Born to Die
11 With Strangers
Notas iniciais
– Alvo –
I keep pretending not to care
but the winter scent in her hair
compels my hands to do
the things my heart wouldn't dare
[…]
this shadow suits me well
my regrets, I'll face in the end
– Al? – Uma voz interna me acordou.
Confuso, fui retomando a consciência. O chiado me fez abrir os olhos.
– Alvo? – Em um principio de pânico eu comecei a considerar minhas alternativas. Pelo menos duas delas envolvia a possibilidade de eu estar enlouquecendo.
Só depois de um minuto inteiro me lembrei do que estava preso à parede interna da minha orelha: o micro comunicador mágico que Hugo e eu havíamos comprado na nossa ultima visita a Geminialidades Weasley e do qual vínhamos utilizando com alguma frequência na ultima semana.
– Oi. – Sussurrei zonzo, observando Barnaby roncar alto ao meu lado. Com o canto do olho, observei o relógio de mesa. Uma da manhã em ponto.
– Dawson acaba de sair da sala comunal.
Isso me fez pular da cama e tatear pelo chão a procura da minha capa.
Não tenho ideia de como me calcei ou corri tão rápido a ponto de conseguir alcançá-la ainda nos jardins. Dawson usava uma capa preta com capuz e se movia a passos rápidos e determinados em direção à Floresta, seguida de perto por um bicho peludo que eu estava na duvida sobre ser ou não um gato.
Seja lá o que ela estava pensando em fazer, parecia ser uma decisão movida por medo ou impulso. Nenhuma outra coisa justificaria uma garota inteligente executando um plano tão ruim, tão mal elaborado e tão passível de descoberta: existia uma enorme chance de algum professor — ou Hagrid — vê-la, e isso resultaria, no mínimo, em uma detenção gigantesca.
Não que eu me importasse. Eu só estava conjecturando enquanto a seguia.
A medida que fomos adentrando na floresta e ficou evidente que eu finalmente descobriria alguma coisa sobre o que ela estava escondendo, a curiosidade e o prazer de constatar que eu estava correto e que havia motivo para suspeita foram sendo gradualmente substituídos por uma letargia e a sensação de impotência.
O que quer que eu visse, não mudaria o fato de que Ethan estava morto. Alem do mais, nesse momento em que o afã de computar a culpa a alguém começava a ceder a outros sentimentos, eu percebi o quão triste seria se Isobel de fato tivesse algo a ver com a morte do meu colega de quarto.
No desespero para ter uma diretriz na qual me apoiar eu havia concentrado todas as minhas suspeitas nela. Agora, tudo parecia vazio e desprovido de sentido. Se Dawson fosse de fato culpada, não haveria orgulho nenhum da minha parte em dizer que eu já havia deduzido isso. Justo no momento em que estava chegando a essa conclusão, Isobel parou bruscamente. Eu estava tão absorto nos meus pensamentos que acabei tropeçando. Ela se virou, assombrada. Seus olhos pareciam que iam saltar das órbitas. Seu peito subia e descia em um ritmo anormal de tão acelerado e eu tive medo de que fosse causar algum tipo de colapso nervoso nela.
– Quem está ai? — Apesar de aterrorizada, sua voz só falhou no final. Eu a admirei por isso. Apertando firmemente a varinha com o punho direito, lágrimas grossas começaram a rolar pelas bochechas altas.
O gato (agora eu tinha certeza que era um, daquela espécie peluda chamada “norueguês da floresta”, o que era quase irônico a visar a situação) me encarava como se pudesse me ver através da capa. Ele parecia estar esperando para ver se eu teria a decência de me revelar ou se ele teria que fazer esse trabalho por mim. Dei um passo para frente, desestabilizando-a a ponto de ela gritar meia dúzia de feitiços, todos emitidos corretamente e com um grau de perfeição na pronuncia que eu só observava nos professores. Por isso a minha surpresa ao constatar que todos eram igualmente inúteis. A cada encantamento em latim que ela vociferava, sua varinha a respondia apenas com estalos e chiados preocupantes.
Soluçando, ela recuou três passos, indefesa e amedrontada. Eu senti uma vontade desesperada de protegê-la de mim mesmo. De pedir desculpa. De abraçá-la até que ela se acalmasse.
