Boulevard Of Broken Dreams
24 Capítulo 24 - High Hopes
Francis estava deitado em sua cama, com os braços atrás da cabeça, fitando o teto. A noite já avançava lá fora e o cômodo estava na penumbra, mas ele não se importava muito. Estava... pensativo.
Honestamente, não estava triste. Deus sabe quantas vezes ele já tinha desejado a morte de Arthur. Claro, isso foi no passado, mas... Eles também nunca foram tão próximos assim. Deus, ele ajudara Alfred a se tornar independente por pura vingança...
Suspirou. Não odiava Arthur. Mas também não estava triste com sua morte. Chocado, sim. Era... algo como... Bem, seria estranho não ter Arthur nas reuniões, mas Francis estaria sendo hipócrita se dissesse que sentiria falta do britânico. Os assuntos entre eles geralmente giravam em torno de trabalho. Sinceramente falando, a verdade é que ele sentia que nunca conhecera Arthur de verdade como Alfred tinha conhecido.
Bem, também era verdade que Alfred nunca conhecera exatamente o quão violento Arthur podia ser. Não só com seus inimigos, como até aliados. Ele não se importara em explorar ambos. Era bem verdade que não faltava quem já tivesse sofrido para que o Império Britânico se solidificasse. Bem, no fundo, as coisas geralmente eram assim. Mesmo a ascensão dos Estados Unidos não fora de todo sutil. Era estranho observar o que se fazia para ter um pouco de poder.
Suspirou de novo. Por bem ou por mal, convivera com Arthur. Era estranho pensar nele morto. Mas... não era triste. Francis mal sabia como ele tinha morrido. Alfred fora o único presente no momento, mas não adiantara muito perguntar a ele. O garoto mais chorava que qualquer coisa, murmurando entre soluços que era culpado. Era verdade, Alfred julgava-se culpado pela morte da pessoa que ele mais amava nesse mundo. E sabia que carregaria aquilo pelo resto da vida. Depois do incidente, ele se trancara em casa e o francês não tivera mais notícias. Já faziam duas semanas...
Naquele momento, o francês não entendeu Alfred. As lágrimas dele. A melancolia e a culpa. Ele não entendeu por que o garoto chorava como se sua alma tivesse estilhaçado. Mas ele entenderia. No dia seguinte, quando a tarde morreria no horizonte, ele entenderia.
Matthew partiria com o fim da tarde. Ninguém soube o que ele pensou. Nunca se soube o que ele disse. Mas talvez ele tenha murmurado algo em francês. Ademais, foi quieto e pacífico, embora um tanto solitário. Sem dor ou estardalhaços, sem discursos ou revoluções. Matthew adormeceu quietamente e acordou do sonho da vida. Depois daquilo, foi tudo uma questão de ponto de vista. Francis enterrou o próprio coração, Alfred perdeu o irmão e Arthur ganhou uma companhia.
Após a morte de Arthur, Matthew tivera tempo para pensar. Ele era inteligente e observador, de modo que não tardou até que ele entendesse o que tinha causado a morte de Arthur. Não tardou até que ele mesmo entendesse e se libertasse da própria maldição. Os demais pareciam se dar conta aos poucos, sentindo o próprio tempo esvair.
E, uma a uma, todas as nações caíram.
Mas Alfred, não.
A morte de Arthur parecia tão sua culpa que, mesmo depois de meses, a perda ainda parecia recente. Matthew o seguiu tão rapidamente que não houve sequer tempo para que ele pudesse assimilar aquilo. E... todos os outros. Então, Alfred finalmente conheceu o que era solidão. E se isso não bastasse, a culpa ainda o remoía e seu coração parecia saber de cor todas as palavras que fizeram a vida de Arthur infeliz.
Engoliu em seco e afastou uma lágrima que descera e queimara sua face esquerda. Ele não conseguia... se libertar. Porque Alfred não podia se perdoar. Aquela dor parecia justa. Por mais que ele quisesse encontrar Arthur, ele não conseguia se convencer de que merecia. Havia uma ideia tola, mas justificável no fundo de sua mente. E se... e se Arthur fosse mais feliz longe de si?
