Boulevard Of Broken Dreams
40 Capítulo 40 - O mundo, parte I
Notas iniciais
PARTE I
Na manhã de Natal, quando ainda fazia muito frio lá fora e todas as coisas pareciam preguiçosas, Matt saiu da cama de fininho, cuidadosamente se desvencilhando dos cobertores e saindo sem ser notado. A manhã de Natal era dia de abrir presentes (como Alfred sempre insistia) e o canadense ficara de ir buscar o seu presente para Francis ainda. Arrumou-se silenciosamente, e conteve a vontade de dar um beijo na bochecha do namorado que dormia. Francis tinha o sono muito leve, e merecia dormir mais um pouquinho.
Mais ou menos duas horas depois, quando o francês acordou, sentiu falta do peso de Matt do outro lado da cama. Curiosamente, tateou os lençóis, percebendo que já estavam frios, o que queria dizer que já fazia algum tempo desde que ele saíra.
– Matt? – chamou, um pouco alto. – Matt?
Sem resposta, tateou a mesa de cabeceira e pegou o celular.
– Nove horas e quatro minutos. Sem mensagens novas. – informou a voz mecânica. Irritado, jogou o celular de volta na mesinha, ouvindo-o deslizar e cair com um som abafado no tapete.
Sentou-se no meio da larga cama de casal, coberto até a cintura, e ficou alguns instantes parado. Respirou fundo, tentando se manter calmo. O que podia fazer? Gostaria de sair correndo atrás de Matt no mesmo exato segundo. Mas... Nem isso podia fazer.
Respirou fundo, tentando não se deixar levar pela tristeza e frustração que às vezes o assolavam. Saiu da cama, tateando atrás de roupas. Era estranho que o canadense tivesse saído tão cedo, ainda mais considerando que eles dormiram tão tarde. Não... poderia ter acontecido nada não é?
No entanto, por misericórdia, ou por milagre de natal, antes que pudesse imaginar alguma tragédia ou fazer alguma besteira, ouviu a porta da frente abrindo. Imediatamente andou, o mais rápido que podia, até a sala, o coração batendo contra a garganta.
– Matt, onde foi que você esteve? – disse, um tanto nervoso. — Eu estava preocupado com... – sentiu alguma coisa passar perto da sua perna esquerda, então se mover pela sala. Congelou imediatamente onde estava. — Matt, o que é isso? – perguntou, sua voz um pouquinho trêmula, já um tanto apreensivo, e um pouquinho assustado. Havia alguma coisa viva andando pela sala, e parecia estar indo na direção da voz do canadense.
– Um cachorro. – respondeu-lhe o canadense, gentilmente, quase como se estivesse se desculpando pelo susto. – Desculpa te assustar. – murmurou, e Francis, quando percebeu o quanto conhecia Matt, quase sorriu, apesar de ainda estar um pouquinho tentado a lhe dar uns tapas pelo susto.
E quase sorriu de novo quando percebeu o quanto Matt o conhecia. Porque Matt não esperou que ele descobrisse o que era, mas contou imediatamente. A maioria das pessoas pensaria em manter a surpresa, ainda mais Francis que demoraria tão mais que os outros para descobrir. Mas Matt não fez isso. Não faria isso. Sabia que Francis não gostava de ser surpreendido assim, e sabia que é horrível estar de olhos fechados na presença de algo vivo de que não se tem ideia do que seja, então podia imaginar que não era legal ser cego e as pessoas colocarem coisas vivas na sua frente sem lhe informar o que eram.
– Nossos passeios... No parque. Você parecia gostar dos cachorros, e achei que... um cão guia... – continuou o canadense, segurando a coleira de um obediente cachorro branco, de porte médio. — Eu sei que você não gosta da bengala, mas eu pensei que você fosse gostar dele... E eu posso te ajudar a cuidar dele para não te cansar muito. – disse, abaixando-se para fazer carinho no bichinho, fazendo a medalhinha em sua coleira tilintar de leve.
Francis se aproximou devagar, ajoelhando no tapete da sala mais ou menos perto de onde a voz de Matt vinha. Sentiu uma movimentação à sua direita, e estendeu a mão. Podia sentir o pelo macio do cachorro, que calmamente deixava que ele o tocasse, sem fazer confusão ou tentar pular em cima de si. Um pouco depois sentiu a cauda macia balançando animadamente, traindo a empolgação do animal, mas que se mantinha essencialmente parado.
– ... gostou? – perguntou timidamente o canadense, parecendo um pouco nervoso. A voz dele tremia um pouco, levemente mais aguda que sempre.
– Eu... – o francês começou, mas, por algum motivo, sentiu um nó tão grande na garganta, que não conseguiu falar. Tinha a sensação de que seus olhos estavam um pouquinho marejados também. Já pensara num cão guia, mas a verdade é que tinha medo. Medo de admitir que precisava de um, medo de não conseguir cuidar dele sozinho, medo de tomar a iniciativa de ir atrás de um.
Ele era um covarde, em muitos sentidos, que se escondia atrás do seu piano e fingia que nada mais existia. Talvez por isso Matt tivesse sido o primeiro a se declarar, o primeiro a fazê-lo sair e fazer as coisas que queria fazer. Matthew era uma pessoa forte, de um jeito que Francis nunca conseguiria explicar. E ele o fazia querer ser forte também. Em tudo, Matt o fazia uma pessoa melhor.
– Por que vocês não vão dar uma volta? – e a voz dele parecia alegre como um dia de sol, daqueles que Francis apenas podia sentir o calor, mas que ele apreciava mesmo assim. — Está um dia bonito, e hoje a confeitaria abre mais tarde.
– Você não vai? – tornou o francês, acariciando o topo da cabeça do cachorro e descendo até encontrar a coleira.
– Você quer mesmo que eu vá? – e Francis sentiu que a pergunta era sincera, e que ele não ficaria chateado se ele dissesse não.
O francês sentiu o coração falhar uma batida, então disparar em seu peito. Engoliu em seco, sua mão ainda tocando de leve a coleira do cachorro. Mordeu o próprio lábio, hesitante.
Sabia andar por aquelas redondezas, das poucas vezes que saíra com uma bengala. Mas... achava a bengala tão... não gostava de usá-la e ponto final. Mas um cão guia era bonito, até estiloso, de alguma maneira. E Francis gostava de se sentir elegante. Era parte importante de si mesmo a vontade de ser elegante, e poder andar confiante de si mesmo por aí. Poder sair de cabeça erguida, com confiança, para onde quisesse ir, aquela sensação imensa, de liberdade e euforia.
– Eu... volto logo. – disse ele finalmente.
Sair, para onde quer que ele quisesse ir? Não o caminho que decorara para a confeitaria, que ficava exatamente do lado de sua casa. Mas... outros lugares. O quarteirão, por exemplo.
Um sorriso muito largo ergueu as maçãs do rosto do francês, e ele saiu porta afora com o coração pulando no peito. Ele não viu o céu muito azul, ou a luz do sol sobre as ruas e carros como todas as outras pessoas da rua viram. Mas ele viu um pedaço de si mesmo, com certo jeito de coragem e felicidade, que nenhuma das outras pessoas na rua viu.
As festas de fim de ano vieram, e então passaram, como a maioria das coisas nesse mundo. O próximo ano começou um tanto frio, e passava a sensação de folha em branco como todos os outros.
Era... estranho começar outro ano. Muito embora, em seu íntimo, Alfred soubesse que os anos eram simplesmente uma convenção inexata, e que nada realmente mudava no universo ao trocar o último algarismo daquele numeral específico, mas... ele não podia deixar de querer que aquele ano fosse especial. Melhor.
O ano que passara fora tão confuso e difícil. De um momento para o outro tinha sido chutado de casa, vira Arthur chorar e desabar com a morte da mãe, estiveram juntos durante tudo, mas houve brigas e dificuldades durante todo o tempo. Chegara a quase terminar com Arthur, embora o amasse desesperadamente.
Mas, de certa forma... gostaria de colocar isso atrás de si, virar a página, fazer daquele ano uma época boa de sua vida. Era reconfortante poder represar aqueles momentos ruins sob o selo de “ano passado”, como se, de 31 de dezembro para trás, tudo pudesse ser isolado e realmente deixado para trás, virado passado finalmente.
Por isso, o garoto tentava fazer planos. Grandes planos. No momento, Alfred encontrava-se muito quieto, tomando pensativamente sua caneca de café. Estava em uma missão seriíssima, difícil como o treinamento de Luke Skywalker para se tornar um jedi... não, não, mais difícil. Difícil como... Procurar a arca perdida? Derrotar Khan? Lutar contra os klingons?
Bagunçou os cabelos, frustrado. Estava se sentindo ridículo até mesmo em seus pensamentos. Nem mesmo conseguia pensar em uma boa comparação para a dificuldade que estava tendo com seus planos de pedir Arthur em casamento.
Peter dormia em seu colo quietamente, a bochecha pequena e macia repousando contra o ombro do garoto. Alfred beijou-lhe a outra bochecha, quase que por reflexo. Olhou para os papéis com informações de novas casas disponíveis para serem alugadas estavam espalhados sobre a mesa. Sorriu de lado, ajeitando Peter em seu colo, momentaneamente se perguntando quando ele havia crescido tanto.
Arthur passou pelo corredor, toalha de banho em mãos, assobiando alguma música dos Scorpions.
Ele andava tão feliz ultimamente. Leve e... simplesmente... feliz. Por Arthur, eles já teriam se mudado há algum tempo, mas Alfred estivera pensando em não apenas alugar uma casa, mas comprar uma. Estivera economizando, mas ainda faltava um bom tanto. Ao mesmo tempo, não conseguia deixar de imaginar... Uma casa nova, realmente deles... Ele e Arthur, e Peter, e, quem sabe, no futuro, adotar uma outra criança?
Ia ser tão estranho. Era um passo grande, realmente grande para se dar. Alfred nunca tinha sequer pensado em comprar algo que custasse tanto dinheiro como um imóvel há um ano ou dois atrás. Há dois anos atrás ele ainda recebia uma mesada e comprava uns quadrinhos e consoles com isso. Era estranho estar olhando apartamentos e casas para alugar, e até mesmo comprar.
Ao mesmo tempo, embora fosse um pouquinho assustador, Alfred precisava admitir que estava ansioso. Ia ser legal começar uma vida realmente nova com Arthur. Eles poderiam ter uma casa do jeito deles, mais adaptada para se criar uma criança. Mesmo os móveis provavelmente teriam que ser todos trocados assim que Peter começasse a andar, porque os atuais, ainda da mãe de Arthur, eram antigos, e tinham várias quinas pontudas que machucavam bastante. Alfred mesmo tinha alguns roxos por causa disso, e não gostava nem de pensar no estrago que fariam em Peter.
Enfim, um lugar novo. Será que conseguiria convencer Arthur a ter um cachorro alguns anos pra frente? Ou gatos, Arthur gostava de gatos. Mas seria preciso testar para ver se Peter teria alergia aos bichinhos. Na verdade, como mudanças são muito problemáticas, o garoto gostaria de ficar ao menos alguns bons anos na próxima casa, então seria bom se ela fosse perto de uma boa escola.
– Hey, Alfred!
Acordou de seus devaneios com Arthur acenando uma mão na frente de seus olhos. Os cabelos claros dele ainda estavam molhados, e suas bochechas um pouco coradas do banho quente. Desperto de seus devaneios, Alfred reparou em Peter, que aparentemente havia acordado em algum momento, e se jogava para frente, balançando as perninhas e estendendo os braços para Arthur, que prontamente o pegou no colo e apoiou-o com um dos braços.
– Alfred, eu estava perguntando o que você vai querer pro jantar. – tornou o loirinho, bagunçando os cabelos do garoto com uma mão, com um pouco mais de força que sempre, só de implicância.
E, mesmo com o projeto da casa nova atrasado, mesmo que Arthur queimasse a comida e fizesse as receitas mais esquisitas da face da Terra, e mesmo que algumas vezes Peter tirasse os dois da cama às quatro da manhã, Alfred não conseguia se lembrar de uma época em que estivera mais feliz como agora.
Mas ele queria que Arthur fosse mais feliz ainda. Queria fazer do seu pedido de casamento algo especial e incrível, que pudesse arrancar o melhor sorriso de que Arthur era capaz. Mas lhe faltavam palavras para dizer o que estava na ponta de sua língua, e ele simplesmente acompanhou Arthur escadaria abaixo e descongelou o jantar, enquanto o loirinho se ocupava com a comida de Peter.
