco, com guerras, o fazendo suspeitar de tudo e de todos, o que incluía o britânico. Fazia Arthur lembrar-se dos tempos da guerra fria. O pequeno britânico suspirou.
Os dois estavam brigando. De novo.
E seja lá o que Alfred estivesse falando, Arthur se recusou a ouvir. Ocasionalmente ele ouvia coisas como “velho idiota” ou “aposto que você quer se juntar àquele filho da puta do Ivan e me atacar pelas costas”.
Mas Arthur apenas fitava Alfred. Fitava os olhos dele, voltava para os cabelos... O americano socou a mesa ao perceber que o outro não estava ouvindo uma palavra de tudo o que ele dissera. Arthur se sobressaltou com o barulho e voltou a olhar nos olhos azuis furiosos de Alfred.
– Velho idiota e surdo... – praguejou Alfred, a voz tremendo de raiva. – Por isso ninguém aguenta ficar perto de você. Você acha que pode continuar sendo esse filho da puta prepotente? As pessoas já se cansaram de você, Arthur! Você não é nem a sombra de quem você já foi, você já não tem onde apoiar esse seu orgulho ridículo! Você é só uma ilha no meio do nada, que, com sorte, um dia o oceano vai afundar! – ele gritou com o britânico, não hesitando mesmo quando percebeu que estava destruindo o outro. — Eu odeio você, seu jeito arrogante, essa sua cara nojenta! Eu queria que você morresse e me deixasse em paz de uma vez por todas. – terminou com a voz séria, virando as costas e batendo a porta da sala de reuniões atrás de si.
Arthur abaixou a cabeça e a apoiou nas mãos. O vidro da mesa refletia sua face atordoada. O loirinho fitou os próprios olhos e se levantou. Não era novidade esse tipo de discussão, então, ele ficaria bem.
– Não é como se eu me importasse mesmo... – sussurrou para si mesmo.
E o britânico mentiria mais, se não estivesse tremendo. Ele quase poderia chorar, se não fosse teimoso demais e orgulhoso demais para fazer isso em um lugar tão público.
Silenciosamente, ele recolheu seus papéis e deixou a sala de reuniões, rumando para o corredor vazio. Não havia mais ninguém no prédio e o sol já se escondia no horizonte, as grandes janelas deixando passar um rastro de luz alaranjada. Alfred provavelmente falara por muito mais tempo que Arthur julgara. Alfred. O britânico quase queria se bater por pensar nele o tempo todo. Porque isso o fazia mal. Lentamente, Arthur caminhou de volta à sua casa por ruas muito silenciosas, mas ele ouvia palavras.
“Eu queria que você morresse e me deixasse em paz de uma vez por todas.” – a voz de Alfred ainda ecoava em sua cabeça.
– Pare com isso, Arthur.... – sussurrou o loirinho para si mesmo. – pare de lembrar – sussurrou, pressionando os olhos com o polegar e o indicador, esfregando em círculos.
– “Arthur! A gente vai ficar junto pra sempre, né?” -
“Eu queria que você morresse”
Arthur chegou em casa e se jogou no sofá da sala.
‘’me deixasse em paz de uma vez por todas.”
“Você costumava ser tão grande...”
Arthur passou a mão nos cabelos, puxando-os com força para trás, lágrimas embaçando seus olhos verdes. Ele não queria pensar, não queria se lembrar. Alfred sempre sabia o que dizer, onde apontar. Ele sempre sabia onde doeria mais em Arthur, sempre sabia apontar suas maiores inseguranças.
Ele sabia fazer Arthur chorar como mais ninguém no mundo.
Arthur também já dissera algumas palavras para magoar, já vira a dor refletida nos olhos do outro. Só que ele se sentia mal por isso, doía nele magoar o outro. E, ainda assim, Arthur não entendia porque o fazia. O loirinho parecia incapaz de ser honesto com o que sentia. Talvez ele não servisse para isso mesmo.
O britânico caminhou apressadamente até sua mesa, repleta de copos e bebidas, num pequeno bar. Whysky, licor, vodka, absinto... Absinto. Ele pegou a garrafa e sorriu para o vidro, apreciando o nome e a ironia de tudo aquilo.