E, como em todas as vezes em que aquela pergunta o atingia, ele alcançou o bilhete de Arthur sobre sua mesa de cabeceira.
Ninguém morre. Eu não te deixei.
Jogou-se na cama e escondeu o rosto com um dos braços, sentindo as lágrimas escorregando devagar. Claro que Arthur não o deixaria. Alfred sabia disso, confiava nisso. Mas, Deus, o que ele precisava fazer? O que faltava para que aquele tormento terminasse? A melancolia não o deixava discernir muito bem. Aquela tristeza e desistência não o permitiam ver com clareza o que ele estava fazendo de errado. Mas faltava pouco para que ele entendesse. Talvez... um breve estalo, um lapso de razão...
Suspirou e levantou-se da cama. Colocou o bilhete no bolso do casaco e saiu naquele iniciozinho de manhã. O sol amanhecia fraco e pálido, e o garoto apenas o fitou distraído enquanto ouvia as ondas batendo no cais. Era muito difícil suportar a dor da perda, mas... o mundo era bonito. A vida em si valia a pena, de um jeito estranho que nem mesmo ele soube explicar. Simplesmente, ele podia sentir que valia a pena. Em cada farfalhar do vento nas folhas, em cada suave e doce tom de verde que se confundia e formava os campos, em cada suspirar que o mar dava quando beijava a costa. Sorriu um pouco. A tristeza era profunda; mas, em algum momento, tornou-se pacífica. Alfred realmente queria mostrar a Arthur uma aurora assim.
Mas, como ele não podia, alcançou o bilhete em seu bolso e o leu outra vez.
Do not stand at my grave and weep
(Não pare em frente ao meu túmulo e chore)
I am not there. I do not sleep
(Eu não estou lá. Eu não durmo.)
I am a thousand of winds that blow
(Eu sou milhares de ventos que sopram)
I am the diamond glints on the snow
(Eu sou o cintilar de diamante sobre a neve)
I am the sunlight on ripened grain
(Eu sou a luz do sol sobre grãos prontos para colheita)
I am the gentle autumn rain
(Eu sou a gentil chuva de outono)
When you awaken in the morning’s hush
(Quando você acordar na quietude da manhã)
I am the swift uplifting rush
(Eu sou o repentino ímpeto)
Of quiet birds in circled flight
(De pássaros quietos em voo circular)
I am the soft stars that shine at night
(Eu sou as estrelas suaves que cintilam de noite)
Do not stand at my grave and cry;
(Não fique em frente ao meu túmulo e chore;)
I am not there. I did not die.
(Eu não estou lá. Eu não morri.)
Sabe, Alfred... Os cemitérios são bons de se visitar ás vezes. A quietude e a paz daquele lugar é bom para que se lembre dos que se foram. Mas você não pode se esquecer de que aquilo é só um lugar. As lápides repousam apenas sobre restos. Apenas pó, que volta ao pó, volta ao mundo. Os restos daquelas vidas se tornam vida de novo, como um rio interminável. Quem aquelas pessoas foram. Quem eu fui. Nenhum de nós fica lá. Ninguém morre. Eu não te deixei.
O garoto enxugou rapidamente as lágrimas que desceram e sorriu um pouco. É, talvez tivesse entendido o que Arthur quisera lhe dizer. Respirou fundo e encarou a rosa que trazia em uma das mãos. Guardara do enterro de Arthur sem querer, mas não conseguira se desfazer dela depois que encontrara o bilhete do loirinho sob ela. Era linda. Levemente violácea, com um cálice de verde muito profundo. Lembrava Arthur, de alguma maneira. Não era a rosa vermelha que todos esperavam. Não era cheia, mas um tanto esbelta, não era reticente, mas quase desafiadora. O garoto suspirou. Era tolo guardar aquela rosa.
