Bouina

5 CAPÍTULO 05


O primeiro raio de sol atravessava as frestas das tábuas finas, pintando o chão de luz amarelada. O ar ainda trazia o frescor úmido da madrugada amazônica; denso, impregnado do cheiro de terra molhada, folhas verdes e fumaça de lenha. Brisa despertou com o som ritmado dos pássaros chamando o dia e o murmúrio distante do rio, que nunca dormia.

Ela demorou alguns segundos para lembrar de onde estava. O coração bateu mais rápido e as perguntas ainda latejavam em sua mente. Ela se lembrava bem das vozes, dos gritos e da sensação de que algo invisível a rondava.

Virou-se na cama, apertando o pano fino que usava como lençol. O vento que entrava pela janela balançava as franjas do mosquiteiro e fazia ranger levemente o telhado. Do lado de fora, o cheiro de café torrado e beiju quente a chamava de volta à realidade.

Na cozinha, a mãe já estava de pé. Marina mexia o café no bule de alumínio gasto, o corpo ligeiramente curvado sobre o fogo. O rosto moreno, marcado de luz e sombra, refletia serenidade, mas os olhos estavam cansados. Ela usava uma saia de algodão simples, um colar de sementes vermelhas e os pés descalços sobre o chão de madeira.

Brisa ficou um instante observando antes de falar. Sentia o peito apertado, como se o medo ainda estivesse ali, dormindo com ela, escondido entre as costelas. O coração batia rápido, ansioso, como se temesse que qualquer palavra errada despertasse algo que deveria continuar adormecido.

Os dedos brincavam com a barra da camisola simples de algodão, num gesto inquieto. O chão frio sob os pés descalços parecia pulsar junto com o nervosismo que lhe subia à garganta. Queria contar — precisava contar —, mas as palavras pesavam como pedra.

— Mãe... — a voz saiu baixa, quase um sussurro.

Marina levantou os olhos e sorriu.

— Bom dia, minha filha. Dormiu bem?

Brisa hesitou. Sentou-se num banquinho perto da mesa rústica, o olhar preso à fumaça que subia do bule.

— Eu... eu dormi, mas... — mordeu o lábio. — Mãe, eu preciso te contar uma coisa.

A mãe virou-se para ela, continuando a mexer o café, mas seu corpo pareceu endurecer levemente.

— O que foi, Brisa?

— Ontem... — a menina engoliu em seco. — Eu fui com a Alana até a beira da mata. A gente só queria brincar. — os olhos marejaram. — Queriamos testar se a lenda era verdadeira… Não pedi licença ao entrar.

O som da colher batendo no bule parou. O silêncio que se formou era quase palpável. Apenas o estalar do fogo se ouvia.

— Brisa... — Marina murmurou, virando-se devagar. — Você sabe que não pode fazer isso. Sempre conversei com você sobre isso. E se você irritasse a mata?

A menina baixou o olhar.

— Eu sei... mas eu achei que era só uma história. Uma daquelas coisas que a senhora sempre conta pra assustar a gente. Só que... — respirou fundo — Ouvi vozes, mãe. Vozes antigas. Parecia que vinham de trás de mim, falavam ao meu redor... e eu escutei a sua também. A senhora dizia que não queria virar Boiuna.

Marina empalideceu. A mão que segurava a colher tremeu levemente.

— Foi real, mãe? A senhora tava lá?

— Boiuna... — repetiu num fio de voz, desviando o olhar.

— Foi a senhora? — insistiu Brisa, a voz trêmula. — E quem eram as pessoas gritando na mata? Aquele homem que parecia selar uma promessa, mãe?

— Não fale essas bobagens. Pare de falar besteiras, minha filha. Você sabe bem, que eu estive na festa. — Brisa percebeu que a mãe parecia querer fugir do assunto, pois os olhos a entregaram enquanto ela jogava as perguntas à mesa. Marina mantinha o olhar de assustada e parecia nervosa com o assunto.

— Eu juro que ouvi. Parecia real, mãe.

Marina respirou fundo, colocando o bule sobre a mesa. Serviu o café em silêncio, as mãos firmes, mas o olhar perdido. Brisa sentia o coração bater forte no peito.

— Ultimamente eu tô diferente, mãe. — confessou. — Eu sonho com coisas que parecem de verdade... tão de verdade que quando acordo, acho que ainda tô lá. Eu tô ficando maluca?

A mãe se aproximou, ajoelhando-se diante dela. Acariciou o rosto da filha, enxugando-lhe as lágrimas com o polegar. O toque era quente, mas havia algo de inquieto em seus olhos.

— Shhh... não fale mais essas coisas, minha menina. — A voz era doce, mas vacilante. — Você não tá maluca. Às vezes, os sonhos são reais. Mas não pense mais nessas coisas, nada disso é real.

— Então por que agora, mãe? — perguntou Brisa, os olhos arregalados. — O que há de errado comigo?

A mãe desviou o olhar, fitando a janela, onde o sol já começava a brilhar sobre as copas altas.

— Tem coisas que a gente não deve questionar, Brisa.

— Mas por quê? — ela insistiu. — Por que a senhora nunca me conta nada? Toda vez que eu pergunto, a senhora muda de assunto! Que nem quando eu pergunto sobre meu pai! Quem ele é? Por que tem tanto mistério nessa casa?

Marina suspirou, o rosto tomado por um misto de tristeza e medo.

— Porque ainda não chegou a hora, filha.

Brisa chorava abertamente agora, o peito arfando.

— Eu tô com medo, mãe...

Marina a puxou para um abraço apertado, o cheiro de fumaça e tapioca se misturando ao cheiro dos cabelos da menina.

— Vai ficar tudo bem, meu amor. Eu prometo. Os ancestrais vão cuidar da gente. Eu vou dar um jeito pra que nada de ruim aconteça.

O abraço durou um tempo que pareceu eterno, mas quando Marina se afastou, havia algo decidido em seu olhar. Ela se levantou, ajeitou o pano na cabeça e olhou para a porta.

— Agora eu preciso sair. Tem coisas que preciso resolver.

— Vai pra onde?

— Só resolver algo. — O tom dela era firme demais para o que dizia. — Fica em casa, tá bem? Não sai pra floresta, nem chega perto da beira do rio.

— Mãe...

— Por favor, não questione mais nada! — A voz saiu cortante, um tom que raramente usava.

A menina recuou, calada. Marina respirou fundo e suavizou o semblante.

— Eu volto antes do pôr do sol. Prometo.

E saiu, a saia balançando contra o vento quente da manhã.

Brisa ficou parada no meio da cozinha, o som dos passos da mãe desaparecendo na ponte de madeira que interligava as casas do local. O bule ainda soltava vapor, e o beiju começava a esfriar. O silêncio da casa se tornou denso.

Ela olhou pela janela. A floresta, majestosa e misteriosa, parecia observá-la de volta. As árvores sussurravam algo que ela não compreendia, mas que a fazia arrepiar até o fundo da alma.

Brisa apertou as mãos contra o peito.

— Eu sei que ouvi você, mãe... — murmurou para o nada. — E sei que tem algo que não quer me contar.

Lá fora, um som ecoou, vindo da mata.

E pela primeira vez, Brisa teve certeza de que a floresta não tinha terminado de falar com ela.