Depois do jantar e da lavagem das louças, Alfred e Arthur se esticaram no sofá da sala, a televisão ligada em algum canal aleatório, e Peter brincando com a bola colorida que ganhara no Natal. Arthur dividia sua atenção em assistir um pouco do programa e assistir o menininho brincar. Não passaram nem dez minutos da monotonia, Arthur já começando a cochilar de leve no ombro do garoto, quando foi sacudido pelo braço.
– Arthur, Arthur, Arthur!
– O quêêê, caramba! – respondeu o loirinho, se desvencilhando de Alfred e empurrando-o para o lado.
Alfred meramente apontou para frente, e o olhar de Arthur acompanhou.
Peter acabara de ficar em pé, apoiando suas mãozinhas na mesa baixa de centro. Quando percebeu os dois olhando, deu um passo para o lado, então outro e outro, até cair com um som abafado no tapete macio.
Alfred e Arthur levantaram do sofá em um pulo, ainda muito chocados para dizer alguma coisa. O garoto abriu a boca algumas vezes, mas nenhum som saiu. Respirou fundo e segurou Peter em pé, apoiando os bracinhos dele, observando-o firmar-se nas duas pernas. Soltou-o devagar, e reparou que ele continuava de pé.
– Arthur. – disse o garoto, um pouquinho trêmulo. — Arthur, acho que ele já consegue andar. – e, experimentalmente, segurou seu bebê pelas mãozinhas e andou com ele um metro ou dois para longe de Arthur. Alfred virou para trás, olhando para o loirinho com um par de olhos arregalados, sem saber o que fazer.
O loirinho encarou-o de volta, um meio sorriso começando a se equilibrar sobre seus lábios, muito embora ele ainda parecesse um tanto nervoso, e outro bom tanto preocupado de Peter dar de cara no chão com essas estripulias.
– Acho que ele consegue sozinho... – considerou o garoto. – Eu posso soltar ele aqui, e tentar fazer ele andar até aí. – disse, pesando a ideia na própria cabeça. Peter pareceu cansar de ficar em pé, sentando-se escorado nas pernas do garoto.
– Alfred, não. – cortou o loirinho imediatamente.
– Eu não acho que ele vá cair, Arthur. – disse Alfred, erguendo Peter em pé outra vez e soltando-lhe as mãozinhas, contente quando ele não caiu ou sentou de novo. – E você sabe que ele nunca vai aprender a andar sem cair algumas vezes. – continuou o garoto. Arthur engoliu em seco uma vez, parecendo realmente dividido, mas assentiu.
– Vai até o Arthur, vai. – incentivou o garoto, virando a criança na direção do loirinho a alguns metros a sua frente.
– Vem cá, Peter. — Arthur estendeu as mãos, parecendo apreensivo e disposto a correr atrás do bebê caso ele desequilibrasse e caísse.
Peter viu o loirinho e riu, andando desajeitadamente até ele, tropeçando no final com a ansiedade em ir para o colo de Arthur, que sorriu e abraçou a criança quando ela o alcançou. Aquela risada de bebê voltou a tilintar e ele ficou em pé, ainda abraçando o menininho em seu colo. Era... tão estranho cuidar de uma criança. Era tão pequena e tão frágil uma vida daquele tamaninho.
Sentiu quando o garoto envolveu os dois em um abraço, falando um monte de coisas que Arthur sinceramente não ouviu. Ele nem precisava de mais nada. Ele só... estava tão feliz ali. Uma felicidade tão... grande, que ele se sentia insuficiente para conter tudo aquilo em si, e ele quase podia chorar.
A vida se renovava. Sua mãe se fora, mas ali, na sala de estar bagunçada, estavam as maiores provas da existência dela. Em Arthur, o garotinho órfão que ninguém queria, mas a que ela amou como um filho. Em Alfred, que pagara os preços por amar quem o coração mandava, mas que também encontrara nela uma mãe. E Peter, tão pequeno que talvez nunca fosse se lembrar do rosto dela, mas que fora deixado aos cuidados de dois pais dos mais corujas e dedicados. Arthur construíra uma família. Desajeitada, talvez, pequena e incomum, mas era seu bem mais precioso. Nunca teria entendido o amor de Elizabeth aos seus filhos se não tivesse Peter ali. Nunca teria conseguido suportar tudo sem Alfred. E... mesmo que tudo tivesse dado tão errado em alguns momentos... ele era feliz.
A cada sonho seu que viu despedaçar, Arthur foi criando milhares de outros e seguindo em frente. Porque viver era algo estranho assim. Sempre... havia uma nova oportunidade. Cada dia começava do zero. Era um mundo realmente... misterioso. Havia algo de quase milagroso na maneira como em um dia qualquer coisa podia acontecer. Absolutamente, qualquer coisa. Fora em um dia como qualquer outro quando ele conhecera Alfred. Quando ele vira Elizabeth pela primeira vez. Quando ela partiu. Quando seu irmãozinho deu o primeiro passo nesse mundo. Dias em que ele amanheceu uma pessoa, e, quando foi se deitar, já havia se tornado outra. No breve espaço entre um amanhecer e outro havia uma infinidade de possibilidades. Uma infinidade de chances para que o destino começasse a acontecer. Milhares de segundos que lentamente construíam os sonhos em realidade. Um milhão de maneiras de ser perdoado. Nenhum caso era perdido, nenhuma falta era imperdoável, nenhum sorriso era desnecessário.
E então, pela primeira vez... Arthur não se importava. Não se importava por ter sido abandonado em um orfanato. De alguma forma, sua vida convergiu para que ele tivesse conhecido todas aquelas pessoas. Para que ele amasse Alfred. Para que ele tivesse aquela criança. Arthur sentiu o coração batendo com força em seu próprio peito.
Seja lá quem fosse que o tenha posto no mundo... Arthur era grato.
O loirinho ergueu um olhar muito verde, e encontrou os olhos claros do garoto sobre si. Arthur ajeitou a criança em seu colo, deixando-a descansar a cabeça sobre seu ombro enquanto um sorriso invadia suas feições. Viu Alfred espelhar o mesmo sorriso e encostar a testa dele na sua.
– Não disse que ele conseguia? – murmurou o garoto, bem humorado.
– Se ele caísse eu ia te bater. – murmurou o loirinho, mas faltava irritação em sua voz. Embora ele tentasse ficar sério, seus olhos denunciavam o quão feliz ele estava em ter exatamente a vida que tinha. Peter começara a cochilar no colo de Arthur, que disse algo sobre ir colocá-lo no berço, e dera o sorriso mais bobo e mais doce de todos os papais corujas do mundo, e era estranho ver aquilo em um menino tão novo, mas ao mesmo tempo era a coisa mais linda de todo o mundo.
Por alguma razão, naquele exato segundo, o garoto teve certeza de que tudo o que queria era continuar com Arthur, para sempre. Mesmo se ele se esquecesse de tudo, e pudesse recomeçar a vida de novo, tinha a estranha sensação de que escolheria Arthur todas as vezes.
– Eu te amo. – murmurou Alfred, na porta do quarto, enquanto Arthur colocava Peter no berço. – Eu te amo. – repeptiu, porque era tão verdade. Viu-se refletido naqueles olhos verdes que o outro tinha, sentindo-se estranhamente realizado quando Arthur sorriu. Aproximou-se dele e entrelaçou os dedos de sua mão com os do loirinho, apertando.
– Eu também te amo, Alfred. – e pela primeira vez, as palavras fluíram naturalmente. Arthur soou muito certo do que dizia. Ele parecia mais velho, mas também mais calmo, em paz consigo mesmo. A luz da rua, que adentrava pelas janelas, iluminava seu rosto, e o sorriso que se sustentava em seus lábios.
Alfred sentiu o coração falhar uma batida, então voltar a bater desesperadamente. Era como se... fosse muito para que o coração pudesse suportar, então... ele precisava colocar um pouco para fora, e fazer dos seus sentimentos, palavras. De repente, era fácil, e as palavras que ele tanto procurara estavam na ponta de sua língua. Levou uma das mãos à face esquerda do loirinho.
– Arthur. – murmurou, olhando no fundo dos olhos verdes do outro. – Casa comigo?
Arthur piscou uma vez. Duas.
– A-Alfred. — e a voz do loirinho tremeu, então ele desviou o olhar. – Hah... isso não tem graça.
– É sério... – murmurou o garoto, colocando uma mão sobre a face do outro e fazendo-o olhar para si. — Arthur Kirkland, você quer casar comigo?
O loirinho sentiu o coração bater na garganta, e seus olhos claros embaçaram. A resposta que queria dar estava bem ali, entalada em sua garganta, e ele não conseguia dizê-la. Respirou fundo, e sua voz saiu em um fio.
– Eu... tenho vinte e um anos e uma criança pequena pra cuidar. Eu ainda tenho pesadelos às vezes. Eu... não terminei a faculdade, sequer tenho condições de me sustentar, e sou provavelmente o pior partido possível. – murmurou, e ele gostaria de dizer tanto mais, tantos outros motivos de porque ninguém deveria escolher uma pessoa como ele.
– Eu tenho vinte anos, já fui chutado de casa, não tenho ensino superior e eu acho que minha conta no banco nunca teve mais de 3 dígitos. — o garoto deu um sorriso meio embaraçado, mas divertido. – E eu também tenho uma criança pra cuidar. – acrescentou, seus olhos claros desviando brevemente para fitar seu filho dormindo.
Os olhos de Arthur embaçaram e as palavras lhe fugiram inteiramente. Ele conseguiu um meio sorriso, antes que as lágrimas derramassem, uma atrás da outra. No segundo seguinte, Alfred o tinha em um abraço muito apertado, lábios encostados na orelha de Arthur quando ele confessou, como se nunca tivesse dito antes, que o amava.
Arthur apoiou a cabeça no ombro do garoto e chorou, sentindo Alfred apertá-lo um pouco mais em seus braços.
Então, Alfred acolheu a face de Arthur entre as mãos, beijando-o de leve.
– Você merece ser feliz, Arthur... – murmurou o garoto contra os lábios do loirinho. Os olhos verdes de Arthur encheram de lágrimas outra vez e cintilaram desesperadamente.– Ela se orgulharia de você. — Era tão injusto que aquele garoto pudesse dizer exatamente o que Arthur precisava ouvir.
Arthur segurou o garoto pelo casaco, seus dedos apertando o tecido com força. Como era possível que Alfred sempre conseguisse salvá-lo em poucas palavras?
O garoto circundou sua cintura com os braços e afundou os dedos nos cabelos claros de Arthur, em um carinho lento e reconfortante. O loirinho respirou fundo, afastando um pouco as lágrimas.
– Então...?
– Hm? – a voz de Arthur falhou um pouco e ele não ergueu o rosto.
– Minha resposta.
O loirinho apertou-o com um pouco mais de força e escondeu o rosto com mais determinação no casaco do garoto.
– Sim. – murmurou contra o ombro de Alfred, seu coração batendo com muita força, muito rápido, uma sensação de... euforia, medo, impossibilidade, felicidade. Afastou-se um pouquinho, e, ainda chorava, mas finalmente sorriu.
O sorriso que Alfred lhe pusera no rosto naquele dia parecia vir de todo o coração de Arthur, um sorriso enorme, que ele nunca soubera sorrir. A expressão concreta da felicidade de uma pessoa que Alfred amaria até o fim de seus dias. Até depois do fim dos dias. Sorriu de volta, seu coração palpitando e uma sensação de que havia gelo na boca de seu estômago. Estava ansioso, muito ansioso mesmo.
Aos poucos, com o passar das semanas, os dois foram espalhando a notícia, pensando no formato convites, considerando lugares para dar a festa. Era... divertido. Sentar na mesa da cozinha e discutir a festa e as novidades, mesmo os detalhes chatos e monótonos sobre aluguel de salão. Fazia... parecer mais real.
Quando a lista de convidados já estava pronta, e os convites encomendados, quando já chegavam algumas respostas de pessoas confirmando presença, ainda assim, Arthur ainda precisava contar a notícia a uma pessoa.