— Ei, moça! — abordou uma moça qualquer. — Toma. — e deu-lhe a rosa, acenando e se afastando. Os olhos cor de mel, levemente esverdeados da moça pareceram confusos.
Alfred desceu algumas ruas, ainda segurando o bilhete de Arthur em mãos. Seria tolo guardar a rosa, ele nem sabia quando voltaria a encontrar Arthur. Assim como nunca mais veria aquela rosa, nunca mais veria Arthur? Pensou em jogar a carta fora, mas sabia que nunca seria capaz disso. Apenas decidiu por colocá-la de volta no bolso.
No entanto, quando foi guardar o bilhete no bolso novamente, percebeu algo estranho. Havia algo no verso. Parecia uma mancha de tinta, mas, olhando melhor... Bem no cantinho, em uma letra muito pequena, como se quem escreveu tivesse tido um pequeno conflito entre dizer aquilo ou não. Alfred aproximou-se bem, lendo o pequeno borrãozinho.
E faça o favor de não ser idiota. Eu... estou esperando.
O coração do garoto parou por um segundo inteiro. Algo pareceu estalar dentro de si. A realização veio súbita, como se ele já a soubesse. Sua melancolia era irresponsável. Ficar imaginando como Arthur se sentiria era tolo e egoísta. E ele passara uma vida inteira fazendo isso. Tentando adivinhar o que ele pensava, tentando imaginar o que o magoava. Fazia sentido apenas pensando no fato de que o britânico nunca dizia como se sentia. Mas Arthur mudara. Ele já conseguia ser sincero quando a situação pedia. Então, o velho hábito de tentar adivinhar o que Arthur sentia ou queria dizer era inútil e só serviria para distanciá-los se Alfred continuasse agindo daquele modo.
E, assim como o loirinho aprendera que precisava ser sincero com quem ele amava, Alfred percebeu que precisava... acreditar. Se Arthur dizia que estava tudo bem, então era porque para ele estava realmente tudo bem.
Parecia simples e idiota, mas só Deus sabia o quanto aquilo era difícil. Era difícil se livrar do próprio julgamento e ouvir o que a outra pessoa dizia. Era difícil aceitar que Arthur podia perdoá-lo, enquanto ele mesmo não podia se perdoar. Era difícil não querer se castigar quando se sabia responsável por tanta dor a quem ele tanto amava.
Mas era necessário. Alfred não entendia ainda como faria para se perdoar. Mas sabia que precisava voltar para Arthur. O caminho que se estendia à sua frente parecia imerso em penumbra, uma vez que ele não sabia para onde o levaria. Mas isso não importava. Se ele pudesse fazer Arthur sorrir outra vez e se ele pudesse se redimir por tudo... então...
— Então você já se sentiria pronto para encará-lo de novo?
Alfred ergueu o olhar e encontrou o anjo pairando a alguns metros de si. Os olhos verdes dele o observavam calmamente. Sua voz não exprimia repreensão nem pressa. Não havia maldade na expressão dele, apenas uma calma sutil e etérea, como se o tempo não lhe fizesse diferença. Seus dedos pálidos se estenderam e ele ofereceu sua mão ao garoto, que ainda o olhava sem ação, se perguntando se aquilo era mesmo verdade. Se perguntando... se era possível ele merecer consolo depois de tudo o que fizera.
— Você se saiu bem. Não é tão simples assim mudar. – a voz do anjo soou de novo, dessa vez gentil e compreensiva. Ele não estava ali para repreendê-lo, mas para guiá-lo, confortando Alfred de inseguranças que povoavam seus pensamentos, mas que ele nunca tivera coragem de verbalizar.
O garoto pareceu despertar com o tilintar grave da voz do anjo. Sua mão alcançou a dele e seus olhos fixaram-se nas íris verdes do outro.
