Boulevard Of Broken Dreams
15 Capítulo 15 - O Enforcado, parte I
Arthur havia deitado Alfred na parte de trás do jipe e deixado a cabeça do garoto repousar sobre o seu colo. Outro oficial dirigia o veículo, uma vez que não deixaram o loirinho sair dirigindo com um ombro baleado e carregando alguém importante com um ferimento sério.
O rosto do garoto torcia algumas vezes e, inconscientemente, ele se virou de lado, escondendo-se no colo de Arthur. Aquilo trouxe lembranças ao mais velho. Seu braço direito envolveu o garoto no melhor abraço que Arthur podia lhe dar. Seu ombro doía, sensível com o frio noturno, de modo que era extremamente doloroso mover o braço esquerdo, que jazia ao lado de seu corpo, meio jogado. Seus dedos lentamente brincaram com os cabelos de Alfred. Seus olhos esverdeados fitaram o rosto do garoto com atenção. Ele parecia estar sofrendo. Arthur sabia que era impossível, mas ele tinha medo que Alfred morresse ali. O que ele faria se aquilo acontecesse? Ele conhecia aquele garoto desde... quase metade de sua vida. Há quatrocentos anos ele o conhecera. Há quase meio milênio ele se acostumara à presença dele. Ele... se esquecera de como era sem ele.
Fosse lá o que acontecesse, Arthur desejou que a vida dele nunca se estendesse mais que a do garoto.
A noite tinha caído e o loirinho olhou para fora, encontrando uma lua tímida, que crescia. Ele sentiu seus dedos tremendo enquanto tocava o rosto do garoto. Sinceramente, naquela noite, ele teve muito medo. Seu coração batia com tanta força que ele podia senti-lo na garganta. Arthur sentia como se seu peito estivesse sendo esmagado. Algum sentimento muito forte parecia ligá-lo aquele garoto, mas o loirinho temeu admitir. Ainda que algumas vezes Alfred agisse de um jeito que Arthur não conseguia entender. Ainda que por isso ele ficasse confuso e perdido. Ainda assim, ele temia, com a própria vida, que algo de mal acontecesse aquele garoto.
No fundo ele sabia que se Alfred estava inconsciente e baleado a culpa era sua e não do garoto. Arthur sabia que era culpado por aquilo. Alfred não deveria estar ali. Foi por tentar protegê-lo que agora o garoto gemia baixinho de dor.
Fosse lá o sentimento que os unia, Arthur verdadeiramente o temeu naquela noite. Naquela noite, o loirinho acreditou que realmente fosse amaldiçoado. Alfred estava perto dele, mas estava ferido. Se Arthur fosse egoísta e o deixasse se aproximar ainda mais, o que aconteceria? O garoto podia se ferir ainda mais. Na verdade, conhecendo sua sorte, Arthur achava que Alfred podia até morrer.
Não lhe passou pela cabeça que as coisas estavam dando errado porque ele hesitava. Não lhe ocorreu que o amor não era algo a ser temido, mas algo que realmente podia consolá-lo e envolver gentilmente. Ele nunca percebeu que guardava um sentimento que nunca fora feito para torturar ninguém. Porque afinal, se alguém sofre por amor ou é porque está amando a pessoa errado ou porque esta amando de uma maneira ruim para ela mesma. Mas no fundo, havia tanto a perder se ele admitisse que amava aquele garoto. Talvez Arthur fosse como tantas e tantas outras pessoas tivesse medo de mudar. Talvez ele tivesse medo de ser feliz.
Depois de quase dois dias, eles conseguiram chegar a uma pequena instalação hospitalar alemã, recém-tomada pelos aliados. Alfred foi colocado em uma maca e levado para dentro imediatamente. Arthur entrou nas instalações, observando um pouco antes de ouvir alguém chamando o seu nome.
– Arthuur! Eiii!
Arthur virou-se e viu alguém em uma cadeira de rodas, acelerando pelo corredor até chegar perto dele. Era um rapaz que tinha a pele em alguma tonalidade de mel e os cabelos negros, muito negros. Demorou alguns instantes para que Arthur reconhecesse.
– Luciano...? – por alguma razão, Arthur se sentiu aliviado. Ele realmente queria conversar com alguém naquele momento.
– Meu nome. – sorriu o brasileiro, erguendo uma mão em cumprimento.
