Boulevard Of Broken Dreams

41 Capítulo 40 - O mundo, parte II


Notas iniciais
ATENÇÃO!! Essa aqui é a continuação da parte I! Caso alguém tenha clicado no último capítulo por engano, saiba que o capítulo final teve que ser dividido em duas partes, por favor não esqueçam de ler a parte I! Essa aqui é a parte II do capítulo final. No mais, a música que aparece é Mano žemė (Marijonas Mikutavičius), em lituano. Para quem quiser: https://www.youtube.com/watch?v=QgaCf-rrUes. Qualquer erro de tradução, etc, me avisem! (peço desculpas pelo alinhamento dos versos, tentei consertar cinco vezes, mas não funciona... u.u) No mais, conversamos mais nas notas finais. Um beijo enorme e boa leitura!

PARTE II

A lua de mel durou pouco menos de três dias. No dia da última diária, Arthur se encontrou acordando estranhamente cedo (oito da manhã), agradavelmente deitado sobre o braço do garoto (problema dele se ficasse dormente), ambos nus debaixo das cobertas. Alfred se mexeu um pouco ao senti-lo acordando, piscando algumas vezes e focando seus olhos muito azuis no loirinho. Deu-lhe um sonolento beijo na testa e voltou a fechar os olhos e jogar a cabeça no travesseiro, dormindo menos de um minuto depois.

Arthur considerou suas opções, e pediu café da manhã no quarto, porque era uma oportunidade única na vida e porque ninguém merecia ter que colocar roupa de sair só para descer e tomar café e depois voltar para o quarto. Alfred continuou dormindo como uma pedra, mas acordou totalmente quando sentiu cheiro de café e outros agrados da cozinha, sentando-se ao lado de Arthur na cama para comer.

– Nós podíamos voltar para casa depois de tomar café. – sugeriu o loirinho, um tanto incerto, segurando com as duas mãos sua fumegante caneca de chá.

– Também acho. – concordou o garoto, empurrando o resto de comida na boca com um gole de café. — É estranho, mas eu fico meio preocupado longe do Peter. – comentou ele, um pouco pensativo. Foram dias muito bons, e fazia um bem imenso para a intimidade de um casal relaxar juntos daquele jeito, mas a verdade era que os dois estavam um pouco aflitos em ficar longe de Peter. Alfred reparou que, algumas vezes, Arthur acordava no meio da noite e chegava a sentar na cama, quase levantar porque tinha tido a sensação de que ouvira Peter, então voltar a se deitar quando se lembrava onde estava, e que o menininho dos dois não estava ali.

Arthur sorriu por trás de sua caneca de chá, e os dois terminaram o café com tranquilidade.

Quando Arthur destrancou a porta da frente de casa, encontrou Scott sentado no chão da sala brincando de bloquinhos com Peter.

E ainda escondendo os cabelos com um boné.

– Pfff... ele ainda não se acostumou né? – riu o loirinho, deixando a pequena mochila com roupas no sofá e indo cumprimentar o irmão.

– Não. – resmungou Scott, levantando e reajustando o boné. Tentou se afastar e ir cumprimentar Arthur, mas Peter segurou-lhe a barra da calça e o olhou inquisitivamente. – Er... – o ruivo franziu o cenho, tentando parecer bravo, mas corou ao mesmo tempo, o que provavelmente estragou o efeito esperado. Alfred ponderou brevemente sobre como as pessoas daquela família coravam fácil, ao que Scott tentou não parecer feliz demais com o fato de que Peter decidira que gostava de si.

O ruivo tinha uma passagem de volta para a Escócia marcada apenas para a noite, de modo que ficou para o almoço, e eventualmente o jantar. Alfred estava de tão bom humor que recebeu sem reclamar todas as ameaças de morte de Scott caso o garoto magoasse Arthur ou não desse atenção a Peter. E, quando chegou a hora de se despedir, Alfred admitia que quase sentiria falta do ruivo. Recebeu um soco nos ombros de despedida, e um meio sorriso, e percebeu que tinha, de algum jeito, sido aprovado.

Quanto a Peter, este estava muito contente com os pais de volta, e revezara-se seguindo os dois pela casa o dia inteiro. Dormira no colo de Scott lá pelo meio da tarde, e depois retomou suas atividades de perseguição, ganhando muitos beijos e abraços durante o dia, sendo, na sua opinião, um dia muito proveitoso.

De fato, o dia fora tão divertido, mas tão divertido, que quando chegou a hora de dormir, Arthur e Alfred se viram tentando convencer o loirinho mais mirim da casa de que ele precisava dormir. Eventualmente, Arthur teve a ideia de colocar as músicas que costumava pôr para ninar Peter quando ele era mais novinho.

Uma pena para Alfred, porque isso queria dizer uma sessão interminável de música clássica extremamente parada.

– Arthur, isso é muito chato. Desse jeito quem vai dormir sou eu. — O garoto sentara-se numa cadeira ao lado e cruzara os braços, lutando bravamente contra o tédio. Alguns minutos de muita flauta e corda e sabe Deus mais o quê, e o garoto já pescava longamente na cadeira. Em um momento, estava acordado, então começava a dormir por alguns segundos, e acordava quando sua cabeça começava a pender para frente.

– Isso é Dvorak, seu ignorante! – sussurrou ele, ajustando os cobertores de Peter, que estava gostando da música e parecia mais calminho.- Romance para violino e piano, e isso sim é música. Eu não vou deixar essa criança inocente ouvir suas músicas de sacanagem e .... Alfred. Alfred!

– Ahn? – acordou o garoto em um pulo, olhando em volta.

– Eu não acredito que você estava dormindo!

– É essa música chata aí! Caral- que saco, — corrigiu-se o garoto rapidamente diante do olhar feio que o loirinho lhe lançou. Certo, tinham combinado não xingar na presença de Peter. — Arthur, desse jeito o moleque não vai dormir, vai é entrar em coma!

– Você vai ver quem vai entrar em coma se você não parar de falar besteira. – resmungou Arthur.

Peter dormiu rapidamente, assim como Alfred, que acabou tendo que ser acordado outra vez e ser mandado dormir na cama. Arthur resmungou algo sobre o dia seguinte ser segunda feira outra vez e como tudo isso era injusto, ao que Alfred meramente capotou na cama e dormiu como uma pedra assim que caiu sobre o colchão. Arthur resmungou mais ao perceber que estivera falando sozinho pelos últimos dez minutos, mas arrumou o garoto sob as cobertas e retirou os óculos dele, depositando-os na segurança da mesa de cabeceira. Colocou o despertador do celular, tendo um breve arrepio quando pensou que não dormiria muitas horas. Então, apagou a luz e deitou-se do seu lado da cama. Alfred instintivamente enlaçou a sua cintura e puxou-o para dormir de conchinha consigo. Arthur resmungou alguma coisa sobre não ser um ursinho de pelúcia, mas, relaxou visivelmente nos braços do garoto, e, em poucos minutos, já tinha adormecido.

E na manhã seguinte, quando o despertador acionou ao seu lado, e Arthur ressentidamente o desligou e saiu do quentinho da cama, quando Alfred se revirou nos cobertores e resmungou no travesseiro, mesmo assim, nenhum deles se lembrava de ter estado mais feliz. E o dia amanhecera cinzento mesmo, nublado como a maioria dos dias. Mas havia um meio sorriso nos lábios de Arthur enquanto ele tomava uma caneca de chá e andava pela cozinha, parando para bagunçar os cabelos do garoto, que quase dormia em cima da sua caneca de café na bancada.

Vėl eilinė diena,
Rodos nieko keisto.
Visai nepanašu,
Kad kas pasikeistų.
Gali neatsimerkti,
Viskas jau matyta.
Pasaulis toks kaip kiekvieną rytą.

(Mais um dia comum,

Nada parece estranho,

E não parece que algo vá mudar.

Você nem precisa nem abrir seus olhos,

Tudo já foi visto antes.

O mundo está exatamente

Como sempre foi todas as manhãs.)

