Boulevard Of Broken Dreams
14 Capítulo 14 - A temperança
-America?
— Hm? – Alfred levantou os olhos da revistinha que lia.
Ele tinha estado preocupado sobre aquela batalha. De fato, tão preocupado que, no impulso, impedira Arthur de comparecer. No entanto, ao ler os relatórios, ele ficou mais tranquilo. Os oficiais haviam dado para ele todos os registros, mas ele não se dera ao trabalho de ler todos. Afinal, eram muitos papéis e não pareceu valer a pena. As primeiras dez páginas diziam um resultado claro. Ele estava indo lá para assistir a vitória americana, com toda a certeza. Alfred tinha até olhado as fotos que a inteligência lhe confiara. As praias tinham apenas sebes bloqueando o caminho. Sim, sebes, aqueles arbustos que se costuma colocar como muro de jardim, fazer uma escultura ou outra quem sabe. Em duas semanas eles estariam jantando em Paris, com certeza.
Por isso, quando o oficial que interrompeu sua leitura e avisou que seu carro havia chegado, Alfred se levantou em um pulo, sorrindo. Aquilo ia ser divertido.
-O que infernos é aquilo? – Alfred praticamente gritou no ouvido do oficial que dirigia o jipe militar que o levava até a batalha.
O homem meramente suspirou e lançou um olhar levemente ofendido e cansado.
— Você não leu os relatórios até o final, não foi? – voltou a olhar para frente, uma expressão mortalmente séria. – Aquilo é um desastre.
Alfred não precisava da explicação do oficial. Ele podia ver o que havia de errado. Aparentemente a inteligência esqueceu-se de considerar algo que não era possível ver nas fotos aéreas, que mostravam apenas o território por cima. Aquelas sebes. Eram gigantescas. Provavelmente estavam lá há milênios, o que explicava o seu porte absurdo. Os alemães tinham se escondido entre os galhos da densa vegetação, que se estendia a metros de altura. Aquela operação foi um desastre.
Os americanos tinham ficado com a região mais fácil de ser invadida, imaginando que a vitória seria garantida. No entanto, a região de mais fácil acesso também era a mais bem guardada. Havia alemães para todos os lados. Alfred viu seus soldados sendo emboscados e o avanço se tornou muito complicado. O garoto se viu amaldiçoando cada alemão que surgia. O ódio às vezes era tão grande que suas mãos tremiam.
Ele não soube bem quanto avançou do território, mas suponha estar na França ou muito perto dela. Isso porque, um dia, depois de várias semanas, ele ouviu seu nome ser chamado com um sotaque francês vagamente familiar.
— Alfred?
O garoto se virou para olhar, mas não tinha bem certeza do que via.
— Francis...? – sua voz soou bem vaga e ele apertou um pouco os olhos. Sem dúvida era Francis. Embora ferido e sem o menor rastro da elegância e pompa de que Alfred se lembrava. Ele nem lhe atirou algum comentário maldoso. O garoto percebeu como... ele tinha decaído.
— Alfred, o que você está fazendo aqui? – o francês nunca esperou ver aquele garoto ali. Só os países mais antigos ainda obrigavam suas representações humanas a comparecerem nos campos de batalha. Os mais novos não obrigavam ninguém, deixando a questão para ser resolvida individualmente como a representação humana desejasse. Principalmente porque era perigoso expor tanto aquelas existências, quase humanas, no meio de uma batalha. No entanto, os mais velhos ainda acreditavam que a presença física deles traria sorte aos combatentes.
— Do que você está falando? – Alfred riu. – Eu como um bom herói vim salvar todo mundo, é claro. – ele riu ainda mais alto, escondendo algum desconforto. Não, não era isso. Mas, espere. Por que mesmo ele estava ali? Por alguma razão, ele não se lembrava.
Francis franziu a testa. Alguma coisa não batia. Pelas suas informações, Arthur deveria ter chegado e acompanhado a invasão. No entanto, aparentemente, só havia Alfred ali. Então, o francês concluiu, em algo tão simples como somar dois e dois, que Alfred estava mentindo. Ele estava lá no lugar de Arthur. Por que, no entanto?
