Boulevard Of Broken Dreams
2 Capítulo 2 - A Torre
– Arthur, graças a Deus, o que-
O loirinho não conseguia entender o que o garoto dizia. Mas o rosto dele estava tão perto e ele era tão quente! Instintivamente, ele se aninhou melhor naquele abraço. Os braços que o envolviam o apertaram com mais força e ele sorriu. Sua mão gélida encontrou força para se erguer e tocar levemente a face da sua ilusão. Então, Arthur se inclinou para frente e o beijou.
Seus lábios sentiram o calor macio dos lábios do outro praticamente queimarem, mas ele não se afastou. Ele deu pequenos beijos sobre aquela boca trêmula, se arrepiando com a respiração quente do outro. Sua língua tocou-lhe os lábios e entrou, tocando a língua do outro, enlaçando-a em um movimento sutil de seu corpo anestesiado. Ele sentiu Alfred tocar a sua mão que estava sobre a face dele e, por um momento, Arthur achou que tinha sido correspondido. Mas o garoto o empurrou longe, de volta ao chão e o olhou chocado.
– Que merda você fez, seu idiota?!
Seus olhos verdes se arregalaram levemente. Não era um sonho. Alfred estava ali e Arthur tinha acabado de beijá-lo e acabar com qualquer chance que eles talvez tivessem. Ele nunca mais olharia para Arthur de novo... O loirinho sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e o seu corpo desistiu de se manter consciente, tentando escapar daquela dor horrível em seu peito.
Alfred olhou, assombrado, para o corpo inconsciente de Arthur. O que tinha acontecido? Ele apenas fitou a própria mão, desolado. Nela, tinha um pouco do sangue de Arthur. Aquele idiota tinha uma ferida enorme na própria mão. Alfred não queria ter gritado com ele, mas ele estava tão assustado, tão desesperado! Doía tanto ver Arthur ferido. Doía o descaso que o britânico tinha consigo mesmo. Ele olhou novamente para o loirinho, detendo-se nas roupas encharcadas dele e no corte enorme em sua mão, além de um mais discreto em seu rosto. Ele cheirava levemente a álcool e café. Alfred suspirou e tocou os lábios azulados de frio do loirinho. Por que ele havia feito aquilo? Será que o britânico estava imaginando que ele fosse outra pessoa? Naquela semi escuridão e dado o estado do loirinho, era perfeitamente plausível. Sem contar que acreditar que ele o amava também seria bom demais para ser verdade. Alfred deu um suspiro, seus dedos tremendo ao tocar os próprios lábios. Mesmo tão destruído, Arthur tinha um beijo tão suave...
Ele ergueu o pequeno corpo do britânico do chão, o abraçando com força. Com ele em seu colo, Alfred procurou pelo quarto dele e, assim que o encontrou, o sentou na beirada da cama. Lentamente e encabulado, o garoto tirou-lhe as roupas geladas que grudavam na pele de Arthur. Quando a última peça foi ao chão, Alfred não pôde deixar de perceber o quão bonito era o loirinho. O corpo dele era todo recoberto por uma pele clara e firme, quase como se ele fosse de leite. Existia uma leve penugem loira perto do seu membro. Seus quadris eram estreitos e dois pequenos ossinhos faziam um relevo suave na pele branca. Seus músculos combinavam com a estrutura óssea pequena e milhares de cicatrizes cobriam o seu corpo, muitas eram agora apenas algumas linhas mais brancas que sua pele normal. Seus cabelos loiros eram bagunçados, em um tom displicente, quase como se ele fosse um anjo e tivesse caído do paraíso e o vento tivesse brincado com seus cabelos durante a queda. Ele era forte e decidido, independente, teimoso e desconfiado. Mas mentia e não era honesto com seus sentimentos.
Alfred procurou algumas roupas em seu armário, optando por algumas que fossem parecidas com as que o britânico estivera trajando. Quando terminou de vesti-lo, tocou-lhe a face novamente e o envolveu em um lençol, aninhando-o em seu colo. Alfred lhe beijou a testa devotamente e tirou alguns cabelos de seus olhos fechados. Então, o garoto olhou, silenciosamente, para o rosto adormecido de quem ele amava tão desesperadamente. E o abraçou apertado, suas mãos largas por vezes esfregando-lhe os braços, tentando aquecê-lo. Ele estava tão frio que Alfred não ousou sair dali para procurar qualquer outra coisa. O garoto apenas o segurou apertado, beijando-lhe a bochecha e movendo-se para frente e para trás, inconscientemente ninando a figura adormecida de Arthur. Em alguns instantes, o pequeno britânico ficou febril e começou a tremer e delirar no colo de um Alfred apavorado.