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E, três horas a menos no fuso horário, bem mais ao sul e com bem menos nuvens no céu, Afonso permanecia deitado na cama, insone e distraído. O rapaz ao seu lado dormia quietamente, e o quarto todo também parecia adormecer em silêncio. Como era alta madrugada, nem mesmo havia carros passando pela geralmente movimentada pista em frente ao prédio em que eles moravam. No momento, parecia haver só aquelas duas pessoas e aquela cama, e o lusitano quase podia jurar que seu mundo se resumia ao rapaz deitado ao seu lado.

Luciano era... incrível, bonito de uma forma que o poeta jamais poderia explicar. Era... a tenacidade que ele tinha, a luz nos olhos dele, que cintilava mesmo no mais sombrio dos tempos. Era um sorriso que acontecia vezes demais, um sorriso que era sua arma e escudo, seu campo de batalha e seu tempo de paz. Ele sorria de tantos jeitos, e tantas vezes, nem sempre por felicidade, às vezes até de tristeza, mas eram todos sorrisos que o poeta amava muito. Era bobo, mas, no fundo, acho que amava mesmo os sorrisos que sua memória não podia alcançar, os que aconteceram antes, e pertenceram a outro Luciano. Seu ex, e seu atual amor.

Bet...
Dienomis kaip ši
Pro nešvarų langą stebiu aš dangų.
Ir kvaila mintis
lyg sena meil uė
ryte aplanko.

(Mas...

Em dias como hoje.

Através da janela suja, eu olho o céu.

E um pensamento estúpido,

Como um antigo amante,

Me vêm à cabeça.)

Os segundos pareceram fugir por entre os dedos do poeta deitado, e, em alguns minutos, ele também adormecia junto ao rapaz ao seu lado. Em poucas horas, amanheceu, e o sol iluminou a imensidão do céu, que surgiu levemente lilás, então azul claro, poucas nuvens vagando pelo céu, e poucas pessoas andando pelas ruas. Ao meio dia, o céu já estava muito azul, e tudo abaixo dele parecia vibrar em uma explosão de cores.

Luciano assistia, isolado pelo vidro da janela do seu trabalho, no oitavo andar de um movimentado prédio comercial. Os últimos minutos do seu horário de almoço iam se passando, e ele permanecia debruçado sobre sua mesa, sozinho. Os olhos castanho-esverdeados do rapaz fitavam o céu lá fora, sua mão segurando distraidamente a caneta. Estava um pouquinho nublado, mas o sol insistia por trás das nuvens, e havia um grande rastro de azul, deixando uma fresta de luz no céu. Por um momento, ele se sentiu grato, e cheio de fé. Fé em um bem maior, na vida, talvez no próprio universo. E talvez, no silêncio de suas orações, ele tivesse agradecido por todos os pequenos milagres em sua vida, e por todos os grandes, como ter conseguido seu amor de volta. Como a vida parecia diferente quando seu coração sabia de seu amor correspondido.

Mas, mesmo com sentimentos tão sinceros no peito, não se sentia à vontade para escrever um poema por si mesmo. Ou talvez não conseguisse. As palavras pareciam lhe fugir por entre os dedos e o significado se perdia quando se tornava letra escrita por seu intermédio. Nada lhe vinha à mente, por mais que ele sentisse vontade de expressar seus sentimentos ou sua felicidade. Então, ele lia livros e quando achava um poema que o fazia lembrar da sua pessoa mais especial do mundo, ele o escrevia e escondia o bilhete em algum lugar pela casa.

Terminou de transcrever o poema e dobrou caprichosamente o papel. Na face externa, escreveu o nome do poema. “As sem-razões do amor” lia-se em uma letra de engenheiro, um tanto quadradinha, com um ar estranhamente técnico.

Laimės pilna parašyt,
sudainuoti dainą.
Gaila, kad į galvą man
niekas neateina
tik...

(Para escrever, cheio de felicidade,

Para cantar uma música.

É uma pena que nada

Me venha à cabeça.

Apenas...)

Guardou o papel dobrado dentro da sua agenda, e o levou consigo durante o restante do seu expediente. Durante a correria, e as reuniões, o café e os próximos projetos, no trânsito das seis horas quando ele voltou para casa, o papelzinho em seu bolso percorrera uma grande aventura até a escrivaninha do seu poeta favorito.

E a vida seguia em frente, indefinidamente. O dia morria naquele pedaço do mundo, e amanhecia em outro, constantemente. E, talvez, apenas talvez, fosse assim com as pessoas, que morriam em um pedaço do mundo, e amanheciam em outro. E os dias eram tão os mesmos. Tão iguais.

A caneca de café de Alfred continuava na bancada da cozinha, e quando Arthur chegou em casa, o açúcar havia grudado no fundo de uma maneira sem volta. Mas quando se queixou com o garoto, ele estava saindo de casa correndo, lhe deixando um beijo nos lábios, um corrido pedido de desculpas e a caneca ainda suja na cozinha.

Matt terminava de assar uma fornada de croissants muito bem amanteigados, e Francis tocava uma sonata no salão da confeitaria. Chuviscava nos vidros, de modo que as portas foram fechadas e o cheiro de pães e manteiga, café e leite, preenchia completamente o ar. O expediente estava quase no fim, e em uma hora eles provavelmente estariam no sofá de casa, não fazendo absolutamente nada de produtivo, mas muito contentes.

Varpai vėl skamba.
Kakas ir vėl
tranko durimis.
mones nubunda:
su kava,
su keiksmais,
su bučiniais...
su maldomis.
Visus į tolį
Sniegas, ar lietaus vanduo.
vilgsniu palydi.

(Os sinos estão tocando de novo

Alguém está batendo portas de novo

As pessoas acordam

Com café,

Maldições,

Beijos,

Com orações.

Por toda a distância,

Neve ou chuva

Vão te acompanhar.)

Matt lia um livro de culinária no sofá da sala, seus dedos fazendo carinho distraídamente nos cabelos ondulados e macios do francês que dormia em seu colo. A chuva fina batia de leve contra o vidro das janelas, e no chão da rua, em uma melodia constante e agradável.

O cachorro de Francis dormia ao pé do sofá, jogado no tapete, seu torso branco se movimentando levemente enquanto ele respirava, contente com seu cochilo no meio da tarde.

Abejingas,
koją pakėlęs šuo.

(Um cachorro indiferente,

Com a pata para cima.)

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Dienomis kaip ši
negaliu suprasti kodėl diaugiuosi.
Dienomis kaip ši

(Em dias como hoje,

Eu não consigo entender

Porque eu estou tão feliz.)

Arthur saiu correndo de casa, arriscando uma olhada rápida no espelho do quarto. Seu cabelo estava uma bagunça, suas sobrancelhas continuavam tão grandes quanto sempre, seu nariz era definitivamente aquele mesmo. Mas seus olhos cintilavam com uma felicidade que ele mesmo não sabia explicar. Deu um meio sorriso para o próprio reflexo, e saiu. Estava bom o bastante. Definitivamente.

Eventualmente, Arthur descobriu que gostava muito da aliança que Alfred lhe dera. Não porque a achava bonita (embora a achasse). Mas, especialmente, porque gostava da sensação do metal entre seus dedos, da forma como a sensação lhe reassegurava. Era... reconfortante a ideia de fazer parte de um todo, de pertencer a alguém, que, por sua vez, lhe pertencia. Nas noites em que ele precisava ficar acordado na madrugada e a casa inteira dormia enquanto ele se debruçava sobre o trabalho na mesa, Arthur pararia algumas vezes e apreciaria a sensação da aliança em sua mão, lembraria das pessoas queridas dormindo em seu quarto. No trabalho, quando estava frustrado e irritado, sentia-se melhor em lembrar que Alfred e Peter estariam em casa quando ele voltasse. Quando ele e Alfred discutiam, e isso não acontecia menos agora, Arthur sentia parte da raiva e irritação se esvair quando se lembrava de como fora seu casamento, dos seus votos e de tudo o que aquele momento significava. Lembrava de que amava aquele garoto estúpido. De que o queria em sua vida.

E, durante o dia, Arthur enfrentaria os problemas, com tudo o que tinha. Ele faria uso de toda a coragem com que nascera, e de toda a experiência que ganhara a custo de tanta dor. Ele seria mais maduro que os seus anos lhe fariam parecer, e ele aceitaria as responsabilidades, enfrentaria.

