Boulevard Of Broken Dreams

35 Capítulo 35 - All you need is love


Notas iniciais
Pessoas, mil desculpas pela demora! D: Aconteceram uma avalanche de coisas na vidinha tola dessa pobre autora que vos fala u.u E, entre todas as essas coisas, acabei repensando várias partes dessa história e acrescentando outros fatos, tirando alguns... O que levou a uma certa demora, estive reformando alguns capítulos mais a frente, o que atrasou o atual. Agradeço muito muito mesmo a todos vocês pela paciência! Tentei fazer um bom capítulo, e mais longo para me redimir pela demora. Espero que vocês gostem e que por favor continuem lendo! Muitos beijos! :D

Mas, não. Daquela vez, ele faria diferente. Matthew não gostava muito daquela parte de si que se menosprezava, que fugia. Então... ele iria mudá-la.

– Mãe, eu vou voltar para a França.

– M-mas, meu filho, por que tão de repente? Eu achei que você fosse ficar aqui conosco! — disse a senhora, levantando-se do sofá, olhando o filho com o coração na mão.

– ... Mãe, o senhor Jones me disse. – soava estranho, mas ele nunca exatamente conseguira chamar o pai do Alfred de pai. O canadense devia ter uns... oito anos quando veio morar com a mãe e com o padrasto. E embora o senhor Jones fosse agradável consigo, Matthew nunca se sentira a vontade para chamá-lo de pai. E o senhor nunca quisera o obrigar. O canadense respirou fundo. Por que estava lembrando disso agora?

– ... disse o quê?

– Sobre o Alfred.

–...

– Eu... não quis acreditar, de início. Mas... eu acho que é mesmo verdade, pela sua reação. – havia tanto mais que ele poderia dizer. Por um momento, ele quis dizer o quanto repudiava a decisão dela. O quanto... o quão baixo aquilo lhe parecia. Mas...

– Matt, eu... eu sinto muito a falta dele. – murmurou a senhora, sentida.

– Mas o seu amor por ele não é suficiente para aceitá-lo como ele é?

– Matt... – a crítica ácida soava tão estranha na voz doce de Matthew. Parecia surreal. Como se ela fosse acordar a qualquer momento. Mas ela não acordou. E Matthew continuou, decidido, nervoso, mas firme.

– Eu... eu também amo uma pessoa. Ele é francês. – fez questão de dizer, mesmo que não tivesse a mínima chance de ser correspondido. — E... eu estou voltando para lá.

– Você também...

– É. – deu um meio sorriso triste, ou conformado. – Eu não espero que você aceite. Ainda mais sabendo o que aconteceu com o Alfred. – arrumou a mochila nas costas e alcançou sua mala. – Não precisa me dizer para nunca mais voltar. Acho que, como o Alfred, eu talvez nunca volte. Mas... – virou-se para olhar para ela uma última vez. – Se fosse comigo... e fossem os meus filhos... Eu não os deixaria ir assim. Talvez você não possa perdoar nenhum de nós agora. Mas... se demorar muito. Mesmo o Alfred... Ele vai se tornar alguém que você não vai reconhecer. E você vai acabar sozinha. – disse suavemente, caminhando em direção à porta. Não como Alfred fizera, não derrotado, não confuso. Ele tivera tempo para pensar e tomar uma decisão. E ele acreditaria na escolha que fez, até o final.

A brisa um tanto fria o atingiu assim que a porta foi aberta. Então, Matthew sorriu. Fechou a porta atrás de si e não olhou para trás. Porque talvez ele voltasse. Talvez, não. Mas, independente do que acontecesse, ele saberia que, naquele momento, não havia nada que ele desejasse mais do que aquilo.

There’s no time for misery

I won’t feel sorry for me


(Não há tempo para miséria



Eu não vou sentir pena de mim)



Sua casa na França ainda estava alugada em seu nome. E embora estivesse sem os seus pertences, ele nunca devolvera ao proprietário. O que talvez mostrasse que ele nunca tivera intenção de abandonar aquele lugar completamente. De fato, ele chegara a pagar três meses de aluguel sem nem ao menos estar morando lá, apenas para ter aquele lugar a sua disposição caso... caso ele voltasse.


O canadense nem se importou em desarrumar suas malas ao chegar. De fato, elas foram jogadas em um canto da sala, e trancadas lá dentro por um Matthew muito apressado. Ele correu desesperadamente pelas ruas da cidade, mas, diferente da primeira vez que fizera aquele caminho, estava sozinho, sem o ursinho apertado em seus braços. Seu cabelo era arremessado para trás com o vento e sua respiração era rasa demais, seu coração pulava e seu estômago provavelmente dava cambalhotas.

I’ll live my life, I’m alive

Sua corrida afoita levou-o a um caminho que ele tanto conhecia, à uma casa que ele tanto visitara, ao lado de uma confeitaria comum que parecia ter mudado a sua vida para sempre. Ele só... nunca tinha se dado conta disso.

Mas afinal, quando é que alguém se dá conta do próprio destino?

Matthew tocou a campainha uma vez e esperou. Seu coração parecia estar batendo dentro da sua cabeça, de tão alto que o barulho parecia. Pela primeira vez na vida, ele não tinha plano nenhum. Ele não tinha a menor ideia do que iria fazer, do que iria dizer. Ele estava visitando a casa de alguém sem nem avisar. Para piorar esse alguém provavelmente o odiava. Ele tocou a campainha novamente, insistindo pela primeira vez. Porque era muita falta de educação tocar a campainha tantas vezes seguidas. Mas, pela primeira vez, isso realmente não importava.

Não houve resposta. Matthew olhou seu relógio. Sentiu o coração falhar uma batida. Francis... deveria estar saindo do trabalho mais ou menos à essa hora. Ele olhou em volta e o viu saindo da confeitaria.

Ele era tão bonito... Os cabelos loiros vinham adoravelmente lisos e se curvavam levemente nas pontas, sendo balançados de leve enquanto ele caminhava. Ele se aproximou e tirou do bolso as chaves de casa. O canadense saiu de perto da porta, mas não teve coragem de se afastar mais.

O francês parou ao seu lado. Matthew prendeu a respiração e não ousou se mover. No entanto, os olhos azuis do outro se voltaram em sua direção.

– Matthew? – perguntou Francis, quase acima de um murmúrio.

– E-eu. – respondeu o canadense em um sussurro. Como ele sabia que eu estava aqui?

