Boulevard Of Broken Dreams

20 Capítulo 20 - O Diabo


Notas iniciais
Apenas para que vocês entendam: O capítulo passado foi o que aconteceu, mais focado no ponto de vista do Arthur, do pós-guerra até 1972. Este conta o que aconteceu, mais focado no ponto de vista do Alfred, do pós guerra até 1994.

1946 – Discurso da cortina de ferro


América assistia, de braços cruzados, o discurso do primeiro ministro britânico. Era bem verdade o que ele dizia. Era como se uma cortina de ferro separasse agora a Europa. Polônia, Hungria... vários países do leste europeu que agora estavam sob influência soviética.


Era isso que restara da segunda guerra. Ivan passara libertando vários países do domínio alemão e esses países adotaram o socialismo. O garoto suspirou longamente. Precisava voltar para casa e resolver o seu trabalho.

América não era como Alfred. Ele vivia para aqueles documentos. Seus chefes o adoravam, porque ele nunca questionava coisa alguma. Enquanto a maioria pensasse que o que eles faziam era certo, não haveria discussão. Se fosse do interesse do governo, ele faria qualquer coisa, sem crises de consciência ou debates sociológicos.


Na reunião seguinte, ele anunciou os projetos para o financiamento da reconstrução da europa.


– Bom, essas são as pautas... – disse vagamente, passando os papéis entre os demais da mesa enquanto dava um gole na sua coca-cola. – Eu, muito heroicamente, irei ajudar a reconstruir o que aquela guerra destruiu. – disse rindo um pouco enquanto fazia uma expressão inocente.

Os demais países se entreolharam, mas nada disseram. Ninguém ali era ingênuo o suficiente para pensar que os Estados Unidos iam financiar a reconstrução de seus países por simples bondade e caridade. O ano era 1947 e a doutrina Truman nascera. O objetivo era impedir o avanço do socialismo pelo mundo e os planos Marshall e Colombo eram a ferramenta econômica para garantir o apoio da Europa e do Japão, respectivamente.

– Ahh, que pena, América... – a voz de Ivan fez-se ouvir e todos chegaram a prender a respiração diante do olhar que ele lançou ao americano. – Eu não acho que todos nós vamos precisar disso, não é mesmo? Afinal, para alguns de nós, você não nos salvou, não é? Lembro de ter pedido para que você abrisse uma frente de batalha perto de nós, mais ao leste da Europa... Mas você não veio.

O americano engoliu em seco, ainda mantendo seu olhar cravado no outro, nenhum dos dois desviando o olhar.

– Por que será, não é? Afinal, o herói do mundo quer salvar a todos não é? – o sorriso do soviético veio gentil. Obviamente os Estados Unidos tinham desejado que a União e a Alemanha se enfraquecessem lutando uma contra a outra, para que então os americanos pudessem se aproveitar disso. No entanto, ao que parece, América não esperava que Ivan fosse vencer e suas tropas fossem avançar da Rússia até a Alemanha. – Ainda bem que tudo deu certo, no final, não é? – seu sorriso veio ainda mais doce, ao passo que ele se levantou da mesa. Aquilo fora mera provocação, afinal, não era como se aqueles planos fossem ser aplicados na área soviética.

Ainda que a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética tivesse se intensificado, eles ainda se encontravam na sala de conferências. A tensão crescia e o restante do mundo apenas observava. Havia certo mal estar geral, mas ninguém quebrou o silêncio.


América voltava para casa geralmente tarde da noite, fazia um café e voltava para os seus papéis. Não havia evidências visíveis da casa que Alfred costumava manter. As revistinhas ainda eram compradas regurlarmente, mas não eram lidas, apenas deixadas em um canto, empilhadas. A residência contava com vários equipamentos, que era renovados sem necessidade, no ápice do que poderia se chamar de american way of life.


Não havia visitas, não havia amigos. Seus papéis lhe contavam sobre informações que o mundo nunca saberia. Em 1948, Berlim fora bloqueada, separando o lado socialista do capitalista. Os Estados Unidos passaram a investir dinheiro em certos pontos estratégicos, para que se tornassem vitrines capitalistas. As reuniões prosseguiam, cada dia mais tensas.

Por mais estranho que parecesse, ainda havia algo de agradável nas conferências. Inglaterra... Ele era agradável. América lhe era simpático, afinal, ele era um aliado e, geralmente, ficava do lado americano. O relacionamento especial entre eles funcionava bem em termos de países, mas funcionava bem em termos pessoais também. América não gostava de Arthur, mas também não... conseguia exatamente fazer-lhe mal. Os sentimentos de Alfred eram sinceros a tal ponto, que, independentemente se consciente ou não, eles se manisfestavam. Mesmo que o garoto não mais respondesse por si, ele amava Arthur. E mesmo América não conseguira ignorar totalmente aquilo, por ser verdade demais, por ser profundo demais.

Alfred podia ser idiota e egoísta, às vezes. Podia ser barulhento e horrível em interpretar situações sutis. Era um desastre em geografia, tinha uma dieta horrível, sabia ser infantil e mimado. Mas ele amava Arthur. Como mais ninguém no mundo conseguiria amar. Por aquele loirinho problemático, ele faria qualquer coisa. Por um único sorriso daquela pessoa, Alfred trocaria o mundo inteiro. Amar tão profundamente alguém era algo que mudava uma pessoa. Arthur inspirava o melhor de si. Todo o seu lado protetor, todas as suas melhores palavras gentis, os seus gestos mais cuidadosos, seus olhares mais perdidos. Tudo pertencia a um loirinho mal-humorado e com sérias tendências ao alcoolismo.


Se havia mesmo um cupido, ele deveria estar se divertindo muito a uma altura daquelas.



América olhou pensativamente para o rapaz loiro que ocupava a cadeira do Reino Unido. Ele era um tanto... apagado com aquelas roupas. Aquele cabelo de cor um pouco arenosa. Entediou-se de olhar para Arthur, façanha que Alfred nunca teria conseguido, decidindo por olhar pela janela por alguns momentos. Ao longe, ele pode ver um parque, onde vários casais traziam crianças, que faziam enorme estardalhaço naquela tarde de sol.


Era engraçado. A geopolítica andava uma bagunça, o serviço secreto ativo como nunca, espionagens, armadilhas, fachadas... E fazia um lindo dia de sol. Havia milhares de pessoas que não faziam ideia do que acontecia. Ou do que aconteceria.


1950- 1953 – Guerra da Coreia



América checou os papéis sobre sua mesa. A guerra ficara sem vencedores. Mesmo Arthur o tendo apoiado, o único fim de tudo aquilo fora um cessar fogo. A Coreia continuava dividida entre Norte e Sul e assim permaneceria mesmo depois da guerra fria. Mesmo depois da morte de três milhões e meio de pessoas, o paralelo de 38º norte ainda era a linha que dividia a Coreia.


Politicamente, fazia pouca diferença aquelas três milhões de mortes. Os campos de concentração. Mesmo para a opinião pública. Poucos realmente entendiam. Afinal, o que eram três milhões e meio de mortes? Era só um número, que alguns ficaram sabendo. Mas eram mortes anônimas, em uma terra muito distante.

América suspirou, engavetando os papéis. O que importava era que nem ele nem Ivan conseguiram unificar aquele país sob o seu regime. A tensão continuaria. As guerras continuariam. O mundo ainda andaria muitos anos em um equilíbrio muito suave entre duas potências.


1961 – Tentativa de invasão da baía dos portos.



Mas foi poucos anos depois que o mundo conheceu o auge da guerra fria. Quando mesmo os mais desatentos temeram uma guerra nuclear. A crise dos mísseis em Cuba.


Alfred nunca fora algo que se podia chamar de... amigo de Cuba. Lá havia um governo corrupto e fantoche dos Estados Unidos, que era permissivo em relação à exploração de recursos. No entanto, houvera uma revolução e, muito para o desgosto do América, subira um outro líder ao poder.

Líder esse que não era tão pró-americano assim. Portanto, um líder que o América queria fora da sua vida. Foi assim que houve uma tentativa de invasão à baía dos portos. Tentativa.

Afinal, era uma época interessante. Se os Estados Unidos eram o seu inimigo, havia alguém muito disposto a ser seu amigo. União Soviética, Ivan Braginski... Rapaz alto, de olhos num tom muito misterioso de azul cobalto. O único que realmente peitara Alfred F Jones de frente. O serviço secreto da União Soviética, KGB, na época, informara o senhor Fidel sobre o plano de invasão. Não muito feliz com a manobra americana, Cuba se alinha à União Soviética e abraça o socialismo. Até aí era apenas um erro americano.