Mas... quando ele dormia, por um breve momento antes de acordar, ele seria aquele menino de novo, prestes a chorar no colo de sua mãe, que ainda vivia em seus sonhos. Ele pareceria vulnerável e até pequeno sem sua expressão preocupada. Mesmo seus ombros pareceriam frágeis, pequenos demais para o peso que ele precisava carregar depois que o dia amanhecesse e a vida continuasse a seguir. Nos breves momentos, pouco antes de dormir, ele pareceria indefeso. Mais do que isso. Mesmo durantes as tardes, às vezes, ele pareceria infinitamente triste e seus olhos verdes se perderiam em lembranças e frustrações. Ele se lembraria das pessoas que o deixaram. Ele sentiria falta da mãe. Ele teria medo do futuro, como qualquer outra pessoa.

Então, quando Arthur parecia que ia afundar-se nos próprios pensamentos, o garoto o tirava de lá. Alfred roubaria um beijo, ou o abraçaria sem motivo. E o loirinho não reclamaria. Ele não diria coisa alguma. Quando Alfred se afastasse novamente para vê-lo, haveria adoração naqueles olhos esverdeados. Haveria um quase sorriso, que Arthur não percebia que tinha. Ele o olharia quietamente, intimamente grato por ter alguém ali consigo, silenciosamente confessando a si mesmo como amava aquela pessoa e como o amor lhe parecia muito mais gentil do que ele um dia julgara possível.

Alfred nunca encontraria o que dizer. Então o abraçaria de novo, com mais força que o necessário. Porque Arthur certamente merecia o troco por roubar seu coração daquele jeito, todos os dias.

Dienomis kaip ši
iš visų jėgų aš kankinuosi.
Laimės pilna parašyt,
sudainuoti dainą.

Kad ir kiek bandau sugalvoti gudriau,
viskas kas man išeina..
Čia.. Mano emė,
mano emė — mano dangus.
Mano kelias,
mano kelias į mano namus.

(Dias como hoje,

Eu suporto com toda a minha força,

Para escrever, cheio de felicidade,

Para cantar uma música.

E por mais que eu tente pensar em algo mais inteligente,

Tudo o que eu consigo é...

Essa é a minha Terra.

Minha Terra, o meu céu.

Minha estrada,

Minha estrada, para a minha casa.)

Matthew encontrava-se sentado no sofá da sala, uma caneca de café em uma mão e um namorado francês deitado com a cabeça em seu colo. Com um meio sorriso quieto, o canadense apoiou a caneca na mesinha de centro e passou a brincar com os cabelos loiros e ondulados de Francis. Este sorriu, abrindo os olhos. As íris azuis se voltaram vagamente na direção de Matthew, cintilando quietamente. E era estranho como havia luz nos olhos dele, e ele não pudesse ver. Os dedos longos do pianista embalavam um montinho de cartas de tarot, que ele parara de mexer para prestar atenção em Matt. O canadense traçou os contornos do rosto do outro, fazendo carinho de leve sobre as faces dele. Então, pousou uma mão sobre os olhos cegos do namorado, fazendo-o fechá-los.

– Escolha uma carta. – disse animadamente o francês.

Matt escolheu uma carta, mas, sendo sincero, não olhou para ela.

– Ahh! É o arcano do Mundo! – ouviu Francis exclamar alguns segundos depois, empolgadamente. Diria que poderia recitar todas as interpretações da carta de cor. Matthew deveria dizer que o ouviria falar o dia inteiro.

Mas, sendo muito sincero, a carta escorregou por entre seus dedos, e qualquer coisa que Francis fosse dizer foi totalmente ignorada quando Matt puxou o francês e beijou-o.

Mano laimė,
mano laimė — mano viltis.

(Minha felicidade

Minha felicidade, minha esperança.)

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(Quatro anos depois…)

Mano metai,
mano metai vėlei nauji.

(Meus anos

Meus anos, novo outra vez.)

Arthur bateu à porta da conhecida casa cor de creme e telhado cinzento, e esperou ser atendido. O jardim não tinha muitas plantas ou flores, mas alguns brinquedos e uma bicicleta de criança, o que dizia bem sobre a vida de uma mãe dedicada e ocupada. Em alguns momentos, a tia de Alfred lhe abria a porta, um sorriso simpático em suas feições assim que o viu.

– Oi, Lily! Eu vim buscar o Peter. – disse, oferecendo um sorriso de volta. Lily se tornara bem próxima dos dois, e sempre que preciso cuidava de Peter quando Arthur e Alfred precisavam. O menino gostava muito de visitar, pois, mesmo com a diferença de idade, se dera muito bem com a priminha de Alfred, e Arthur acabava que o trazia para brincar com frequência.

– Ah ele deve estar lá em cima brincando. – disse ela, dando espaço ele entrar e guiando-o escada acima. Ficara muito mais simples visitar desde dois anos atrás, quando Arthur e Alfred conseguiram um bom preço por um apartamento nas redondezas. Era uma localidade muito boa, e Peter gostara bastante do novo espaço.

– Eu juro, esses dois parecem mais irmãos do que primos. – continuou Lily, abrindo a porta do quarto da filha. – Peter, o Arthur veio te buscar! – chamou ela, acendendo a luz, que por alguma razão estava apagada.

Olhou em volta e não viu nenhuma de suas crianças. Arthur sentiu o coração disparar, e um desespero absurdo começar a lhe sufocar o peito, mas Lily imediatamente colocou uma mão em seu ombro, chamando sua atenção.

– Calma, menino! – sussurrou ela. Então, agachou-se e fez sinal para que o loirinho fizesse o mesmo.

Debaixo da cama, dormia Peter encolhidinho no canto, deitado parcialmente sobre as costas da prima logo ao seu lado.

Paklausyk kaip tyliai,
aisdami slėpynes,
po lova, kvėpuoja vaikai.

(Escute, quão gentilmente,

Enquanto brincam de esconde-esconde,

As crianças respiram debaixo da cama.)

Arthur sentiu as pernas bambas com o alívio repentino, soltando uma respiração que não percebera que estava segurando. A tia do garoto riu um pouco.

– Já me aconteceu antes, crianças meio que acabam caindo no sono em qualquer lugar. Uma vez quase chamei a polícia, para descobrir essa princesinha dormindo atrás do sofá. – contou ela, pegando a filha no colo e colocando-a sobre a cama. Ao mesmo tempo, Arthur pegou seu menininho, pesando já bem com seus cinco anos, e colocou-o no colo, sem que sua pequena majestade sequer se ocupasse em acordar. O loirinho beijou-lhe a testa mesmo assim, enquanto Lily acomodava a menininha embaixo das cobertas.

Conversaram um pouco e se despediram brevemente, ao que Arthur levou de volta para casa o menininho, que continuou a dormir em seu colo. Embora ele estivesse ficando pesado, Arthur gostava de segurá-lo no colo, sentir o peso familiar da criança em seus braços. Era como se pudesse protegê-lo de todas as coisas, e era uma boa sensação de se ter. O menino dormiu o caminho todo, acordando apenas quando escutou as chaves de Arthur abrindo a porta de casa. Era uma resposta quase instintiva. Peter se acostumara a ficar esperando ouvir as chaves na porta, fosse esperando Alfred, fosse esperando Arthur voltar para casa. Ele não acordaria de suas sonecas nenhuma vez durante a reforma do vizinho, mas chaves na porta o acordavam imediatamente, e ele olharia esperançoso para a entrada de casa.

Arthur percebeu quando o menino em seu colo acordou, bocejando e olhando em volta.

– Bom dia, bela adormecida. – disse ele, divertido.

– Hmm... – Peter pareceu um tanto letárgico por alguns momentos, mas aos poucos reganhava sua energia, revigorado do cochilo.

– Brincou bastante com a sua priminha? – perguntou o loirinho, colocando Peter no chão e fechando a porta de casa, depositando as chaves no pequeno vaso na mesinha perto da entrada.