Houve silêncio. Francis tornou a olhar para frente e respirou fundo. Não sabia o que dizer. Não sabia o que esperar. Quando sentiu o perfume familiar de Matthew, podia ter... fingido que não tinha percebido. Mas... se ele o fizesse... talvez ficasse o resto da vida com aquela dúvida. E se... ele pudesse ser feliz com Matthew? E se, mesmo que o seu mundo fosse feito por sons e tato, ele pudesse... alcançar de verdade uma pessoa lá de fora? Uma pessoa que vivia em um mundo imerso em cores e formas?


Francis nunca sentira que as outras pessoas pertencessem ao mesmo mundo que ele. Nunca... pensou em dividir sua vida com ninguém.



Mas... ele, sem ao menos perceber, tinha dividido sua vida com aquele rapaz. Matthew tinha trazido alegria aos seus dias, de forma que era estranho ficar longe dele. Francis tinha se acostumado a ter companhia, a conversar e falar o que realmente tinha em mente, a andar em vários outros lugares que ele não podia ver, mas que aprendera a apreciar. Acima de tudo, Matthew lhe trouxera... paz. Era estranhamente reconfortante ouvir a voz muito baixa dele contando sobre tudo lá fora, conversando sobre um pouco que havia dentro do próprio coração.



– Entre. Podemos tomar um café. – ouviu-se dizer com muita naturalidade ao canadense parado ao seu lado. Ele mesmo estranhou a própria voz, calma e casual.


Ele não sentia raiva de Matthew.

Era estranho, mas era verdade. Ao ouvir a voz dele outra vez, depois de tanto tempo, Francis percebeu que... não sentia raiva. Não conseguiria brigar com Matthew.

O canadense arregalou os olhos levemente, assistindo o francês entrar e deixar a porta aberta. Não esperava o convite. Esperava uma briga, uma discussão provavelmente feia e... bem, ele tentava não imaginar como aquilo terminaria.

Se bem que... eles não eram assim. O relacionamento entre eles nunca foi assim. Matthew não era alguém que provocava durante o início de uma discussão, então elas raramente evoluíam para uma briga.

Mas, daquela vez, Matthew se sentia culpado. Daquela vez, ele fora o culpado.

– Eu... Francis, eu... – começou, um tanto hesitante, mas sua voz um pouco mais alta do que sempre.

– Como foi com a sua família? Se divertiu bastante? – interrompeu o francês, deixando o sobretudo sobre o sofá e lentamente fazendo seu caminho até a cozinha.

– Francis, eu preciso falar com você. – começou Matthew.

– Está um pouco frio hoje, não? – cortou o outro, abrindo um dos armários e procurando o café.

– É sério, eu-

– Você quer leite no seu café?

– Francis!

O francês parou o que fazia e permaneceu calado. Ele não... queria ter aquela conversa. Não agora. Talvez, nunca. Ele tentara tanto esquecer Matthew naqueles meses todos. Era injusto ele voltar assim para a sua vida. O francês não... não queria mais chorar por aquela pessoa. E, se ouvisse o que Matthew tinha para dizer, talvez fosse inevitável. Francis não queria aquilo. Não queria expectativas, não queria um relacionamento. Ele estava velho demais para esse tipo de coisa. Ele já tinha se relacionado com outras pessoas e sabia como aquilo acabava.

Mesmo que ele soubesse que nunca tinha amado uma pessoa como amava Matthew.

– Eu... – o canadense hesitou diante do silêncio. Não sabia por onde começar. Não tinha planejado nada e não tinha ideia do que dizer. – Eu... desculpe. Eu não devia... ter feito aquilo. – murmurou, seu rosto esquentando ao se lembrar do beijo que ele forçara sobre o outro. – Talvez... nós pudéssemos fingir que nada aconteceu. – sussurrou.

– Você se arrepende? – e as desculpas pareceram surtir o efeito oposto. E se ele se arrependesse mesmo? Fingir que nada tinha acontecido? Pela primeira vez, Francis estava com raiva de Matthew. Raiva, que parecia lhe subir garganta acima como uma dose de veneno fervendo.

– Não foi isso que eu quis dizer. – murmurou Matthew.

– Mas parece que foi isso que você disse. – nem ele mesmo podia entender por que estava irritado agora. Queria que Matthew fosse embora e nunca mais voltasse. Mas não sabia mais como passar os dias sem estar ao lado dele.

– Você me odeia agora? – perguntou o canadense, puxando o outro levemente pelo braço e olhando nos olhos claros dele. As íris azuis se moveram até se focarem mais ou menos no rosto de Matthew. Mas ele não o estava vendo. – O que eu sou para você? – perguntou em um fiozinho de voz.

O francês voltou a se calar. O que aquele menino era na sua vida? Que... expectativas ele tinha sobre Matthew?

O que eu quero?”- a pergunta ecoava em sua cabeça, mas não era como se Francis soubesse a resposta. O perfume de Matthew flutuava gentilmente no ar e, talvez, o francês achasse que seria bom se ele continuasse ali. Mas isso não respondia a pergunta. Nada parecia responder. Tinha muito tempo desde a última vez em que ele se perguntara sobre os próprios sonhos. Não era algo que se fazia muito depois de adulto. Ele tinha um emprego, do qual gostava muito. Ele... estava vivo. Ele era feliz.

Não era?

– É só que eu... – Matthew voltou a falar diante do silêncio do outro. – Eu... não sabia mais o que fazer.

– Matthew? – chamou, um pouco hesitante assim que a voz do rapaz estremeceu de leve.

– Eu... gosto de você. Não como um amigo ou nada assim. Eu... – foi baixo e hesitante, mas era o melhor que ele podia fazer.

O francês suspirou.

– Matt... – o apelido carinhoso saiu sem que ele sequer reparasse. Aquela pessoa já era importante demais na sua vida. E isso era um tanto... assustador. — você está confuso. – disse, e se sentiu a pior das criaturas. Era mentira. “Não é culpa dele. Eu estou confuso.”

– Não estou! – respondeu o canadense imediatamente, sua voz alteando pela primeira vez. — Desculpe, mas eu sei onde começam e onde terminam os meus sentimentos. Se você não pode me aceitar, eu entendo, mas... – pela primeira vez, a voz dele não hesitou. Porque ele tinha muita certeza do que sentia.

