28 de julho de 1914 – Estoura a primeira guerra mundial.

Arthur olhou para cima. O céu era azul, muito azul. Um pouco acinzentado por vezes, pela fumaça, mas indubitavelmente azul. O loirinho tentou focar-se naquele céu, naquela cor. Dava-lhe certa paz. Por longos minutos, ele apenas fitou os céus, se esforçando para que nada passasse pela sua cabeça. No entanto, alguém se mexeu ao seu lado e ele desviou o olhar. À sua esquerda a pilha de corpos era devorada por centenas de ratos, que vinham em bando comer a carne apodrecendo. Alguns insetos se amontoavam e competiam com os ratos por um pedaço do rosto de um dos seus meninos. Os ratos seguiam os exércitos, sabendo que, em poucos minutos, haveria carniça cobrindo o chão.

O loirinho engoliu em seco. Por quanto tempo mais eles ficariam assim? A guerra se prolongava e os dias se arrastavam daquele jeito. Muito silêncio, muitos corpos apodrecendo dentro das trincheiras, até finalmente um ataque. Então eles avançavam pelo território, cavavam outra trincheira e os dias se repetiam. Muitos dos seus garotos estavam adoecendo e morrendo em meio aos corpos que apodreciam e se misturavam à lama, que quase os afogava quando chovia. Arthur não ficava doente, mas sangrava toda vez que algum dos seus meninos era assassinado. Por sorte não havia invasões no seu território, nem nada efetivamente destruindo as suas cidades. Isso o faria sofrer com fraturas ósseas, hemorragias, ferimentos profundos.

Além disso, Arthur talvez não morresse, mas podia ser baleado, ferido e torturado. Seus olhos verdes focaram vagamente em seu ombro direito. O sangue corria e a dor era nauseante. Arthur sempre se deixava ficar por último no atendimento médico. Ele não iria morrer e ele queria proteger os seus meninos, envolvidos em uma guerra que eles nem entendiam direito porque acontecia. Um gemido dolorido deixou os seus lábios e ele se remexeu incomodado, fechando os olhos com força. O ferimento estava infeccionando...

Isso nada afetaria o seu país, no entanto. Era assimétrico. Se Arthur se ferisse, apenas o seu corpo sentiria os danos. Se a Inglaterra fosse atacada, seu povo assassinado em suas terras, Arthur conheceria a dor em sua última instância. Pelo menos não houve confronto direto sobre as suas terras...

Ainda assim, mesmo que fisicamente o cenário podia ser pior, psicologicamente era uma tortura. Arthur assistia os corpos se empilharem e o fedor ficar cada vez mais nauseante, os cadáveres cada vez mais deformados. Os ratos e insetos devorando e cobrindo os seus meninos... A lama, as doenças, o frio, a morte espreitando e ceifando milhares por dia. Aquilo o perseguiria em seus sonhos para sempre. O loirinho se sentava encolhido durante a noite e dormia abraçado à sua arma. E não era raro que ele chorasse dormindo, fosse pelos pesadelos, fosse pelas lembranças do dia.

Suspirou e voltou a olhar para cima. Era o seu melhor refúgio. O céu era meio embaçado, levemente acinzentado de fuligem, mas era azul. E Arthur amava aquela cor. Ainda que ela lhe trouxesse algumas lembranças que ele não queria ter. Aquilo o deixava menos solitário. Lembrava Alfred e ,embora este não estivesse ali, era como se estivesse. Arthur, no fundo, agradeceu por ele não estar.

Aos poucos, a luz abandonou o céu e tudo ficou escuro. Havia um pouco de luz da lua e uma ou outra estrela contrastante no azul muito profundo. Arthur olhou para os lados, verificando se os outros rapazes estavam bem. Deu um sorriso um pouco triste, em uma estranha e doce melancolia. Eles eram tão jovens, tão cheios de sonhos que eles deveriam alcançar... Na aparência, Arthur não era nem um pouco mais velho que nenhum deles, mas em seu coração, ele sentia como se fossem as suas crianças. A maioria deles não entendia aquela guerra. A maioria deles não odiava os seus inimigos. Eram só garotos...