– Foi legal. – respondeu o menino, observando Arthur tirar a carteira do bolso de trás da calça e sentar-se no sofá da sala. — Acho que até mais do que quando eu brinco em casa.

– E posso saber como você brinca de esconde-esconde sozinho? – disse o loirinho, com um sorriso divertido.

– Eu não brinco sozinho. – respondeu Peter um tanto indignado, como se achasse um absurdo que Arthur tivesse pensado uma coisa dessas. — Tem as fadas.

– O quê? – disse Arthur, virando rapidamente e encarando o menino.

– As fadas, pai. – repetiu ele, soando um tanto exasperado, como se Arthur estivesse se fazendo de bobo de propósito.

– Como assim, Peter? – e talvez a voz de Arthur tenha tremido um pouquinho. Seria possível... ?

– As fadas que moram no lustre da sala! – especificou o menino, apontando para o pequeno lustre sobre a mesa de jantar. — Mas elas trapaceam no jogo, porque elas usam mágica. – continuou ele, um pouco mais baixo, como se não quisesse que as fadas soubessem que ele sabia. – Aliás, — emendou ele, — elas me disseram que são suas amigas, e até me contaram de quando você conheceu o papai e... – um pequeno lampejo de luz perpassou sua visão periférica, e ele rapidamente se virou e apontou para cima. -Olha! Tá vendo?

Arthur se concentrou e olhou novamente para o lustre. Não, não via nada. Piscou algumas vezes, reparando em um pequeno lapso de luz colorida. A fadinha acenou e bateu as asinhas, com um tilintar muito familiar. No instante seguinte, ela havia desaparecido.

E Arthur não tinha muita certeza, mas talvez estivesse um pouquinho velho para conversar com fadas e acreditar em finais felizes. Mas então de novo, o fato é que algumas vezes ele as via, e era fato também de que ele era muito, muito feliz, mesmo que ele achasse difícil de acreditar na própria sorte às vezes.

Arthur e Peter esperaram Alfred chegar em casa e foram os três ao supermercado. Peter parecia se divertir no passeio, e já aprendera que um escândalo no mercado era terminantemente proibido e deixaria seus pais muito irritados e decepcionados, de modo que ele ficava quietinho, sendo tranquilo deixá-lo ir também. Ele parecia se divertir com todo o tipo de coisa aleatória, como o formato de cascalhos no chão, ou evitar pisar nas linhas que dividiam a calçada, ou segurar na mão dos pais e se erguer do chão alguns centímetros.

Alfred e Arthur levaram ao todo duas horas para fazer compras, em parte porque Alfred esquecera a lista em casa e não percorria as sessões em ordem, o que o fazia passar pelo mesmo lugar várias vezes. Peter não se importava muito com a demora, desde que pudesse andar dentro do carrinho.

Ao final de duas horas, Arthur seguia o caminho de casa, levando Peter pela mão, e carregando um pouco das sacolas de compras na outra. Alfred estava ao seu lado, carregando a maior parte (tendo a situação toda sido decidida na base do jokempo na porta do supermercado). As ruas estavam molhadas da chuva recente que caíra enquanto os três faziam compras.

– Pai... eu to com frio. – murmurou o menininho, apertando a mão de Arthur com um pouco mais de força.

– Alfred, segura isso aqui pra mim. – disse o loirinho, passando as sacolas da sua mão para a do garoto. Então, tirou o agasalho de capuz que usava e colocou no filho, ficando apenas com a camiseta de uma banda, que usava por baixo.

– Melhor? – perguntou, terminando de colocar o casaco na criança.

Peter concordou, parecendo extremamente contente. Experimentou erguer os braços dentro das mangas muito compridas do casaco, vendo que suas mãozinhas mal chegavam na metade. Sacudiu os braços, e começou a brincar de que ia voar, achando um tanto engraçado o jeito como as mangas se mexiam quando ele sacudia os braços. De repente, deu-lhe na cabeça de sair correndo também, porque assim as coisas geralmente ficavam mais divertidas.

Arthur virou-se para falar com Alfred e não viu quando Peter se atrapalhou com o casaco muito longo em si, e suas perninhas ficaram enroscadas na barra do tecido durante sua corrida. Dois segundos depois, só ouviu um baque surdo no asfalto molhado.

Arthur e Alfred viraram rapidamente na direção do barulho, para encontrar uma criancinha loira caída na calçada, parte do tecido sobre um de seus joelhos totalmente esfarrapado. O menino piscou duas vezes, olhou para os dois, e começou a chorar.

Imediatamente, os dois correram até o menino, tentando acalmá-lo e ver a extensão do estrago.

– Shh, shhh.... – murmurou Alfred, pegando-o no colo e embalando-o enquanto ele soluçava em seu ombro.

Arthur abaixou-se um pouco e olhou mais de perto o joelho do menino. Em uma das pernas, o tecido do agasalho em que Peter tropeçara protegeu o joelho, mas na outra o fino tecido da calça não suportara o atrito com o asfalto e deixara a pedra ralar feio a pele do menino.

– Melhor a gente passar numa farmácia. – disse Arthur, pegando as sacolas do chão. – Que eu me lembre acabou a gaze.

– Certo... acho que tem uma na rua de baixo. – ajudou o garoto, parecendo um pouquinho aflito. O menino em seu colo estava muito amuado, e achando que o dia tinha ficado repentinamente ruim e ele não estava gostando, e seu joelho estava doendo muito mesmo, e não era assim que ele achava que os passeios deveriam ser, o que o deixara muito chateado mesmo.

Quando chegaram à farmácia, Arthur comprou algumas bandagens e antissépticos, enquanto Alfred sentou o menininho na entrada da loja e esperou-o. Uma senhora que trabalhava lá ficou com dó de Peter, e sugeriu Arthur fazer o curativo por lá mesmo. Emprestou uma pequena bacia com água e uma barra de sabão para que Arthur lavasse o machucado antes de fechá-lo. Teria se oferecido para ela mesma fazer o curativo, mas tinha filhos e sabia como crianças pequenas ficavam sensíveis nessas horas e dificilmente gostavam de ficar perto de qualquer outra pessoa que não os pais.

Alfred admitia que ficara um tantinho orgulhoso com a coragem do seu menininho. Peter, ainda em um agasalho muito grande para si, franzira o cenho e pressionara os lábios com força, seus olhos claros muito marejados, mas permanecera quietinho, sem espernear, enquanto Arthur lavava o machucado e passara remédio em cima. Depois, o loirinho colocou uma gaze e segurou-a no lugar com alguns esparadrapos.

– Pronto. – disse finalmente, ao final de alguns minutos. – Bom menino. – murmurou, quase para si mesmo, bagunçando os cabelos claros do filho.

Alfred abaixou-se e beijou a bochecha da criança, elogiando-o também, e lhe dando um chocolate de uma das sacolas de compras.

Peter pareceu um tantinho mais feliz com o carinho e atenção, passando a morder o chocolate, parecendo menos amuado.

Voltara a chover quietamente no fim de tarde. Arthur e Alfred debateram brevemente entre esperar passar e voltar na chuva mesmo, acabando por se decidirem em irem logo pra casa. Os três já estavam cansados de ficar na rua. Passar o restante da noite em casa, assistindo um filme e comendo pipoca depois do jantar parecia uma ideia muito boa. E Peter realmente queria ir para casa depois de toda aquela agitação.

Arthur abaixou-se para levantá-lo no colo, ao que Peter imediatamente estendeu os bracinhos em sua direção, e pareceu realmente mais feliz. Gostava muito mesmo de ficar no colo. Cuidadosamente, Arthur abaixou o capuz do casaco sobre a cabeça da criança, protegendo-a da chuva. Então, escondeu-o melhor em seu colo, evitando que ele tomasse muito vento também. A última coisa que queria era que Peter acabasse doente. Sustentou a criança com um dos braços, parte do peso apoiado em seu quadril. Sentiu quando ele deitou a cabeça sobre o seu ombro, agarrando-se um pouco na sua camiseta, mas parecendo bem mais calmo. O loirinho sorriu de lado e beijou-lhe o topo da testa.