Então, a resposta pareceu lhe ocorrer simples como desatar um nó de criança. Ele tentou não rir.
— L’amour est enfant de Bohême, il n'a jamais, jamais connu il n'a jamais, jamais connu de loi... (O amor é uma criança cigana, que jamais, jamais conheceu lei alguma...) – murmurou consigo mesmo, quase rindo. Alfred o amava? Realmente, era engraçado até onde alguém chegaria por uma pessoa como Arthur. Mesmo naquela época, Francis não gostava de Arthur. Nem um pouco, aliás. Os britânicos afundaram alguns navios franceses depois que a França foi conquistada para que eles não caíssem nas mãos dos alemães. Havia soldados franceses lá dentro ainda, no entanto, ao que Francis realmente não pôde perdoar.
Para degradar ainda mais a relação dos dois, o francês ainda fora o mais entusiástico em ajudar na independência das Treze Colônias, ao que Arthur sempre soube que fora proposital, para realmente magoá-lo. Conseguira, o loirinho nunca se recuperara disso.
Arthur ficara responsável por Matthew, que adotou o loirinho como seu pai e guardara remorso de Francis por tê-lo cedido, dado como se fosse uma mercadoria, um objeto de barganha.
Os dois estiveram em guerra centenas de vezes, o que os obrigava a ficar sempre alerta a algum ataque repentino, algo que realmente fora estressante e ruíra qualquer chance de simpatia entre eles. Arthur capturou e matou uma das crianças de Francis que o deu mais orgulho e a queimou como bruxa. Eles nunca tocaram nesse assunto, mas o francês nunca perdoara Arthur.
Além de uma longa lista de assuntos profissionais ainda havia os pessoais. Francis implicava muito com Arthur quando este era pequeno e tudo se tornou ainda pior com o passar dos anos. Os dois cresceram e se tornaram pessoas completamente diferentes. O francês amava a boa comida, as artes e os monumentos, as festas em Versailles, o luxo, a música, as companhias e as conversas. Arthur tinha uma cozinha horrível, preferia ficar em casa lendo suas montanhas de livros empoeirados, detestava conversar demais com estranhos e passara a, cada vez mais, prezar pela sua isolação. Francis estava sempre impecável, ditava a moda do mundo, era a beleza mais clássica possível: loiro, cabelos ondulados e macios, olhos azuis, ainda que uma barba de gosto questionável, em algo que Arthur costumava chamar de “barbinha suja” apenas para irritá-lo. Francis revidava, criticando os cabelos completamente bagunçados de Arthur, suas sobrancelhas, escuras demais para um cabelo muito claro, a expressão sempre fechada que o tornava ainda menos atraente e suas roupas, geralmente em tons discretos e monótonos. Sem contar a cara lisa, sem um único fiozinho de barba, deixando-o novo demais.
Os dois só passariam a ser algo como amigos muitos anos depois da criação da União Europeia. No início, Francis foi completamente contra a entrada dos britânicos. Demorou anos para ele sequer olhar Arthur na cara direito.
Por isso, quando o francês percebeu o que Alfred estava fazendo, ele sinceramente não o entendeu. O que ele via de tão especial em Arthur? Por que ele se arriscaria tanto por alguém tão... sem graça?
Quando voltou a olhar nos olhos do garoto, percebeu olhando-o para o céu. Ele... parecia uma pessoa completamente diferente da que tinha falado com ele alguns minutos atrás. E, ah, ele conhecia aquele olhar...
Não foi preciso muito mais que aquilo para Francis notar que Alfred estava apaixonado. Perdidamente apaixonado pelo inglês mais sem graça que já colocara os pés nesse mundo.
Olhos muito verdes também olhavam o céu noturno, com algum desespero, como se quisesse achar as respostas nele. No entanto, no fundo deles, havia um cintilar muito parecido com o que Alfred detinha.