— Isso. Olhe para mim. – o tom era suave e neutro. Não era uma ordem, mas também não parecia um pedido. Na verdade, era mais como... Alfred não conseguia desviar o olhar. A atmosfera que parecia envolver o anjo era incrivelmente plácida, ao que o garoto relaxou e respirou fundo.
Foi a última vez que respirou, no entanto.
Sentiu um impacto no peito, o ar lhe escapar, seu coração dar uma batida trôpega e logo a sensação de estar sendo atirado para trás e caindo. Mas ele não tinha caído. O anjo continuava a sua frente, exatamente no mesmo lugar. O garoto franziu o cenho e olhou para trás.
Seu próprio corpo jazia sem consciência atrás de si.
Alfred arregalou os olhos, fitando o anjo, assustado. O outro, no entanto, meramente tomou-lhe a mão e guiou-o para longe da confusão que se formava.
Arthur fechou os olhos, sentindo a agora familiar brisa que parecia respirar sempre naquele lugar. Seus cabelos agitavam-se de leve, como se até mesmo o ar fosse bondoso ali. Havia muito mais para se ver, mas nada era o que Arthur ansiava ver. Já faziam dois anos. Anos em que ele tivera medo. Medo de que Alfred tivesse desistido. Medo de que ele estivesse triste. Medo de se esquecer como o rosto dele era.
Suspirou. Seus olhos esverdeados se abriram, mas quem ele esperava não estava ali. Seu olhar percorreu o jardim vasto e farfalhante do pequeno pedaço de paraíso em que ele estava. Era temporário, porque ele ainda tinha contas a prestar na terra. As folhas sussurraram com o vento levemente mais forte do momento. Fazia sol, mas começou a cair uma chuva muito fininha, que se dourava com a luz, dando um suave tom de vida aos campos verdes. Aqui e ali havia pequenas aquarelas de flores, que não quebravam a monotonia do verde, mas, estranhamente, pareciam torná-lo mais vívido. Arthur não podia deixar de se lembrar de que havia várias coisas assim na terra. Mas ele nunca tivera interesse em parar e olhar.
Deitou-se sobre a grama, fechando os olhos.
Ouviu algo tocando o chão, aproximando-se. Não havia ameaças ali, então ele não se importou em abrir os olhos. Os passos se aproximaram e pararam ao seu lado.
E, no segundo seguinte, ele sentiu seu mundo inteiro parar.
— Hey, Arthur!
Os olhos verdes de Arthur se abriram imediatamente e focaram na imagem de Alfred, em pé ao lado de si, com um sorriso meio tolo nos lábios. O loirinho se levantou e encarou o garoto, milhares de sentimentos chocando-se contra sua mente, fazendo com que ele apenas pudesse parar e olhar.
E o jardim, tão belo e tão fascinante, não existiu para Arthur.
Os cabelos do garoto agitavam-se um pouco com o vento e seus olhos claros cintilavam uma cor vívida e clara.
— Sentiu minha falta? – perguntou o garoto, uma das mãos na nuca e um sorriso nervoso nos lábios.
Aquilo pareceu tirar Arthur de seu estupor. O loirinho caminhou decidido até Alfred, abraçando-o com força.
— Seu idiota, eu vou te bater. – murmurou, torcendo para que o tremor em sua voz passasse despercebido.
— Desculpe. – o garoto soou estranhamente mais velho, estranhamente arrependido e sério. Arthur afastou-se e olhou-o nos olhos. Alfred tinha amadurecido.
O loirinho meramente balançou a cabeça, voltando a abraçar o garoto, deitando sua cabeça sobre o ombro dele. Alfred o apertou um pouco contra si, seus dedos afundando nos cabelos claros de Arthur, puxando-o para perto, verdadeiramente agradecido por poder vê-lo de novo. Alfred não soube dizer o quão desesperada foi sua saudade. Na verdade, nem suportaria relembrar aqueles dias, não quando Arthur estava tão perto, tão ao seu alcance. Apenas prometeu a si mesmo que, daquela vez, eles conseguiriam. Daria certo, nem que Alfred tivesse que lutar com tudo o que tinha para isso. A promessa ficou guardada e protegida pelo silêncio das promessas que se faz de coração, não para provar algo a alguém, mas por ser verdadeiramente importante por si mesma.