E era estranho, muito estranho amar uma criança. Elas se lembravam. E, por toda a vida, levavam a lembrança daquele amor e daquele carinho, dos gestos mais simples. Muito mais do que ter ou não algum brinquedo, era importante como Arthur ouvia com paciência, e como Peter sabia que podia conversar com ele e Alfred.

Diferente do que Alfred tivera em casa, quando seus pais eram muito ocupados e não demonstravam muito afeto. E ele criaria Peter diferente, de uma maneira que o fizesse saber que era amado, independente de qualquer coisa. Porque era incrível como se saber amado dá coragem às pessoas. Alfred sabia que era uma pessoa diferente pelo fato de Arthur amá-lo tão sinceramente.

– Pode me devolver, Alfred. – disse o loirinho, estendendo a mão livre em direção às sacolas.

– Nah, deixa. Melhor você segurar ele com os dois braços, fica mais firme. Além disso, eu sou mais forte que você. – cutucou o garoto, rindo de lado.

– Mais forte que eu? Nem nos seus sonhos, Alfred. – retorquiu Arthur, mas riu mesmo assim. O garoto inclinou-se e deixou um beijo muito suave sobre sua têmpora, ao que o loirinho sentiu o coração aquecer por dentro. Ajustou melhor a criança em seu colo, um tanto reconfortado com o peso familiar de Peter em seus braços. Percebeu que ele dormia com o rostinho em seu ombro, calmo agora que estava no colo de Arthur.

A chuva caía quietamente sobre os três, que seguiam pelo caminho de casa. O beijo que Alfred lhe dera na bochecha ainda parecia tilintar em seu rosto, e Arthur se sentiu particularmente... feliz. Alfred também sorria, e seus olhos cintilavam em um azul tão bonito, que Arthur nem se importava que o céu estivesse nublado. Estava com frio, muito frio mesmo, mas seu coração parecia muito aquecido. A chuva continuou a cair gentilmente, enquanto Arthur e sua família andavam pelas ruas calmas da vizinhança.

Tu paliesk,
kaip švelniai
lietumi į delną krenta lašai
.

(Toque, gentilmente como

As gotas caem sobre sua palma

Na chuva.)

A mais ou menos uma rua antes de chegar em casa, a chuva parou, e o tempo começara a abrir. Estava um dia muito bonito. O sol ameaçava aparecer por trás das nuvens, e o céu se facetava em muitas cores naquele fim de tarde, majestoso, infinito acima de suas cabeças, absolutamente imenso. Arthur respirou fundo o ar gelado, e aquele cheiro de chuva, o vento assobiando e bagunçando seus cabelos. Mal sentia o rosto ou os braços, de tanto frio, mas... Não sabia explicar, mas... sentia-se tão vivo. Insanamente vivo, sentindo o vento frio em suas vias aéreas, e o espetáculo de cores se espalhando no horizonte.

Dienomis kaip ši
negaliu suprasti, kodėl diaugiuosi.
Dienomis kaip ši
iš visų jėgų aš kankinuosi.
Laimės pilna parašyt,
sudainuoti dainą.

(dias como hoje

Eu não consigo entender

Porque eu estou tão feliz.

Dias como hoje,

Eu suporto com toda a minha força,

Para escrever, cheio de felicidade.

Para cantar uma música.)

Kad ir kiek bandau sugalvoti gudriau,
Viskas, kas man išeina..
Čia mano emė,
mano emė, mano dangus.
Mano kelias,
mano kelias į mano namus.
Mano laimė,
mano laimė — mano viltis.

(Por mais que eu tente pensar em algo mais inteligente

Tudo o que eu consigo é...

Essa é minha Terra

Minha Terra, meu céu.

Minha estrada.

Minha estrada, para a minha casa.

Minha felicidade.

Minha felicidade, minha esperança.)

De fato, houve jantar, e filme, com as luzes da sala apagadas, e cobertores, e leite morno com pipoca. Era simples, muito simples, mas era bom, e especial. Peter sempre lembraria dessas sessões cinema, e de como dormia no sofá, mas acordava na cama no dia seguinte, misteriosamente.

Os responsáveis pelo mistério arrumaram a sala, deixando os pratos sujos na pia, e carregando Peter até sua cama. Murmuraram boa noite, mesmo que o menininho estivesse dormindo, e encostaram a porta do quarto dele. De lá, seguiram para o próprio, e, em pouco tempo, Alfred já dormia profundamente.

Era uma noite silenciosa. E, naquela estranha hora, quando toda a casa fazia silêncio, e mais ninguém andava nos corredores, Arthur fitou o garoto adormecido por longos minutos. A franja de cabelos loiro-caramelo caía um pouco sobre os olhos dele e ele respirava pausadamente, deitado ao seu lado na cama. Arthur delicadamente pousou uma de suas mãos sobre o peito de Alfred e sentiu o coração dele batendo, firme e constante, contra a palma de sua mão. E, naquele momento, Arthur talvez tenha achado tudo muito misterioso. Talvez fosse a noite, o silêncio, o vento que assobiava lá fora, mas o fato é que Arthur não podia explicar o quão milagroso lhe pareceu a respiração aquecida do garoto, o coração que batia contra os seus dedos. A própria existência do garoto em sua vida lhe parecia quase boa demais para ser verdade. Quando ele poderia esperar que um dia não estaria mais sozinho? Que não... se sentiria mais sozinho. Levantou e sentou na cama.

– Arthur? – murmurou o garoto, acordando com a movimentação. Seus olhos claros se tornaram visíveis e Arthur se viu espelhado ali.

– Arthur? – e a voz do garoto soava alarmada. — Por que você está chorando?

– Eu... – o loirinho tocou o próprio rosto, e percebeu algumas lágrimas. – Eu... não sei. – mentira. Claro que sabia. Era só que... Algumas vezes, ele se lembrava de como as coisas eram há três anos atrás. As vezes, ele se lembrava da pessoa que ele era há três anos atrás. E... de quantas vezes ele se debruçara sobre o travesseiro à noite e chorara. Antes, quando seus sonhos o faziam acordar todas as noites. A madrugada pareceria sem fim, e as sombras se moveriam no quarto escuro, enquanto ele tentava esquecer as pessoas gritando em seus sonhos. Naqueles dias, Arthur se sentaria sozinho na cama, e esperaria amanhecer. No dia seguinte, ele não contaria a Elizabeth. Nunca, em todos aqueles anos. Não dividiria com ninguém. E tantas vezes ele se perguntaria se... se as coisas seriam daquele jeito para sempre. Em muitos dias, ele até mesmo chegaria a pensar que... que se ele partisse, não faria muita diferença. E em alguns dias mais difíceis, ele se perguntaria se não seria melhor se ele não estivesse mais ali. E, muitas vezes, ele vivia mais um dia, não porque queria a própria vida, mas pela mãe. E porque ela se sentiria responsável, mesmo que não fosse culpa dela.

– Shh... – e antes que Arthur percebesse, Alfred o abraçava, e as lembranças pareciam suportáveis. — eu prometo que sempre vou estar com você, certo?

E era tão injusto como Alfred sempre sabia dizer o que Arthur precisava tanto ouvir. E o jeito como ele aconchegaria o loirinho em seus braços, que fazia com que Arthur se sentisse incondicionalmente amado, e que fazia seus olhos marejarem um pouquinho.

Algumas vezes, Arthur se perguntaria como era possível que uma vida mudasse tanto. Então, se sentiria orgulhoso de si mesmo por ter decidido viver, e, consequentemente, ter chegado até ali, naqueles tais dos dias melhores que estavam sempre por vir.

E era verdade que as coisas não eram perfeitas. Mas... deitado na cama, olhando para o garoto ao seu lado, sabendo que amanhã o seu menininho ia para o primeiro dia na escola, imaginando as férias de verão, e para onde eles poderiam ir... Arthur não conseguia deixar de imaginar que poderia nunca ter tido isso, nunca ter dormido aconchegado no colo de Alfred, ou ....

Arthur suspirou e fechou os olhos, ao que Alfred automaticamente puxou-o contra si, em um abraço que viraria uma confusão de cobertas quando amanhecesse, mas que Arthur já não sabia dormir sem.

Naquela noite, Arthur teve um sonho muito diferente.