E o francês se calou. Porque era quase embaraçoso como aquele menino, tão mais novo, tinha tão mais coragem. Por um momento, só porque a voz de Matthew carregava aquela pontinha de audácia, Francis achou que... talvez, fosse possível.

Tudo soava possível naquele doce, levemente trêmulo acorde.

– Antes, eu nunca achava que fosse conseguir. – continuou Matthew, segurando fracamente o francês pelos ombros. — Eu sempre pensava que era impossível para alguém como eu e desistia. Eu deixei de me importar. Eu sempre fui o segundo, sempre fui confundido com o meu irmão, sempre fui menos importante que ele. – murmurava ele, sem coragem de olhar o outro nos olhos. — E eu não me importava se ninguém me visse ou se ninguém se importasse. Eu nunca pensei se eu realmente tinha chances com você, eu simplesmente fui embora antes que qualquer coisa pudesse acontecer. – ele era covarde. Ou talvez, simplesmente, tivesse muito medo de perder as poucas pessoas que tinha. Então, ele desistia da própria felicidade antes de tentar alcançá-la, porque nunca pensou que talvez a merecesse. — Eu sempre odiei essa pessoa que eu sou. – sussurrou ele, com toda a sinceridade. Quantas vezes ele já não pensara em desistir de tudo? — Por nunca brigar pelo o que eu quero, por desistir antes de tentar. – ele parou por um momento e respirou fundo, tentando fazer com que sua voz ficasse um pouquinho mais firme. — Eu mesmo estive me traindo. Eu me fazia desistir. Mas... depois de tudo, eu ainda queria encontrar você. Eu queria aquela vida que a gente tinha. Mas eu não soube mais o que fazer... eu não sabia estar com você e ser só um amigo. – terminou, em um sussurro. Matthew não queria que a vida fosse perfeita, não queria ser muito rico, não queria ser reconhecido. Ele só queria um pouco de felicidade, seja lá o que isso fosse. Queria ter seus sentimentos correspondidos.

– Você é muito novo, Matt. – murmurou o francês, sem coragem de abraçar aquela pessoa. Sem coragem de afastá-la. Sua voz também pareceu tremer um pouco. — O que você quer de alguém como eu? – perguntou finalmente, a pergunta que o atormentara desde o início. O que... alguém poderia querer de uma pessoa como ele?

Matthew se calou, completamente estupefato diante da pergunta. Engoliu em seco uma vez.

– ... eu quero uma chance.

Francis não encontrou o que responder. Tudo parecia tão simples na voz doce daquele rapaz. Doce, um pouco trêmula e quase nada acima de um sussurro.

As mãos do francês se aproximaram de seu rosto lentamente, e os dedos dele tocaram suas faces.

– Você... está chorando. – a respiração dele vinha trêmula e em soquinhos. As faces dele estavam muito quentes e havia lágrimas ali.

Matthew segurou uma das mãos do outro e apertou-a um pouco. Não entendia mais nada. No entanto, uma parte sua talvez tenha desejado que aquele minuto não acabasse mais.

O francês desvencilhou sua mão da de Matthew e tentou tirar algumas lágrimas do caminho. Foi um pouco desajeitado, ao que o canadense teve a gentileza de retirar seus óculos para facilitar. Sem eles, os dedos do outro tocaram suas faces com facilidade. Então, contornaram seu queixo e curiosamente percorreram o formato de seu nariz, até a pontinha.

Nunca fizera muito daquilo. Era estranho e desconfortável para as outras pessoas. Mas, por um momento, ele quis... ver Matthew. Talvez não como ele o via, mas como se podia ver no mundo sem cores em que o francês vivia. Ou talvez, ele simplesmente quisesse se sentir perto daquela pessoa. Mesmo depois de tocar seu rosto, Francis não exatamente formara uma imagem em sua cabeça. Era... diferente. Mas, pelo pouco que podia saber, achava que Matthew era bonito.

Mas ele tinha a impressão de que o achava bonito mesmo antes de conhecer seu rosto.

Seus dedos voltaram às faces do canadense e ele fez carinho nas bochechas macias do rapaz. Sua mão pegou uma mecha de cabelos levemente ondulados e finos, ao que seu semblante tornou-se um pouco pensativo.

Claro que gostava de estar com Matthew. A personalidade calada, a maneira como ele sempre se preocupava com tudo, a paixão sincera dele por aquela confeitaria. Gostava das conversas, dos passeios, da voz gentil dele. Claro que... ele se apaixonaria por alguém que dedicara tanto tempo a uma pessoa que já tinha desistido de si mesma. Quem poderia culpá-lo por se apaixonar por alguém que tentou entender e partilhar um pouco do seu mundo sem cores?

Mas... as coisas podiam ser tão simples assim?

– Matthew, eu não...

– Eu só quero uma chance. – interrompeu o rapaz, antes que o outro pudesse dizer qualquer coisa. Antes que as coisas ficassem complicadas. Antes que eles se enganassem e acabassem pensando que, para se amar alguém, era preciso mais do que meros sentimentos.

Os dedos longos do francês contornaram os lábios levemente trêmulos de Matthew, ao que Francis deu um meio sorriso.

– Eu gostaria de ser capaz de resistir. – gostaria de ser menos passional. Gostaria de poder evitar se apaixonar por aquela pessoa. Mas não era como se ele pudesse. Não era como se ele pudesse evitar se aproximar ainda mais daquela pessoa, até o ponto em que podia sentir a respiração trêmula dela contra os próprios lábios.

Não era como se aquele beijo pudesse ser evitado.

.

Arthur mal pôde acreditar quando apagou a luz e deitou-se na própria cama. O dia fora absurdamente longo e poder realmente ir dormir era um alívio. Passava da uma da manhã e ele precisava acordar cedo no dia seguinte, mas apenas de pensar naquelas deliciosas horas de sono, era o suficiente.

Passara o dia todo resolvendo os milhares de problemas que ficaram pendentes desde a morte de sua mãe. Fora na faculdade pela manhã e se descobrira quase reprovando aquele ano. Perdera provas de várias matérias, perdera todas as aulas daquele mês e não apresentara uma única justificativa. Levou-lhe a manhã toda de explicações e comprovações, indo de um lado para o outro e assinando termos na secretaria. Teve que ir atrás de vários professores e pedir por uma chance, e ainda perguntar em que altura do conteúdo eles já estavam.