– Green Fairy. – sussurrou. – Eu sabia que eu podia contar com você. – disse em um meio sorriso antes de pegar um copo largo.
Três doses depois e ele já conseguia sentir alguma parte de sua consciência ficando anestesiada. Lentamente, sentia as bordas da sua mente ficarem dormentes e confusas. As coisas pareceram levemente mais distantes enquanto ele virava outra dose. Arthur podia sentir o líquido descer queimando. Mas isso lhe dava certa satisfação.
O loirinho olhou em cima da mesa. Havia uma pequena embalagem sobre o móvel. Arthur a pegou e a levantou sob a luz, dando um suspiro entediado.
– Para-diclorobenzeno. Um anel benzênico cujos carbonos 1 e 4 foram substituídos por átomos de cloro. Prefixo “para” indicando substituição em dois carbonos opostos no anel benzênico. Composto cíclico, marcado pelo fenômeno da alternância entre ligações simples e duplas, a ressonância ...– ele deu um sorrisinho sarcástico. – assim falando até parece grande coisa. E só serve para combater mofo em roupa. – disse jogando a embalagem por cima do outro, escondendo o rosto com um dos braços.- Soa quase tão patético quanto o caído Império britânico.
Arthur se ergueu tropegamente e serviu outra dose a si mesmo, cantando uma música qualquer que lhe viera à mente no momento. — For what do I sing? Paradichlorobenzene. I just sing without understanding why. Yes, I ran, seeking the answers, though I knew there was nothing out there for me to reach... (Pelo o quê eu canto? Eu somente canto, sem entender o porquê. Sim, eu corri, procurando as respostas, mesmo que eu soubesse que não havia nada lá fora para eu alcançar...)
Sexta dose. Sua cabeça já estava completamente anestesiada e sua visão desfocava. Até que o efeito estava rápido. “Sorte que eu não comi nada...” – disse ele pra si mesmo, buscando o resto das garrafas e as arrumando ao seu lado.
A noite já havia caído lá fora e as horas se arrastaram. A sala estava agora mergulhada em uma escuridão quase densa de tão profunda. Arthur não se dera ao trabalho de ligar a luz quando chegara. As sombras se mexiam levemente no escuro e sua mente intoxicada criava imagens difusas. Arthur sentou-se no chão e apoiou a cabeça no sofá, uma mão segurando fracamente o copo. Depois de um tempo, e ele nunca saberia precisar quanto, o céu começou a rugir lá fora e uma tempestade passou a açoitar as janelas. Arthur fechou os olhos com força, finalmente sentindo algumas lágrimas descerem. Aquela tempestade era tão parecida com aquela, há mais de um século atrás... Quando a única pessoa que talvez já o tivesse amado resolvera deixá-lo. As sombras difusas foram substituídas por imagens de um campo de batalha e Arthur se viu revivendo tudo aquilo de novo. Ele fechou os olhos com mais força, tentando parar. Ele estava irritado. Estava desapontado. Estava triste. Mas acima de tudo isso, estava sozinho. Todo tipo de sentimento se empilhou dentro dele e ameaçava o sufocar. O loirinho atirou o copo na parede, ouvindo-o se estilhaçar.
E na sala escura, ele abraçou os próprios joelhos e abaixou a cabeça. Sua mão tateou e encontrou o resto da garrafa, que esvaziou sem hesitar. Então ele a arremessou na parede também. Uma de suas mãos se apoiou sobre os cacos e sua pele sentiu um líquido quente escorrer.
“Acha que isso dói alguma coisa?” – desdenhou, como se alguém o escutasse. Arthur pegou um estilhaço largo e o passou pela própria mão. Quando satisfeito, atirou o caco para o lado e jogou a cabeça para trás. Ele desejou, sinceramente, que a dor na sua mão fosse maior que a no seu peito.
Mas não era.
A tempestade lá fora o remetia à um passado que ele queria esquecer, que ele queria que não tivesse existido. Um passado no qual ele confiara. No qual Arthur se permitiu se afeiçoar, ser alguém mais do que o país que ele era.
