Both Sides Of A Mask.
2 The decision.
O corredor principal do submundo estava um pouco agitado hoje. Era alto e largo o suficiente para não atrapalhar na minha passagem. Era pouco iluminado, havendo apenas algumas tochas. Mais a frente havia algumas salas para determinados demônios, ou seja, para os que mantinham a organização do submundo, melhor dizendo. A sala do Major era a maior dentre eles, porém, é claro, a maior sala mesmo daquele corredor inteiro era a de meu pai, o Senhor do Submundo, Satan. A famosa “Sala do Julgamento”, era lá onde ele decidia quais almas permaneceriam no inferno e quais dela seriam jogadas no purgatório.
O porquê de toda esta confusão? Você nem deve imaginar, mas na verdade é bem simples: estávamos em guerra contra as criaturas divinas, os famosos arcanjos, deuses e anjos. Para ser sincero, esta guerra foi iniciada por culpa deles, que sempre tentam tomar o poder de tudo, inclusive de quem entra e sai daqui. Eles impõem regras sobre nós, e se não obedecermos, receberemos a tão conhecida “punição divina”. Isto, em minha opinião, é sem dúvida alguma uma coisa ridícula.
- Nightwalker, todos estão a sua espera na sala superior de reuniões. — Havia guardas por todos os cantos daquele lugar, e isto estava começando a me irritar. Jamais um arcanjo colocaria os pés aqui, pra que tantos guardas amontoando os corredores?
- Eu sei disto, não precisa me dizer o que fazer. — Ele estava prestes a me dar caminho para passar, mas eu estava tão irritado com toda esta situação que nem dei a chance dele fazer isto. Segurei o seu ombro direito com uma de minhas mãos e o empurrei contra a parede, pressionando o braço todo contra seu pescoço- Acho melhor você dar um jeito de livrar esses malditos corredores de guardas inúteis, senão as coisas por aqui ficarão bem piores do que já estão.
- D-D-Darei um jeito nisto rapidinho! — O olhar de gato assustado dele me fez rir. Livrei seu pescoço e dei as costas, podendo ouvir os passos apressados dele indo à direção contrária.
- Patético, tsc.
Chegando a frente das grandes portas da sala superior, sequer pedi permissão para entrar. Nunca fui muito fã de formalidades, para falar a verdade. Empurrei-as para frente sem muito esforço, mesmo que elas fossem gigantescas e pesadas, adentrando o local.
No centro da sala havia uma mesa redonda, e esta estava cheia de demônios e Deuses do submundo sua volta. Todos os generais, tenentes, subtenentes e todo aquele bando de velhos babacas estavam discutindo sobre o plano de infiltrarem-se na terra, para tentar acabar com o plano dos arcanjos, que até então era um mistério para todos nós.
- Precisamos de algo que seja destrutivo o suficiente para derrotá-los em um só golpe, porém discreto. Não podemos chamar à atenção de nenhum arcanjo. Devemos escolher o demônio mais forte para completar esta missão. – Disse Beliar, com a sua voz áspera e grotesca.
- E você acha que vai ser tão fácil assim, Beliar? Um só golpe seria pouco para aqueles malditos, que possuem um arsenal tão forte quanto o nosso. Temos condições de matar vários deles, da mesma forma que eles possuem a mesma condição de nos matarem. Enviar uma única pessoa para essa missão é sem dúvida alguma um grande erro. – Retrucou Azazyel.
Até então nenhum deles havia notado minha presença ali, aparentemente o único que o fez foi meu próprio pai.
- Nighwalker, você está atrasado. – A sua voz afiada ecoou em toda a sala, e seu olhar com sede de sangue chocou-se contra o meu. Nada respondi, apenas caminhei em direção à mesa e sentei-me no assento que estava livre, ironicamente ao seu lado. O mais estranho é que nenhum de seus subordinados era seu braço direito, ele escolheu a mim para assumir tal cargo.