– Arthur? Arthur, por favor... – sussurrou ele, assustado, abraçando o loirinho com mais força, seus olhos embaçando de lágrimas. – Não faz isso, acorda, vai... – implorou ele perdido.
Francis fitou longamente a carta em sua mão. – Em contraste com o fundo agourento de um céu de meia-noite, aparece uma estranha torre construída sobre uma rocha elevada e árida. Um raio lampeja nos céus, derrubando a coroa no alto da torre e lançando os seus habitantes para baixo... – recitou ele pensativamente. — Mudança de forma total e súbita. Quebra de velhas crenças. Abandono de relacionamentos passados. Corte de uma amizade. Mudança de opinião. Acontecimentos inesperados. Ruptura. Adversidade. Calamidade. Miséria. Fraude. Ruína. Divórcio. Fim. Destruição. Colapso. Queda. Perda de estabilidade. Um acontecimento súbito, que destrói a confiança. Perda de dinheiro. Perda de segurança. Perda de um amor ou de uma afeição. Contratempos. Mudança terrível. Penetrando em novas áreas. – ele largou a carta sobre a mesa e passou a mão pelos cabelos. Será que Alfred conseguiria chegar ao britânico antes que ele fizesse alguma bobagem irreversível?
Arthur abriu os olhos fracamente, mas não estava mais em seu quarto. Ele não sentia dor alguma também. Talvez ele tivesse morrido?
O loirinho deu um pequeno sorriso de escárnio. Claro que ele não estava morto. Ele não podia morrer. Mas, sinceramente, ele queria. Porque ele achava que ninguém se importava. Porque não tinha família. Porque acabara de perder Alfred de novo e, dessa vez, provavelmente para sempre. E, sinceramente, ele estava cansado. Cansado daquele mundo, cansado daquelas guerras, cansado de viver sozinho, cansado de amar Alfred em segredo por tantos anos.
Aquela sala provavelmente era só um sonho dele. Quando ele acordasse, Alfred estaria lá para gritar com ele de novo. Para amaldiçoar a sua existência. Para odiá-lo com tudo o que ele pudesse. Alfred nunca mais ia olhar na cara dele. E, Deus, aquilo doía. Porque o garoto ia ter nojo dele.
O tímido som de Arthur chorando passou a vagar pelo cômodo vazio. Parecia um grande quarto, mas não havia móvel algum. As cortinas vedavam toda a luz e escondiam a varanda e as janelas. O chão de mármore era frio e tudo cheirava a pó. O loirinho sentou-se sobre os joelhos e olhou para cima, seus olhos incrivelmente verdes transbordando.
– Hey, Brittania... – chamou Arthur em um sussurro, que ecoou no escuro da sala vazia. – eu quero morrer. – confessou.
Um anjo branco surgiu levemente diante do rapaz. Em fato, os dois eram muito parecidos. A diferença é que Arthur não passava de um pecador condenado a viver para sempre e Brittania era um anjo, puro e alado. O anjo fitou com carinho a face do seu protegido. Ele estava pálido, magro e a melancolia consumia seus olhos verdes. Ele estava ajoelhado, uma mão inutilmente tentando secar as lágrimas que ele deixava cair. O anjo passou os braços em volta do pecador, aninhando-o com suavidade, sentindo a dor dele rasgando seu pequeno coração de carne.
Brittania saiu do seu lado um instante e abriu as cortinas. O sol entrou majestoso pelo vidro das enormes janelas, que se estendiam até o chão. O céu estava nublado, mas o sol ainda insistia por trás das nuvens, inundando o quarto com luz branca. Então, o anjo pegou Arthur nos braços de novo e deixou o garoto chorar por alguns minutos antes de perguntar-lhe, suavemente.
– Por que isso, meu pequeno? – disse enquanto fazia carinho nos cabelos loiros do outro.