“Escuta, pirralho. – disse Scott dando uma tragada em seu cigarro, soprando a fumaça sobre o rosto de Arthur – Eu vou te dar um único conselho. Sobreviva. Não se apegue. Senão, você perde.”
Arthur fitou o sangue na própria mão e sorriu triste.
“Eu acho que eu perdi.” – concluiu em um soluço. – “Eu acho que eu me apeguei a ele. Acho que, em algum momento, eu me perdi e acabei gostando dele mais do que eu devia.” – sussurrou para si mesmo, sua mente embriagada o iludindo com o sorriso de alguém que ele nunca teria.
Arthur se levantou trôpego e riu da própria desgraça. Ele tinha toda uma eternidade para viver, mas não tinha ninguém que se importasse com ele. O britânico tinha encontrado alguém que ele amaria por toda a sua existência, mas essa pessoa o odiava.
Arthur simplesmente caminhou até a porta e a abriu, sorrindo ao perceber quão barulhenta a tempestade era. O vento açoitou os seus cabelos e a àgua fria o despertou, numa confusão de sons que abafou a canção que ele cantava. — "So let's sing, let's dance, Paradichlorobenzene! So let's scream, let's shout, So let's go mad, let's fall asleep! Until we fall apart..." ( Então vamos cantar, vamos dançar! Vamos gritar, vamos berrar! Então vamos enlouquecer até que caiamos no sono! Antes que nós desmoronemos."
Sua roupa já estava completamente encharcada, mas ele não ligava. O loirinho abriu os braços e deixou que o vento batesse nele com força. — "I hate rules. I just don't want to be held down. So I run away, forgetting everything around me. I want to be a little wicked." — ( eu odeio regras. Eu só não quero ser detido. Então eu fugi, esquecendo de tudo ao meu redor. Eu quero ser um pouco perverso.)
O loirinho deu um passo e se jogou de cabeça na chuva forte, ouvindo o vento fechar a porta da sua casa com um estrondo. Então, ele saiu correndo, trôpego e bêbado no meio do temporal. Não sabia onde estava tentando chegar, mas sabia que queria fugir do caos na sua cabeça, sabia que queria sumir naquela chuva. Arthur correu até sua garganta começar a arder e queimar, quase se fechando e o sufocando. Suas mãos estavam já sujas de terra, das vezes em que tropeçou e caiu de boca no chão molhado. O corte na sua mão ardia ainda mais agora, mas ele não ligava. Arthur não aguentava mais aquela vida que levava, ele precisava de um rumo, de uma resposta.
I slip out of my house in the middle of the night
And run through the town
( eu escapei da minha casa no meio da noite
E corri através da cidade. )
Ele parou e se escorou em um poste de iluminação pública. A chuva açoitava seu rosto com força, encharcando-o e o fazendo tremer até os ossos. Era um parque vazio, imerso em sombras que bruxuleavam no escuro, trêmulas. No meio da escuridão, ele enxergou dois olhos verdes, que brilhavam na penumbra, talvez tão verdes como os seus. — "Um gato?" — sussurrou, sua voz arranhando sua garganta dolorida. Arthur se moveu mais para dentro da penumbra, se agachando perto daqueles olhos. — "Why am I alive? What's my purpose?" — ( Por que eu estou vivo? Qual é o meu propósito? ) em resposta, só havia o barulho da chuva, castigando as superfícies. — "I asked a stray cat...The cat said nothing in reply, just looked at me with its eyes..." — sussurrou consigo mesmo, se afastando dali. ( eu perguntei para um gato de rua. O gato não disse nada em resposta, apenas olhou para mim com os seus olhos...)