Apenas por volta de duas da tarde, Arthur parou e sentou-se em um banquinho de praça, absolutamente acabado. Respirou fundo e olhou para o céu nublado acima de si. Conseguira remarcar algumas provas, embora todas para a mesma semana, em dias seguidos. E ainda precisaria estudar toda a matéria do mês. Sem contar os professores que não quiserem lhe dar outra chance, o que significava que ele precisaria de um milagre para passar naquelas disciplinas.

Arthur passou uma das mãos pelos cabelos, bagunçando-os em frustração. Precisava terminar os estudos logo e arranjar um emprego. Seus olhos claros entristeceram por um momento e ele olhou a calçada por alguns instantes.

Precisava... voltar para casa para que Alfred pudesse ir para o trabalho. Eles não tinham com quem deixar Peter. Arthur não podia deixar de se perguntar... o quanto estaria estragando a vida daquele garoto.

... Estava exausto. Definitivamente, no limiar dos próprios limites. Estava nervoso, preocupado, cansado, apreensivo, triste e culpado. Estava tentando aprender a lidar com aquela situação e com os próprios sentimentos, mas... era difícil.

O dia fora definitivamente... difícil. Arthur deitou a cabeça no travesseiro macio e aconchegou-se entre os cobertores aquecidos, escapando do frio noturno. Gostaria de poder escapar de muitas outras coisas em sua vida, mas não funcionava assim.

Voltou a fechar os olhos, mas antes que pudesse dormir, ouviu um choro de criança. Alfred sentou-se ao seu lado, mas Arthur o deteve.

– Eu vou. – murmurou o loirinho. – Amanhã você precisa trabalhar. Boa noite. – sussurrou ele antes de descer da cama e pisar sobre o chão gelado do quarto. Cuidadosamente tirou a criança do berço e levou-a para fora do quarto, fechando a porta.

– Ah, Peter... – murmurou Arthur, cansado. Foi até o quarto ao lado, de Scott, e sentou-se na cama. Gentilmente, checou a temperatura da criança. Seu coração apertou um pouco ao constatar uma leve febre.

É importante monitorar a febre e não deixar passar de 37 a 37,5ºC. Se não passar, é preciso ir ao médico. Mas é comum crianças dessa idade terem febre.

Arthur sabia. Sabia exatamente o que Elizabeth faria.

Só não tinha confiança suficiente de que era capaz de fazê-lo. Peter choramingou um pouco em seu colo, incomodado com a febre. Arthur permaneceu checando o termômetro de vinte em vinte minutos, mas a febre cedia e voltava. E mesmo depois de ter cedido totalmente, Peter engasgou e começou a chorar de novo. Nisso eram mais de quatro da manhã e Arthur estava com muito sono. Não dormira bem na noite passada, o dia fora longo e difícil, e provavelmente não dormiria naquela noite. Sua cabeça doía e ele se sentia um pouco tonto de cansaço. Ao mesmo tempo, estava preocupado demais para dormir. Mesmo depois que seu irmãozinho parou de chorar e dormiu, Arthur continuou verificando a temperatura de vinte em vinte minutos.

O sol despontou na janela do quarto de Scott e o loirinho desviou o olhar da luz ofuscante. Estava nublado, mas estava muito claro. Seu corpo doía de ficar sentado a noite inteira ninando a criança e a claridade o deixava quase enjoado. Desceu para a cozinha, ainda com o bebê no colo e fez um pouco de café para o garoto, embora odiasse o cheiro daquilo. Já passava um pouco das seis da manhã quando Arthur percebeu que Peter dormia bem e decidiu que ele já podia voltar para o berço.

Um tanto devagar, absolutamente exausto, o loirinho voltou para o próprio quarto.

Alfred já estava acordado, e, pela cara, também não tinha dormido muita coisa naquela noite. Também, Peter chorara grande parte da noite.

– Ele melhorou? – perguntou o garoto, saindo da cama e pegando algumas roupas de sua mochila. Ainda não trouxera as suas coisas para a casa de Arthur. Na verdade, os dois não andavam tendo tempo para discutir aquele tipo de coisa. Sendo bem sincero, tinha muito tempo que eles não conversavam sobre qualquer coisa. Mas... não era como se ele pudesse disputar atenção com um bebê. Ainda mais porque, em parte, ele também acabara responsável pela criança e a amava. – Acha que ele vai ficar bem hoje?

– Eu... acho que sim. Mas vou continuar acompanhando hoje. – estava preocupado. Claro que estava. Era a primeira vez que lidava com aquilo e estava com medo. — Vou faltar as aulas da tarde e... fazer uns trabalhos pendentes. – murmurou Arthur, esfregando os olhos em uma tentativa de se manter acordado.

– ... Eu vou trabalhar. – murmurou o garoto, terminando de se vestir e descendo até a cozinha. Talvez eu faça hora extra ou algo assim já que ele vai poder estar aqui à tarde com o Peter... Tomou um pouco de café, que Arthur sempre fazia para ele pela manhã e saiu.

Seus olhos claros se voltaram para o céu nublado. Estava um pouco... frustrado. Não sabia como lidar com aquilo. Sentia falta de Arthur, mas vivia com ele, dormia ao lado dele. Como... alcançar uma pessoa que está tão perto? O que ele precisava fazer para acabar com aquela sensação latente de perda? Era... um fato.

Estava perdendo Arthur para uma coisa chamada cotidiano.

.

Aquela rotina estranha se arrastou pelas semanas.

Quando Alfred chegou em casa, jogou o casaco preto que usava sobre o sofá e suspirou. Ele nem cumprimentou Arthur direito, meramente sentou-se e fechou os olhos. Odiava aquele trabalho. E, acima de tudo, estava frustrado porque não entendia de onde surgira a distância que Arthur parecia impor entre eles. Arthur estava distante. Fazia muito tempo desde a última vez em que eles se tocaram. E Alfred não... entendia o motivo. E se... ele quisesse terminar? Talvez Arthur não... o amava mais?

O loirinho fitou-o por longos minutos. Era sempre assim quando ele chegava em casa. E Arthur não sabia lidar com isso. Alfred... não gostava do que fazia. Ele só trabalhava para ajudá-lo. Se não fosse por Arthur, ele ainda poderia estar na casa dos pais e... estudando para ser o que ele sempre quis ser. Não era justo. Não era certo...

– Alfred. – chamou o loirinho, reunindo toda a coragem que tinha. — Eu... quero que você vá embora.