O problema mesmo fora quando Ivan resolvera construir uma base de mísseis em Cuba, bem perto dos Estados Unidos. América ficara possesso e ordenara o bloqueio naval à Cuba.

Bem nesse momento o equilíbrio entre as duas superpotências mundiais ameaçou romper-se. A guerra fria ameaçou terminar e o mundo quase assistiu uma guerra nuclear. A guerra era fria e nunca houvera enfrentamento direto entre Estados Unidos e União Soviética. Se Ivan furasse o bloqueio ou se Alfred atacasse antes. Tudo convergiria para um embate direto entre os dois.

Fora naquele dia que Arthur assistira uma épica batalha de xadrez entre os dois. No entanto, nenhum dos dois levou a disputa até o final. Ambos recuaram e evitaram a guerra nuclear, prolongando a tensão, mas evitando o confronto direto.


Matthew abraçava seu pequeno urso branco, um tanto nervoso na sala de conferências. América desenvolvera o péssimo costume de mandar passar aviões militares sobre a União Soviética, que, em represália, já andara passeando sobre o espaço aéreo canadense, em ameaça a seu ilustre vizinho.


Francis não se demonstrava muito contente em ter de ser protegido nuclearmente por Alfred, o que levaria à sua saída da OTAN e o desenvolvimento de um projeto nuclear francês independente.


Já Ivan sorria. Alfred andava um tanto inconveniente com seu serviço secreto sempre atrás do soviético, com seus aviões ameaçando o espaço aéreo... Claro, a União desenvolve um caça para abater aquele tipo de inconveniente, mas isso não impedia Ivan de mostrar ao americano um pouquinho do... charme da KGB.


Alfred era importante demais para simplesmente ordenar que sumissem com ele. Ou que tentassem dar uma surra nele. Não, América precisava de um tratamento diferenciado...


– Hey, cadê meus papéis? – o garoto revirou a mesa toda, mas nenhum sinal dos seus projetos. Virou-se para um funcionário. – Onde estão meus papéis?


– O senhor esqueceu. – respondeu outro atendente, encolhendo-se um pouco.

– Não, eles estavam bem aqui! – insistiu. Sinceramente, ele tinha certeza absoluta de que colocara os projetos ali.

– Não, senhor, o senhor chegou sem seus papéis... – e ambos olharam-no como se temessem que o garoto tivesse enlouquecido.

– Não, eu tenho certeza que trouxe! – exaltou-se, um olhar um tanto ensandecido.

– Er... desculpe América, mas... o senhor chegou sem nada... – murmurou a copeira, também fitando-o como se ele tivesse ficado louco.

– É... pode ser... – murmurou América, confuso. Eram tantas testemunhas. O mais lógico era que ele tivesse mesmo se confundido...


No entanto, a cena foi se repetindo. Encomendas chegavam à sua casa, sem que ele houvesse pedido. Pessoas confirmavam sua presença em lugares que ele não havia ido. Papéis sumiam, coisas mudavam de lugar sem que ninguém mexesse nelas. E sempre havia inúmeras testemunhas oculares.


Foi assim que América começou a duvidar de sua sanidade mental. Não era possível. Pessoas próximas, leais e confiáveis lhe confirmavam que ele estivera em lugares que ele tinha certeza de que não estivera. Confirmavam que ele havia dito coisas que ele tinha certeza que não dissera.

Pouco a pouco, sutilmente, a dúvida se instalara em sua mente. Estaria ele ficando louco? Ou pior... Sendo vigiado? Mas... podia ser qualquer um. Se pessoas conhecidas e confiáveis podiam mentir para si...


– Olá Inglaterra... – disse ao britânico, que também seguia pelo corredor até a sala de conferências.


– Er... bom dia, América. – o garoto parecia mentalmente instável, então Arthur tentou encontrar um assunto comum e corriqueiro para quebrar um pouco do clima desagradável. – Ahn... gostei da camisa nova. – olhou brevemente para a roupa, notando a gola um pouco diferente.

Alfred, no entanto, parou e segurou-o pelos ombros, a voz desconcertada e urgente.

– Como você sabe?

– O quê? – a pergunta foi tola, mas Arthur estava tão estupefato que nada mais lhe ocorreu. Sentiu o garoto ficar ainda mais nervoso, agarrando a gola de seu terno e jogando-o contra a parede.

– Eu ganhei essa camisa ontem. Como você pode saber que ela é nova?

– Ahnn... ela é diferente das outras, só isso. – respondeu Arthur, ainda sem ação.

– Como você sabe? Você nunca viu todas as roupas que eu tenho. Essa poderia ser só uma que eu nunca usei na sua frente. Como você podia saber que ela é nova?

Arthur calou-se diante do olhar um tanto insano do garoto. Fazia sentido o que ele dizia, mas...

– Eu não... quero dizer, eu... – o britânico tentou empurrar o garoto, ainda confuso.

– Você. Você está me vigiando! — a realização iluminou o rosto do americano, mas seus olhos continuavam turvos.

– O que?! – os olhos claros de Arthur arregalaram e ele tentou se desvencilhar do outro.

– Você está com eles. Você está do lado do Ivan, não está? Você vai me trair, Inglaterra? – as mãos do garoto lentamente fecharam sobre a garganta do britânico, que deu um impulso violento e o empurrou com toda a força que tinha.

– Você enlouqueceu. – concluiu Arthur, segurando a própria garganta dolorida enquanto olhava para o outro em total descrença. – Você ficou completamente louco. – concluiu, saindo a passos largos. Tentou esquecer aquele episódio com todas as suas forças. Mas restara a dúvida... Alfred era um assassino? Foi para a sala de reuniões correndo, ainda que estivesse com febre há dois dias. A reunião se passou sem que ele realmente prestasse atenção nela. Seu coração estava uma bagunça e continuaria uma bagunça até que ele encontrasse Alfred em sua casa naquela noite, com ajuda do seu anjo da guarda.


Mas enquanto isso não acontecia, a reunião continuara e América voltara para sua casa. Fechou a porta atrás de si com certo alívio, tentando normalizar a respiração. Ele vivia com a sensação de que havia alguém o perseguindo.


Alguém bateu à sua porta e, com um olhar instável e descontrolado, ele atendeu.

– Chegou seu novo cortador de grama, senhor! – informou o funcionário.

– Eu não pedi nada.

– Mas, senhor! Aqui o comprovante da sua compra! – passou-lhe alguns papéis. – Tenho até a sua assinatura! Ligamos para o senhor na semana passada e o senhor confirmou tudo. – olhou-o um tanto preocupado. – o senhor está meio pálido, se sente mal?

– VAI EMBORA! – a porta foi fechada com um solavanco e o funcionário ficou a encarar a madeira, sem entender muita coisa.

América deixou-se encostar à porta e escorregar lentamente até o chão, segurando os próprios cabelos com força. O telefone tocava o dia inteiro sobre viagens que ele teoricamente havia comprado, pessoas que ele conhecia lhe contando sobre coisas que ele nunca havia feito.

Uma pequena carta foi passada pelo vão da porta. Com os dedos trêmulos, América violou o envelope.


Você está louco, América.



Perturbado e trêmulo, o rapaz rasgou o bilhete em pedacinhos, enquanto tentava respirar. Sua garganta trancava, ele estava hiperventilando, não conseguia dormir há dias, então estava confuso e desnorteado. O telefone não parava de tocar, sua caixa de correio estava entupida, sua casa estava uma bagunça.


Apenas um pouco do charme do Comitê de Desacreditação da KGB.



Brittania conversava com Arthur naquele momento, mas, mesmo ele, sentira o desequilíbrio na mente de Alfred, que era tão ligada ao seu protegido. Quando sentiu que América havia realmente perdido o controle, o anjo concentrou-se, fazendo-o perder os sentidos. Se ele continuasse daquela forma, o dano à mente do garoto seria irreversível. Então, o anjo retirara a impressão da alma de Alfred, deixando para trás pouco mais que uma marionete.


E Arthur vira seu garoto outra vez. Não lhe disse nada, no entanto, como sempre. Adiou sua sinceridade. Adiou seus sentimentos. Tentou proteger o próprio coração, evitando expô-lo outra vez.

Mas, secretamente, descobriu-se amando aquele garoto ainda mais.



– Bem vindo ao Mercado Comum Europeu, Arthur. – Ludwig sorriu e apertou sua mão.