– O que... Meu Deus, o que aconteceu com você e o que infernos você faz aqui? – perguntou Arthur, tudo de uma vez, confuso. As duas pernas do outro rapaz estavam engessadas.
– Ahnn... É uma longa história. Na verdade, nem tão longa, mas acho melhor você dar uma olhada nesse ombro aí... – comentou, espichando um pouco a cabeça para olhar o ferimento do loirinho. – Eu te conto enquanto você estiver cuidando disso, pode ser? Me segue! – e saiu pelos corredores, com Arthur em seu encalço, adentrando uma pequena sala.
Um médico cumprimentou o britânico e pediu que ele retirasse a parte de cima do uniforme, ao que ele obedeceu. Ele fez com que ele se sentasse e começou a trabalhar.
– Meu Deus, Arthur... – murmurou o outro rapaz quando o tronco ferido do loirinho tornou-se visível. Arthur notou o rosto dele muito sério e ele pareceu preocupado. – Essa guerra... esta sendo assim pra você? – a pergunta veio em um murmúrio.
Arthur desviou o olhar.
– Eu quero que isso acabe... – confessou baixinho. Seus olhos verdes se ergueram e encontraram os olhos do outro rapaz. Arthur parecia tão perdido.
– Você... quer conversar sobre isso?
– Eu... – o loirinho hesitou. Sabia que precisava por para fora um pouco da confusão interna que se instalava em sua cabeça, mas gostaria de adiar o momento em que precisasse falar sobre aquilo que o perturbava. Suspirou. – Quero. Mas não agora... Eu preferia que... você contasse a sua história e depois eu falo sobre mim, certo?
– Tubo bem. – o outro sorriu e observou Arthur sendo deitado em uma cama para iniciar a cirurgia para a retirada da bala. Aproximou-se do leito e apertou a mão do loirinho. – Eles provavelmente vão te colocar pra dormir um pouco... – murmurou, seus olhos detendo-se no rosto cansado de Arthur. – você está precisando. Depois que você acordar a gente conversa, tá bom? – o loirinho assentiu e observou o outro rapaz saindo da sala e fechando a porta.
De fato Arthur foi sedado com morfina e ficou em operação por cerca de duas horas. Teria levado menos tempo, mas o corpo do loirinho estava ferido em muitos outros lugares, que precisavam de curativos e bandagens novas. Depois disso, Arthur ainda foi colocado para dormir algumas horas, em tentativa de poupá-lo um pouco da dor e fazê-lo descansar. Cerca de quatro horas depois, ele despertou e uma enfermeira deixou o brasileiro entrar e conversar com ele por alguns minutos.
– Hey... – murmurou Arthur, com a voz cansada, ainda deitado na cama.
– E aí, melhor? – perguntou o rapaz, preocupado.
O loirinho assentiu e o outro o olhou desconfiado.
– Por que eu não acredito muito? – ergueu uma sobrancelha. – Vai, desembucha.
– Ok, ok, você venceu. – Arthur sorriu meio de lado, realmente exausto. – Não estou realmente melhor, mas espero que fique. — confessou. — Cadê o Alfred?
Luciano se surpreendeu que no meio de uma confusão daquelas a única coisa que interessava a Arthur era onde estava o garoto. Hesitou. Não havia tantas boas notícias a serem dadas.
– Ele... ainda está sendo operado. – sua voz foi séria e Arthur o olhou, nervoso. – A bala perfurou o intestino dele e... bom, a cirurgia pode ser meio complicada, talvez demore, é um tanto... difícil. – a expressão do loirinho foi tão triste, que o rapaz rapidamente acrescentou. – M-mas já deve estar acabando e assim que eles terminarem eu consigo um jeitinho de você ir vê-lo, tá bom?
– Obrigado... – murmurou Arthur. Realmente, a perspectiva de ver Alfred logo o deixava melhor.
– Se quiser, pode dormir um pouco, eu te chamo quando ele acordar... – propôs o rapaz. Embora conversar com Arthur talvez o fizesse se sentir melhor, ele não queria forçá-lo a falar se não estivesse em condições.
– Eu... não acho que vá conseguir dormir preocupado com a cirurgia dele. – admitiu o loirinho, baixo. Inevitavelmente, ele se preocupava. Ergueu seus olhos esverdeados e olhou para o outro rapaz. – Podemos conversar enquanto eu espero?