– O que... você quer dizer?

– Que chega... – porque ele não podia mais suportar aquilo. Não podia mais continuar a estragar a vida de alguém que ele amava daquele jeito. – É melhor você ir embora.

– Do que você está falando, Arthur? – o que... era aquilo de repente? Era verdade mesmo? Não, não era. Mas por que Arthur estava dizendo aquilo? Os sentimentos dele... mudaram? — E o Peter? O que você...

– Alfred. – interrompeu-o antes que ele o convencesse. Porque Alfred sempre o convencia. — Isso... é problema meu. Desde o começo... isso não tem nada a ver com você.

Houve silêncio. O garoto não soube reagir por um minuto inteiro.

– C-como pode não ter a ver comigo? Arthur... – doía. Doía ser... deixado de lado assim. Q-quer dizer... era verdade que... ele não tinha... nada a ver com aquilo. Ele não era da família de Arthur. Mas... por um momento, talvez... ele tenha agido como se fosse. Ele... cuidara de Peter também. Ele estivera com Arthur aquele tempo todo. Então... ele pensara que tinha um espaço na vida do outro que... talvez ele não tivesse.

– N-não foi isso que eu quis dizer, é só que... – hesitou diante da expressão magoada do garoto.

– Arthur. Cala a boca. – a voz do garoto talvez tenha tremido um pouco. – Só... cala a boca. – ele não conseguia mais... ouvir a voz de Arthur. Estava com raiva. E... magoado. Precisava... de um tempo sozinho.

Alfred meramente colocou de volta o casaco preto e voltou a abrir a porta da frente.

– Alfred!

Mas o garoto bateu a porta sem olhar para trás.

Arthur permaneceu parado no corredor por alguns minutos. Mais uma vez, doeu. Sempre doía quando ele afastava Alfred. Mas, daquela vez, era pior que das outras vezes. Ele... magoara o garoto. Queria... ajudar. Pensou se Alfred não estaria melhor sem ele. Mas agora, tinha dúvidas da própria decisão. Não era sua intenção... dizer as coisas daquele jeito. Era só que Arthur já não sabia lidar com aquela situação. Não sabia o que fazer.

Arthur subiu as escadas, trancou a porta do quarto e se jogou na cama. As lágrimas correram muito depressa pelas suas faces, mas ele continuou em silencio.

Por que aquilo estava acontecendo? Por Deus, ele só tinha dezenove anos.

Por que ele sempre fazia tudo errado?

.

O dia seguinte fora difícil. Assim que Arthur acordou e viu o outro lado da cama vazio, seu coração apertou e ele imediatamente percebeu que... a ausência de Alfred era muito pior do que ele tinha imaginado.

Desceu as escadas em silêncio e começou a fazer alguma coisa para o café da manhã. Aqueceu um pouco de leite e colocou em uma mamadeira, subindo de volta para o quarto e tirando Peter do berço.

Seu irmãozinho riu assim que o viu, e, por um momento, Arthur se esqueceu de tudo. Havia aquela risada agradável e feliz de criança, e havia aquele cheirinho de bebê, doce e suave.

Eram horas como aquelas que faziam tudo parecer valer a pena. Até mesmo as noites sem dormir não pareciam muita coisa quando ele reparava que... estava conseguindo. Mesmo que Arthur se achasse uma péssima substituição de pai, de algum jeito, ele estava conseguindo.

Em alguns minutos, a criança adormeceu em seu colo, ao que o loirinho a devolveu ao berço. Voltou à cozinha e começou a ferver um pouco de água. Uma parte usou para o seu chá e outra para fazer café. Fez sua habitual careta assim que terminou de passar o café e colocou a caneca sobre a mesa. Até que percebeu que...

Ele não tomava café. E Alfred tinha ido embora.

Arthur saiu da cozinha, as duas canecas intocadas sobre a mesa. Quando foi que ele desaprendeu a estar sozinho?

Como Alfred não voltaria para casa durante a tarde, Arthur teve de faltar às aulas do dia. Tentou terminar alguns trabalhos e estudar, mas a sua atenção não estava ali. Seus pensamentos o traíam e ele ficava revivendo a discussão da noite passada. Ficava... se lembrando de Alfred.

Arthur se afastou devagar, olhando o garoto, incrédulo.

– Você- Alfred! V-você não devia ter enfrentado os seus pais por minha causa! Saído da sua casa... – a voz do loirinho embargou enquanto ele apertava a mão do garoto. – Você tem uma família, Alfred. É importante! – Por Deus, claro que era importante. Mesmo com Elizabeth, Arthur nunca verdadeiramente superara o fato de que fora... jogado fora. Ele sempre quis uma família. E com Elizabeth aprendera o quanto aquilo era importante, especial, mesmo que não fosse perfeito. Então simplesmente não lhe entrava na cabeça que alguém deixaria algo tão precioso para trás por causa de alguém como... bem, alguém como Arthur. Depressivo, inseguro, estranho, defeituoso. Pareceu tão errado. Tão despropositado.

– Eu... – Arthur deitou a cabeça sobre o ombro de Alfred, abraçando-o com força enquanto as lágrimas caíam de seus olhos verdes em silêncio. Aquele garoto... por quê? Tão gentil consigo. Para quê? Arthur não podia entender. – Não vale a pena, Alfred. – sussurrou, ao que seus dedos seguraram o tecido da blusa do garoto com força. – Eu não valho a pena. – doeu no garoto a certeza com que Arthur dizia aquilo.

Alfred afastou-se e segurou o rosto de Arthur entre as mãos. Seus polegares tiraram as lágrimas do caminho e ele olhou no fundo daqueles espelhos esverdeados.


– Eu não vou desistir de você, Arthur. – não foi mais do que um murmúrio, mas continha mais verdade que todos os discursos que se gritavam pelo mundo. Os lábios do garoto colaram aos de Arthur por um instante, e, no seguinte, seu polegar acariciou a bochecha do loirinho. – Eu amo você, ouviu? – e ele parecia desesperado com isso. Porque amava Arthur de um tanto que não sabia mais o que fazer.



O loirinho se debruçou sobre os livros, sentindo-se um tanto... culpado. Alfred sempre dizia que o amava. Enquanto Arthur tinha mais problemas com tanta sinceridade. Podia contar nos dedos o número de vezes que dissera aquilo a ele. E... não havia motivos para hesitar tanto. Não era mentira. Arthur... o amava.