Era 1973 e, finalmente, o chefe da França caiu e o Reino Unido foi aceito no bloco econômico. Naquele mesmo ano, entraram a Dinamarca e a Irlanda. A Europa aos poucos ia se unindo, tentando contornar diferenças e sobreviver no mundo bipolar.


Arthur recebeu uma taça de champagne que um garçom lhe ofereceu, sorvendo-a distraidamente. A sensação levemente espumosa em sua boca assim como o sabor doce, azedinho no final, invadiu-lhe os sentidos. Ludwig acompanhou-o educadamente, observando, de longe, Feliciano a saborear uma taça de vinho lambrusco.

Francis aproximou-se dos dois, com uma taça de vinho moscatel na mão.

– Cavalheiros... – cumprimentou, com um aceno de cabeça. – Aliás, Ludwig, o Lovino está atrás de você, algo sobre você ficar encarando o irmão dele. – informou, ao que o alemão seguiu o olhar dele, encontrando um italiano furioso consigo.

– Er... eu vou lá.. – murmurou, levemente contrariado.

– Aliás, Arthur... Bem vindo ao Mercado Comum Europeu. – disse, oferecendo a mão. Arthur apertou-a rapidamente, ao que o francês continuou a falar. – Vamos tentar nos aturar, certo? – disse, com um suspiro. – Só peço que você não deixe os seus sentimentos interferirem no seu trabalho. – disse seriamente.

– Quando foi que meus sentimentos atrapalharam meu trabalho? – disse Arthur com certo desdém, mas incomodado. Detestava como Francis se intrometia em seus assuntos pessoais.

– Você sabe do que eu estou falando. – o tom foi sério e os dois se calaram. O francês queria aquele projeto dando certo e não confiava em Arthur. Sem contar que, por mais que estivesse tentando superar as diferenças, o britânico ainda era quem havia tirado Matthew de si, ao menos em sua visão. O francês invejava a proximidade que existia entre o canadense e Arthur. – Alfred não precisa de qualquer ajuda que você pense em dar.

– Eu não tenho sentimentos por ele além de trabalho, não se preocupe. – a voz veio monótona e o francês teve dúvidas se deveria acreditar inteiramente no que Arthur dizia. Ao mesmo tempo, achou melhor não dizer nada. Se Arthur estivesse falando a verdade, Alfred sofreria se soubesse.

– Certo... – terminou por dizer, suspirando. – Agora me dê licença, vou engrandecer a festa com minha maravilhosa presença. – disse acenando e sorrindo, indo em direção ao centro do salão.

– Isso, vai embora! Aproveita e corta essa sua barbicha ridícula. – disse Arthur, rindo por trás do cristal da taça.

Francis fez-lhe um sinal obsceno, rindo.

Arthur deu de ombros, divertido. Não era como se ele fosse de uma hora para outra ficar amiguinho de todos os outros países. Não era nem como se ele quisesse. Arthur não gostava de aglomerações e não tinha interesse em particular acerca de nenhum indivíduo ali. No entanto, era um certo alívio que a Europa estivesse tentando parar com as guerras e rixas constantes. Arthur mesmo, particularmente, ainda olhava Ludwig com certa cautela, mas tentava mudar isso. Eles podiam se dar bem, se se esforçassem. Não haviam conseguido na primeira guerra? Não comemoraram o natal juntos? Podiam conviver no mesmo continente sem se matarem.

Arthur deixou a comemoração cedo, sem muito ânimo para permanecer a noite toda. Estava cansado e não havia quem quisesse conversar com ele, de modo que ele saiu cedo sem se despedir de ninguém.

Voltar para sua casa vazia pareceu-lhe pouco convidativo, no entanto. Ao sair do prédio, seus pés se perderam entre as pedras das antigas ruas de seu país, que ele conhecia tão bem. O vento noturno era fresco e agradável. Havia certo conforto em caminhar sozinho, podendo perder-se em seus pensamentos.

Seus olhos se detiveram em um pequeno bar, aberto recentemente. Uma bebida era bem vinda... Para distrair de suas dúvidas, aquecer os ossos e atiçar o paladar.

Ao abrir a porta, o barulho inundou sua mente. Havia uma banda tocando ao vivo algumas músicas celtas e escocesas, enquanto a plateia ria e bebia.

Havia alguém conhecido no palco, entretanto. Os cabelos de um tom vivído e exótico, como se estivessem em chamas. Os olhos azulados como as montanhosas terras da Escócia.

Scott sorria, alto e charmoso entre as pessoas. Ele ainda vinha alegre quando se aproximou do bar e pediu um whysky. Pareceu notar o olhar de alguém sobre si, pois virou-se para encarar Arthur de volta. Então, seu sorriso escorregou e ele ficou sério. Triste, até.

– Hey... – disse baixo, pegando o copo que o garçom lhe passava.

– Olá, Scott... – murmurou Arthur, um tanto incerto sobre como agir perto do outro. O loirinho não fora algo que se poderia chamar de irmão exemplar nos últimos anos. Certo, Scott não era exemplar. Mas Arthur não colaborara.

– Que cara é essa, pirralho? – a voz um tanto mais grave do mais velho soou um tanto séria, ainda que displicente. Um meio sorriso perpassou suas feições e ele deu um trago no cigarro. – Você está com uma cara pior do que a de sempre.

– ... – Arthur viu-se incapaz de responder alguma coisa. Era estranho como Scott sabia que ele não estava bem. Seu espanto transpareceu em seus olhos claros, ao que seu irmão riu um pouco.

– Você tirou um pouco de tudo que eu tinha. Eu era livre. Eu tinha o meu orgulho. Mas você me obrigou a baixar a cabeça para você e sua rainha. O símbolo do Reino Unido deixou bem claro para mim o que eu sou. A minha bandeira fica embaixo da sua. Nós não somos uma família. – houve uma pausa e Scott jogou um pouco da franja carmim para trás. – Mas eu ainda conheço você. Eu sei quando você briga com aquele almofadinha do América. – dessa vez o riso veio um pouco mais claro, uma vez que Arthur fizera o favor de corar, em algo que se poderia chamar de “se entregar de bandeja”

– N-não tem graça, Scott. — ao contrário do que o loirinho dizia, seu irmão achara muita graça. — E nós não brigamos! E ele não tem nada a ver comigo!

– Certo, certo... — o mais velho balançou a cabeça. Será que Arthur realmente achava que enganava alguém quando agia assim?

Houve silêncio entre eles, mas não fora algo em todo desagradável. Havia sim certo distanciamento. Havia sim mágoas e um passado que nenhum dos dois podia apagar. Mas, naquele momento, longe de reuniões e documentos, os dois perceberam-se... mais próximos. Tanto que, um tanto hesitante, Arthur dividiu algo que vinha incomodando-o...

– Hey, Scott... — seu tom também hesitou, de modo que ele tentou parecer displiscente, como se o assunto não fosse importante.

– Quê? — atendeu o outro, distraidamente fumando seu cigarro.

– Você... — como ele deveria perguntar aquilo? — Você... já se apaixonou por alguém?

– O quê?! — Scott fora pego de surpresa de tal maneira que derrubara seu whysky na mesa. Suas mãos agarraram o ombro do irmão mais novo, apertando nervosamente. — Arthur, pelo amor de Deus. Você não está apaixonado pelo América, está? — seus olhos azulados fixaram-se no loirinho, temerosos.

–C-claro que não! — os olhos verdes desviaram-se, sentindo a pressão que Scott colocava para que ele dissesse a verdae.

– Arthur, isso é sério. — notou a hesitação, soltando um pouco o ombro do irmão. — Não minta pra mim.

– Eu já disse que não... — Arthur respondeu com mais firmeza. É, realmente. Não era de todo mentira... Alfred era uma coisa, América era uma outra história...

O mais velho não pareceu muito convencido, mas voltou a virar-se para frente e tragar seu cigarro, pensativamente.

“Escuta, pirralho. – disse Scott dando uma tragada em seu cigarro, soprando a fumaça sobre o rosto de Arthur – Eu vou te dar um único conselho. Sobreviva. Não se apegue. Senão, você perde.”

O conselho talvez fosse amargo, mas a vida não era exatamente doce para o rapaz ruivo. Era o que ele aprendera e era o que ele tentava ensinar. Ao seu modo, ele se preocupava. Apesar das mágoas, ele sentia que... talvez... ele e Arthur pudessem se dar bem.