Pelas ruas, ele encontrou uma máquina automática de bebidas. Refrigerantes, café frio em caixinha... Realmente, o mundo não era mais o mesmo. Não havia mais expedições para o Novo Mundo, não havia mais terras novas, não havia mais aquele fascinio pelo chá, pelas especiarias. Arthur sorriu torto. Alfred estava certo. A sua época já tinha passado. Ele enfiou algumas moedas na máquina e engoliu um pouco do café frio. — "I drank up some coffee that I couldn't stand to drink and looked up at the clouded sky. 'What am I capable of right now?' I don't even know that much..." — ( eu engoli um pouco de café que eu não aguento beber e olhei para o céu nublado. O que eu sou capaz de fazer agora? Eu nem sei.)
Seu país ia razoavelmente bem. O mundo tinha seus problemas, mas já tinha sido tão pior! E mesmo assim, Arthur não era feliz. Já fazia certo tempo desde que ele se descobrira alguém à parte do país que representava. Ele sabia que tinha sentimentos, só que não sabia o que fazer com isso. Então, o loirinho se sentou em um banco de praça e fechou os olhos, seu grito de desabafo sendo encoberto pelo vento que assobiava.
So I sing and I shout
Paradichlorobenzene
I scream without knowing the reason why
Paradichlorobenzene
Can you be satisfied with the way things are?
Paradichlorobenzene
Might you change if you tore free from all these rules?
( Você pode estar satisfeito com as coisas do jeito que elas são?
Talvez você mude se você rasgar, livre de todas essas regras?)
Arthur começou a sentir o queixo bater com o frio, o vento gelando até a sua alma. Ele pendeu a cabeça para trás, agarrando os próprios cabelos com força.
Yes, I'd like to spill my guts to someone, anyone*
Paradichlorobenzene
Alguém se esgueirava por entre as sombras, mas o britânico não viu. Ele só percebeu quando viu um homem com uma faca em sua mão, sorrindo para o loirinho no banco. Arthur colocou seu copo de café no chão, ao lado do banco e sorriu. E seu sorriso derramava veneno. O homem exigiu sua carteira, o britânico simplesmente disse: Não.
E quando o homem truculento e sujo avançou em sua direção, Arthur deu um sorriso quase maligno, satisfeito em poder descontar seu desgosto em alguém. O homem conseguiu fazer um corte na bochecha do loirinho, mas este lhe deu um soco no estômago e, quando ele já estava no chão, pisou em sua mão, tirando a faca dele.
I'll wield justice in the fight against evil
Paradichlorobenzene
With justice as shield my stress melts away
Paradichlorobenzene
As we stop wandering we don't realize
Our foolish deeds
( eu vou brandar a justiça na luta contra o mal
Com justiça como meu escudo, meu estresse se esvai.
Assim que nós paramos de vagar, nós não percebemos
Nossas tolas ações)
Ele deu outro soco no rosto do homem no chão, que estava atordoado, sua cabeça girando com a força imprimida pelo pequeno e frágil britânico. Arthur encostou a faca no pescoço dele.
Mas parou de repente. O que diabos ele estava fazendo? Por quê?
Does this song have a meaning?
This verse has no meaning [2]
There's no sin to this song
( Essa canção tem um significado?
Esse verso não tem significado
Não há pecado para essa música)
Isso era certo? Ele tinha mesmo esse direito? Arthur encostou a faca ainda mais perto, quase tirando sangue do pescoço do homem abaixo de si. Mas... Ele estava certo?
[Benzene]...has a meaning?
[Benzene]...has no meaning
Is there any sin to benzen?
The meaning of this song is... [Benzene]
(Benzeno... tem um significado?
Benzeno... não tem um significado.
Há algum pecado para o benzeno?
O significado dessa canção é... benzeno.)
Arthur olhou o copo de café encostado no banco e se lembrou de Alfred. Lembrou-se de alguns momentos fugazes que tivera com o garoto. Lembrou como ele lhe sorria quando era criança. Então, Arthur achou coração o suficiente para olhar para aquele homem e perceber que ele não tinha aquele direito. Sim, o homem era um ladrão, mas Arthur não era um também? Não fora um corsário? Nada mais que um ladrão à serviço da rainha. E não fora uma carteira que ele roubara. Mas muito ouro e riquezas, por saques e juros, impostos e taxas. O loirinho soltou a faca, enquanto seus olhos verdes fitavam o nada.