Um dos rapazes sorriu para ele, acenando e se aproximou. Franziu a testa quando percebeu o uniforme ensanguentado e decidiu ajudá-lo com seu ferimento.

— Hey... – murmurou ele, ajudando-o a retirar a parte de cima do uniforme para ver melhor o ombro ferido.

— Você está se sentindo bem? – perguntou Arthur, preocupado, analisando o braço do outro, enfaixado sobre o uniforme.

— Melhor que você provavelmente. — resmungou o outro, franzindo a testa e tentando limpar o local. Estava infeccionado e muito inflamado. — Por Deus, Kirkland, há quanto tempo você está com esse ferimento aberto? — murmurou chocado.

— Uns dois dias, eu acho... — Arthur respondeu fracamente e sibilou de dor, tentando não se mexer muito e dificultar o trabalho do outro.

O rapaz tirou um frasquinho de bebida do bolso e tentou limpar algo que o loirinho mais ou menos entendeu como uma pinça. Era um trabalho muito difícil e a escuridão não ajudava. Arthur fechou os olhos e tentou conter os gemidos de dor quando a pinça remexeu, procurando a bala. Por agonizantes minutos, o rapaz errou, começando a ficar nervoso, e Arthur se remexeu, a dor aguda e insistente. Por vezes, ele pinçou a sua carne, fazendo fechar os olhos com força e trancar a mandíbula, tentando por tudo não gritar. Longos minutos depois, o rapaz conseguiu retirar a bala, enfaixando o ombro de Arthur com alguns panos, que pareciam razoavelmente limpos.

— Obrigado, Wood. – murmurou o loirinho, ofegando levemente.Voltou a fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, tentando suportar a dor insistente.

— De nada... – respondeu o outro, sentando-se ao seu lado. Por alguns instantes, eles ficaram em silêncio, Arthur ainda recuperando o fôlego. Alguns minutos passaram e o rapaz olhou para cima. – Que guerra... quando será que a gente volta pra casa? – perguntou, ainda fitando o céu.

— Eu não sei... – murmurou Arthur, olhando para o céu também. Ele queria tanto ter uma resposta para o garoto. Ia dizer alguma coisa, mas se deteve.

O silêncio da noite foi cortado por um barulho constante e rítmico.

— Ei... Isso é música? – o rapaz tomou coragem e ergueu-se um pouco, olhando por cima da trincheira. – Ei, Kirkland! Os alemães estão cantando!

— O quê? – perguntou Arthur, incrédulo.

Era verdade. Aos poucos, os soldados foram deixando as trincheiras e os comandantes negociaram uma trégua. Britânicos e alemães se juntaram e começaram a festejar. Arthur encarava tudo como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.

— O que está acontecendo aqui? – murmurou, meio perdido, os olhos arregalados, como se tentasse achar alguma sanidade em tudo aquilo.

— É natal, Inglaterra.

Arthur virou-se e encontrou Ludwig.

— Os meus meninos queriam comemorar o Natal. E, francamente, nenhum deles pensava como seria isso tão longe de casa. Eles queriam um descanso. – disse, passando os dedos pensativamente entre seus cabelos muito claros. – Os nossos garotos não se odeiam. A maioria nem entende porque essa guerra existe. – disse, olhando para os rapazes que bebiam juntos, a despeito dos uniformes diferentes.

— Acho que nem eu entendo mais porque essa guerra existe. – murmurou Arthur, olhando para os seus meninos também. Havia uma fogueira e eles dançavam e comemoravam o Natal. O loirinho quase se esquecera de algo assim. Por algumas horas, ele fez companhia aos seus soldados, bebendo junto com eles. Alguns ficavam mais afastados, olhando para pequenos retratos que traziam no bolso de pessoas que eles traziam no coração. Arthur se afastou também, sentando em um canto afastado da música e das pessoas cantando. Lá, ele olhou para cima, encolhendo-se e esfregando os braços. Estava frio...