– Não existe nada de bom nesse mundo, anjo. – murmurou Arthur com a voz trêmula. – Eu não quero mais. Eu não suporto estar condenado a essa eternidade amarga e decadente. Esse mundo pra mim é pura solidão. Amar foi meu pior castigo. Eu fui obediente ao meu dever e representei essa nação por centenas de anos... Mas eu fui infeliz. Eu invejei cada rainha que eu tive, quando eu as via partir desse mundo. Eu queria ser humano também. Eu queria uma chance de ser feliz.
– Você aceitou isso quando veio pra cá, Arthur. – repreendeu o anjo levemente, afastando-se e olhando para o outro.
– Uma eternidade é mais tempo do que eu pude julgar... – sussurrou Arthur com pesar. – Eu já não sofri o bastante? Me deixa ir...
– Arthur, isso não é certo. Você não pode ir assim! Tem pessoas que se importam com você que vão sofrer se você morrer. – lembrou docemente o anjo, gentilmente colocando uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha do britânico.
– Ninguém se importa.
– Arthur isso não é verdade! Alfred se-
– ELE ME ODEIA! – gritou Arthur em resposta, chorando ainda mais. – Ele me odeia e quer me ver morto, esqueceu? Ele já me disse isso tantas vezes – continuou ele em um sussurro trêmulo e magoado.
– Arthur, não, ele te ama! – tentou o anjo, aflito.
– NÃO MINTA PRA MIM! – gritou o loirinho, tapando os ouvidos com as mãos, balançando a cabeça, tentando conter os soluços. – Eu não preciso da sua pena, droga!
– Arthur, eu não tenho pena de você, me escuta! – tentou Brittania novamente.
– Cala a boca... – pediu Arthur em um sussurro, olhando profundamente para os olhos também verdes de seu protetor. – Por favor...
– Arthur, me escuta... – pediu o anjo novamente, enxugando as lágrimas de seu protegido com os nós dos dedos.
– Brittania, por favor, não... Eu não quero ouvir mais nada. Eu quero morrer, só isso.
– Arthur, por favor, não me peça isso... – tentou o pequeno anjo novamente, seus olhos claros se enchendo de tristeza.
– Brittania, eu tenho direito ao livre arbítrio. Eu tenho o direito de escolher. E eu escolho morrer. Nem você pode me tirar esse direito. – sentenciou Arthur, extremamente sério.
O rosto do anjo se torceu em dor, mas ele não tinha o que argumentar. Livre-arbítrio estava acima de tudo. Essa era a diferença essencial entre tudo. Era exatamente por isso que existia o bem e o mal, para que coubesse aos homens decidirem que lado eles escolheriam. Era por isso que ele não podia exterminar o mal. Porque sempre precisa haver uma escolha. E nem ele nem ninguém podia obrigar os homens a ficar em algum lado. Eles tinham direito de escolha, mas também o dever de arcar com as consequências.
Por um instante, o anjo quase começou a chorar também. Porque sabia que Alfred ia ter seu coração partido em milhares de pedaços. Porque sabia que Arthur se despedaçaria também. Mas ao mesmo tempo, ele não podia interferir.
Suspirando, Brittania conjurou um pequeno caderno branco e uma caneta tinteiro.
– Muito bem. Se você tem certeza... – disse o anjo dando uma enorme pausa, esperando que seu protegido o contestasse ou mudasse de ideia. Mas o loirinho nada fez. Suspirando, seu protetor prosseguiu. – Eu vou anotar sobre a sua vida então. E, por favor, preste atenção. Se você encarnar de novo, você não vai se livrar dos seus problemas. Existem coisas que você precisa aprender, inevitavelmente. Então tudo o que você não aprendeu agora, você vai ter que aprender na sua próxima vida. – advertiu ele, para o qual o britânico apenas assentiu com a cabeça.
– Minha vida toda... Isso vai ser uma longa história, anjo. Nem um pouco bonita. — comentou Arthur, suspirando. – Ela não é diferente. Você, que já viu tantos outros passarem por esse mundo, provavelmente vai achá-la comum. Talvez você nem ache tão triste ao ouvir quanto eu achei quando vivi tudo isso.
Brittania olhou para a tristeza nos olhos de seu protegido e jurou a si mesmo que daria ao pequeno britânico uma nova chance. E ele lutaria para que ele fosse feliz.
– Eu já volto... – sussurrou o anjo dando um beijo no topo da cabeça de Arthur e desaparecendo no ar. Indo visitar o passado...