Arthur sonhou com um grande cemitério. A tarde caía em tons foscos de rosa-chá e azul quase lilás, e já não havia sol no céu que iluminasse as tumbas enfileiradas no imenso gramado. Ventava, e era fria a brisa que sussurrava por entre as folhas das árvores.

Havia um homem parado em frente a uma sepultura de mármore branco e letras em tom de nanquim. O homem tinha os cabelos de um loiro claro, parecidos com os seus. Tinha os olhos muito, muito azuis, e uma pintinha do lado direito do pescoço, quase como se...

Peter.

Peter permanecia parado em frente a uma sepultura de mármore branco, letras em tom nanquim, o vento frio diminuindo a sensibilidade na ponta de seus dedos. Perto de seus olhos azuis, começavam algumas marcas de idade, assim como perto de seus lábios, daquelas que tinham as pessoas que riam muito ao longo da vida. Ao seu lado, uma mulher, também já de meia idade, chorava quietamente enquanto segurava com força uma das mãos do marido. Peter, e ele parecia ter mais de quarenta anos, apenas continuou a olhar para baixo, enquanto seus olhos claros derramavam em silêncio, e seu coração doía, e ele entendia. Em tudo, entendia.

Quando falara sobre morte com Arthur e Alfred pela primeira vez, os três estavam viajando de carro. O carro em si era alugado, e começara a fazer alguns barulhos estranhos no caminho. Lembrava-se de que eles pararam e Alfred abriu o capô do carro, olhando o que lhe parecia na época um monte de metal sujo e feio.

Arthur encostara na lateral do carro e olhara para a terra devastada em volta. Seus olhos verdes fitaram longamente uma árvore baixa e firmemente enraizada àquele pedaço de chão no meio do nada. O loirinho colocara as mãos no bolso e recostara no carro, enquanto Alfred trabalhava em silêncio, fuçando algo dentro do capô. Toda a paisagem parecia quieta, e infinitamente solitária. Peter se lembrava de ter imaginado aquele lugar à noite, as sombras e os barulhos, e se lembrava de ter ficado com muito medo. Quando falara a Arthur, ele tinha continuado a olhar para a árvore, e pareceu pensativo.

– Eu acho que entendo. Estranho pensar que... tudo isso vai ficar aqui quando anoitecer. E depois disso. Acho que a pior coisa é estar enraizado a algum lugar. Preso. Ainda mais um lugar tão solitário como esse. Parece... horrível ficar aterrado a um lugar como esse. – ele permaneceu em silêncio por vários minutos. – Parece um cemitério. Frio, solitário. Pessoas que vão ficar ali aterradas para sempre. Eu não sei se quero ser enterrado. Acho que... seria melhor ser cremado. E que ninguém guarde as minhas cinzas, mas que deixem elas ao vento. E assim fica devolvido ao mundo o que eu ocupei para viver aqui.

– Também ficaria devolvido se você fosse enterrado, mas acho que entendo. – comentou o garoto, desviando o olhar do seu serviço.

– Não são as pessoas que morrem que ficam aterradas ao lugar. Mas todo mundo que ama alguém que foi enterrado lá. – murmurara Arthur, e, em seu coração, lembrara-se da lápide com o nome de sua mãe, e das visitas que sempre sentia a necessidade de fazer. Mas também... do quanto aquelas visitas passaram a significar para si mesmo, e para a sua saudade. – Mas, talvez... talvez seja bom ter um lugar para visitar. – concluíra, em um murmúrio. No fim, decidira que queria ser enterrado, e Peter entendia, e era grato pela decisão, de alguma forma.

Mas era estranho ver seus pais, tão grandes em suas lembranças, serem reduzidos a um nome e data sobre um pedaço de mármore.

Em suas memórias, Arthur sempre fora muito grande. Lembrava-se de que a próxima vez em que ouviu Arthur voltar a falar do assunto, o loiro mais velho já tinha alguns cabelos brancos, que ele atribuía a Alfred, e não aos seus trinta e oito anos. Em um desses dias, como tantos outros, e que Peter achara que iam durar para frente, lembrava-se de ter se sentado na cozinha com Arthur, duas canecas de chá entre eles, a tarde caindo lá fora. Lembrara... que perguntara a Arthur como tinha sido sua infância e adolescência.

Lembrara de quando Arthur, que sempre lhe fora tão grande, uma espécie de herói nas suas lembranças de infância, Arthur, tão querido Arthur, lhe contara das vezes em que quase acabara com a própria vida.

Peter lembrava-se de ter se virado para olhar para o mais velho, perplexo.

– Arthur, você...

Arthur dera de ombros e ensaiou um meio sorriso.

– Eu era muito novo. E... – suspirou pesadamente, passando a mão pelos cabelos. – eu não sei. Eu estava muito confuso. – respirou fundo e deu outro meio sorriso, muito sincero dessa vez. – Mas agora é diferente. Eu não fico mais pensando em... adiantar a minha morte. Todo mundo morre um dia. Então, de qualquer forma, eu vou descobrir o que acontece depois da morte. O tal mistério. Não há pressa. – disse quietamente. — Mas viver é diferente. Quanto mais tempo, mais coisas podem acontecer. E se eu não aproveitar meu tempo até o fim, eu nunca vou saber o que aconteceria na minha vida. Como dizer? É só que nós sempre vamos conhecer a morte, mas é escolha minha se eu vou conhecer a vida. Eu... quero saber. – concluiu, baixo. Então, respirou fundo e lhe deu um meio sorriso. — E... eu sou feliz, Peter. De verdade. – e fora estranho como Peter sabia quanto custara a felicidade de Arthur. Naquele meio sorriso, sincero, mas ainda ferido. Arthur lutara por cada segundo da sua felicidade, e saíra vencedor do outro lado.

– Arthur, você... Sente falta da mamãe? – perguntou o rapaz quietamente.

Arthur calou-se, e, por alguns instantes, seu olhar se perdeu ao longe. Um pouco depois, acrescentou, baixo:

– É estranho. – murmurou, finalmente. Afundou os dedos de uma mão nos cabelos da própria nuca, respirando fundo. – Acho que... a gente nunca esquece dos pais. Quer dizer, eu só tinha mãe, mas acho que ela também era meu pai, ao menos o melhor que podia. – sua garganta deu um nó. – Acho que... melhora. No começo, nos primeiros dias depois da morte dela... – e sua voz era baixa, mas ele conseguia falar sobre aquilo. – foi... horrível. E se o Alfred não estivesse comigo, e se eu não tivesse você, que precisava de mim... eu não sei o que eu teria feito. – deu um meio sorriso e deu de ombros. – Agora é diferente. Eu ainda lembro dela vários dias, mas são lembranças boas, e eu me divirto com elas. Claro que eu sinto a falta dela, e dói um pouco, mas... melhora com o tempo. – deu de ombros outra vez, olhando para o horizonte. – Mas a gente sempre sente falta, eu acho.

Peter continuou parado em frente às sepulturas, e o último de réstia de luz foi sumindo no horizonte. Seus olhos claros encheram de lágrimas, e um nó se formou em sua garganta com as lembranças. Agora, sentia que podia entender. Para sempre sentiria falta dos dois. E em muitos dias, se lembraria deles, e talvez chorasse um pouco.

Lembraria da mesa da antiga casa, do cheiro de torta de maçã no Natal, de quando Arthur queimava pãezinhos no forno, e da primeira vez que conseguira fazer uma receita direito. Lembraria da risada de Alfred, e das vezes que foram os três viajar, de quando foram visitar a cidade natal do garoto nos Estados Unidos, e da vez que Alfred os levara para pescar. E de quando Arthur caíra no rio, e de como ele brigara com o garoto por ficar balançando o barco, e de como toda a discussão acabara quando os dois escutaram o seu pequeno eu rindo e rindo. Tinha memória também de um dia, que estava com muito frio e Arthur lhe dera seu casaco. Lembrava-se de ter caído e de ter ganhado um chocolate, mas não muito mais que isso. Agora parando para pensar, Peter percebeu que... sempre fora muito amado pelos dois.