A trégua durou alguns dias. Os soldados de ambos os lados aproveitaram o tempo para enterrar alguns dos corpos e tratar dos feridos. No entanto, mesmo depois que a trégua terminara, a guerra não recomeçara de verdade. A maioria dos soldados não queria atirar em alguém que eles conheciam e já tinham até tido como companheiro de bebida. Quando aquilo chegou aos ouvidos dos generais, foi ordenado que a fiscalização sobre os soldados de menor patente fosse intensificada e o número de tréguas caiu.

Arthur entendia o lado dos seus meninos. Ninguém ali queria morrer. E a maioria não tinha o menor interesse em matar. Eles não eram assassinos.

Honestamente, o britânico odiou aquele cenário, que destruía tanto, assassinava tantos e corrompia tudo. No seu íntimo, Arthur sonhava com dias de paz. Ele nunca contaria a ninguém, mas, nas raras vezes em que ele não tinha pesadelos, seus sonhos eram preenchidos por memórias meio borradas de uma valsa. Uma valsa que se repetia, de novo e de novo, olhos muito azuis sobre ele, abaixo de um sol alaranjado e cálido. Havia uma música que sussurrava ao fundo e o ar era leve, como se tivesse acabado de ser soprado por algum anjo distraído. Alfred sorria e o cenário girava, em uma época em que o mundo era enorme e a luz parecia transbordar e derramar. Uma dança que continuava, ao som de um acorde silencioso, que talvez se chamasse esperança. No entanto, uma valsa que não existia mais e que talvez nunca mais acontecesse. Era só uma lembrança, algo que suas mãos já não podiam mais alcançar.

Era uma valsa, que havia parado no tempo.

Os dias se seguiram. Mais uma vez, ele olhou para cima. O céu era azul, pálido, mas azul. Arthur já começava a se esquecer como era o rosto de Alfred. Fazia tanto tempo... Mas os olhos dele eram azuis. Disso o loirinho sabia. Eram azuis, muito azuis.

Alfred não entraria na guerra tão cedo. Não perguntaria se ele estava bem. Não procuraria notícias suas. Arthur mais ou menos esperava isso, embora houvesse um fiozinho de esperança que o fazia acreditar, no fundo de seu coração, que talvez Alfred se importasse.

Mas não havia tempo para isso. Arthur mantinha-se alerta, ajudava a traçar estratégias, enfrentava o que a vida lhe desafiasse a fazer. Nessa época, ele não pensou muito sobre a independência de Alfred. Seu trabalho exigiu tudo que Arthur podia fazer, distraindo-o completamente dos seus problemas. Arthur comandava, sua voz grave ecoando ordens ágeis e eficientes, tentando salvar o máximo dos seus garotos que ele podia. Ali estava ele, forte, decidido, corajoso. Alguém que ele quase esquecera que existia.

A Grande Guerra ainda contaria com armas químicas, o que pegaria Arthur completamente de surpresa. A primeira vez que ele teve contato com aquilo foi quando os alemães lançaram gás lacrimogênio para cima dos soldados britânicos. Arthur nunca, nunca esqueceria. Seus olhos ardiam e sua pele queimava, tudo queimava, seus olhos lacrimejavam descontroladamente e ele não conseguia enxergar. Sua cabeça doía e girava, deixando-o desnorteado e, por mais que ele tentasse, ele não conseguia respirar, parecia que alguém tinha enchido o seus pulmões de areia. Ele ofegava mais e sua garganta queimava ainda mais, engasgando-o, dando uma vertigem horrível. Quando tentou esfregar os olhos, o efeito foi ainda pior, queimando, lacrimejando mais ainda.

A guerra avançava e cada um dos lados tentava desenvolver mais e mais tecnologias. Como se já tivesse bastado a corrida armamentista nos anos que antecederam a guerra...

Os britânicos desenvolveram o primeiro tanque de guerra, capaz de passar por cima de trincheiras e proteger os soldados que operavam o veículo pesado. A Royal Air Force enfrentou os alemães pelos céus.