– Por favor. — Ela implorou com a varinha ainda estendida e presa ao seu pulso tremulo. O gato me encarou mais uma vez, agora impaciente. Devagar, sem nenhuma vontade e transbordando de vergonha, eu retirei a capa. Os olhos gigantes de Isobel precisaram de segundos inteiros para assimilar o que viam. Ela deixou cair a maleta que vinha carregando e três livros rolaram pela neve.
– Me desculpe. — Eu pedi, abaixando-me prontamente para ajudar. Se Dawson me ouviu, não demonstrou nenhum sinal disso. Rapidamente recolheu os próprios pertences, abraçando-os junto ao peito. Eu não precisava ser muito esperto para entender que o propósito dela era escondê-los. Também não foi difícil deduzir que era naqueles livros que se encontravam as provas que ela nos cedera na reunião.
Por não saber o que fazer, recolhi a pasta e a estendi. Dawson continuou estacada, me encarando.
– Eu sinto muito mesmo. — Murmurei. Então ela me olhou de um jeito que fez meu estomago embrulhar. Parecia que eu havia acabado de molestá-la.
Ela me odiava naquele momento.
Eu entendi o que aquilo significava e quão profundamente eu havia ferido a privacidade dela. Eu nunca me senti tão sujo ou tão idiota.
– Eu não vou contar para ninguém sobre você. Sobre você ser... — Gaguejei, vacilando por entre as palavras, preso no curto espaço entre o arrependimento e a culpa.
– Um aborto. — Ela concluiu, com naturalidade. — Eu não preciso da sua pena. – Sibilou, puxando a mala da minha mão, guardando seus pertences novamente.
– Não é pena. – Afirmei com sinceridade e algo no meu tom fez com que ela me encarasse de novo. – Eu não sei o que dizer. Não tenho nenhuma justificativa razoável. Sabia que você estava escondendo algo e supus que tivesse relação com a morte de Ethan. Eu nunca tive a intenção de assustar ou expor você.
– Ainda assim, você conseguiu ambas as coisas. – Recuperada, ela começou a andar de volta para o castelo, desistindo do plano inicial.
– Isobel, espere. – Eu pedi, seguindo-a – Por favor. É perigoso.
Ela me abriu um sorriso sarcástico, antes de continuar a andar, pisando com força demasiada nos montes de neve que se estendiam pelo caminho.
Acima de nós, a copa das arvores projetava sombras longas. O uivo do vento, a neve caindo, o frio desolador e os trechos de passagem enlameados ajudavam a formar um cenário ótimo para ter calafrios.
Julguei ter escutado algo alem do vento e meu coração saltou de medo. Isobel me olhou, novamente assustada. O gato chiou para o nada e então, sem esperar permissão, me aproximei deles e nos cobri com a capa.
Nós dois ficamos a poucos centímetros de distancia um do outro. A respiração de Dawson estava tão desregulada novamente que nossos bustos se encostavam toda vez que ela inspirava.
O som aumentou e finalmente podemos reconhecer a batida de cascos. A poucos pinheiros de distancia, um centauro passou trotando. Ainda em silencio, esperamos ele estar a uma distancia aceitável antes de voltarmos a andar em direção ao castelo, agora lado a lado. Atrás de nós, o gato espanava o rabo peludo pela neve, apagando nossas pegadas.
Isobel permaneceu em silencio o tempo todo, mas não fez mais nenhuma menção de andar longe de mim ou de sair debaixo da capa, o que me pareceu positivo o suficiente. Eu a levei até a pilha de barris na ala direita do corredor das cozinhas. Sabia que a entrada para a sua sala comunal ficava escondida ali em algum lugar e queria me assegurar de que ela estaria em segurança.
– Boa noite. – Eu disse quando ela se moveu para a direita, desvencilhando-se do tecido.
– Boa noite. – Respondeu, sem me encarar.
Eu senti um impulso de segurar sua mão e discursar uma hora inteira sobre como eu estava arrependido de tê-la julgado mal, do quanto eu queria oferecer ajuda para esconder os livros caso ela precisasse e como eu estava disposto a fazer qualquer coisa para ajudá-la e para me redimir. Também queria expor minha preocupação sobre como sua incapacidade mágica fazia com que ela corresse mais risco do que qualquer um do grupo. Queria pedir para ela dormir com uma faca debaixo do travesseiro ou qualquer coisa assim. Mais do que isso, eu queria fazer vigília na frente daqueles barris até que tudo se normalizasse. Ao invés disso, eu esperei ela fazer a passagem para dentro da sala através de um dos barris e segui de volta para a torre da Grifinória, consciente de que eu não conseguiria dormir um minuto sequer.