Arthur suspirou, abaixando o olhar e fitando as próprias mãos sobre o colo, que ainda estava coberto pelo lençol do hospital. Mordeu o lábio inferior e resistiu à vontade de continuar a fitar o céu. Isso porque toda vez que o fazia, alguma coisa muito esquisita acontecia e ele se via perguntando o que Alfred estaria fazendo. Ou se... ele não estaria olhando o céu também. Só que aquilo soava ridículo até mesmo em seus pensamentos, de modo que ele decidiu que não era uma boa ideia continuar a fitar a noite lá fora. Apenas fitou o quarto branco de hospital, que estava banhado pela luz fraca e azulada de uma lua que sumia no céu.
Sentado sozinho ali, Arthur sentiu-se... estranhamente solitário. Seus ferimentos não estavam melhorando tão rápido quanto deveriam. Os cortes muitas vezes abriam um sobre o outro e a tosse com sangue se tornou frequente. Ele estava enfraquecendo e podia sentir isso.
No entanto, ele não estava realmente preocupado com sua condição no momento. Não... Alfred lhe dera algo para pensar e um pequeno motivo para acreditar. Arthur não conseguira concluir muito mais além do fato de que Alfred o tirara do chão. Ele notou o rastro do próprio corpo no piso e pôde afirmar com certeza que o garoto o tinha encontrado ali. O que aconteceu depois, no entanto, ainda era confuso. Ele se lembrava de muita dor, de se sentir desesperado e infinitamente triste, mas também se lembrava de ter ouvido alguém lhe sussurrar qualquer coisa doce e reconfortante. No entanto, as memórias eram borradas como se ele tivesse sido dopado ou algo assim. Ele se lembrava da manhã seguinte claramente, entretanto.
O loirinho apertou os lençóis entre os dedos. Por alguma razão seu coração insistia em palpitar toda vez que ele se lembrava de como fora abraçado naquela manhã. De como afundara o rosto no ombro do garoto e de como este o envolveu como se Arthur fosse alguém que importasse. Como se... Arthur fosse alguém que merecesse ser amado.
Só que era assustador acreditar em uma possibilidade daquela.
-Ahn... com licença, senhor.
Arthur virou-se para olhar. Era uma senhora de olhos castanho esverdeado. Ela abraçava um ramalhete com várias rosas comuns. O loirinho continuou a olhar, confuso, sem sequer se lembrar de dizer alguma coisa.
- São do meu jardim. Achei que... podiam te alegrar um pouco. – disse ela sorrindo e arrumando-as em um vaso na mesa de cabeceira de Arthur. Olhando melhor, ele reconheceu o uniforme das enfermeiras do hospital para o qual ele tinha sido transferido. Seus superiores decidiram colocá-lo em um hospital melhor na esperança de que ele estivesse minimamente melhor o suficiente para comparecer à próxima batalha.
Com toda aquela guerra e tantas lembranças corrompidas, Arthur se viu verdadeiramente fascinado por ainda existir coisas como flores. Provavelmente sua voz não saiu, mas ele sorriu. Um sorriso pequeno e extremamente cansado, mas estava ali. A senhora voltou seus olhos castanho-esverdeados na direção do menino que olhava suas flores comuns como se fossem o maior tesouro que ele já tivesse visto. E quando saiu do quarto, sentiu um leve nó na garganta. Quem podia ser aquele menino, tão ferido que não podia sequer levantar, e que ainda via importância em rosas comuns?
Ah, se a vida fosse um pouco diferente. Ela gostaria de ter tido Arthur como filho.
Arthur continuava a fitar as rosas, desatento às divagações da velha enfermeira. Seus dedos longos e pálidos, com algumas bandagens, fizeram menção de tocar uma pétala vermelha. No entanto, elas lhe pareciam delicadas demais para um toque como o seu e puras demais para que ele sequer pensasse em tocá-las. Ele abaixou a mão e simplesmente continuou a olhar para elas. Decididamente, ele amava rosas. Elas eram tão suaves e cheias na forma, pétalas levemente côncavas que se encaixavam perfeitamente uma na outra...
