Boulevard Of Broken Dreams
37 Capítulo 37 - Sage, rosemary and thyme
Notas iniciais
Enfim! Mas agora estou aqui de volta e postarei regularmente outra vez, se Deus permitir *o*
Sem mais enrolações, o resto explicarei nas notas finais! Beijo e boa leitura!
– Mas e ai? O que aconteceu depois? – insistiu o mais baixo, seus olhos cintilando brevemente. Era verdade... Afonso adorava histórias.
– Você é bem impaciente para alguém que leu os lusíadas inteiro. – disse o outro, sorrindo de lado.
Para a sua surpresa, o outro franziu o cenho e mordeu o lábio inferior.
– Estranho. – murmurou ele.
– O que?
– Nada. Só... tive a impressão de que alguém já me disse isso. – disse ele, dando de ombros.
O rapaz sentiu a garganta trancar. Ele tinha dito aquilo há alguns meses atrás. Seu coração batia com força contra o seu peito.
Não me dê esperanças.
Sua garganta estava trancada. Não tinha pensado naquilo quando começara a contar aquela história. Ele só começara... porque não aguentaria carregar o peso daquelas lembranças sozinho. Porque queria que o outro soubesse o que tinha acontecido, mesmo que não soubesse que tudo aquilo era parte de seu próprio passado. Mesmo que o outro achasse que era só uma mentira... Era melhor do que se ele nunca soubesse.
Mas Luciano tinha se esquecido de que... acabaria chegando à parte do acidente. E... ele não queria falar sobre aquilo. Não queria reviver aquele dia por meio das palavras. Não queria sequer... pensar sobre aquilo. Havia... tanto sangue naquele dia. Seu professor estivera com as mãos tão frias... E Luciano não podia se mover para alcançá-lo. Suas pernas estiveram presas nas ferragens de maneira que ele quase precisou amputar as duas.
Naquele dia, achara que tinha perdido aquela pessoa para sempre. A mera lembrança doía. Fitou o rapaz ao seu lado, observando aqueles olhos verde-escuros , atentos e vívidos. A franja de cabelos castanhos muito fininhos caía sobre a tez clara, ao que o mais alto afastou-a carinhosamente por reflexo.
– O que está fazendo? – perguntou o outro, franzindo o cenho e afastando a mão do rapaz. Por alguma razão, o menino pareceu... incrivelmente ferido com o gesto.
– Eu... eu vou embora. – murmurou o rapaz, se levantando.
– Espera, a história! – protestou o outro, segurando-o pela manga do casaco.
– Esquece.
– O que aconteceu?
– Eu já disse, esquece!
– Eu exijo que você me dê uma explicação. – voltou o lusitano, um tanto irritado.
– Me esquece. – murmurou o rapaz, atravessando a sala em passos largos, até parar perto da porta. — Ah não, verdade. Eu não preciso pedir isso. Você já me esqueceu. – a vida era miserável de fato. Por que... aquela pessoa não podia pensar nele? Lembrar, nem que fosse só um pouco?
– Luciano! – instintivamente o mais baixo segurou o rapaz pelo braço, mas ele soltou-se bruscamente e bateu a porta.
Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Luciano não apareceu mais em sua casa no dia seguinte. Nem no outro. Nem no outro. Por duas semanas, aquela presença misteriosa e constante, que o acompanhara desde que saíra do hospital, tinha simplesmente sumido de sua vida.
O moreno não ligou nenhuma vez, o que o deixava quase orgulhoso de si mesmo. Precisava... dar um jeito em sua vida. E, se isso incluía esquecer aquele relacionamento, ele ia tentar, de verdade.
.
O rapaz desceu do carro e fechou a porta, levando um livro consigo em direção á biblioteca. De certo modo... estava se traindo ao fazer aquilo. Como esperava esquecer aquela pessoa voltando ao mesmo lugar em que a conhecera?
Ele fitou o longo campus da universidade. O gramado se estendia longe no horizonte e a cor morria lentamente no céu de fim de tarde. Luciano respirou fundo. Por que... por que ele tinha vindo para aquele lugar?
Teoricamente, se oferecera para devolver um livro de um amigo no trabalho, que, quando terminara o mestrado, esquecera-se de devolver à biblioteca. Mas, na verdade, provavelmente tinha algo a ver com o fato de ele ser um covarde, que fugiu da casa do lusitano. Não podia continuar com aquilo. Não podia com aquela vida pela metade. Se havia uma coisa de que ele tinha certeza era de que não podia continuar assim. Quanto tempo mais ele pretendia... permanecer sofrendo por alguém que sequer se lembrava dele? Não... ainda lhe restava amor-próprio o suficiente. Ele sentia falta do outro, amava-o com sinceridade, mas... sentia que precisava se respeitar. Precisava de um tempo para pensar. Precisava de um espaço para si mesmo.
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor
O céu não estava alaranjado ou róseo, mas azul. Até ter se tornado quase negrume total, o céu foi azul. Longo, amplo, distante azul. Sua rotineira ilusão de que de fato havia algo a se chamar de céu. Quando no fundo... era apenas um pouco de ar, que definia os limites da Terra. Que o sol abençoava com uma breve ilusão de cor.
Por entre aqueles corredores... ele quase podia se ver há alguns anos atrás. Ele quase podia ver um professor de literatura entregando um pequeno bilhete para um aluno da engenharia. Podia se ver correndo pelas alas, tentando vê-lo no seu intervalo entre as aulas. Quantos meses ele passara insistindo com aquele professor teimoso? Correndo atrás dele pelos corredores. Sorrindo de canto quando chegava atrasado para ver o lusitano e reparava que ele o estava procurando.
Ele quase podia sentir o beijo que eles trocaram escondidos em um cantinho de um corredor deserto. Era... fim de tarde. O professorzinho de literatura vinha com seis livros equilibrados em um braço e uma pequena pilha de materiais de referência na outra. A face dele, ainda perfeita na época, ainda sem aquela cicatriz sobre um de seus olhos verdes, não conseguiu conter um pequeno sorriso quando viu o moreno sentado em um banco do jardim, esperando-o. Logo que se percebeu sorrindo, o lusitano corou e fechou a cara, resmungando consigo mesmo.
– Feliz em me ver? – provocou o rapaz. Luciano já tinha sido menos maduro, mas mais divertido e leve.
– Não. Vai-te embora. – mentiu o outro, desviando o olhar. O sotaque dele era tão mais pronunciado naquela época.
– Ahh! Eu conheço esse livro! – exclamou o rapaz, tirando um livro da pilha do professor e quase derrubando todos os outros no processo.
– Ei! – mas Luciano estava totalmente alheio ao que ele dizia. Os olhos castanhos muito profundos do rapaz cintilaram quando achou no livro um poema que conhecia.
– Se se pudesse o espírito que chora ver através da máscara da face, quanta gente, talvez, que inveja agora nos causa, então piedade nos causasse... – era tão verdade. Mesmo Luciano. Se as pessoas soubessem o quando ele escondia nos seus sorrisos, era bem possível que lhe tivessem pena. Se soubessem o quanto ele chorava por trás de todos os seus sorrisos.