Quando Arthur abriu os olhos pela primeira vez, ele estava sozinho. Ele olhou para cima e viu copas de árvores. Ele parecia estar no meio de um bosque. Algumas plantas e arbustos... O ar era úmido demais e parecia não circular, completamente estático. Ele se remexeu e sentiu algo pesado ao seu lado. Lentamente, ele virou a cabeça e deitou os olhos sobre o que havia ao seu lado.
Era uma mulher morta.
Ela tinha os cabelos de um loiro meio sujo e os olhos arregalados. Seu corpo estava tombado de um jeito estranho e sua expressão era mortificante. Arthur se afastou lentamente, arrastando no chão, tremendo de medo. Parou quando suas costas tocaram um tronco de árvore coberto de musgo. Ele não conseguia desviar os olhos do cadáver. Ele viria a descobrir mais tarde que aquela mulher fora a representação da Grã-bretanha. Ela era, então, o mais próximo de uma mãe que Arthur viria a conhecer.
Ele olhou para si mesmo e percebeu que alguém – provavelmente a mulher – o havia vestido. Era uma capa escura com um lacinho verde. Certamente, ele estava agradecido pelo gesto da mulher. Mas a expressão dela, a morte que assombrava seus olhos abertos, o deixou apavorado. Ele começou a andar, tentando se afastar da imagem. De início trôpego e desajeitado, caindo dezenas de vezes. Suas pequenas e delicadas mãos sangravam àquela altura. A terra se misturou ao seu sangue e ele, de algum jeito estranho, entendeu.
Ele era aquela terra.
A noite caiu rapidamente e o pequeno garoto percebeu que estava perdido. Ele sentou no chão e começou a chorar, tremendo de medo daquele escuro e de todos aqueles barulhos estranhos que estalavam na floresta à noite. Mas no meio do breu, alguns pontinhos de luz se aproximaram e começaram a falar com ele em uma língua que ele logo aprendeu. Suas vozes soavam como pequenos sinos e as criaturas, as fadas, eram travessas às vezes, mas cuidaram dele e o explicaram algumas coisas sobre o mundo que elas conheciam.
Brittania observava, particularmente feliz, a cena de um dos dias da infância de seu protegido. Arthur brincava com as pequenas fadas, conversando com elas, aprendendo sobre pequenos feitiços. No entanto, houve um barulho na floresta e as fadas correram, aconselhando que o garoto fizesse o mesmo. O anjo virou-se e se deparou com os irmãos de Arthur. Eles vinham com pedaços de ferro em brasa nas mãos. Brittania fechou os olhos com força, decidido a não ver aquilo.
Mas ele não pôde deixar de ouvir os gritos da criança no silêncio da tarde.
Certa noite, enquanto Arthur conversava com as fadas, confortado pelas luzes quentes que elas emitiam, ele ouviu alguns cascos andando pelo chão da floresta. E ele nunca se esqueceria de quando, no meio da escuridão da noite, surgiu um unicórnio, seu pelo completamente prateado reluzindo sobre suas feições sérias. Depois de um tempo, Arthur passou a entender sua natureza calada e gentil, misteriosa e reservada.
Fora aquele mesmo unicórnio que o dissera que o destino dele não era ali e que o recomendara sair da floresta. Mesmo sem entender, Arthur confiava nas palavras dele, de modo que abandonou a floresta.
E sem rumo, o loirinho andou. Encontrou alguns pastos e construções. Depois viu vilarejos. Cidadelas... E eventualmente, com o passar dos anos, ele foi percebendo. Percebeu como as pessoas eram frágeis. Percebeu que elas envelheciam. E aquilo o fascinava. Talvez por elas serem tão breves, cada segundo da vida delas era especial. Ele assistiu muitas pessoas irem e virem, nascerem e morrerem, felizes e tristes. E ele não se cansava daquele milagre. Elas eram, para ele, como flores. Belas e breves. Elas encantavam seu mundo e seu dia.
E Arthur queria ser assim também. Enquanto ele aprendeu sobre a maldade do mundo, ele queria aprender sobre o amor entre as pessoas. Mas ninguém o amava como se ama outra pessoa. Ele nunca teria uma morte como a de tantos outros. Arthur nunca morreria segurando a mão de alguém que o amasse. Ele não morreria com um sorriso, convencido de que a vida era bela. Ele queria viver naquela brevidade, ocupar o pouco tempo que lhe fosse concedido, encantar pessoas, amar alguém.