A situação ficaria pior e quase insustentável quando Ivan mostrava sinais de que sairia da guerra. Na Rússia, caía a monarquia Czarista e era instaurado o regime comunista. Isso favoreceu a Alemanha e aumentou em muito suas chances de vencer o conflito. Finalmente, em abril de 1917, os Estados Unidos, até então neutros, declararam guerra à Alemanha. Arthur evitou deixar que suas esperanças se exaltassem. Ele sabia porque Alfred estava entrando. Ele podia enumerar algumas razões óbvias. A Grã-Bretanha e a França aumentaram as importações de produtos americanos durante a guerra e contraído enormes quantias de empréstimos. Agora, sem a Rússia, a chance de derrota para os britânicos e franceses era muito grande e isso significaria um desastre econômico para os Estados Unidos, já que, derrotados, eles não teriam como pagar a dívida.

Além disso, os submarinos alemães estavam afundando navios americanos que levavam recursos e provisões para a Grã-Bretanha e a França.

No final das contas, era por dinheiro. Arthur não podia evitar a estranha melancolia que se aconchegava em seu peito. Seus olhos verdes talvez tivessem ficado embaçados e ele talvez tenha chorado. Ele já não tinha muita certeza sobre nada. Ele não queria mais guerras, não queria mais aventura alguma. Ele só queria voltar para casa e se trancar lá, lendo algum livro, esquecendo do mundo lá fora.

Em março de 1918, a Rússia saiu da guerra e a Alemanha levantou uma gigantesca ofensiva sobre os exércitos aliados.

“Anda logo, sapo inútil, os alemães estão aqui!” – gritou Arthur

“Cala a boca, seu bárbaro sem senso de moda, eu já estou indo!”

“Cuidado, idiota!”

Franceses e britânicos resistiram e a chegada de algumas tropas norte-americanas reforçaram as defesas, permitindo um contra-ataque aliado. O Barão vermelho foi morto em abril e enterrado pelos britânicos com honras militares, apesar de ser alemão. Fora um adversário formidável e os homens da época respeitavam a grandeza de um, mesmo que fosse inimigo. A Itália foi ajudada a avançar sobre as forças austro-húngaras. No fim de setembro, a Bulgária se rendeu e no fim de outubro, o Império turco. Em novembro a Áustria se rendeu. Finalmente, houve a Revolução Alemã e o governo provisório revolucionário derrubou o Kaiser e rendeu-se em 11 de novembro.

Finalmente, a Grande Guerra tinha terminado.

Arthur observava os seus meninos que tinham sobrevivido voltarem para casa. Ele queria ter ao menos uma flor para colocar sobre a terra, em memória ao jovem Wood. O loirinho sentou-se sobre a terra bege-acinzentada, suas coisas ao seu lado, seus olhos verdes perdidos na imensidão do céu. Afastado dos outros, longe e onde ninguém poderia vê-lo. Finalmente, aquelas lentes tão verdes se encheram de lágrimas e ele se encolheu, abraçando os joelhos. Seus soluços eram muito baixos, mas quase o engasgavam, um atrás do outro, queimando sua garganta. Ele chorou pelos seus meninos, pelas mães deles que nunca mais iam vê-los, pelos amores que eles deixavam para trás, pelos sonhos que nunca viriam a acontecer.

Sua dor era sincera. Finalmente, ele permitiu seu coração sentir aqueles sentimentos que o esmagavam. Não havia mais nada a ser feito, então, ele chorou. Aquilo era tão errado. Como ele podia olhar para os pais daqueles garotos, obrigados a enterrar os próprios filhos?

A primeira guerra deixou entre 10 a 15 milhões de mortos, cerca de 20 milhões de feridos, muitos incapacitados fisicamente ou mentalmente pelo resto de suas vidas. A Europa estava mergulhada em uma crise econômica e política e o mapa estava sendo redesenhando após a queda de quatro impérios.

Os minutos se arrastaram e Arthur ainda chorava. Chorava pelos seus meninos, pela dor no seu peito. No fundo, ele se sentiu muito sozinho. Sentado ali, olhando para um céu que começava anoitecer, abraçando os próprios joelhos. No fundo, ele se convencia de que as maldições que jogaram sobre ele quando ele era criança surtiram efeito. Ele provavelmente era amaldiçoado.

Finalmente, os soluços de Arthur cessaram e seus olhos já não tinham mais lágrimas para verter. Seu coração ainda doía, mais do que o seu corpo, coberto de novos ferimentos. Seus olhos verdes fitaram vagamente à frente, embaçados e cansados de tudo aquilo.