Então, para fazer isso, Arthur acordara cedo naquele domingo. Não dormira muito, mas estava sem sono, de qualquer forma. Levantou da cama, resmungando quando pisou em um dos brinquedos de Peter. Agora que ele aprendera a andar, pareciam se espalhar mais pela casa. Revirou os olhos e guardou o brinquedo. Vestiu-se em silêncio, sem acordar Alfred, que ainda dormia pesadamente na cama. Permitiu-se um meio sorriso bobo, e uma última olhadinha no garoto, que dormia de barriga para baixo na cama, espalhado. Checou Peter, que ainda dormia quietamente, parecendo bem claro que nenhum dos seus dois meninos ia acordar tão cedo. Arthur então, silenciosamente desceu até o jardim, quieto e introspectivo. Estava um pouco frio, e muito silencioso naquela manhã de domingo. Arthur também não quebrou o silêncio. Apenas agachou-se ao lado de sua roseira e cortou todas as rosas, as cheias e as ainda em botão, arranjando-as em um buquê absolutamente fantástico.
Fez o caminho sozinho pelas ruas calmas e pouco movimentadas, quieto. Em alguns minutos, cruzou o grande e largo portão de ferro do cemitério. Respirou fundo, seu coração apertado, e sua respiração um pouco trêmula. A última vez que estivera ali, fora para o enterro da mulher mais incrível que já conhecera em toda a sua vida, e que tivera coração suficiente para deixar que um menino como Arthur a chamasse de mãe.
Arthur caminhou lentamente pelas ruelas do cemitério, preenchidas por muito verde e algumas flores deixadas aqui e ali. Seus passos não faziam muito barulho ao tocarem o chão de pedra da pequena alameda. Ele se deteve em frente ao túmulo de sua mãe, lendo o nome dela sobre a pedra. Seus olhos verdes se detiveram ali e ele sentiu o coração apertar, e algumas lágrimas ameaçarem transbordar. Ainda doía.
Arthur não sentia pena por ela ter morrido cedo. Ela era boa demais e, com certeza, se havia um céu, era para lá que ela tinha ido. Não, não era pena. Era só.... uma saudade dolorida e constante, ainda que resignada. O vazio que algumas pessoas deixavam era muito grande, e a dor nunca ia completamente embora. Dor nenhuma ia completamente embora. Era só que eventualmente ela se tornava parte de si, e ir em frente era possível outra vez. A dor o acompanhava, em certo sentido, mas era... suportável. Como Alfred sempre levaria consigo as lembranças de quando seus pais se voltaram contra ele, mas conseguira ir em frente. Na esperança de um dia ser capaz de perdoá-los, e diminuir um pouco o peso do fardo que levava. Arthur também sempre levaria a saudade que sentia de sua mãe, mas agora conseguia seguir em frente. Na esperança de um dia ser capaz de sorrir quando fosse levar flores ali.
Agachou na frente do mármore branco, arrumando o buquê de rosas violáceas. Fitou o céu azul acima de si, seus olhos cintilando como mil diamantes verdes conforme as lágrimas caíam.
– Sabe, mãe... O Peter... cresceu tanto. Você precisava ver. – murmurou, recusando-se a olhar para a lápide. Se havia uma coisa de que Arthur tinha certeza era de que sua mãe não estava ali. Então, ele escolheu olhar para o céu, infinitamente vasto, que continha infinitas possibilidades.
Se havia uma razão pela qual ele estudava física era porque ele era fascinado pelo mundo. Não as pessoas, ou os países, ou os governos, mas pelo mundo. Pela possibilidade de vida. Por todas as estrelas que queimavam no céu, em azul, vermelho, violeta. Por todos os segredos e mistérios que ele nunca conheceria, mas que saberia apreciar, e buscaria entender. O universo era absolutamente imensurável, e ele nunca saberia dos seus segredos. Seus olhos nunca veriam tudo o que existia no mundo.
Por pensar assim, no fundo, Arthur tinha muita certeza de que sua mãe era muito mais do que um corpo. Tinha muita certeza de que... ela estava em algum lugar, era parte do grande mistério do mundo. Tinha muita certeza de que... ela nunca o deixara. Ela... não era o tipo de mãe que deixaria os filhos sozinhos no mundo.
Outra lágrima desceu quente pela face do loirinho, e ele respirou fundo.
– Eu arrumei um emprego e... o Alfred vai voltar a estudar esse ano. – contou, em um fio de voz, com um meio sorriso. – Ele me pediu em casamento. – e Arthur estava tão feliz, e ao mesmo tempo, tão, tão triste. Seu coração, totalmente perdido, apertou em seu peito, e ele afastou uma lágrima do rosto, conteve um sorriso emocionado, e tentou lidar com os próprios sentimentos. – Vai ser... incrível. Eu gostaria que a senhora estivesse aqui para ver. – queria continuar a falar, mas as lágrimas o sufocaram, e sua voz não saiu. Por longos minutos, não conseguiu dizer nada, e apenas o som do vento lhe fez companhia, espalhando o perfume das flores.
Respirou fundo uma outra vez e enxugou as lágrimas. Deu outro meio sorriso.
– É engraçado como eu... eu pensei que nunca fosse conseguir sem você aqui comigo. – sua voz falhou, e ele olhou para cima, tentando impedir que as lágrimas caíssem. – Mas... e-eu acho... que você teria orgulho de mim agora. — Respirou fundo e baixou a cabeça, fechando seus olhos, que transbordaram.
Então, ergueu a cabeça outra vez, e sua respiração tremulou por entre as lágrimas. Levantou-se, e encarou por longos minutos o mármore branco.
– Eu... – começou, com a voz fraca. – Eu nunca tinha vindo antes visitar o seu túmulo, porque eu sentia que nunca poderia conviver com a ideia de que... – sua voz quebrou, mas ele continuou. – de que você tinha... ido embora. – respirou fundo, tremulamente. – Nunca porque me esqueci, nunca porque eu não amava você. – porque a verdade era que ele a amava profundamente. A verdade é que se lembrava dela todos os dias. – E... eu só... – seus olhos verdes transbordaram, e ele tentou continuar por entre as lágrimas.
Porque, ali, em frente à sepultura dela, ele só podia se lembrar daquela noite, de Scott no telefone, e... a notícia do hospital. Não... conseguiria nunca mais esquecer como se sentira, parado sozinho no corredor de casa, chorando como uma criança e tentando não acordar um bebê no quarto ao lado que acabara de perder a mãe. Parecia... fazer tanto tempo. Naquela época, Arthur fora só um menino assustado, chorando como se isso fosse resolver.
Mesmo agora, ele ainda sentia tanta falta dela, que algumas vezes, inconscientemente, ele ainda procurava por ela na cozinha de manhã. Como se fosse encontrá-la fazendo chá, encostada ao balcão.
Respirou fundo e continuou.
– Em tudo... eu só queria agradecer. Por tudo. Por você ter sido a primeira pessoa nesse mundo a me aceitar. Por ter salvado a minha vida. Tantas vezes e em tantos sentidos. – disse, e era um tanto libertador poder dizer aquilo. — Eu... prometo que volto. – deu um meio sorriso. De alguma maneira, sentia que conseguiria fazer aquilo outras vezes. Em certo sentido... precisava fazer aquilo.
Mas, ainda assim, seu coração parecia muito apertado, e a perda parecia muito recente outra vez. Então, Arthur refez o caminho de casa. E lá, o loirinho apenas procurou o garoto, deitando a cabeça sobre o ombro dele e fechando os olhos. Seu lábio tremeu, e seus olhos encheram de lágrimas, mas ele não disse coisa alguma. Alfred o abraçou apertado, sentindo-o esconder o rosto em seu ombro, os dois parados no meio da sala de estar.
– Shhh... o que foi, Arthur? – murmurou o garoto, preocupado, afundando os dedos nos cabelos do loirinho, ainda muito seguro em seus braços. Arthur negou com a cabeça, e continuou com o rosto no ombro do garoto.
Alfred, ainda com os braços em torno de Arthur, puxou-o para deitar consigo no sofá. Porque as pessoas não conseguiam ser fortes o tempo todo. Arthur sentia-se cansado. Tristeza era algo muito cansativo. Era pesado.
Mas não era algo que ele precisasse carregar sozinho.
Arthur não soube quanto tempo ele permaneceu ali, abraçado a Alfred. Mas soube que foi tempo o suficiente para o seu coração parecer mais leve. Colou seus lábios aos dele brevemente, várias vezes, e explicou onde estivera entre murmúrios, aos poucos, e o nó em sua garganta também pareceu sumir aos poucos. Quando terminou de contar, Alfred o apertou um pouco mais em seus braços, e também se calou, porque também parecia à beira das lágrimas por um momento.
Arthur então, respirou fundo e se afastou. Havia um meio sorriso cansado em seus lábios. Era difícil, claro que era. Mas ele precisava conseguir. Por um momento, ele segurou na mão do garoto, pelo conforto da própria noção de que ele ainda estava ali. Então, apertou-a um pouco na sua, porque não sabia como dizer sobre os sentimentos que tinha naquele momento. Não saberia agradecer a Alfred por estar sempre ao seu lado. Sempre, nas horas em que Arthur mais precisava. Não saberia dizer o quanto o amava, não saberia como se fazia para transformar em palavras aqueles sentimentos.
Mas Alfred soube a imensidão do amor e gratidão de Arthur quando se viu fitado por duas lentes muito verdes, marejadas e muito límpidas. O loirinho fitava-o em um olhar arrasado, grato e tímido de quem entregara o coração a uma outra pessoa e recebera de volta muito mais do que julgava merecer.
E porque Alfred não aguentava ver Arthur tão triste, o garoto escondeu-o em abraço, seus dedos entrelaçados nos cabelos claros do loirinho, perto da nuca. Deitou-se com o loirinho em seus braços e beijou-lhe o topo da cabeça, carinhoso, devoto.
Arthur fechou os olhos, respirando fundo, distraído momentaneamente pelo coração do garoto, que batia solidamente abaixo da palma de sua mão. Amava Alfred de uma maneira tão... total, que não tinha mais volta. Então, Arthur teve orgulho de si mesmo, ao mesmo tempo em que admitiu que era um tolo. Era preciso ser muito corajoso, e provavelmente, um tolo para amar alguém daquele jeito.
Alfred se ajeitou melhor no sofá, esparramando-se, ainda com Arthur parcialmente deitado sobre si como um cobertor. Entrelaçou os dedos entre os cabelos do loirinho, em um carinho leve e distraído. Arthur fechou os olhos e deixou-se ficar no colo do garoto, triste, mas se sentindo incrivelmente amado. Alfred se tornara uma constante em sua vida. Mesmo quando todo o resto dava errado, mesmo quando não havia mais ninguém ao seu lado, sempre houvera Alfred. No final do dia, se Arthur tivesse desenvolvido a melhor pesquisa de todos os tempos, ou se tivesse sido cometido um erro estúpido no trabalho, Alfred ainda estaria esperando-o em casa. Mesmo quando Arthur estivesse chorando por coisas que já não podiam ser mudadas, Alfred inevitavelmente o abraçaria, e ainda amaria seu lado mais lamentável. Em tudo, Arthur agradecia o fato de o amor ser essencialmente sem razão. Se houvesse um motivo único e sólido para que o garoto o amasse, estaria tudo perdido. Porque todos os motivos eram passageiros. Um dia, a beleza passaria, e, mesmo em seu coração, ele já não seria a mesma pessoa. Se Alfred o amasse pela pessoa que ele era hoje, um dia, aquilo também passaria. Da mesma forma como Arthur amava aquele garoto por razões que ele mesmo não conseguia explicar, Alfred o amava por motivos que não saberia nem identificar. Por todas as coisas, e, ao mesmo tempo, por nenhuma delas.
Em alguns minutos, o garoto percebeu que Arthur havia adormecido.
Peter estava sentado alguns passos distante do sofá, brincando com a bola que ganhara no natal. Eventualmente, jogou a bola com mais força do que pretendia, fazendo-a quicar na mesinha de centro e ir parar do outro lado da sala. Alfred sorriu e observou a pequena criança loira rir com o salto da bola, mas franzir o cenho ao perceber que agora ela estava do outro lado do cômodo. No entanto, determinado, Peter apoiou as mãozinhas no chão e ficou em pé, um tanto precariamente. Então, andou pela sala, um tantinho instável, caindo uma ou duas vezes, até pegar sua bola de volta. Alfred sorriu, e, quando Peter passou de novo na frente do sofá, agarrou-o e beijou-lhe as bochechas, erguendo-o no ar e recebendo uma risada clara de bebê.