Essa foi a primeira das muitas noites que eu passaria acordado pensando em Isobel Dawson.
Se eu fosse um pouco mais sincero comigo, teria percebido naquelas horas de silencio absoluto antes do sol nascer, o quanto eu havia cavado um caminho sem volta em relação àquela garota.
Na manhã seguinte, fui o primeiro a levantar da cama e me arrumar.
No salão principal, tomei o meu lugar de sempre e não consegui me acalmar até avistar Dawson na mesa da lufa-lufa. Perceber que ela estava bem me restituiu a fome inexistente até então e enquanto eu tomava meu suco de abobora, fui assaltado por uma ideia.
Uma péssima ideia, mas, ainda assim, uma ideia.
– Você por acaso tem algum pedaço de pergaminho aí? – Perguntei a John, que estranhou o pedido, mas vasculhou os bolsos mesmo assim, tirando um pedaço surrado de pergaminho de um deles.
– Obrigado.
– Eu deveria perguntar por que você está com essa cara de descompensado?
– Melhor não.
Encantando minha pena, escrevi um bilhete e o fiz voar baixo até seu destino final.
Com os olhos fixos no meu prato e a pulsação acelerada de ansiedade, ignorei o olhar de interrogação de Ingram.
– Dawson está olhando para cá? – Inquiri.
– Sim.
– Ela parece brava?
– Não sei.
Isso me fez esboçar um sorriso involuntário. “Não sei” era definitivamente melhor que “sim”.
– O que tá acontecendo, Al?
– Nada. – Disse com pressa, me levantando na mesma velocidade e deixando meu café da manhã pela metade para trás.
A minha ideia inicial era passar na enfermaria para ver James. Ele finalmente seria liberado e eu queria vê-lo antes das aulas e também pedir sua vassoura emprestada, mas desisti no meio do caminho ao perceber que ele notaria que algo estava acontecendo e me atormentaria para descobrir o que era. Portanto, decidi fazer pela primeira vez o que ele vinha fazendo comigo desde que nasci: peguei sua nimbus clássica emprestada sem pedir e a guardei debaixo da minha cama, para uso posterior.
As aulas e as horas nunca pareceram tão arrastadas. Eu fiquei agitado o dia inteiro, rabiscando desenhos de vassouras, editando minhas falas e me preparando psicologicamente paro o caso das coisas não saírem como planejado.
Ás 19, eu estava no centro do campo de quadribol, sozinho, suando em bicas mesmo com o frio desgraçado que estava fazendo. Trinta minutos depois, Isobel chegou. Eu não precisava conhecê-la para saber que ela havia ponderado durante todo o atraso se deveria ou não atender meu pedido.
E embora eu quisesse, eu não esperava que ela fosse aparecer de verdade. Vê-la caminhando em minha direção me deu uma súbita vontade de correr na direção contrária.
– Oi. – Eu disse, incerto se essa era a melhor palavra. “Hey” parecia muito casual e “olá” era formal demais. Eu nunca tinha refletido sobre essas coisas antes e minhas mãos agora estavam molhadas de nervosismo.
– Oi – Ela disse de volta.
– Obrigado por vir.
– Não agradeça. Se eu fosse um pouco mais inteligente, não estaria aqui.
Tive o senso de corar antes de estender o braço, mostrando o caminho para debaixo das arquibancadas. Isobel me seguiu sem objeções. Era escuro, mas a temperatura ali estava um pouco mais agradável do que se estivéssemos expostos à neve que caia sobre o campo. Foi inevitável pensar que eu estava com uma garota, no local preferido dos alunos para usar poções alucinógenas e chegar à segunda base em encontros.
– Eu só queria pedir desculpas. – Me adiantei, me sentindo patético.
– Você já pediu – Me lembrou, impassível.
– Eu sei. Eu gostaria de pedir de novo. – Dessa vez, não desafinei. – Me desculpe Dawson. A última quinzena vem sendo um inferno. Eu não tenho inteligência emocional para lidar com a sequência de eventos bizarros que vem acontecendo, mas isso não é desculpa para agir da maneira que agi. Suspeitar de você foi a única maneira de me manter concentrado em outra coisa que não fosse a lembrança de Ethan quebrado no meio da neve. Alem do mais, você é desconcertante para mim em níveis pessoais, então eu acho que misturei tudo. – Não consegui manter os olhos nela. Eu queria que ela entendesse quão difícil para mim era me expor assim e esperava que isso compensasse um pouco a noite anterior. – Com o acidente de James eu apenas... Surtei. Nós não somos próximos, na maior parte do tempo eu gostaria de não conhecê-lo, mas ele é meu irmão. Eu o amo.