Começou a chover com mais força, ao que o céu houvera se nublado paulatinamente. Alfred não pôde deixar de ficar contente com aqueles pequenos elementos terrenos que se preservavam naquela parte de paraíso. Ele não conseguiria se acostumar tão facilmente à ideia de um lugar atemporal e sem a natureza como ele conhecia. Arthur sabia que voltaria à vida em breve e que seria melhor não se desacostumar ao todo de como era viver aquela vida.
Qualquer que fosse o motivo, aquela chuva era deliciosa. Alfred tocou a face de Arthur, seus polegares brincando com a pele macia de sua bochecha, ao que as palmas de suas mãos o seguraram no lugar. O loirinho fechou os olhos e o garoto desistiu de resistir à ideia de beijá-lo. Sua mão rapidamente desistiu da bochecha de Arthur para segurar-lhe a nuca, entrelaçando os dedos em seus cabelos. Seus lábios tocaram e se moldaram juntos, gentilmente. O loirinho riu um pouco e Alfred acabou rindo também, interrompendo o beijo. Arthur encostou sua testa à do garoto e os dois se entreolharam.
Não havia um nome para o que havia entre eles. Oficialmente, o que dizer? Não eram namorados ainda. Não eram amantes. Alfred não saberia definir. Arthur não saberia lhe dizer. E o mais estranho de tudo é que, naquele momento em que seus olhares se cruzaram, eles não se importaram. Arthur meramente colou seus lábios aos do garoto outra vez e os dois se permitiram imaginar tudo o que eles poderiam realizar. O sonho de acordar ao lado de Arthur podia acontecer. Eles poderiam fazer passeios no fim de semana. E onde eles trabalhariam? Como eles iriam se encontrar daquela vez? O que aconteceria dali em diante?
Alfred se afastou, respirando fundo, como que repentinamente empolgado de novo com tudo. Sentia-se levemente eufórico, como se seu coração quisesse sair e correr em disparada para qualquer lugar. Aquela euforia se tornou um sorriso largo, dos favoritos de Arthur.
Decidiram caminhar por aqueles campos, ao que o loirinho contava algumas pequenas coisas sobre a paisagem. Alfred desistira de prestar atenção no assunto depois de alguns minutos, decidindo que era muito melhor apenas observar as expressões que Arthur fazia. Toda vez que ele notava sua desatenção, dava-lhe um beliscão e reclamava, ou um soco em seu ombro e reclamava, mas Alfred sinceramente não se importava. A briga boba só terminou quando Arthur avistou um rapaz baixo de cabelos muito pretos abaixo de uma árvore. Kiku acenou de leve, ao que Arthur retribuiu, soltando a mão de Alfred rapidamente. O loirinho nem se lembrava quando foi que tinha dado as mãos com o garoto, mas decidiu deixar por isso mesmo. O garoto, no entanto, voltou a entrelaçar sua mão na de Arthur, alheio a todo e qualquer protesto. No entanto, uma pergunta lhe ocorreu e intrigou, ao que ele ficou sério.
— Ei, Arthur... Se o Honda está aqui... então todo mundo está aqui também? – o loirinho parou e pesou a questão, olhando nos olhos do garoto.
— Na verdade... não exatamente. Alguns já voltaram. – murmurou, desviando o olhar. O garoto apertou a mão de Arthur com um pouquinho mais de força, ao que o loirinho soube que ele tinha entendido. Arthur realmente estivera esperando.
— Bem, e agora eu acho que nós já podemos voltar. – disse Arthur, um tanto animado, ainda que temeroso e ansioso com a perspectiva.
Brittania vinha se aproximando dos dois, caminhando suavemente sobre os campos. Seus passos não eram mais que um sussurro.