Arthur se mexeu com a movimentação, erguendo a cabeça, anteriormente deitada no peito do garoto, e focando um verde sonolento sobre os outros dois.
E, de repente, Arthur percebeu que... tinha tantas coisas. Tantas mesmo.
Algumas vezes, pensara como a vida de Alfred seria melhor se ele tivesse tido outras oportunidades, e como a sua própria vida teria sido se sua mãe ainda estivesse ali. Mas... em muitos sentidos, Arthur... era grato por tudo. Se as coisas tivessem sido diferentes, ele provavelmente nunca teria conhecido vários lados de Alfred. Se o garoto nunca tivesse sido confrontado pelos pais, Arthur nunca saberia do quão íntegro aquele garoto podia ser, do quanto ele era sincero em seus sentimentos, do quanto ele era corajoso. Nunca saberia que Alfred o escolheria, e permaneceria ao seu lado.
Mesmo sua mãe. Não é como se ele estivesse feliz que ela não estivesse ali. Era... triste e difícil, mas Arthur sabia admitir que muitas coisas importantes em sua vida aconteceram devido à ausência dela. As responsabilidades, problemas, mesmo as brigas com Alfred, agora que os dois moravam juntos, os problemas financeiros, mas também tudo o que aprendera com tudo isso. Ele agora era uma pessoa muito mais madura e capaz.
E, se ela ainda estivesse ali, Arthur nunca... nunca teria tudo a chance de criar Peter como um filho. Nunca teria visto Alfred embalar um bebê tão pequeno em seus braços, e brincar com ele, colocá-lo para dormir. Nunca teria entendido a extensão do comprometimento de Alfred. Era... incrível a sensação de confiança que surgira entre os dois. Arthur aprendera a confiar que Alfred estaria lá por ele e pela criança que os dois cuidavam, e Alfred confiava em Arthur da mesma forma. Em tudo... Arthur tivera momentos incríveis com os dois. Veria Peter crescer, entre tardes em seu colo, assistindo-o desenvolver longas equações, e algumas noites mal dormidas, dias de passeio e tardes de chuva dentro de casa.
Talvez, ainda perdido em seus devaneios, tenha adormecido por alguns momentos, pois a próxima coisa que se lembrava era de ter acordado com a voz de Alfred:
– Vamos lá, Peter. – dizia ele para a criança deitada sobre o seu peito. — O Arthur é a sua mamãe e eu vou ser o seu papai. Repita comigo: ma-mãe. – e apontou para o loirinho.
– Alfred, pare de ensinar coisas esquisitas a ele! – indignou-se Arthur, erguendo parte de seu tronco para olhar feio para Alfred.
– Olha Peter, a mama está nervosa! – disse o garoto, jogando a cabeça para trás e rindo com gosto.
Alfred! – censurou o loirinho, dando-lhe um beliscão no braço e tomando ar para começar um inflamado discurso sobre porque Alfred era um idiota.
– Hmmmnn... – a criança fez cara de choro e os dois pararam imediatamente de brigar para olhar. O irmãozinho de Arthur hesitou por um momento. – Mmm....
Os dois continuaram a olhá-lo, esperando para ver se ele ia mesmo começar a chorar.
– Mm... mama! – disse ele tentando alcançar Arthur.
– E-eh? Eeeeeeeeeeh??! – gritaram os dois ao mesmo tempo.
– Ele falou! Arthur, ele falou! – gritou o garoto, sacudindo Arthur pela manga da camisa.
– Eu ouvi, seu idiota! – gritou Arthur de volta, rindo junto com o garoto, e ele não podia se importar menos se estava sendo chamado de mãe ou pai.
Os dois se entreolharam, absolutamente aturdidos, absolutamente... felizes. Os lábios de Arthur espelharam o sorriso do garoto e ele beijou a bochecha do bebê. Ele nunca poderia explicar o orgulho que sentia, a felicidade que explodia, aquele... aquele momento. Não havia explicação para aquele momento. Não havia descrição que pudesse dizer sobre o que viver aquele momento, ao lado de alguém que ele amava, significava. Não havia poesia no mundo suficiente para dizer sobre o beijo breve que ele trocou com o garoto.
Talvez porque não existam palavras que possam entender o que felicidade significa.
Alfred sorriu de lado e bagunçou os cabelos de Peter. Ele era uma graça, e até bem comportado para uma criança pequena. Exceto por sua fascinação com chaves e algumas poucas birras, ele se contentava em seguir Arthur e Alfred pela casa e em não gostar muito do próprio berço. Também não ficava muito feliz se fosse deixado sozinho no carrinho por muito tempo. Gostava de estar com algum dos dois, facilmente se acostumando a ficar quietinho no colo de Arthur durante a tarde inteira enquanto este estudava.
Com um sorriso um pouquinho bobo, o loirinho voltou a se acomodar no sofá com Alfred, Peter distraidamente brincando de bagunçar os cabelos do garoto.
– Alfred... – chamou o loirinho, um tanto incerto. — Eu estava pensando... Um dia, nós vamos ter que explicar para ele tantas coisas. Ele vai querer saber porque não tem uma mãe como os outros coleguinhas. – murmurou, e teve um pouco de medo do futuro.
– Ainda tem muito tempo, Arthur. Nós... vamos dando um jeito. – murmurou Alfred, ajeitando Peter em seu colo e beijando o topo da cabeça de Arthur. — Quando chegar a hora, a gente vai ter ideia do que fazer.
E todos os planos eram sobre “nós”. As dificuldades, e mesmo certos medos, seriam divididos.
Peter havia ficado quietinho, e acabara dormindo um pouco escondido no casaco de moletom do garoto, que também adormecera, ainda de óculos. Arthur cuidadosamente retirou os óculos de Alfred, depositando-os na mesinha ao lado do sofá e voltando a deitar. Ajeitou-se melhor no sofá, passando um braço protetoramente ao redor da criança deitada sobre o peito de Alfred, de modo a garantir que ela não fosse cair. Então, deitou a cabeça sobre o ombro do garoto, fechando os olhos também, e respirando fundo, sentindo-se... leve. Feliz, completo. Era só... aquela sensação incrível de parar e perceber que era uma pessoa de muita, muita sorte.
Ao final de tudo, estava feliz. Simplesmente isso. Fizera as pazes com muitas coisas que vinham o atormentando há muito tempo. De certa forma, Arthur sabia que... tinha se tornado uma outra pessoa. Uma pessoa muito diferente da que ele era quando essa história começou.
E os dias foram se passando, e os dois foram ensaiando os preparativos, e discutindo os convidados, ocupando o final dos dias com conversas sobre a festa e os preparos. Não ia ter uma lua de mel propriamente dita, porque eles resolveram que seria melhor economizar para que a casa nova saísse do papel.
Arthur achara que não teria muitas pessoas a chamar, mas acabou se vendo com uma lista até respeitável, com algo em torno de umas 50 pessoas. Matt havia confirmado, e ainda se comprometera com todo o Buffet da festa. Scott xingara Alfred por alguns minutos, algo sobre a virtude do seu irmão mais novo, mas parecia feliz, ao seu próprio modo. Do restante, Arthur decidiu não chamar mais ninguém da própria família.
Já Alfred hesitou muito, muito mesmo em ligar para os próprios pais. Tanto que sequer cogitara chamar algum deles na lista de convidados inicial, que já havia até sido mandada para encomendar os convites. Mas... era complicado, mas sentia... como se não fosse ser a mesma coisa se não os chamasse. Mas também tinha medo. Medo do que fosse ouvir, medo de se magoar muito, medo de que eles se recusassem a ir. Arthur pegou-o algumas vezes segurando o telefone na mão, então mordendo o lábio, incerto, para terminar por desistir sem nem discar o número. Em um desses dias, o loirinho aproximou-se e deu a mão para o garoto. Alfred sobressaltou-se um pouco, mas, no segundo seguinte, apertava sua mão na dele, respirando fundo.
E, se a voz do garoto tremeu durante a ligação, e se ele falou muito pouco e hesitou muito, o importante era que, quando ele desligou, foi com a confirmação de que seus pais vinham. E, se o lábio dele tremeu, e seus olhos claros encheram de lágrimas, e se ele chorou no ombro de Arthur minutos inteiros, o importante era que ele estava feliz, e Arthur o amava acima de tudo.
Então, eis que chegou o grande dia.
Arthur chegou vinte minutos antes do horário combinado, encaminhando-se até a mesa coberta com uma delicada toalha branca no final do salão. O juiz cumprimentou-o e voltou a sentar-se em uma cadeira próxima, esperando dar o horário da cerimônia. Algumas outras pessoas cumprimentaram Arthur de longe, outras, cujos assentos eram mais próximos, levantaram-se para apertar sua mão, mas o loirinho não prestou muita atenção nesses detalhes. Estava incrivelmente nervoso, dividindo-se entre tentar ajeitar o cabelo e a checar as horas e olhar para a entrada do salão à procura de Alfred. Porque Arthur queria fazer as coisas direito, decidiram que se arrumariam separadamente, Alfred em casa, e Arthur nos quartinhos nos fundos do salão. O combinado era que os dois chegassem ao mesmo tempo. Mas Arthur estava tão nervoso que acabara saindo mais cedo de casa, e chegando mais cedo.
Seu coração batia com tanta força em seu peito, que Arthur sentia-se um pouquinho sem ar. Engoliu em seco e respirou fundo, tentando controlar os nervos. Forçou-se a desviar o olhar da porta do salão, escolhendo observar os arranjos de flores, em vários tons delicados de azul e alguns detalhes brancos, assim como as diversas pessoas reunidas.
Ludwig estava sentado um pouco mais para o meio do salão, e fora uma das pessoas que acenara de longe para Arthur. Ao lado do alemão, estava sentado Feliciano, vestido muito elegantemente, e que conversava animadamente com o mesmo. O irmão do italiano estava ao seu lado, e discutia fervorosamente com seu namorado espanhol. Arthur deu de ombros. Achara uma boa ideia direcionar os convites para a pessoa e sua família, e, se aquela era a família de Ludwig, estavam convidados. Sabia que o rapaz alemão era muito sozinho depois que seu irmão mais velho morrera, mas não era algo sobre que os dois conversassem muito.
Mais para o lado do salão, Peter se encontrava no colo de Matt, muito contente com o carinho e atenção do loiro mais velho. Estava tão contente e tranquilo, rindo nos braços de Matt, que este nem se irritava com o fato de que a criança insistia de que ele era Alfred, e passara a última hora chamando-o de papai e estranhando Francis. Ao seu lado, um rapaz ruivo conversava com os dois, e eventualmente brincava com a criança. Depois de ser obrigado a usar uma boina para cobrir os cabelos muito vermelhos, Scott conseguira brincar com Peter e revezava-se com Matt para segurá-lo. Arthur tentou não rir muito quando seu bebê adormeceu e babou em boa parte da camisa social de Scott.
Não havia mais ninguém da família de Arthur além do irmão, mas ele não se importou. Estava perfeitamente feliz com as pessoas que vieram, e não queria ninguém da família que tanto destratara sua mãe. Suspirou e voltou a olhar para o relógio. Seis e vinte. Sentiu uma mão fria agarrando seu estômago por dentro, apertando também sua garganta. Estava nervoso, ansioso, preocupado, inseguro, e gostaria muitíssimo que Alfred viesse logo. Uma pontinha de si começava a se perguntar se o garoto vinha mesmo, mas Arthur imediatamente ignorou-a. Respirou fundo e voltou a se distrair com as pessoas no salão.
Mais adiante, estava a tia de Alfred. A mulher deveria ter por volta de trinta e cinco anos, com um cabelo castanho médio, longo, e olhos azuis parecidos com o da mãe de Alfred. Arthur levou dois segundos para reconhecê-la, mas, assim que o fez, corou até a raiz dos cabelos. Não achava que conseguiria olhar para ela sem se lembrar de quando ela quase pegou ele e Alfred no flagra, exatamente no primeiro dia de namoro dos dois, naquela aposta estúpida com videogames, que Arthur já nem lembrava direito como era. Para seu total horror, a mulher percebeu-o olhando e piscou em sua direção, rindo baixo. Arthur acenou com a cabeça e desviou o olhar para o lado rapidamente.