– Tenho irmãos. Sei como é. – Ela contou, olhando para o chão. – Está tudo bem, Potter. – Avisou, abotoando o casaco para proteger-se do frio. – No seu lugar eu provavelmente teria feito o mesmo.
Eu a encarei, aliviado, e ela fez uma careta.
– Na verdade, não. – Admitiu. — Só estou sendo gentil.
– Obrigado, de todo modo.
Nós ficamos instantes em silencio, até eu não conseguir mais me conter:
– Os seus irmãos também não fazem magia?
– Fazem. – Ela explicou, sorrindo de uma maneira cansada. – Seth está no quarto ano. Ele é da sua casa. Jamie ainda não tem idade para estar aqui, mas apresenta os sinais comuns.
Eu olhei para ela e tentei imaginá-la com onze anos, sem cartas para Hogwarts, sem magias bobas em casa, sem os pais exibindo o que ela conseguia fazer para os amigos da família. Senti vontade de abraçá-la.
– Quando eu era pequeno, James me trancava no banheiro. — Eu não sei por que disse isso. Eu só queria mostrar as coisas que mexiam comigo. – Quando você descobriu que não podia fazer magia... Eu imagino que a sensação...
– Seja parecida. – Ela completou por mim, concordando.
– Eu sinto muito.
– Eu sei. Mas não é tão ruim quanto parece. Na verdade, com meu pai lecionando em Hogwarts eu pude entrar na escola. Minha grade curricular é diferente, mas meu maior sonho de infância foi preservado e concretizado. Não sei quantas pessoas tem a sorte de dizer isso. Na verdade, sei, porque tenho uma extensa pesquisa pessoal a respeito de pessoas que compartilham a mesma condição que eu. Sou uma pessoa privilegiada, Alvo. Meus pais não me escondem em casa. Eu tenho uma vida normal. Quanto à magia, no fim você se acostuma. Exceto quando alguém mata seu melhor amigo e começa a ameaçar pessoas que você conhece.
Eu pousei uma mão solidária em seu ombro e ela pareceu estremecer.
Nós ficamos nos olhando por um bom tempo até ela dizer:
– Eu estou bem. Ao menos, tão bem quanto qualquer um de nós pode estar nessa situação. Nesse tempo. – E encarando o céu por entre as tábuas de madeira, abraçou-se, esfregando as mãos nos braços para se aquecer. – Talvez você não saiba, mas existia a possibilidade de você ser legal lá dentro. – Ela apontou o castelo com o queixo, e eu fiquei tão feliz com o tom amigável de sua voz que me permiti sorrir. – Eu não guardo rancor, mas eu sinto frio.
– Ah, bom... Sobre isso... – Eu ofereci meu casaco e ela ergueu uma sobrancelha. De repente, meu rosto esquentou. – Eu só... Bom, eu pensei que talvez nós poderíamos dar uma volta. – Eu mostrei a vassoura que eu roubei de James. – Se você quiser, é claro. – Me apressei em acrescentar. – É que eu fiquei pensando a respeito e percebi que você só fez as matérias teóricas desde o primeiro ano. E eu queria fazer algo por você.
Isobel me fitou, divertindo-se com a minha cara.
– Você está flertando comigo?
– Eu acho. – Cocei o cabelo, envergonhado. – Um pouco. Sim. Merlin, quem fala “flertando”?
Ela riu pela primeira vez e isso fez com que eu sentisse um súbito frio na barriga.
– A garota com quem você está flertando fala. – Provocou, sorrindo.
Era quase obsceno que uma pessoa parecesse tão bonita.
Eu não poderia ficar mais desconcertado.
Apanhando a vassoura, eu passei uma fração de segundo olhando para a minha própria mão, antes de tomar coragem.
– Está dando certo? – Perguntei, olhando-a de esguelha.
Ela deu de ombros, sentando-se atrás de mim.
– É melhor do que me perseguir.
– Você vai precisar se segurar em mim. – Avisei, mudando de assunto porque não havia uma maneira de ficar mais envergonhado do que eu já estava.