And then I realize...
That everything I'm doing is hypocrisy
(Então eu percebi
Que o que eu estava fazendo era hipocrisia)
Arthur pegou o copo de café do chão e saiu correndo sem olhar para trás. Ele só parou quando chegou ao parque em que estivera antes. Sentou-se à beira da lagoa, levemente escondido entre as sombras assim como aquele gato estivera. Por alguns instantes, o britânico apenas fitou as àguas da lagoa sendo revoltas pela chuva. Mas então, algo chamou a sua atenção. Havia alguma coisa disforme boiando dentro da àgua. Arthur se levantou e se aproximou lentamente, tentando distinguir a figura. Era um gato. Morto.
What value do I have living?
The stray cat drowned to death
(Que valor eu tenho em viver?
O gato de rua morreu afogado.)
Ele recuou lentamente, seus olhos se recusando a deixar a figura do animal morto. Arthur, lentamente, andou para longe, até o gato ser só mais uma sombra na noite. Seus passos estavam mais firmes, a adrenalina da briga de rua e de ver um cadáver, lhe invadindo o sangue. O café lhe deixara mais sóbrio também, mesmo que quase o fizesse vomitar quando sentia aquele gosto no fundo da boca. Então, lentamente, Arthur andou, jogando o copo de café vazio fora e olhando para o céu noturno, avermelhado de nuvens em alguns lugares. — "I threw away the emptied coffee can snd looked up at the darkened sky. What am I doing with myself? I don't even know that. I don't know anything anymore" — ( eu joguei fora o copo vazio de café e olhei para o céu escurecido. O que eu estou fazendo comigo mesmo? Eu não sei nem mesmo isso. Eu não sei mais de nada."
O loirinho voltou para casa e bateu a porta atrás de si. Sem nem ligar as luzes, ele se jogou no chão. Sua cabeça bateu em alguma coisa, que logo reconheceu como o pacotinho para mofo de roupa. Furioso, arremessou o pacote para longe e deitou com as costas no chão, seu corpo completamente anestesiado de frio.
And then you laugh at me
[Paradichlorobenzene]
And then I shove you away
[Paradichlorobenzene]
I am right and you are wrong
[Paradichlorobenzene]
( Então, você riu de mim, paradiclorobenzeno.
Então eu te empurrei para longe, paradiclorobenzeno.
EU estou certo e você está errado, paradiclorobenzeno. )
Seu corpo estava tão frio... O loirinho fechou os olhos, permitindo-se enxergar apenas o escuro, e se perguntou se ele teria desaparecido pela manhã.
Embraced by emptiness I fade away
Until I disappear
( Abraçado pelo vazio, eu me desfaço
Até que eu desapareça. )
Arthur murmurou os restos de uma canção. — "So let's sing, let's dance,Paradichlorobenzene. So let's laugh, let's covet, Paradichlorobenzene. You and me and everything, Paradichlorobenzene. So let's go mad, let's fall asleep."
"Until we fall apart..." -
E assim, ele adormeceu.
Alfred saiu quase correndo da sala de reuniões, sua visão levemente borrada por conta de lágrimas que ele não queria derramar.
– Droga! Por que é tão difícil? – sussurrou irritado, magoado, sem nem olhar para frente. Arthur sempre o ignorava, discordava dele, o xingava. Principalmente, o deixava inseguro. Arthur sempre o olhava como se fosse partir a qualquer momento, como se fosse deixa-lo para trás a qualquer segundo.
Mas o garoto tentava. Alfred falava alto, chamava a atenção, o procurava. Mas Arthur nunca parecia o enxergar. O britânico só lembrava dele como colônia, olhava nos olhos dele mas não parecia ver o que eles refletiam.
Alfred se escondeu no banheiro, encostando a porta atrás de si e apoiando a cabeça na parede gelada. Seus olhos claros se fecharam com força e o garoto sentiu duas lágrimas quentes escorrerem. Ele se arrependeu do que dissera. Se arrependeu do olhar triste que o britânico lançou para ele. Se arrependeu de ter socado a mesa. Se arrependeu por estar descontando toda a pressão em cima dele em Arthur. Então, Alfred se deu um tapa ardido no próprio rosto, irritado consigo mesmo.