Ele suspirou. Aquelas flores eram tão delicadas e bonitas que era quase fácil acreditar em finais felizes.
A porta do quarto foi aberta de novo. Arthur ainda sorria levemente, esperando encontrar a senhora. No entanto, voltou a ficar sério quando reconheceu o oficial britânico.
— Aqui, seu uniforme. – disse o homem, jogando sobre a cama um pacote de roupas. – Em cinco minutos, me encontre lá embaixo.
A porta fechou novamente e Arthur respirou fundo. Sabia que cinco minutos seriam mesmo cinco minutos. Lentamente, levantou-se da cama, fechando os olhos com força quando se pôs em pé, forçando os músculos próximos ao ferimento no tronco. Sobre o dorso enfaixado, ele colocou a parte de cima do uniforme, sibilando toda vez que o tecido arranhava os ferimentos. As luvas pretas cobriram dolorosamente a mão ferida e sensível. Quando outro oficial chegou para apressá-lo, ele terminava de calçar os pesados coturnos militares.
Os passos de Arthur para fora do quarto foram firmes, uma vez que ele ainda precisava passar aos seus meninos confiança. Ele parou apenas alguns segundos e admirou as rosas da senhora uma última vez. Depois, acompanhou o oficial.
Alfred acabou sendo reenviado para lutar no Norte da Itália. Aparentemente as coisas tinham ficado sérias por lá. Além do mais, todos os oficiais o queriam longe da operação no Norte da França. O garoto estava extremamente irritadiço, gritando com qualquer um que cruzasse o olhar com o dele. Seus chefes estavam furiosos com as dificuldades militares e as vozes na sua cabeça estavam decididamente altas demais, fazendo-a latejar com força.
Mesmo quando ele desceu do jipe militar e se juntou ao resto das tropas aliadas, seu humor ainda era péssimo. Alfred não estava acostumado a batalhas e a pressão daqueles momentos. Ele não estava acostumado a não ter o que queria na hora que queria. Geralmente, perto de Arthur ele se continha, mas no momento, ele realmente não se importava.
Para passar a noite, os soldados americanos invadiram as casas italianas e expulsaram as famílias de lá. Nem mesmo o olhar abatido e triste dos velhinhos e das mães italianas amoleceu o coração de Alfred. Para ele, não interessava onde eles dormiriam. Não importava se aquela casa era tudo o que eles tinham. Os seus garotos precisavam de um lugar para ficar, estavam armados e podiam ameaçar os moradores. Era simples assim.
Os britânicos deixavam as famílias ocuparem o celeiro e coisas assim. Alfred discordava, obviamente, mas não estava com humor nem mesmo para ir discutir.
Agora, um pessoal que ele não conseguia entender eram os brasileiros. Em vez de expulsar as pessoas das casas, eles pediam alguns quartos apenas, em troca da comida que eles traziam. As famílias não tinham comida, devido à miséria que a guerra trouxera, e os soldados não tinham onde dormir. Então, eles se acomodavam junto das famílias, dividindo sua comida com eles e aproveitando o talento culinário das mamas italianas. Alfred conseguia ouvir as risadas e as pessoas falando alto na casa ao lado. Ele só não foi lá dar um tiro naqueles baderneiros porque estava com dor de cabeça.
Suas mãos alcançaram os relatórios que ele colocara na mesa de cabeceira. Esticado na cama de casal, ele releu o conteúdo do documento. Bom, pelo menos ele não iria ficar com aquela gente por muito mais tempo. Seu próximo destino era Monte Casino.
Quando Alfred chegou ao comando americano responsável pela operação, logo foi chamado para autorizar os movimentos militares. O garoto analisou o mapa e a situação. Foram poucos dias de planejamento. Os americanos tinham pressa em assegurar sua vitória na guerra.