O loirinho desistiu de tentar estudar e foi dar banho no irmãozinho. Manteve-se ocupado até a noite cair e ele se ver novamente deitado sozinho naquela cama, que se tornara grande demais para que ele lembrasse como ocupá-la sozinho.



Não era mentira. Arthur... o amava. E não conseguia deixar de pensar nele.



Alfred sorriu, depositando o celular sobre a cabeceira e enlaçando a cintura de Arthur com as mãos livres. Trouxe-o um pouco mais para perto, e afundou o rosto na curva de seu pescoço, respirando fundo.



O loirinho gemeu baixo com a sensação. Sentiu quando os lábios do garoto se arrastaram sobre seu pescoço, sua bochecha, até alcançarem sua orelha. Lá, o garoto mordeu o lóbulo de leve. Então, afastou-se um pouco e levou uma mão até os cabelos de Arthur. Colocou uma mecha dourada atrás da orelha do loirinho, seus dedos tocando o metal frio do piercing que Arthur colocara recentemente.



Logo sentiu a língua do garoto enlaçando a pequena pecinha de prata, contornando-a e puxando um pouco, o que fez Arthur ser percorrido por um tentador arrepio.


Arthur sorriu um pouco, tocando de leve o piercing. É verdade... ainda lembrava de quando o colocara. Lembrava... de tanta coisa.

Alfred tirou seus óculos e os deixou sobre a mesa. Então, deu a volta no balcão da cozinha, sorrindo e puxando Arthur pela mão para cima de si, enlaçando-o pela cintura.


– Alfred, o- hnnn...- de repente os lábios do garoto estavam sobre os seus, fazendo-o estremecer com o choque térmico. A língua dele estava absurdamente mais quente que sua boca, ainda fria por causa do sorvete. Alfred sentiu o peito aquecer quando sentiu o loirinho em seus braços dar um suspiro trêmulo e apoiar as mãos em seus ombros, relaxando. Seus lábios afastaram-se milímetros, suas respirações se confundindo.



– O que te deu, hein? – murmurou Arthur,ofegando um pouco, perguntando embora ele não se importasse muito com a resposta. Já fazia muito tempo desde que Alfred tivera tempo para o loirinho. Os últimos tempos foram tão tumultuados que eles mal puderam ficar juntos...



– Te amo. – murmurou Alfred.


Arthur olhou para os olhos azuis do namorado por um segundo, então, avançou de volta os milímetros que perdera, voltando a beijar o garoto.


Remember when we started



Days when all was fun



All that we could make when life was young


(Lembra de quando nós começamos

Dias quando tudo era divertido

Tudo o que nós podíamos fazer quando éramos mais novos?)

Ele… nem se lembrava mais. Como eram aqueles dias, quando... ele tinha tudo. Daqueles momentos em que... ele tivera tudo. Talvez não tudo, mas antes de ele ter estragado a vida de Alfred. Antes de ele ter sido expulso de casa, antes de ele vir chorando até a sua casa. E... antes de Elizabeth ter partido.

Estava cansado de ter todas aquelas coisas maravilhosas apenas para perdê-las em seguida.

Now you getting older

Nohing feels the same

(Agora você está envelhecendo

E nada é como antes)

Arthur virou-se de lado e abraçou um travesseiro.

Sua cabeça estava uma bagunça. Ele voltou-se para olhar o relógio sobre a mesinha de cabeceira. Em meia hora, iria amanhecer e ele não conseguira dormir. Em algum momento, que Arthur já nem sabia determinar quando, ele desaprendera a dormir sozinho naquela cama. Ele desaprendera a chegar em casa e não ver Alfred. Desaprendera a viver com aquela sensação de... solidão.

Arthur desistiu do seu lado da cama, deitando-se sobre o travesseiro de Alfred. Sentia-se particularmente idiota por isso. Mas...

Respirou fundo, sentindo um fraco aroma do perfume do garoto. Estava cansado... Fechou os olhos e adormeceu pouco antes de amanhecer. Como sempre, seu sono não durou muito.

Mas... naqueles breves minutos, ele teve um sonho.

Era um campo aberto. Um campo muito, muito vasto, lindo, que se estendia até onde os olhos podiam alcançar e continuava. Abaixo de uma frondosa árvore, havia uma senhora sentada sobre um adorável banco de praça. Ela estava muito longe, então Arthur não conseguia vê-la muito bem. Mas... ela. Ela parecia... parecia... Não podia ser. Mas...

Por entre a brisa agradável, o loirinho se aproximou, até estar de frente com ela.

– … mãe. – foi tudo o que pôde murmurar, ao que seus olhos claros se encheram de lágrimas.

– Bom dia, Arthur. – sorriu ela.

Seus joelhos cederam e gentilmente tocaram a grama abaixo de si. Não conseguiu dizer nada a ela. Meramente deitou a cabeça sobre o colo dela e sentiu as lágrimas correram por suas faces. Tentara tanto não pensar nela. Porque ainda sentia tanta falta, ainda se sentia tão culpado...

In your heart there’s a room

Where you lock away

All the times and the things that she said…

(No seu coração, existe um lugar

Onde você esconde todos os momentos e coisas que ela disse)

– Ah, meu amor... eu sei que não é fácil. Mas não fique assim. – a voz dela estava mais suave do que ele se lembrava. Ela parecia... estar em paz. — Você precisa falar com o Alfred. Ele é um bom menino.

– Eu sei. – murmurou ele, num fiozinho de voz. – Eu sei que é. – calou-se. Sentia falta dele. Muito. – É só que... tudo foi se acumulando, as coisas não estavam dando certo e... eu não sei, a gente acabou discutindo. Eu acabei dizendo coisas que... não são verdade. Eu queria consertar as coisas, mas eu acabei só tornando tudo pior. – murmurou.

– Não é fácil se acostumar a viver com outra pessoa. – disse ela, suavemente. — Ele veio de outra casa, é natural que vocês demorem um pouco para se ajustarem. É algo que se percebe depois de casar. – riu ela. – Mas vocês precisam fazer as pazes logo. Isso não está fazendo bem para nenhum de vocês. – continuou ela, lentamente fazendo carinho nos cabelos claros do filho.

– Eu... vou falar com ele. – prometeu Arthur, muito baixo. Sentia tanta falta dela. Se ao menos... Sua respiração estremeceu e as lágrimas desceram mais depressa. Se ao menos ele não tivesse causado a morte dela.