Arthur assentiu. Quando Scott atendeu ao chamado de um amigo, do outro lado do bar, o loirinho aproveitou e saiu dali com certa pressa, sem realmente enxergar o caminho por onde ia. Precisava ir para casa e se afundar no próprio trabalho. Senão, teria de enfrentar algumas verdades que seu coração insistia em gritar, mas que ele estava muito determinado a não ouvir.



América olhava, com extrema arrogância, o cenário lá fora. Os papéis em suas mãos expressavam números absurdos e quantias bilionárias. Detalhados em outra linha, estavam os tipos de armamento que ele vendia. A maioria faria um estrago horroroso, digno do Inferno que Dante imaginara. As crianças lá fora brincavam e faziam um barulho irritante. Ele deu de ombros. Elas não viveriam muito mesmo. Eram países que tinham sido explorados pela Europa e agora vinham sendo disputados pelo mundo bipolar. Muitos ainda com cicatrizes de guerras de independência extremamente sanguinolentas. A França deixou a Argélia, por exemplo, em estado deplorável quando esta declarou independência. Independente, mas agora um país totalmente desestruturado e marcado por décadas de exploração.



Ou seja, não fora ele que começara aquilo. Aliás, ele nada tinha a ver com o que eles faziam ou deixavam de fazer internamente. Contentou-se em verificar como ainda investiria ali. Era um continente vasto, dividido por milhares de facções. Apoiar o lado oposto ao que a URSS apoiava era importante para não deixar a influência soviética se espalhar. E, futuramente, aquele lugar ainda se tornaria um vasto mercado para as armas que os Estados Unidos produziam. Além de ser um lugar rico em diamantes e outras preciosidades interessantes. Ele não podia se importar menos com os genocídios, com os assassinatos em massa, com os estupros de menores, com a miséria absoluta que corroía aquele lugar. Ele não ligava se era pelas mãos dele que todas aquelas pessoas achavam armas para matarem umas às outras.

O carro parou e ele saiu altivo, irritado com o sol na sua cabeça, desejando voltar para o ar-condicionado do seu veículo de luxo o mais rápido possível. Um dos líderes da guerrilha estendeu a mão a ele, que deu seu melhor sorriso de negócios.

– Please allow me to introduce myself… I’m a man of wealth and taste. (Por favor, permita que eu me apresente. Eu sou um homem de dinheiro e bom gosto. Eu estive por aí por muitos e muitos anos. Roubei a alma e a fé de muitos homens.)

I’ve been around for a many long years

Stole many a man’s soul and faith

As negociações foram rápidas. O homem checou os armamentos enquanto o americano checou a quantia. Rapidamente, ele retornou ao seu carro, um suspiro satisfeito deixando os seus lábios. Ele olhou, entediado pela janela. Havia uma menina, não devia ter mais de nove anos. Subitamente, um homem já de meia idade a agarrou pelos cabelos e rasgou-lhe a roupa, machucando-a. América assistiu, com meio interesse. Seu motorista retornou e ligou o carro. Ele não tinha nada a ver com aquilo.


– Liga o som. – ordenou Alfred, olhando, entediado para fora.



Seu rosto abriu em um sorriso convencido quando ele reconheceu a música que tocava no rádio.



And I was around when Jesus


Had his moment of doubt and pain


Eu estive por aí quando Jesus


Teve seu momento de dúvida e dor


A volta para casa foi bem confortável. Afinal, ele não ganhava dinheiro à toa, era por pequenos luxos que faziam a vida muito prazerosa. Seu carro tinha tudo o que o dinheiro podia oferecer na época. Seus chefes estavam mais satisfeitos que nunca. Afinal, ele não questionava mais suas ordens. O jornal dizia que ele era um herói. Manipular a opinião pública era essencial. Se os fins justificavam os meios, era sem peso na consciência que ele fazia tudo aquilo.



Made damn sure that Pilate


Washed his hand and sealed his fate


Eu fiz questão de ter certeza que Pilatos


Lavou suas mãos e selou seu destino.


Mesmo a União Soviética. Desafiou os Estados Unidos. Os dois disputaram o controle sobre o mundo. Ivan também, em algum lugar, em meio ao frio insano e à solidão absoluta, também perdera um pouco da lucidez. A luta entre ele e Alfred fomentava a desconfiança entre as pessoas no mundo. A necessidade de um se provar melhor do que o outro sacrificou muita gente.



–Pleased to meet you, Hope you guess my name…


But what's puzzling you
Is the nature of my game


Encantado em conhecê-lo, espero que você adivinhe o meu nome


Mas o que está te confundindo

É a natureza do meu jogo


A União soviética disputaria influência no continente com Alfred. À bem verdade, muito mais acontecera durante o período da União Soviética do que o mundo poderia, um dia, sonhar em saber. A revolução russa fora uma revolução do povo e Ivan ainda tinha um certo... sonho de que aquilo funcionasse.



I stuck around St. Petersberg
When I saw it was a time for a change
Killed the Czar and his ministers
Anastasia screamed in vain



Eu fiquei perto de Saint Petersberg


Quando vi que era hora para uma mudança

Eu matei os czares e seus ministros

Anastasia gritou em vão


Já Alfred tinha um poderio militar conquistado com o dinheiro do capitalismo, advindo, muitas vezes, das guerras. Suprir a Europa durante a primeira guerra, por exemplo, e na segunda, mostrara-se lucrativo.


Então, em um ponto de vista mais geral, quem sabe onde ele estaria se os europeus não tivessem começado aquela guerra? Talvez, ela até tenha sido positiva, pensava o garoto. Afinal, a projeção americana depois de tudo aquilo foi notável.

Poder era algo estranho aos homens. Talvez fosse como um veneno muito saboroso. Status era algo importante. Ganância mudava as pessoas. Era simples esquecer-se do outro, esquecer-se do meio ambiente, ignorar as mortes.

I rode a tank
Held a general's rank
When the Blitzkrieg raged
And the bodies stank


Eu andei em um tanque


Tive a patente de general

Quando a blitzkrieg rugiu

E os corpos empestearam


Alfred sentou-se à frente da televisão, depositando caprichosamente seu pacote do Mcdonalds sobre a mesa. Agarrou o maior hambúrguer dali, assim como o copo big size de Coca cola. Era hora do noticiário.


Falaram sobre muita inutilidade antes de, brevemente, comentar sobre os conflitos na África. Nenhuma crítica. A Europa dera as costas e deixava o terror se espalhar, omissa. Porque agora Alfred era uma potência militar como nenhuma outra. Ele sorriu orgulhoso. Apenas o sentimento de trabalho bem feito. Aquele bando de subdesenvolvidos se matava, por qualquer conflito idiota que eles tinham no passado. O continente queimava em guerras e muitos lugares eram como o próprio inferno na Terra. Mas, francamente, era problema deles. Alfred alcançou um pacote de batata frita e jogou dois pacotinhos de sal dentro, continuando a assistir as notícias.


I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the Gods they made



Eu assisti com satisfação


Enquanto seus reis e rainhas

Lutaram por dez décadas

Pelos deuses que eles inventaram


Enquanto América não havia consciência individual. Havia os governos. Havia planos e armações. Conspirações que o mundo nunca conheceria.


Mas era divertido, de certa forma.


I shouted out
"Who killed the Kennedys?"
When after all
It was you and me



Fui eu que gritei:


"Quem matou os Kennedy?"

Quando no final das contas

Fomos eu e você


Interesse era algo que movimentava o sistema econômico. América conhecera uma época em que todos os policiais, todos, sem exceção, da cidade de Chicago estavam na lista de pagamento de Al Capone. Todos recebiam suborno, sem exceção.



Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints



Assim como todo policial é um criminoso


E todos os pecadores, santos


As coisas foram mudando e se estruturando de maneiras diferentes. Mas no fundo, tudo continuava igual.


A caminho da sala de conferências, havia um sorriso bobo e carismático no rosto do garoto. Ele estendia a mão e cumprimentava a todos com um sorriso ofuscante. Quem desconfiaria de alguém tão bonito e respeitável?


As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint


Assim como cara é coroa


Simplesmente me chame de Lucifer

Porque eu estou precisando de alguma restrição


Avistou Arthur na porta da sala de reuniões, irritado com o seu atraso. No entanto, os olhos verdes dele logo recaíram sobre a arma que Alfred costumava levar agora para as conferências.


Os olhos azuis do garoto acompanharam o sorriso de quase desafio que se formou em seu rosto. Cordialmente, ele estendeu a mão ao britânico.