Mas aqueles eram só sonhos de infância. O loirinho tinha recebido um nome, como qualquer pessoa. Só que ele não era como os outros. E Arthur percebeu isso rapidamente. Com o passar do tempo, todos o chamavam pelo nome do país que ele era. Não havia espaço para continuar sendo o que o seu coração achava que ele deveria.
E aos poucos, Arthur foi endurecendo. Ele não chorava, mas também não sorria. Ele era o que o país dele era. Ele se tornou como aquela terra. A criança, um dia, aprendeu a maldade do mundo. E o sonho se foi.
Se ninguém se importava com ele, por que ele deveria se importar com alguém? E aos poucos, ele construiu o Império Britânico. E, sinceramente, ele estava satisfeito.
Ele só não era feliz.
Só que, um dia, Arthur, sem saber, mudou tudo o que sua história seria. Ele encontrou um daqueles pontos-chave da vida, em que o destino de alguém se bifurca.
– Você deseja acompanhar a nossa expedição?
Arthur deteve o cálice á milímetros de seus lábios e ponderou a questão. A força naval britânica era realmente um de seus orgulhos. Era um prazer vê-la demonstrar toda a sua superioridade. Porém, claro, não fazia o menor sentido acompanhar a expedição. Ele, a personificação de uma nação tão nobre, se jogando no mar, a mercê de tantas doenças e desconfortos. E... Procurar terras além do mar ainda lhe soava tão estranho. Arthur não tinha muita certeza se acreditava nos relatos de outros capitães. E se eles alcançassem o abismo do fim do mundo?
E ele abriu a boca para recusar.
Mas se deteve. E nunca saberia explicar o porquê. Ele só... não queria ficar. Arthur queria ir. O oceano, de algum jeito, chamava para que ele viesse. E, na época, o britânico pensou que fosse apenas uma questão de orgulho pessoal. Ele não tinha medo. Ele se ria de abismos e fins do mundo. Afinal, e daí se morresse? Provavelmente outra personificação da Inglaterra surgiria. Ele só vivia pra isso mesmo...
– Claro que sim. Seria bom acabar com a monotonia, não? – respondeu vagamente, olhando para fora, acalentado por um sentimento estranho, como se tivesse feito algo certo. Seu tom era arrogante, mas havia alguma leveza nele.
Foi assim que, sem saber do que o esperava, Arthur embarcou na expedição e experimentou o mar. Não era a primeira navegação inglesa, mas era a primeira navegação de Arthur. E ele esteve eufórico, ele se sentiu vivo, depois de muito tempo. Quase conseguia lembrar-se de como era ter algum sentimento. E, no final da tarde, enquanto as ondas beijavam silenciosamente o casco do navio, o loirinho ficou introspectivo. Ele percebeu que existia uma vida que era dele. Ele não era só a Inglaterra. Ele era Arthur Kirkland. Mas... Afinal...Quem era Arthur Kirkland?
O loirinho já não lembrava mais.
E eis que vinha uma parte da história quase linda por si mesma. Era a parte em que ele conheceu uma pequena criança, adorável como ele mesmo nunca fora. E Arthur brigou por ela. O mais estranho de tudo isso é que aquela criança, linda e charmosa como o britânico nunca acreditava que seria, o escolheu. De algum jeito, Arthur se viu responsável por ela.
Ele nunca ousaria imaginar, naquela época, que um garoto de sorriso tão doce um dia poderia ser o responsável por tantas lágrimas vertidas em silêncio em inúmeras noites vazias. Mas, naquela época, Arthur se recusou a se preocupar. Porque... ele estava feliz. Sinceramente, feliz.
– Arthur, Arthur! – chamou o garoto.
Um Arthur ainda saindo da adolescência levantou os olhos do livro que lia e sorriu.
Alfred, aparentando seus 10 anos de idade, corria por entre um campo muito verde, em direção a ele. Arthur colocou seu livro de lado e abriu os braços, envolvendo o pequeno em um abraço eufórico por parte de Alfred e protetor da parte de Arthur.
– O que foi, Alfred? – perguntou o britânico enquanto o segurava no colo, em vão tentando bater a poeira das roupas do garoto.