Alguns passos se aproximaram e Arthur ergueu os olhos, encontrando o rosto de Alfred. Ele fitou-o por alguns instantes e tornou a olhar para frente.

- E aí, Inglaterra? – a voz dele era alta e enérgica. Sentou-se ao seu lado. – Que guerra, hein? Ainda bem que eu, o herói, chegou para salvar vocês!

- Salvar? – Arthur fechou os olhos e os apertou entre o polegar e o indicador. Pensou no horror daqueles anos. Na pilha de corpos que ele enterrava todos os dias. Nos milhares de soldados que nunca voltariam para casa e cujos cadáveres nunca foram encontrados. Os deformados, dilacerados e os que enlouqueceram.

Olhou para os olhos do garoto. Azuis. Tão azuis. Ainda que houvesse algo como que uma sombra bruxuleando por trás deles. Seria impressão?

- É... – disse, ao final de tudo, calando-se em seguida.

Alfred sentiu algo estranho. A disputa na sua cabeça era enlouquecedora. Havia uma pequena parte. Uma parte muito, muito ínfima, que queria abraçar Arthur. Ele parecia tão vulnerável. No entanto, o melhor que ele conseguiu fazer foi dar um tapa no ombro dele e sorrir.

Arthur, no entanto, fechou os olhos e soltou um gemido dolorido, apertando o ombro e se encolhendo.

— Arthur? – Alfred levantou uma sobrancelha. – Tudo isso é velhice? – brincou, sorrindo.

— Isso é um ombro que levou três tiros, idiota. – sibilou Arthur, apertando o ferimento com força, sentindo-o voltar a sangrar. Levantou-se meio desnorteado com a dor, tentando sair dali. No entanto, ele tropeçou e perdeu o equilíbrio. Seus olhos verdes se fecharam e ele simplesmente esperou o impacto.

Arthur caiu de boca no chão, agora ganhando um lábio partido e o cabelo cheio de areia. Alfred se levantou, correu para o seu lado e o ergueu, puxando-o para os seus braços. Suas mãos largas sacudiram os cabelos loiros do outro, tirando a areia deles. Arthur sentiu o rosto esquentar com a proximidade. Seus olhos verdes olharam para cima e encontraram os de Alfred, notoriamente mais azuis do que antes. Um dos braços dele o segurava pela cintura. Os dois se encararam por um minuto inteiro.

Arthur sentiu o coração disparar, de repente muito consciente do quão próximo Alfred estava.

— Ei, cuidado... – murmurou o garoto depois de um minuto, ainda meio desnorteado depois de ter se perdido naqueles espelhos esverdeados que Arthur possuía. Seus braços não soltaram da cintura do outro, mas não houve nenhum pedido para que ele o fizesse. Os dois se fitaram por outro minuto inteiro, o sol aos poucos abandonando o céu e cedendo lugar à lua. Arthur foi o primeiro a quebrar o contato visual, ao fechar os olhos com força e gemer agoniado com o ombro que sangrava. Alfred o apertou mais em seus braços, ao que o loirinho passou um braço em torno da cintura dele, respirando fundo. Os ferimentos em seu tronco sangravam, molhando as bandagens por baixo do uniforme, mas Arthur não disse nada.

Foi delicado. Finalmente, o ar era preenchido por um perfume suave que exalava da pele macia de Alfred. Naquele momento, Arthur conseguiu esquecer das cenas que o aterrorizavam. Ele conseguiu lembrar que suas mãos sabiam fazer chá e escrever poemas. Elas não serviam para cavar sepulturas, balear outros jovens. Seus dedos se fecharam no tecido da camisa que o outro usava, sem perguntar nada, nem dizer seus medos em voz alta.

Ele apenas se deixou estar, naqueles breves minutos, no abraço que Alfred lhe concedeu.

Porque aquele momento era tal qual fora a valsa de Arthur. Foi bonito e passageiro. Tornou-se lembrança. Parou no tempo.