Era uma pequena cidade, com uma espécie de monastério. Ele não entendia muito de construções religiosas, mas era algo naquele sentido, segundo os demais oficiais. Os alemães haviam entrado na cidade e os americanos queriam tomar o local o mais rápido possível.
Alfred não teve dúvidas em mandar bombardear o monastério. Os alemães com certeza estavam escondidos lá. Eles matariam todos de uma vez só e depois desceriam as tropas para tomar a cidade oficialmente, do jeito mais fácil: com todos os alemães mortos antes mesmo dos americanos chegarem. O relatório foi escrito e repassado aos demais oficiais envolvidos na operação. Dois dias depois, houve uma reação que ele escrevera.
A porta foi aberta com certa força, ao que Alfred virou-se para olhar quem entrava.
Era Arthur.
Mas não o mesmo Arthur que chorara, ferido e desesperado em seus braços. Ele estava completamente fardado, o que escondia os ferimentos em seu corpo, deixando visível apenas alguns cortes em sua bochecha macia. Sua expressão não era nem um pouco vulnerável. Ele parecia possesso.
Na verdade, Arthur estava era quase doente de preocupação. Ele sabia dos resultados no Norte da França. E se uma granada tivesse explodido perto de Alfred? E se ele tivesse sido baleado? A culpa seria exclusivamente de Arthur. Ele não deveria ter deixado o garoto ir. Ele não tinha a experiência em combate necessária. Os americanos estavam pela primeira vez participando efetivamente de uma guerra naquelas proporções.
— Alfred, o que você pensa que está fazendo? Seu idiota, você podia ter morrido! – Arthur estava tremendo de alívio em vê-lo bem e de raiva em saber o quão descuidado ele vinha sendo.
— O que EU estou fazendo?! – o garoto sentiu o sangue ferver. Quem infernos Arthur pensava que era para criticar as suas operações? – Eu estou resolvendo essa merda, porra! Nós temos que reconquistar a Europa antes que a União Soviética o faça!
— Alfred, para e pensa, garoto. – Arthur apertou os olhos entre o indicador e o polegar. – É exato esse o problema. Você é muito afobado. Você precisa investigar o local antes. É o procedimento usual. Você precisa se certificar de que os alemães estão lá antes de sequer pensar em mandar bombardear o monastério. – tentou explicar, devagar. Ele precisava que Alfred entendesse como lidar com a pressão daqueles momentos. Era o melhor que ele podia dar a ele para sair inteiro daquela guerra. – Eu entendo que você tenha pressa em terminar isso, mas...
— Não, você não entende! – explodiu o garoto, se aproximando perigosamente. Arthur o irritava profundamente quando ficava com aquele ar de sapiência. Aquilo só parecia lembrá-lo da diferença de idade entre os dois. E irritado, ele diria qualquer coisa para atingir o outro. – Até mesmo nas outras operações, os alemães sempre atacam o nosso acampamento e não o de vocês!
— Alfred, é exatamente esse o plano deles! – tentou explicar Arthur. Era tão óbvia a estratégia alemã. Sinceramente, Alfred o tirava do sério quando se achava superior à qualquer plano do inimigo e não enxergava o óbvio. – Eles querem que os aliados briguem entre si e enfraqueçam a nossa aliança militar! Essa guerra está terminando e eles estão ficando desesperados.
— Cala a boca! Você fica pensando nas suas filosofias inúteis enquanto o tempo está correndo! A cada segundo a União avança na Europa! EU tenho pressa! Talvez você simplesmente não se importe que essa guerra dure para sempre.
Arthur deu um tapa com força na face direita do garoto, deixando o lugar parcialmente vermelho, forçando-o a virar o rosto para o lado. Como ele ousava dizer que ele não se importava? Depois de ter confiado em Alfred o suficiente para que ele visse o quão perdido ele se sentia vivendo aquele inferno em terra, como o garoto podia imaginar que ele não se importava? Depois de ter visto Arthur chorar pelas suas crianças mortas, como ele podia acusá-lo de algo assim?