– Aposto que não me pega! – dizendo isso, Alfred empurrou Arthur sobre a grama fofa e saiu correndo colina abaixo, gritando de euforia, seus cabelos de um caramelo dourado sacudindo com o vento.
Arthur riu e se levantou, acabando por correr atrás do garoto. Ele o seguiu colina abaixo, sentindo a euforia de correr assim, como não corria há muito tempo. Alfred ria alto e o olhava de longe, correndo. Arthur deu um sorriso largo e correu até ele, alcançando-o em alguns minutos.
– Te peguei! – disse o britânico, vitorioso, abraçando o garoto e o erguendo no colo. Alfred gargalhou, jogando a cabeça para trás, ainda ofegante da corrida. Arthur o pôs no chão depois de alguns minutos, bagunçando seus cabelos e lhe oferecendo a mão – Vamos para casa?
– Hum! – concordou Alfred, sorrindo e lhe dando sua mão, tagarelando sobre mil coisas que ele vira naquele dia. Arthur tinha um sorriso simples no rosto, contente com toda aquela rotina, planejando o jantar daquela noite.
Mais tarde, naquele dia, o britânico se encontrava arrumando a cama de Alfred, caprichosamente afofando os travesseiros e puxando as cobertas para que ele se deitasse. O garoto ainda parecia elétrico e não muito disposto a dormir, mas ele se acomodou na cama quentinha, olhando para Arthur com olhos cheios de expectativa.
– Você quer uma história? – arriscou o britânico.
–Hoje eu queria que você cantasse pra mim. – pediu Alfred, encantado.
Arthur ponderou por alguns instantes, pego de surpresa pelo pedido. Ele não conhecia canções de ninar. Ninguém nunca o colocara para dormir, então ele não sabia o que ele deveria cantar.
– Alfred, eu não conheço nenhuma música de ninar...
– Então inventa uma! – propôs o garoto, eufórico.
Arthur suspirou e assentiu com a cabeça, ouvindo um gritinho de felicidade do outro. Dando de ombros, ele resolver tentar. Primeiro, deixou apenas uma vela ao lado da cama, suficiente para iluminar os dois. Então, cobriu o garoto e sentou-se à sua cabeceira, entoando suavemente alguns versos. — As I walked on with a heavy heart, Then a stone danced on the tide... (Enquanto eu caminhava com um coração pesado, então uma pedra dançou na maré...)
Alfred ouvia, fascinado, o tom grave e sutil da voz de Arthur, naquele jeito que ele tinha de enfatizar as vogais quando ele falava, soando completamente diferente de quando o garoto tentava.
– And the song went on, though the lights were gone and the north wind gently sighed… And an evening breeze coming from the east, that kissed the riverside… — ( e a canção continuou, ainda que as luzes já tivessem ido e o vento norte gentilmente suspirado. E uma brisa noturna vinda do leste, que gentilmente beijou a margem do rio...)
E o garoto sentia algo tão bom quando ele estava assim, perto de Arthur. Era algo além do que ele podia entender, mas ele sabia que aqueles eram os melhores momentos da vida dele. Quando Arthur tinha tempo para ele, quando Arthur olhava para ele. E Alfred foi percebendo que queria ser a única pessoa na vida do britânico. Ele não queria dividi-lo com mais ninguém, não queria que mais ninguém ouvisse Arthur cantando tão suavemente. De fato, tão suave que fazia seu coração bater com mais calma, aquela euforia do dia lentamente dando lugar a uma quieta e confortável felicidade. Seus olhos azuis se fecharam levemente, como que para ouvir melhor a voz de Arthur.
– So I pray now child that you sleep tonight, When you hear this lullaby… May the wind that blows from haunted graves never bring you misery. May the angels bright, watch you tonight, And keep you while you sleep… (então eu rezo agora, criança, que você durma hoje à noite quando você ouvir essa canção de ninar. Que o vento que sopra de tumbas mal-assombradas nunca te tragam miséria. Que os anjos brilhantes olhem por você essa noite e te guardem enquanto você dorme...).
Arthur terminou o último verso bem baixinho, sorrindo quando percebeu que o garoto dormia. Silenciosamente, ele tirou a franja de Alfred da frente de seu rosto e lhe sussurrou um desejo de boa noite, retirando-se do quarto com a vela na mão, encostando a porta silenciosamente. Dali, ele fora trabalhar em seus papéis.