– Tudo bem... Você parece preocupado. Não quer mesmo falar sobre isso?
– Como eu disse... não agora.– Arthur ainda estava com mal-estar depois da operação e confuso com seus pensamentos. Queria pensar em outros assuntos antes de ter de falar sobre si mesmo. — Primeiro a história que você disse que ia me contar.
– Como eu te prometi, a história né... -Nem sei por onde eu começo. – riu um pouco e depois suspirou. – Hmm, você sabe mais ou menos como meu país entrou na guerra, não?
– Hm... Alfred me disse algo a respeito, mas foi meio vago. – comentou Arthur, curioso.
– Bem, eu não sei até onde você se parece com aquele cara. – o brasileiro sorriu um pouco de lado. – Ele não sabe nem onde fica meu país direito. – os dois riram um pouco, de fato Alfred parecia se importar apenas com os seus estados e não ligava muito sobre os demais países do globo. – Bem, eu suponho que você saiba mais que ele. Enfim. A Argentina é um país razoavelmente influente na América no Sul, quase ou tanto quanto eu. No entanto, ela se inclinou para o lado do Eixo. E você sabe, nós temos grande capacidade em produção de matéria-prima, que era tudo que a Alemanha queria. Se eu me juntasse ao Eixo, a Argentina se juntaria também e provavelmente levaríamos o resto da América do Sul.
– Entendo... – murmurou Arthur, absorto no assunto e ignorando a dor latejante e insistente do ombro ferido. – Alfred me disse algo sobre temer um ataque próximo... O que ele deveria estar se referindo a isso, certo?
– Provavelmente. – afirmou o outro, sério. – Uma coisa é temer um ataque do eixo lá da Europa, outra é se o Eixo pudesse atacar pela América. A coisa ficaria feia.
Arthur assentiu, também mortalmente sério. Se a Alemanha tivesse conseguido matéria-prima em outros lugares, talvez ela nunca tivesse invadido a União Soviética. Os soviéticos talvez demorassem ou nunca entrassem na guerra. E, diante disso, quem garantia que os Estados Unidos entraria? Um dos principais objetivos que Alfred comentava era sobre libertar a Europa, convertendo os países libertos ao capitalismo, assim como os soviéticos vinham convertendo os países que eles libertavam ao socialismo. Arthur se perguntava se no fundo ele não fora salvo por causa de Ivan.
– Enfim, foi até engraçado. – o brasileiro sorriu e segurou uma risada. – A gente não tinha nada a ver com isso. Nós não íamos entrar. Mas, você sabe como o Alfred é, ele sabe negociar quando quer. Claro o meu país entrou por interesse.
– Mas, no final das contas, toda guerra é por interesse. – murmurou Arthur.
– É. – sua expressão risonha vascilou um pouco, mas ele voltou a sorrir. – Meu presidente chegou a dizer que o Brasil só entraria na Segunda guerra no dia em que uma cobra começar a fumar! – contou, rindo abertamente. – Dá uma olhada!
Arthur olhou para onde o brasileiro apontava. No uniforme dele havia algumas letras e uma imagem. Estava escrito FEB (Força Expedicionária Brasileira) e em cima, havia o desenho de uma cobra fumando. Até Arthur riu com o outro, balançando a cabeça.
– Só você mesmo... Mas você ainda não me disse. Como veio parar aqui nesse hospital?
– Então, menino, você não vai acreditar. Eu estava em uma missão com mais alguns amigos meus, sabe? Estávamos sobrevoando uma área, quando de repente fomos pegos, atiraram no meu avião e eu caí entre as árvores.
– Foi assim que você quebrou a perna? — indagou Arthur, olhando para a cadeira de rodas em que o outro estava.
– É! Mas essa nem foi a pior parte! Os meus amigos acharam que eu tinha morrido e voltaram para o acampamento, enquanto eu fiquei lá jogado no meio do nada. – contou, sentindo um breve arrepio ao lembrar-se da situação.
– Mas... se os seus amigos não estavam te procurando... – os olhos de Arthur arregalaram levemente.
– Exatamente. – o rapaz riu meio conformado. – Eu não dou sorte mesmo. Enfim, os soldados alemães me encontraram e me trouxeram para cá.
– Eles... cuidaram de você? — Arthur não conteve muito bem a surpresa. Era estranho pensar em um ato daqueles vindo de pessoas cujo país tinham lançado sobre ele armas como o foguete V1 e o tinham aterrorizado com bombardeios noturnos.