Seu olhar verbalizava o que ele não poderia dizer por uma questão de fachadas. So if you meet me, Have some courtesy, Have some sympathy, and some taste. Use all your well-learned politics. Or I'll lay your soul to waste… (Então, se você me conhecer, tenha alguma cortesia, tenha alguma simpatia e algum bom gosto. Use sua política tão bem aprendida. Ou eu vou jogar a sua alma no lixo...)


– What's my name? Tell me, baby, what's my name? Tell me, sweetie, what's my name? – cantarolou ao britânico, que ainda segurava sua mão enquanto engolia em seco.


– América.



A próxima reunião foi tão infrutífera quanto as outras. Arthur tentava se focar nos dados, mas havia... algo estranho consigo. Ele não sabia determinar exatamente o que era, mas...



No final da conferência, o loirinho foi o primeiro a sair, um tanto perturbado. Os demais países saíram em razoável silêncio, ainda digerindo o clima tenso da reunião. Ao final, restaram apenas as duas superpotências, que se fitavam atentamente, vigiando os movimentos um do outro.

– Hum... Quem diria, parece que o América sabe brincar. – o soviético sorriu, percebendo o garoto pousar a mão sobre a arma que levava na cintura. – Atire em mim, América, vamos. Você nunca hesitou em mandar matar pessoas, não é? – a provocação veio suave, seguida de um olhar firme por parte daqueles olhos azul cobalto.

– Eu? – o olhar do americano foi de inocência. – Não, não, Ivan. Você é o vilão, eu só trago justiça e liberdade.

– Do que você está falando, Alfred? Você é pior do que eu. – a voz ainda era suave e havia um sorriso quase divertido nos lábios do soviético.

O garoto deu um meio sorriso convencido.

– É mesmo? – fez cara de criança e sua voz mudou para um tom agudo e infantil. – Eu sou o herói, esqueceu? – e caiu na gargalhada. Levou alguns instantes para recuperar o fôlego. – É fácil fazer as pessoas te verem como um herói. É fácil fazer as pessoas acreditarem que você ganhou. Acha mesmo que alguém fala tudo sobre os meus erros militares? Acha mesmo que alguém se lembra do esforço do Inglaterra na segunda guerra? Acha que alguém vai reagir contra mim por ter usado uma arma nuclear? – ajeitou o aro fino e metálico dos óculos no rosto. – O Japão fez sua parte de horrores na China, quem sabe eu não trouxe a justiça divina? – indagou consigo mesmo, admirado com a própria excelência. – Enfim, não importa. A América é a terra da liberdade. Eu sou o mocinho. Essa é a graça de manipular a opinião pública. A mídia, as pessoas... é tudo uma questão de dinheiro. Eu tenho dinheiro, logo, eu posso comprar a opinião dos outros. Posso encomendar a morte de quem eu quiser e ainda haverá pessoas para me aplaudirem de pé.

Levantou-se da cadeira, parando ao lado do soviético.

– Dinheiro é tudo, Ivan. Por isso o seu comunismo idiota está fadado ao fracasso.


Não era como se estivesse fácil para alguém. Os anos que se seguiram tiveram aquele mesmo estranho e ameaçador tom. 1968 foi o ano em que foi decretado o Ato Institucional número 5 no Brasil. Na altura de 1973, ele já havia deixado muitos rastros.


Quando a ditadura surgira, inicialmente comandada por Castello Branco, a intenção era apenas conter o comunismo e depois devolver o comando aos civis. Era a ala moderada dos militares. No entanto, havia outros, com opiniões diferentes.

“A Castello Branco a ditadura parecera um mal. Para Costa e Silva, fora uma conveniência. Para Emilio Garrastazú Medici, um fator neutro, instrumento de ação burocrática, fonte de poder. [...] Teve uma relação natural com a ditadura, como se ela fizesse parte de um manual de instruções. “Eu posso. Eu tenho o AI-5 nas mãos e, com ele, posso tudo.”

De fato, o AI-5 dava ao presidente da república poder para intervir em estados e municípios sem respeitar os limites da Constituição, poder para suspender o direito político de qualquer brasileiro por 10 anos, proibia as manifestações publicas, suspendia o direito a habeas corpus... Diz-se que foi o mais duro golpe à democracia no país.

Em fato, a guerra fria cobrara seus preços a muita gente.


Na altura de 1975, América saía humilhado do Vietnã. Fora um escândalo na mídia os horrores que foram demonstrados lá. Soldados americanos estuprando meninas vietnamitas, drogando-se com heroína e ópio... Isso sem contar nas armas químicas. Napalm fora jogado sobre vastas áres, queimando a vegetação e as pessoas. As queimaduras eram horrendas, as cicatrizes grotescas e a própria natureza deformara-se diante do caos. Bombardeios com fósforo branco, que abriam feridas fundas, queimaduras cheias de sangue e pus, necroses e, por várias vezes, mortes. Gás laranja, agentes desfolhantes, fora usado de tudo um pouco naquele lugar.


Não era preciso muito para condenar aquele tipo de medidas que o América andava tomando. No entanto, Arthur sabia que não podia condená-lo. Não tinha direito de julgá-lo. A Grã-Bretanha já usara munições com fósforo. Os britânicos estiveram na Coreia e Arthur também tinha sua parte no sangue que fora derramado.

Por isso a relação do loirinho consigo mesmo foi degradando. Ele evitava se encarar no espelho, porque ele simplesmente odiava a pessoa que era. Arthur sentia-se imundo. As palavras do francês ainda ecoavam em sua mente e ele sabia que eram verdadeiras. Ele era pior que a prostituta mais barata que alguém poderia comprar no cais. Na verdade, ele ainda... sentia as mãos que tocaram seu corpo sem sua permissão em todos esses anos. Mas ele sentia-se culpado. Enojado. Pior do que isso. Ele se sentia um assassino.

Em reação ao ódio e aquela guerra de uma década, os jovens vão as ruas e se reúnem em Woodstock. Os Estados Unidos se retiram e o Vietnã se reunifica sob regime socialista. Vietnã entra no Camboja, que também vira socialista. Fora um verdadeiro fracasso para Alfred. No entanto, tentando recuperar um pouco do prestígio perdido, ele se reaproximou da China.

Diante da aproximação com a China, a União Soviética percebe-se ficando isolada, de modo que também começa a se aproximar com os americanos. Assina-se o Salt 1, tratado que visava frear a insana corrida armamentista na qual as duas grandes superpotências estavam envolvidas. Sete anos depois, Deng Xiao retribui a visita do presidente americano Nixon, marcando outra aproximação chinesa com os Estados Unidos. Já a União Soviética assina o Salt 2. As relações entre americanos e soviéticos ia se destensionando.


Aos poucos, a guerra fria ia se tornando mais branda.



América não podia dizer que tudo saíra como o planejado, mas era suficiente o que ele vinha conseguindo fazer. Quando chegou em casa, sentiu-se um tanto aliviado. À bem verdade, sentia-se mais leve. Seus chefes estavam apreensivos, armando alguns planos, mas não estavam tão estritos consigo.


Murmurou uma música qualquer enquanto tirava o casaco e jogava-o pelo corredor. No entanto, esquecera que suas chaves ainda estavam dentro do bolso. Quando a roupa foi ao chão, o chaveiro caiu do bolso e escorregou até o meio da escadaria que levava até o porão. Distraidamente, o rapaz encaminhou-se até lá.

Apenas deteve-se quando sentiu um arrepio estranho. Seus olhos se fixaram na porta fechada do armazém. Aquilo não era aberto há séculos...

A caixa de lembranças que Alfred guardava em seu armário, a sete chaves, fora jogada perto do armazém, uma vez que América não se dera ao trabalho de abrir a porta e colocar a caixa dentro do depósito em si, apenas deixando-a perto da porta. Sentia-se estranho quando pensava sobre aquelas memórias. Mas... ele já não lembrava porquê. Na verdade, ele tentara com tanto afinco esquecer tudo aquilo, que já não conseguia puxar em sua lembrança o que havia lá dentro. Ainda assim, sabia que não deveria ir até lá.

Um tanto desconcertado, América deu a volta, sentindo-se um pouco ultrajado por ter sido obrigado a recuar.


1985 – 1991 (Reagen x Gorbachev.)



– Então, agora eu anuncio o Projeto Guerra nas Estrelas! – a voz do americano ecoou na sala de conferências sozinha. Os demais países voltaram-se para Ivan, que, normalmente a uma altura dessas, também anunciaria um projeto soviético semelhante.