– Eu já vou indo, Arthur. – disse ela, gentilmente tirando-o do colo dela e se levantando. — Mas não se preocupe. Tenho certeza de que vocês vão se acertar. – ela começou a se afastar e a figura dela foi se tornando cada vez mais distante.

– Espera! – gritou ele, seus olhos verdes cintilando entre lágrimas e entre remorso. Precisava... dizer a ela. Precisava... que ela o perdoasse.

– Hm? – ela se virou, com um leve sorriso em suas feições.

– Eu... – sua voz tremeu por um instante e ele respirou fundo. — ... eu quero ser perdoado.

– Por quem? – e a risada leve dela foi a última coisa que Arthur ouviu. No instante seguinte, ele estava sozinho de novo em seu quarto. Piscou algumas vezes, o sonho nítido como uma memória recente. Mas, quando ele acordou, ela não estava mais ali. Alfred não estava ao seu lado.

Arthur começou a chorar como uma criança. Não que ele fosse muito mais do que isso, de qualquer forma. Ele... Entendia. Entendia o que ela queria dizer. Não era sua mãe que precisava perdoá-lo. Ele mesmo precisava se perdoar. De certa forma… Arthur entendia. Não era culpa sua. E sua mãe nunca pensara que era.

Ele respirou fundo e uma de suas mãos afastou um pouco das lágrimas. Ela... estava certa. Quando foi que não estivera? Sorriu de lado. Precisava encarar aquilo de verdade. A morte era parte da vida. Perder Elizabeth era parte necessária de sua vida. Ela estava bem e ele precisava ficar também. Não apenas continuar a seguir em frente, mas se perdoar, de verdade. Aceitar tudo aquilo.

E... trazer Alfred de volta. Precisava dele. Mesmo que fosse para não ser perfeito, ainda queria estar ao lado dele. Era verdade que estava estragando a vida dele em muitos aspectos, mas... daria um jeito. Talvez fosse egoísmo, mas ele queria Alfred de volta.

Alcançou o celular na mesa de cabeceira e digitou rapidamente.

Alfred, volte para casa. A gente precisa conversar.

Não explicava muito, mas Arthur queria dizer algumas coisas pessoalmente. Se pudesse, iria atrás do garoto no apartamento dele, mas não podia deixar Peter sozinho.

Durante o dia, Arthur estivera muito apreensivo sobre a conversa que teria mais tarde, então, ele tentou se ocupar. Passou o dia inteiro entre seus trabalhos e cuidando do irmão. Por volta das nove da noite, ele tinha terminado dois trabalhos, revisado suas anotações e colocado Peter no berço. Restou-lhe esperar. Ele passou uma hora sentado no sofá, até a porta da sala se abrir.

Lentamente, a porta revelou um rapaz alto, de cabelos loiro caramelos um pouco desordenados. Os olhos azuis dele estavam um pouco avermelhados. Talvez ele... tivesse chorado. Alfred... era muito bonito, Arthur não podia deixar de reparar.

Seu coração falhou uma batida ao vê-lo. Faziam só alguns dias, mas parecia que não o via há uma eternidade. Realmente... não lembrava mais como era estar sem ele. Tirar Alfred de sua vida não era mais uma opção.

O garoto tirou o casaco preto e colocou-o no braço do sofá. Então, parou em frente ao loirinho, que se levantou e o encarou.

– E-eu... – não sabia bem por onde começar. Decidiu por dizer o que lhe viesse na cabeça, antes que tivesse tempo de se arrepender. — Alfred, eu sinto muito. Eu... não quis dizer aquilo. – não era verdade. Arthur sabia disso. — É só que... eu fiquei frustrado. Porque eu não conseguia resolver as coisas sozinho e acabava... jogando nas suas costas. Eu não quero ser sustentado para sempre. Eu odeio não poder resolver os meus próprios problemas e... – hesitou, mas disse. — Eu odeio como eu estraguei a sua vida. – murmurou, desviando o olhar.

O garoto suspirou, irritado.

– Sabe, Arthur, eu odeio quando você quer carregar o mundo nas suas costas e odeio como você pensa em mim como só um fardo a mais na sua vida. Sério. É irritante como você complica tudo. – desabafou, bagunçando os próprios cabelos com uma mão. — Eu posso te ajudar. E quero. Se você resolvesse todos os seus problemas sozinho, de que adianta a gente viver juntos? Você não vai ser sustentado para sempre, mas... você precisa se formar. – disse ele, um pouco melancólico. — Até um pouco... por mim. Eu gostaria de ver você se formando na faculdade.

– E-eu... Eu sinto muito, Alfred. De verdade. – seus olhos verdes embaçaram um pouco de lágrimas. A verdade era que... ele nunca teria conseguido sem Alfred. – É claro que... é da sua conta. – ele era parte da sua vida. – Eu vou me esforçar e vou me formar. E.... quero que você continue comigo. – murmurou, mortalmente embaraçado. Respirou fundo e o olhou nos olhos. – E... eu amo você. – suas faces esquentaram absurdamente, mas ele se sentiu melhor ao colocar para fora. Parecia... bem menos complicado do que na sua cabeça.

– Tudo bem. – sorriu de leve o garoto. Não sabia bem o que fazer com a sensação de alívio que se instaurou em seu peito. Arthur... ainda o amava. Talvez demorasse um pouco, mas eles dariam um jeito de se acertar. Aproximou-se e abraçou Arthur, apertando-o contra si. Sentira falta dele. Mais do que imaginava que sentiria. Afastou-se um pouco. – Mas, na próxima vez, em vez de ficar pensando em como eu me sinto ou sobre a minha vida, pergunte para mim. Você pode se achar muito esperto, Arthur, mas você não pode adivinhar como eu me sinto. – disse e havia um meio sorriso quase divertido e quase sério.

– Certo. – murmurou o loirinho, um tanto embaraçado. Seu coração parecia estupidamente leve e ele se sentia... feliz.

– Excelente! Agora que já fizemos as pazes, já podemos pular para a parte em que a gente se beija, não? – sorriu Alfred, barulhento como Arthur podia se lembrar, estragando o clima, sendo ele mesmo.

Arthur riu, e percebeu que fazia muito tempo desde a última vez que riu assim. Sentiu os dedos do garoto em sua nuca, ao que ergueu um pouco os olhos e o encontrou sorrindo, aparentemente muito feliz consigo mesmo.