– Se ao menos ele me amasse de volta... – sussurrou com um resquício amargo em sua boca.
– Isso você poderia descobrir. – uma outra voz ecoou no recinto e Alfred se virou, procurando o dono dela.
Francis estava encostado à porta, os braços cruzados e um olhar estranhamente sério em seus normalmente brincalhões olhos azuis. O mais velho se aproximou e bagunçou um pouco os cabelos de Alfred, dando um meio sorriso estranhamente confortador. Pela primeira vez, o garoto enxergou o quão mais velho o francês era. Francis lhe lançou um olhar levemente pesaroso, como se lamentando os desacertos de alguém tão novo. Ele suspirou e retomou suas palavras.
– Alfred, ele nunca vai saber se você não disser.
– Eu não quero que ele saiba. – respondeu Alfred, em uma meia verdade. O garoto queria que Arthur soubesse, mas só se seu sentimento fosse correspondido. Senão, ele queria que o britânico nunca desconfiasse de seus sentimentos.
– Alfred... Vocês não podem continuar assim. – suspirou. – Você o faz sofrer também.
– Como você sabe quem é? – murmurou Alfred levemente encabulado, encolhendo os ombros.
– Acho que só uma pessoa no mundo ainda não percebeu. – o francês deu de ombros.
– E você acha que... ele... – Alfred murmurou, quase inaudível, embaraçado. – Eu...
– Eu não sei. – Francis deu um suspiro derrotado, evitando encarar aquele olhar despedaçado do garoto à sua frente. – Você é importante para ele, mas... Eu não sei até onde. E não sei se ele te corresponderia. Mas eu acho que você não vai suportar mais cem anos o olhando de longe, vai? – havia alguma ternura no olhar que o francês lhe lançou, e Alfred percebeu que aquele homem sabia que seu amor surgira quando ele ainda estava sob a responsabilidade de Arthur. E o pior é que o francês tinha razão. Quantas vezes, quando Alfred era adolescente, ele não vira Arthur sorrindo para acompanhantes e fora chorar em seu próprio quarto porque nunca seria o suficiente para o britânico? Quanto mais ele aguentaria o desdém que Arthur lhe reservava?
– Eu... Não quero mais isso. – seus olhos encheram um pouco de lágrimas, mas Francis nada comentou. O garoto parecia tão arrasado. – Mas... eu... eu preciso saber o que ele esta pensando. Eu nunca sei o que se passa naquela cabeça dura dele. – Alfred deu um meio sorriso ao se lembrar do quão teimoso Arthur era. – E eu não vou agir sem saber como ele se sente primeiro.
– Alfred, você sabe que ele nunca daria o primeiro passo. Arthur não é o tipo de pessoa que procura companhia, que admite o que ele sente. Eu não posso adivinhar o que esta acontecendo ou o que vai acontecer... – Francis parou, seus olhos azuis se arregalando em súbita realização. – Espera. Eu posso.
– O que? – Alfred levantou uma sobrancelha, analisando bem o francês procurando algum indício de que o francês estivesse brincando. Mas ele parecia completamente sério.
– Eu posso saber como ele esta se sentindo e o que vai acontecer.
– Como? – parecia quase bom demais para ser verdade.
– Tarot, mon cher. – concluiu Francis agarrando o braço do garoto e o arrastando para fora do banheiro.
– o Que? – Alfred não entendia mais nada, e se deixou ser arrastado pelo francês até a sala de reuniões de novo, vazia á essa altura.
– Tarot. A gente costumava jogar como um jogo de cartas comum, mas, depois de um tempo, passou a ser usado para dizer o futuro. Mas não se preocupe, mon amour, eu vou te contar o significado das cartas que você tirar – explicou ele adentrando a sala.