– Pai... – sentiu quando a manga de sua camisa foi puxada de leve, e a voz da menininha ao seu lado tirou-o de seus pensamentos. Sua caçulinha, que chegara depois dos dois primeiros irmãos, em uma surpresa a ele e à esposa, já não tão jovens assim. –A gente nunca mais vai ver o vô Arthur e o vô Alfred? – e, talvez porque crianças fossem sensíveis, mesmo sem entender muito bem, lágrimas desciam copiosamente pelo rosto da menina.

Peter ergueu-a no colo, aninhando-a em seus braços.

– Shh... claro que não, Lizzie. – murmurou. – É só que... eles foram para um lugar muito longe. – uma lágrima quente desceu por uma de suas faces, mas ele continuou. – e para chegar lá, não dá para levar um corpo como o nosso. É muito pesado. Mas... um dia, daqui a muitos e muitos anos, nós vamos poder encontrar com eles outra vez. – murmurou, agora quase para si mesmo. Era tão estranho. Tivera os pais por tanto, tanto tempo, e, ainda assim, não parecia ter sido suficiente. Antes que ele se desse conta, o tempo tinha passado, e então, acabado.

Algumas coisas eram assim. Passageiras. A vida era uma passagem breve, muito breve. Mas isso não era algo bom ou ruim. Apenas, era. Algumas coisas simplesmente são. Arthur, há mais de um milênio atrás, percebera o fascínio que era aquela breve e frágil vida humana. Encantava-se com ela, permitia-se sonhar com ela, ainda que talvez ela desaparecesse no dia seguinte. Assim como era permitido amar as flores, ainda que elas inevitavelmente nos deixassem. Era permitido se encantar por elas, apesar de sua brevidade. Como muito desse mundo, os dois morreram. Porque tudo que é vivo, morre. A vida, como tantas e tantas coisas nesse mundo, passava.

Mas... também existiam coisas que não passavam. E, talvez, o amor fosse uma delas. Não aquele de veraneio, não aqueles dos comerciais e revistas, não aquele que permitia ao coração encontrar outro. Mas aquele que acontecia, uma vez em toda uma existência, entre duas almas que se buscavam por toda a eternidade, e que talvez fossem melhor entendidas não como duas, mas como uma só. Porque era verdade que Arthur morrera em uma tarde algumas décadas no futuro, e é bem verdade que Alfred o seguiu na noite do mesmo dia. Mas também era verdade que eles continuavam se procurando como procuravam desde a primeira vez em que se separaram. E continuavam se encontrando, mil vezes, todas as vezes. E se apaixonavam todas as vezes, porque em todos os mundos, Arthur amava aquele garoto, e em todos os mundos, ele era correspondido.

E era... estranho. Porque Arthur o amava por razões que desconhecia. E por isso, amava-o sempre. Talvez, na verdade, Arthur o amasse sem motivo. Porque existiam algumas coisas no mundo que, simplesmente, eram. Arthur apreciava as qualidades do garoto, mas mesmo as qualidades eram transitórias. Arthur amara aquele Alfred ingênuo que conhecera. Mas ainda o amava mesmo depois que ele perdera toda a inocência da juventude. Amara aquele garoto brincalhão, mas ainda o amava quando ele se tornara mais sério e maduro. Alfred mudara tantas e tantas vezes, mas Arthur ainda o amava. E, mesmo depois de tudo, mesmo em outra vida, Arthur sempre acabava amando-o, ainda que tudo estivesse diferente. Em tudo, por mais que a razão proteste, talvez, a alguns amores seja permitido existir sem motivo. Talvez, algumas coisas pudessem simplesmente ser, sem razão alguma.

– Você não concorda, Arthur?

Ao ouvir a voz, o loirinho desviou o olhar da cena à sua frente e virou-se, encontrando um anjo atrás de si.

– Você se saiu tão bem. O Peter... vai se tornar um homem muito bom. – e, instintivamente, Arthur olhou novamente para o seu menininho, mais velho que o loirinho nos dias de hoje, parado no cemitério, muitos anos ainda no futuro. — Sua mãe manda um beijo, e disse que tem muito orgulho mesmo de vocês. – o anjo parou por um momento. Então, olhou no fundo dos olhos de Arthur. – eu também fico muito feliz com as suas escolhas. Obrigado, por ter escolhido viver, todas aquelas vezes. E nunca esqueça das pessoas que amam você.

E nisso, o sonho esvaeceu. Arthur piscou, acordado pela luminosidade em seu rosto. Uma réstia de luz do sol nascente se espalhara sobre o quarto, iluminando parte da cama. Alfred dormia ao seu lado, os óculos sobre a mesa de cabeceira, um tanto espalhado pela cama. No meio dos dois, dormia Peter, muito pequeno em seus cinco anos de idade. O loirinho fitou-o longamente, um tanto atordoado. Lembrou-se então do primeiro dia da escola do menino. Lembrou que ele provavelmente estava muito nervoso, e estava tendo problemas para dormir sozinho, provavelmente se esgueirando para a cama dos pais durante a noite. O loirinho virou-se de lado, voltado para o meio da cama, fitando seu menininho, dormindo quietamente entre ele e Alfred.

Mano metai,
mano metai vėlei nauji.

(Meus anos,

Meus anos, novo outra vez.)

O garoto dormia espalhado em seu lado da cama, um dos braços sobre a cabeça, seus cabelos macios espalhados sobre o travesseiro aleatoriamente. De algum jeito, com o passar dos anos (e era estranho pensar que estavam juntos há anos), os dois aprenderam a coordenar o espaço na cama de casal. No começo, Alfred eventualmente invadia o seu lado da cama, e lhe dava um soco ou outro enquanto se mexia, enquanto Arthur tinha o hábito incorrigível de roubar cobertores. E, depois que os dois aprenderam a conviver adequadamente no espaço limitado da cama de casal, passaram algum tempo aprendendo a conviver com um pequenino terceiro em noites chuvosas.

Agora um pequenino terceiro muito acordado e ansioso para o primeiro dia na escola.

O garotinho piscou algumas vezes, olhando em volta. Quando percebeu que já era dia, deu um pulo e checou o relógio de cabeceira, surtando ao ver as horas.

– Pai, pai, pai, pai! Acorda, a gente vai se atrasar! – disse o menino para Arthur, pulando sobre Alfred para acordá-lo também.

Alfred simplesmente virou de lado na cama, abraçando o pequeno míssil que aterrara sobre si, eficientemente imobilizando-o com o seu peso.

– Ack! – exclamou o menino, tentando se mover, mas efetivamente preso. — Paaai!

Apesar das preocupações do pequeno Peter, nenhum deles se atrasou naquela manhã. Depois de algum convencimento, Arthur concordou em ir ajudar Peter a vestir o uniforme e arrumar os materiais, enquanto Alfred preparava a lancheira. Eventualmente, deixou o menino escolhendo outra vez se levava o estojo azul ou o verde, e foi ajudar Alfred.

Assim que todos estavam com o café da manhã devidamente tomado, e tudo de importante consigo, foram os três em direção à porta, colocando os casacos pendurados no cabideiro. Arthur abriu a porta, ao que Peter saiu correndo pelo corredor, já apertando o botão do elevador, muito contente com o primeiro dia na escola. Alfred aproveitou sua deixa para dar um beijo rápido no loirinho. Arthur lhe sorriu, e os três desceram juntos até a portaria. Lá, o loirinho afastou-se do garoto e de Peter, dando um beijo na testa de cada um.

– Eu... vejo vocês mais tarde. – disse Arthur, um tanto hesitante.

– Você não vai me levar na escola também? – perguntou o menininho, a mochila de heroi nas costas, segurando uma das mãos de Alfred.

– Eu... preciso entregar uma coisa importante no trabalho agora de manhã. – disse finalmente.

Peter resmungou um pouquinho, mas como Arthur vinha buscá-lo depois, achou que não era tão ruim. E Alfred estaria lá, então não era tão mau.