Meses depois, Alfred se recusaria a compor a Liga das Nações e o projeto fracassaria. Os Estados Unidos eram uma potência econômica, embora ainda não tão forte militarmente quanto a Europa ou o Japão. Sem a presença deles, a liga encontraria dificuldades em cumprir seus objetivos e não impediria que a Segunda Guerra Mundial acontecesse.

A Europa faliu. Arthur assistiu o seu país tentar se reconstruir e os vencedores explorarem a Alemanha, desviando toda a produção das fábricas dela para conseguir pagar a enorme dívida que Alfred cobrava dos aliados.

O mundo iniciou uma caminhada em direção a outra guerra. Que encharcaria o solo europeu de sangue.

Francis suspirou e recolheu as cartas. Deviam ser umas quatro da manhã, se ele não estivesse enganado. Esfregou os olhos claros, nervoso. E Alfred que não voltava... O francês deixou seus olhos azuis vagarem pela sala, tentando achar um relógio. Seus olhos analisaram a sala e se detiveram por um momento. Havia um mapa múndi desenhado no quadro negro. Lentamente, ele deixou as cartas e se aproximou. Seus dedos traçaram o contorno da Europa e deslizaram sobre o Atlântico, até finalmente tocar um país da América do Norte.

— Achei que tinha esquecido onde era.

Francis virou bruscamente, o coração aos pulos. Não era muito mais que um sussurro, mas ele ouviu com clareza. Olhos lilases o fitavam e um pequeno fio rebelde de cabelo estava na frente de um rosto muito bonito e delicado. Ele aninhava um ursinho em seus braços, mas não havia o sorriso cortês de sempre. Ele parecia triste.

— Matthew... – sussurrou o francês mortificado.

— Boa noite. – devolveu o outro em outro sussurro, sua voz delicada imprimindo certa melancolia ao seu tom.

Francis tentou retomar a postura e ser como ele sempre era. Como se aquilo não o tivesse surpreendido. Como se seu coração não tivesse disparado. Como se ele soubesse o que fazer.

— Boa noite, meu caro Mattheu! – disse, retomando seu tom charmoso e sedutor, seus movimentos exagerados e teatrais. Segurou uma das mãos dele e inclinou-se, quase ajoelhando e beijando-a. – O que traz a sua sedutora pessoa a mim esta noite? – piscou. – Você quer provar do país do amor?

Matthew retirou sua mão da do francês como se estivesse em chamas. Seu olhar tremeu. Por que Francis sempre era assim? Sempre tratando-o como se ele fosse um flerte de uma noite? Droga, ele sabia que o francês não ligava para ele, mas odiava quando ele flertava com ele assim, de brincadeira. Matthew apertou o ursinho em seus braços. Por que Francis era cruel assim? Por que ele brincava com os seus sentimentos? Isso doía...

— Me trancaram acidentalmente em uma das salas de pesquisa. – disse simplesmente, desviando o olhar. – Não me viram lá dentro e trancaram a sala. Eu estava lá até agora.

Mon Dieu, mon petit! E como você saiu de lá?

— Eu arrebentei o trinco. – respondeu o outro simplesmente, para o espanto do francês. Deu de ombros. Seu país tinha um poderio bélico considerável. Ele só não se intrometia nos assuntos de todo mundo como Alfred tinha o costume de fazer.

— Bem, bem, mas se você está aqui, não quer passar o resto da noite comigo? – perguntou Francis, meio automaticamente. Era sempre assim. Ele nunca sabia o que dizer, como se aproximar do canadense. Simplesmente porque ele significava demais. Nada do que ele sabia de conquista valia quando o seu coração estava tão na mão do outro.

Mattheu sentiu os olhos embaçarem de lágrimas. De novo, Francis o tratando como se ele fosse uma vagabunda qualquer que ele achava na rua. A mágoa se acumulou em seu peito.

— Você sempre diz que é o país do amor. O que você sabe sobre o amor? – sussurrou finalmente, sem olhar no rosto do francês.

O sorriso escorregou pelas feições do mais velho e ele voltou a ficar sério. Levantou-se do chão, colocando as mãos no bolso e olhando para baixo. As palavras de Matthew bateram e doeram fundo em seu peito. Porque talvez ele estivesse certo. O canadense prosseguiu.