— Então? – foi a pergunta. Simples e leve. Quase casual se não fosse a importância que ela tinha.
— Nós... já podemos voltar? – murmurou Arthur, apertando um pouquinho a mão de Alfred.
— Se vocês se sentirem prontos, sim. – ele puxou um pequeno pedaço de papel e o examinou. – Por exemplo... você, Arthur, deve nascer em alguns minutos. Melhor se apressar. – disse sorrindo, parecendo contente. – Como seu anjo da guarda, eu desço um pouco depois e fico com você 24 horas até que você tenha completado oito anos. Depois disso, eu te visito algumas vezes por dia, mas o restante eu resolvo daqui de cima. – seu tom não era exasperado e ele não parecia nem um pouco irritado com o trabalho contínuo. Sua expressão ainda era calma e pacífica. — Quando estiver pronto, me procure, eu estarei esperando, certo? – dito isso, guardou o papel e sumiu em um piscar de olhos.
— De algum jeito... eu estou nervoso. – murmurou Arthur.
Alfred permaneceu pensativo por vários minutos. Sua expressão foi séria, então melancólica, e, por último, resoluta. Ele sorriu e apertou a mão de Arthur. – Melhor a gente ir.
Arthur sentiu-se um pouquinho mais encorajado e se encaminhou para encontrar o anjo.
Ele se encontrava em uma imensidão azul aberta, seus pés tocando uma superfície translúcida, como uma lâmina de vidro. Havia um grande portão em que ele se encostava, ainda fitando o papel, concentrado.
Arthur continuou andando, mas Alfred parou e a mão dele escapou da do loirinho.
-Alfred?
Alfred estava parado, com as mãos nos bolsos, apenas olhando-o com um meio sorriso terno.
- Você não vem?
O garoto apenas balançou a cabeça, afastando-se um passo, ainda olhando nos olhos do loirinho.
Arthur franziu o cenho e andou até Alfred, tomando uma de suas mãos.
- Por que?
- Eu... eu vou ficar alguns anos aqui. – sua voz não hesitou e era estranho vê-lo tão sério. — Mas você precisa ir.
- Por que eu iria? – o tom de Arthur estremeceu um pouco. Por uma fração de segundo, ele temeu a resposta. Sentiu sua garganta trancar quando o garoto ficou em silêncio por um longo momento, até decidir contar-lhe a verdade.
- Por que lá embaixo não é lugar para você.
- O que? – os olhos claros de Arthur refletiram toda a sua confusão, e ele tentou achar algo que justificasse algo tão sem sentido. — Alfred, por que? E-eu achei que... achei que...
- Que Deus me perdoaria? – o garoto deu um meio sorriso. — Ele me perdoou.
- Então-
- Mas eu não consigo me perdoar. – sua voz interrompeu a de Arthur, com uma confissão sincera. — Não agora. Por isso eu decidi ficar.
- Alf-
- Arthur. – o tempo era tão curto... então, ele precisava dizer o essencial antes que o tempo acabasse. — Quando você for, eu quero que você me esqueça.
- O que?
- Talvez... minha alma seja destruída no processo. Então pode ser que a gente nunca mais se veja. – segurou Arthur pelos ombros e o olhou nos olhos. — Por isso... talvez, lembrar de mim se torne algo extremamente doloroso para você. – virou-o de costas, em direção ao caminho que ele deveria seguir. – quando você se virar de novo, eu já não vou estar aqui. Quando isso acontecer, eu quero que você me esqueça, tudo bem?
- Mas Alfred, por quê? – ele não queria se separar do garoto. Não de novo. E não sabendo que ele sofreria ainda mais. Sua voz quebrou e ele se sentia prestes a chorar. Alfred beijou-lhe a bochecha. — E se-
- Shh... eu amo você. – murmurou Alfred, como se isso explicasse tudo. Bem, porque, no fundo, explicava.