Quando a manhã chegou, o encontrou dormindo sobre sua escrivaninha sobre uma pilha de papéis assinados e um sorriso bobo em seu rosto.
– Arthur! – chamou Alfred, sacudindo-o impaciente. – Você dormiu aí de novo?
– Ahn? – o britânico olhou em volta, percebendo que já era manhã clara e que ele ainda não havia feito o café-da-manhã. Esfregando o rosto com as mãos com força, ele se levantou e se espreguiçou. – Tem razão eu acabei dormindo... Melhor eu me apressar e fazer o nosso desjejum...
Alfred o seguiu até a cozinha, acompanhando todos os movimentos de Arthur. O britânico nunca notara o fascínio que ele despertava em Alfred. Anos depois, aquela afeição profunda se tornaria amor por parte do garoto, mas Arthur nunca chegaria a perceber.
Naquele dia, o britânico tivera alguns trabalhos a mais para fazer e algumas reuniões, o que deixou o garoto sozinho pela parte da manhã. Ele detestava ficar sozinho, mas aprendeu que não adiantava fazer birra sobre isso. Arthur tinha que trabalhar e ponto final. O garoto foi brincar sozinho com seus brinquedos favoritos. Por coincidência, seus favoritos eram todos aqueles que o britânico viera em pessoa trazer.
O anjo observou, com um meio sorriso contente, o garoto tocar a face de alguns soldadinhos que Arthur lhe trouxera. Quando o britânico lhe dera aquele presente, ele tinha um braço quebrado e provavelmente ferimentos por baixo da roupa de manga comprida que ele usava. Mas ele lhe garantira que estava tudo bem. E Alfred acreditou naquela doce mentira e dormiu embalado pela ideia de que o britânico estava bem. Ainda que não fosse verdade e Arthur tivesse se embriagado até conseguir dormir, chorando de dor. Brittania balançou a cabeça. Ah se aqueles dois fossem mais honestos com eles mesmo, quem sabe?
Arthur recebera más notícias em sua reunião. Ele teria que voltar para casa mais cedo e não, não havia negociação. Ele suspirou frustrado. O britânico não queria voltar para a Europa. E mais uma vez, ele pôde ver a linha que separava a sua vida da vida do Império que representava. Arthur, a pessoa que ele era, queria ficar lá e não decepcionar Alfred de novo. Ele prometera que ficaria ao menos um mês, mas... Seus chefes ainda o mandaram parar de mimar o garoto e ficar mais de olho nele. Arthur tinha tanto orgulho de Alfred! E particularmente, se irritava quando alguém queria interferir no relacionamento entre eles. Frustrado, ele voltou para casa e foi dar as notícias para o garoto.
Mas quando ele chegou em casa, Arthur simplesmente perdeu a coragem. Alfred estava tão feliz em vê-lo! O garoto fez mil e um planos para os dois, que fizeram passeios à tarde e tomaram chá na sombra de uma grande macieira. À noite, eles jantaram e conversaram, enchendo a casa de sons e de uma certa felicidade misteriosa, que se entendia à cada cômodo, preenchendo tudo.
E, como sempre, Arthur arrumou a cama do garoto, esperando ele se aninhar entre as cobertas enquanto ele escolhia um conto para ler. Mas Alfred puxou a manga de sua camisa e exigiu outra música. Arthur já tinha gasto suas ideias da outra vez! Mas o garoto lhe lançou aquele olhar, tão azul, sobre ele, parecendo um pequeno cachorrinho, de modo que o britânico acabou aceitando. Dessa vez, ele resolveu cantar o que lhe vinha à cabeça quando ele pensava em uma boa noite de sono.
– May the ghosts that howled, Round the house at night Never keep you from your sleep May they all sleep tight Down in hell tonight Or wherever they may be… (que os fantasmas que uivaram, à espreita da casa durante a noite nunca te tirem o sono. Que todos eles durmam bem, nas profundezas do inferno hoje à noite, ou seja lá onde eles estejam...)
A voz de Arthur ainda era suave e doce aos ouvidos de Alfred, mas ele não gostava nem um pouco da ideia de fantasmas rondando a casa à noite!
–Nãão! – interrompeu ele quando Arthur fez menção de continuar, seus olhinhos claros se enchendo de àgua. – Eu não gosto de fantasmas, Arthur! E se eles vierem me pegar?