Sorriu consigo mesmo outra vez. Porque mesmo ele tinha o seu orgulho e, por mais difícil que fosse, sorrir era sua melhor defesa, ainda que frágil e ingênua.
– Quanta gente que ri, talvez existe... Cuja a ventura única consiste em parecer aos outros venturosa... – o rapaz se sobressaltou quando o professor completou o poema. O sorriso escorregou de seus lábios e ele permaneceu sério. Aqueles olhos verdes cravaram nos seus, e, por um momento... Luciano teve a impressão de que o outro podia ver claramente por detrás de todas as suas benevolentes e bem-intencionadas mentiras. Como se... naqueles poucos meses, nas centenas de encontros pelos corredores, na meia dúzia de encontros depois da aula... alguma coisa de especial tivesse surgido entre os dois.
O corredor estava vazio. De repente, o rapaz esteve muito consciente desse fato. O mais baixo abraçou os livros contra si instintivamente. Seu coração batia com muita força, e seus olhos não conseguiam deixar as feições do outro. O estudante pareceu... estranhamente vulnerável sem portar o sorriso de sempre. Afonso... quis entender. Quanto mais descobria, mais queria saber daquela pessoa. Quanto mais vezes o encontrava, mais queria passar o tempo com ele. Não sabia bem. Mas... era... era uma espécie de... contentamento descontente. Seu coração doía, mas... não era de todo ruim. Era... confuso.
O rapaz deu um passo em sua direção, no entanto, o mais baixo não se moveu. O moreno aproximou-se um pouco mais e delicadamente ergueu a face do outro pelo queixo. As palavras pareciam ter entalado na garganta de ambos. A respiração do rapaz tocou os lábios do lusitano, e ele sentiu como se seus joelhos fossem ceder. Embora talvez, secretamente, ele tivesse... desejado que aquilo acontecesse, agora que estava acontecendo parecia rápido demais, precipitado demais. Seu coração batia com tanta força que ele pensou que seria possível ouvir fora de seu peito.
A mão do moreno sutilmente puxou a fita que prendia seus cabelos, e os dedos dele se entrelaçaram nos fios. O mais baixo sentiu um arrepio agradável em sua nuca, e fechou os olhos. Era tão impossível resistir quanto lutar contra a gravidade. Em um momento, que não podia ter durado mais do que um segundo, sentiu os lábios do rapaz contra os seus, quentes e macios, em um beijo leve, quase reticente, delicado, e, ainda assim, profundo. As sensações eram conflitantes e contraditórias. Talvez porque seus sentimentos ainda não fossem claros para ele mesmo.
Sentiu os lábios do rapaz distanciando-se dos seus. Houve um breve selinho, então tudo parou. Afonso abriu os olhos e fitou brevemente o moreno. Aquele maldito era muito alto. E bonito. Com aqueles traços delicados e bem feitos, a pele firme com aquela tonalidade bonita cor de mel, variando entre um tom um pouco leite e café. Os olhos dele eram amendoados, em um castanho que lembrava vagamente o tom profundo de uma madeira de lei. Os lábios dele estavam um tanto avermelhados, ao que o lusitano repentinamente se sentiu muito consciente de que realmente acabara de beijá-lo. Suas faces esquentaram absurdamente, ao que o moreno riu e abraçou-o contra si. Afonso teria dado um soco nele por ser tão cheio de si, mas talvez... talvez, quem sabe, só um pouquinho... era possível que ele tivesse descoberto que gostava demais do abraço do outro para querer sair dele tão depressa.
Luciano olhou novamente o corredor, hoje com vários alunos passando, sem a menor ideia de que bem ali, naquele cantinho, começara a época mais feliz da vida do rapaz.
Será só imaginação?
Deu as costas ao lugar. Lembrar daquelas coisas... tornava tudo mais difícil. Ele não podia ficar pensando naquilo. Não, não devia se lembrar do quão doce era beijar aquela pessoa. Ou de como era vê-lo sorrir. Não... Precisava se lembrar que Afonso o esquecera. Lembrava de todas as outras pessoas, mas apenas dele, Luciano, recusava-se a lembrar.
Suspirou e rapidamente escondeu uma lágrima que desceu furtivamente pela sua face. Definitivamente, precisava ir embora dali. Saiu apressadamente e pegou o carro no estacionamento.
O trânsito estava horrível. Em uma hora, ele não andara mais do que uns poucos metros. Fazia parte de sua rotina, e não é como se ele tivesse muita escolha. Suspirou cansado. Ele só... estava um pouco cansado disso tudo. Quer dizer, durante o dia, ele enfrentava tudo o que precisava enfrentar. Aceitava quando a vida era difícil. Aceitava viver sozinho. Aceitava que... talvez... felicidade não fosse algo... plausível.
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Mas, no final do dia, quando ele abria a porta e encarava a casa com todas as luzes apagadas e ninguém lá... de repente, era mais difícil de aceitar. De repente, ele imaginaria como seria se Afonso estivesse lá. Ele estaria lendo um livro? Lavando louça? O que ele diria durante o jantar? Talvez, ele acabasse adormecendo no sofá. Talvez eles fossem para a cama juntos. Talvez eles não dormissem a noite toda. Talvez, eles de fato apenas dormissem. Mas seria tão, tão bom. Ele abraçaria aquela pessoa e sentiria que tudo estava... bem. Que talvez, por mais torto que parecesse, o mundo estava no lugar. Que mesmo que não fosse perfeita, a vida era... divertida. Estar vivo era um fato... alegre.
Será que vamos conseguir vencer?
Luciano não tinha muita certeza sobre o que achava do amor. Não tinha muita certeza do que era de verdade. Mas ... Havia algo. Alguma coisa acontecia quando se amava alguém tão profundamente, por tanto tempo, com tanta sinceridade. Era como se... um sentimento assim deixasse algum tipo de marca. Era como se... mesmo que fosse possível que ele encontrasse outras pessoas...
Mesmo que ele saísse com outras pessoas. Mesmo que os anos passassem e continuassem passando. Era como se... ele nunca mais fosse ser capaz de amar outra pessoa daquele jeito. Talvez simplesmente porque seu coração não podia se recuperar de um sentimento daquele no espaço de tempo tão curto de uma vida. Luciano não fora simplesmente rejeitado. Ele fora esquecido. E isso doía muito mais do que uma separação. E... era dele de que se tratava. Era o seu poeta. O seu professorzinho ranzinza e adorável, cuja personalidade estranhamente completava a sua. Com quem ele vivera anos junto. Por quem ele tinha se apaixonado, de maneira tão simples para tudo acabar de uma maneira tão complicada.
O rapaz jogou-se no sofá, ainda com as roupas do trabalho. O silêncio se esgueirou pelos corredores da casa e sentou-se ao seu lado. Até que finalmente tocou sua mão, subiu pelo seu pulso e adentrou-lhe o peito. E lá, tornou-se solidão.
Não houve palavras que definissem o que ele sentia.
