Bouina

6 CAPÍTULO 06


Notas iniciais
Por favor, comente muito. Isso vai me ajudar imensamente. <3

Brisa sonhava.

No sonho, o rio sussurrava espesso, um som que vinha debaixo da correnteza. Vozes de mulheres que cantavam parecendo sibilar como uma cobra, chamando seu nome, puxando-a por dentro da mente. E então o som do remo partindo a água ecoou, misturado ao murmúrio do vento e ao cheiro de fumaça.

— Brisa...

A voz rompeu o sonho como um raio de luz.

Ela abriu os olhos em confusão, tentando se acostumar à penumbra do quarto. A lamparina na parede lançava sombras que dançavam sobre as tábuas. Marina estava à beira da cama com o rosto sério, envolta num pano branco que descia até os tornozelos. O tecido refletia a luz trêmula, como se fosse um reflexo da lua.

— Mãe...? — murmurou com a voz ainda rouca de sono. — O que houve?

— Levanta, filha. — Respondeu firme, sem espaço para perguntas. — Veste esta camisola branca. A gente precisa sair. — Marina depositou uma roupa em cima da cama.

Brisa ergueu o tronco sem se levantar totalmente da cama.

— Agora? Ainda tá escuro… aonde vamos a está hora, mãe? — Ela olhou pela janela: a madrugada ainda se agarrava à floresta, com o rio respirando baixo lá fora. — Você prometeu voltar cedo... — disse, num tom frágil, que misturava mágoa e sono.

Marina desviou o olhar, como se as palavras da filha pesassem.

— Me perdoe! Mas agora eu preciso que você se levante. Vamos acabar com este grande mal, minha querida.

O coração da menina se apertou.

— O mal...? — por um instante também cogitou a ideia de que sua mãe também estava ficando maluca. Mas não queria questionar sua mãe.

— Anda logo! Te espero lá fora, vou preparar o barco! — Respondeu levantando e saindo do quarto.

Brisa trocou de roupa, vestindo rapidamente a camisola branca. Se sentia extremamente insegura com o que iria acontecer naquela noite. Nada a estava preparando mentalmente para tudo o que viria.

Era descendente de uma tribo indigena Anhangá, e sua famíliaàs vezes levavam as superstições à sério demais. Por conta disso, preferiu fazer o que sua mãe pediu, mesmo que por dentro, sua mente borbulhava em perguntas e questionamentos.

Quando saiu do quarto, a mãe já estava pronta, segurando um lampião e uma cabaça amarrada por cipó.

Elas atravessaram a pequena varanda de madeira, e o som das águas batendo nas estacas ecoou baixo. O ar da madrugada era úmido e espesso, carregado de neblina e cheiro de rio. Um motor distante cortava o silêncio, e sapos coaxavam de algum lugar invisível.

Desceram pela passarela de tábuas estreitas que ligava a casa à beira do rio. A cada passo, Brisa sentia as tábuas tremerem sob seus pés descalços. O reflexo da lua oscilava sobre a água, transformando o caminho em algo vivo.

O pequeno barco esperava amarrado, balançando suavemente. Marina subiu primeiro e estendeu a mão. Brisa hesitou antes de aceitar.

— Pra onde a gente tá indo?

— Pra casa da tua avó.

Brisa engoliu seco. A casa da avó ficava um pouco adiante, onde o rio se alargava e as árvores pareciam se curvar sobre a água. A viagem foi curta, mas o silêncio entre as duas fez o tempo se arrastar. O som do remo cortando o rio parecia ecoar dentro dela.

Quando o barco encostou no trapiche de outra casa de madeira, Brisa percebeu que havia lamparinas acesas lá dentro. O cheiro de ervas queimadas flutuava no ar, misturado a um canto baixo, quase um lamento.

Assim que entraram, a cena a fez prender o fôlego!

A avó estava de pé no centro da sala, vestida também de branco. O cabelo longo, agora prateado, estava solto sobre os ombros. Ao redor, haviam várias folhas e ervas espalhadas pelo chão. A tia, irmã de Marina — mãe de Safira — balançava um chocalho feito de cabaça e sementes, o som seco ecoando em intervalos compassados.