– É, eles me ajudaram! Só que quando chegou a informação de que os aliados estavam chegando, os oficiais alemães todos fugiram. O diretor do hospital me contou que os aliados iam chegar e matar a todos. – confessou, olhando para baixo, um tanto decepcionado.
Arthur desviou o olhar também. Era difícil pensar em vilões e mocinhos como Alfred sempre queria rotular as pessoas. Nem mesmo ele sabia dizer se existia alguém certo em tudo aquilo.
– Enfim... – retomou o outro, ainda um tanto triste. – O diretor ficou sabendo que eu era brasileiro e me disse que eu era o único que os aliados talvez escutassem. Se fosse só pelos alemães, acho que nunca teriam ouvido e não haveria mais ninguém vivo aqui... Enfim, ele me deu o posto de diretor do hospital e a pistola dele e me pediu para não deixar que exterminassem os outros feridos. – então, ele sorriu de novo. – Bem, de algum jeito, deu certo! É, pois é, e agora cá estou eu.
Arthur silenciou, ainda pensativo sobre toda aquela situação. Ouviu-se sendo chamado e voltou seus olhos para o outro rapaz, que voltou a falar.
– Mas então. Eu cumpri minha promessa. – disse gentilmente, dando um meio sorriso divertido. – Agora quer me contar o que aconteceu?
Os olhos do loirinho arregalaram levemente e o assunto anterior varreu-se da sua cabeça.
– Eu... – Arthur engoliu em seco. – Não sei. – confessou, abaixando a cabeça e fitando o chão vagamente. Adiara aquela conversa o máximo que podia, ainda que quisesse tê-la.
– É sobre trabalho ou...? – sugeriu o outro, tentando convencer Arthur a se abrir.
– Não...
– É ele? – a pergunta vinha cheia de implícitos e subentendidos.
– ... eu acho que é. – admitiu Arthur em um quase sussurro. – Eu não sei... É só que... alguma coisa mudou. Eu... me sinto estranho quando ele fica perto demais. O Alfred às vezes é tão confuso. Eu nunca posso entender se ele me odeia ou não. Em uma hora ele vai no meu lugar para o campo de batalha, em outra ele perde o controle e quebra o meu nariz...
– Ele o quê?! – o brasileiro se inclinou e chegou a centímetros do rosto de Arthur, olhando fixamente para o nariz deste. Realmente, ainda sangrava um pouco. – Eu não acredito que ele fez isso! – disse nervoso, afastando um pouco e voltando ao lugar que estivera antes.
– É... bom, não foi tão injusto assim. Eu meio que gritei com ele. Ele me insultou e eu dei um tapa na cara dele. Mas... – sua expressão tornou-se um tanto triste. — mas eu não... esperava que ele fosse me bater desse jeito.
– Mesmo assim, ele veio pra cá no seu lugar?
– É... – murmurou Arthur, sibilando de dor quando resolveu sentar-se para conseguir falar melhor.
– Isso é muito estranho... – os traços bonitos do outro rapaz se moldaram em uma expressão pensativa. Ele sempre achara que Alfred queria chamar a atenção de Arthur com toda a confusão que ele fazia. Mas... como explicar o fato dele ter batido no loirinho com força suficiente para quebrar-lhe o nariz, sem remorso algum? Como explicar o fato do garoto parecer que nem se lembrava de Arthur quando estava longe dele? Porque se ele se lembrasse, provavelmente o loirinho não pediria ao brasileiro tantas informações sobre o que acontecia nas Américas. Ele poderia perguntar diretamente a Alfred, não? Se não perguntou, eles ainda estavam brigados. Ao mesmo tempo, Arthur acabara de lhe dizer que Alfred tentara protegê-lo, vindo naquela batalha no lugar dele.
– Eu... nem sei o que dizer, Arthur. – murmurou, finalmente, pensativo. – às vezes eu tenho a nítida impressão que ele te ama, mas às vezes parece que ele te odeia. É quase como se... fossem duas pessoas completamente diferentes. – concluiu, em um suspiro frustrado.
– Eu também não sei o que pensar. – murmurou Arthur. Ele notara como Alfred às vezes parecia realmente gostar dele, mas outras vezes parecia odiá-lo. No entanto, o loirinho tinha medo de ter esperanças e não queria acreditar que Alfred realmente o odiasse. Houve silêncio enquanto cada um deles se perdia nos próprios pensamentos.