Ainda assim, faltavam duas pessoas importantes: Anubis e Fenrir. Anubis o Deus da Morte egípcio e Fenrir o lobo mostruoso da mitologia nórdica, o próprio filho de Loki, e segundo meu pai, ambos tinham grande importância na reunião de hoje.
Alguns minutos se passaram até que os dois ultrapassassem a porta principal. Entraram em silêncio, observando tudo a sua volta, como se achassem o nosso submundo um lugar inferior ao deles. Isto era algo que realmente me incomodava às vezes.
- Anubis. Fenrir. Bem-vindos. – Os dois fizeram uma reverência breve e dirigiram-se em nossa direção
Anubis fechou os olhos e deixou uma pequena risada escapar dos lábios, mas Fenrir continuou em silêncio, com o olhar focado em mim. Algo me dizia que já estava tudo planejado e o único que estava literalmente por fora era eu.
Alguns minutos depois...
- A ideia de enviarmos Nightwalker para a terra não é ruim, porém é como Azazyel disse, temos de ser minuciosos e silenciosos. — Disse meu pai com um tom de voz firme e grave. Todos os soldados, tenentes, generais e tudo mais, olharam para ele como se pudessem depositar toda a confiança deles em cima de mim. Hmpf, velhos podres. Cruzei os braços e franzi o cenho, percorrendo o olhar por todos aqueles demônios fétidos e nojentos.
- Minha opinião continua fixa. Ainda acho que deveríamos mandar alguém junto com ele para a Terra. – Retrucou Azazyel.
Meu pai virou o olhar em sua direção, como se tentasse fazê-lo queimar apenas com seus olhos – Muito bem. Os únicos acompanhantes de Nightwalker serão seus machados. – Seu olhar fora direcionado para mim – Contamos com você, e não admitirei falhas. Caso contrário você sabe muito bem o que irá acontecer. Antes mesmo de pensar em abrir os olhos eu já terei o transformado em cinzas.
- Mas senhor... – Antes mesmo de Beliar terminar a frase suas entranhas já decoravam toda a sala. Em um único movimento com a mão direta, Satan explodiu seu corpo. Ninguém ficou surpreso com o ocorrido, porque todos sabiam que ele poderia revivê-lo a qualquer momento, e certamente o faria, pois precisaria de Beliar.
- Mais alguém? – Todos o olharam um tanto receosos. Por fim, moveram a cabeça negativamente. – Reunião encerrada.
Fui o primeiro a levantar e dar as costas, e Anubis e Fenrir acompanharam meus passos logo em seguida. Abri a porta e antes de fechá-la pude ouvir meu pai chamando-me.
- Nightwalker.
Apenas parei de caminhar e respondi indiferente – Sim?
- Não me desaponte. E lembre-se: esconda sua identidade, você não poderá andar com sua forma original de um Lobisomem robusto com um crânio e chifres por aí. – Após isto, fechei a porta e me dirigi aos corredores.
Anubis e Fenrir me seguiram, e algo me dizia que eles sabiam de todo o plano sobre eu estar encarregado de vigiar os Arcanjos na Terra.
- Vocês estão por trás disso, não é? – Permaneci caminhando pelos corredores, de costas para os dois.
- Por que está tão desconfiado, Nightwalker? – Retrucou Anubis, como sempre – Mesmo nossos corpos tendo tornado-se seus machados, você continua agindo desta maneira.
Suspirei.
Era verdade, eu lutei para obter os restos mortais dos dois para poder forjar os meus machados. Mas ainda assim eu não conseguia confiar nos dois plenamente.
- Você deveria parar com isto. – Sussurrou Fenrir, com um tom sarcástico.
- Se eu fosse menos desconfiado já estaria morto há muito tempo. Enfim, eu não vou ficar perdendo meu tempo com vocês, mas a ideia de que vocês dois estejam por trás disto tudo não vai mudar. Vocês fizeram um acordo com Satan para que eu fosse mandado em missão para a Terra. – Nada disseram.