A filhinha dela, a prima pequena que Alfred absolutamente adorava, mexia com o vestidinho de dama de honra, rodando a saia cheia de fitas. Eventualmente, decidiu correr pelo salão para sentir os babados da roupa flutuando. Em sua corrida, esbarrou em Matt, que passou alguns minutos convencendo-a de que não era Alfred.
Peter acordou com a movimentação, e se remexeu no colo de Matthew.
– O que é isso? – perguntou a prima de Alfred, erguendo-se na ponta dos pés e espiando o que Matt carregava.
– Esse é o Peter. – explicou pacientemente o canadense, inclinando-se um pouco para a menina conseguir ver o rostinho da criança menor. Essa observou a prima, seus grandes olhos azuis fitando-a longamente. Então, bocejou. — O seu primo Alfred cuida dele.
– Por que?
– Porque... bem, porque o Peter é como se fosse um filho para ele. – explicou, um pouco desconcertado.
– Hmm... – pareceu pensar por um momento, então fez uma careta engraçada e ganhou uma risada de bebê. – Legal!
Um pouco mais à direita do salão, os pais de Alfred estavam sentados nas primeiras cadeiras, não parecendo muito à vontade, mas presentes, mesmo assim. Olhavam um pouco de canto para Matthew, mas pareciam juntar coragem para ir falar com ele. Arthur tivera dúvidas se eles viriam mesmo, e ainda mais dúvidas se eles não achariam o próprio convite uma ofensa, mas estava feliz em estar errado. Aparentemente, talvez não sem uma boa dose de conflito interior, o carinho pelo filho ganhara, e os dois vieram para o casamento.
Em tudo, só faltava Alfred.
Arthur passou a mão na parte de trás da cabeça, como que para consertar o cabelo bagunçado, mas no fundo era apenas reflexo do quão nervoso ele se sentia. Checou o relógio de pulso, que lhe disse sobre uma espera de quarenta minutos. Engoliu em seco e colocou as mãos no bolso, tão nervoso que se ficasse mais nervoso, acabaria passando mal. Respirou fundo e olhou em volta.
Era... estranho. Era tudo tão... fora do comum. Daqueles dias tão extraordinários que nunca se perderiam entre os acontecimentos comuns, e sempre estariam na memória, como que marcados a ferro quente, como se o tempo não pudesse com a extraordinariedade deles. Até o fim de seus dias Arthur se lembraria de como esteve esperando por Alfred, de pé, no final da sala decorada com flores azuis e anis, seu coração batendo desesperadamente em seu peito. Sua garganta parecia apertada, e, por um momento, Arthur se perguntou se conseguiria dizer seus votos. Flexionou os dedos de sua mão, e voltou a fechá-la em um punho ao seu lado, absolutamente perdido sobre o que fazer com ela. Gostaria ao menos que o gelo na boca de seu estômago sumisse.
Mas então, finalmente, a porta do salão se abriu, e Alfred entrou, suas faces avermelhadas, um pouco fora de fôlego, adoravelmente atrasado e embaraçado. Seu cabelo loiro havia sido partido de lado, e algumas mechas caíam do lado esquerdo de sua testa, organizados e penteados, com a exceção de uma mecha de cabelo, que não conseguira se decidir se ficava à esquerda ou à direita e acabara meio levantada.
E das muitas perguntas, Arthur só conseguia pensar em uma: Como era possível alguém ser tão bonito?
Os olhos muito claros do garoto tinham uma cor muito azul, como a superfície de uma piscina, e seus óculos de armação estreita permitiam que ele enxergasse Arthur do outro lado do salão. Por um momento, seus lábios entreabriram e ele parecia querer dizer algo. O colete cinza claro de seu terno permaneceu imóvel naquele meio segundo em que ele tomou ar, mas não soube como usá-lo para dizer alguma coisa.
Porque Alfred nunca encontraria palavras que pudessem dizer como Arthur estava perfeito naquele momento.
Então, pressionou os lábios em uma linha fina e respirou fundo. As pessoas presentes se levantaram de suas cadeiras, ao que o garoto sentiu o nervosismo triplicar. Passou as mãos suadas no tecido da calça e engoliu em seco, seu coração batendo contra a garganta e seu estômago parecendo estar dando cambalhotas em sua barriga. Tentou andar com alguma graça, mas queria chegar logo ao outro lado do salão e ficar perto de Arthur. Também seria ótimo quando as pessoas parassem de encará-lo, porque aquilo realmente estava deixando-o muito nervoso. Sentiu o rosto e a pontinha de suas orelhas esquentarem, e andou um pouquinho mais depressa do que a tradição mandaria.
Arthur estava ansioso, mas curtiu cada segundo da travessia de Alfred pelo salão, imerso em uma sensação estranha, de felicidade e alívio, encanto, em parte, uma vontade de sorrir ou correr, um sentimento qualquer que era enorme como a própria existência. Seu coração ainda parecia querer escapar pela boca, mas ele sentiu como se um nó tivesse desatado em seu peito, e como se estivesse conseguindo respirar melhor.
Em bem menos de meio minuto, que parecia ter percorrido a eternidade, Alfred estava ao seu lado, lançando um sorriso meio contido e cúmplice, apertando sua mão brevemente, antes de soltá-la e dirigir o olhar para o juiz.
Arthur conseguia ouvir o próprio coração batendo em seus ouvidos. Manteve os olhos no juiz, mas sentia Alfred ao seu lado, uma presença reconfortante e familiar em meio a um momento que poderia ter sido um sonho ou alucinação.
Estava muito, muito grato pelo fato de o juiz repetir os votos que ele precisava dizer, porque, francamente, Arthur não tinha conseguido se focar no que ele estava falando antes.
A priminha do garoto equilibrava duas alianças em uma almofada branca de cetim ao seu lado. Quando Arthur virou-se para ela, a garotinha ergueu-se um pouco na ponta dos pés, e o loirinho pegou a aliança de Alfred. Então, finalmente Arthur virou-se de frente para o garoto, e seus olhos encontraram os dele.
Todas as palavras que estavam passando pelos seus lábios pareciam passageiras e tênues em comparação ao voto que Arthur fez em silêncio naquele olhar que trocou com Alfred. Sua voz tremia um pouco, mas, de algum jeito, conseguiu tomar a mão do garoto na sua e dizer seus votos.
No entanto, quando chegou a vez de Alfred, Arthur sentiu uma lágrima lhe escapar, ao que o garoto apertou um pouquinho sua mão. O loirinho sentiu sua garganta trancar. Suas mãos tremiam um pouco nas do garoto, mas seus lábios sorriam. Alfred demorou alguns segundos para perceber que a aliança tremia em seus dedos também.
Por que as pessoas se casavam?
Por um momento, Arthur não soube responder a própria pergunta. Não era como se o relacionamento entre eles fosse mudar por conta de um registro em cartório. Mas... era apenas... o reflexo de uma vontade inexplicável de estar ligado ao garoto de mais jeitos do que apenas um.
Era... bobagem, mas repentinamente ele se lembrou de uma história, muito antiga. Que dizia que as pessoas costumavam ser inteiras. E, por castigo dos deuses, foram separadas em metades, que ansiavam uma pela outra. Também se dizia que era por isso que, se pedissem para qualquer amante escolher, este escolheria ser apenas um com seu amado. De forma que vivessem juntos. De forma que morressem ao mesmo tempo, sem que fosse preciso que a vida de um se esticasse além da do outro.
Era realmente... bobagem. Mas, de certa forma, no fundo, Arthur... sentia que era, ao menos em parte, verdade. Parecia... fantástica a ideia de estar sempre ao lado daquela pessoa. Olhou no fundo dos olhos claros de Alfred.
Sentia-se tão estupidamente feliz ao lado de Alfred que realmente não queria viver mais que o garoto. Queria que todo o seu tempo se passasse daquele jeito, ao lado dele.
Mas era uma confissão muito embaraçosa a se fazer, de modo que Arthur se calou, com um meio sorriso emocionado e com seus olhos verdes um tantinho marejados. Alfred deslizou a aliança pelo seu anelar e o loirinho sentiu o metal se acomodar e encaixar perfeitamente. Por reflexo, olhou a própria mão e fechou-a, sentindo a peça entre seus dedos, intimamente pensando que nunca mais ela sairia dali.
Então, ergueu os olhos, vendo-se refletido em lentes muito azuis. Seu mundo permaneceu suspenso por aquele segundo, naquele infinito que se chamava agora. Os lábios de Alfred se curvaram em um meio sorriso, e Arthur espelhou-o.
Alfred inclinou-se e chegou mais perto do loirinho. Os cabelos dele... o cheiro que ele tinha. E aquele azul. O coração do loirinho palpitou com tanta força que talvez acabasse rompendo. Na verdade, ele podia senti-lo batendo contra a sua garganta. Sentia-se de novo aquele menino, estatelado no chão do quarto de Alfred, a dois segundos de beijá-lo pela primeira vez. Sua mão ajeitou carinhosamente a franja do garoto.
Seus dedos percorreram a bochecha do garoto e se aninharam na nuca dele. Seu coração batia tão alto que Arthur não se surpreenderia se Alfred pudesse ouvi-lo. O perfume do garoto invadiu os seus sentidos e Arthur apertou a mecha de cabelos que segurava entre os dedos, sua mão ainda na nuca do garoto.
A respiração do garoto estremeceu. Na verdade, o próprio mundo do garoto pareceu tremular naquele breve instante em que ele se aproximou de Arthur. Sentiu quando a respiração dele encontrou a sua, e ela parecia tão trêmula quanto à do garoto. Por um momento, os olhos de ambos se encontraram. Por um instante, eles procuraram nos olhos um do outro o que aquilo tudo significava. E, por um segundo, eles souberam a resposta.
Seus olhos se fecharam, quase que em um combinado mudo, como se prestes a fazer um juramento solene. Arthur sentia-se incrivelmente nervoso, como se estivesse prestes a dar um passo no escuro.
Mas então, quando seus lábios encontraram os de Alfred, Arthur estava em casa. Beijou-o de leve, o mais demorado que era aceitável na frente de tantas pessoas, suave, firme, com a familiaridade de alguém que o beijava todos os dias quando ele voltava para casa.
Afastou-se dele com um pequeno passo para trás, terminando o beijo. Talvez alguém estivesse falando alguma coisa, mas Arthur não estava ouvindo. Seu olhar encontrou o do garoto, que sorria. E Arthur sentia-se tão feliz e eufórico, que seu coração talvez explodisse. Então, ele riu de leve, dividindo um pouco da sua felicidade, colocando um pouquinho para fora.
Dali, se seguiu uma festa bem pequena, mas com um Buffet tão cheio e tão fantástico que parecia uma vitrine de confeitaria. Matthew passara dias para conseguir aquele resultado, e estava particularmente feliz consigo mesmo. Especialmente um de seus docinhos de maçã estava fantástico, modéstia à parte, e ele mesmo já estava no quinto desses. Francis adotara alguns dos amanteigados e uma taça de champanhe, parecendo muito contente com tudo. Estava um pouco desacostumado agora a sair sem o cachorro branco que ganhara de Matt, de modo que se mantinha de braços dados com o canadense para não sofrer nenhum acidente. A comida estava boa, a música também, e tinha uma desculpa excelente para andar de mãos dadas com Matthew em público. Na verdade, nem precisava de uma desculpa. Se houvesse algum olhar atravessado de reprovação ele não veria, de qualquer forma. Sorriu consigo mesmo e voltou a morder a delicada massa amanteigada do seu salgado.
Um pouco mais a frente, os noivos iniciavam, sem se dar conta, a primeira discussão da vida de casados, que era exatamente igual às que costumavam ter 24 horas atrás.
– Alfred! Eu não vou jogar um buquê feito uma mocinha. O que seus pais vão pensar? – sussurrou alto o loirinho, tentando ser discreto.
– Ah, Arthur, fala sério, eles vieram pro nosso casamento, e já devem ter pensado todo o tipo de coisa sobre o que nós dois fazemos. – replicou o garoto, revirando os olhos diante do óbvio.
– ...... Ah. Meu. Deus. – Arthur sentiu como se alguém tivesse lhe tirado o chão. — Eu não vou conseguir mais olhar na cara dos seus pais. – murmurou, escondendo o rosto entre as mãos, suas orelhas totalmente vermelhas.
– Deixa disso, Arthur, tá tranquilo. – tornou o garoto, rindo com o embaraço do outro.