– Mas e você? – a inevitável pergunta veio e Arthur não soube o que dizer. – Como você se sente sobre ele?
– ...Como eu... me sinto? – murmurou, incerto. – Ele... é importante para mim. – admitiu a única verdade que sabia. – Eu não me importava com nada nem ninguém antes de conhecê-lo. Eu existia para o meu trabalho e eu estava bem com isso. Depois que eu o encontrei ele se tornou a única pessoa que realmente parecia gostar de mim. Eu... pela primeira vez, eu queria terminar logo o meu trabalho para poder ficar com ele. – um sorriso leve e nostálgico abençoou o rosto cansado de Arthur. — Eu era menos que um adolescente na época e não tinha ideia de como se cuidava de uma criança, então talvez eu não tenha sido muito bom, mas eu me diverti muito com ele. Não sei... Eu acho que eu me sentia um tanto... querido. – admitiu, em voz baixa, seus olhos verdes não realmente olhando para lugar algum.
– Mas ele mudou, você sabe disso. – acrescentou o outro gentilmente. – Ele amadureceu e viu coisas diferentes longe de você. Ele já é outra pessoa. Ainda assim, você me diz que ele é importante. Isso não significaria que você ainda o ama, mas agora de um jeito diferente?
Arthur piscou algumas vezes, aturdido.
– Eu não... tinha pensado as coisas nesse ponto de vista. – murmurou. Um jeito... diferente? Então... ele amava mesmo Alfred de um jeito diferente do que imaginara? – Mas... talvez... – calou-se de novo. Realmente. Alfred não era quase nada da criança que ele cuidara. Ele agora era um adulto capaz. Uma pessoa completamente diferente. Alguém que estivera ao seu lado em um galpão desmoronando e segurara sua mão.
– Com licença. – um médico entrou no quarto e aproximou-se dos dois, dirigindo-se ao brasileiro. – Operamos o paciente, senhor. Você pode ir vê-lo, mas ele está sedado.
Os dois assentiram e depois se entreolharam. Arthur foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Eu agradeço muito o que você fez por mim. Agora eu preciso resolver isso sozinho. Por favor, esqueça tudo o que ouviu aqui. Jure que nunca vai contar ao Alfred o que eu te disse. – pediu, muito sério.
–Mas! Arthur, você tem certeza? Eu posso tentar falar com ele. – insistiu o rapaz.
– Por favor, não. Só me jure que nunca vai contar ao Alfred o que eu te disse aqui. – seus olhos esverdeados olharam fundo nos olhos do outro, que suspirou frustrado.
– Muito bem, eu juro. – concordou o outro, resmungando.
– Jura o quê?
– Juro que nunca vou contar ao Alfred o que você me disse... — completou o outro, um tanto ranzinza.
– Ótimo... – murmurou Arthur, aliviado. – Eu... posso vê-lo? – perguntou, um tanto hesitante.
– Claro, por aqui... – murmurou o outro, preocupado. Ele se perguntava se era mesmo uma boa ideia não contar a Alfred. No entanto, ele nunca contaria. Promessa era promessa, infelizmente. Guiou Arthur pelas instalações, deixando ele onde ficava o leito de Alfred e saindo, para dar alguma privacidade. Saiu resmungando pelos corredores, furioso consigo mesmo. Deveria ter se lembrado de fazer figa quando fez a promessa. Burro, burro. Aí ele poderia contar ao garoto. Era tão provável que os sentimentos de Arthur fossem correspondidos!
No entanto, talvez aquilo não fosse assunto dele. E se ele estivesse errado? E Arthur tinha certa razão. Aquilo precisava ser resolvido entre Alfred e ele.
O garoto realmente dormia quando Arthur postou-se ao lado da cama dele. Era estranhamente doloroso vê-lo inconsciente e sedado, recém-operado. Sua expressão não demonstrava dor nem coisa alguma, ele parecia meramente deitado ali. Era estranho vê-lo tão quieto. Arthur carinhosamente afastou a franja do garoto da frente da testa dele, olhando para o rosto dele melhor.