Eu desconfiava, e com razão, afinal... Eles são Deuses. E assim como todos os Deuses, eles também são trapaceiros.
Em menos de 5 minutos eu já estava de frente à porta de meu quarto. A porta era de aço e muito pesada, além de possuir uma altura considerada muito alta. Bom, meu corpo é grande e largo, então uma porta maior de 5m de altura por 4m de largura era necessária.
Adentrei o quarto e fechei a porta em seguida. A minha esquerda ficava minha “pequena” cama, e era o único móvel que eu possuía dentro do quarto, eu não precisava de mais nada além dela e o seu colchão. A iluminação era um pouco precária, por causa das tochas, algo que não me incomodava muito.
Dando mais uns passos a minha direita, eu havia um pequeno arsenal, tendo meus dois machados pendurados acima deste na parede. Os observei por alguns segundos, indo em direção a eles e os retirando dali.
- Confesse Nightwalker, você quer embebedar os seus machados com o sangue divino dos Arcanjos. Não só você, mas eles também sentem a mesma necessidade. – Anubis e Fenrir sussurraram em uníssono.
Deixei uma pequena risada escapar de minha garganta, os encarando com o canto dos olhos – Talvez. – Girei ambos os machados uma única vez e empós os segurei com força.
Saí de meu quarto e o fechei, indo em direção a sala de meu pai outra vez. Ironicamente era lá onde havia o portal para o mundo mortal.
Ninguém poderia sair deste inferno, literalmente, a não ser com a permissão dele. Mas eu conhecia outros caminhos para poder chegar a Terra, porém muito mais perigosos.
Em mais alguns minutos de caminhada pelos corredores mal iluminados do submundo cheguei ao meu destino. Empurrei a porta gigantesca novamente e adentrei o local. Meu pai estava sentado em sua cadeira ainda, mesmo com a mesa de reuniões vazia.
- Pensei que você havia coisas melhores para fazer do que ficar sentado aí.
- Estava esperando você. – Sua voz ecoou em toda a sala, em um tom agressivo. Suspirei e dei mais alguns passos em sua direção, o encarando em silêncio.
- Preste a atenção, pois só direi isto uma única vez. Você sabe que esta não é a primeira vez que temos problemas com aqueles malditos Arcanjos. Todos eles são problemáticos, e você sendo o nosso guerreiro mais esperto, eu espero que não acabe caindo nos truques de nenhum deles. – Ele fez uma pequena pausa, respirando fundo. Em seguida apoiou ambos os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos e cobrindo parte da face com suas mãos, olhando fixamente para mim — Se isto acontecer não haverá mais volta. Considere-se, literalmente, morto. Não terei piedade alguma de destruir você. Seja esperto.
- Acho que você esqueceu com quem está falando, Satan. – Não pude evitar, acabei deixando uma gargalhada um tanto alta sair de minha garganta.
Bem no centro de sua sala, a esquerda da mesa onde ele estava, havia um símbolo desenhado no chão. Dei alguns passos até ali, esperando para ser transportado para o mundo dos mortais. Com um único gesto, meu pai fez com que todo o chão sob meus pés emanassem uma luz extremamente forte, que fez com que eu fechasse meus olhos.
Quando os abri novamente, já não estava mais naquele maldito lugar. Percorri os olhos por todo o local, tentando reconhecer alguma coisa, mas sem sucesso. Aparentemente era uma praça mal habitada.
-Hm? — Ouvi alguns sussurros atrás de mim e quando virei o pescoço para ver, eram humanos me olhando como se suas vidas estivessem para acabar em questão de segundos. Foi quando me dei conta de que ainda estava na minha forma original – “Droga...”.
Todos eles saíram correndo desesperados, adentrando as ruelas que havia ali por perto.
Finalmente, eu estava na cidade dos Arcanjos, a tão conhecida Winterwinds, a cidade dos bons ventos.
Mas acredito que ela não será a cidade dos bons ventos por muito tempo a partir de agora.
Notas finais
Espero que gostem. Boa leitura. :3
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