Os minutos se passaram metodicamente, o ponteiro fielmente percorrendo o tempo, em uma caminhada que não o levava a lugar nenhum. Por horas, o ponteiro correria pelas casas numeradas, até que em quase exaustão, retornaria ao lugar de onde partiu. E o rapaz gostaria de poder rir-se da estupidez dele. Mas... não era Luciano muito mais tolo?
Ele fitou a aliança em seu dedo. Ela nunca saíra dali. Não era como se... ela ainda representasse um elo entre ele e a pessoa que ele amava. Era só que... só... ela o fazia se sentir... um pouco menos sozinho. Ela o fazia se lembrar de que... ele fora amado. Mesmo que não mais fosse. Mesmo que nunca mais viesse a ser. Era como se se ele tirasse aquela pequena peça de ouro, ele perderia a última coisa que ainda o ligava àquela pessoa. E era como se ele não fosse suportar isso.
Suas feições suaves refletiam uma melancolia quieta e constante. Uma expressão que ele nunca se permitia vestir na frente de ninguém. Uma preocupação que ele fingia não ter. Um medo que ele fingia não conhecer. E uma solidão que ele se recusava a demonstrar. Uma vulnerabilidade que ele se recusava a confessar. Uma tristeza que ele se recusava a partilhar. Luciano era uma pessoa alegre, mas, talvez, acima disso, ele fosse essencialmente uma pessoa gentil. Ele nunca diria que estava triste. Nunca se arriscaria a estragar o dia de alguém com a própria infelicidade.
Mas... agora pensando sobre isso. Talvez, na verdade... talvez... ele não tivera sido amado. E mesmo que tivesse sido, não fazia mais diferença. Afonso nem se lembrava mais. Era como se nenhum beijo entre eles tivesse acontecido. Como se eles nunca tivessem se encontrado, como se seus olhares nunca tivessem se cruzado. Como se aquele dia, há seis anos atrás nunca tivesse acontecido.
Como se tudo tivesse sido... apenas um sonho.
Na verdade, era idiota. Extremamente idiota. No fundo, talvez ele estivesse... esperando algo como um milagre. Talvez, ele estivesse pedindo para qualquer anjo passante que o lusitano se lembrasse. Que existisse uma terapia que desse certo. Por mais impossível que parecesse. E aquele esperança o deixava em pedaços. Era... desesperador imaginar o que aconteceria se desse errado. E se... não... e quando Afonso passasse a amar outra pessoa?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
O rapaz jogou a cabeça para trás, encostando-a no sofá, e fitando o teto. Era isso mesmo? Ser adulto era isso? Uma pilha de obrigações e outra de frustrações? Aquele cansaço e falta de perspectiva? Era... bem sem sentido. Ele se matava de trabalhar, ficava preso no trânsito por horas, para chegar em casa e encontrar todas as luzes apagadas, todos os cômodos vazios. Ele leria algum livro, talvez com grandes amores, talvez com grandes aventuras. E se perguntaria onde foi que ele tinha errado. Que pessoa ele tinha se tornado.
Seus olhos amendoados vagaram pela sala vazia. Precisava... ter uma saída.
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Para que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Precisava... ter um jeito. Sempre tinha um jeito, não tinha? Se fosse pensar bem... agora lembrando da época em que conhecera Afonso... Pensando bem, antes eles eram bem mais distantes e tinham chances quase nulas de ficarem juntos. Quer dizer, o lusitano era professor de outro departamento, achava-o um pirralho, esquivava de seus convites... Mas, de alguma forma, Luciano conseguira. Entrara na vida do outro, conseguira ter seus sentimentos correspondidos, apesar de suas chances mínimas.
O que... ele costumava ter antes e que lhe faltava agora?
Virou-se de lado no sofá. Antes... antes ele não tinha medo de falhar? Não... ele tinha medo.
Ele sempre tivera medo. Mas nunca deixara que ele ficasse no caminho.
A realização o atingiu subitamente. Ele se levantou e foi até o próprio quarto, uma ideia incrivelmente estúpida em sua cabeça. Tirou várias roupas aleatórias de seu armário e enfiou-as de qualquer jeito dentro de uma mochila. Assim que saía do quarto, se olhou no espelho. É. Era aquele olhar que ele costumava ter. Desesperado, mas absolutamente disposto a tentar.
Quando chegou ao apartamento do professor, passava um pouco das onze da noite, mas ele tocou a campainha mesmo assim. Foi atendido em alguns minutos.
– Eu vim ficar aqui. – anunciou, passando pelo outro sem pedir licença.
– O que? – exclamou um português absolutamente perplexo.
– Eu vim passar uns dias aqui, e sim, estou me convidando. – constatou, colocando a mochila sobre o sofá e sentando-se.
– Lu...
– Eu não quero saber! – interrompeu-o, erguendo uma mão. Não quero nem saber se você não lembra de mim. Você me fez uma promessa e vai cumprir a sua palavra até o fim. – disse, olhando muito seriamente para outro. – E... eu vou ser sincero com você. Sem mais mentiras.
E, no fundo, o rapaz se enchia de esperanças, mesmo que soubesse o quão doloroso seria se elas se frustrassem. Ele queria seu poeta de volta.
Se as coisas são inatingíveis, ora. Não é motivo para não querê-las.
Que tristes seriam os caminhos se não fora a presença distante das estrelas.
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– Tell her to make me a cambric shirt. Parsley, sage, rosemary and thyme... – Arthur murmurava a canção distraidamente enquanto terminava de colocar a roupa no bebê. – Without no seam nor fine needlework. And she’ll be a true love of mine...
Peter costumava chorar se fosse deixado muito tempo no carrinho, então ou ele estava dormindo ou ficava com Arthur. O loirinho analisou bem aqueles olhos muito azuis e muito acordados da criança. É, definitivamente, Peter não ia dormir. Suspirou e colocou-o no colo, descendo as escadas e se encaminhando até sua escrivaninha na sala.
Seus olhos esverdeados vagaram pela paisagem do lado de fora da janela. Já era início de dezembro... Era estranho pensar que aquele ano estava acabando. Tanto... tinha acontecido.
A criança em seu colo começou a brincar de tentar puxar o seu piercing, ao que Arthur afastou-o um pouco e escondeu a pecinha de prata com os cabelos. O loirinho sentou o irmãozinho em uma de suas pernas e sustentou-o melhor com um dos braços. Sua mão direita acolheu a lapiseira preta e ele começou logo a estudar.
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A senhora Jones respirou fundo e ajeitou o laço do embrulho.
Por que estava fazendo isso?
Havia muitas respostas. Porque existiam muitos sentimentos em seu coração, e muitos deles eram conflituosos. Sentia falta de Alfred. Sentia ressentimento. Sentia culpa. Sentia... falta de quando os seus filhos ainda eram pequenos. Se fosse há alguns anos atrás, Alfred estaria correndo pela casa, derrubando vários enfeites da árvore de natal pelo caminho, arrastando Matthew para ajudá-lo a decorá-la.
Quando foi... que eles tinham começado a perder tudo aquilo?