O francês procurou qualquer coisa em sua bolsa, enquanto Alfred o encarava perplexo. Alfred nem se deu ao trabalho de dizer como era estranho um homem carregar uma bolsa daquelas, mesmo sendo uma tão refinada e de bom gosto. Francis colocou de volta o pente de cabelo que estava em sua mão, o que fez o americano concluir que ele havia ido ao banheiro pentear os cabelos. Depois de mais alguns minutos fuçando suas coisas, o francês retirou de lá um montinho de cartas compridas.
A noite caiu rapidamente dentro daquela meia hora desde que Arthur deixou o recinto. Havia uma semi luz quase etérea envolvendo os cabelos ondulados do francês, que olhou profundamente dentro de seus olhos.
– Sente-se.
Alfred não ousou discordar, sentando-se em uma cadeira e observando o francês sentar-se na cadeira exatamente à sua frente. Por alguns minutos, ele apenas embaralhou as cartas, dezenas de vezes, dividindo o monte, juntando-o de novo, espalhando-o e reunindo-o. Uma tempestade começou a cair lá fora enquanto Alfred escutava o farfalhar das cartas sendo trocadas de posição. Finalmente, o francês colocou uma carta sobre a mesa, lançando-lhe um olhar preocupado. O garoto olhou para a figura. Era uma espécie de andarilho, com roupas desconjuntadas de bobo da corte. Um gato abria uma ferida em sua coxa e sobre o chão àrido cresciam algumas pequenas plantas.
– O que isso significa?! — Alfred se inclinou sobre a mesa, aflito.
– Esse é o arcano zero. — a voz do francês estava mortalmente séria e ele parecia preocupado. — É um arcano muito perigoso.Fala das faculdades mentais inconscientes agindo de maneira cega. — o garoto pareceu perdido em sua explicação. — É a loucura. A insegurança. Os exageros. Como andarilho, esse arcano simboliza uma caminhada que se detém. Uma decadência que não pode ser solucionada. Remorsos em vão. Abandono. — sentenciou, ainda que seus olhos quase se desculpassem quando fitaram os olhos chocados de Alfred.
Alfred se jogou de volta em sua cadeira e abaixou a cabeça, agarrando os cabelos e segurando-os com força. — Eu o estou destruindo, não estou? — sua voz tremia e as lágrimas voltaram a embaçar seus olhos claros, a dor tão evidente que chegou a apertar o coração do francês. — Eu estou perdendo o Arthur... — sussurrou Alfred olhando nos olhos do outro, despedaçado.
Mas Francis não estava ouvindo. Ele refletia sobre o significado da carta.
– Na verdade, Alfred... Eu acho que você é o único que pode salvá-lo.
– O que? – perguntou Alfred fracamente.
– Esse é o arcano de confusão, de mística, de bebidas, drogas e inspiração. É um arcano de totalidade: sozinho, é apenas um vagabundo, um louco. O Arcano zero precisa especialmente do Arcano 19. O sol. Ele precisa de alguém. – disse o francês simplesmente, olhando para o garoto à sua frente.
– Mas....
– Arthur precisa de alguém, Alfred. Alguém que esteja lá por ele. – Francis suspirou, colocando uma mecha de cabelos loiros atrás da orelha. – Ele é arrogante e insuportável, mas também é muito solitário. Acha que pode ser feliz assim, mas não pode. Ele precisa de alguém que se importe, alguém que o segure quando ele precisar chorar.
Alfred se mexeu desconfortavelmente em sua cadeira e desviou o olhar. – Você parece o entender bastante. Como sabe que não poderia ser você a estar com ele? – forçou-se a perguntar, seu peito queimando de ciúmes. Não era culpa dele não ter conhecido Arthur antes. O garoto tinha ciúmes daquele passado em que ele não estivera presente. Alfred odiava quando Arthur começava a falar com Francis, Ludwig, Gilbert sobre coisas que ele nunca viu, situações em que ele nunca estivera. Seus pensamentos foram interrompidos por uma risada alta e espalhafatosa.
– Não... Eu até poderia ser, mas eu não sou. – sorriu, seu olhar se perdendo por alguns segundos. – Se eu não amasse outra pessoa, quem sabe? – voltou a olhar distraidamente as cartas. Seu sorriso morreu. – Alfred, você precisa ir atrás dele. Agora.