Ele estava sem óculos, de modo que parecia ainda mais novo do que realmente era. Arthur sentiu a garganta trancar. Aquele garoto não devia estar ali. Não importava se ele era uma nação poderosa ou não, o loirinho não achava justo que ele estivesse ali. Ainda mais agora que Arthur não sabia mais se tinha força suficiente para protegê-lo do mundo, como um dia quis fazer.
Seus dedos tocaram lentamente a bochecha de Alfred, em um carinho tímido. No entanto, assim que tocou a pele macia dele, o loirinho sentiu o coração batendo com muita força, parecendo que ia sufocá-lo. Arthur retirou a mão depressa, como se tivesse levado um choque elétrico.
– O que está acontecendo comigo, Alfred...? – murmurou Arthur consigo mesmo, muito, muito baixinho. Aquilo nunca acontecera antes. Por que seu coração disparava quando ele tocava o garoto? Quando aquilo começara a acontecer? Quando Alfred era mais novo e ainda estava sob a sua responsabilidade, Arthur nunca sentira isso. Quantas vezes não dormira com ele porque o garoto estava com medo do escuro ou algo assim?
Então... por que agora?
Arthur sentou-se na cama, ao lado de Alfred. Seu corpo doía horrivelmente e ele não deveria estar andando ainda, mas sabia que não conseguiria dormir se não visse com seus próprios olhos o garoto vivo e bem. Arthur fitou-o longamente. Seria possível que... o que seu amigo disse fosse verdade? Será que... será que ele realmente amava Alfred de um jeito diferente do que ele havia imaginado no início?
Ainda tentando encontrar uma resposta para as perguntas que ecoavam em sua cabeça, Arthur inclinou-se e chegou mais perto do rosto do garoto. Ele era... muito bonito. O loirinho chegou ainda mais perto, sentindo o coração palpitar, estranhamente nervoso. Seus lábios tocaram a bochecha macia e suave de Alfred, em um beijo inocente e rápido. Suas bochechas tingiram-se de um delicado tom de vermelho. Seu coração batia com tanta força agora que chegava a doer.
Arthur levantou-se e saiu apressado, aos tropeços pelo corredor. Rapidamente retornou ao próprio quarto e jogou-se na cama, ainda sentindo o coração batendo contra a garganta. Ele se enfiou embaixo dos lençóis, sibilando de dor quando a adrenalina baixou e ele sentiu os efeitos do excesso de movimento em seu corpo ferido. Sua cabeça estava uma confusão maior ainda depois de ver o garoto.
Bom, mas ele parecia bem. Alfred era forte e deveria estar quase novo depois de poucos dias. A ideia tranquilizou Arthur, que se acomodou melhor em seu leito. Ele ainda não sabia o que faria agora. Não sabia o que aconteceria até aquela guerra terminar. Mas Alfred dormia a salvo em um quarto próximo e aquilo lhe pareceu suficiente.
Foi com esse tipo de pensamento ingênuo que Arthur adormeceu, sem saber que poucos meses depois a segunda guerra mundial terminaria na Europa e outra guerra começaria. Na verdade, essa guerra já tinha começado, mas poucos haviam percebido. A ordem multipolar que Arthur e Francis mantiveram todos aqueles anos seria destruída e a Europa, em ruínas, assistiria o mundo se tornar bipolar e fecharia seus olhos, assim como Arthur fechou os seus naquela noite e adormeceu.
Notas finais
Bom, apenas esclarecendo. A história do brasileiro que o Luciano conta nesse capítulo aconteceu mesmo. Só coloquei o Luciano no lugar do nome verdadeiro do militar porque sei lá, vai que alguém se ofende, né? Mas coloquei porque achei muito interessante como acontece esse tipo de coisa nas guerras. Sei lá, tem muito mais do que nos contam nos livros de escola xD
Como podem ver, estamos dando adeus à segunda guerra, estamos já nos meados-fim de 1944. Essa história é um tanto grande, como bem observou a Bia ( oiii bem vinda xD) eu sou doida de tentar contar desde o começo a historia de uma nação kkkkkk
Bem, já aproveitando, agradeço às maravilhosas pessoas que me deixaram reviews!Labi, Zien,Ju, Lirium, Sara, Cath e Bia! o/ Bem vindos ( temos gente nova nos reviews ) e Obrigada por ainda não terem desistido ( aos meus veteranos lindos xD) Enfim, obrigada mesmo, meeesmo! Irei imediatamente responder seus adoráveis comentários! beiijo ^-^
Fale com o autor