No entanto, nada daquilo aconteceu. As duas super potências iniciaram uma aproximação ainda maior, destensionando a guerra fria. A União não mais tinha fundos para bancar um projeto que concorresse com o americano, que, aliás, era um blefe. Não havia projeto algum. A história de sair conquistando o espaço não passava de um blefe. Os Estados Unidos não tinham condições de levar um projeto daqueles adiante. No entanto, a cartada funcionou. A União, sem condições de arcar com um projeto como os americanos diziam que arcariam, aceita a reaproximação.


Arthur cumprimentou educadamente os mais novos integrantes do Mercado Comum Europeu. Em 1986, Portugal e Espanha entraram para o bloco, aumentando ainda mais o número de países. A reunião acabara de terminar, de modo que, após cumprimentar os novos membros, todos já iam se encaminhando para a saída. Haveria uma comemoração, mas Arthur não se sentia inclinado a ir. Ficar no meio de muitas pessoas era algo que realmente o exauria.


O jovem lusitano parecia feliz, cumprimentando as demais nações. Todos saíam com certa pressa, visando chegar ao hotel e trocar de roupa para a festa de mais tarde. Afonso ficou sozinho recolhendo alguns de seus papéis, completamente alheio ao que se passava a sua volta. Não percebeu quando não mais estava sozinho na sala. Apenas notou um leve cheiro de café e um perfume com leve quê marinho amadeirado. Seu corpo virou-se imediatamente e a cicatriz que lhe cortava a face testemunhou seu espanto.

– Luciano?

– E aí... – murmurou o outro, dando um gole na caneca de café que carregava.

– Que vieste fazer? – os papéis foram esquecidos e o rapaz notou a distância que havia entre eles. O brasileiro estava encostado à porta, olhando-o um pouco de longe.

– Nada, só estava passando. – seu tom era um tanto distante e seus olhos mantiveram-se na própria caneca. Fez-se silêncio por alguns instantes. O lusitano fitou por alguns momentos as feições delicadas do rapaz à sua frente, até que Luciano retomou a palavra. – Você... provavelmente tem que ir não é? Fiquei sabendo. Mercado Comum Europeu, hein? Parabéns. Você provavelmente deve estar feliz em ficar entre os seus...

O rapaz, cuja pele era de um tom delicioso de café com leite, parou por alguns momentos. Os olhos levemente esverdeados do europeu fitaram a expressão dele. Era estranho, havia certa tristeza, talvez. Não era como se Luciano fosse lhe xingar ou bater. Não era muito do feitio dele. Mas havia sim histórias mal resolvidas entre os dois.

– Desculpa...

– Eh? – a surpresa de Luciano ficou evidente. Ele estava a meio caminho de outro gole em seu café, mas deteve-se. – Do que você está falando? Desculpar pelo o quê?

– Desculpa... não te ter conseguido proteger. – foi apenas um murmúrio, mas havia certeza nos olhos castanho-esverdeados do rapaz. A franja farta de cabelos castanhos caía-lhe charmosamente sobre os olhos levemente verdes. O restante de seus cabelos vinha preso em um rabo de cavalo baixo.

Luciano riu um pouco e se aproximou, balançando a cabeça em descrença.

– Você ainda está pensando nisso? – passou um braço sobre o ombro do outro, em um meio abraço de camaradagem. – Você está sendo... como é que você chama... Parvo! Isso, parvo! – riu um pouco mais. Aproveitou-se da distração do lusitano e tirou a fita que prendia seus cabelos.

– Seu...!

– Olha a bocaaa~! – o outro rapaz riu das tentativas do outro de pegar a fita de volta com uma mão, enquanto a outra segurava os cabelos no lugar.

A implicância boba durou alguns minutos, contando até com uma pequena corrida em volta da mesa de conferências. Ambos pararam apenas quando viram-se sem fôlego. Encostaram-se um ao outro, rindo um pouco.

– Como eu sou um cara legal, eu vou te devolver seu treco de cabelo. Anda, vira de costas.

– O quê?!

– É uai. – sem muitas cerimônias, Luciano virou o outro rapaz pelos ombros. Em seguida, seus dedos entrelaçaram no cabelo um pouco ondulado do outro.

O europeu ficou um tanto contente em estar de costas. Suas bochechas tingiram-se de leve.

Pacientemente, o outro rapaz ajeitou os cabelos castanhos do lusitano, prendendo cuidadosamente de volta com a fita. Afonso virou-se para encará-lo, encontrando-o com um sorriso terno e sutil.

– Obrigado.

– Sem problemas, portuga, sem problema. – seu sorriso continuava ali, mas o significado mudou. Tornara-se algo um pouco saudoso e distante. Estranhamente, entender Luciano era aprender a interpretar os milhares tipos de sorrisos que ele tinha. Dificilmente ele não estava sorrindo, mas era frequente ele não estar feliz.

– De certeza que me perdoas? – o assunto voltou, mas era simplesmente porque era preciso ter certeza. Eram momentos fugazes como aquele que o faziam querer poder esquecer o que havia ficado para trás.

–Eu sei que pode parecer estranho... Mas não é como se nós pudéssemos voltar atrás. Todas as mortes, a destruição... A imposição de uma cultura sobre outra. A exploração. A herança de um sistema político burocrático e cheio de entraves. – cada palavra pesava no coração de ambos e as lembranças fluíam. — Não podemos voltar atrás. Aconteceu. Mas... eu não guardo rancor sobre isso. Passou e não há nada que eu ou você possamos fazer sobre isso. Não é culpa minha nem sua. Foi uma época. Alguns enriqueceram explorando outros e nisso eu não falo só entre países. Internamente também. Agora só me resta enfrentar os problemas que eu tenho e superar o que aconteceu.

O sorriso veio de novo. Daqueles de quem queria esquecer a dor e seguir em frente.

– Bom, eu vou indo. – disse, um pouco encabulado em ter se aberto tanto. Omitiu alguns detalhes sobre o que realmente sentia. A verdade era que... ele se sentia aliviado por ter sido aquele rapaz ali e não qualquer outro. Era verdade que houvera atritos no passado, mas... O lusitano fora gentil. Ainda mais pensando sobre como outras colônias terminaram. Na àfrica, por exemplo, a Europa fizera a festa, deixando um rastro de devastação memorável.

– Espera, eu-

– Relaxa, Manuel, a gente se vê por aí. – disse e saiu correndo, a fim de não ouvir a torrente de reclamações do outro. Algo sobre ele não chamar Manuel, que Luciano convenientemente ignorou.



– Ahh era tudo muito chato! – riu o brasileiro enquanto vigiava o pão de queijo no forno. Voltara para casa bem na noite anterior e fora se deitar cedo. Pela manhã resolvera alguns negócios pendentes e, à tarde, chamara um amigo para tomar lanche em sua casa.



Atualmente, seu amigo lhe perguntava sobre a sua infância.

– E como era esse portuga que cuidava de você?

– Chaaaato! – respondeu, mas não havia muita verdade no xingamento. Havia certo... ciúme. — Tudo era dom Manuel isso e dom Manuel aquilo! O rei vai ficar muito feliz e não sei mais o quê. – disse forçando um jeito pomposo de falar enquanto ajeitava a gola da camiseta como se arrumasse suas vestes reais. – Hoho, Dom Manuel está a achar que isso e aquiloo~ hoho! — ajeitou um bigode imaginário e desatou a rir.

– Ihhh isso aí me parece é ciúme!

– Que o que! Que o que! – sentiu o rosto esquentar e torceu para que o bronzeado que tinha conseguido na praia disfarçasse o vermelho em suas bochechas. — Que ciúme porra nenhuma! Tá ficando doido? Eu, ciúme. Há!

– Heheh, calma, quem não deve, não teme. – havia um sorrisinho incrédulo.

– Não é ave maria, mas tá cheio da graça hoje, né não? – resmungou Luciano, colocando o pano de prato sobre o ombro. — Homem, você pare de zoar com a minha cara senão vai ver só um negócio.

– Calma, já parei, já parei. – o outro apenas ergueu as mãos em sinal de paz, ainda rindo.

– Hum, acho bom. – disse o brasileiro, levantando e abrindo o forno, respirando fundo, sentindo o aroma delicioso do pãozinho que dourava. – Hmm... – murmurou contente, retirando a assadeira e colocando-a sobre a mesa. – Vou passar um cafezinho pra gente...