Brisa olhou em volta, assustada. Safira também estava ali. Vestia um vestido preto de alças finas que parecia estar molhado. Seus cabelos pingavam em suas costas. Parecia que tinha acabado de sair do rio. Ela estava ajoelhada de costas para a porta, diante de uma bacia de barro cheia de água e folhas amassadas. Sua pele brilhava sob a luz da lamparina, coberta por respingos de ervas e cinzas e algumas partes do corpo pareciam conter escamas, como a pele de uma cobra.

— Mãe... o que tá acontecendo? — sussurrou, o olhar pulando de rosto em rosto. — Por que todo mundo tá vestido assim? O que houve com a Safira?

A mãe não respondeu.

A avó continuou mexendo nas ervas ainda presa no cântico antigo, murmurando palavras numa língua que Brisa não conhecia. A tia acompanhava o ritmo.

— Mãe, vamos embora… não gosto disso! — insistiu Brisa, a voz embargada.

Marina deu um passo à frente, segurando o braço de Brisa, a levando para o centro das folhas e a soltando. Pegou um punhado delas do chão e começou a andar em volta da filha. O corpo se movia num compasso lento e circular.

A avó andava em volta de Brisa junto à Marina, e as duas pareciam murmurar a mesma prece em vozes trêmulas, como se as palavras não pertencessem mais àquele tempo. O ar se tornava pesado com cheiro de ervas queimando, fumaça dançando no teto de palha, e um frio que vinha do chão, como se o rio todo as observasse.

Brisa, imóvel, sentia o coração bater em descompasso. As palavras soavam distantes, mas o corpo reagia, sua pele arrepiava e os olhos marejaram sem saber por quê.

— Perdão aos ancestrais. — Marina murmurava com a voz baixa, e a avó mantinha as preces. — Perdão pelas portas abertas, pelas vozes acordadas, pelas sombras que tocam o sangue.

Brisa olhava tudo atônita, completamente assustada. O som do chocalho parecia vir de todos os lados.

— Mãe, para! — sua a voz saiu trêmula. — Vovó! Tia… Safira. Vocês estão me assustando. Por favor, parem! Eu não entendo! O que está acontecendo?

Ninguém respondeu. Nenhum olhar se virou para ela. As lágrimas de Brisa desciam silenciosas, misturando-se ao suor frio que escorria por sua têmpora.

Safira aproximou-se em passos lentos, a cabeça baixa, segurando uma bacia de barro escuro entre as mãos trêmulas. O ar pareceu mudar de densidade e um vento súbito atravessou a casa, fazendo as velas oscilarem violentamente. Por um instante, quase se apagaram, e a escuridão cobriu tudo.

No breu, Brisa apenas sentiu o toque frio e pastoso sobre a pele; Safira passava o conteúdo da bacia em seus braços, no pescoço, no rosto. O cheiro era forte, de ervas amargas e ferro.

Então, as chamas voltaram a se erguer, trêmulas, devolvendo à cena uma luz fraca e dourada. Foi quando Brisa a viu.

O coração parou.

A pele de Safira parecia grossa e deformada, como se sob a luz revelasse o que o corpo tentava esconder. Escamas, reluzentes e úmidas, cobriam-lhe os braços. E por entre as escamas, a carne humana parecia se desprender, rachando, soltando-se como casca ou uma troca de pele.

Brisa recuou, o ar preso no peito.

— S-Safira...? — sussurrou, mas a voz mal saiu.

Quando os olhos da prima se ergueram, Brisa gritou.

Eram amarelos.

Totalmente amarelos. Nenhum branco, nenhuma pupila. Apenas um olhar reptiliano, vazio e impossível de ser humano.

E então Brisa percebeu o rosto da prima; metade ainda humana, a outra... negra como breu, coberta por escamas pequenas e brilhantes. A pele viva e a pele de cobra se misturavam num contraste impossível, como se a criatura lutasse para existir entre dois mundos.