– Não, não está. Com licença que eu preciso de uma bebida. – resmungou o loirinho, andando um tanto oscilante até a mesa.
– Mas e o buquê? – disse o garoto, fitando o loirinho se afastar. — Buquês são legais! E eu queria que o Matt pegasse! – disse um pouco alto, olhando em volta para ver se não tinha se entregado. Felizmente, Matt estava do outro lado do salão, distraído em uma conversa com o namorado.
– Então por que você não joga? – respondeu de volta Arthur, já de longe, se ocupando com um pouco do coquetel alcoólico e se perguntando onde raios Scott tinha colocado o whisky. Não queria nem pensar onde Alfred ia arrumar um buquê àquela hora, uma vez que nenhum deles havia trazido buquê algum. Deu de ombros, tomando seu coquetel com um canudinho. Como não tinha jeito de tirar uma ideia da cabeça do garoto, era melhor fingir que nem tinha visto e ficar grisalho alguns anos mais tarde do ficar se preocupando a cada ideia maluca de Alfred.
– Hm... – o garoto fez um pouco de bico, mas considerou. Buquês eram legais e Matt merecia. Não se via muito a noiva arremessadora de buquês, mas provavelmente não ia matar jogar um buquezinho de nada. Pegou algumas flores da decoração, envolveu-as em um pedaço de tecido, da decoração do cantinho do salão onde ninguém daria pela falta, e amarrou uma fita. Passou quinze minutos tentando dar um laço decente, e conseguiu algo bem convincente, embora não tenha a menor ideia de como conseguira a proeza. Na verdade, verdade mesmo, fora com a ajuda de um vídeo do Youtube em seu celular, mas ninguém precisava saber.
Arthur escondeu a cara o mais discretamente possível quando Alfred gritou do meio do salão para que as pessoas se juntassem que ele ia jogar o buquê. Também evitou cruzar o olhar com os pais de Alfred, embora tenha tido a impressão de que vira o pai de Alfred sentar-se em uma cadeira, parecendo prestes a desmaiar.
– Isso, mais para o lado da sala. – coordenava Alfred, observando Matthew ser empurrado para uma posição mais à esquerda do salão. – Aí! Ótimo!
Não era favoritismo. Se Matt coincidentemente acabara tendo o buquê jogado praticamente em seu colo, era só uma questão de balística e planejamento.
E, se Matt se escondeu atrás do buquê e ganhou um beijo de Francis, Alfred fingiu não ter visto.
O fato é que alguns minutos depois, um francês de muito bom humor sentou-se ao piano do salão, e começou a tocar uma peça muito bonita. As pessoas reunidas deram espaço, e as luzes foram diminuídas. Scott empurrou o irmão mais novo para o centro, ao que Arthur tropeçou e xingou-o baixo, mas rapidamente se recompôs. Alfred apenas percebeu quando o loirinho ergueu um par de olhos muito verdes, e estendeu uma mão em sua direção.
E Arthur estava tão bonito. O terno cor grafite se moldava belamente ao tronco dele, e o colete, cuja cor tendia mais ao carbono, mostrava a linha elegante da cintura do loirinho, guiando os olhos até o quadril estreito. Mas acima de tudo, todas as feições do rosto dele pareciam perfeitas, no arranjo complexo e intrincado de uma felicidade que não podia ser fingida, muito menos contida. Os cabelos dele continuavam bagunçados, e a franja caía charmosamente, permitindo ver os olhos muito verdes dele. Estoicamente, ele continuou com a mão estendida em sua direção.
O garoto precisou receber uma cotovelada por parte de sua tia para sair de seus devaneios. Um tanto embaraçado, juntou-se a Arthur no centro do salão.
Alfred se confundiu terrivelmente, e talvez ele tenha feito “três pra lá e um pra cá” em vez de “dois pra cá e dois pra lá” que deveria ter feito. Mas Arthur ria, e a felicidade era linda demais equilibrada no sorriso que ele tinha. Alfred sentiu suas faces esquentaram, assim como a pontinha de suas orelhas, mas sorriu um pouco. Estava morrendo de vergonha, mas também não conseguia deixar de estar muito feliz.
Era difícil não se sentir feliz em dias como aquele, em que o amor parecia tão possível.
No final da valsa, Alfred abraçou-o, ao que o loirinho beijou-lhe a bochecha, murmurando contra a face muito quente do garoto:
– Assim que nós voltarmos da lua de mel, eu te ensino a dançar direito. – e riu baixo contra a curva do pescoço do garoto, que se arrepiou e corou ainda mais.
Mais para o canto do salão, o Sr e a Sra Jones sentiram-se aliviados por terem escolhido comparecer a cerimônia. Podendo ver o jeito como aqueles dois olhavam nos olhos um do outro, a chance de que Alfred casasse outra vez naquela vida era provavelmente zero.
No final da festa, quando já havia poucos salgadinhos sobrando, e o bolo de dois andares de Matthew desaparecia a uma velocidade impressionante, Arthur e Alfred sentiram sua deixa para ir embora da festa. O percentual de pessoas muito bêbadas para perceber já era alto o suficiente, e eles realmente gostariam de ficar a sós logo. Os dois se esgueiraram discretamente até a porta, dando de cara com a tia do garoto.
– Tia Lily, que susto! – disse o garoto. – Er... não que a gente estivesse fazendo algo de errado. Nós... íamos... ahn... ali e já íamos voltar. – concluiu genialmente.
Arthur bateu na própria testa e escorregou a palma aberta pelo seu rosto. A tia de Alfred riu com vontade, e deu espaço para eles passarem.
– Não se preocupe, Alfred querido. Como sempre, seu segredo está seguro comigo. – disse ela, divertida.
– Como assim, “como sempre”? – perguntou o garoto, já sentindo o rosto esquentar.
– Eu sei de vocês dois há tempos! – disse ela, bagunçando os cabelos do garoto e rindo com gosto.
– Como?! – exclamaram os dois ao mesmo tempo.
– Alfred, eu não nasci ontem. Você me traz um rapaz bonitinho desse para o seu quarto e se fecha lá por horas. Então, quando eu estou na porta, ouço uma confusão, e, quando entro, tem você se escondendo atrás de uma almofada e seu “amigo” trancado no banheiro. Sem contar a sua cara de que tinha sido pego no flagra. E o seu cabelo, Alfred! – ela riu, dando tapinhas no ombro do garoto.
Arthur e Alfred sobreviveram a mais alguns minutos de profundo embaraço e vergonha com a tia do garoto, e conseguiram sair da festa enquanto estavam todos bêbados demais para darem pela falta do casal. Dali, partiram para o hotel, na cidade mesmo, mas muito elegante e confortável, presente de casamento por parte da tia do garoto, inclusive. Ela lamentava que os dois não fossem viajar para a lua de mel, e acabara, além de dar um presente em dinheiro para ajudar os dois com a nova casa, pagando três diárias no hotel.
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O hall era imenso, o piso de mármore estendia-se sobre uma larga área, em tons nobres de bege claro e branco, dobrando-se em elegantes escadarias de madeira escura e entalhada com intrincados detalhes. Havia muitos vidros e espelhos, contrabalanceando o estilo pesado dos móveis clássicos, dando a impressão de um ambiente mais largo e clean. Arthur viu de relance o belíssimo restaurante, que contava com uma lareira e um piano de cauda ao fundo. No centro do salão, a luz se facetava e se espalhava por entre a cascata de cristais do lustre.
Lily não era uma pessoa rica, mas era casada e tinha apenas uma filha, levando uma vida sem excessos, confortável e estável financeiramente. Avisada com antecedência do casamento, guardara um dinheiro legal para o sobrinho favorito.
Alfred se dirigiu e parou em frente ao elegante balcão em madeira e mármore. Uma simpática mocinha cumprimentou-o e pediu-lhe seu nome, entregando alguns papéis a serem preenchidos e pedindo um documento de identificação.
– Pode ir subindo, só vou terminar de preencher isso aqui. – disse o garoto com um sorriso relaxado, clicando a caneta uma vez e se pondo ao trabalho.
– Ok. – respondeu o loirinho, dando de ombros. Poderia já subir com a pequena mala que os dois trouxeram, e ir tomando banho para agilizar as coisas. Não era como se ele estivesse sendo de muita utilidade parado olhando o garoto preencher dados.
Alfred levou mais uns cinco minutos na recepção, e outros dez parado na frente da porta do quarto. De repente, lhe veio a realização de que... era um homem casado. Isso soava tão adulto. Não mais apresentaria Arthur como seu namorado. E era tão estranho pensar nisso, porque eles bagunçaram a ordem de tudo. Primeiro tiveram um filho, então moraram juntos e agora estavam casados. Por algum motivo, suas mãos estavam suadas e ele se sentia um pouquinho sufocado dentro do terno, seu coração batendo loucamente contra suas costelas.
Já transara com Arthur tantas vezes que sinceramente não sabia porque estava nervoso agora. Claro que... estivera pensando em algumas coisas, e decidira que hoje as coisas seriam diferentes. Como Arthur reagiria?
Sentiu uma pedrinha de gelo na boca do estômago, e suas mãos pareciam um tanto mais suadas. Decidindo que estava sendo ridículo, respirou fundo e entrou no quarto.
Arthur estava saindo do banho quando ouviu a porta do quarto abrindo. Alfred sorriu de leve ao vê-lo, os cabelos molhados e as faces um tanto avermelhadas com o banho quente, secando os cabelos com a toalha. Havia trocado o terno por uma camiseta e uma calça jeans, que trouxera na pequena mala dos dois. O loirinho sorriu de volta, abandonando a toalha sobre uma cadeira e andando até o garoto, imediatamente beijando-o e puxando-o até a cama. Alfred gemeu baixo e correspondeu-o por um momento, mas logo o afastou pelos ombros.
– Alfred? – o loirinho inclinou a cabeça para o lado, um pouco confuso.
– Shh, relaxa. – respondeu o garoto, dando um selinho em Arthur. – Eu... meio que tenho uma ideia que eu queria testar tem um tempo. Me espera. – disse, pegando uma muda de roupa e se trancando no banheiro.
Arthur piscou algumas vezes, aturdido. Ainda permaneceu ao menos um minuto encarando o espaço onde Alfred estive há dois segundos atrás. De que ideia aquele garoto estava falando? E como essa ideia envolvia Alfred saindo correndo e se trancando no banho? Um tanto ranzinza, sentou-se na cama e esperou vários minutos até a porta do banheiro abrir outra vez.
Alfred marchou decididamente até o britânico, puxando-o pela camiseta e beijando-o entusiasticamente, abafando uma exclamação de surpresa por parte de Arthur.
– Hmm... – o garoto mordeu de leve o lábio inferior do loirinho, em seguida enlaçando a língua dele na sua. Arthur gemeu baixo e segurou-o pela nuca, movendo-se e encostando seus quadris nos do garoto.
– Alfred? – indagou o loirinho, um tanto ofegante, quando os dois se afastaram para respirar.
O garoto se calou por alguns momentos, então respirou fundo. — hoje eu quero inverter posições, Arthur. – disse baixo, um tanto embaraçado. Era embaraçoso que nunca tivessem feito isso, mas as coisas meio que foram indo, e o sexo era bom do jeito de sempre, e Arthur achava embaraçoso demais explicar como o polo passivo da relação tinha que se preparar antes, e Alfred demorara a criar coragem para pesquisar tudo por si mesmo.
Mas ele precisava admitir que tinha um pouquinho de curiosidade de saber como era.
– Mesmo? – perguntou o loirinho, no tom mais neutro possível.
O garoto assentiu com a cabeça decididamente.
O cantinho dos lábios de Arthur se ergueu, e Alfred sentiu um arrepio com o olhar um tanto predatório nos olhos verdes do britânico. Era o olhar muito, muito interessado que Arthur costumava ter quando estava com a boca a alguns milímetros da ereção do garoto. Os dedos do loirinho entrelaçaram nos cabelos perto da nuca do garoto e o trouxeram para um beijo, ao mesmo tempo em que sua outra mão percorreu as costas do garoto longamente. Alfred sentiu-se arrepiar inteiro quando sentiu a mão de Arthur percorrer suas costas e pousar em sua cintura, apertando-a de leve enquanto sua língua se ocupava tocando a do garoto.