Quando uma amiga lhe contara que seu filho morava perto de onde Alfred morava agora, ela impulsivamente pedira pelo endereço. O papel ficara semanas em sua mesinha de cabeceira, mas faltara-lhe a coragem. No entanto... daqui a pouco seria Natal... E...
Assim que chegou ao endereço, reparou no lindo roseiral do lado de fora. As flores se abriam, deslumbrantes, cheias e coloridas. O perfume alcançou-a e ela respirou fundo antes de tocar a campainha.
Pensou em ir embora, não tinha certeza se queria mesmo ver Alfred. Mas antes que ela fosse embora, a porta se abriu. Por um momento, ela prendeu a respiração. Não sabia se estava pronto para vê-lo. Mas...
Ela respirou fundo e ergueu os olhos claros.
Mas não era Alfred. Era um rapaz muito bonito, com o par de olhos mais verdes que ela já vira. Ele levava no colo uma criança, que parecia um tanto consigo, mas estranhamente... lembrava Alfred. Ou seria impressão sua? Talvez por estar com saudades do filho estava vendo coisas?
– Er... senhora? – chamou o rapaz, polidamente.
– Ah! Eu... trabalho com o Alfred e bem, ele me ajudou muito no outro dia, então eu trouxe uma lembrancinha para ele de Natal. Ele mora aqui?
– Sim, mas ele saiu. – respondeu Arthur gentilmente.
– Então... entregue isso a ele. – murmurou ela, oferecendo-lhe o embrulho.
Arthur desajeitadamente pegou o pacote com uma mão, tomando cuidado com o bebê em seu colo. Colocou o presente sobre a mesinha e voltou à porta. A senhora olhou para a criança longamente.
– É seu filho? – perguntou, finalmente.
– Não, não, ele é meu irmãozinho. – sorriu Arthur, ajeitando o bebê no colo carinhosamente. Dava para perceber que ele gostava de crianças. – Mas nossa mãe se foi e eu cuido dele agora. – a criança fitou a senhora por alguns instantes, até notar os olhos azuis que ela tinha. Como ela lembrava muito Alfred, ele sorriu e se inclinou na direção dela. Esteve muito concentrado tentando dizer o nome do garoto, mas não conseguiu mais do que choramingar um pouco.
Arthur estranhou e segurou-o um pouco mais firme. – O que foi, amor?
A senhora se calou. Aquele parecia ser um excelente rapaz. Ele era educado e parecia muito responsável, muito embora ela quisesse muito odiá-lo. E... aquela criança era tão linda.
– Entendo... – disse ela quietamente, pegando na mãozinha da criança. – Ele é muito bonito. – parecia muito bem cuidado também. O cabelo loirinho vinha penteado e a roupa toda bem passada e arrumada. Parecia ter acabado de tomar banho, as bochechinhas um tanto rosadas. O rapaz de olhos verdes sorriu.
Então... era essa a vida de Alfred.
– Enfim... eu tenho de ir. Boas festas para vocês. – murmurou ela. Ainda não conseguiria encarar Alfred. Ainda não podia entendê-lo e ainda não sabia como falar com ele. Tinha ressentimento daquele rapaz, que levara seu filho de si. Mas...
Arthur permaneceu à porta por alguns minutos ainda. Era impressão sua... ou a senhora estava chorando? Antes que pudesse esboçar alguma reação, ela já tinha virado a esquina e desaparecido por entre as ruas.
O loirinho deu de ombros e fechou a porta. Deixou o pacote sobre a mesa, parcialmente esquecendo-se dele pelo resto do dia.
Várias horas depois, quando já era noite, ouviu a porta abrir, o que tirou sua atenção dos seus livros. Alfred terminava de fechar a porta e pendurava um casaco preto no cabideiro próximo à porta. Ele parecia cansado e, em grande medida, frustrado. O garoto trabalhava pela manhã como atendente em uma loja e andava ajudando em um escritório como algo menos que um estagiário. O trabalho era chato e certamente não valorizava os aspectos em que Alfred era bom.
– O que é isso? – perguntou o garoto, tirando-o de suas divagações.
– Ah! – lembrou-se o loirinho ao vê-lo apontando para o pacote. – Uma senhora do seu trabalho deixou esse presente para você hoje à tarde.
– Sério? – o garoto franziu o cenho e sentou-se no sofá, colocando o embrulho no colo e rasgando o papel de presente. – Não me lembro de ser amigo de nenhuma senhora no meu departamen... -Alfred parou de falar imediatamente assim que viu o conteúdo da caixa.
– Alfred? – chamou Arthur, estranhando o silêncio e a expressão do garoto. Ele... parecia muito abalado.
– Arthur... como era essa senhora? – perguntou, uma mão puxando os cabelos para trás, um olhar um tanto perturbado em seu rosto.
– Cabelo meio claro, curto, na altura dos ombros. – começou o loirinho, um pouco hesitante. — Olhos azuis, um palmo ou dois mais baixa do que eu. Acho que ela tinha uma pinta perto de um dos olhos. – concluiu, encolhendo os ombros. – Por que?
Alfred não lhe respondeu. Mas as mãos dele tremiam.
– Alfred? – chamou Arthur mais uma vez, cada vez mais preocupado. – O que foi? Você conhece ela?
– Era minha mãe. – murmurou ele. Ele ergueu o casaco marrom de seu pai de dentro da caixa de presente.
Os olhos esverdeados do loirinho arregalaram levemente. Fazia... tanto tempo desde a última vez que vira aquele casaco. Ele voltou a olhar para o garoto e não encontrou o que dizer.
Houve silêncio entre os dois.
Alfred fitou o tecido em seus dedos por alguns instantes. Seus olhos muito azuis encheram de lágrimas e ele desviou o olhar, piscando várias vezes e tentando parecer sério.
Arthur sorriu de leve e foi sentar-se ao lado dele no sofá.
– Hey... – murmurou. – Isso... isso é muito bom, Alfred.
– Não, não é. – cortou o garoto. Sua expressão era séria e, em grande medida, magoada. Ele jogou o casaco de volta na caixa e fechou-a, abandonando-a outra vez sobre a mesa. – Eu não preciso de nenhum deles agora.
– Alfred...
– Eu não quero nada vindo deles. – interrompeu Alfred imediatamente. Não precisava deles. Não... podia precisar de uma mulher que teve a crueldade de dizer que deveria ter feito um aborto em vez de permitir que uma pessoa como ele nascesse. Não precisava de um pai que lhe ergueu a mão simplesmente porque não podia aceitar quem ele era. Não precisava de nenhum deles. Não... perdoava nenhum deles.
– Mas, Alfred...
– Arthur. – Alfred o olhou muito seriamente. — Eu amo você. Mas essa decisão é minha e você precisa respeitar isso. Não me faça odiar você também. – os olhos azuis dele nunca pareceram tão sérios e ele nunca pareceu tão intimidador. Entre as brincadeiras e criancices excessivas dele... Em algum momento, Arthur se esquecera de que, na verdade, Alfred tinha uma personalidade forte e era incrivelmente teimoso e orgulhoso.