O medo subiu por dentro dela como uma maré. Quis correr, gritar, fazer o corpo obedecer, mas algo a prendeu ali. Talvez o terror, talvez o mesmo feitiço que tornava o ar tão pesado.

Safira deu um passo para trás, ofegante, e as velas tremularam de novo. Brisa sentiu o chão girar, a visão ficar turva. As vozes em volta se misturaram, distantes, e o mundo pareceu se dissolver num véu de fumaça e vertigem.

— Perdão pelo que foi esquecido... pelo que volta.

A avó ergueu o rosto, os olhos fechados, e falou com voz rouca:

— Brisa, minha neta, peça perdão também. Os espíritos precisam ouvir tua voz.

Brisa estremeceu.

— Perdão? Eu não fiz nada!

— Fez sim. Entrou sem pedir licença. Tocou o que dormia. — A voz da avó soou grave, como se o vento falasse através dela. — O espírito não deve seguir-te mais. Mas a maldição não pode ser quebrada… O sangue chama, criança. O sangue sabe.

O chocalho voltou a bater, mais rápido. O coração de Brisa acompanhava o ritmo, disparado. Ela deu um passo atrás, mas o olhar da mãe a prendeu no lugar.

A pobre menina não entendia nada do que estava acontecendo. Tudo o que sua avó disse só a deixou mais curiosa com seu passado e também a fazia questionar sobre o que se tratava tudo o que estava acontecendo.

— Faz o que ela diz, Brisa — sussurrou Marina, com os olhos marejados. — Pede perdão.

As pernas de Brisa tremeram. Tudo pareceu girar novamente; o fogo, a fumaça, as vozes, o som do rio lá fora. O ar estava pesado, e o medo subia por dentro dela como se fosse água.

— Eu... eu não sei o que dizer... — murmurou.

A avó estendeu a mão tocando em seu rosto.

— Fecha os olhos e fala com o coração.

Brisa fechou. E, sem entender, murmurou o que conseguiu:

— Eu... peço perdão... se fiz algo errado... se desrespeitei os espíritos...

O vento soprou novamente. O rio pareceu responder com um som fundo, como um trovão distante.

Brisa observava tudo muito assustada e por um instante, achou ver uma sombra passando atrás da avó; alta e masculina, movendo-se como fumaça.

O chocalho parou.

A avó suspirou, exausta.

Marina se ajoelhou e abraçou a filha, apertando-a contra o peito. A menina sentia o coração de ambas bater como um tambor.

Ela não entendia nada sobre o que estava ocorrendo; o ritual, as palavras e o medo nos olhos da mãe.

O silêncio caiu sobre a casa quando o chocalho cessou.

O ar parecia espesso, quente demais para aquela hora da madrugada. O cheiro das ervas queimadas ainda pairava, misturado ao de cera derretida e breu.

A pele estava úmida, o coração batendo num compasso doido. Safira, ao seu lado, tinha o olhar perdido e o corpo coberto de folhas amassadas, pingando aquela água escura que escorria até o chão. Sua pele parecia ter voltado ao normal. Não completamente, mas o suficiente para parecer humana novamente.

Sem dizer uma palavra, a tia, mãe de Safira, aproximou-se com os olhos marejados, e cobriu Safira com um lençol branco.

— Vamos, minha filha... — murmurou, a voz embargada.

— Tia... Safira...

Mas ninguém respondeu.

Lídia passou por ela como se não a visse, abraçando a filha e levando-a para fora da casa, os passos lentos, pesados, como quem carrega mais do que um corpo, um fardo.

A porta bateu.

E então, tudo ficou quieto demais.

Foi quando Marina caiu de joelhos diante dela.

O choro veio primeiro como um soluço contido, depois virou desespero. As mãos tremiam, agarradas à barra da camisola da filha, os olhos cheios de culpa e dor.

— Me perdoa, minha menina... — ela dizia entre lágrimas. — Me perdoa, Brisa... Eu devia ter contado antes...

Brisa recuou, assustada.

— Contado o quê, mãe? O que está acontecendo?