Se o britânico tivesse respondido como um adulto razoável algo como: ‘fantasmas não existem’, talvez Alfred tivesse se acalmado. Mas, munido de todo o seu conhecimento sobre o sobrenatural, Arthur ponderou e disse: — Eu acho que não... Os fantasmas vão assombrar os lugares onde eles morreram normalmente. Se forem vingativos, eles tentam matar as pessoas onde eles acabaram morrendo. Ou então vão puxar o pé da pessoa que a matou enquanto ela dorme para tentar arrastá-la pro inferno e...
Ele foi interrompido por um choro alto e escandaloso de um Alfred apavorado que se escondera embaixo das cobertas.
– Ahh, me desculpa, meu anjo... – sussurrou Arthur preocupado, tirando o garoto debaixo dos lençóis e o abraçando apertado. – Shh, shh... – continuou, sem muita certeza sobre o que deveria fazer. Alfred soluçava em seu colo, escondendo o rosto em sua camisa, ao que o britânico apenas continuou a abraçá-lo, perdido. Ele não tinha a menor ideia de como cuidar de uma criança assustada. Ninguém nunca cuidara dele quando ele tivera medo. Isso é, tinha as fadas, mas elas lhe diziam coisas assim.
Naquela noite, Alfred bateu o pé e se recusou a dormir sozinho. O garoto se agarrou à sua camisa e lhe lançou um olhar pidão com uma dose extra de medo. Nem é preciso dizer que Arthur não conseguiu negar o que ele queria. Ele simplesmente se deitou ao lado do garoto sem nem se cobrir, uma vez que não queria que Alfred passasse frio. Virando levemente para o lado ele apagou a vela e voltou a abrir os braços, acolhendo Alfred, que tremia. Aos poucos, no entanto, ele foi se acalmando, sua respiração voltando ao normal enquanto ele sentia o peito de Arthur subir e descer calmamente, ouvindo seu coração bater compassadamente. Alfred se aconchegou ainda mais, enterrando o rosto nas roupas do britânico, estranhamente mais tranquilo ao sentir o perfume que ele tinha.
Mas, em poucos minutos, Arthur já havia dormido, exausto do dia atarefado que tivera. Alfred ficou morrendo de medo, porque uma vez que o outro estava dormindo era quase como se ele estivesse sozinho! Na primeira meia hora, o garoto ficou com muito medo, sem nem querer abrir os olhos, apavorado com a ideia de abri-los e dar de cara com um fantasma. Mas depois, se aconchegando ainda mais perto de Arthur, Alfred fitou longamente o rosto adormecido dele. E, francamente, o garoto se distraiu de seu medo e achou que aquela sim era uma imagem muito bonita. Muito melhor que aquela arte chata que o britânico insistia em lhe ensinar. Ele tocou curiosamente as sobrancelhas de Arthur, rindo um pouco consigo mesmo. Elas eram legais, mesmo que alguns amigos do britânico sempre fizessem piadas sobre elas. Depois, Alfred tocou a bochecha de Arthur, surpreso com o quão macia ela era, ainda que tivessem uma cicatriz ou outra, pequenas, mas presentes. Diante do sono tão tranquilo do exausto britânico, Alfred decidira que se um fantasma aparecesse, ele ia brigar com ele! Ninguém nem desse mundo nem de outro mundo ia levar Arthur dele, isso ele podia garantir.
– Eu sou mesmo um herói” — Sorrindo, satisfeito consigo mesmo, o garoto virou o travesseiro com o lado mais geladinho para cima e deitou-se, abraçando o britânico e o trazendo mais para o centro da cama. Muito feliz consigo mesmo, Alfred suspirou e fechou os olhos, dormindo quase imediatamente.
Notas finais
Enfim, quero mandar um beijo especial para: invisibleJu Taiichan Lirium-chan e Carolchan989! Pessoas muito lindas que comentaram o capítulo passado! *-* hehe. fiquei tão feliz. hehe *-*
É, pois é xD Enfim, se mais alguma pessoa maravilhosa assim, de repente, se sentir com vontade de comentar, saiba que me faria muy feliz, viu? *le indireta forte* -q parei xD
Ahh e a música não me pertence, é Lullaby of London - The pogues o/
Beeijo! ^-^
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