O garoto levou-o fielmente até a porta do colégio, chegando a entrar e acompanhá-lo até a porta da sala de aula. Sentiu-se um pouco apreensivo em deixá-lo lá sozinho, indo embora somente quando a professora chegou. Ainda sentia-se um pouco estranho quando deu as costas e refez o caminho até o portão da escola. No entanto, para a sua mais absoluta surpresa, assim que chegou ao portão, percebeu Arthur no começo da rua, acompanhando de longe a entrada das crianças na escola. Assim que percebeu o garoto olhando, o loirinho corou de leve, colocando as mãos nos bolsos e desviando o olhar. Alfred correu até ele, alcançando-o em poucos segundos.

– Arthur, o que você está fazendo aqui? – perguntou finalmente, encarando o loirinho com alguma confusão. — Achei que você não pudesse vir porque tinha que entregar alguma coisa no trabalho.

– Eu... – ele hesitou, engolindo em seco uma vez. – Eu só... não queria complicar as coisas. – murmurou finalmente.

– Arthur... – e quase partia o coração do garoto a insegurança na voz de Arthur. — você sabe que uma hora as pessoas vão ficar sabendo sobre a gente. – murmurou Alfred gentilmente, acariciando uma das bochechas do loirinho.

– Eu sei... Eu sei disso, mas... – Arthur respirou fundo, soltando o ar tremulamente, mas apertando a mão do garoto em sua face com força. – Eu só não queria correr o risco de complicar o primeiro dia na escola dele. – disse, baixo. — O resto, no futuro... a gente... dá um jeito. – disse, dando um sorriso um tanto contido ao repetir as palavras que Alfred já dissera para si tantos anos atrás.

O resto, no futuro, juntos, eles dariam um jeito.

Alfred sorriu e passou um braço em torno dos ombros de Arthur, e os dois andaram juntos, descendo a rua.

Na escola, as coisas não eram exatamente como Peter havia imaginado. Era um lugar diferente, e, francamente, ele estava se sentindo um pouco deslocado no ambiente novo, e sentia muita falta dos pais. Estava acostumado a estar com ao menos um dos pais durante o dia, então era um baque grande. As aulas ainda não estavam sendo problema, porque Arthur e Alfred haviam lhe ensinado as letras em casa, e ele sabia reconhecer algumas palavras mais simples, ou que tivesse decorado de algum trecho de quadrinhos. Mas estava nervoso com a quantidade de outras crianças e barulho, movimento. Uma parte de si queria voltar para casa e ganhar um abraço dos pais, e fechar os olhos, fingindo que não existia mais nada no mundo, e que tudo ia ficar bem.

O menino estava até mesmo um pouco choroso quando chegou a hora do recreio, e ele procurou um lugar mais quieto e tranquilo para se acalmar. Era... meio ruim estar em um ambiente estranho de repente. Abriu a lancheira, um tantinho desanimado, escolhendo o sanduíche de queijo e tomate. No entanto, assim que tirou o lanche, reparou em um papelzinho no fundo da lancheira. Curiosamente, abriu o papelzinho, com a letra de Alfred, e um desenho de Arthur. Havia dois bonecos de neve, conversando um com o outro, como no livrinho de piadas que Alfred lhe costumava ler. O menino sentiu o coração disparar, e, com dificuldade e algum tempo, conseguiu ler:

“Sim! Eu também estou sentindo cheiro de cenoura!”

O menino riu abertamente, apreciando a letra e o desenho, de repente com a sensação de que não estava sozinho. O lanche estava gostoso, e Peter ficou um tanto mais feliz. Como estava mais sorridente, as outras crianças decidiram que ele não as recusaria se elas falassem com ele. Então, elas o chamaram para brincar, e Peter acabou se divertindo, e as coisas foram se arranjando.

E quando as aulas acabaram, e Arthur buscou Peter na escola, e Alfred esperava em casa, supostamente encarregado do jantar, mas acabando por pedir uma pizza, eles eram as pessoas mais felizes do mundo. Arthur e Alfred passaram o jantar ouvindo sobre o dia na escola, e a professora, e os amiguinhos, e como o dia seguinte ia ser incrível também. E os dois sentiam que amavam aquela criança tanto, que mal sabiam o que fazer às vezes. Amavam desde antes que ele sequer soubesse falar, e não saberiam explicar suas razões.

Mas também, Arthur e Alfred não saberiam explicar a razão de porque se amavam. Era por muita coisa, e nada, ao mesmo tempo. E, mesmo que Arthur ficasse grisalho cedo, mesmo que Alfred acabasse um pouquinho surdo, e mesmo que tudo fosse diferente, algumas coisas ainda seriam as mesmas.

Porque, ao fim do dia, os dois se deitariam na cama, e Alfred abraçaria Arthur sem nem pensar, e Arthur nunca mais acordaria sozinho e chorando no meio da noite. Ao fim do dia, mesmo que os planos não tivessem dado certo, e os sonhos parecessem perdidos ou longe demais, eles teriam um ao outro, e, de repente, coragem sozinha seria o suficiente para mudar o mundo.

E assim que os dois colocaram Peter para dormir, e fecharam a porta do quarto do menino, Alfred encostou o loirinho na parede do corredor e encheu-o de beijos. E ele sorria, e Arthur entendia o orgulho que o garoto sentia, e o amor que ele tinha pelos dois. Os olhos muito, muito azuis do garoto cintilavam.

E, talvez, aquele momento era parte do destino, e, talvez ainda, o destino dos homens pudesse estar mesmo escrito nas estrelas, mas Arthur não saberia dizer. De toda forma, fazia uma noite muito bonita. O tom de veludo azul noturno e a miríade de diamantes à deriva no céu pareciam dizer sobre amores que se encontravam no mundo apesar de todas as coisas, e também sobre mudança e eternidade, provação e libertação. E, se o pequeno príncipe não mentira e as pessoas tinham estrelas que eram diferentes, Arthur agora tinha estrelas que riam como crianças, e que eram muito, muito azuis.

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabe sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça e com amor não se paga.

Amor é dado de graça, é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

O Arcano 21 – O mundo

SIGNIFICADO DIVINATÓRIO

O caminho da libertação. Vida eterna. A meta final, para a qual todas as outras coisas conduziram. Admiração de outros. O resultado dos acontecimentos a despeito de outros sinais. Mudança definitiva. Recompensas provenientes do trabalho esforçado. Capacidade. Triunfo nos empreendimentos.

Conclusão. O resultado feliz de todos os esforços. Sucesso. Perfeição. Segurança. Síntese. Realização.

"Estórias de amor verdadeiro nunca têm fim."

Boulevard of Broken Dreams. Brownie, 22 de novembro de 2014.

Notas finais
E é isso... Muito obrigada mesmo, de coração, com tudo o que eu tenho, a todos e cada um que chegou até aqui. Vocês são maravilhosos, e eu realmente não teria conseguido sem vocês. Escrever essa história foi muito importante pra mim, e eu considero vocês meus amigos e confidentes por terem me acompanhado até aqui x) Sempre que foi difícil pra mim, eu escrevia, e foi incrível partilhar tudo isso com vocês. Espero não ter decepcionado, realmente dei meu melhor nesse capítulo. Ele é bem extenso, 50 páginas de word... Mas não achei algum ponto para quebrá-lo, então deixei ele na íntegra. O poema é do Carlos Drummond de Andrade, e a frase é de Richard Bach! Não me pertencem, assim como a música e os personagens. A imagem do final também não me pertence, vi no tumblr, e infelizmente, não tinha fonte (se alguém souber, por favor me avise) De tudo aqui, meu é apenas o enredo e os sentimentos emprestados aos personagens xD Eu gostaria de mandar um beijo enorme, e um abraço bem apertado para todo mundo que deixou reviews e pra todo mundo que vier a deixar. Os reviews e as recomendações de vocês foram lindíssimos, e devo dizer que me emocionei algumas vezes (ah, meu coraçãozinho de manteiga xD) Eu, mais uma vez, tenho a sensação de que estou esquecendo de dizer alguma coisa... Bem, em todo caso, irei imediatamente responder seus maravilhosos reviews! Espero que ainda lhes reste um pouquinho de paciência para deixar algum comentariozinho! xD Já que é o último capitulo e taal, nem que seja um oizinho dos fantasminhas 8D E espero encontrá-los outra vez logo x)) Um beijo muito, muito especial!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!