– O quê?!
– Vai! – gritou o francês.
Alfred se levantou tão depressa que acabou por derrubar a cadeira em que sentava com um estrondo, mas o garoto não se deu ao trabalho de coloca-la de volta no lugar. Ele simplesmente saiu correndo, tão depressa que a borracha da sola dos seus sapatos fazia sons agudos ao raspar depressa no chão. Francis continuou a olhar para as cartas. Então, tirou outra.
Alfred saiu do prédio e olhou desesperado em volta. Não havia uma alma viva àquela hora na rua. A chuva já se transformara em uma leve garoa, mas o chão de pedra continuava encharcado, refletindo o céu muito escuro acima dele. O garoto continuou a correr, escorregando algumas vezes, mas desesperado demais para se importar. O que Francis queria dizer com aquilo? Como ele poderia salvar Arthur? E mais importante do que isso. O que teria acontecido com seu amado para Francis tê-lo mandado correr atrás dele imediatamente?
Alfred vagou pelas ruas por ao menos três horas, perdido pelas calçadas londrinas. O americano não se lembrava exatamente onde o britânico morava e não havia mais nenhum táxi na rua àquela hora. Ele andou, tentando refazer o caminho que fazia às vezes. Ok, ele quase nunca fazia aquele caminho. Alfred não visitava Arthur com muita frequência, na verdade. Depois de mais alguns instantes de agonia, o garoto vislumbrou, no fim de uma rua, uma casa familiar, com algumas rosas no jardim. Ele a reconheceu de imediato e saiu correndo até lá, indiferente ao frio ar noturno, que queimava seus pulmões enquanto Alfred os forçava a trabalhar no seu limite.
Ele pulou a grade e se colocou em frente à porta de madeira nobre da casa de Arthur, dando leves batidas com os nós dos dedos. Não houve resposta. Alfred passou a bater com mais força.
A cabeça de Arthur doía horrores, assim como todo o seu corpo. Ele acordou com um barulho irritante e incessante à sua porta. Tentou praguejar, mas sua voz arranhou na sua garganta e seus lábios se recusaram a se mover. A dor em sua cabeça ameaçava rachá-la em dois e o seu corpo agonizava, sentindo os cortes em sua mão e em sua bochecha ardendo. Ele apenas continuou deitado no chão de sua sala, fechando novamente os olhos, desistindo de se manter consciente.
Mas então, um estrondo ainda maior se fez ouvir e alguma claridade invadiu seus olhos fechados. Ele ouviu alguns passos apressados e pesados tremerem o chão e uma voz chamar o seu nome.
– ARTHUR!
O loirinho sentiu-se envolto em braços muito quentes e uma mão segurando sua nuca, tentando erguer sua cabeça.
– Arthur!
Espera, aquela voz... Alfred? Arthur esboçou um sorriso. Aquela era a alucinação mais cruel que já tivera. Por que sua mente insistia em enganá-lo com fantasias em que Alfred se importava? Porque aquilo só podia ser alucinação. Alfred nunca o visitava. Ele não estava lá. Aquela voz não era dele. Aquele tom assustado e apreensivo, aquele toque gentil e aquecido não podia ser dele. Arthur abriu fracamente seus olhos verdes, percebendo-se fitado por estonteantes olhos azuis.
– Arthur, graças a Deus, o que-
O loirinho não conseguia entender o que o garoto dizia. Mas o rosto dele estava tão perto e ele era tão quente! Instintivamente, Arthur se aninhou melhor naquele abraço. Os braços que o envolviam o apertaram com mais força e ele sorriu. Sua mão gélida encontrou força para se erguer e tocar levemente a face da sua ilusão. Então, Arthur se inclinou para frente e o beijou.
Notas finais
Bem, paradichlorobenzen é o nome da música do capítulo e ela não me pertence xD É de vocaloids, bem viciante, se alguém tiver interesse em ouvir, tem no youtube facinho xD
Bem, é só... Beijo pessoas bonitas! ^-^
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