— Eu te conheço desde que eu consigo me lembrar de existir. – continuou, em um sussurro. A sala estava levemente fria, a noite já avançava lá fora. – Desde que eu consigo me lembrar eu te conheço. E ainda assim, eu nunca sei quando você está brincando ou quando você está falando sério. Você bebe vinho, sai com o Arthur, flerta com todo mundo e faz brincadeiras pervertidas o dia inteiro com qualquer um. Todo mundo te considera um vagabundo que não se preocupa com nada.

Francis voltou seus olhos muito claros em direção ao outro, uma mecha de cabelo loiro, levemente ondulado na ponta, na frente do seu rosto. Algumas lágrimas ameaçaram cair das íris azuis e seu coração batia com força dentro do peito. No entanto, Matthew sorriu. Um sorriso magoado e doce, em uma confusão de que só ele era capaz.

— E ainda assim. – murmurou, seus olhos lilases finalmente encontrando os azuis de Francis. – Ainda assim você é o único que parece me ver. Arthur é sempre legal comigo, mas vive me confundindo com o Alfred. Você me vê, mas às vezes, finge que eu não existo. Às vezes, você olha pra mim como se eu importasse, como se você realmente pudesse me ver. Outras vezes você brinca e flerta comigo como se eu fosse outra pessoa qualquer, como se não importasse quem eu sou. – Matthew disse tudo em um tom muito quieto, quase nada acima de um sussurro. Porque ele não queria que as pessoas soubessem como ele se sentia. Ele não queria se sentir vulnerável. Ao mesmo tempo, ele não deixou de dizer, porque, em algum lugar dentro do seu coração, ele queria que as pessoas o escutassem. Ele queria que as pessoas notassem, mas não queria que elas notassem. Tudo era tão confuso.

— Matthew... – Francis queria evitar aquela situação. Ele não queria ouvir. Porque era tudo verdade. No entanto, com um suspiro trêmulo, ele desistiu de fugir. Ele fugira pelos últimos séculos, sempre evitando o canadense, por vezes ignorando-o de propósito. Porque, simplesmente, ele não sabia o que fazer. Em algum lugar, ele se apaixonara pelo rapaz, perdidamente e sinceramente. Só que era tão assustador! Ele vira tantas mortes, tanto horror e sangue, que ele tinha medo que algo delicado e suave como o amor, no fundo, não existisse. Por isso, ele se apegara ao amor carnal, ele vivia cheio de charmes e amantes. No fundo, ele não era ninguém para criticar o que Arthur fazia. Francis também procurara amor onde não existia, fugira dos seus sentimentos.

Ele se aproximou do canadense, olhando fundo em seus olhos.

— Matthew, mon amour, me desculpe. – disse, seu tom mais baixo e gentil.

— Não me chame assim. – para o espanto do francês, os olhos de Matthew tinham se enchido de lágrimas. Ele piscou e algumas delas rolaram pelas suas faces. – Mon amour... Você trata todo mundo assim. Eu já sou invisível o suficiente sem você me chamando como você chama todo mundo.

Francis parou por um momento, o coração estilhaçando ao ver Matthew chorando. Suas mãos procuraram o rosto dele e tiraram as lágrimas do caminho.

— Eu sei que eu chamo as pessoas assim. – admitiu, segurando a face do outro entre as mãos. – Mas isso só tem significado quando é pra você. – sussurrou, seus dedos colocando uma mecha atrás da orelha do rapaz. Viu-se fitado por lentes lilases que se arregalaram. Por um segundo inteiro, Matthew parecia chocado e esperançoso. Mas no outro, ele voltou a abaixar a cabeça.

— Mentiroso... – sussurrou ele, soluçando e tentando se afastar. – Eu sei que você não quer dizer isso, por que você mente pra mim? Isso não tem graça, droga! Por que você brinca com os meus sentimentos? – perguntou, perdido, olhando para o outro. Francis era simplesmente tão bonito. Ele era refinado, bem educado, charmoso e atraente. Os cabelos dele sempre perfeitamente no lugar, perfeitamente macios e penteados, emoldurando olhos de um delicado tom de azul. Ele tinha uma das melhores cozinhas do mundo e praticamente ditava a moda. Matthew era simplesmente alguém quieto, a quem ninguém nem prestava atenção. Ele podia ser bonito, mas todos o confundiam com Alfred, consideravam Alfred o garoto de ouro, o garoto brilhante da América.