Luciano não gostava muito de usar cafeteiras, preferindo a boa e velha água quente no coador. Foi assim que ele se movimentou pela cozinha, colocando uma panela no fogo e procurando o pó de café. Suas íris, de um amadeirado claro, levemente verde, delongaram-se no pequeno pote com café. Havia outro pote com açúcar ao lado.

Lembrava sim... Afonso ficava a lhe contar histórias fantásticas sobre aventuras que seu povo teria vivido além-mar. No tempo que ambos tinham livre, ele lhe contava sobre o mar e sobre como o mundo era grande e que Luciano era só um menino que ainda estava por ver tudo aquilo.

Ainda no período do pau-brasil, lembrava-se de ficar estupefato com o quanto de madeira os portugueses levavam. Fazia-lhe bem pouco sentido. Se havia alguém tão poderoso do outro lado do mar, como é que ele não conseguia lenha perto de casa?

Sorriu um pouco, rindo da própria ingenuidade. Mas também era uma das felicidades em ser criança. Lembrava-se que quando era menor e ficava sozinho em casa, costumava fazer montes de desenhos sobre tudo o que acontecia. Muitos deles contavam com rabiscos muito mal feitos do português. Sem conseguir se conter muito, caiu na risada, sobressaltando o outro.

– Que foi, cara?

– Lembrei de uns desastres que eu costumava desenhar para aquele portuga. – riu ainda mais, colocando o pó de café no coador e colocando água. – O rabo de cavalo do pobre homem parecia mais uma vassoura de piaçava nos meus desenhos.

– Hahsuahuash, imagino. O que aconteceu com esses desenhos?

O rapaz de pele cor de café com leite parou a meio caminho da mesa, com um bule na mão.

– Sabe que... eu não sei... – murmurou, seu olhar se perdeu e ele se calou.



Eram realmente rabiscos horrorosos. Mas havia um meio sorriso quase admirado por parte do homem que as fitava. O vento trazia uma brisa um tanto salina, o que talvez fosse responsável pelo inegável cheiro de mar que permeava o lugar. O mesmo vento agitava os cabelos macios do jovem homem, os quais jaziam presos. Seus cabelos castanhos só lhe caíam sobre a fronte, em uma franja que se movimentava ao sabor da brisa e revelavam uma cicatriz que lhe cortava a face, da testa até pouco abaixo do olho.



O lusitano olhava com certo humor, mas também certa melancolia para os papéis em sua mão. Riu consigo mesmo dos bigodes enormes que Luciano insistia em desenhar nele toda vez que ficava bravo com o português por ter demorado muito para voltar para casa. O que acontecia com certa frequência, de modo que a maioria dos desenhos vinha com bigodes enormes e mal-feitos, assim como um rabo de cavalo todo torto e espetado e um menininho moreno. Havia ainda outro, que parecia ser um mapa do que o garoto achava que era a casa de Afonso. Havia um homem muito gordo, com uma seta que dizia: Rei. Havia alguns passantes na rua, todos de bigode, com a legenda: Manuel. Só havia um português que não chamava Manuel, o que vinha a ser Afonso. Mas, mesmo ele não escapara dos bigodes.

Riu. De coração, como não ria há muito tempo.

Era verdade que os homens insistiam em inventar fronteiras e divisórias, separar os melhores do resto, inventar elites e demarcar limites. Mas era também verdade que isso talvez fosse outra das tantas quimeras que os homens inventaram. No final de tudo, ninguém era tão diferente assim um do outro. Eram pessoas, com defeitos e qualidades, apenas vivendo em pedaços de terra longes uns dos outros, por vezes separados por um pouco de água salgada com um nome diferente.

E era verdade que aquelas distâncias significavam pouco diante dos sentimentos que surgiam entre essas pessoas que viviam em lugares diferentes. Tanto fazia se o lusitano estava a léguas e léguas de distância. Naquele momento, fitando aqueles desenhos, rindo-se de um tempo que há muito se fora, ele era a pessoa que estava mais perto do brasileiro.

Mas, a despeito dos sentimentos do jovem europeu sentado no porto, o mundo continuou a girar, os dias sucediam as noites e os fatos iam se amontoando e escrevendo algo a que costuma-se chamar de História.

Em 1987, a União soviética quebra. A abertura política e econômica é decretada. Dois anos depois, em novembro, caía o muro de Berlim.


1991 – Queda da União Soviética



América não poderia estar mais feliz. A União quebrara, o país estava um caos, a abertura econômica fora rápida demais e uma crise se instalara no país. Estatais foram vendidas a preços baixos e houve pessoas que compraram várias dessas empresas e se tornaram magnatas enquanto o resto do país afundava na miséria. Finalmente, terminava, de fato, a guerra fria.


Com o fim das tensões bipolares, os Estados Unidos mostraram ao mundo as tecnologias que desenvolvera durante o conflito. Especialmente na área de softwares e comunicações. A internet chegava ao mundo. Os investidores se apressaram para investir no novo setor, deixando países como o Japão, que aprimorara setores tradicionais, em crise.


Em 1992, a Europa dava outro passo para a integração regional. O Mercado Comum Europeu se tornou União monetária pelo tratado de Mastricht. A sede do banco central ficou na Alemanha, polarizando os investimentos da europa.


Já Arthur não aceitou a moeda única. O Reino Unido atraía muitos investimentos, mas se abrisse mão de sua moeda e se submetesse ao banco central na Alemanha, todos os investimentos da Europa se concentrariam longe de si. Além do mais, Arthur não era alguém que confiava muito em seus vizinhos. Os britânicos tinham uma moeda forte e pouca necessidade de abrir mão dela. A libra esterlina permaneceu.


De certo modo, parecia que tudo ia se ajustando. Talvez alguns tenham esperado por um mundo mais civilizado. Afinal, quando o muro caiu, promessas encheram os céus, houve uma festa capitalista e eles brindaram à vida.



On the turning away


From the pale and downtrodden

Ao dar as costas

Ao pálido e oprimidos


Mas em 1994, o mundo assistiu calado o Massacre em Ruanda. França, Estados Unidos e Bélgica foram até lá, retiraram apenas os seus cidadãos e partiram. Nem mesmo os ruandeses que trabalhavam para empresas desses países foram salvos. Todos foram deixados para trás. Em cinco dias, a cruz vermelha internacional estimou mais de 10 mil mortes.



And the words they say


Which we won't understand


E às palavras que eles dizem


Que nós não iremos entender


Os soldados das nações unidas foram ordenados a se retirarem. Dez dias depois já se estimava em centenas de milhares de mortos. Mesmo assim, o conselho da ONU recusou-se a chamar aquilo de genocídio.



As votações eram adiadas e era notável certo desinteresse. Ruanda era só um país pobre. Quem se importaria? Os discursos e boas intenções... O heroísmo. Por alguma razão, tudo isso parecia aparecer bem perto do dinheiro. Ruanda não era um lugar estratégico. As forças de paz resgataram os estrangeiros brancos e deixaram os demais à própria sorte.



Don't accept that what's happening


Is just a case of others' suffering


Não aceite que o que está acontecendo


É só um caso de sofrimento dos outros


Um dos meninos de Matthew foi até Ruanda e testemunhou tudo aquilo. Mulheres, crianças, qualquer um... As pessoas eram jogadas dentro de valas e incendiadas juntamente com pneus, para agilizar a queima. Estupros, mortes macabras.



Or you'll find that you're joining in


The turning away


Ou você vai descobrir que está se juntando


Ao dar as costas


Matthew ficara incomodado. Mas... era difícil enfrentar a todos por rostos anônimos. Mortes que, para ele, não significavam coisa alguma. Mesmo assim, ele comentou, por alto, com Alfred. Informalmente. Não era como se ele fosse trazer um assunto daqueles numa conferência mundial.


– Er... Que coisa o que está acontecendo... Na àfrica... Será que a solução da ONU vai demorar? – murmurou timidamente, iniciando o assunto.

– Ah, Matt, sério. Às vezes você é tão ingênuo que me dá enjoo... – resmungou o garoto, dando um gole no copo de refrigerante geladinho que tinha em mãos. – Até parece que o papel da ONU é de qualquer coisa assim.

O canadense se calou. Claro que ele sabia. Qualquer um que olhasse para o símbolo da ONU podia entender. Aquele tipo de mapa que era utilizado como símbolo deformava todos os países que não estavam no centro. Não havia proporções. A Europa estava no centro, Estados Unidos estavam em destaque. Os demais, no canto.