Era apenas uma hipótese, mas... Arthur começava a achar que Alfred fazia algumas coisas só para fazê-lo rir.

Arthur ainda sorria um pouco quando se inclinou um pouco e se aproximou do garoto. Fitou por um momento as íris muito azuis dele, fascinado. Era tão, tão azul. Cintilava quietamente, como uma breve gota d’água. Sentiu a respiração quentinha do garoto contra a sua. Isso era tão bom. Ele já tinha se esquecido de como era aquilo. Há quanto tempo ele não beijava Alfred? Seus lábios roçaram nos dele e Arthur sentiu-se estremecer de leve. Era como levar uma descarga elétrica, cada nervo do seu corpo parecia acordado e seu coração batia com muita força. O garoto o puxou pela nuca e Arthur entreabriu os lábios, sentindo a língua do garoto enlaçar a sua devagar. Deus, como ele sentira falta daquilo. Seus lábios se moveram lentamente e ele aproveitou cada segundo daquele beijo. Gemeu de leve e se afastou um pouco, beijando a bochecha de Alfred e arrastando os lábios até o pescoço dele, depositando um beijo muito leve. Alfred riu e arrumou os óculos, que tinham saído um pouco do lugar. Arthur sorriu. Então, apoiou a cabeça sobre o ombro dele e fechou os olhos.

Seu coração estava incrivelmente leve. Era bom amar alguém. Ele quase se esquecera disso em meio à confusão da própria rotina. Alfred tinha certa razão. Às vezes, Arthur complicava coisas que eram simples. Ele respirou fundo e sentiu o perfume de Alfred. Era tão bom pensar que voltaria a dormir ao lado dele. Que poderia tê-lo a hora que quisesse.

Sentiu quando o outro também apoiou a cabeça em seu ombro, silencioso repentinamente. Estranhou um pouco.

– Alfred? – chamou. Sem resposta. Afastou-se um pouco e percebeu que ele estava dormindo. Riu consigo mesmo. Pelo visto, ele não fora o único que tivera dificuldades em dormir sozinho. Afastou a franja do garoto e beijou-lhe a testa. Era uma pena ter de acordá-lo. Mas Arthur definitivamente não conseguiria carregar Alfred escada acima.

– Eii... Alfred. Acorda. – normalmente diria alguma coisa sobre o garoto ser muito gordo para ser levado no colo escada acima, mas não teve coragem. Alfred era muito adorável dormindo. Além do mais, Arthur estava muito contente com a recente reconciliação, então resolveu se conter. No entanto, guardou a piada na cabeça para usá-la em outra oportunidade.

Alfred resmungou um pouco, mas acordou e foi levado até o quarto de mãos dadas com o loirinho. Arthur o assistiu entrar no quarto e desabar na cama. Ele esperou o loirinho apagar a luz e se deitar também para passar um braço em torno do tronco dele e adormecer em seguida.

Arthur riu um pouco e continuou a olhá-lo por alguns momentos. Havia uma réstia de luz provinda da janela, que iluminava parcamente o quarto. O loirinho afastou a franja de cabelos cor de caramelo da frente dos olhos do garoto que dormia.

Você não vai ser sustentado para sempre, mas... você precisa se formar. Até um pouco... por mim. Eu gostaria de ver você se formando na faculdade.

Era muito injusto. Alfred... ainda queria fazer faculdade. Arthur sabia disso. Mas, seria impossível sem a ajuda dos pais dele. Alfred teria que arranjar um trabalho que tivesse uma carga horária menor, ou então parar de trabalhar para estudar. Se Arthur arranjasse alguma coisa com um horário reduzido e juntasse com o tanto que Scott podia ajudá-lo... ele conseguiria pagar as próprias contas. Mas ainda faltaria um pouco para livros e outras despesas que viriam com o curso de Alfred. O que significa que os pais dele seriam as únicas pessoas que poderiam ajudá-lo.

Arthur levou os dedos até a face do garoto e fez carinho de leve sobre a bochecha macia. Conhecia Alfred. Ele era orgulhoso. Ele nunca pediria ajuda aos pais, mesmo que isso significasse desistir inteiramente daquele sonho que ele tinha.

Só que Arthur não podia desistir. Não podia assistir Alfred dando as costas para coisas tão importantes apenas para estar consigo. Não queria vê-lo se arrepender ou então passar a vida se perguntando o que teria acontecido se... as coisas fossem diferentes. Arthur era um pouco egoísta, então queria que Alfred pudesse estar ao seu lado. Não conseguira abrir mão dele, então teria de achar um jeito de fazê-lo feliz. Respirou fundo e se aconchegou na cama, chegando mais perto do garoto. Sentira muita falta disso. Fora muito ingênuo ao pensar que poderia se acostumar a não ter mais aquela pessoa na sua vida. Alfred invadira a sua vida a pontapés e se instalara de tal forma que já era impossível lembrar como era estar sem ele. Sorriu de leve. Estava um pouco mais confiante. Com facilidade, pela primeira vez em três dias, Arthur adormeceu. E com uma única certeza.

Visitaria os pais de Alfred e teria uma conversa séria com eles.



Notas finais
Bem, a música que aparece no capítulo é Red is blue, provavelmente vocês já ouviram xD É do Ben folds e não me pertence nem um pouquinho, só emprestei uns versinhos xD
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Quanto ao título, o capítulo tem relação com a letra da música xD Mas não ficaria muito bom se eu colocasse a letra aqui... Enfim, All you need is love é dos Beatles, não me pertence também.
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E eeeee olha o franadá de volta o/ Eles ganharam uma importância maior do que eu esperava inicialmente. Acho que viciei neles também xD Retomei uma parte de um capítulo anterior porque fazia muito tempo desde que eles apareceram e eu percebi que ia ficar meio... 'jogado' se eu não retomasse um pouquinho da cena anterior.
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Sinto que me esqueço de algo... enfim, se eu me lembrar, acrescento depois xD
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Muitos muitos beijos a PunkHell, Shirayuki, Ju, Yuki, Shin no tamashi, Narah, Catherine e Izziii xD por terem sido muito amáveis e deixado reviews no capítulo passado xD Muito obrigada mesmo, estou indo imediatamente respondê-los, peço mil perdões pela demora e espero que leiam esse capítulo também! Obrigada mesmo mesmo a quem ainda está aqui lendo! beijo beijo :DD