Não era nenhuma surpresa que Francis o tivesse deixado.

— Matthew, eu estou falando sério...

— Não, você não está! – devolveu o canadense, desesperado. Ele se via acreditando no que o francês dizia, mas ele não queria acreditar. – Você vai me deixar pra trás de novo.... – sussurrou finalmente, olhando para baixo, suas mãos tremendo.

Mon amour... – murmurou o francês, trazendo-o para os seus braços, tentando fazê-lo parar de chorar. Suas mãos repousaram sobre as costas do garoto. – Shh... Por favor, não chora.... Eu... – ele hesitou, tropeçou nas palavras. Ele nunca sabia o que dizer, como agir quando estava perto de Matthew. Seu coração palpitava e ele ficava nervoso, como se os séculos que ele tivera para conhecer o romance não fosse nada, como se ele fosse apenas um jovem, perdido, sem saber o que dizer para quem ele amava.

— Você é horrível... – murmurou Matthew, escondendo o rosto no uniforme do francês, soluçando contra ele. Ainda assim, se aninhou nos braços dele. Era ali que ele se sentia mais seguro e, ainda assim, ali onde ele se sentia mais vulnerável. O perfume de Francis estava completamente à sua volta, fazendo seu coração palpitar. Mais lágrimas tocaram o tecido do uniforme do francês. – Se você me amasse, não teria me deixado pra trás. Teria ficado comigo e cuidado de mim como o Arthur fez depois que você foi embora. – disse em um sussurro magoado.

Francis o abraçou com mais força, escondendo o rosto.

— Se eu pudesse, eu faria tudo de novo. – sussurrou, algumas lágrimas deixando seus olhos claros. – Me perdoe, Matthew. Eu fugi esse tempo todo e eu admito isso. Eu... Eu só nunca sei o que fazer quando eu estou com você. – se afastou, voltando a olhar nos olhos do outro, deixando que ele visse suas lágrimas. Todas aquelas cartas, aqueles pressentimentos ruins... Francis sentia como se tudo pudesse acabar no segundo seguinte... Então, ele tomou coragem e parou de fugir, tentou se enfrentar. Suas mãos tocaram as faces do canadense, levemente fazendo-o olhar para si. – E eu estou morrendo de medo. Eu não sei mais o que eu faço... Eu queria que você saísse da minha cabeça... – confessou em um sussurro, finalmente seus sentimentos levando a melhor sobre o seu orgulho.

– Eu amo você, Matthew. Como eu nunca achei que fosse amar alguém.

Alfred fitava a face de Arthur, ainda envolvendo sua figura inconsciente. Os minutos se arrastavam e ele não acordava. O garoto passou a balançar-se devagar para frente e para trás, murmurando uma música muito antiga. Uma que talvez ele tivesse dançado. Uma que também nunca se apagara de seu espírito.

Não era apenas Arthur que sonhara em ter de volta alguns momentos que agora jaziam presos em memórias.

Notas finais
Bem, saiu mais cedo do que eu imaginava xD Tava pronto ontem, mas eu ainda não tive revisado... Bom, os fatos históricos citados aconteceram mesmo. É bem famoso o episódio do natal na primeira guerra mundial. E quanto aos alemães usando gás lacrimogênio contra os britânicos também. Aliás, o primeiro tanque de guerra chamava "Matilda" xDDD (nome de mulher, agora vejo que a má fama das britânicas é velha kkkkk)
Bom, no mais, estamos avançando. Provavelmente eu vou demorar mais na segunda guerra e na guerra fria, só avisando..
E nessa não há carta, devido ao fato de que o Francis não teve tempo para isso. Eita agora quero ver xDD
(E sim, ju, I LIED XDDD eu só não queria destruir o elemento surpresa 8D xDD)
Agradecimentos super especiais para as pessoas lindas que comentam essa historia *-* É por voces que vale a pena continuar a escrever TT-TT