Alfred gemeu baixo e sentiu suas costas lentamente baterem contra o colchão. Logo, Arthur estava em cima, encostando seus quadris estreitos nos do garoto devagar. As faces do loirinho estavam mais vermelhas do que antes, mas havia certa ferocidade em seus olhos verdes. Uma fúria quieta e não destrutiva, quase sutil. Silenciosamente, ele retirou os óculos do garoto, deixando-os sobre a mesinha de cabeceira. Não pôde deixar de perceber como Alfred parecia mais novo sem óculos. Os olhos azuis dele cintilavam quietamente sob a meia luz amarelada dos abajures que iluminavam o quarto, e a respiração dele vinha descompassada, os cabelos dele levemente bagunçados.
Arthur voltou a tomar a boca do garoto com a língua, seus lábios movendo-se de maneira impulsiva, e, ainda assim, intoxicantemente gentil. Seus dedos ergueram a camiseta de Alfred e seus lábios imediatamente procuraram o tronco do garoto, sua língua quente fazendo a pele sensível arrepiar sutilmente.
– Ahnn... A-Arthur. – murmurou Alfred, seus sentidos embriagados, um gemido baixo escapando de seus lábios ao sentir Arthur morder a lateral de seu tronco.
O loirinho deslizou os lábios até a clavícula do garoto, seus dedos gentilmente retirando a camiseta, e beijando de leve a curva do pescoço do garoto. Alfred fechou os olhos, sentindo o corpo de Arthur colado ao seu, por cima do seu. Os beijos subiram sutilmente, até o britânico estar encarando o garoto, fitando os lábios entreabertos dele com um desejo evidente. Ele se afastou um pouco, retirando a camiseta em um movimento fluido, voltando a encarar garoto. Alfred fechou os olhos e deixou que ele o beijasse com força, penetrando sua boca com a língua, fazendo-o gemer entre o beijo.
Quando Arthur se afastou, seus olhos verdes ainda pareciam faiscar, seus cabelos claros caindo levemente sobre sua fronte.
– Alfred... – murmurou, a voz baixa e macia. – Eu preciso de você.... – murmurou, suas mãos segurando o rosto do garoto e seus lábios voltando a procurar os dele, com a mesma força, mas parecendo absurdamente mais doce.
Alfred sentiu o coração ser envolvido por aquelas palavras, deixando-o desnorteado e, ainda assim, inevitavelmente feliz. Seus sentidos pareciam cada vez mais e mais embriagados pela sensualidade com que Arthur expressava os seus sentimentos.
Os lábios do loirinho escaparam do beijo e deslizaram pela bochecha do garoto, deixando escapar um suspiro quente contra a orelha dele, fazendo-o se arrepiar e estremecer. Então, os lábios de Arthur já estavam em seu pescoço, deslizando para cima, terminando em um beijo silencioso atrás da orelha de Alfred, que se sentiu arrepiar totalmente e gemer baixo.
– Sensível aqui? – murmurou o britânico, seus lábios ainda encostados na pele do garoto, que o sentiu sorrir.
– Hmm... n-não. – resmungou Alfred, só porque não queria dar o braço a torcer mesmo, porque, sendo muito sincero, a sensação era fantástica.
– Mesmo? – murmurou o outro em resposta, descendo a mão e deixando-a entre as pernas de Alfred. Deu outro beijo atrás da orelha do garoto, sentindo a ereção dele mexer-se levemente sob seus dedos. Baixou-lhe o cós da calça, retirando-a com um pouquinho da cooperação de Alfred, que mordia o lábio inferior e assistia ao que Arthur fazia. O britânico inclinou-se e abriu a gaveta do móvel da cabeceira, tirando um frasco de lubrificante.
Voltou sua atenção para Alfred, e olhou longamente a ereção do garoto, já não muito coberta pela cueca boxer preta que ele usava. Abaixou-se e arrastou os lábios sobre o contorno do membro do garoto, apertando um pouco com a língua eventualmente. Alfred mordeu o lábio inferior, abafando um meio gemido, curtindo a sensação um pouco, mas empurrando Arthur depois de alguns segundos, quando a provocação já beirava à tortura. O britânico meramente encaixou os polegares no cós da boxer do garoto e baixou-a, jogando-a de lado. Então, espalhou lubrificante na própria mão e encaixou os lábios na ereção à sua frente, ao mesmo tempo em que o penetrou com um dígito.
Alfred gemeu alto, em seguida murmurando uma corrente de profanidades, tentando respirar enquanto sentia a língua de Arthur pressionando sua ereção no céu da boca. Finalmente, o britânico acrescentou outro dedo, ao que Alfred gemeu baixo.
– A-Ah! – o garoto fechou os olhos e apertou os lençóis com força. – A-Arthur... hnn... isso é estranho... a-ah... – seus lábios inconscientemente se entreabriram e ele gemeu, atordoado com a sensação. Então, bufou um pouco frustrado quando o loirinho desvencilhou a boca de sua ereção.
– Shh... não, não é estranho. – murmurou Arthur, mordendo o pescoço do garoto, ouvindo-o gemer embaixo de si. – É gostoso. — Seus dedos o penetraram outra vez, ao que o garoto estremeceu e fechou os olhos, gemendo.
– Hmm...? Não é bom? – sussurrou Arthur, beijando a nuca do garoto, então atrás da orelha, movendo seus dedos, acrescentando mais um quando sentiu a oportunidade.
– A-Arthur! – repreendeu Alfred, sentindo o rosto esquentar com o gemido que deixara escapar. — Já... ahn... Já está bom assim... – murmurou, excitado demais para conseguir pensar direito, um líquido transparente descendo pela ponta da sua ereção.
Arthur desceu o zíper da própria calça jeans e descartou-a com a roupa íntima. Fitou o garoto outra vez e considerou um pouco, decidindo-se por colocar uma camisinha, já que não tinha muita certeza se Alfred apreciaria sentir quando ele gozasse dentro. Então, afastou as coxas do garoto, segurando-as contra o tronco dele e erguendo os quadris estreitos do rapaz abaixo de si a alguns centímetros da cama. Inclinou-se e beijou-o de leve, ao mesmo tempo segurando-lhe os quadris e penetrando-o devagar, mas de uma vez.
– A- Ahwn... – gemeu baixo o garoto, fechando os olhos com força. Doía. Realmente, de verdade, doía. Sua respiração estava um tanto fora de controle e ele estava se sentindo um tantinho sem ar, e Arthur ajudaria se fosse um pouco menor lá embaixo.
– Shh... respira. – o britânico beijou-o pelas faces suavemente, carinhosamente afastando a franja do garoto da testa suada.
– D-dói. – murmurou o garoto, com a voz levemente entrecortada.
– Shh, eu sei, amor. – murmurou o loirinho, beijando-lhe uma das bochechas.
– Hah... – tentou rir o garoto, os olhos ainda fechados com força, ofegando com a dor. – ah... você nunca me chama assim. – murmurou, fechando os olhos.
– Mas eu amo você. – murmurou Arthur, bem pertinho de sua orelha, beijando de leve o seu pescoço. Sentiu a pele do garoto arrepiar sob os seus lábios, mas o corpo dele perdeu parte da tensão.
– Tudo bem? – murmurou o britânico, beijando a nuca do garoto e segurando-lhe os quadris suavemente. Sentiu Alfred assentir com a cabeça brevemente, ao que ondulou os quadris experimentalmente.
– A-ah... – o garoto fechou os olhos, tentando recuperar o fôlego. Gemeu baixo, extremamente excitado. Gostava do jeito como Arthur segurava os seus quadris com força, e se arrepiava com a ideia de que tinha sido penetrado por completo. – A-Arthur...
– Hmm?
– Mais rápido. – murmurou, sentindo-se arrepiar inteiro com o jeito como Arthur segurou os seus quadris e passou a penetrá-lo mais rápido, com força. Alfred revirou a cabeça no travesseiro, seus cabelos bagunçando ainda mais, parte de sua franja colando a sua testa suada. Em algum momento, o britânico começou a manusear sua ereção, ao que o garoto gemeu, sentindo-se a um segundo de ter o melhor orgasmo da sua vida.
– Shh... Não, não, ainda não. – sussurrou Arthur, apertando a base do membro de Alfred.
– Ahwnn... ! — Arthuur... n-não faz assim... – gemeu o garoto, suas faces afogueadas, a franja suada um pouco sobre os seus olhos. Seus cabelos estavam absolutamente bagunçados, e ele parecia deliciosamente descomposto. – A-ah! – o britânico penetrou-o com mais força, ainda sem soltar sua ereção, já muito molhada na ponta. — A-Aarthur! Não... – e apenas quando o garoto quase choramingou de frustração, Arthur finalmente parou de apertar a base de seu membro, passando a manuseá-lo em sua mão maravilhosamente. — Hnnn...! A-Arthur... A-aah...!
Arthur gemeu baixo ao sentir o garoto estremecer e gozar na sua mão. Alfred fechou os olhos, gemendo fracamente enquanto sentia Arthur penetrá-lo com força. Em algum momento, e ele não saberia dizer quanto, porque tinha a sensação de que perdera os sentidos por alguns momentos, sentiu quando o britânico teve um orgasmo dentro de si, abafando um gemido contra os lábios do garoto. Alfred beijou-o, devagar e suavemente enquanto ele gozava, e ainda um pouco depois, sentindo quando Arthur pareceu voltar a si e começou a lhe corresponder.
Alfred gemeu de leve ao se mexer, seu corpo ainda um tanto sensível e levemente trêmulo com o orgasmo. Era... diferente ser passivo. Seu corpo parecia muito relaxado, mas ao mesmo tempo, pesado demais, fazendo com que se mexer fosse impensável no momento. Sentiu Arthur se mexendo ao seu lado, mas não abriu os olhos para ver o que ele estava fazendo. Apenas sentiu quando ele se aproximou outra vez, deitando ao seu lado.
Virou-se de lado e beijou-o de leve, pousando a cabeça na curva do pescoço do loirinho. Sentiu-o morno contra a sua bochecha, seus sentidos tomados pelo perfume familiar que Arthur tinha. Seus olhos se fecharam e ele respirou fundo, seu coração apertando de leve em quieta felicidade enquanto ele sentia Arthur tão vivo, tão perto, tão... seu.
Arthur fechou os olhos também, depositando, com um leve suspiro, um beijo sobre a têmpora de Alfred. Seus dedos entrelaçaram nos cabelos cor de caramelo do garoto e ele o apertou contra si, retribuindo os braços de Alfred em sua cintura, que o traziam mais para perto.
– Hmm.... – o garoto fechou os olhos, aproveitando a atenção. Talvez tenham cochilado alguns minutos quando Alfred repentinamente foi acometido por uma grande ideia. – Ah! Arthur! – e ergueu-se nos cotovelos, seus olhos azuis vívidos e empolgados. – Vamos experimentar aquela banheira enorme da suíte! Eu quero tomar banho de espuma! – disse, sacudindo de leve o loirinho, que estava com muita cara de sono agora.
– Agora? Por que não amanhã? – murmurou Arthur, com muita preguiça de sair da cama.
– Amanhã a gente toma outra vez! – disse o garoto, já puxando Arthur pela mão para tirá-lo da cama. – Oww... ow... Meu quadril dói. – parou no meio do movimento e fez uma careta. Tentou se sentar na cama, mas deu um pulinho, desconfortável. Estava meio... sensível. – Pensando bem, tudo dói. – concluiu, em parte por manha, em parte porque era verdade. Ao mesmo tempo queria muito tomar banho naquela banheira enorme com Arthur, mesmo que estivesse um tanto cansado.
– Podemos ficar na cama. – murmurou Arthur, afundando o rosto entre o pescoço e o ombro do garoto, beijando-o de leve.
– Boa tentativa. Mas não. — concluiu, puxando o loirinho pelo braço. — Ah, Arthur, quantas vezes você teria a chance de tomar banho numa banheira tão legal?
Arthur nem estava tão entusiasmado com a ideia, mas quando os dois começaram a encher a larga banheira, ele descobriu os muitos sais de banho disponíveis, e, em poucos minutos, os dois estavam em um debate sobre quais usar. Havia sais espumantes de camomila, flores de limão, menta, amora, amêndoas, morango, maçã verde, rosas, blueberry...
Alfred entrou e se acomodou na larga banheira devagar. Em poucos segundos a água quente pareceu desatar os nós em seus músculos, e a sensação da espuma era um deleite à parte. Havia um aroma leve de flores de limão, agradável e relaxante.
Arthur entrou na banheira, sentando-se de lado, um pouco afastado de Alfred.