O loirinho abriu a boca, mas percebeu que... não sabia o que dizer. Seu coração apertou dolorosamente, como se uma mão fria o tivesse agarrado. Sabia disso. Sabia que... não tinha o direito de passar por cima de uma decisão pessoal do garoto. Mas... Arthur era, em parte, responsável por aquilo. Como podia condenar Alfred a uma vida daquelas, com um emprego que ele odiava, sem perspectivas, sem... nada? Sabia o quanto Alfred queria ir para a faculdade. Arthur teria que ser muito idiota se não percebesse a maneira como o garoto olhava de canto os seus livros de graduação, ou suas anotações. Ou como ele parecia se sentir tão mal quando algum colega de faculdade de Arthur ligava e ambos passavam horas discutindo uma teoria que ele não conhecia.
Não queria mais que o garoto se sentisse assim, mesmo que para isso precisasse pedir ajuda às pessoas que ele mais detestava.
Arthur... sabia das consequências. Mas estava disposto a enfrentá-las sem uma única palavra de reclamação se isso significava que ele podia lutar pela felicidade de Alfred. As pessoas amavam de formas diferentes. E o amor de Arthur se expressava daquela maneira.
Naquela noite, Alfred estava estranhamente quieto. A seriedade fazia a expressão do garoto ser muito mais adulta do que Arthur se lembrava de ter visto.
Alfred não... conseguiu se forçar a dizer qualquer coisa. Simplesmente deitou no seu lado da cama e permaneceu em silêncio. Era... estranho. Era um sentimento estranho que parecia se arrastar garganta acima, denso, escaldante, e ainda assim, frio o suficiente para fazer parecer com que uma mão gelada estava apertando o seu coração por dentro. Era... ressentimento, mágoa, assim como... saudade? Ou um vazio estranho, como se ele estivesse sendo relembrado de que... não pertencia a lugar algum. Talvez... ele ansiasse pela aprovação de seus pais. Não era como... se ele tivesse feito de propósito. Ele só... amava Arthur. De uma maneira tão profunda que quase doía.
O loirinho apagou a luz e deitou-se ao seu lado. Arthur... não disse nada. Mas ele estava acordado. Por mais cansado que ele estivesse pelo dia incrivelmente longo, Arthur não dormiria. Ele estava esperando Alfred precisar dele. Ele sabia que Alfred precisaria.
Por vários minutos, houve silêncio. Arthur notou o quarto ficar gradativamente mais nítido conforme os minutos se passavam e seus olhos se acostumavam ao escuro.
Era... engraçado pensar... ele costumava ter muito medo do escuro quando criança. Inspirava sonhos povoados por lugares destruídos e cadáveres pelo chão, em que ele se sabia agonizando, assustado demais para se mover. E, se ele acordasse, ainda veria aquelas sombras andando se o quarto estivesse escuro. O escuro era preenchido por monstros que ele desconhecia, por uma morte que ele temia, por uma dor que ele evitava.
Quando foi que ele deixou de temer o escuro?
O garoto virou-se na cama e abraçou Arthur contra si. Apertou com força, tentando fazer a sensação de solidão ir embora. Tentando fazer com que seus sentimentos confusos passassem a fazer algum sentido.
Os braços de Arthur contornaram a cintura de Alfred e aceitaram o abraço apertado.
Talvez... quanto mais sofrimento ele suportava, menos medo ele tinha. A morte parecia bem menos... distante depois que perdera sua mãe. Ele descobrira que... havia uma continuação depois do que ele pensava que seria o fim. Nunca pensara que conseguiria continuar sem ela. Mas conseguira. E isso não fazia a lembrança dela menos importante. Era só que... as pessoas só conseguem temer aquilo que não conhecem. Quanto mais seu coração se partia, menos medo ele tinha. Quanto mais ele conhecia o sofrimento, menos ele o temia.
Em algum momento, Arthur descobriu que mesmo o escuro não podia esconder tantas sombras quanto o coração das pessoas.
Os dedos longos do loirinho entrelaçaram nos cabelos cor de caramelo do outro, gentil, dolorosamente... amoroso.
As lágrimas do garoto tocaram o ombro de Arthur, uma atrás da outra, ao que Alfred silenciou um soluço.
– Shh... – sussurrou o loirinho, ainda gentilmente brincando com os cabelos do garoto, que o apertou mais, chorando com mais força. – Não... Shh... não chora, Alfred. Eu... odeio te ver chorar. – pediu Arthur quietamente. Alfred escondeu o rosto no ombro do loirinho, seu coração estranhamente apertado em ouvir aquilo. Havia também uma sensação estranha, como que um dejavú. Como se ele tivesse ouvido Arthur dizer aquilo alguma vez.
Mas não importava mais. Tudo aquilo tinha sido há tanto, tanto tempo...
Arthur afastou-o um pouco e afastou algumas lágrimas do rosto do garoto com o polegar. Os olhos dele estavam avermelhados em torno das íris muito azuis, e as pupilas dele estavam rasgadamente dilatadas, quase engolindo totalmente a cor muito bonita da auréola azul. Ele parecia de novo o mesmo menino que fora expulso de casa, que chorara em seus braços até dormir.
E Arthur odiava os pais de Alfred por aquilo. Odiava saber que um breve contato com a mãe podia fazer o garoto quebrar e chorar daquele jeito. Arthur... não suportava ver Alfred chorando assim.
– Shh... Alfred, vai ficar tudo bem. – murmurou, sustentando as faces do garoto entre suas mãos, beijando-lhe a bochecha, então seus lábios, de leve. — Alfred, olha pra mim. – Seus olhos verdes cravaram nos olhos azuis do garoto, notando a insegurança, os fantasmas que tinham sido acordados, a solidão e o desespero. – Eu amo você. – havia quase choque na expressão do garoto, ao que Arthur sentiu-se mal por não dizer aquilo com mais frequência. Na verdade... por ter dito apenas uma vez.
Alfred piscou duas vezes, duas lágrimas escapando e descendo por suas faces. As pessoas podiam dizer que palavras nem importavam, mas só Deus sabia ouvir aquilo significou para o garoto. A voz baixa e grave de Arthur, aqueles olhos muito verdes sustentando a expressão estranhamente aberta do loirinho. A sinceridade de Arthur era tão clara. Sem reservas, sem hesitar uma única vez, como que muito certo do que dizia.
Arthur só dissera que o amava uma vez. Uma única vez, na noite em que perdera Elizabeth. De coração partido, com lágrimas em seus olhos esverdeados, abraçado ao garoto, escondendo em seu colo uma criança que dormia. Quando Arthur chorara em seu ombro e ele não soubera o que dizer. Quando ele menos soubera como alcançar Arthur.
Era diferente. Agora era Arthur que tentava alcançá-lo. Era a voz de Arthur que não falhara nenhuma vez, tão certo do que dizia. Foi Alfred que deitou a cabeça em seu ombro, como se dissesse que acreditava nele. Por muitos minutos, não conseguiu dizer coisa alguma. Sua voz não sairia. Meramente continuou sentindo a respiração de Arthur em seu ombro, reconfortando-o. Muitos minutos se passaram até que ele tivesse coragem de perguntar algo que o vinha perturbando.