Porque alguns amores simplesmente eram assim. Existia um tipo de amor que acontece apenas uma vez em toda uma existência. Talvez Arthur não fosse a única pessoa no mundo que gostaria de Alfred. Mas com certeza ele era a única pessoa que o amava daquele jeito. Assim como, com certeza, Alfred era a única pessoa que reconheceria Arthur em qualquer lugar, sob qualquer aparência, qualquer que fosse a época. Talvez, inicialmente, tivessem mesmo existido almas únicas que acabaram sendo partidas em duas e vivessem a eternidade uma atrás de outra. E talvez seja por isso que elas parecem se reconhecer.
Não era um namoro de infância. Não era um encontro casual em uma sexta-feira. Não era uma aventura de fim de semana. Não era um sonho em uma noite de verão.
Bem ali, Arthur soube, assim como Alfred o soube, que eles só amariam daquele jeito uma vez. Exatamente ali, quando seus caminhos partiram novamente, Arthur sabia que procuraria Alfred o tempo que fosse preciso. Exatamente ali, ao ver Arthur dar as costas, Alfred soube que estava apenas começando. Por mais que ambos já tivessem errado e se desencontrado infinitas vezes, havia sim algo que sempre os traria juntos. Dizem alguns que era a força de vontade. Dizem outros que tudo é uma sucessão de coincidências.
O loirinho fechou os olhos. Quando se virou novamente, Alfred não estava mais lá. Respirou fundo e seguiu em frente.
Se Arthur podia acreditar que inevitavelmente reencontraria Alfred, então ele não se importaria de acreditar em destino. Houve um pequeno sorriso em seus lábios. O cenário se dissolveu à sua frente, ao mesmo tempo em que suas lembranças gradualmente foram se diluindo.
Brittania olhou para trás antes de acompanhar seu protegido. Seu olhar se recaiu sobre a figura de Matthew, que vinha se aproximando, atraído pelas vozes. O anjo olhou no fundo dos olhos levemente violáceos do rapaz e suspirou.
- Arrependido por não ter dado a ele outra chance? – perguntou-lhe o anjo que, mesmo apressado, não conseguiria negar ajuda a ninguém.
- E-eu... – o canadense desviou o olhar. Sequer tinha ido se despedir quando Francis fora embora dali e voltara à Terra. Respirou fundo. – Eu dei outra chance. Ele me disse que ia me provar. Que ia fazer tudo diferente se tivesse a oportunidade. – seu sussurro era quase imperceptível. – Embora eu não saiba o que ele possa fazer para que eu volte a acreditar que ele se importa com qualquer coisa que não seja a aparência. – havia mágoa em seu tom, mas também havia algo que denunciava o quanto ele sentia falta do outro, o quanto o amava, mesmo sem que ele provasse coisa alguma.
Para sua surpresa, o anjo sorriu.
— Ah, você se surpreenderia se soubesse até onde ele vai chegar por você. – antes que Matthew pudesse pedir alguma explicação, o anjo foi atrás de seu protegido, deixando o jovem canadense cheio de dúvidas.
Notas finais
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Bem, considerações! O título desse cap é High Hopes, inspirado na música de pink floyd. É linda xD mas a letra não cabia tanto nesse capítulo. Mas como título caiu como uma luva.
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Bom, agora estamos entrando em uma outra fase da história, como voces devem estar observando. Espero que vocês não tenham achado o capítulo chato T3T Foi meio de transição e tudo, meio chatinho, mas vejam com os olhos do coração, tá? xDD
. Bem, estou escrevendo uns capítulos a frente e planejando algumas coisas. Eu tava querendo por vários lemons usuk, mas não sei, pode ser que assim a historia fique meio grande e voces fiquem de saco cheio xD Enfim, me digam aí o que acham! xD
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Sinto que estou esquecendo de algo ( como sempre ) xD Enfim, se eu me lembrar eu acrescento! Beijos muito especiais a Labi, Akimi, bia, odango, ju, carol, neko, cath, tiia, shirayuki e lirium! Mil perdões mesmo pela demora! Beijo, beijo!
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