Quando Alfred voltou a olhar para frente, seu olhar era evidentemente perigoso, a franja encobrindo parte de seu rosto. Seu braço tomou um impulso violento e ele golpeou com força o rosto de Arthur, que cambaleou para o lado, escorando contra a parede, uma mão cobrindo o rosto. Ele gemeu ao bater contra o concreto, os ferimentos em seu tronco ardendo devido ao impacto. Seus dedos sentiram o sangue escorrer quente e, ao tocar o nariz, percebeu que estava quebrado.
O loirinho virou o rosto para o lado, ofegando, a dor evidente em seus olhos verdes. O sangue não parava de fluir e ele podia sentir o ângulo muito errado em que a cartilagem tinha rompido. Prendendo a respiração, ele segurou o próprio nariz com força. E com um solavanco violento, puxou-o para o lugar certo, dando um grito agoniado e choroso. Escorregou até o chão, escorando-se ainda mais contra a parede, sua respiração quebrando enquanto ele ofegava, seus dedos encharcados do próprio sangue.
O garoto piscou, confuso. Ao ver Arthur gemendo de dor, meio encolhido contra a parede, alguma coisa estalou em sua mente.
“- Eu sou mesmo um herói — Sorrindo, satisfeito consigo mesmo...”
Herói?
Então... Por que a sua luva gotejava com o sangue de Arthur?
O loirinho se levantou, a cabeça latejando, desnorteado com a dor. Seus dedos tentavam conter a hemorragia enquanto ele se apressava em direção à porta. Alfred pareceu despertar de seu estupor.
- Arthur, espera! – disse ele, segurando o outro pelo braço, fazendo-o virar para si.
O corpo do loirinho bateu bruscamente contra o portal e ele gemeu dolorido contra a própria mão, encharcada de sangue.
- Arthur, eu... – começou Alfred, olhando fundo naqueles espelhos esverdeados cintilando em lágrimas contidas. Percebeu que não sabia o que dizer. Ele queria dizer alguma coisa? Hesitou, apenas olhando para o outro. Por longos minutos, Arthur esperou, mas Alfred não disse nada.
- Me deixa, America. – murmurou o loirinho, virando e deixando a sala.
- O que faremos, senhor? – indagou um oficial, após muitos minutos de silêncio desconfortável.
- O bombardeio será amanhã de manhã. Dispensados. – murmurou o garoto, mortalmente sério.
Alfred nunca viu como Feliciano chorara naquele dia. Como ele quase perdera o controle. Não era apenas uma construção tão antiga que estava lá desde que o italiano conseguia se lembrar. As pessoas que estavam lá dentro morreram sem sequer terem a chance de se defender. O pequeno italiano sabia, ele sentia o desespero daquelas mortes.
Mas, no fundo, Alfred sabia que o outro sentiria. Ele vira o que acontecia com uma nação em casos como aquele. Mesmo a lembrança de Arthur não o deteve. Ele queria aquela vitória.
As tropas americanas caminharam sobre os escombros do que fora uma belíssima construção italiana de séculos. No entanto, não havia nenhum alemão morto ali. A operação estava errada. Alfred achara que os alemães não respeitariam uma construção religiosa, assim como ele mesmo não hesitou em mandar bombardeá-la. No entanto, ele tinha errado. Os alemães nunca se esconderam dentro do monastério. Quando os americanos entraram na cidade, todas as tropas alemãs estavam vivas.
O garoto simplesmente estancou quando o informaram sobre a situação. Como... era possível? Ele não errava. Ele fora feito para ganhar tudo em que ele se envolvesse. Ele não era o escolhido? Se não era... então o seu governo mentira para ele?
Alfred se jogou em uma cadeira e puxou os cabelos para trás com força. Ouviu a porta abrindo novamente. Arthur parecia cansado, mas o sangue parara de correr e seu nariz estava no lugar certo, ainda que o osso ainda estivesse quebrado.