– Isso é o que eu chamo de senso de oportunidade. – Alfinetou, enlaçando minha cintura. Eu não pude deixar de rir, antes de alçar voo. Isobel estava prestes a dizer algo, mas a medida que fomos ganhando altura, ela emudeceu, me abraçando com mais força.
– Tudo bem? – Eu virei o rosto para ela, a fim de checar.
– Tudo. – Murmurou assustada.
– Você quer descer?
Ela negou veementemente.
– Nunca fiz isso antes. – Admitiu. – Meus pais não consideram um meio de transporte seguro e eu não... Bem, eu sou inapta a dirigir uma vassoura.
Isso me fez parar. Deixei a vassoura planar e encarei Dawson por um longo tempo. Ela não desviou os olhos dos meus.
– Nunca fiz isso antes também.
– Isso o que?
Eu me imaginei beijando-a nesse instante. Imaginei como seria encostar os lábios nos dela, entrelaçar nossas línguas, ser um adolescente normal. Não havia nada que eu desejasse mais desesperadamente do que isso.
– Me exibir para alguém. – Minha garganta estava seca.
Isobel experimentou olhar para baixo e eu aproveitei a deixa para voltar a olhar para frente. Tive medo de que ela conseguisse escutar meu coração batendo de maneira doente. Eu era tão estúpido. Parecia tão claro agora que toda aquela raiva maquiada era só para me proteger e me manter numa zona de conforto...
Sobrevoei o campo umas quinze vezes, fazendo oscilações de altura propositais.
– Alvo? – Ela me chamou, quebrando o silencio.
– Sim?
– Será que nós poderíamos fazer uma finta de Wronski?
Se eu ainda tinha alguma duvida sobre a queda que eu estava desenvolvendo, ela sumiu nesse instante.
– Achei que você nunca pediria.
Enpinando a vassoura, ganhei velocidade e altura.
Eu adorava voar. Era inevitável com pais como os meus. Ted, James, Lily e eu éramos incentivados desde bebes. Não era como se meus pais quisessem impor gostos ou coisa assim, eles só julgavam que essa era a melhor fonte de diversão em família. E de fato era. Eu não conhecia sensação melhor na vida.
Entretanto, desde meu ingresso em Hogwarts, eu evitava ao máximo demonstrar isso em publico. Ser indicado ao time de quadribol da minha casa e ser ainda mais comparado com meu pai eram possibilidades que me faziam ter pesadelos. Eu vinha trabalhando ao máximo para ter minha figura completamente desassociada de Harry ou do meu avô. Não era como se eu tivesse algum problema com meu pai, eu apenas não conseguia lidar com a sombra sobre mim.
Mas então surgiu essa garota e toda essa vontade repentina de odiá-la, e logo depois de agradá-la e de mostrar quem eu era, e o que eu gostava, a necessidade de provar que ela podia confiar em mim...
E ali estava eu, voando cada vez mais rápido, só para sentir ela fechando ainda mais os braços em torno de mim. Meu coração rufou mais alto. Meu corpo era uma confusão de dopamina, endorfina e adrenalina.
– Agora. – Eu avisei a ela, um segundo antes de mergulhar em direção ao solo.
O vento gelado e cortante bateu com força em nossos rostos, fazendo as bochechas tremerem. O grito empolgado de Isobel se perdeu no ar e eu absorvi aquela lembrança, guardando-a com carinho. Quando pousei, Dawson rolou pela neve, rindo de nervoso e eu me deixei observá-la por um instante, antes de me sentar ao seu lado.
– Você quer tentar ir sozinha?
O riso parou e ela me encarou séria. Talvez emocionada.
Eu tirei a varinha do bolso. Um feitiço dessa proporção drenaria energia para caramba, mas eu não ligava. Isobel fitou a vassoura, visivelmente tentada. Eu fiz com que a Nimbus voasse em torno dela.
Com uma coragem que não costumo ter, segurei sua mão e fiz com que ela se levantasse. Em seguida, a ergui pela cintura, pousando-a no lugar de assento. Isobel fixou os pés nos apoios e eu tirei minhas mãos dela com o pouco de autocontrole que eu ainda tinha.
Daí eu a fiz voar e pelos dez minutos ininterruptos que isso aconteceu, eu me esqueci do luto, do medo diário e da raiva que eu vinha alimentando como um bicho de estimação.
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