– Desde quando você sabia? – murmurou o garoto, o rosto ainda escondido no ombro de Arthur.
– Do que? – replicou o loirinho, distraidamente fazendo carinho no cabelo macio do garoto.
– Que você... – ele hesitou um pouco. — ... não gostava de mulheres.
– Não é que eu não goste. – começou Arthur, tentando elaborar, pego um pouco de surpresa pela pergunta. – por um bom tempo eu achei que gostava. Mas... eu não sei, eu não conseguia me entender bem com elas. – começou, um pouco incerto.
Elas eram perfumadas, envolventes... ele até tentara alguns casos, mas, de uma maneira geral, simplesmente... não dava certo. Verdade, ele dava certa conferida nos garotos, mas nunca tinha pensado nisso muito a fundo. Quer dizer, todo mundo olhava, ou ao menos ele achava. – Eu não sei... eu... sempre olhei para outros garotos, mas... meio que achava que... sei lá, era comum. Eu não sei se... meus namoros não davam certo porque eram garotas ou porque eu só me envolvi com pessoas superficiais. Bem, eu achava a maior parte das pessoas meio idiotas, para dizer a verdade. Então, ninguém era tão interessante assim. – sorriu ele, um pouco divertido. Era... verdade. Só que aí ele conhecera Alfred. Que era absolutamente idiota e, ainda assim, a pessoa mais interessante que ele já conhecera. E... ele se sentia atraído. Ele desejava Alfred. Até... começara a ver filmes e a pensar como seria se Alfred e ele... — E você? – perguntou o loirinho finalmente, corando um pouco.
– Hm... eu tive algumas namoradas, mas não sei... talvez tenha sido meio por pressão, sabe? Quase no automático, talvez. Quando eu comecei a perceber que gostava de você mais que como um amigo... – ele deu um meio sorriso, quase rindo, mas abatido demais para isso. — nossa, eu passei semanas negando. Isso porque acho que desde o começo eu já te achava atraente. Mas até eu admitir demorou. E até eu aceitar, demorou mais ainda. – o garoto calou-se por vários minutos. Em sua cabeça, ele não aceitara na época, mas, no fundo, bastou um empurrãozinho, uma pequena oportunidade para que ele se jogasse de cabeça naquele relacionamento. Talvez, em sua cabeça, ele tivesse vergonha. Por isso não andava de mãos dadas com Arthur na rua. Ou porque tivesse medo? E Arthur provavelmente sabia. O silêncio que se seguiu depois da fala do garoto dizia que... talvez, o loirinho soubesse.
Mas... estar com Arthur lhe fazia tão bem. E... de certa maneira, Alfred não podia entender porque amar aquela pessoa podia ser algo ruim.
– Depois que eu saí de casa, meu irmão também saiu, pelo o que eu soube. – continuou o garoto, pensativo. – eu recebi uma mensagem dele no outro dia. Parece que ele voltou para a França.
– Irmão? Você nunca falou muito sobre ele. – comentou Arthur. Lembrava-se de Alfred ter dito alguma coisa sobre seu irmão quando o loirinho o visitara. Arthur de fato reparara um quarto muito mais organizado que o de Alfred. Talvez tivesse perguntado algo a respeito. Mas... fazia tanto tempo.
– É, o Matthew... – murmurou o garoto. – Sinto um pouco de falta dele. Ele é legal. – havia um meio sorriso, quase nada nas feições tristes do garoto. – Depois que... eu assumi que eu estava namorando você e... saí de casa. O Matt descobriu e saiu alguns meses depois.
O olhar de Arthur perdeu-se por alguns momentos e ele pareceu triste. – eu nunca pensei que... uma coisa que eu fizesse de errado acabasse tendo tudo isso de consequências.
– Ei... – murmurou o garoto, erguendo a face do loirinho pelo queixo. – Olha para mim, você não fez nada. – beijou de leve os lábios do outro. – Não tem nada de errado com a gente. – sussurrou, e parecia querer convencer a si mesmo. Porque não é preciso se sentir seguro para transmitir confiança a alguém.
–... eu... sei. – o olhar do loirinho baixou, como se ele carregasse um peso muito grande sobre os ombros. – não é que... eu ache que tenha algo de errado com a gente. – murmurou.– é só que... – seu tom baixou um pouco. – é só que eu queria que tivesse sido diferente. — Sua voz baixa era uma tímida confissão no escuro.
E ao menos... se ao menos a sua mãe ainda estivesse ali. Talvez, ela lhe desse um conselho. Talvez ela pudesse lhe dizer algo que afastasse o desespero que quietamente se instalava em seu peito. Porque talvez Arthur ainda fosse só um menino, acabando de sair da adolescência, sem a menor ideia de como se fazia para ser um adulto.
Mas, ainda assim... era verdade que os dias estavam sendo difíceis e que ele estava se debatendo para colocar sua vida de volta no lugar. Mas... havia certa felicidade no que ele fazia. E ele tinha medo de perder aquilo a qualquer momento.
No entanto... Arthur tinha seus próprios planos. Agora que sabia que aquela senhora era a mãe de Alfred, ele... podia ter uma pontinha de esperança. Era bem verdade que ela parecia muito desconfortável em sua presença e Arthur duvidava muito que ela gostasse de si, mas... De Alfred, ela com certeza gostava. Se ele conversasse com ela, talvez ela concordasse em ajudar o filho a ir para a faculdade. Sem contar que... agora lembrando do irmão de Alfred... Arthur agora tinha uma pessoa a quem perguntar onde encontrar os pais do garoto. O plano se formou com facilidade em sua cabeça. Mas... ele não podia negar que seu coração hesitou um pouco. Sentiu Alfred abraçá-lo um pouco mais apertado. Respirou fundo e o perfume familiar do garoto fez seu coração bater um pouquinho mais depressa. Estava com medo.
Não suportaria perder Alfred também.
– Eu sei... – murmurou o garoto, puxando Arthur para o seu colo e o abraçando. Seus dedos entrelaçaram nos cabelos claros do loirinho e ele o apertou um pouco em seus braços. Como se, por deixá-lo o mais perto de si o possível, ele pudesse diminuir um pouco da solidão de Arthur, que se refletia naqueles olhos verdes sem que ele mesmo notasse. Arthur fechou os olhos. Como se pudesse fazer o mundo deixar de existir por um minuto, e, naquele minuto, acreditar que o seu amor sempre seria suficiente.
Em algum momento entre a primeira lágrima descer pelo rosto de Arthur e Alfred beijar sua testa, o loirinho adormeceu.
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O dia seguinte amanheceu nublado. Era domingo e Alfred não trabalharia. Arthur acordou e se desvencilhou do abraço do garoto, silenciosamente saindo da cama. Alcançou o celular do outro na mesinha de cabeceira e levou-o consigo, se retirando do quarto e encostando a porta atrás de si em silêncio. Rapidamente, procurou pelo celular do garoto, achando a conversa dele com seu irmão.