– Mais perto. – reclamou o garoto, puxando Arthur para o seu colo.
Levou um pouco de manobra, mas o loirinho finalmente encontrou uma posição confortável e sentou-se entre as pernas do garoto, encostando-se no tronco dele e deitando a cabeça para trás, descansando-a no ombro de Alfred.
Alfred afastou alguns fios loiros da nuca de Arthur, beijando a pele macia e um pouco avermelhada devido à água quente. Sentiu a pele do loirinho se arrepiar sob os seus lábios, ao que lhe mordeu a nuca de leve, arrancando um gemido abafado de Arthur.
– Alfred, você devia parar de me morder. – murmurou o loirinho, mas inclinou a cabeça para o lado, dando-lhe espaço.
– Hmm, é mesmo? – murmurou o garoto, suas mãos descendo e segurando os quadris estreitos de Arthur, apertando a pele macia e mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.
– Hnn... – o loirinho gemeu baixo e suas faces já estavam um tanto afogueadas.
O garoto desceu ainda mais uma das mãos e segurou o membro de Arthur, sentindo-o endurecer sob seus dedos e passando a masturbá-lo em seu colo. O loirinho gemeu e fechou os olhos, suas faces corando com o calor. Afastou um pouco as pernas e se escorou mais no tronco de Alfred, sentindo quando ele passou a beijar e morder sua nuca.
– A-Ahn... – Arthur sentiu-se arrepiar inteiro quando sentiu o garoto começar a mordê-lo ali. – Mais forte... – gemeu Arthur, mordendo o lábio inferior. Com uma mão, alcançou a nuca do garoto e puxou-o, fazendo-o morder com mais força.
Alfred mordeu-o como Arthur queria, mas logo se afastou, apenas deslizando os lábios sobre a pele sensível.
– Você gosta assim, Arthur? – murmurou, deslizando a mão sobre a ereção do loirinho.
– ... pouco mais forte... Hnn! A-Alfred... – o loirinho mordeu o próprio lábio, olhando para baixo e assistindo a mão do garoto se movendo. Conseguia sentir a ereção de Alfred, quente e firme no baixo de suas costas, e estremeceu de leve quando ele começou a ondular os quadris contra si.
Arthur juntou toda a concentração que ainda tinha, e levantou do colo de Alfred. Apanhou da prateleira, um pouco acima da banheira, um pequeno frasco de creme, abrindo-o e espalhando um pouco sobre sua mão.
O garoto percebeu as intenções de Arthur, e segurou-o pelos quadris, assistindo enquanto o loirinho se penetrava com os dedos, com um pouco de pressa. Em poucos momentos, ele passou a mover seus dedos um tanto mais tortuosamente, fechando os olhos. No instante seguinte, ele gemeu longamente enquanto se lubrificava, ao que Alfred imediatamente puxou-o pelos quadris e sentou-o sobre sua ereção.
– A-ah! – o loirinho abriu os olhos, surpreendido, sentindo o garoto deslizar para dentro repentinamente. – A-Alfred! Hnnn... – fechou os olhos e gemeu baixo.
Sentiu os dedos de Alfred apertarem seu quadril com força, manuseando-o em seu colo e penetrando-o rapidamente. Arthur gemeu alto, corando com o jeito como a própria voz ecoou pelo banheiro. Levou uma das mãos para trás, por cima do ombro, e entrelaçou os dedos nos cabelos molhados de Alfred. O garoto passou a morder sua nuca enquanto o penetrava com mais força. Arthur fechou os olhos e seus lábios se entreabriram em um grito silencioso quando ele gozou no colo do garoto.
Não sabia dizer quanto tempo depois, mas sentiu quando Alfred gozou, ainda dentro de si. Arthur estremeceu com a sensação e gemeu baixo enquanto Alfred movia os quadris levemente.
O garoto beijou a nuca de Arthur e subiu, movendo os lábios sobre a bochecha do loirinho, que virou o rosto e beijou-lhe a boca devagar, manobrando o beijo na posição não muito familiar.
O loirinho se moveu e gemeu baixo quando sentiu o líquido quente descer pelas suas coxas. Estremeceu com a sensação somada ao frio fora da banheira. Mesmo a água já não estava quente, mas um tanto tépida, e os dois acabaram deixando a porta do banheiro aberta, fazendo passar uma certa corrente de ar por ali. Deitou a cabeça no ombro do garoto, deixando-o espalhar beijos preguiçosamente pelo seu rosto.
– Hmm... isso é bom. – murmurou, fechando os olhos.– Mas eu to com frio. – murmurou ainda deitado no ombro do garoto.
– Banho quente? – sugeriu Alfred, beijando a nuca do loirinho.
– Sim. Mas dessa vez só banho. – disse Arthur, sentindo-se muito cansado, e muito, muito atraído pela enorme e macia cama de casal da suíte.
Alfred levantou-se, meio que levando Arthur junto consigo. O loirinho dividiu-se entre andar e ser arrastado até o outro lado do banheiro, onde abriu o chuveiro. Sentiu-se particularmente satisfeito com a quantidade de água, que descia abundante, e na temperatura certa. Entrou embaixo da cascata de água, fechando os olhos e se concentrando no murmúrio agradável das gotas d’água contra o piso. Poucos segundos depois, sentiu quando Alfred abraçou-o por trás, efetivamente colando os dois, beijando-lhe uma das faces. Arthur virou-se no abraço, beijando de leve os lábios do garoto, muito, muito satisfeito com a vida no momento.
Por vários minutos, os dois simplesmente ficaram ali, com a água correndo sobre suas frontes, abraçando-se pela cintura um do outro. Alfred recostou sua testa à de Arthur, e sorriu. Arthur lhe fez carinho em uma das faces, aninhando a mão nos cabelos perto da nuca do garoto. Entrelaçou os dedos pelos fios macios, deixando a água se infiltrar pelos espaços, tornando o cabelo do garoto mais escuro. Alcançou o shampoo na prateleira, e passou a lavar os cabelos de Alfred, bagunçando-o, então gentilmente enxaguando e desembaraçando com o condicionador. O garoto abaixou um pouco a cabeça para facilitar, e, ao todo, não falou muito, um tanto sonolento demais para isso, escolhendo simplesmente aproveitar a atenção e a sensação agradável.
Em poucos instantes, Alfred revezou as tarefas, passando a lavar os cabelos de Arthur. Para otimizar a ocupação do tempo, ensaboou os dois enquanto esperava o condicionador agir alguns minutos. Arthur divertiu-se por alguns momentos em fazer topetes engraçados no cabelo de Alfred, que, ao contrário do seu, ficava no lugar com facilidade.
– Há. – disse o loirinho, terminando sua arte na cabeça do garoto. – Parece o Elvis. – disse, e começou a rir, despreocupado e de coração leve, e era estranho como ele parecia, pela primeira vez em muito tempo, ter os vinte e um anos que tinha.
O garoto sacudiu a cabeça, como um cachorro molhado, espalhando espuma para todo o lado.
– Alfred! – exclamou Arthur, tentando escapar dos respingos.
Alfred achou que estava bom o suficiente e puxou Arthur para debaixo do fluxo de água consigo. Arthur estava de bom humor, e, excepcionalmente, não reclamou sobre a bagunça ou sobre qualquer coisa, contentando em resmungar alguns poucos minutos. Então, meramente deitou a cabeça no ombro do garoto, fechando os olhos. A água caía gentilmente sobre os dois, com um som agradável e constante.
Custou um pouco de coragem, mas em alguns minutos, eles fecharam o chuveiro, dando adeus por enquanto à água quentinha. Aproveitaram das toalhas macias e felpudas, secando-se antes de encarar o quarto, que com certeza estava mais frio. Tendo isso em mente, colocaram os roupões macios, convenientemente colocados ao lado da pilha de toalhas.
Alfred já ia saindo do banheiro quando terminou de se secar, mas foi arrastado quase que pelas orelhas por Arthur para que secasse os cabelos. Alguma coisa como “de jeito nenhum você vai dormir com esse cabelo molhado!”, ao que não restou outra escolha a Alfred senão sentar na borda da banheira obedientemente enquanto Arthur usava o secador do hotel em seus cabelos.
Ao final de alguns minutos, o cabelo de Alfred estava irritantemente arrumado, mesmo depois de seco. Já o cabelo de Arthur acabara bem arrepiado, mas ao menos ele não iria pegar um resfriado, e considerando tudo, já era um começo.
Alfred abraçou o loirinho e arrastou-o para cama, fazendo com que os dois caíssem em um baque surdo e macio na cama. Arthur deixou-se ser levado, apenas rindo um pouco na confusão de braços e pernas depois da queda.
Em alguns momentos, os dois aquietaram, ficando deitados na cama, um de frente para o outro. O quarto era silencioso, sem os estalidos de outros cômodos como uma casa, sem contato com a vizinhança, ou com o mundo externo, com exceção da enorme janela, fechada no momento. Sobrava o som da respiração quieta dos dois deitados na cama.
As mãos do garoto apoiaram cada lado do seu rosto e duas lentes cristalinas e azuis o fitaram longamente.
– Eu amo você, Arthur. – murmurou o garoto. Seus lábios mal se moveram, mas seus olhos expressavam um sentimento do tamanho do mundo. Sua voz foi muito baixa, talvez porque, no fundo, era frustrante como um sentimento tão grande precisava caber em palavras tão pequenas e gastas.
Arthur fechou os olhos, e encostou sua testa à do garoto. Era estranho como eles tinham mudado. Alfred se tornara menos impaciente e agitado, e se acostumara a não falar muito alto. No começo, ele acordaria Peter sem querer com o barulho que fazia, e ficaria chateado consigo mesmo e sua falta de jeito. Era engraçado como... eles tinham mudado. Mesmo Arthur se tornara mais aberto, e conseguia expressar afeição com mais facilidade. Tinham mudado, porque as coisas mudavam mesmo, e o mundo era estranho assim. Mas, ainda assim, Arthur ainda amava aquele garoto, que não era o mesmo que conhecera, de todo o coração.
Em algum momento, os dois adormeceram juntos.
Quando amanheceu, o sol espalhou-se sobre o rosto do garoto. Alfred acordou, e seus olhos claros lentamente se focaram na figura que dormia ao seu lado. Arthur tinha o cabelo dourado todo bagunçado, e seu sono era tranquilo. Arthur dormia, os olhos cerrados com uma sutileza absurda, como se ele estivesse tendo um sonho muito bonito. Seus ombros pálidos moviam-se sutilmente enquanto ele respirava, coberto até a cintura pelos lençóis claros.
Alfred mexeu-se um pouco, tentando flexionar os dedos da própria mão, dormente por causa de uma noite inteira com Arthur usando seu braço como travesseiro. Com a movimentação, o loirinho acordou, piscando confuso sob a luz da manhã.
– Confortável? — O garoto lhe deu um meio sorriso, e Arthur finalmente percebeu que seu travesseiro não era exatamente um travesseiro, e, que em algum momento da noite decidira deitar sobre o braço do americano.
– Er... – o loirinho corou um pouco, parecendo um pouco embaraçado, um pouco inclinado a pedir desculpas. Desistiu imediatamente assim que o garoto começou a rir do seu embaraço. – Palhaço.
Alfred riu mais ainda, algumas lágrimas fazendo seus olhos claros cintilarem. Parou um pouco e bateu no braço algumas vezes para fazer o sangue voltar. – Se eu não conseguir mais usar essa mão, eu vou emprestar a sua quando eu precisar. – disse, erguendo as sobrancelhas sugestivamente e depois caindo na gargalhada, afundando o rosto no travesseiro.
Arthur atacou-o com outro travesseiro, abafando o riso do garoto e resmungando sobre a idiotice dele.
Então, Alfred virou-se na cama, ainda sorrindo, e tirou o travesseiro das mãos do loirinho, abraçando-o como um urso e contendo-lhe. Então, calou os protestos com um beijo lento, suave, absolutamente devoto, aos poucos soltando o loirinho. Arthur deixou um suspiro escapar, e abraçou o garoto pelo pescoço, correspondendo seu beijo, correspondendo seus sentimentos.
Então, o loirinho se afastou alguns milímetros, e sussurrou que o amava contra seus lábios, a voz ainda rouca de sono, portando um leve meio sorriso.
E então Alfred teve certeza de que era o homem mais feliz de todo o mundo.
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