Antes que ela pudesse se aproximar, a avó agarrou Marina pelo braço e a puxou com força.

— Chega! — gritou, arrastando-a para fora da casa. — Isso é culpa sua!

Brisa ficou parada com o coração disparado, ouvindo a voz das duas se elevando do lado de fora. O som do rio misturava-se ao eco da briga, como se o mundo inteiro prendesse o fôlego para escutar.

— É sua culpa, Marina! — rugia a avó. — Se você tivesse falado com ela desde o começo, isso não teria acontecido! Ela tem o direito de saber de onde vem! Tem que saber o que somos!

— Eu não quero que ela saiba! — respondeu Marian, a voz embargada pelo choro. — Ela não precisa desse peso!

— Peso?! — retrucou a mãe, furiosa. — Você chama de peso o que é nossa origem? Nosso sangue? Você acha que fugir muda o que corre dentro das veias dela?

Marina balançava a cabeça, os olhos fechados, lágrimas escorrendo.

— Eu nunca quis isso pra minha filha. Eu lutei pra tirá-la disso! Pra que ela tivesse uma vida normal!

— Normal? — a avó gargalhou, amarga. — E foi por isso que veio aqui? Para pedir ajuda da família que você diz desprezar? A mesma que você só faz negar o passado?

O silêncio caiu por um segundo. Era o tipo de silêncio que queimava.

Depois, Marian respondeu, a voz rouca, ferida:

— Eu vim por ela, mãe. Porque eu senti que ela estava em perigo. Só por isso.

— Pois então. — retrucou a avó, a voz mais baixa, cansada. — Se não quer que a gente se meta, por que veio buscar o que é nosso?

As duas ficaram frente a frente — mãe e filha — chorando sob a luz fraca da lamparina que tremia com o vento do rio.

E então Marina virou o rosto, enxugou as lágrimas com o dorso da mão.

— Não quero mais saber de nada disso. Nem de rituais, nem de espírito, nem de maldição. Brisa é minha filha. Só minha. E ninguém vai tirar isso de mim.

— Mas o sangue dela já foi chamado... E você sabe o que você fez…— murmurou a avó, em tom quase profético.

Marina se virou bruscamente.

— Chega! Nunca mais se meta em nada da minha vida. Nem na dela.

Entrou na casa com passos duros. Brisa, que até então ouvia escondida atrás da parede, estremeceu quando os olhos da mãe a encontraram.

Havia reprovação e no olhar um pedido mudo de silêncio.

Marina segurou a filha pelo braço, firme, mas sem violência.

— Vamos pra casa.

Nenhuma das duas falou no caminho.

Brisa não sabia como processar todas as informações da noite. Safira, sua mãe e todo aquele ritual.

O barco seguia cortando o rio, ambas ouviam apenas o som da água batendo contra o casco e o coaxar distante dos sapos. O vento trazia cheiro de lama e folhas úmidas. Brisa olhava para o reflexo da lua que se desfazia cada vez que o remo tocava a água e tudo nela parecia se desfazer junto.

Quando chegaram, Marina amarrou o barco com as mãos trêmulas.

O céu já clareava de leve, e os primeiros cantos de pássaros anunciavam o amanhecer.

Antes de entrar, ela virou-se para a filha.

— Vai dormir, Brisa. Agora tá tudo bem. Amanhã a mamãe promete que iremos conversar sobre tudo.

Brisa não acreditou, mas assentiu. Caminhou para a casa sentindo o corpo leve e pesado ao mesmo tempo. No quarto, tomou um banho de bacia aquecida e deitou-se em sua cama olhando para o teto. A cabeça latejava.

O cheiro de ervas ainda estava em seu cabelo, e em seus ouvidos as palavras da avó não paravam de ecoar:

“O sangue dela já foi chamado...”

Ela ficou ali, deitada, olhando para o nada, enquanto o som do rio embalava a noite que ainda resistia.

Brisa não conseguiu dormir.

Porque sabia, lá no fundo, que alguma coisa tinha mudado.

E que nada mais seria igual.