Suas mãos tremiam. Ainda com o coração aos pulos, selecionou o número e deixou tocar.
– Alô? – uma voz baixa atendeu por volta do quinto toque. Arthur quase desligou imediatamente, mas engoliu em seco e respondeu.
– Ahn... oi. Você seria o irmão do Alfred?
– Sim, por que?
– Eu... preciso de um favor.
Arthur contou apressadamente a situação, ao que o irmão de Alfred apenas ouviu em silêncio. Matthew aparentemente era muito mais calado que o garoto, e isso deixava Arthur um tanto aflito. Em algum lugar de sua cabeça, admitia que gostava mais da natureza falante de Alfred. Assim que terminou, houve silêncio por quase um minuto.
– Ahn... Matthew?
– Eu... entendo. – respondeu o outro finalmente. – Eu vou te passar o endereço.
– Muito obrigado. – disse Arthur, um tanto aliviado.
– Mas... me diga. – começou Matthew. — O Alfred sabe o que você pretende fazer?
– ... não. – admitiu o loirinho quietamente.
– Ele vai ficar realmente furioso. – murmurou o rapaz.
– Eu sei. – murmurou Arthur.
– Você não vai mudar de ideia não importa o que eu diga, não é? – perguntou o outro suavemente.
– Eu... acredito que não. – admitiu Arthur.
Arthur ouviu o outro suspirar. No entanto, como tinha dito, Matthew de fato deu-lhe o endereço.
– Bem... boa sorte, Arthur. – Você vai precisar, pensou o canadense consigo mesmo. — Eu estava pensando em visitar o Alfred um dia desses. Vai ser bom finalmente conhecer você também. – acrescentou Matthew gentilmente.
– Estaremos esperando. – respondeu Arthur, muito embora, com sinceridade, não estivesse pensando muito sobre visitas ou férias. O papelzinho em sua mão com o endereço da antiga casa de Alfred parecia pesar mais do que um saco de pedras.
Assim que terminou a ligação, Arthur deixou um recado sobre a mesa, dizendo que ia devolver um livro a um colega e que já voltava, caso Alfred acordasse antes que ele voltasse. Enfiou o endereço no bolso e saiu de casa, sentindo estranhamente... culpado.
Arthur não se lembraria de nada do caminho que percorrera. Seus pensamentos corriam a mil milhas por horas e seu coração parecia estar batendo contra a sua garganta. Entretanto, assim que reconheceu o portão da antiga casa de Alfred, sentiu seu coração falhar uma batida. Por vários minutos, ele mal se moveu, suas mãos repentinamente muito frias.
Alfred. Ele ia lutar pela felicidade daquele garoto, nem que fosse a última coisa que ele faria. Respirou fundo e tocou a campainha.
Por vários segundos, nada aconteceu. No entanto, instantes depois, ouviu a porta sendo destrancada e alguém a abrindo.
Arthur se viu fitado por um par de olhos muito azuis. Mas, diferente da afeição delicada que suspirava no olhar de Alfred, havia certa aspereza e raiva, perplexidade. Arthur não desviou o olhar, mas sentiu uma pedra de gelo na boca de seu estômago.
– Você. – ela reconheceu-o imediatamente. O tal... namorado do seu filho.
– Eu acho que precisamos conversar.
– Por que eu deveria falar com você? – rebateu ela, incrivelmente mais defensiva agora que sabia que o loirinho tinha consciência de quem ela era.
Arthur suspirou, irritado.
– Não é como se eu estivesse morrendo de vontade de falar com vocês também. Mas é importante. – olhou diretamente nos olhos dela. — É sobre o Alfred.
A senhora se calou e o olhar dela tornou-se levemente mais suave à menção do nome do filho. Ela hesitou por alguns momentos, mas, ainda que em silêncio, deu espaço e segurou a porta aberta. Arthur respirou fundo e entrou no que costumava ser a casa de Alfred.
– Eu vou chamar o meu marido. – murmurou ela, deixando Arthur sozinho na sala de estar.
O loirinho olhou em volta. Parecia que fora ontem a primeira vez que dormira naquela casa. Quando eles jogaram videogame no quarto, assistiram um filme de terror e Arthur brincara de assustar o garoto. Quando Alfred era só um amigo. Antes da vinda de Peter, antes da partida de Elizabeth. Parecia... fazer uma eternidade desde então. Quando suas únicas preocupações eram o colégio e as briguinhas que ele arranjava. Parecia tudo muito tolo agora. Ele se formara sem grandes alegrias, mas também sem grandes fracassos. Mesmo Ludwig se tornara seu colega de faculdade e ambos vinham se entendendo. Aquela época parecia ter acontecido há tanto tempo. Talvez Arthur tivesse simplesmente amadurecido.
Ou envelhecido de vez.
O loirinho ouviu passos descendo as escadas, desviando sua atenção. Um senhor seguia a mãe de Alfred. Dele, o garoto parecia ter herdado a altura e o porte. Da mãe, aqueles olhos insanamente azuis. Eles se sentaram em um sofá e o loirinho sentou no outro, em frente aos dois.
Arthur olhou bem para o casal sentado no sofá. Seus sentimentos... eram conflitantes. Era agradecido por eles terem colocado Alfred no mundo e, de um jeito ou do outro, criado o garoto para que ele fosse a pessoa que ele era. Ao mesmo tempo, odiava-os por terem feito Alfred chorar do jeito que ele chorou naquela noite em que fora expulso da própria casa. Odiava pensar que, no fundo, o garoto ansiava pela aceitação daquelas pessoas.
– Eu... – o loirinho começou, e sua voz saiu bem menos firme do que ele desejava. Seu tom era grave, como a voz de um adulto deveria ser. Do lado de fora, ele manteve a postura e dirigiu um olhar sério aos dois. Mas... na verdade, Arthur se sentia acuado. – Eu precisava falar com vocês a respeito do Alfred. Ele largou os estudos e... eu... queria que vocês... ajudassem ele com isso. Não tem... condições de ele continuar trabalhando e estudar ao mesmo tempo. E... sem o trabalho dele, não tenho condições de deixá-lo estudando. – admitiu, seu orgulho infinitamente ferido.
– Foi escolha dele sair dessa casa. – disse o senhor, sustentando um olhar direto sobre o loirinho. — Ele não é mais minha responsabilidade.
– E-eu entendo, mas... – Arthur engoliu em seco e reuniu toda a sua coragem. — Ele realmente tem potencial! E... ele sempre sonhou com isso, eu não acho que seja justo.
– E quem você acha que é para achar justo ou não?! A culpa é sua por ele estar nessa situação, não adianta vir tentar jogar a culpa em nós.
Arthur não pôde responder. Era verdade. Ele sabia o quanto tinha estragado a vida de Alfred, mas... Não fora sua intenção. Precisava... precisava haver uma maneira. E, seja ela qual fosse, ela podia garantir a felicidade de Alfred. Arthur... precisava fazer isso.