— Você estava certo. – murmurou, completamente sem chão.
— Eu sei que sim. – Arthur suspirou. Seu tom não era arrogante e ele não parecia nem um pouco contente em estar certo daquela vez. Em uma situação normal, ele aproveitaria e quebraria o nariz de Alfred também. Arthur não era o tipo de pessoa que apanhava e ficava por isso mesmo. No entanto, dada a situação, ele deixou para lá. Sua mão ainda estava ralada em muitos lugares e muito sensível. Além do mais, ele sempre acabava mimando Alfred, mesmo depois que ele cresceu.
O silêncio durou poucos minutos. Arthur virou para o lado quando Alfred se levantou de repente de sua cadeira.
— Eu vou lá acabar com a raça desses alemães. – e com isso, o garoto saiu correndo da sala, pegando seu fuzil próximo à porta.
— Alfred! Volta aqui! – Arthur gritou, mas o garoto o ignorou. – Inferno... – praguejou ele, correndo atrás do garoto, pegando seu fuzil que deixara ao lado da porta e checando seu revólver na cintura. Alfred estava sob pressão e não conseguiria lutar concentrado. Arthur não estava em condições físicas, mas correu atrás dele até o campo de batalha.
— Alfred, volta aqui, porra! – gritou, tentando segui-lo enquanto atirava nos alemães. Arthur o viu de longe e gelou assim que percebeu a arma que o garoto carregava. O M1 era um fuzil moderno das forças americanas. O problema é que ele era tão moderno que quando as balas acabavam, o cartucho saía automaticamente. E caía no chão com um tilintar característico e alto, tirando todos os alemães próximos de seus esconderijos para emboscar o soldado que tentava recarregar o fuzil.
E aquela arma suportava apenas 6 balas por vez. Assim que o garoto disparou a sexta bala, aconteceu.
Foi mais rápido do que Alfred conseguiu entender. Assim que o seu cartucho caiu vazio no chão, um soldado alemão levantou-se atrás de si. Alfred ouviu o tiro, mas não o sentiu. Sentiu alguma coisa pesada batendo contra o seu corpo e o jogando no chão, seguido de um gemido agoniado. Seus sentidos reconheceram o cheiro de Arthur, sentindo o corpo dele sobre o seu e sangue correndo do ombro do loirinho. Este voltou a empurrá-lo, virando-se de frente para onde viera o tiro.
Arthur ignorou o próprio ombro recém baleado e virou-se no chão, puxando o revólver e atirando no outro soldado, que caiu morto após dois disparos cuidadosos.
— Droga, Alfred! Presta atenção! – praguejou o loirinho, apertando o ombro com força. Ele soube que levaria aquele tiro quando empurrou o garoto. A dor do novo ferimento o fez trancar a mandíbula com força, evitando fazer qualquer barulho desnecessário que denunciasse a sua posição.
Alfred se levantou, completamente chocado. Por que? O que Arthur estava fazendo? Ele quebrara o nariz dele na noite passada e Arthur o retribuía levando um tiro por ele? Por que? Por que nada mais importava além do sangue que manchava o uniforme do loirinho?
O que Alfred não percebeu é que o seu conflito interior não era tão importante quanto ele julgava. Ele estava parado no meio do tiroteio. Era óbvio, mas , seus olhos claros se voltaram para baixo surpresos quando ele sentiu uma dor aguda e insuportável na altura do quadril. Um líquido quente e carmim começou a derramar do ferimento. Seus olhos azuis marejaram e ele caiu sobre os joelhos, suas mãos apertando a ferida com força. Doía. Seus sentidos estavam embaralhando com a dor aguda e insistente e ele nem percebeu Arthur gritando seu nome. Seu rosto bateu no chão e ele se encolheu levemente, contorcendo.
- Alfred! Alfred! – o loirinho procurou o ferimento, tentando analisar a gravidade dele. O garoto tremia.