A ONU existia, em teoria, para impedir que mais massacres, que mais sangue fosse derramado. Em teoria, era a união do mundo para impedir mais desastres como a segunda guerra. Como, no entanto, pensar em algo assim quando todos os países que tinham assentos permanentes no conselho eram os maiores fabricantes de armas do mundo?


It's a sin that somehow

Light is changing to shadow

And casting it's shroud

Over all we have known


É um pecado como


A luz está se tornando sombra

E projetando sua mortalha

Sobre tudo que conhecemos


– E... você sabe. Parece que a França forneceu os armamentos...


– O quê?! – Matthew ergueu-se da cadeira tão rápido que o móvel caiu ao chão.

– Mas relaxa. Nunca vão provar nada mesmo que seja verdade. – riu um pouco, ajeitando a franja. – Bom, se era só isso, eu vou indo.

O delicado canadense deixou-se cair de volta na cadeira. A realidade era tão crua. Instintivamente, ele abraçou o pequeno urso em seu colo.

O animalzinho não sabia o seu nome. Mal se lembrava dele. Mas Matthew confiava mais nele do que em qualquer outro ser nesse mundo. Daí o hábito de levá-lo consigo até em reuniões quando podia.

Foi segurando o ursinho que ele entrou na sala de conferências no dia seguinte. A sua sala era composta do que se poderia chamar de elite mundial. Os países conversavam animadamente entre si, orgulhosamente vestindo o uniforme de suas nações.


Unaware how the ranks have grown


Driven on by a heart of stone


Sem notar como as patentes subiram


Guiados por um coração de pedra


Talvez, fosse difícil mesmo. Como se preocupar com o que acontecia com pessoas em um lugar tão longe? Como se preocupar com as milhares de mortes de rostos anônimos? Por que se importar com estupros de mulheres que não eram suas irmãs, homens que não eram casados consigo? Parecia mais importante pensar na economia. As discussões acerca do que se faria quanto ao massacre ainda giravam em torno da mesma questão: quem pagaria a conta? Durante a reunião, os países brigavam sobre os custos da operação.



We could find that we're all alone


In the dream of the proud


Nós perceberiamos que estamos todos sozinhos


No sonho dos orgulhosos


A essa altura, mais de 500 mil já haviam morrido, em pouco mais de um mês.


Anos e anos depois, quando quase um milhão de pessoas já havia morrido em breves três meses, haveria homenagens. Mas nenhum líder ocidental participaria. Além das homenagens em embaixadas e no próprio país, houvera parquíssimas manifestações. A maioria esquecera.

Porque era difícil imaginar o que aqueles tempos foram para quem não os viu. Como se imaginar como uma criança que assistira os pais sendo incendiados? Como imaginar o que se passou pela cabeça daquelas pessoas, vendo colegas sendo estuprados, pessoas morrendo aos montes, tudo oculto entre as sombras noturnas? Como imaginar o frio ou a fome? Como imaginar o medo? Ninguém ouviu, mas aquelas pessoas estiveram gritando.


On the wings of the night


As the daytime is stirring

Where the speechless unite

In a silent accord


Nas asas da noite


Enquanto o dia está se esvaindo

Onde os incapacitados de falar se unem

Em um acorde silencioso


Anos depois, durante manifestações no país, as pessoas lamentariam os mortos. Uma chama seria acesa em um memorial e as pessoas cantariam sobre a esperança de rever quem eles amaram uma vida inteira, mas que se foram em menos de 100 dias. A àfrica fora colonizada, depois disputada na guerra fria. Os anos 90 foram marcados pelo descaso. Mas depois, tentariam uma maior integração. A China passaria a investir em certas áreas do continente.


O mundo continuava girando e girando...


Using words you will find are strange


And mesmerised as they light the flame

Feel the new wind of change

On the wings of the night


Usando palavras que você achará estranhas


E fascinado enquanto eles acendem a chama

Sinta o novo vento da mudança

Nas asas da noite


Arthur chegou antes de todos os outros países na reunião que se seguiu. Como de costume, ele aproximou-se do quadro negro em silêncio. Suas mãos traziam papéis sobre situações econômicas e políticas.



No more turning away


From the weak and the weary


Não mais dar as costas


Ao fraco e ao exausto


Seus olhos verdes fitaram a sala vazia. Teoricamente, eles se reuniam ali para tentar achar soluções em conjunto para os problemas do mundo. Mas... isso não estava acontecendo. Ao mesmo tempo, Arthur não sabia até onde ele se importava com isso. Em que Alfred estaria pensando?



No more turning away


From the coldness inside


Não mais dar as costas


à frieza interior


Engoliu em seco, deixando os papéis sobre a mesa. Pensativo, ele puxou o mapa-mundi que ficava sobre o quadro. Aquilo tudo estava mexendo consigo de uma maneira estranha. Ele sentia que se importava. No entanto, ele simplesmente parou em frente ao mapa e fitou as fronteiras.



Just a world that we all must share


It's not enough just to stand and stare


Apenas um mundo que todos nós precisamos compartilhar


Não é suficiente apenas parar e olhar


Quando Matthew entrou na sala, encontrou o britânico de costas para si, fitando o mapa do mundo, alheio à realidade a sua volta. Estava de braços cruzados e seus olhos verdes percorriam toda a extensão terrestre.



Is it only a dream that there'll be


No more turning away?


Será só um sonho o de que não haverá mais


Viradas de costas?


O que fora feito, não havia como voltar atrás. Era estranho como o mundo seguia. Ao mesmo tempo em que tantos deram as costas, outros encararam os problemas e ajudaram. O famoso hotel em Ruanda, em salvou milhares de refugiados, apenas por abrir suas portas aos semelhantes. O documentário sobre o canadense que narrou sobre os horrores do massacre.


O encontro mundial começou e debateu-se o mesmo de sempre. Discutiu-se gastos e planos econômicos. Cada um ali mantinha uma fachada política própria.

O nome do documentário veio à mente de Matthew e ele murmurou consigo mesmo:

– Shake hands with the devil...


AS CARTAS — Arcano 15



O DIABO



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SIGNIFICADO DIVINATÓRIO



Subordinação. Ruína. Sujeição. malevolência. Subserviência. Queda. Falta de Sucesso. Experiências sobrenaturais. Maus conselhos ou más influências exteriores. Magia negra, fracasso inesperado. A pessoa parece não ser capaz de perceber os seus objetivos. Dependência de uma outra pessoa, que leva à infelicidade. Violência. Choque. Fatalidade. Autopunição. Tentação para o mal. Autodestruição. Desgraça. Influência astral. Quebra de auto-expressão da pessoa, a ponto de torná-la incapaz. Indivíduo de mau temperamento. Ausência de humor, exceto à custa dos outros. Falta de princípios. Falta de ética.



Francis encarou a figura do diabo, com cabeça de bode e asas de morcego. O céu já estava claro lá fora. Seus olhos ardiam e sua coluna queixou-se. No entanto, quanto mais ele descobria naquele jogo, mais ele queria saber. Seus olhos detiveram-se no canadense. Ele recolhera os arcanos repetidos e segurara em mãos. Dormia sobre os braços, com o ursinho em seu colo. Os cabelos macios e finos caíam sobre os ombros suavemente.


No entanto, o celular do francês pulou em seu bolso, sobressaltando-o. Um tanto confuso, ele atendeu.

– Alô? – seu cenho franziu ao reconhecer a voz — Alfred?



Notas finais
Ufa! xD Enfim, ganha a maioria e a maioria preferiu um capítulo grande. Eu ainda ia colocar mais, só que aí o arcano ia ficar desencaixado...

Considerações!

1- Labi, meu docinho de coco português, desculpe pelo meu Afonso fail xD

2- O documentário citado existe mesmo. Nem preciso falar que os fatos são reais. Isso ainda daria muito pano para a manga, mas não temos todo esse tempo xD

3- As músicas não me pertencem. Sao respectivamente Sympathy for the devil e On the turning away. Guns and roses e Pink floyd são seus donos xD comprem o cd e se divertam, porque isso é música xD

4- Ahhh importante! A citação resumo sobre a ditadura é de um livro chamado A ditadura escancarada de Elio gaspari! Excelente livro, não me pertence, é claro. xD

5- Quanto ao resto, só posso agradecer às suas maravilhosas pessoas por terem paciência comigo e com esse monstrinho de história! Ainda mais com essa infinidade de fatos históricos. Mas fiquem tranquilos, a aula de geografia acabou xD Só sobrou citar o terrorismo, mas aí é rapidinho, juro xD Enfim, obrigada mesmo! Beijo, beijo :DD