– Por favor. – murmurou Arthur.
– Nós n-
– Eu imploro. – murmurou o loirinho, em uma voz mínima. Ele devia aquilo a Alfred. Mais do que isso... ele... queria fazer alguma coisa pelo garoto. Por aquela pessoa que escolhera ficar ao seu lado, mesmo com tudo o que tinha acontecido. Aquele menino que dormia ao seu lado todas as noites e fazia Arthur sentir como se não estivesse sozinho depois de todas as pessoas que perdera. Aquele menino que embalara o sono de uma criança que Arthur pensou que criaria sozinho. Talvez aquele fosse o jeito mais difícil de aprender aquela lição, mas foi como Arthur a aprendeu. Ele engoliu todo o orgulho que o sustentava e ajoelhou no chão à sua frente. – Por favor. – e as lágrimas que ele tinha segurado com tudo o que podia deslizaram pelo seu rosto.
Porque Arthur tinha encontrado algo. Mais precioso até mesmo que o seu orgulho, que é a última coisa que resta a uma pessoa que não sabia se amar.
– Eu não-
– Querido... – a mãe do garoto interrompeu a conversa. – vamos fazer isso. – ela viu o loirinho erguer a face, a perplexidade estampada em seus olhos verdes, que cintilavam em lágrimas. Ela continuou. — eu... sinto a falta do meu filho. Eu nunca quis que ele fosse embora. – admitiu ela com a voz chorosa. — Eu nunca... pensei que ele teria coragem. – e isso doía também. Ela conhecia Alfred menos do que imaginava. — Mas... lembra? Ele sempre sonhou com esse curso. Eu gostaria ao menos de fazer com que ele se formasse. Mesmo que ele nunca mais volte para casa.
– Eu... – o pai de Alfred hesitou. Sua esposa era quem tinha recebido pior a notícia, então... ele não imaginava que ela fosse aceitar ajudar o filho. Engoliu em seco. — Certo. Nós... – ele se calou. Parecia em conflito consigo mesmo. Respirou fundo e voltou a falar. – Certo. Se é o que você quer... – a senhora assentiu e a sala voltou a ficar em silêncio.
Arthur murmurou em agradecimento, se levantou e preparou-se para ir embora. Mas, antes de deixar a sala, dirigiu um último olhar aos dois.
Não achava que gostava dos pais de Alfred. Não achava que conseguiria entendê-los. Mas... naquele breve momento, quando ele os viu sentados sozinhos no sofá, em uma casa que já era grande demais sem os filhos, com a idade começando a pesar sobre os seus ombros e aquele olhar solitário em seus semblantes cansados... Arthur achava que... de certa forma, aceitava. Não concordava. Não achava que eles estavam certos. Uma parte de si provavelmente os odiava. Por fazer Alfred sofrer daquele jeito. Justo Alfred, a quem Arthur amava tão sinceramente.
No entanto... Arthur não achava que aquelas pessoas eram más. Ele não conseguiu... julgá-las. O mundo era tão mais do que pessoas boas e pessoas ruins. Bem ali existiam duas pessoas de que Arthur não gostava, com quem ele não concordava. Mas... ele não sabia se, afinal de tudo, elas eram ruins. À maneira deles, os pais de Alfred realmente o amavam. E, no fundo, não era isso tudo o que se podia exigir de alguém? Exatamente aquilo que esse alguém era capaz de oferecer.
O casal fitou o rapaz, também em silêncio. Encararam o fundo de seus olhos verdes, e, talvez, tenham sentido uma pontinha de ciúme. Porque Alfred o escolhera acima deles. Porque Arthur era jovem e ainda veria Alfred por muitos anos. O senhor Jones apertou a mão da esposa. O tempo deles tinha passado. E fora tão, tão rápido. Os filhos todos estavam criados e tinham ido embora. A casa nunca mais seria tão cheia. Os anos nunca voltariam. As palavras que eles disseram não tinham volta. Tudo... passava tão depressa.
No fundo, talvez eles soubessem que não havia nada de errado com a escolha de Alfred. No fundo, eles sabiam que Arthur era uma boa pessoa, que Alfred realmente o amava, e que os dois tinham um futuro juntos. Só que eles perceberam que era difícil desfazer opiniões e conceitos depois de certa idade. Eles já eram velhos o suficiente para acharem que nada no mundo era novidade. Então, talvez, pensaram eles, eles já fossem velhos o suficiente para serem uma dificuldade para os mais novos.
Arthur caminhou lentamente até a porta.
– Nós... manteremos contato. – disse o pai de Alfred finalmente.
– ... obrigado. – murmurou o loirinho. Não... sabia bem o que dizer. Então, em silêncio, continuou seu caminho até a porta.
– Arthur. – a voz da mãe do garoto chamou sua atenção. Ela nunca o chamara pelo nome.
O loirinho se virou.
– ... você o ama? – a pergunta o surpreendeu. Mas a senhora o olhava como se sua resposta fizesse toda a diferença. Mesmo que... mesmo que ela não fosse procurar o filho ainda. Mesmo que ela ainda tivesse ressentimentos. Mesmo assim, ela... queria saber quem Arthur era. Queria saber... se ele merecia o garoto.
–... com a minha vida. – murmurou Arthur, olhando diretamente nos olhos dela.
– Ele te faz feliz? — continuou ela. E parecia quase curiosa.
Arthur parou por um instante.
Então virou-se apenas um pouco, e havia um sorriso muito sincero em suas feições. Seu olhar se perdeu por um breve momento, no qual ele meramente fitou o chão.
– Todos os dias. – murmurou, quase consigo mesmo.
Fechou a porta, deixando-os para trás. Chovia de leve. Ele fitou o céu nublado, as gotas geladas tocando suas faces delicadamente. Um sorriso equilibrou-se fragilmente em seus lábios. Ao menos um dos sonhos do garoto ia se tornar realidade. A felicidade daquela pessoa era possível, ele acreditava nisso. Respirou fundo e refez o caminho de casa. Voltou a ficar sério.
E agora... enfrentar Alfred.
Notas finais
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Desculpem pela longa explicação xD eu sou meio enrolada e fico um tempão pensando em detalhes como esses xD
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Ahh! A música da parte brxpt é Será - legião Urbana! o/ Não me pertence, só peguei um pouquinho emprestado.
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O poema! É do Raimundo correia, e eu tive a ideia antes de aparecer isso no enem! xD
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enfim, agradeço muito, muito mesmo mesmo a punk hell, ju, thegleameyesgin, shin no tamashi, luby blue, homumoemura, Catherine, bia, pudimm ( bem vindaaa o/) e Meychan! Sério, muito obrigada mesmo, saibam que, de verdade, é essa conversa, são os comentários que fazem isso valer a pena. Muito obrigada mesmo mesmo pela paciência e desculpem a confusão. Essa autora é um tantinho azarada ;-; Irei imediatamente responder seus amáveis reviews ( decidi postar antes para não enrolar vocês mais. Espero que a luz não acabe de novo @-@) Muito obrigada mesmo mesmo! Beijo!
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