Era assustador. Alfred nem se lembrava qual fora a última vez que levara um tiro. Ele geralmente não era mandado para o campo de batalha. Ao contrário de Arthur, ele podia contar nos dedos de uma mão só as vezes em que sentiu uma dor daquelas. Sua respiração entrecortava e o sangue fluía assustadoramente, seus sentidos pareciam distantes...
Ele nunca vira a guerra tão de perto. Nunca se vira ferido assim, enquanto o inferno explodia à sua volta. Alfred não entendia como Arthur aguentara aquela dor tantas vezes que ele já nem contava mais.
— Arthur... – sua mente ficou vagamente mais clara quando ele se lembrou do loirinho. Seus olhos fecharam sem o seu consentimento e seu corpo cedeu.
— Alfred! – o loirinho olhou em volta, praguejando em voz baixa. Eles estavam longe dos demais soldados aliados. Ele teria que tirar Alfred dali sozinho e rápido. Sem pensar duas vezes, ele apoiou o garoto no ombro que não estava ferido, pondo-se de pé. Olhou brevemente para o próprio fuzil no chão. Era um De Lisle Commando Carbine. Somente 130 unidades foram feitas e distribuídas entre o alto comando. Antiga, mas extremamente eficiente. No entanto, ele não conseguiria levá-la e ainda carregar o garoto. Então, Arthur chutou sua melhor arma para o lado e acomodou Alfred mais confortavelmente em seu ombro, sacando seu revólver e correndo o mais rápido que podia.
Arthur sem dúvida era um rapaz estranho. Ele lutava em campos de batalha há tanto tempo, ele se acostumara a puxar o gatilho, ele sabia lidar com situações de pressão que pessoas normais não conseguiam. E ainda assim, morria de medo de coisas como os próprios sentimentos. Ainda assim, não entendia o que sentia pelo garoto ferido em seus braços. Tinha força o suficiente para levar um tiro por ele, mas não para encarar de frente que o amava e lutar por ele.
No entanto, no momento, Arthur não se importava com os sentimentos confusos que martelavam dentro do seu coração. Ele se importava com o fato de que tinha que tirar Alfred dali o mais rápido possível e tratar aquele ferimento. A cada segundo olhos azuis dele piscavam vagamente e demoravam cada vez mais para se abrir. O uniforme de Arthur já estava uma confusão de sangue dele e do garoto em seus braços.
Mesmo quando o loirinho o carregou para fora e o colocou no jipe militar para transferi-lo para o hospital mais próximo, Alfred não reagiu. Arthur tentou mantê-lo acordado, mas após alguns minutos, o garoto perdeu a consciência.
O Arcano 14 – A temperança
SIGNIFICADO DIVINATÓRIO
Moderação. Temperança. Paciência. Conciliação. Harmonia.. Capacidade de dirigir. Compatibilidade. Fusão. Ajustamento. Boa influência. Habilidade para perceber e utilizar as manifestações materiais e intelectuais disponíveis. Possivelmente uma pessoa sem tendências exageradas. Amada. Que é tida em alta consideração. Possivelmente moderada e sóbria demais para conquistar um objetivo que no momento está fora do seu alcance e que requer uma agressividade considerável.
Notas finais
Ahh, me contaram que parágrafos da minha história tem rodado aí nas redes sociais! Eu fico muito feliz, mas se puderem pelo menos colocar o link pra cá ou algo assim, eu ficaria ainda mais feliz xD Ver quem mais anda lendo essa historia me alegraria xD
Hmm, aliás, o trecho que o Francis fala é um trecho da Habanera, ópera Carmen.
E as informações militares são verídicas! Até a briga entre os aliados, realmente aconteceu. Não com o Arthur e o Alfred, obviamente, mas realmente os alemães tentaram enfraquecer os aliados criando caso entre britanicos e americanos... E o caso dos brasileiros é real também xD
Enfim! Obrigada mesmo pela paciencia xD Estarei indo responder os amáveis reviews de vocês! Obrigada meeeesmo pra quem vem comentando! Beijo, beijo! :D
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